Campanha da Fraternidade Ecumênica é alvo de desinformação e ataques

A Campanha da Fraternidade que, em 2021, é ecumênica tem sido alvo de desinformação e ataques de grupos católicos fundamentalistas nos últimos dias. Os ataques têm como vítima principal a pastora luterana, secretária-geral do Conselho Nacional de Igrejas Cristãs (CONIC) Romi Márcia Bencke, que está à frente da realização da campanha 2021. A pastora admitiu ter sofrido agressões pelas mídias sociais, o que tem gerado, inclusive denúncias judiciais. 

Romi Bencke acredita que a campanha de difamação contra ela também tenha motivação para além da religião. “Avalio que esses ataques têm muita relação com o pedido de impeachment que a gente protocolou na Câmara algumas semanas atrás”, diz a secretária-geral do CONIC. Ela foi uma das lideranças religiosas que esteve em Brasília para protocolar o documento que pede o impeachment do presidente Jair Bolsonaro (sem partido), assinado por um grupo de 380 líderes católicos e evangélicos. 

O que é a Campanha da Fraternidade Ecumênica? 

A Campanha da Fraternidade ocorre no cerne da Igreja Católica do Brasil há mais de 50 anos, sob responsabilidade da Conferência Nacional de Bispos do Brasil (CNBB). Desde os anos 2000 a campanha é realizada de forma ecumênica, a cada cinco anos, e conduzida pelo Conselho Nacional de Igrejas Cristãs (CONIC), reunindo diversas denominações cristãs e movimentos. 

A campanha de 2021 tem como tema “Fraternidade e Diálogo: compromisso de amor”, com o  objetivo principal: “Através do diálogo amoroso e do testemunho da unidade na diversidade, inspirados e inspiradas no amor de Cristo, convidar comunidades de fé e pessoas de boa vontade para pensar, avaliar e identificar caminhos para a superação das polarizações e das violências que marcam o mundo atual”. 

Em 2021, participam da campanha, organizada pelo CONIC, a Igreja Católica Apostólica Romana, por meio da CNBB; Aliança de Batistas no Brasil; Igreja Episcopal Anglicana; Igreja Evangélica de Confissão Luterana no Brasil; Presbiteriana Unida; Sirian Ortodoxa de Antioquia; Igreja Betesda (igreja convidada); e CESEEP, organismo ecumênico. O Papa Francisco enviou uma mensagem em apoio à CFE 2021 bem o secretário geral do Conselho Mundial de Igrejas.

Desinformação sobre a CFE e ataques à coordenação 

Entre os vários conteúdos de ataque à CFE 2021 e à coordenação da Pastora Romi Bencke e da CNBB, está um vídeos de grande repercussão, publicado pelo pregador e influenciador católico Anderson Reis. As declarações de Anderson Reis em seu canal do Youtube disseminam desinformação sobre o tema. 

Os ataques à pastora Romi Márcia Bencke e à CNBB se baseiam em afirmações falsas. No vídeo, o autor afirma:

Essa pastora é a favor do aborto, feminista e a favor da ideologia de gênero. Isso é uma agenda que vem sendo imposta para nós e depois dessa pandemia avançou com uma velocidade supersônica. E o dever da igreja que deveria ser uma resistência profunda contra essas trevas do quinto dos infernos está permitindo no Brasil um documento cuja alma desse documento é a favor de tudo isso

Anderson Reis

“Essa pastora é a favor do aborto” diz o influenciador aos 0:43 segundos do vídeo. Anderson Reis realiza aqui prática comum na desinformação, que é mudar o contexto de declarações e favorecer interpretações rasas do conteúdo. 

A pastora Romi Márcia Bencke, registra sua posição sobre o tema no artigo para a Open Society Foundation: é a favor da legalização do aborto, o que diz respeito a uma posição distinta de ser a favor do aborto.

A legalização do aborto é a existência de uma legislação que ampare a mulher que opte por abortar. Envolve acompanhamento psicológico das gestantes, condições específicas para seu cumprimento, e tem um papel relevante no combate às clínicas clandestinas.

Um estudo publicado em 2013, por Karla Ferraz dos Anjos, Vanessa Cruz Santos, Raquel Souzas e Benedito Gonçalves Eugênio, expõe a realidade das mulheres que realizam abortos clandestinos: tem maiores taxas de mortalidade, se encontram desamparadas e geram custos sociais e econômicos para os sistemas de saúde do país. Outro estudo, de Wendell Ferrari e Simone Peres, mostra como a falta de amparo leva a tomadas de decisão trágicas entre jovens que recorrem ao aborto clandestino.

Desta forma, ser a favor da legalização do aborto é se colocar contra o aborto clandestino, e não a favor de que se aborte. A questão é recorrente em debates feministas e busca esclarecer essa diferença primordial entre o direito a se tomar uma atitude e o apoio à atitude.

“O aborto não é um tema bíblico. Como apontou a Pra. Lusmarina Campos Garcia em audiência ao STF existem apenas dois textos no Primeiro Testamento que fazem referência à prática do aborto. O primeiro, em Êxodo 21:22- 23, determina que se uma mulher, por estar envolvida na briga entre o seu marido e outro homem, for ferida e abortar, o agressor deve pagar uma indenização para o marido. Isto significa que, à época, a perda do feto em decorrência de uma agressão sofrida não era considerada grave e passível de penalidade maior, uma vez que o feto não era considerado um “ser vivo”, diz a pastora Romi Bencke no seu artigo.

A segunda situação é ainda mais marcante: “Números 5:11-34, que relata um aborto ritual praticado pelo sacerdote.  Se a mulher abortasse estava comprovado que ela tinha sido infiel e o marido podia puni-la, inclusive com a morte por apedrejamento. Ressalte-se que a punição era por causa da infidelidade e não por causa do aborto realizado”, conclui a pastora, destacando que o debate em torno do aborto comumente se pauta pelo mandamento “não matarás”. “Como pode-se ver, não era considerado vida”, conclui.

Anderson Reis usou de um conteúdo descontextualizado em relação à pastora Romi Bencke para agredi-la, atacando também a CFE. 

O fantasma da ideologia de gênero

Anderson Reis também acusa a CFE 2021 de ser a favor da falaciosa “ideologia de gênero”. Ao acessar o texto base da campanha, Bereia verificou que a palavra “gênero” aparece três vezes no documento, nos itens 67 e 125, destacando a questão da violência contra a mulher:

“Os dados nos mostram quem são as pessoas atingidas pelo sistema de violência. As mulheres, em especial as negras e indígenas, são impactadas em todas as dimensões da sua existência. Observar esta realidade evidencia a necessidade de se discutir as questões de gênero, não se limitando à igualdade entre os sexos, mas, compreendendo que a libertação das mulheres da situação histórica de opressão passa pela discussão da propriedade privada, da divisão sexual do trabalho, da laicidade do Estado e da Teologia quando impõe um patriarcado como modelo divino de hierarquia social. Além disso, é importante salientar que as relações sociais de classe, de gênero, de raça, de etnia estão historicamente interligadas.”

“(…) Efésios (2,1-10) alerta para a necessidade premente de se aceitar plenamente as pessoas, que são diferentes, e ver nas diferenças a riqueza do corpo de Cristo. Não é possível estar com Deus e, ao mesmo tempo, discriminar e desrespeitar as outras pessoas por causa das suas diferenças étnicas, religiosas ou de gênero.” 

Texto-base da CFE

O texto também se manifesta contra a violência contra pessoas LGBTQI+ no item 68:

“Outro grupo social que sofre as consequências da política estruturada na violência e na criação de inimigos, é a população LGBTQI+. O já citado Atlas da Violência de 2020, mostra que o número de denúncias de violências sofridas pela população LGBTQI+ registradas no Dique 100 no ano de 2018 foi de 1685 casos. Segundo dados do Grupo Gay da Bahia apresentados no Atlas da Violência 2020, no ano de 2018, 420 pessoas LGBTQI+ foram assassinadas, destas 164 eram pessoas trans. Percebe-se que em 2011 foram registrados 5 homicídios de pessoas LGBTQI+. Seis anos depois, em 2017, este número aumentou para 193 casos. O aumento no número de homicídio de pessoas LGBTQI+, entre 2016 e 2017, foi de 127%. Estes homicídios são efeitos do discurso de ódio, do fundamentalismo religioso, de vozes contra o reconhecimento dos direitos das populações LGBTQI+ e de outros grupos perseguidos e vulneráveis.”

Texto-base da CFE

A defesa da vida de mulheres e da população LGBTQI+ é relacionada, pelo influenciador católico, como uma “ideologia” em sentido negativo, sendo, portanto, desqualificada.

Bereia já publicou em verificação anterior sobre o fantasma da “ideologia de gênero”, termo falacioso que é objeto de muita desinformação, especialmente entre grupos religiosos. Como demonstra a matéria, líderes políticos e outros grupos de tendência conservadora têm se apropriado dessa pauta para ganhar adesão política, por meio de pânico moral

Consultada por Bereia, a coordenadora nacional do movimento Evangélicas pela Igualdade de Gênero (EIG) professora Valéria Vilhena explica que não existe e nunca existiu uma “ideologia de gênero”. “Essa narrativa foi construída para se opor aos direitos da mulher e da população LGBT. Eles constroem esse discurso para mais uma vez se posicionarem e reforçarem a negação da dignidade humana. Essa é a questão. Porque não existe uma “ideologia de gênero” – algo que se referem como uma “crença”, uma crença que se impõe para destruir a família (…) O que há é a construção de uma narrativa se utilizando do conceito “gênero” que vem dos estudos de gênero, mas que não tem nada a ver com o que dizem”, declara.

Texto-base não foi redigido por uma só pessoa

Outra acusação de Anderson Reis, no vídeo que circula nas mídias sociais, é que o texto-base da CFE 2021 é de autoria de uma só pessoa, não tendo a participação da CNBB.

O CONIC publicou nota desmentindo esta afirmação::

“A redação do Texto-Base foi resultado de um processo coletivo de construção, que iniciou no final de 2019. Teve participação direta de pessoas de diferentes áreas do conhecimento, em especial, sociologia, ciência política e teologia. A parte bíblica do Texto contou com a colaboração de biblistas de diferentes igrejas cristãs. Todas pessoas com profundo conhecimento bíblico. Depois de escrito, o Texto-Base foi amplamente discutido por uma Comissão Ecumênica formada por 8 pessoas, sendo 6 indicadas oficialmente pelas igrejas-membro do CONIC, uma igreja convidada e um organismo ecumênico.”

Nota do CONIC

A CNBB publicou nota em que ressalta que a CFE é marca e riqueza da Igreja Católica no Brasil e diz que lhe cabe “cuidar dela, melhorá-la sempre mais por meio do diálogo, assim como nos cabe cuidar da causa ecumênica, um ideal que se nos impõe”.

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Bereia conclui que as informações do vídeo sobre a CFE são enganosas e buscam gerar pânico moral em torno dos temas do aborto e do fantasma da “ideologia de gênero”. O texto-base da campanha, na verdade, defende o fim da violência contra mulheres e pessoas LGBTQI+. 

A Campanha da Fraternidade ocorre desde 1964 e tem como objetivo promover a união entre pessoas de diversas manifestações de fé, tendo apoio do próprio Papa Francisco e de outros líderes religiosos mundiais. 

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Matéria atualizada em 11 de março de 2021 às 9h14 para correção de dado sobre ano de início da CFE.

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Foto de capa: CONIC/Reprodução

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Referências 

Nota da CNBB, https://www.cnbb.org.br/wp-content/uploads/2021/02/Nota-da-presid%C3%AAncia-da-CNBB-CFE-2021.pdf. Acesso em: 10 mar. 2021.

Nota do CONIC, https://conic.org.br/portal/noticias/3776-leia-a-integra-do-texto-base-da-campanha-da-fraternidade. Acesso em: 09 mar. 2021.

Artigo de Romi Márcia Bencke, https://www.cfemea.org.br/images/stories/publicacoes/laicidade_direito_aborto.pdf. Acesso em: 09 mar. 2021.

Entrevista de Romi Márcia Bencke, http://www.ihu.unisinos.br/78-noticias/606498-bolsonaro-sabe-jogar-muito-bem-com-a-religiao-entrevista-com-a-pastora-romi-bencke. Acesso em: 09 mar. 2021.

Texto-base da Campanha da Fraternidade Ecumênica, https://www.conic.org.br/portal/files/cf_texto_base_2021.pdf. Acesso em: 10 mar. 2021.

Coletivo Bereia, https://coletivobereia.com.br/o-presidente-do-brasil-e-a-falaciosa-ideologia-de-genero/. Acesso em: 10 mar. 2021.

Q-Anon, ou o novo discurso desinformativo

Na última sexta-feira (28) o Bereia realizou verificação sobre a Operação Storm. A suposta Operação (da qual não há registro, processo, prisões ou indiciados) visaria desbaratar uma rede de pedofilia e cultos satânicos no país. A premissa parece absurda: poderosos influenciadores da mídia, do Legislativo e Judiciário do país consumiriam em rituais satânicos fetos abortados para perpetuar sua influência e poder. Algo digno de um filme de terror.

Porém muitos não consideram esse discurso absurdo. E no momento não falo de brasileiros (embora tenhamos indícios de que sim, já há crença nessa realidade em solo nacional), mas de estadunidenses. Mais especificamente os Q-Anon.

O nome, que mais parece um filho ou sobrinho de Elon Musk (CEO da Tesla Motors e da SpaceX), tem agitado tanto os mais irreverentes quanto os mais sérios. O “grupo”, que começou como uma teoria da conspiração no 4chan, como explicou muito bem a matéria da Vice, veicula a mesma matriz discursiva da Operação Storm: o presidente da República é um guerreiro que luta secretamente para desmontar um esquema perverso no qual estão envolvidas as elites do país. Aliados a ele estão seus ministros que defendem a família e a tradição – afinal, por que outro motivo seriam eles tão atacados pela imprensa?

Mas onde está o indício de que esse discurso encontra solo fértil no Brasil? Podemos ver traços desse comportamento na matéria mencionada acima. Para isso, vamos revisitar como funcionam as agências de checagem.

Há algumas maneiras pelas quais as agências de checagem podem receber informações a serem verificadas. Uma comum e quase unânime entre as agências são os mensageiros virtuais: quase toda agência de checagem recebe mensagens com informações que levantaram a suspeita de alguém. Seja um número de WhatsApp para o qual você encaminhe um áudio do grupo da família até um perfil no Facebook para onde pode colar um link suspeito, é a partir daí que se constrói a checagem, partindo-se do pressuposto de que há interesse público para checar a informação (afinal, alguém pediu).

Mas o que é o interesse público para que haja a checagem? Significa que alguém recebeu uma informação que considerou suspeita. Passível de ser checada. Isso demanda dúvida. Vamos nos imaginar como a pessoa que encaminhou a mensagem da Operação Storm: estamos em um grupo, seja de família ou de amigos, da igreja ou do trabalho, e a mensagem chega por um colega engraçado, mas um pouco paranoico.

Dois ou três falam que é um absurdo tudo isso e esperam que a operação tenha sucesso. Um pergunta de onde veio isso, alguém fala que não acredita. Mas está ali. Alguém leu, alguém concordou, alguém encaminhou. Esse ciclo pode continuar infinitamente, mas nós paramos e nos perguntamos se faz algum sentido. E encaminhamos para a agência. Embora a mensagem tenha morrido conosco, ela continuou se espalhando com todos aqueles que concordaram, exponencialmente de modo alarmante.

Basicamente toda desinformação que chega a uma agência chega atrasada. Não conseguimos cortar a raiz, mas apenas podar a árvore. E essa árvore, que começa a esticar seus galhos, tem as raízes profundas e já quebrando o piso de casa. São raízes um pouco mais preocupantes – e é o que vamos investigar a seguir.

O bolsonarismo se apoia em embates contra inimigos. É esta ideia que mantém aceso o movimento, o que se concretiza em denúncias contra. Seu discurso, como muito bem explicitado pelo pesquisador e professor João Cezar de Castro Rocha, consiste em se colocar como bastião contra o inimigo vermelho, que permeia todas as instituições culturais do país: desde a pedagogia freiriana até o progressismo da classe artística brasileira, todos são coniventes com essa deterioração dos valores e da cultura. É nesse ponto que a importação Q-Anon vem a calhar para o discurso: os professores e artistas não estão mais “só” atacando nossa cultura, mas nossos filhos e sua ingenuidade.

Se antes o combate era cultural – e para isso nomes como Olavo de Carvalho aparecem como filósofos “de direita” e produtoras como Brasil Paralelo lançam documentários que se propõem a um revisionismo histórico – agora a o inimigo “esquerda” estaria levando o combate para outro âmbito: o físico. Esse inimigo que antes molestava a mente de nossos jovens agora molestam o corpo. E como antes se reagia com gritos e ofensas, pois a disputa era do discurso, agora a disputa é a do corpo.

A inserção dessa rede de desinformação, dessa narrativa que afirma que influenciadores da opinião pública atacam fisicamente os jovens acaba implicando numa reação igualmente física. Em seu livro “A Ditadura Envergonhada”, Elio Gaspari expõe como na história do Brasil o argumento de uma resistência armada e organizada de esquerda durante a ditadura justificou o fechamento do Congresso e 21 anos de ditadura.

Não acredito em uma ditadura militar agora. Porém, essa mudança no discurso desinformativo implica na necessidade de reações mais agressivas por parte daqueles que acreditam embates contra inimigos. É esta ideia que mantém aceso o movimento, o que se concretiza em denúncias contra nos absurdos do Q-Anon. O pizzagate já comprova o efeito dessas narrativas nos Estados Unidos. Resta vermos os efeitos de narrativas assim em um Estado desigual como o Brasil.

Foto de Capa: Pixabay/Reprodução

É falso que Facebook censurou páginas de mães que se opõem à sessão de leitura infantil com Drag Queens

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No dia 11 de junho o site Gospel Mais publicou a seguinte matéria: “Facebook deleta página de mães que se opõem a sessão de leitura infantil com drag queens”.

Segundo Gospel Prime “a censura impune do Facebook a grupos conservadores continua, e um caso específico, envolvendo mães, chama a atenção de veículos de informação internacionais, já que é a terceira vez que um grupo na rede social é deletado por reunir pessoas que se opõem a sessões de leitura para crianças com drag queens.” O link direciona o leitor para outras matérias do próprio site Gospel Mais a respeito da suposta censura do Facebook. Nenhuma agência de notícias internacional ou grande veículo de comunicação é mencionado.

A matéria continua relatando que: “A oposição de grupos conservadores às sessões de leitura feitas por drag queens começou em outubro de 2017, quando um {travesti vestido de demônio foi chamado para ler histórias infantis em uma biblioteca pública” e que Anna Bohach, uma “mãe conservadora” fundou o grupo 500 Mom Strong com o intuito de combater o projeto Drag Queen Story Hour (Hora da História da Drag Queen).

Dia 14 de outubro de 2017, em seu perfil no Instagram, a Drag Queen Xochi Mochi conta que teve uma de uma de suas melhores experiências na leitura para as crianças, que ficaram animadas com sua presença, e fala da importância de naturalizar a diversidade na vida das pessoas.

Essa é a fantasia que segundo Gospel Mais representaria o demônio.

De acordo com publicação do site da BBC News Brasil: o Drag Queen Story Hou” (Hora da leitura Drag Queen) foi criado em San Francisco em 2015 e, desde então, tem se espalhado pelos Estados Unidos e o mundo como um projeto de contação de histórias para crianças e adolescentes. A leitura é feita por Drag Queens voluntárias e os encontros são em bibliotecas, livrarias e escolas.

Segundo o site oficial, o projeto celebra o aprendizado e a diversão através da leitura e brincadeiras, e tem objetivo de incentivar o respeito à diversidade e a tolerância a todas a formas de expressão, gerando coragem e confiança para que as crianças possam se expressar.

O grupo ressalta que pessoas LGBTQ estão presentes em todas as comunidades, por isso acreditam que crianças merecem ter acesso a essa cultura e história nas idades apropriadas. O site reitera que qualquer insinuação de que o grupo tem objetivo de doutrinar crianças não compreende as identidades LGBTQ e é revestida de homofobia e transfobia.

Em uma entrevista concedida ao G1, um dos fundadores do projeto, Jonathan Hamilt, afirma que as histórias contadas sempre levam em conta a faixa etária dos ouvintes e os pais que levam seus filhos aos encontros normalmente têm a intenção de mostrar aos filhos de que não há nada de errado em ser LGBTQ.

Jonathan conta que o grupo tem sido alvo de ataques e protestos de grupos conservadores religiosos em diversos lugares do mundo. Um dos ataques ocorreu em janeiro de 2020 na Austrália, quando um grupo de 15 a 20 estudantes conservadores invadiu a sessão de contação de histórias em uma biblioteca na cidade Brisbane, protestando com as palavras de ordem “Drag Queens are not for kids”, em português, “Drag Queens não são para crianças”. Veja no vídeo abaixo:

Gospel Mais cita o portal LifeSite News como fonte, e de acordo com o site internacional, a página criada pela mãe conservadora Anna Bohach foi deletada pelo Facebook em três ocasiões. Segundo a administradora do perfil, as páginas foram deletadas sob acusação de transfobia.

Bereia verificou que é verdade que a página 500 Mom Strong foi deletada por discurso de ódio, uma violação dos Padrões de Comunidade do Facebook:

“Não permitimos discurso de ódio no Facebook, pois ele cria um ambiente de intimidação e de exclusão que, em alguns casos, pode promover violência no mundo real.

Definimos discurso de ódio como um ataque direto a pessoas com base no que chamamos de características protegidas: raça, etnia, nacionalidade, filiação religiosa, orientação sexual, casta, sexo, gênero, identidade de gênero e doença grave ou deficiência.”

Anna Bohach, entretanto, segue com as atividades no grupo fechado 500 Mom Strong, que contava com a participação de mais de 800 pessoas até o fechamento da matéria. A descrição do grupo afirma:

“500 Mom Strong é um grupo dedicado ao combate à sexualização de crianças promovidas pelo Drag Queen Story Hour em bibliotecas e escolas públicas, contra a educação sexual abrangente e invasão de transgêneros nos direitos e na privacidade de mulheres e meninas”.

Ainda segundo a matéria de Gospel Mais, a mãe conservadora afirmou que “Hora da História da Drag Queen é uma zombaria da feminilidade, pois Drag queens são muito ofensivos para as mulheres. Eles são caricaturas hiper-sexualizadas de mulheres”.

O Manual de Comunicação LGBTI define Drag Queen como:

“Homem que se veste com roupas femininas de forma satírica e extravagante para o exercício da profissão em shows e outros eventos. Uma drag queen não deixa de ser um tipo de “transformista”, pois o uso das roupas está ligado a questões artísticas – a diferença é que a produção necessariamente focaliza o humor, o exagero”.

O movimento Drag Queen Story Hour define Drag como uma maneira artística de se expressar e mostrar ao mundo quem você é ou quem quer ser. “As drag queens geralmente expressam seus lados femininos ou diferentes aspectos de seu gênero ou personalidade através de vestir-se, se apresentar, marchar em desfiles e ser voluntário em suas comunidades. Existem drag queens, kings, príncipes e princesas – qualquer pessoa pode ser uma das opções acima, independentemente de como elas se identificam na vida cotidiana O que importa é que, quando você se veste, se sente confortável e criativo”, informa o site oficial do grupo.

A história da arte Drag remete à Grécia Antiga, mas ganha força na década de 60, quando pessoas LGBT começaram a se organizar em circuitos culturais e clubes para expressar suas identidades através da arte, o que não era possível em outros espaços de sociabilidade como a família, escola e trabalho. Segundo o professor da Universidade do Estado do Rio Grande do Norte (UFRN), Jo Fagner, muitos gays utilizavam essas oportunidades também para brincar com os papéis de gênero. “Além de suavizar o peso do estigma em suas concepções de sujeito, passaram a se tornar importantes espaços de profissionalização, pelo viés da arte”, explica.

O movimento foi se popularizando e conquistou espaço na TV e na música, no Brasil com ícones como Márcia Pantera, Sylvetti Montilla, Vera Verão e, mais recentemente, Pabllo Vittar e Gloria Groove.

Para a Drag Queen brasileira Ginger Moon, “Drag é poder fazer o que você quer. Num dia sou alien, no outro, um unicórnio. E isso ensina muito: a se amar, a ter consciência do seu corpo e das suas limitações”.

Bereia conclui, portanto, que é falsa a notícia de que o Facebook esteja censurando páginas de mães que se opõem a drag queens. Decorreu-se, no entanto, que a página 500 Mom Strong foi excluída devido à violação de um dos padrões de comunidade da plataforma, a prática do discurso de ódio.

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Referências de Checagem:

Gospel Mais. Facebook deleta página de mães que se opõem a sessão de leitura infantil com drag queens. Disponível em: https://noticias.gospelmais.com.br/facebook-deleta-pagina-maes-opoem-drag-queens-136139.html. Acesso em: 16 jun. 2020.

Gospel Mais. Drag queen vestida de demônio é escolhida para pregar ideologia de gênero a crianças. Disponível em: https://noticias.gospelmais.com.br/drag-queen-demonio-ideologia-de-genero-criancas-93381.html. Acesso em: 16 jun. 2020.

Gospel Mais. Facebook censura conservadores. Disponível em: https://noticias.gospelmais.com.br/?s=facebook+censura+conservadores. Acesso em: 16 jun. 2020.

Life Site News. Facebook again deletes moms’ group dedicated to ending drag queen story hours. Disponível em: https://www.lifesitenews.com/news/facebook-again-deletes-moms-group-dedicated-to-ending-drag-queen-story-hours. Acesso em: 16 jun. 2020.

BBC News Brasil. O que acontece quando drag queens que contam histórias a crianças chegam às regiões mais religiosas dos EUA. Disponível em: https://www.bbc.com/portuguese/geral-47319841. Acesso em: 16 jun. 2020.

G1. Drag queens leem histórias a crianças em livrarias e escolas dos EUA para incentivar respeito à diversidade. Disponível em: https://g1.globo.com/educacao/noticia/2018/11/16/drag-queens-leem-historias-a-criancas-em-livrarias-e-escolas-dos-eua-para-incentivar-respeito-a-diversidade.ghtml. Acesso em: 16 jun. 2020.

Drag Queen Story Hour. Site oficial da iniciativa “Drag Queen Story Hour”. https://www.dragqueenstoryhour.org/. Acesso em: 16 jun. 2020.

Instagram. Perfil Drag Queen Xochi Mochi https://www.instagram.com/p/BaPjGQyH6Q0/?utm_source=ig_embed. Acesso em: 16 jun. 2020.

Facebook. Grupo Drag Queen Strong. https://www.facebook.com/500DragQueenStrong. Acesso em: 16 jun. 2020.

Facebook. Grupo 500 Mom Strong. https://www.facebook.com/groups/2294300754231749. Acesso em: 16 jun. 2020.

G1. Drag queens: a história da arte por trás de homens vestidos de mulher. Disponível em: https://g1.globo.com/pop-arte/noticia/drag-queens-a-historia-da-arte-por-tras-de-homens-vestidos-de-mulher.ghtml. Acesso em: 17 jun. 2020.

UOL Universa. Mulher Drag Queen. Disponível em: https://www.uol.com.br/universa/especiais/mulher-e-drag-queen#mulher-drag-queen. Acesso em: 17 jun. 2020.

O fantasma do Marxismo Cultural*

Originalmente publicado na The Hedgehog Review, de Andrew Lynn, na edição de outono de 2018. Traduzido com permissão.

Um fantasma está assombrando a imaginação de muitos no Ocidente moderno – o fantasma do Marxismo Cultural.

Sua influência, para os que o temem (que envolve desde conservadores moderados até os ruidosos da extrema direita, conhecidos como “alt-right” nos EUA), é evidente em tudo, desde pronomes neutros quanto ao gênero, até treinamento para detectar micro agressões e, praticamente, todos os aspectos do que agora é chamado de políticas identitárias. Diz-se que o Marxismo Cultural foi criado na academia e que domina o corpo docente dos departamentos das Ciências Humanas e Sociais. Todos os anos legiões de seus prosélitos seriam lançados sobre a cultura mais ampla para espalhar essa doutrina corrosiva.

Uma pergunta a ser feita é: como Karl Marx, um filósofo do século XIX, leitor de Hegel, fundamenta o pensamento desses guerreiros da justiça social de hoje?

Para os opositores do Marxismo Cultural , a história poderia ser exprimida como se segue para dar uma resposta: Em meados do século XX, a doutrina do “Marxismo econômico” foi fatalmente desacreditada pelo fracasso dos regimes comunistas ao redor do mundo, estimulando a intelligentsia desiludida a buscar um novo e aprimorado Marxismo, que pudesse falar para o capitalismo de consumo pós-guerra.

Esses, então chamados “Marxistas culturais”, empreenderam o que o psicólogo-guru canadense Jordan Peterson chamou de “truque ilusionista” para conseguir a recuperação de suas mercadorias ideológicas, passando da economia para a cultura.

Pensadores que vão de Antônio Gramsci a Jacques Derrida estão envolvidos nesse esforço, mas no centro dessa história quase sempre se encontra a Escola de Frankfurt, um grupo de Marxistas do meio do século que fugiram da Alemanha e se refugiaram nos Estados Unidos durante a Segunda Guerra Mundial. A experiência deste grupo não era em Economia, mas em Filosofia, Teoria Social, Arte e Literatura. Consequentemente, seus membros reembalaram seu Marxismo para os assuntos que eles conheciam melhor. Eles também, frequentemente, se voltaram para as teorias de Freud, misturando a preocupação de Marx com a alienação com as ideias de repressão e sublimação de Freud.

Avançando para o presente

Segundo o jornalista e blogueiro conservador Andrew Sullivan, os marxistas culturais de hoje estão profundamente investidos em derrubar estruturas de poder do patriarcado e dos privilégios dos brancos. Eles o fazem, de acordo com esta versão da história, seguindo os pensadores da Escola de Frankfurt na transposição do conflito oprimido-opressor entre o proletariado e a burguesia para a dominação cultural, atribuindo status de oprimido a vários grupos identitários desprivilegiados.

O surgimento de uma cultura de vitimização segue, à medida que os grupos que reivindicam várias identidades articulam queixas contra grupos dominantes e as estruturas que atendem a seus interesses. A adjudicação racional da verdade torna-se então subordinada às exigências de subversão do poder, patriarcado e privilégio entre instituições sociais injustas, perpetuando a identificação contínua de conflitos dentro da ordem social estabelecida.

Existem muitos problemas com essa narrativa, é claro, e aqui está uma: essa visão de uma ordem social sempre em conflito é apenas vagamente “cultural” e pode ser construída inteiramente independente de qualquer coisa “Marxista”. Você pode encontrá-la em Maquiavel, Hobbes, Nietzsche e Ayn Rand, para citar apenas alguns. De fato, hoje os relatos mais populares da sociedade como grupos em conflito perpétuo por recursos – materiais, simbólicos ou políticos – são encontrados nos livros mais vendidos por psicólogos e biólogos evolucionistas ansiosos por aplicar suas ideias disciplinares a questões muito fora de seu campo. É mais a difusão de Darwin – não Derrida – que está na base dos relatos populares de conflitos que envolvem moralidade e cultura nos dias de hoje.

No entanto, o século XX viu várias escolas de pensamento marxistas passarem da economia e da política para preocupações culturais depois que o comunismo deixou de produzir utopias proletárias e ditadores stalinistas. A “cultura” realmente chegou ao radar marxista, mas funcionou de uma maneira muito particular: não para identificar antagonismos entre grupos sociais, mas para explicar melhor a falta de antagonismo observada nas sociedades.

Por que a classe trabalhadora não estava enfrentando os cúmplices de sua opressão? Talvez, como observou o crítico literário Richard Hoggart em seu livro de 1957 “The Uses of Literacy”, essa subjugação fosse um produto de uma cultura de consumo de massa recém-emergida.

A cultura não é um novo local de batalha; é mais um ópio salva-vidas que mantém os feridos de guerra permanentemente à margem.

Hoggart pertencia a um grupo dissidente Marxista do meio do século chamado Nova Esquerda Britânica, um movimento que também reivindicava figuras importantes de estudos culturais como Raymond Williams, Stuart Hall, E.P. Thompson durante algum tempo, os filósofos Alasdair MacIntyre e Charles Taylor. Como relata o historiador cultural Dennis Dworkin em seu livro “Cultural Marxism in Postwar Britain”, esses estudiosos se inspiraram em uma variedade de fontes intelectuais – incluindo o pensamento mais conservador de T.S. Eliot e F.R. Leavis – para aplicar métodos críticos às dimensões não-políticas da vida comum.

Para todos esses pensadores, a cultura era a arena na qual as potencialidades humanísticas inscritas nos primeiros escritos de Marx deveria se manifestar. Mas todos eles acreditavam que a cultura contemporânea frustrava a agência e a criatividade que Marx via como essenciais à liberdade humana.

Há boas razões pelas quais a versão do Marxismo cultural da Nova Esquerda Britânica não se parecesse em nada com o Marxismo cultural deplorado por Jordan Peterson e Andrew Sullivan. A moderna narrativa conservadora remonta a uma “Carta aos Conservadores” de 1997, escrita pelo cofundador da “Heritage Foundation” Paul Weyrich. Weyrich foi o primeiro a denunciar o Marxismo cultural por inventar a “ideologia do politicamente correto”, que ele traçou até a Escola de Frankfurt e descreveu como “alienígena”, “amargamente hostil” e “inimiga de nossa cultura tradicional”. Weyrich e seus colegas da “Free Congress Foundation” – incluindo William Lind, historiador e colunista prolífico – raramente discutiam como o judaísmo da Escola de Frankfurt se relacionava com a ideologia de seus membros, mas as dicas foram captadas e exploradas por pessoas com agendas mais radicais.

Grupos de extrema direita, inspirados em Weyrich, produziram vários documentários – que hoje acumulam milhões de visualizações no YouTube – afirmando a existência de uma trama do início do século XX da Escola de Frankfurt para subverter a cultura americana por meio da promoção do multiculturalismo, de grupos identitários belicosos e do politicamente correto. Ainda é possível encontrar sites mal formatados dessa época, exibindo diagramas elaborados que traçam a nefasta infiltração cultural da Escola de Frankfurt, com um site alegando expor o papel direto do cientista social e musicólogo Theodor Adorno na composição de grande parte da discografia dos Beatles.

O endosso de tais vozes periféricas não impediu os paleoconservadores como Pat Buchanan e Paul Gottfried de promover a narrativa vagamente conspiratória em círculos conservadores mais estabelecidos no início dos anos 2000. Ao mesmo tempo, grupos nacionalistas brancos e “alt-right” começaram a se apegar à narrativa. O terrorista norueguês Anders Behring Breivik, que matou setenta e sete pessoas em dois ataques na Noruega em 2011, citou e plagiou a redação da “Free Congress Foundation” em seu manifesto de 1.500 páginas, culpando os pensadores da Escola de Frankfurt por desenvolver um “Marxismo Cultural” que justifica um contemporâneo “genocídio branco”.

Breivik também citou Richard Spencer, ativista do nacionalismo branco parcialmente responsável pela manifestação de 2017 “Unite the Right” em Charlottesville, cuja história abertamente antissemita de infiltração cultural veio moldar o movimento “alt-right” americano. A descoberta de 2017 de um memorando de advertência de uma conspiração Marxista Ccultural – um esforço coordenado de globalistas, banqueiros, islâmicos, figuras do Black Lives Matter e republicanos do establishment que planejavam derrubar o presidente Donald Trump – resultou na demissão do autor do documento, Rich Higgins, da equipe do Conselho de Segurança Nacional de Trump.

Mas, além de sua associação inabalável com pensadores marginais, a narrativa do Marxismo Cultural tem outra falha: uma compreensão fundamentalmente defeituosa da esquerda. Quase todos os observadores do desenvolvimento da esquerda durante o século XX veem discordâncias e descontinuidades substanciais. Mas a narrativa do Marxismo Cultural, ao reproduzir as convenções do pensamento conspiratório, afirma uma profunda consistência oculta sob a aparente heterogeneidade: a política identitária pós-modernista é Marxismo. Essa distorção procrusteana obscurece as variedades do passado e do presente da política e do pensamento progressistas.

O próprio Marx teve pouco ou nenhum interesse nos precursores ideológicos daqueles movimentos que envolvem muitos conservadores contemporâneos – multiculturalismo, feminismo, política identitária – e teria descartado muitas dessas preocupações como desvios “superestruturais” das realidades da luta de classes. Marx é um pobre pós-modernista; de fato, sua metanarrativa restritiva da luta de classes é aquela que muitos pós-modernistas jogaram no lixo das ideologias mortas na década de 1970.

Os próprios líderes da Escola de Frankfurt brigavam abertamente com os guerreiros da justiça social de seus dias, encontrando-se entre as vítimas dos protestos e interrupções nas salas de aula dos anos de 1960. O elitismo europeu deles não se dava bem com o multiculturalismo caloroso e abrangente.

“Acordei” eles não estavam.

Também são subestimadas as rupturas mais recentes na esquerda. Nos círculos acadêmicos, estes são melhor representados pelo confronto duradouro entre os remanescentes do Marxismo ocidental e as novas vozes da esquerda do pós-estruturalismo, pós-colonialismo, feminismo e “pós-Marxismo”. Essas facções raramente jogam bem juntas. De fato, os Marxistas incondicionais são responsáveis por alguns dos enfrentamentos mais sofisticado das várias perspectivas agrupadas sob a rubrica de “Marxismo Cultural”. Perry Anderson, Alex Callinicos, Nancy Fraser e Terry Eagleton produziram críticas mordazes ao beco sem saída político do pós-modernismo. Nos últimos anos, surtos de natureza ainda mais internacional revelaram tensões subjacentes a finos valores esquerdistas: feminismo radical versus direitos dos transgêneros; disputas entre movimentos de defesa de direitos como ACLU e  Black Lives Matter;  divergência entre autores como no caso de Ta-Nehisi Coates e Cornel West; ou quando apoiadores de Bernie Sander (os “Bernie Bros”) se colocaram em oposição ao comitê nacional do seu partido, os Democratas. Se existe uma conspiração, não está indo muito bem.

A cultura – como Marx, Gramsci e a Nova Esquerda britânica viram – não é politicamente neutra. Tampouco são apenas valores subjetivos, gostos ou ideias da vida privada dos indivíduos. Em vez disso, é o próprio palco público no qual os interesses políticos e ideológicos frequentemente reivindicam legitimidade. Essa é exatamente a função da cultura que está energizando aqueles da direita que afirmam ver e desmascarar a perigosa agenda “marxista” que se esconde por trás de toda crítica e ativismo cultural de esquerda.

Essa “hermenêutica da suspeita”, por muito tempo apenas uma marca de seminários desconstrutivistas nas faculdades, parece agora ter encontrado um novo lar nas telas de TV e celulares que passaram a exibir discursos nacionalistas e a bandeira do país como peça de decoração. Talvez os verdadeiros marxistas culturais tenham se escondido à vista de todos o tempo todo.

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Andrew Lynn é sociólogo, doutorando em sociologia na Universidade da Virgínia