Senador da Bancada Evangélica distorce informações publicadas em veículos estrangeiros

O senador da Bancada Evangélica no Congresso Nacional Luis Carlos Heinze (PP-RS) voltou a apresentar dados controversos durante o segundo depoimento do ministro da saúde Marcelo Queiroga à Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) da Covid, na terça-feira (08/06). Desta vez, o senador falou a respeito de matérias publicadas em veículos estrangeiros sobre dados positivos da economia brasileira. “O (The) Wall Street Journal mostrou na semana que passou o crescimento do Brasil pós-pandemia, uma das melhores economias do mundo, pelo trabalho realizado pelo ministro, pelo presidente da República e seus ministros. Na semana passada, retrasada, a BBC de Londres também fez uma publicação sobre a redução da pobreza, trabalho também realizado pelo Governo Jair Bolsonaro. Então, vamos falar de coisas positivas!”, afirmou o senador que é suplente da CPI da Covid e assumiu a vaga de titular no lugar de Ciro Nogueira (PP-PI), que está em viagem aos EUA, nesta semana. 

A matéria do The Wall Street Journal

Na verdade, o jornal americano The Wall Street Journal não destaca o “Pós-pandemia”, em matéria publicada em 02 de junho de 2021, mas a recuperação econômica do país, mesmo com números tão expressivos de mortes e casos de covid-19. A matéria explica que o crescimento de 1,2% no primeiro semestre deste ano foi puxado por um crescimento dos preços de commodities (matérias primas uniformes comercializados no mercado global, por exemplo, soja). A reportagem ainda explica que enquanto o auxílio emergencial evitou perdas econômicas ainda mais severas diante da crise (o PIB caiu 4,1% em 2020), o nível da dívida pública (em 86,7% do PIB) é insustentável em um país em desenvolvimento e prejudica a velocidade de crescimento à frente.

Além disso, em entrevista para o podcast O Assunto, o economista Alexandre Schwartzman analisou que o governo conseguiu uma redução da dívida pública por conta de um crescimento da inflação. “Não é um processo sustentável. Queremos controlar a dívida para não ter inflação, não o contrário”, disse à jornalista Renata Lo Prete. A taxa de 0,83% em maio foi a maior para este mês em 25 anos. Apesar de reconhecer que o crescimento é positivo, ele ainda pondera que o emprego ainda não voltou. Esse é o cenário que mostra uma queda de renda e continuidade do desemprego mesmo com crescimento do PIB. 

Brasil cai em relatório de investimentos

Um relatório elaborado pela Austin Rating com 50 nações, classifica o Brasil em 19º lugar em ranking mundial de PIBs, ficando atrás dos vizinhos Colômbia (7º) e Chile (4º). O país perdeu sete posições em relação ao ranking do 4o trimestre de 2020, em que estava na 12a posição. De acordo com Alex Agostini, economista-chefe da Austin Rating, pode-se considerar o crescimento de 1,2% um resultado positivo dentro das condições econômicas apresentadas: pandemia ainda em curso e ambiente fiscal ainda fragilizado. “Porém, considerando que a maior parte dos países que ficou na frente do Brasil no ranking são emergentes, então o resultado não foi tão bom assim, pois, esses países são nossos concorrentes na atração de investimentos que, em última instância, significa maior potencial de geração de emprego e renda”, explica o economista que considera a queda do Brasil em sete posições no ranking, de 12º lugar, no quarto trimestre de 2020, para 19º no primeiro trimestre de 2021, não ser preocupante, mas faz ressalvas. “O que preocupa é o baixo nível de investimentos na economia que, por sua vez, tem se transformado na perda dos fatores de produção nos últimos anos e, com isso, reduzido o PIB potencial do Brasil”. 

O senador também ressalta em sua fala, reportagem supostamente publicada no site da BBC de Londres sobre a diminuição da pobreza no Brasil, o que não confere. Em checagem publicada em nosso site, a partir da matéria do portal evangélico Pleno News, o Beréia constatou que se tratava de informação enganosa. A matéria não era da BBC de Londres e não tratava de dados referentes ao ano de 2020, mas sim dados compilados entre 2014 a 2019.

***

Bereia classifica a fala do senador Luis Carlos Heinze como enganosa. Ainda que o crescimento de 1,2% do PIB no primeiro trimestre de 2021 seja verdadeiro, não se trata do cenário pós-pandemia. Além disso, o crescimento do PIB ainda não é acompanhado pelo crescimento da renda e do emprego. Na verdade, a dívida pública alta e o crescimento da inflação são pontos de atenção para a economia brasileira. Quanto à matéria da BBC, os dados diziam respeito ao período pré-pandemia.

A prática recorrente de desinformação do senador Heinze na CPI da Covid, em parceria com o senador Marcos Rogério (DEM-RO), já foi abordada em matéria do Bereia.

Referências

BBC Brasil (Youtube), https://youtu.be/JKIx9AMwRU8?t=17462. Acesso em 9 de junho de 2021.

The Wall Street Journal, https://www.wsj.com/articles/brazils-economy-bounces-back-to-pre-pandemic-levels-while-covid-19-still-rages-11622587028?page=1. Acesso em 10 de junho de 2021.

Infomoney, https://www.infomoney.com.br/mercados/ate-onde-vai-o-boom-das-commodities-que-tem-sustentado-a-bolsa-veja-expectativas-e-acoes-que-surfam-na-onda/. Acesso em 10 de junho de 2021.

G1, https://g1.globo.com/podcast/o-assunto/noticia/2021/06/10/o-assunto-470-o-governo-como-socio-da-inflacao.ghtml. Acesso em 10 de junho de 2021.

G1, https://g1.globo.com/economia/noticia/2021/06/09/ipca-inflacao-acelera-em-maio-e-chega-a-083percent.ghtml. Acesso em 10 de junho de 2021.

UOL, https://economia.uol.com.br/noticias/bbc/2021/06/10/na-contramao-do-pib-renda-do-brasileiro-cai-10-com-inflacao-em-alta-e-desemprego.htm. Acesso em 10 de junho de 2021.

Austin Ratings, https://drive.google.com/file/d/1isYHZDTr2RP-6X2Iyv2GsvsC5NzLMjJb/view?usp=sharing. Acesso em 10 de junho de 2021.

Alex Agostini, https://drive.google.com/file/d/1N2tcdc5pByhj7jicG42yN1aLtfEly8-6/view?usp=sharing. Acesso em 10 de junho de 2021.

Coletivo Bereia, https://coletivobereia.com.br/pleno-news-desinforma-sobre-pobreza-no-brasil/. Acesso em 10 de junho de 2021.Coletivo Bereia, https://coletivobereia.com.br/senadores-evangelicos-abusam-das-fake-news-na-cpi-e-sao-confrontados-por-senadora-evangelica/. Acesso 11 de junho de 2021.

***

Foto de capa: Jefferson Rudy/Agência Senado

Lideranças religiosas seguem publicando conteúdo falso contra prevenção à covid-19

Um aviso dado como “Gravíssimo” que circula em mídias sociais, contestando a eficácia das máscaras e indicando a hidroxicloroquina como tratamento bem como a pandemia como produção da China, foi reproduzido em espaços digitais de lideranças religiosas a partir da noite de 3 de junho.

Imagem

O conteúdo é falso e enganoso e tem por objetivo causar confusão no enfrentamento da pandemia, que já matou mais de 470 mil pessoas no Brasil e, com isso, pode gerar ainda mais mortes. Ademais, busca desacreditar o trabalho de informação da imprensa sobre a covid-19.

Conteúdo falso sobre máscaras já foi verificado pelo Bereia, bem como sobre o coronavírus ter sido produzido na China. A insistência de um tratamento com hidroxicloroquina para prevenção ou cura da covid-19 da parte do governo federal, alvo de investigação da Comissão Parlamentar de Inquérito do Senado (CPI da Covid) também é informação falsa exposta em diferentes matérias do Bereia.

A menção do diretor do Instituto Nacional de Alergia e Doenças Infecciosas dos Estados Unidos Dr. Anthony Fauci na postagem desinformativa tem relação com conteúdo falso disseminado pelo Presidente da República Jair Bolsonaro. Em transmissão ao vivo realizada no último dia 3 de junho, o presidente rebateu as críticas por ele não utilizar máscaras de proteção contra a covid-19. 

Bolsonaro recorreu a matéria publicada nos EUA pela CNN, o BuzzFeed News e o Washington Post, a partir de milhares de e-mails que obtiveram, enviados e recebidos por Fauci em 2020. Em um dos e-mails, o médico afirma que máscaras devem ser usadas apenas por pessoas infectadas com o coronavírus. Porém, Bolsonaro omitiu no seu discurso que o e-mail de Fauci era datado de fevereiro de 2020, no início da pandemia, quando ainda se buscava definição de medidas. Cerca de dois meses depois, as autoridades de saúde dos EUA e a Organização Mundial de Saúde (OMS) passaram a recomendar o uso de máscaras para a população em geral.

Imagem: Reprodução de e-mail do Dr. Anthony Fauci publicado em matéria do BuzzFeed News em 04/06/2021

A postagem com o conteúdo falso, intitulado como “Gravíssimo”, emergiu nas mídias sociais na mesma noite da live de Jair Bolsonaro, e foi replicada em vários espaços digitais de lideranças religiosas. Ao verificar estes espaços, Bereia observa que os perfis contêm postagens críticas às medidas de prevenção adotadas por estados e municípios e exaltantes às posturas do governo federal durante a pandemia. 

As medidas de prevenção à covid-19 têm sido amplamente divulgadas em todo o mundo, há mais de um ano, por órgãos de saúde governamentais e privados e instituições que atuam na saúde pública. Estas medidas demandam uso de máscara, lavagem das mãos ou uso de álcool gel, higienização de ambientes, distância de pelo menos dois metros no contato pessoal e rechaço das aglomerações com saída de casa apenas nos casos de necessidade. 

Segundo estas orientações, centralizadas na Organização Mundial de Saúde (OMS), quem usa máscara pode ajudar a prevenir a propagação do vírus para outras pessoas. Isoladamente, as máscaras não são uma proteção contra a covid-19, e o uso delas deve ser combinado com o distanciamento físico e a limpeza das mãos. Deve ser dada atenção ao tipo de máscara e ao uso correto para que haja proteção eficaz. 

***

Pesquisa do Instituto DataSenado, realizada entre 11 e 13 de maio, mostra que 58% de 2,5 mil entrevistados receberam notícias falsas sobre a vacina contra a covid-19 pelas mídias sociais. A grande maioria das pessoas entrevistadas, 85%, respondeu que estas publicações prejudicam muito o combate à pandemia, enquanto 92% querem alguma punição para quem divulga falsas informações sobre vacinas. 

Pela intensidade do trabalho do Coletivo Bereia com o tema, pode-se afirmar que grupos religiosos colaboram com esta disseminação de conteúdo falso, o que é base para mais contaminação e mortes. Apesar de algumas pessoas apagarem as postagens depois de questionadas em público, o ato isolado não é suficiente para corrigir o mal semeado. Uma análise do perfil das postagens destes religiosos revela que eles/elas não mudam de atitude quanto à postura negacionista diante da pandemia e no próximo acesso a postagens como esta verificada aqui pelo Bereia, o conteúdo deverá ser replicado. Por isso é importante que leitores e leitoras que estão entre os 85% dos entrevistados pelo DataSenado estejam atentos a estes perfis nas mídias sociais, que frequentemente disseminam desinformação, para questioná-los e denunciá-los às plataformas de comunicação onde publicam. 

Referências

Jair Bolsonaro, Youtube. https://www.youtube.com/watch?v=pjfBcotB2cE Acesso em: 06 de junho de 2021.

BuzzFeed News, https://www.buzzfeednews.com/article/nataliebettendorf/fauci-emails-covid-response Acesso em: 06 de junho de 2021.

Organização Mundial de Saúde, https://www.who.int/emergencies/diseases/novel-coronavirus-2019/advice-for-public/when-and-how-to-use-masks Acesso em: 06 de junho de 2021.DataSenado, https://www12.senado.leg.br/noticias/materias/2021/05/21/datasenado-maioria-da-populacao-diz-que-a-vacinacao-esta-lenta Acesso em 06 de junho de 2021