Aimee McPherson: uma mulher de coragem no seio do pentecostalismo

Assessoria de Comunicação/CONIC

*Publicado originalmente no CONIC.

De um modo geral, estamos acostumados a associar o movimento pentecostal a líderes carismáticos homens: sempre de ternos, olhar sério e, por detrás deles, uma grande multidão a ouvir suas palavras. Parece até uma regra. E em muitos casos é mesmo, basta pensar, por exemplo, nas grandes denominações pentecostais e neopentecostais atuantes no Brasil.

Muito embora o papel das mulheres na história do movimento pentecostal tenha sido preponderante e, em várias situações, até decisivo, algumas vezes isso acaba sendo ocultado das “histórias oficiais” de suas igrejas. Propositalmente ou não, os nomes dessas mulheres são deixados em um segundo plano, e terminam esquecidos com o passar das gerações. Mas a história de Aimee McPherson, fundadora da Foursquare Gospel Church, foge à regra.

Nascida no Canadá, em 1890, ano em que mulheres ficavam mal vistas se falassem em público, não podiam votar e eram tidas como propriedade de seus maridos, Aimee McPherson passou para a história como a fundadora de uma das igrejas pentecostais de maior sucesso até hoje. 

O começo

Aimee nasceu numa família bastante religiosa, em 9 de outubro de 1890. Seus pais, James Morgan Kennedy e Mildred Ona Pearce, educaram a menina, filha única do casal, nos preceitos da fé protestante/evangélica. James era praticante metodista e Mildred era salvacionista (Exército de Salvação). Aliás, o pai de Mildred, avô de Aimee, foi um evangelista salvacionista na Inglaterra.  Na adolescência, dos 14 aos 16 anos, e já morando nos Estados Unidos – os pais dela deixaram o Canadá por motivos particulares – Aimee passou a questionar alguns dos ensinamentos que recebia acerca de Deus, da fé, da igreja, e acabou tomando alguma distância dos assuntos religiosos. Seu pai, preocupado com a situação, decidiu levá-la a um culto de avivamento. Lá, ela foi fortemente impactada pela mensagem do pregador irlandês Robert Semple – com quem veio a se casar em 1908. Com ele, foi à China viver como missionária. Lá, ambos adoeceram. Robert morreu. Viúva e com um bebê de apenas 13 semanas, fruto do casamento, Aimee teve de voltar aos Estados Unidos. 

Como muitas mulheres de sua época, não restou muita alternativa senão um segundo casamento. Casa-se com Harold Stuart Mcpherson. Ao contrário do primeiro esposo, Harold tinha outras pretensões que não a missão evangelística. Por não conseguirem encontrar um denominador comum, já que Aimee dedicava bom tempo de sua rotina à pregação, o casal acabou se separando em 1921. Ao todo, a união durou 9 anos.  Nessa época, Aimee estava se tornando a evangelista mais famosa dos Estados Unidos. Seu talento para pregar e articular ideias, chamando as pessoas ao batismo, literalmente arrebanhava multidões. Entre 1922 e 1923 ela funda a Foursquare Gospel Church, conhecida no Brasil como Igreja do Evangelho Quadrangular (IEQ). Tida como pioneira no uso das mídias para falar de Jesus, em abril de 1924 ela inaugura a rádio a KFSG, a primeira dos EUA ligada à uma igreja. Com isso, rompe mais uma fronteira: tornou-se a primeira mulher a pregar um sermão pelas ondas do rádio

Crise de 1929: o Evangelho é coisa prática

Durante a crise econômica de 1929, os trabalhos conduzidos por Aimee foram determinantes do sentido de “dar pão a quem tem fome”. Ela fazia campanhas de arrecadação de cobertores e roupas, levava médicos aos doentes que não podiam pagar por um atendimento, e chegou a comprar maquinários de costura para empregar algumas pessoas.  Em 1930, sua produção estava no ápice: chegava a pregar 20 sermões semanais, comandava programas de rádio, escrevia livros, hinos e outros artigos de conteúdo cristão. Ao longo da vida, compôs nada menos que 105 hinos e 13 óperas sacras. Com pouco mais de 40 anos de idade, em 1931, casou-se pela terceira vez. David Hutton era um artista: cantava e atuava. O fato gerou revolta em função de que seu ex-marido, Harold, ainda estava vivo. Para os padrões da época, ela só poderia se casar novamente caso Harold estivesse morrido… A união com David durou só 3 anos. Como mulher, na década de 30 do século XX, não é difícil imaginar o quanto ela deve ter sido criticada, apedrejada, tida como instável e chamada por adjetivos nada respeitosos.

Declínio e morte

A partir da década de 1940 sua saúde física começa a ficar debilitada. Até que em 26 de setembro de 1944 vem a falecer. Imperfeita como cada um de nós (1 João 1:8), Aimee deixou o legado de uma mulher guerreira, corajosa, que não tinha medo de enfrentar os padrões de seu tempo, diferenciando claramente o que é Evangelho e o que é tradição, costume de homens. A fundadora Igreja Quadrangular, ainda hoje, inspira uma legião de seguidores mundo afora e, embora sua teologia não apresente notáveis diferenças da maioria das outras igrejas pentecostais existentes, o fato dela, como mulher, ter sido a fundadora e líder de uma das maiores denominações evangélicas hoje em atividade no mundo, isso num período extremamente adverso às mulheres, já torna sua biografia muito singular.

Pioneirismo

Em um contexto onde mulheres mal podiam falar em público, é extremamente salutar perceber o quanto Aimee desafiou a lógica religiosa da época. Quando quase ninguém pensava em usar meios de comunicação para chegar até as casas das pessoas, Aimee utilizou o rádio para alcançar audiências até então impensáveis. Carismática, serviu de inspiração, anos mais tarde, para o televangelismo – pregação de mensagens evangélicas por meio da TV.  Revista Time Recentemente, a Revista Time, com objetivo de corrigir um desequilíbrio histórico na escolha da Pessoa do Ano (apenas cinco mulheres, individualmente, foram homenageadas em suas edições tradicionais), criou uma edição especial na qual elegeu uma “mulher do ano” desde 1920. Para o ano de 1926, Aimee foi a escolhida. 

Sob muitos aspectos, podemos aprender com a coragem, a inteligência, a caridade e o senso de inovação que essa mulher possuiu! Que seu exemplo inspire a cada um e cada uma de nós. 

REFERÊNCIAS

– Sutton, Matthew Avery. Aimee Semple McPherson and the Resurrection of Christian America

– Blumhofer, Edith L. Aimee Semple McPherson: Everybody’s Sister

– Brazilian Foursquare Church: Aimee Semple McPherson (site)

Dentro de um inferno, algo do paraíso não se perdeu

Se olharmos os cenários mundiais, temos a impressão de que a dimensão de sombra, o impulso de morte e a porção demente tomou conta das mentes e dos corações de muitas pessoas. Particularmente em nosso país, criou-se até o “gabinete do ódio” onde grupos maus maquinam maldades, calúnias, distorções e todo tipo de perversidades contra seus adversários políticos, feitos inimigos que devem ser liquidados senão fisicamente, pelo menos simbolicamente.

Várias janelas do inferno se abriram e suas labaredas incineraram celebridades, alimentaram as fake news e destroçaram porções do Estado Democrático de Direito e em seu lugar introduziram um Estado sem lei e post-democrático e, no caso do Brasil, em sua cabeça, um chefe de Estado demente, cruel e sem compaixão.

Historiadores nos asseguram que há momentos na história de uma nação ou de um povo nos quais o dia-bólico (o que divide) inunda a consciência coletiva. Tenta afogar o sim-bólico (o que une) no intento de fazer regredir toda uma história aos tempos sombrios, já superados pela civilização. Então surgem ideologias de exclusão, mecanismos de ódio, conflitos e  genocídios de inteiras etnias. Conhecemos a Shoah, fruto do inferno criado pelo nazifascismo de extermínio em massa de judeus e de outros.

Na América Latina por ocasião da invasão/ocupação dos europeus, ocorreu talvez o maior genocídio da história. No México, em 1519 com a chegada de Hernán Cortez, viviam 22 milhões de aztecas; depois de 70 anos restaram somente 1,2 milhões. Foram católicos anticristãos que perpetraram extermínios em massa. Os gritos das vítimas clamam ao céu contra a “Destruição das “Índias” (Las Casas) e têm o direito de reclamar até o juízo final. Nunca se viu algum ato de reconhecimento deste genocídio por parte das potências colonialistas nem se dispuseram a fazer a mínima compensação aos sobreviventes destes massacres. São demasiados desumanos e arrogantes.

Mas dentro deste inferno dantesco, há algo do paraíso que nunca se perdeu e que constitui a permanente saudade do ser humano: saudade da situação paradisíaca na qual tudo se harmoniza, o ser humano trata humanamente outro ser humano, sente-se confraternizado com a natureza e filho e filha das estrelas, como dizem tantos indígenas. Em tempos maus como o nosso, vale ressuscitar esse sonho que dorme no profundo de nosso ser. Ele nos permite projetar outro tipo de mundo que, para além das diferenças, todos se reconhecem como irmãos e irmãs. E se entreajudam.

Narro um fato real que mostra a emergência desse pedaço de paraíso, ainda existente entre nós, lá onde a inimizade e a violência são diárias.

Essa não é uma história inventada mas real, recolhida por um jornalista espanhol do El País no dia sete de junho de 2001. Ocorreu no ontem, mas seu espírito vale para o hoje.

Mazen Julani era um farmacêutico palestino de 32 anos, pai de três filhos, que vivia na parte árabe de Jerusalém. No dia 5 de junho de 2001 quando estava tomando café com amigos num bar, foi vítima de um disparo fatal vindo de um colono judeu. Era a vingança contra o grupo palestinense Hamás que, quarenta e cinco minutos antes, havia matado inúmeras pessoas numa discoteca de Tel Aviv mediante um atentado feito por um homem bomba. O projétil entrou pelo pescoço de Mazen e lhe estourou o cérebro. Levado imediatamente para o hospital israelense Hadassa chegou já morto.

Mas eis que a porção adormecida do paraíso em nós foi acordada. O clã dos Julani decidiu aí mesmo nos corredores do hospital, entregar todos os órgãos do filho morto: o coração, o fígado, os rins e o pâncreas para transplantes a doentes judeus. O chefe do clã esclareceu em nome de todos que este gesto não possuía nenhuma conotação política. Era um gesto estritamente humanitário.

Segundo a religião muçulmana, dizia, todos formamos uma única família humana e somos todos iguais, israelenses e palestinos. Não importa em quem os órgãos vão ser transplantados. Essencial é que ajudem a salvar vidas. Por isso, arrematava ele: os órgãos serão destinados aos nossos vizinhos israelenses.

Com efeito, ocorreu um transplante. No israelense Yigal Cohen bate agora um coração palestino, o de Mazen Julani.

A mulher de Mazen teve dificuldades em explicar à filha de quatro anos a morte do pai. Ela apenas lhe dizia que o pai fora viajar para longe e que na volta lhe traria um belo presente.

Aos que estavam próximo, sussurrou com os olhos marejados de lágrimas: daqui a algum tempo eu e meus filhos iremos visitar a Ygal Cohen na parte israelense de Jerusalém. Ele vive com o coração de meu marido e do pai de meus filhos. Será grande consolo para nós, encostar o ouvido ao peito de Ygal e escutar o coração daquele que tanto nos amou e que, de certa forma, ainda está pulsando por nós.

Este gesto generoso demonstra que o paraíso não se perdeu totalmente. No meio de um ambiente altamente tenso e carregado de ódios, surgiu um Jardim do Éden, de vida e de reconciliação. A convicção de que somos todos membros da mesma família humana, alimenta atitudes de perdão e de incondicional solidariedade. No fundo, aqui irrompe o amor que confere sentido à vida e que move, segundo Dante Alignieri da Divina Comédia, o céu e todas as estrelas. E eu diria, também o coração da esposa de Mazen Julani e o nosso.

São tais atitudes que nos fazem crer que o ódio reinante do Brasil e no mundo, as fake news e as difamações não terão futuro. É joio que não será recolhido, como o trigo, no celeiro dos homens nem de Deus. Esse tsunami de ódio e seu promotor maior que desgoverna nosso país, irá descobrir, um dia em que só Deu sabe, as lágrimas, os lamentos e o luto que provocaram em milhares de seus compatriotas que por sua falta de amor e de cuidado para com os afetados pelo Covid-19 perderam a quem tanto amavam. Oxalá neles não esteja totalmente perdida a parcela do Jardim do Éden.

Foto: Pixabay/Reprodução

Quando não houve fake news?

A antropologia contemporânea nos dá conta de que a principal diferença entre o homosapiens e os demais hominídeos tem a ver, sobretudo, com o desenvolvimento da nossa linguagem. Os neandertais, por exemplo, possuíam linguagem, mas se comparada com a nossa, era extremamente simples e sem capacidade de grandes detalhamentos.

Desde há muito se sabe que através da linguagem também se pensa. Ela enriquece o pensamento, e o pensamento se expressa cada vez melhor por meio dela. Nesse caso, estamos a falar de vários tipos de linguagem, da comunicação oral à linguagem matemática ou musical.

Mas o que fez o homosapiens levar vantagem sobre os outros concorrentes?

A capacidade de dissimular de forma mais sofisticada a linguagem que possuía.

Assim, desde os primórdios, informação e desinformação caminham juntas no processo civilizatório. A própria Bíblia inicia sua narrativa de natureza antropológica (Gênesis 3), com um choque entre a informação divina e a contra informação do ente arquetípico representado pela serpente. Daí em diante, a narrativa da Escritura nos põe frente a frente com a guerra ininterrupta entre a tentativa de informar com realidade e a busca de mudar, alterar ou falsificar a história em questão.

Os evangelhos nos mostram esse mesmo embate em todas as suas histórias e em encontros humanos. Esse processo de informação e contra informação atinge o seu clímax na crucificação. Afinal, Jesus foi morto na vitória das Fakes News, patrocinadas especialmente pelas autoridades religiosas. E como se não bastasse as corrupções do processo histórico, continuaram arquitetando Fake News quando souberam que a tumba de Jesus estava vazia. Mesmo diante das evidências de que o crucificado havia ressuscitado, os religiosos ordenaram que fosse divulgado que os próprios discípulos haviam roubado o corpo de seu mestre da tumba, para que as pessoas acreditassem que, de fato, tinha ressuscitado dentre os mortos.

Hoje, a diferença é que não se tenta criar nenhuma versão elaborada que venha competir com a verdade, basta que se diga o que deseja inventar e divulgue o que se pretende fazer passar por informação perversa. Portanto, não há mais necessidade de grandes dissimulações para camuflar falsificações. Já não há demanda pela verdade. A mente da maioria faz ser verdade apenas a loucura que prefere. A verdade como fato-realidade-observável morreu, tornando-se cada vez mais uma questão do que seja preferível.

“Não dirás falso testemunho” Êxodo 20.16