Políticos religiosos participam de sessão para criticar vacinação infantil contra covid-19

A desinformação sobre a vacina contra covid-19 é um dos temas mais checados pelo Bereia desde 2021, ano em que o imunizante foi criado. Nesta semana, o tema foi levantado novamente no Senado, durante a Sessão de Debates Temáticos, realizada no último 26 de fevereiro, presidida pelo senador espírita Eduardo Girão (Novo-CE), que declarou ser “absurda” a recomendação do Ministério da Saúde para vacinação de crianças a partir de seis meses de idade. 

Pouco antes do início da sessão, o senador afirmou que crianças pequenas não estão nos grupos prioritários. Essa informação é falsa e já foi desmentida pelo Ministério da Saúde. A faixa etária está dentro do grupo prioritário de imunização. O Brasil também não é o único país a vacinar o grupo infantil. De acordo com o Ministério, os Estados Unidos foram o primeiro país a imunizar bebês a partir dos seis meses e Canadá, Alemanha, Irlanda e Grécia também iniciaram a proteção de crianças contra a doença.

O senador Girão também criticou a decisão do ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Cristiano Zanin, que suspendeu decretos de municípios de Santa Catarina que dispensavam a exigência de vacina contra a covid-19 para matrícula e rematrícula na rede pública de ensino. A liminar foi concedida com base na “excepcional urgência” da situação, visando evitar que as crianças sejam expostas a um ambiente de insegurança sanitária devido à proximidade da volta às aulas no estado. O ministro ressaltou que a necessidade de imunização, assegurada no Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA), se sobrepõe a eventuais pretensões individuais de não vacinar.

A reação de políticos contrários à vacinação infantil ocorre porque, desde janeiro deste ano, a imunização contra covid foi incluída no Calendário Nacional de Vacinação Infantil para crianças abaixo de cinco anos, com a vacina da Pfizer. Trata-se, na verdade, de uma recomendação do Ministério da Saúde e não uma obrigação. Porém, o ECA determina a obrigatoriedade da vacinação em crianças nos casos recomendados pelas autoridades sanitárias.

Para corroborar seu posicionamento contra a vacinação de crianças, o Eduardo Girão apresentou trouxe para participação, por videoconferência com tradução simultânea, o cardiologista americano Peter McCullough, que desde 2021 espalha boatos e alegações falsas sobre o imunizante, amplamente desmentidos por agências de checagem. O médico foi um dos defensores do “tratamento precoce” para covid-19 — que não se comprovaram eficazes. A sessão contou com a presença da deputada católica Carla Zambelli (PL-SP) e da senadora evangélica Damares Alves (Republicanos-DF).

Bereia apurou que, desde o ano passado, o Senado tem sido palco para defesas anti-vacinas, onde, da tribuna, o senador evangélico Magno Malta (PL-ES) utilizou-se de falsidades e teorias conspiratórias para atacar os imunizantes contra covid-19. Na ocasião, o senador alegou que o imunizante faz parte de um “esquema mundial de controle da Organização Mundial da Saúde (OMS), sob o domínio de figuras como Bill Gates, George Soros e a família Rockfeller”. 
O vice-presidente da Sociedade Brasileira de Imunizações, Renato Kfouri, ressaltou a importância da vacinação das crianças até dois anos. “Na covid-19 existe um grupo que não teve nenhuma experiência ainda com vacinas, não teve a oportunidade de se vacinar, e nem de se expor ao vírus. São justamente as crianças que vêm nascendo nos dois últimos anos”.

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Foto de capa: Pedro França/Agência Senado

Eleições para Conselhos Tutelares reafirmam urgência de se compreender lugar da religiosidade na vida pública

Nenhuma igreja evangélica, sozinha, é a responsável pelos conselheiros tutelares eleitos. O sistema de proteção à infância tem desafios que atravessam a sociedade brasileira como um todo. Não custa lembrar que até mesmo boa parte do campo progressistas despreza essa pauta, pois mesmo quando fazem a disputa por posições nos conselhos, esquece-se que o fundamental da disputa pelo bem-estar das crianças se dá na dimensão da comunidade.

Apontar os evangélicos como culpados é esquecer do que preconiza o Estatuto da Criança e do Adolescente em relação à infância: somos todos responsáveis. Todos. O que estou vendo, sobretudo, é a incapacidade de reconhecermos nossas falhas, nossa opção ou nossa omissão no trato com a infância. Basta vermos o número de crianças atingidas pela letalidade policial e nossa inércia na reação. Então, como não temos respostas nem conseguimos fazer autocrítica, é mais fácil acirrar a disputa ideológica, alimentar uma guerra santa sem ter controle dos dados reais (evangélicos ainda não são maioria no país) e atacar a religiosidade escolhida pelos mais vulneráveis, que é a fé evangélica.

Líderes evangélicos associados com a extrema direita usam o trunfo que está sendo dado pelos progressistas. E vice-versa, mas numa escala muito menor. Ou a gente entende o papel da nova religiosidade brasileira na vida pública ou não vamos a lugar nenhum, seremos tragados pelos nossos discursos que não acham aderência popular. A pauta moral está posta, e ela não orienta somente a vida dos evangélicos, mas da maioria dos brasileiros.

Tenho a impressão, ao olhar para o resultado dos Conselhos, que querem me fazer acreditar que os evangélicos são um grupo de talibãs que vivem normalmente no meio de uma sociedade com altos marcos civilizatórios. É possível isso?

Talvez caiba a nós, comprometidos com um Brasil mais justo, mais igualitário, falarmos das crianças em todo o tempo e em todo lugar. Quando colocarmos a criança na centralidade da vida, dentro do debate sobre emprego e renda, dentro do debate sobre violências, dentro do debate sobre a qualidade da educação, dentro do debate sobre saúde, dentro do debate sobre a cidade que queremos, a eleição de conselheiros tutelares não será o que tem sido, pois os oportunistas (de qualquer credo) serão desmascarados, e esse processo que precisa ser regulado pela Justiça Eleitoral será regulado, antes, pelo compromisso com a proteção integral das crianças.

**Os artigos da seção Areópago são de responsabilidade de autores e autoras e não refletem, necessariamente, a opinião do Coletivo Bereia.