Fala mal construída de Lula é manipulada para acusação falsa de pedofilia e é parte de mobilização maior da direita política | parte 2

Mentiras em torno de uma fala do presidente Lula pronunciada em comício pela reeleição, em Belém, em 28 de setembro passado, foram produzidas pelo deputado Nikolas Ferreira, pela senadora Damares Alves, entre outros parlamentares com identidade religiosa e por mídias alinhadas à direita. Bereia checou e colocou o caso em um contexto maior de exploração do tema da proteção às crianças por políticos que mobilizam religião em suas ações.

Na segunda parte deste levantamento, Bereia verifica como a ideia de uma infância ameaçada aparece no debate público atual com exploração do medo e recurso a falsidades. Para isso foram identificados discursos públicos realizados ao longo de 2026 por parlamentares, lideranças e organizações religiosas, movimentos ligados à educação domiciliar e atores envolvidos em debates sobre proteção infantil. O levantamento reuniu pronunciamentos, proposições legislativas, audiências públicas, páginas institucionais e conteúdos religiosos.

O objetivo não foi buscar apenas menções a “ideologia de gênero”, a escola ou ao homeschooling, temas relatados na parte 1 desta reportagem. A pergunta aplicada ao levantamento foi mais ampla: quando esses atores falam em proteger crianças, do quê e de quem  dizem que elas precisam ser protegidas? 

Após a revisão das fontes e a retirada de conteúdos redundantes, o Bereia reuniu 22 ocorrências de 2026, envolvendo proteção da infância, educação e autoridade parental. Foram considerados pronunciamentos, proposições legislativas, audiências públicas, páginas institucionais e conteúdos religiosos. Cada ocorrência foi classificada segundo a ameaça apresentada, o agente responsabilizado, o papel atribuído à família e a resposta proposta. As categorias podem se sobrepor. 

O levantamento é qualitativo e não representa estatisticamente o conjunto de conservadores, religiosos ou parlamentares brasileiros. O caráter qualitativo e intencional levam a resultados que não representam estatisticamente o discurso de grupos religiosos ou de conservadores brasileiros. Eles permitem identificar, porém, alguns padrões entre os episódios observados.

As 22 ocorrências analisadas pelo Bereia

Data Ator / organização Material analisado Principal enquadramento identificado
03/02/2026Carla DicksonPL 188/2026“Sexualização precoce” em ambientes educacionais, culturais e institucionais
04/02/2026Julia ZanattaPL 289/2026Sexualização, exploração e riscos no ambiente digital
23/02/2026Damares AlvesPronunciamentoErotização, violência sexual e responsabilidade de adultos
07/04/2026Ana Paula LimaPL 1.637/2026Exploração sexual de crianças no ambiente digital
13/04/2026Dr. Ismael AlexandrinoPL 1.765/2026Gênero e sexualidade na escola e autorização dos responsáveis
23/04/2026Material de Escola DominicalConteúdo religiosoEscola, cultura, “ideologia de gênero” e formação moral pela família
03/05/2026Raimundo SantosPL 2.131/2026Sexualidade, identidade de gênero, orientação sexual e veto parental
06/05/2026José MedeirosPL 2.209/2026“Ideologia de gênero”, orientação sexual e direito de veto dos pais
06/05/2026Damares AlvesManifestação públicaErotização e violência também no ambiente familiar
18/05/2026Teresa LeitãoPronunciamentoExploração sexual e redes criminosas no ambiente digital
19/05/2026Silvio AntonioPL 2.474/2026Precedência da família na orientação moral e religiosa
20/05/2026Magno MaltaPronunciamentoAbuso intrafamiliar e violência praticada por pessoas próximas
26/05/2026Eduardo GirãoPronunciamentoEstado, escola, “doutrinação” e educação domiciliar
27/05/2026Magno MaltaPronunciamentoEscola, professores, “doutrinação” e homeschooling
27/05/2026Eli BorgesPL 2.655/2026Conteúdos educacionais e convicções morais e religiosas das famílias
27/05/2026Mauricio do VôleiProjeto de leiSexualização, conteúdos considerados inadequados e proteção da infância
28/05/2026Zequinha MarinhoProjeto de leiAbordagem escolar de sexualidade e gênero e autoridade parental
09/06/2026Nikolas FerreiraAudiência públicaAutoridade dos pais e educação domiciliar
2026Associação Nacional de Educação Domiciliar (ANED)Página institucional / eleitoralLiberdade educacional, direitos parentais e homeschooling
01/07/2026Jadyel AlencarDebate em comissão da CâmaraSuperexposição infantil por responsáveis e ambiente digital
10/07/2026Romero Rodrigues / Dagoberto NogueiraDebate em comissão da CâmaraAdultização infantil e responsabilidade compartilhada
28/08/2026Carlos VianaProjeto de leiExposição de crianças e adolescentes a publicidade de natureza sexual

Fonte: levantamento próprio do Coletivo Bereia. Cada linha corresponde a uma ocorrência utilizada no corpus. A presença de um ator mais de uma vez significa que foram analisadas manifestações distintas. As categorias são analíticas e não excludentes.

Em 11 ocorrências, escola, currículo, discussões sobre gênero e sexualidade, autoridade parental ou educação domiciliar estavam diretamente no centro da disputa. Outras três incluíam ambientes educacionais em debates mais amplos sobre sexualização, adultização ou exposição a conteúdos considerados impróprios. Em seis registros, a ameaça estava ligada à internet, plataformas, influenciadores ou exploração no ambiente digital.

O que apareceu no levantamento

Categoria identificada Ocorrências
Escola, currículo, discussões sobre gênero e sexualidade, autoridade parental ou educação domiciliar no centro da disputa 11
Ambientes educacionais em debates mais amplos sobre sexualização, adultização ou exposição a conteúdos considerados impróprios 3
Internet, plataformas, influenciadores ou exploração no ambiente digital 6

Nota: as categorias podem se sobrepor. O levantamento é qualitativo e não representa estatisticamente o conjunto de conservadores, religiosos ou parlamentares brasileiros.

Fonte: levantamento próprio do Coletivo Bereia, 2026.

Ao contrário do que indicam os dados oficiais levantados na parte 1 desta reportagem, as ocorrências identificadas mostram que o perigo passa com frequência a ser localizado fora da família: na escola, em espaços públicos, em determinados conteúdos ou em atores sociais, enquanto a família assume o papel de espaço privilegiado de proteção. 

Essa representação ganhou também expressão legislativa. Entre 13 de abril e 28 de maio de 2026, sete projetos foram apresentados no Congresso para ampliar ou assegurar direitos parentais diante da abordagem escolar de gênero, sexualidade, moral ou religião. As propostas variam em alcance, mas incluem autorização prévia, direito de veto, comunicação aos responsáveis e precedência da família na orientação moral e religiosa.

A questão imposta a partir do levantamento do Bereia, portanto, não é se pais devem ou não proteger os filhos. É quem define onde está o perigo e quais instituições são apresentadas como ameaça ou proteção quando a infância entra na disputa política, o que é marcado pelo acionamento do medo e de enganos frente aos dados oficiais.  

O que realmente ajuda a proteger uma criança? 

Se, conforme dados empíricos e oficiais, o agressor pode ser alguém que a criança conhece, ama, admira ou aprendeu a obedecer, a prevenção não pode se resumir a ensiná-la a evitar desconhecidos ou situações consideradas perigosas fora de casa. Ela precisa também aprender, de maneira adequada à idade, que possui direitos sobre o próprio corpo, que determinados contatos podem ser recusados mesmo quando partem de alguém conhecido e que existem situações que devem ser contadas a um adulto de confiança.

Isso não significa transferir para a criança a responsabilidade por impedir uma violência. A proteção continua sendo dever dos adultos, das instituições e do Estado. O conhecimento funciona como uma camada adicional de proteção, capaz de ajudar meninas e meninos a reconhecer situações inadequadas, pedir ajuda e encontrar palavras para contar o que aconteceu.

Programas escolares de prevenção de violência sexual trabalham justamente com esse tipo de conteúdo. Um estudo da rede global Cochrane que reuniu 24 pesquisas, envolvendo 5.802 crianças e adolescentes, identificou elementos recorrentes nesses programas: regras de segurança, conhecimento sobre o próprio corpo e suas partes íntimas, distinção entre diferentes tipos de toque e de segredo e identificação de pessoas a quem recorrer quando algo acontece.

A revisão encontrou evidências de que crianças que participaram desses programas ampliaram tanto o conhecimento sobre prevenção do abuso sexual quanto habilidades de autoproteção. Também não foram encontradas evidências de que as atividades aumentassem medo ou ansiedade entre os participantes. Em relação à revelação de abusos, os resultados indicaram maior probabilidade de relatos entre crianças expostas aos programas, embora os próprios autores ressaltem incertezas metodológicas nesse resultado.

A evidência disponível, portanto, não autoriza afirmar que uma aula ou programa escolar seja capaz, isoladamente, de impedir que uma criança sofra abuso. A própria revisão Cochrane observa que os estudos não permitem avaliar adequadamente efeitos de longo prazo sobre a incidência da violência. O que os resultados sustentam é algo mais específico: essas intervenções aumentam conhecimento e habilidades de proteção.

No Brasil, materiais produzidos pelo Fundo das Nações Unidas para a Infância  (UNICEF) tratam a escola como parte dessa rede. O guia Conhecer para Proteger, elaborado pelo UNICEF, em parceria com a Secretaria Municipal de Educação de São Paulo, foi criado para auxiliar educadores a reconhecer, acolher, prevenir e encaminhar diferentes formas de violência contra crianças. O documento parte da compreensão de que a escola pode funcionar como espaço privilegiado para a identificação de violências físicas, psicológicas, sexuais e situações de negligência. 

A estratégia Educação que Protege, também do UNICEF, é ainda mais direta: segundo a organização, é na escola que muitas violências sofridas no ambiente familiar ou comunitário são percebidas e é a professores que estudantes, muitas vezes, relatam pela primeira vez experiências de sofrimento. Entre os fatores que a instituição associa à prevenção estão autoproteção, autoestima, autoconfiança, construção de relações protetivas e capacidade de romper ciclos de violência. 

Isso ajuda a explicar por que determinados conhecimentos sobre corpo e limites não são tratados por especialistas como uma ameaça à infância, mas como instrumentos possíveis de proteção.

Ensinar uma criança pequena que determinadas partes do corpo são privadas; que ela pode dizer não a um toque que a deixa desconfortável; que ninguém deve obrigá-la a guardar um segredo que lhe cause medo; ou que deve procurar outro adulto caso a primeira pessoa não a escute não equivale a ensinar práticas sexuais.

É justamente essa diferença que tende a desaparecer quando qualquer abordagem de corpo, sexualidade ou consentimento é resumida politicamente pela expressão “sexualização infantil”.

A escola tampouco deve ser idealizada. Violências também podem ser cometidas em instituições de ensino, por profissionais, colegas ou outras pessoas. Uma política de proteção precisa reconhecer essa possibilidade e criar mecanismos de prevenção e responsabilização.

Sua função na rede de proteção é outra: oferecer à criança relações e canais de escuta que não dependam exclusivamente de sua própria família.

Essa característica ganha importância particular quando os dados apresentados anteriormente mostram que a residência é o principal local dos estupros de vulnerável registrados e que familiares e conhecidos predominam entre os autores identificados.

Se a pessoa que ameaça a criança pode ser justamente alguém de quem ela depende, a proteção exige mais do que vigilância parental. Exige que a criança saiba que pode falar. E que exista alguém, fora daquela relação de poder, capaz de ouvi-la.

E quando a criança deixa de frequentar a escola?

Se a escola pode funcionar como um dos espaços externos à família em que situações de violência são percebidas ou reveladas, a expansão da educação domiciliar coloca uma questão adicional para a rede de proteção: quem mantém contato independente e regular com a criança quando sua rotina educacional passa a acontecer predominantemente dentro de casa?

A pergunta está no centro de um debate que voltou a ganhar força no Congresso em 2026, como o Bereia já publicou. O PL 1.338/2022, que regulamenta a educação domiciliar na educação básica, permanece em tramitação no Senado. O texto foi aprovado pela Câmara em 2022 e recebeu parecer favorável da relatora na Comissão de Educação e Cultura, senadora Professora Dorinha Seabra (União-TO). 

Pelo projeto, a educação domiciliar não significaria um rompimento completo com o sistema escolar. A criança ou adolescente teria de permanecer matriculado anualmente em uma instituição de ensino credenciada. Pelo menos um dos responsáveis ou o preceptor deveria comprovar formação superior ou profissional tecnológica, e os pais ou responsáveis teriam de apresentar certidões criminais. O currículo deveria observar a Base Nacional Comum Curricular, e as atividades realizadas em casa seriam registradas em relatórios trimestrais enviados à instituição. 

O texto prevê ainda acompanhamento por um docente tutor da escola, com encontros semestrais envolvendo responsáveis, estudante e eventual preceptor, além de avaliações anuais de aprendizagem. Também estabelece acompanhamento pelo sistema de ensino e fiscalização pelo Conselho Tutelar, bem como a obrigação de garantir a convivência familiar e comunitária da criança ou adolescente. 

Há ainda impedimentos relacionados à proteção da criança. A modalidade não poderia ser adotada quando o responsável legal direto tivesse sido condenado ou estivesse cumprindo pena por crimes previstos no Estatuto da Criança e do Adolescente, na Lei Maria da Penha, nos crimes contra a dignidade sexual previstos no Código Penal, na Lei de Drogas ou na Lei de Crimes Hediondos. 

Esses dispositivos são apresentados por defensores da regulamentação como demonstração de que homeschooling não significaria ausência de supervisão estatal. Em pronunciamento no Senado, Magno Malta (PL-ES) chegou a citar a existência do Conselho Tutelar ao responder às críticas sobre a dificuldade de fiscalização das famílias que adotassem a modalidade. 

O texto, portanto, prevê salvaguardas. Porém, a pergunta levantada pelos dados sobre violência intrafamiliar é mais específica: essas salvaguardas são suficientes para que uma criança que esteja sofrendo violência dentro de casa consiga ser vista, ouvida e protegida?

Grande parte dos mecanismos estabelecidos no projeto está relacionada ao acompanhamento pedagógico: matrícula, currículo, relatórios, avaliações e desempenho escolar. Há previsão expressa de fiscalização pelo Conselho Tutelar e de contatos periódicos com a instituição de ensino. No texto aprovado pela Câmara e agora analisado pelo Senado, porém, Bereia não identificou exigência expressa de visitas domiciliares periódicas, de escuta individual e reservada da criança sem a presença dos responsáveis ou de outro procedimento específico voltado à detecção de uma eventual violência praticada dentro da própria residência. 

A distinção é importante porque uma certidão criminal pode impedir que alguém já condenado em determinadas situações adote a modalidade, mas não resolve, por si só, o problema de uma violência que ainda não foi descoberta ou denunciada.

Essa preocupação não permite concluir que crianças educadas em casa sofram mais abusos.

Um artigo publicado, em 2025, na revista científica Child Abuse & Neglect, realizada por pesquisadores das universidades da Pensilvânia, Carolina do Norte, Berkeley e Southern California, analisou justamente a relação entre homeschooling e maus-tratos infantis nos Estados Unidos. Os autores encontraram evidências empíricas ainda limitadas e insuficientes para estabelecer que crianças educadas em casa tenham maior risco de abuso ou negligência do que estudantes escolarizados. 

Ao mesmo tempo, a revisão identifica uma preocupação específica: a redução do contato cotidiano com profissionais e instituições externas à família pode diminuir oportunidades de identificação de maus-tratos. Casos graves envolvendo crianças homeschoolers impulsionaram propostas de maior supervisão em estados norte-americanos, mas os autores ressaltam que faltam dados confiáveis para medir adequadamente o fenômeno.

É justamente essa função de observação externa que organismos de proteção destacam ao falar da escola.

Unicef

O UNICEF afirma que muitas violências ocorridas no ambiente familiar ou comunitário são percebidas na escola e que professores estão, frequentemente, entre as primeiras pessoas a quem estudantes contam experiências de sofrimento. Por isso, a organização trata a comunidade escolar como parte de uma rede intersetorial que envolve também saúde, assistência social, Conselhos Tutelares, segurança pública e Justiça. 

Ao se posicionar especificamente sobre educação domiciliar, o UNICEF argumentou que a escola desempenha funções que vão além da aprendizagem: convivência com diferentes pessoas e ideias e, especialmente, proteção contra a violência. A organização relacionou essa preocupação ao fato de grande parte das violências contra crianças ocorrer dentro de casa e envolver pessoas conhecidas.

O debate, portanto, não pode ser reduzido a uma oposição entre “pais que protegem” e “Estado que interfere”, nem à ideia inversa de que toda criança educada em casa estaria em situação de risco.

Quem define o perigo?

Quando a violência pode partir de alguém próximo, proteção significa também permitir que crianças adquiram linguagem para reconhecer limites, tenham contato com diferentes adultos de confiança e saibam que podem buscar ajuda fora da relação em que a violência ocorre.

É aí que a diferença entre proteção baseada em evidências e proteção mobilizada como disputa moral se torna relevante. Foi esse deslocamento que o Bereia encontrou ao percorrer dados oficiais, pesquisas, checagens anteriores e manifestações políticas de 2026. A questão não é decidir quem “se importa mais” com as crianças.

É observar quem recebe autoridade para definir o perigo, quais ameaças são colocadas no centro do debate e quais ficam à margem quando se fala em protegê-las. Porque uma política de proteção infantil não pode depender apenas daquilo que mais assusta, mobiliza e cria identificação política. Precisa começar por aquilo que as evidências mostram.

E, quando os dados indicam que o perigo pode estar justamente entre pessoas conhecidas, relações de confiança e paredes familiares, proteger crianças também significa garantir que elas tenham direitos, informação e pessoas a quem recorrer além dessas paredes.

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O levantamento do Bereia e os dados pesquisados indicam um processo de desinformação em torno dos perigos alçados a prioridade política e legislativa por parlamentares e grupos alinhados à direita política, que apagam aqueles, mais frequentes nos registros oficiais, que fazem parte do mesmo debate. 

Referências: 

UNICEF/FBSP – Panorama da Violência Letal e Sexual contra Crianças e Adolescentes no Brasil 2021–2023. https://www.unicef.org/brazil/relatorios/panorama-da-violencia-letal-e-sexual-contra-criancas-e-adolescentes-no-brasil-2021-2023  Acesso em 30 set 2026

UNICEF – Disrupting Harm in Brazil: Enfrentando a violência sexual contra crianças facilitada pela tecnologia (2026). https://www.unicef.org/brazil/relatorios/disrupting-harm-brazil-2026   Acesso em 30 set 2026

UNICEF – Educação que Protege. https://www.unicef.org/brazil/educacao-que-protege   Acesso em 30 set 2026

UNICEF/SME-SP – Conhecer para Proteger: enfrentando a violência na primeira infância. https://www.unicef.org/brazil/relatorios/conhecer-para-proteger   Acesso em 30 set 2026

UNICEF – Experiências didáticas por uma Educação que Protege. https://www.unicef.org/brazil/relatorios/experiencias-didaticas-por-uma-educacao-que-protege   Acesso em 30 set 2026

UNICEF/Undime https://www.unicef.org/brazil/relatorios/busca-ativa-escolar-e-protecao-contra-violencias   Acesso em 30 set 2026

Lei 13.431/2017 https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2015-2018/2017/lei/l13431.htm   Acesso em 30 set 2026

Trotti & Lowenkron

https://www.scielo.br/j/sess/a/q5rrcnY5bDHDLTf7qFk4BRL/abstract/?lang=pt   Acesso em 30 set 2026

Educação https://educa.fcc.org.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1984-64442023000100298   Acesso em 30 set 2026

Revista Linhas ,https://share.google/FnoRxGFRZIUlh9wcc   Acesso em 30 set 2026

Cadernos de Pesquisa. https://www.scielo.br/j/cp/a/W6SQyMyKWG6SfzKbLVbsWHQ/abstract/?lang=pt   Acesso em 30 set 2026

PL 1.338/2022 – Senado Federal.
https://www25.senado.leg.br/web/atividade/materias/-/materia/153194   Acesso em 30 set 2026

RQS 495/2026.
Requerimento apresentado por lideranças do Novo, PL, PP e Republicanos. https://www25.senado.leg.br/web/atividade/materias/-/materia/174906   Acesso em 30 set 2026

Eleições para Conselhos Tutelares reafirmam urgência de se compreender lugar da religiosidade na vida pública

Nenhuma igreja evangélica, sozinha, é a responsável pelos conselheiros tutelares eleitos. O sistema de proteção à infância tem desafios que atravessam a sociedade brasileira como um todo. Não custa lembrar que até mesmo boa parte do campo progressistas despreza essa pauta, pois mesmo quando fazem a disputa por posições nos conselhos, esquece-se que o fundamental da disputa pelo bem-estar das crianças se dá na dimensão da comunidade.

Apontar os evangélicos como culpados é esquecer do que preconiza o Estatuto da Criança e do Adolescente em relação à infância: somos todos responsáveis. Todos. O que estou vendo, sobretudo, é a incapacidade de reconhecermos nossas falhas, nossa opção ou nossa omissão no trato com a infância. Basta vermos o número de crianças atingidas pela letalidade policial e nossa inércia na reação. Então, como não temos respostas nem conseguimos fazer autocrítica, é mais fácil acirrar a disputa ideológica, alimentar uma guerra santa sem ter controle dos dados reais (evangélicos ainda não são maioria no país) e atacar a religiosidade escolhida pelos mais vulneráveis, que é a fé evangélica.

Líderes evangélicos associados com a extrema direita usam o trunfo que está sendo dado pelos progressistas. E vice-versa, mas numa escala muito menor. Ou a gente entende o papel da nova religiosidade brasileira na vida pública ou não vamos a lugar nenhum, seremos tragados pelos nossos discursos que não acham aderência popular. A pauta moral está posta, e ela não orienta somente a vida dos evangélicos, mas da maioria dos brasileiros.

Tenho a impressão, ao olhar para o resultado dos Conselhos, que querem me fazer acreditar que os evangélicos são um grupo de talibãs que vivem normalmente no meio de uma sociedade com altos marcos civilizatórios. É possível isso?

Talvez caiba a nós, comprometidos com um Brasil mais justo, mais igualitário, falarmos das crianças em todo o tempo e em todo lugar. Quando colocarmos a criança na centralidade da vida, dentro do debate sobre emprego e renda, dentro do debate sobre violências, dentro do debate sobre a qualidade da educação, dentro do debate sobre saúde, dentro do debate sobre a cidade que queremos, a eleição de conselheiros tutelares não será o que tem sido, pois os oportunistas (de qualquer credo) serão desmascarados, e esse processo que precisa ser regulado pela Justiça Eleitoral será regulado, antes, pelo compromisso com a proteção integral das crianças.

**Os artigos da seção Areópago são de responsabilidade de autores e autoras e não refletem, necessariamente, a opinião do Coletivo Bereia.

Deputado Federal da Bancada Evangélica defende trabalho infantil após vitória olímpica

Ao comemorar a vitória olímpica da skatista maranhense Rayssa Leal, 13 anos, durante a madrugada de 26 de julho, o deputado federal Sóstenes Cavalcante (DEM-RJ) publicou um posicionamento em defesa do trabalho infantil.

“As crianças brasileiras de 13 anos não podem trabalhar, mas a skatista Rayssa Leal ganhou a medalha de prata na Olimpíadas… Ué! É pra pensar… Parabéns a nossa medalhista olímpica! E revisão do Estatuto da Criança e Adolescente já!”, declarou em sua mídia social, momentos após a conquista de Rayssa. 

E, na tarde do mesmo dia citou um artigo do Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA): “Art. 60. É proibido qualquer trabalho a menores de quatorze anos de idade.” 

Eu defendo a revisão deste artigo no Estatuto da Criança e Adolescente, se atentem para a palavra QUALQUER no texto da lei.

Reprodução do Twitter

Créditos: Reprodução/ Wander Roberto /COB

Rayssa, mais conhecida como Fadinha, conquistou a medalha de prata na modalidade skate street nas Olimpíadas de Verão de Tóquio 2020. O feito aconcedeu o posto de medalhista mais jovem do Brasil durante suas participações nos Jogos Olímpicos.

Reprodução do Twitter

Sóstenes Silva Cavalcante é filiado ao Partido Democratas (DEM) e atualmente está em seu segundo mandato como deputado federal, reeleito pelo estado do Rio de Janeiro para 2019-2023. Além de teólogo e especialista em Gestão Pública, o deputado é pastor da Igreja Assembleia de Deus Vitória em Cristo, presidida pelo pastor Silas Malafaia, seu maior apoiador. Cavalcante é vice-presidente da Frente Parlamentar Evangélica.

O número de crianças e adolescentes em situação de trabalho infantil chegou a 160 milhões em todo o mundo – um aumento de 8.4 milhões de meninas e meninos nos últimos quatro anos, de 2016 a 2020, de acordo com o mais recente relatório da Organização Internacional do Trabalho (OIT) e do Fundo das Nações Unidas para a Infância (UNICEF).  Além destas crianças, outras 8,9 milhões correm o risco de ingressar nessa situação até 2022 devido aos impactos da Covid-19.

O trabalho infantil é condenado no Brasil e internacionalmente por conta das consequências físicas, econômica e psicológicas que afetam crianças. Elas estão altamente expostos a situações de risco, acidentes e problemas de saúde relacionados ao trabalho. O cansaço, distúrbios de sono, irritabilidade, alergia e problemas respiratórios prejudicam o crescimento e causam deformidades. 

Trabalho infantil

Do ponto de vista psicológico os prejuízos estão em assumir responsabilidades para além da idade adequada, o que se somam a muitos abusos cometidos com os crimes de tráfico e exploração sexual. O trabalho também afeta a capacidade da criança para frequentar a escola e aprender, tirando dela a oportunidade de realizar plenamente seus direitos à educação, lazer e desenvolvimento. Estudos comprovam que uma vida saudável ajuda na transição para a fase adulta bem-sucedida, com trabalho digno, após a conclusão da escolaridade.

O que diz a legislação

A Constituição Federal de 1988, em seu artigo 227, reconhece os direitos das crianças dentro do princípio da proteção integral:

Art. 227: É dever da família, da sociedade e do Estado assegurar à criança e ao adolescente, com absoluta prioridade, o direito à vida, à saúde, à alimentação, à educação, ao lazer, à profissionalização, à cultura, à dignidade, ao respeito, à liberdade e à convivência familiar e comunitária, além de colocá-los a salvo de toda a forma de negligência, discriminação, exploração, violência, crueldade e opressão.

A Constituição ainda proíbe o trabalho de pessoas menores de 16 anos, salvo na condição de aprendiz, a partir de 14 anos:

Art. 7º São direitos dos trabalhadores urbanos e rurais, além de outros que visem à melhoria de sua condição social:

XXXIII – proibição de trabalho noturno, perigoso ou insalubre a menores de dezoito e de qualquer trabalho a menores de dezesseis anos, salvo na condição de aprendiz, a partir de quatorze anos.

O artigo 403 da Consolidação das Leis do Trabalho (CLT) , por sua vez, estabelece também a idade mínima para o trabalho aos 16 anos.

Além desta legislação a vedação ao trabalho infantil é reafirmada no Estatuto da Criança e do Adolescente, um conjunto de dispositivos que regula os direitos de crianças e de adolescente brasileiros, instituído em 13 de julho de 1990. No Capítulo V: Do Direito à Profissionalização e à Proteção no Trabalho, Artigo 60 e 68:

Art. 60. É proibido qualquer trabalho a menores de quatorze anos de idade, salvo na condição de aprendiz. 

Art. 68. O programa social que tenha por base o trabalho educativo, sob responsabilidade de entidade governamental ou não-governamental sem fins lucrativos, deverá assegurar ao adolescente que dele participe condições de capacitação para o exercício de atividade regular remunerada. 

§ 1º Entende-se por trabalho educativo a atividade laboral em que as exigências pedagógicas relativas ao desenvolvimento pessoal e social do educando prevalecem sobre o aspecto produtivo. 

A afirmação do deputado Sóstenes Cavalcante 

Segundo Ariel Alves, jurista da OAB-SP, seção de Direitos Humanos, especializado em direito de crianças e adolescentes, a visão do deputado é totalmente distorcida ao fazer uma comparação  esdrúxula e inoportuna. “Praticar esportes e ser vítima de exploração do trabalho infantil são situações totalmente diferentes. A criança não é forçada a praticar esportes. Ela pratica por vontade e pelo prazer de praticar esportes. Na exploração do trabalho infantil não existe vontade e prazer, e sim a necessidade imposta pelas condições sociais e econômicas da família na qual a criança está inserida.” 

Alves reforça que o trabalho infantil é proibido para todas as crianças e adolescentes com menos de 16 anos, exceto como menores aprendizes, a partir dos 14 anos.

“Muitas vezes o trabalho infantil, além de prejudicar o desenvolvimento saudável, o lazer e os estudos das crianças,  acaba sendo porta de entrada para a exploração sexual, o consumo e tráfico de drogas e a criminalidade juvenil, principalmente quando o trabalho ocorre nas ruas ou durante as noites. Bem diferente das práticas esportivas, que costumam ser portas de entrada para o desenvolvimento físico e psicológico saudável e para a inclusão social”, conclui.

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Com base na apuração, Bereia conclui que o conteúdo publicado pelo deputado Sóstenes Cavalcante em suas mídias sociais é enganoso. O deputado é contra a legislação brasileira que defende a formação saudável de crianças até 14 anos, livres da exploração do trabalho, e para defender sua posição, expõe para seus seguidores uma equivalência enganosa que coloca a prática esportiva e o trabalho como iguais, usando a medalha olímpica obtida por Rayssa Leal, de 13 anos, como argumento. A participação de crianças em competições oficiais é feita mediante concessões e autorizações dos pais e não se enquadra como trabalho, visto que não existe o cumprimento de carga horária. Estas práticas seguem protocolos específicos como os que existem para atividades remuneradas permitidas por lei como o de Menor Aprendiz.

Referências de checagem 

Artigo 60 da Lei nº 8.069 de 13 de Julho de 1990 https://www.jusbrasil.com.br/topicos/10610536/artigo-60-da-lei-n-8069-de-13-de-julho-de-1990 Acesso em: [27 Jul 2021]

Unicef. https://www.unicef.org/brazil/comunicados-de-imprensa/trabalho-infantil-aumenta-pela-primeira-vez-em-duas-decadas-e-atinge-um-total-de-160-milhoes-de-criancas-e-adolescentes-no-mundo Acesso em: [28 Jul 2021]

Consequências do trabalho infantil.  https://livredetrabalhoinfantil.org.br/trabalho-infantil/consequencias/  Acesso em: [28 Jul 2021]

Cidade e Escola Aprendiz

https://www.cidadeescolaaprendiz.org.br/o-ministerio-da-saude-nas-acoes-de-prevencao-erradicacao-trabalho-infantil/ Acesso em: [27 jul 2021]

Constituição Federal.

http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/constituicao/constituicao.htm Acesso em: [31 jul 2021]

Consolidação das Leis do Trabalho. http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/decreto-lei/del5452compilado.htm Acesso em: [31 jul 2021]

Estatuto da Criança e do Adolescente. https://www.gov.br/mdh/pt-br/centrais-de-conteudo/crianca-e-adolescente/estatuto-da-crianca-e-do-adolescente-versao-2019.pdf Acesso em: [31 jul 2021]

Site evangélico diz que pediatra defende masturbação infantil

Em 11 de junho, o portal Gospel Prime publicou a matéria intitulada “Médica diz que ‘é normal crianças de 4 anos se masturbarem’”. O texto repercutiu uma postagem da médica pediátrica e comentarista das organizações Globo Ana Escobar sobre masturbação infantil. Sem ouví-la, Gospel Prime baseou a matéria apenas nas críticas feitas por usuários de mídias sociais.

Gospel Prime omitiu a diferenciação entre masturbução infantil e adulta

De acordo com o portal evangélico, a colunista da revista Crescer, que trata de temas ligados à infância, teria dito que “a masturbação aos quatro anos é natural e saudável”. De fato, a postagem contém essa afirmação. No entanto,o texto da médica diferencia a masturbação infantil e a vida sexual adulta.

“Em torno dos 4 anos de idade as crianças começam a descobrir que têm prazer em tocar os seus órgãos genitais. A masturbação infantil é feita sem malícia e é muito diferente da vida sexual do adulto. A masturbação infantil é natural e saudável. Os pais não devem inibir nem reprimir, mas é claro, que vivemos em um mundo com regras de convivência social. Se os pais percebem que a criança está se masturbando em público devem distrair a atenção da criança para outro fato sem reprimi-la fazendo com que pare espontaneamente. Em uma outra ocasião, podem conversar com o filho e deixar claro que pode se masturbar, mas de preferência em seu quarto. A conversa deve ser tranquila e não deve taxar a masturbação como um ato proibido”, diz Ana Escobar em seu post no Instagram.

Vídeo em resposta às críticas

Além do Gospel Prime, outros sites religiosos como Guia-me e Cristianismo Global também ressaltaram a indignação de muitos seguidores da médica com a postagem. Diante da repercussão negativa, a médica gravou um vídeo no qual se diz espantada com a desinformação sobre o tema. Ela reafirma o caráter educativo da primeira postagem. Sua intenção, afirmou, era levar os pais a orientarem seus filhos a não se masturbarem em locais públicos de forma que elas não sofressem repreensão, bullying ou agressão.

 “Vocês fizeram uma salada mista. Uma criança pequenininha que se masturba ela nem sabe o que é sexo. Não tem conotação sexual nenhuma, isso está na cabeça dos adultos, mas não está no mundo infantil, a criança nem sabe o que é sexo. (…) A gente tem que tirar esse pensamento sujo dessa coisa, não tem nada a ver. (…) Esse post serve simplesmente para orientar os pais, em um ato natural de muitas crianças que descobrem sozinhas o prazer de se masturbar. Simples assim”, explicou Ana Escobar.  

Diferença entre a masturbação infantil e a vida sexual do adulto

Bereia ouviu especialistas cristãos sobre o assunto. A psicóloga e psicopedagoga Cassiane Tardivo explica que há diferença entre a masturbação infantil e o mesmo ato na vida sexual do adulto. “Quando falamos de masturbação infantil, a criança manipula seus genitais e muitas vezes por prazer. Algumas crianças até dizem ‘é porque faz uma cosquinha’[. A questão é que o sentido, o significado, que isso tem são diferentes. A masturbação adulta faz parte da sua vida sexual, está relacionada a um prazer com envolvimento de outros aspectos além do físico. Na criança é pura descoberta do corpo e de regiões que dão prazer.”

De acordo com a psicóloga e missionária da Igreja Evangélica Pentecostal Cristã (IEPC – Rio de Janeiro), Sandra Bivar Neves, a opinião da Drª. Ana Escobar está correta. “A criança entre 3 e 5 anos está descobrindo o seu corpo e naturalmente toca nas partes genitais que evidentemente faz ela sentir prazer. Então, tende a repetir esse comportamento”, afirma Sandra Neves que também é psicopedagoga e trabalhou por anos em escolas com crianças dessa faixa etária.

Orientação aos pais sobre o assunto

A missionária orienta que os pais não devem chamar a atenção, nem ter espanto dando uma conotação de pecado ou de que a criança está fazendo algo errado. “Nesta idade, não é pecado e nem errado. Se os pais observam que a criança está por muito tempo se tocando, deve distraí-la com algum brinquedo ou propor alguma outra atividade. E se ela fizer em público, os pais devem dizer que aquelas partes de seu corpo são íntimas e que não devem ser tocadas em público, assim como tirar a roupa só deve ser feito em sua própria casa. Mas tudo com naturalidade, sem chamar grande atenção para o fato”, explica.

No entanto, Sandra Neves explica que discorda de que pais digam aos seus filhos que podem masturbar-se no quarto, como orientou Ana Escobar. “Não gosto desta postura de mandar para o quarto e incentivar, como é algo natural, deve ser tratado desta forma. Normalmente, quando a criança começa a ler, entre cinco e seis anos, elas param naturalmente”.

Atenção com sexualização infantil

Alguns dos comentários críticos ao post da médica Ana Escobar diziam que seu texto promovia abuso ou sexualização infantil. Por isso, Bereia perguntou às entrevistadas qual é a diferença entre compreender que a masturbação infantil acontece (sem a conotação sexual) e a sexualização infantil.

Sandra Neves conta que ficou espantada com o teor dos comentários e a falta de informação sobre o assunto.”Pedofilia é o adulto mandar a criança tocar nele e ele tocar na criança. Não tem nada a ver com a naturalidade da masturbação infantil que é a criança conhecendo o seu próprio corpo.”

Cassiane Tardivo diz que seria reducionista ver a masturbação infantil sempre só como descoberta do corpo e assim, afirma, é importante ter atenção. “Em muitos casos de abuso, a masturbação é a porta de entrada, quando a criança é estimulada por alguém. E não basta explicar a criança que não pode mexer, porque se há prazer envolvido, como prever a força de ação dessa criança? Muitas não resistem a um chocolate”, afirma.

Ela explica que o termo ‘infantil’  diz respeito às crianças entre 2 a 12 anos e que a masturbação tem sentidos e implicações diferentes para cada faixa etária. Enquanto a masturbação das mais novas tem a ver com a descoberta do corpo após o desfralde, as mais velhas o fazem em relação ao prazer.

No entanto, ela ainda destaca que masturbação infantil e sexualização são questões diferentes. “A masturbação é a manipulação dos órgãos genitais. A sexualização infantil diz respeito ao contexto cultural, educacional, de vivência dessa criança que sexualiza seu comportamento. A sexualidade, a sensualidade, está presente nas relações, no comportamento, nas vestimentas, nas danças. Sexualização infantil é quando todos esses aspectos estão envolvidos na educação ou comportamento da criança. Quando ela mesma associa alguns comportamentos, vestimentas, etc, com sua autoestima e o fato de ser desejada e coloca seu corpo como objeto de desejo de outro. Aqui escancara-se uma porta explicita para o abuso sexual, expondo a criança e, sim, abrindo precedentes para descumprimento inclusive do Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA). Se a criança não se masturba por prazer com conotação sexual como o adulto, sexualizá-la é revesti-la dessa conotação, eis o perigo.”

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Bereia conclui que a matéria do Gospel Prime é enganosa porque omite que a médica Ana Escobar diferenciou masturbação infantil e vida sexual adulta. Ao descontextualizar a fala da pediatra, o portal deu a entender ao seu público que a médica defende a sexualização infantil. Como as especialistas consultadas pelo Bereia explicam, a masturbação infantil não tem conotação sexual. E devido o desconhecimento a respeito do sexo, a orientação é explicar à criança que as partes íntimas não devem ser tocadas em público e distraí-la para outra atividade até que ela pare naturalmente. Isso não exclui a atenção de pais e responsáveis com possíveis abusos a menores. Este é mais um caso de pânico moral já verificado em outras matérias pelo Bereia.

Referências

Ana Escobar (Instagram), https://www.instagram.com/p/CP4HxKRMpDD/. Acesso em 20 de junho de 2021.

Ana Escobar (Instagram), https://www.instagram.com/p/CP6fQCtnw2u/. Acesso em 22 de junho de 2021.Coletivo Bereia, https://coletivobereia.com.br/sao-falsos-videos-sobre-suposta-operacao-storm-no-brasil/. Acesso em 28 de junho de 2021.

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Foto de capa: Unsplash/Michał Parzuchowski