Mulheres não podem ser pastoras?

A Convenção Batista do Sul dos EUA (a maior denominação protestante dos EUA), tomou a decisão de “restringir” o ministério pastoral feminino.

Já faz um tempo que a SBC (sigla em inglês para South Baptist Convention) está se tornando mais um “sínodo” do que, propriamente, uma convenção de igrejas locais. Com suas ações, a SBC vem tomando decisões à revelia das igrejas locais como se fosse um “Supremo Concílio”. De todo modo, a SBC tem a prerrogativa de permitir ou não a filiação de igrejas batistas que aceitam o ministério pastoral feminino. 

Foi o que aconteceu com a Igreja Batista Saddleback (Califórnia/EUA), liderada por Rick Warren, que convidou o casal de pastores Andy Wood e Stacie Wood para o suceder na liderança da igreja e o tema foi tratado na SBC. Warren até que argumentou, mas foi voto vencido e a igreja Saddleback foi desfiliada da SBC.

Quando esse tema aparece – ordenação ou não de mulheres ao pastorado –, logo surge o texto de 1 Timóteo 2.9-11 para se argumentar que lá diz expressamente: “E não permito que mulher ensine, nem que exerça autoridade sobre o homem”. E o capítulo 3 só tem qualificações para que “homens” exerçam o “episcopado”.

Antes de se recorrer a 1 Timóteo, é preciso considerar algumas questões no texto: 

1 – Há uma disputa quanto à autenticidade paulina nas chamadas “cartas pastorais” entre os pesquisadores do Novo Testamento. Isso não ocorre com Romanos e Gálatas, por exemplo, porque há consenso quanto à autoria de Paulo (sobre isso, vale ler D. A. Carson, que defende a autoria paulina das “pastorais”; e W. G. Kümmel, que argumenta contra a autoria paulina das “pastorais”);

2 – Diferente de outros textos de Paulo, as “epístolas pastorais” tomam como modelo eclesiológico as instituições do Império Romano. Nelas, está sendo retratado um período de institucionalização e a liderança reflete isso. Se antes a ênfase estava na liberdade e na profecia, onde todas e todos os fiéis podiam exercer os seus dons (no contexto paulino), com as “epístolas pastorais” a liderança é centralizada no bispo ou presbítero. A fim de combater os “falsos” ensinos e os “falsos” mestres (1 Tm 4.1-3), aparentemente de vertente gnóstica, as “epístolas pastorais” validam dois instrumentos para conter os falsos ensinos e seus mestres: o clero (bispo/presbítero) e o credo (a sã doutrina).

Em 1 Timóteo há uma disputa pelo ensino das comunidades entre homens e mulheres (principalmente com a “ordem” das viúvas, 1 Tm 5,9). O pedido para que a “mulher não ensine”, significa que havia mulheres ensinando e, agora, não é mais “permitido”. Por outro lado, o presbítero deve receber pelo seu cargo (1 Tm 5,17) e não deve ser aceita “denúncia contra presbítero” sem testemunhas confiáveis (1 Tm 5,19).

Ao longo do Novo Testamento, há modelos de liderança nas comunidades. Com Paulo, a função era exercida a partir da vocação profético-carismática em que tanto homens quanto mulheres atuavam, porque o pastoreio não era, até então, um cargo, mas sim um dom espiritual (1 Coríntios 12.28). Mais à frente, a tradição dos apóstolos estabeleceu os fundamentos da comunidade (Efésios 2.20; 4.11-12). 

Em Filipenses (1.1) já é possível ver um colegiado com presbíteros, bispos e diáconos liderando a comunidade como no modelo das sinagogas. Somente nas cartas pastorais é que aparece “ministros ordenados” (1 Tm 4,14; 2 Tm 1,6; Tito 1,5). Aqui, já há uma organização eclesiástica consolidada por conta das demandas externas às comunidades.

De acordo com o Novo Testamento, a discussão se a mulher pode ou não exercer o pastorado vai depender do contexto do texto em análise. 

Algumas perguntas ficam diante da trajetória do pastorado no Novo Testamento: é um ofício/cargo ou ainda depende dos dons espirituais para se efetivar? Se for um ofício/cargo, o dom do pastoreio é intrínseco ou não? 

Assim, a SBC recusou o “ofício/cargo” do ministério pastoral às mulheres. Quanto ao dom do pastoreio, isso ainda depende do Espírito Santo (ainda bem!). 

A própria Declaração Doutrinária da SBC, “A Fé e a Mensagem Batista”, crê que é o Espírito Santo que “concede os dons espirituais [para homens e mulheres] através dos quais eles servem a Deus na sua igreja”. Ou seja, a SBC não advoga o cessacionismo dos dons espirituais, mas sim a sua continuidade. Porque não há como limitar a ação do Espírito Santo na sua igreja. Sobre isso ainda não cabe votação em uma assembleia.

Ainda assim, a SBC tomou uma decisão “política”, não teológica. Porque a mesma Declaração Doutrinária, “A Fé e a Mensagem Batista”, entende que “tanto homens como mulheres tenham dons para o serviço na igreja”. Em sequência vem o entendimento que limita essa oferta de dons para a igreja: “o ofício de pastor é limitado a homens qualificados pela Escritura”. 

A SBC admite o dom do pastoreio que homens e mulheres podem ter, mas não admite que mulheres exerçam o ofício/cargo pastoral. E qual a razão? Porque apenas os homens são qualificados pela Escritura. Faltou escrever que não é pela “Escritura”, mas sim pela interpretação que se faz de 1 Timóteo dentro do seu contexto.

Desinformações praticadas pelos doutores da lei no meio evangélico

Não deveria ser assim, diria Jesus Cristo, mas infelizmente é. Alguns dos autointitulados intelectuais do meio evangélico, por falarem como doutores, cometem desonestidade intelectual. Ao longo das próximas semanas devo apresentar algumas delas, as quais selecionei ora pela importância da temática, ora por sua insistente repetição.

A primeira grande desonestidade é atribuir o fenômeno do pós-cristianismo europeu ao surgimento do chamado liberalismo teológico. Para estes intelectuais o declínio da fé cristã no continente europeu se deu por conta da crescente racionalização da fé, de um profícuo diálogo com a ciência. Ao contrário dos fundamentalistas que, quando muito, instrumentalizam a ciência, apropriando-se das partes que lhes interessam, os chamados teólogos liberais se propuseram a revisionar interpretações, incorporar métodos no fazimento teológico. A perspectiva era dialógica, e não ideológica como fazem os fundamentalistas, pelo simples reconhecimento que nem toda verdade estava na Bíblia.

Os que assim fazem esquecem o desgaste pela longevidade no continente (2000 anos), o que faz com que a institucionalidade ganhe expressões insuportáveis para quem quer viver a singeleza da fé. Em Estudos de Religião é recorrente a noção de as religiões possuem sua maior taxa de expansão justamente no seu início, período em que há mais espontaneidade e menos institucionalização. Ora, ao mesmo tempo que a institucionalização funciona como um foco de permanência, de resistência para um grupo religioso, ela também traz consigo o desgaste, que afasta a instituição da sua própria raiz, da sua crença primeira, como Dostoievski brilhantemente assinalou em O Grande Inquisidor.

Outro esquecimento que me parece seletivo é a ausência de menção das guerras de religião, que varreram o continente europeu, opondo católicos aos protestantes e produzindo milhares de mortes em nome da mesma fé, nos séculos XVI-XVIII. Voltaire chegou a comparar tal insanidade a um trovão irrompendo em pleno sol de meio dia. Ele também sarcasticamente assinalou, em uma de suas Cartas Inglesas, que a Bolsa de Valores de Londres produzia mais resultados em termos de tolerância religiosa e de respeito ao diferente, do que os templos religiosos, dos quais os participantes saíam com menos disposição ao diálogo. Estas estúpidas mortes pelo legado da Cristandade e não do Cristianismo, e muito menos do Cristo, marcaram profundamente a alma do europeu, tornando-o reticente a uma religião que discursa sobre o amor, mas que tem disposição de matar seu semelhante por divergência doutrinária.

Nesta mesma linha que conduz aos equívocos históricos, está o apoio de boa parte da Igreja cristã ao nazismo, bem como a insistência de certos grupos alienados da pesquisa histórica que sustentam que regime hitlerista foi de esquerda. Os que assim procedem esquecem que da invasão da URSS, e do apoio da elite alemã a Hitler para que freasse a escalada da simpatia alemã com a internacional socialista. Sim, minha prezada leitora, o nazismo sacrificou judeus e caçou comunistas. Uma vez desnudados os horrores praticados na 2ª Grande Guerra, a igreja cristã ficou adesivada com este selo da vergonha, deslegitimando sua pregação. Se para Paulo a questão era quem iria ouvir a mensagem do evangelho se não há pregadores que alcancem as diferentes etnias, após a passagem do nazismo a igreja se viu diante de uma atualização: quem vai QUERER ouvir sua pregação?

Por fim, em uma lista que não se esgota em si mesma, é preciso lembrar que parte do escanteamento da fé cristã se deu pela sua própria e inadequada pregação. Há um esquecimento do teor do querigma praticado que obsoletou Deus. Ora, se Deus é anunciado como o cirurgião do plantão eterno, ou como o Rei das melhorias sociais, quando a ciência avança encontrando novas formas, fármacos para a cura, ele se torna, como lembra Harry Emerson Fosdick, obsoleto. O mesmo procede com um governo antenado às necessidades do seu povo. Nesse caso a política traria respostas que antes eram buscadas no templo. Não foi por outro motivo que Ernst Troeltsch aventou a possibilidade da religião se substituída pela Ciência e pela Política.

Se os pregadores querem que Deus seja sempre atual, é preciso falar mais sobre Ele e menos sobre o que Ele pode fazer. Se os pregadores querem que Deus seja assunto do almoço em família, é preciso que eles dialoguem com esse tempo, com suas demandas, em suas prédicas. Caso contrário, seguirão confinando Deus ao passado e declarando sua obsoletização, sua perda crescente de importância, quanto mais respostas a Ciência e a Política fornecerem às pessoas.

Fica então a indagação: por que tais intelectuais evangélicos não abordam estes fatores ao explicarem o declínio cristão na Europa? Por que eles não mencionam que o fundamentalismo tem feito o principal estamento religioso dos Estados Unidos, a saber, a Convenção Batista do Sul, perder membros, entrar em declínio?

**Os artigos da seção Areópago são de responsabilidade de autores e autoras e não refletem, necessariamente, a opinião do Coletivo Bereia.

***Foto de capa: Imagem de Rudy and Peter Skitterians /Pixabay

Site gospel usa calamidade para divulgar mentiras sobre Igreja Batista

* Colaboração de Lenon Andrade

Leitores do Bereia solicitaram uma verificação em relação à matéria “Igreja Batista que realizou o 1º casamento gay no Brasil está sendo engolida por cratera” publicada em 07 de julho, pelo site Fuxico Gospel, conhecido por cobrir o mundo religioso. O texto afirma que o epicentro do afundamento do bairro ocorre nos fundos da Igreja do Pinheiro, liderada pela pastora Odja Barros e o pastor Wellington Santos. 

Bereia checou o caso.

Imagem: reprodução do site O Fuxico Gospel

O artigo relata o caso do afundamento do solo em quatro bairros de Maceió — Pinheiro, Mutange, Bebedouro e Bom Parto — causado pela exploração de sal-gema realizada pela empresa mineradora Braskem. O caso se desenrola desde 2018, quando moradores desesperados buscaram ajuda judicial após sofrerem com tremores de terra. Em 2019, após o Conselho Nacional de Justiça (CNJ) entrar para intermediar o caso, o diretor-geral da Agência Nacional de Mineração (ANM) alertou que o “afundamento do bairro Pinheiro pode ser uma tragédia muito maior que Brumadinho e Mariana”.

Igreja não está afundando e fica em local diferente do informado

A matéria do Fuxico traz uma característica comum em notícias falsas checadas pelo Bereia e demais agências de checagem: a ocultação da fonte de informação. O texto traz a sentença “Segundo informações” seguida de conteúdo inventado. O epicentro da tragédia fica no bairro Mutange, segundo o CNJ, e não no Pinheiro, como afirma o Fuxico.

A Igreja Batista do Pinheiro também não está afundando, como traz a manchete. Para apurar a informação, Bereia ouviu a pastora Odja Barros e checou dois laudos técnicos sobre o caso (veja abaixo). A pastora explica que “de todas as igrejas que estavam em áreas atingidas, a Igreja do Pinheiro é a única que está em local risco zero”. Ela acrescentou que a foto do buraco usada na capa da matéria fica ao lado da Paróquia Católica do Menino Jesus de Praga, que precisou mudar de local devido à calamidade. São, na verdade, mais de 30 templos atingidos pela destruição ambiental em Maceió e, como noticiado pelos jornais locais, a Igreja Batista do Pinheiro resistiu

Foto do templo da Igreja Batista do Pinheiro: reprodução/site

Bereia teve acesso aos dois laudos técnicos enviados ao Ministério Público de Alagoas, um da Defesa Civil do Estado e outro de empresa privada, que comprovam que o prédio da Igreja Batista do Pinheiro não foi atingida como os demais templos religiosos da região afetada pelo crime ambiental e foi declarada segura para continuar funcionando.

Imagem: trecho de parecer técnico de estabilidade da Igreja Batista do Pinheiro (grifo do Bereia)

Pastora Odja Barros e a Igreja Batista do Pinheiro

A Igreja Batista do Pinheiro, localizada em Maceió/AL, tem mais de 50 anos de história e tem se posicionado a favor de minorias, como as pessoas LGBTQIA+. O Brasil é o país que mais mata travestis e transexuais, conforme o relatório da Associação Nacional de Travestis e Transexuais. Em 2016, quando a igreja decidiu realizar batismos de pessoas independente de sua condição sexual, foi excluída das igrejas filiadas à Convenção Batista Brasileira (CBB), como documentado no livro “Vocação para a Igualdade”, publicado pela comunidade em 2019. Em 2021, a pastora Odja Barros recebeu ameaças de morte após celebrar um casamento homoafetivo entre duas mulheres, conforme relatado pelo noticiário e testemunhado por ela em uma entrevista ao podcast SimPodCrer. Esta expressão de ódio e violência, no entanto, gerou diversas manifestações de solidariedade em favor da pastora.

A empresa Braskem e a destruição em Maceió 

A empresa, controlada pelo grupo Odebrecht (hoje Novonor), explora sal-gema desde os anos 60. De acordo com a Prefeitura de Maceió, os primeiros movimentos do solo foram percebidos em 2005. Em abril deste ano, a história ganhou um novo capítulo: a Justiça alagoana decidiu bloquear R$ 1,08 bilhão da petroquímica para garantir o pagamento pelos danos causados aos moradores. Apesar do êxodo forçado enfrentado por cerca de 55 mil residentes, a empresa ainda não reconhece oficialmente o problema, que, segundo o Observatório da Mineração, é considerado “um dos piores crimes socioambientais da história do Brasil”.

A Igreja Batista do Pinheiro não apenas sobreviveu à destruição promovida pela empresa na cidade, como obteve recomendação do Ministério Público para ter seu o patrimônio cuidado. 

O pastor Wellington Santos, também da Igreja Batista do Pinheiro, afirmou ao Bereia a importância de esclarecer o que de fato está ocorrendo. “Precisamos furar duas bolhas, uma que a Braskem construiu, da narrativa de que ela está resolvendo tudo e que não há resistência, e outra que invisibiliza nossa luta positiva. Somos uma comunidade de fé que está resistindo para denunciar esse crime ambiental, esse ilhamento de seis bairros”.

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Conforme a apuração, Bereia avalia ser falsa a informação de que a Igreja Batista do Pinheiro está afundando. O site Fuxico Gospel veicula a fotografia de um buraco com a informação incorreta quanto à localidade, desinformando o leitor. A Defesa Civil não embargou o templo da Igreja e a instituição segue com sua programação normal. Tanto a Igreja do Pinheiro, quanto milhares de moradores, empresas e igrejas foram afetados pelo desastre ambiental em que a Braskem está envolvida. Com a falsidade, o Fuxico Gospel constrói, ainda, um discurso que leva leitores e leitoras a uma interpretação de que o caso teria sido juízo divino em castigo ao apoio que a igreja tem dado a pessoas LGBTQIA+. Colabora, portanto, com a disseminação de ódio em curso, contra direitos sexuais negados por uma parcela de religiosos e contra posturas inclusivas da parte de igrejas e suas lideranças.

Referências de checagem:

CNJ https://www.cnj.jus.br/caso-pinheiro-a-maior-tragedia-que-o-brasil-ja-evitou/ Acesso em 10 Jul 2023

G1 https://g1.globo.com/al/alagoas/noticia/2021/08/17/paroquia-do-menino-jesus-de-praga-anuncia-saida-do-pinheiro-por-causa-do-afundamento-do-solo-em-maceio.ghtml Acesso em 10 Jul 2023

https://g1.globo.com/google/amp/al/alagoas/noticia/2021/12/15/pastora-que-celebrou-casamento-entre-mulheres-e-ameacada-de-morte-e-faz-denuncia-a-policia.ghtml Acesso em 10 Jul 2023

Unisinos https://www.ihu.unisinos.br/categorias/615330-nota-do-conic-em-solidariedade-a-pastora-odja-barros  Acesso em 10 Jul 2023

Brasil de Fato https://www.brasildefato.com.br/2022/03/22/braskem-moradores-de-bairro-que-afundou-em-maceio-cobram-ha-4-anos-reparacao-de-mineradora Acesso em 10 Jul 2023

Marco Zero https://marcozero.org/braskem-causa-terremotos-e-afunda-bairros/ Acesso em 10 Jul 2023

Ministério Público Federal https://www.mpf.mp.br/al/arquivos/2021/recomendacao-no-2-de-17-de-dezembro-de-2021/ 

Observatório da Mineração https://observatoriodamineracao.com.br/crime-socioambiental-transformado-em-lucro-imobiliario-o-caso-da-braskem-em-maceio/ Acesso em 10 Jul 2023

Gazeta de Alagoas https://www.gazetadealagoas.com.br/cidades/392949/patrimonio-material-e-imaterial-igreja-ainda-resiste-no-pinheiro Acesso em 10 Jul 2023

Gazeta https://www.google.com/amp/s/www.gazetaweb.com/noticias/maceio/mais-de-30-templos-sao-realocados-em-bairros-afundados-em-maceio/%3famp Acesso em 10 Jul 2023

Foto de capa: Observatório da Mineração