Homenagem a Lula no Carnaval é fonte de desinformação em espaços religiosos: Parte 3 – evangélicos em latas de conserva

O desfile da Acadêmicos de Niterói no Carnaval do Rio, em 2026, foi marcado por controvérsias políticas e religiosas que extrapolaram o clima da tradicional festa popular. Os holofotes se viraram para a escola, estreante no grupo de elite das 12 Escolas de Samba do Rio neste ano, por conta do enredo intitulado “Do Alto do Mulungu surge a esperança: Lula, o operário do Brasil”, construído em forma de homenagem ao presidente da República. 

A representação carnavalesca da vida de Lula foi simbolicamente narrada pela mãe dele, D. Lindu, iniciada com a infância pobre no Nordeste do Brasil, passando pela liderança sindical como metalúrgico em São Paulo que o projetou à cena política e à Presidência da República em dois mandatos. O enredo ainda levou ao Sambódromo os revezes na vida do atual presidente do país, destacando a recente prisão que impediu sua recandidatura em 2018 até a posse no terceiro mandato como presidente da República, em vigor desde 2023.

Dois dos principais focos de reação política foram as acusações ao presidente Lula e à agremiação de propaganda eleitoral antecipada e uso ilícito de verbas públicas para campanha, tratados nas partes 1 e 2 desta matéria. Outro eixo de polêmica emergiu depois do desfile, realizado no domingo 15 de fevereiro, a partir de trechos do enredo e de fantasias consideradas por grupos religiosos, mais fortemente da parte de lideranças evangélicas, como depreciativas ou estereotipadas. Pastores e parlamentares ligados ao segmento protestaram publicamente e estimularam fiéis que o fizessem, acusando a escola de intolerância religiosa e de desrespeito à fé cristã. O episódio reacendeu debates recorrentes no Carnaval carioca sobre liberdade artística, laicidade e os limites entre sátira social e ofensa religiosa.

O julgamento dos desfiles anunciado na Quarta-Feira de Cinzas, 18 de fevereiro, concedeu a vitória à Escola Unidos do Viradouro e deixou em último lugar a Acadêmicos de Niterói. Com isso, a agremiação retorna para a Série Ouro do Carnaval, pela qual desfilava desde 2023, tendo sido campeã em 2025 e, consequentemente, promovida ao Grupo Especial em 2026. O rebaixamento da Acadêmicos de Niterói, situação recorrente de escolas de samba menores que chegam ao Grupo Especial, manteve vivas nas redes digitais religiosas as polêmicas em torno do caso. 

Bereia produziu um levantamento sobre o conteúdo que circulou mais intensamente em espaços digitais de identidade evangélica sobre o caso para verificar a veracidade e a falsidade em torno dele.  Nesta terceira parte da matéria é apresentada uma verificação sobre o caso das fantasias sobre famílias em latas de conserva. 

Controvérsia sobre as fantasias de latas de conserva

Depois das amplas discussões nos espaços digitais sobre propaganda eleitoral antecipada e sobre o repasse de verbas às escolas de samba para realização de campanha política, após o desfile da Acadêmicos de Niterói, emergiu um dos temas mais comentados do Carnaval 2026. Foi a ala da escola “Neoconservadores em conserva”, com fantasias que retratavam figuras caricaturadas em latas metálicas, associadas a discursos moralistas e religiosos instrumentalizados politicamente. Segundo a própria escola, a alegoria buscava representar criticamente segmentos associados ao neoconservadorismo contemporâneo, como evangélicos, agronegócio, elites econômicas, militares e defensores da ditadura. A ala integrava o enredo em homenagem ao presidente Lula da Silva, com uma abordagem dos conflitos ideológicos em torno da trajetória política dele forjada nas esquerdas. 

Imagem: Reprodução de imagem circulante em mídias sociais a partir da manhã de 16 de fevereiro de 2026

A ala integrou o 5º setor do desfile, intitulado “Assim que se firma a soberania”. O roteiro apresentado pela Acadêmicos de Niterói à Liga das Escolas de Samba do Rio de Janeiro (Liesa) e divulgado pela imprensa, introduziu a representação desta forma:

“O humor segue em voga para caracterizar os chamados ‘neoconservadores’. Um grupo que atua fortemente em oposição a Lula, votando contra a maioria das pautas defendidas por ele, como privatizações e o fim da escala de trabalho 6×1. O movimento em ascensão no Brasil passou a se associar, dentro do campo político, aos seguidores da extrema direita. 

A fantasia traz uma lata de conserva, com uma defesa da dita família tradicional, formada exclusivamente por um homem, uma mulher e os filhos. Na cabeça dos componentes, há uma variação de elementos para enumerar os grupos que levantam a bandeira do neoconservadorismo, são eles: os representantes do agronegócio (na figura de um fazendeiro), uma mulher de classe alta (perua), os defensores da ditadura militar e os grupos religiosos evangélicos. No Congresso Nacional, formam um bloco conservador que defende pautas como flexibilização do porte de armas, exaltação às Forças Armadas, interesses do agronegócio e dos valores tradicionais da família”.

Imagem: reprodução do jornal O Estado de S. Paulo, em matéria de 18 fev 2026

A repercussão negativa foi imediata entre lideranças políticas e religiosas alinhadas ao conservadorismo. Parlamentares e influenciadores evangélicos classificaram a ala como ofensiva à fé cristã e aos valores familiares, alegando que símbolos religiosos, como a Bíblia, teriam sido ridicularizados. A senadora evangélica Damares Alves (Republicanos-DF) afirmou que “usar verba pública para ridicularizar a igreja evangélica é inadmissível”, enquanto o deputado federal também evangélico Nikolas Ferreira (PL-MG) acusou a esquerda de zombar da família cristã por que a odeia.

Imagem: Trecho de vídeo de Damares Alves publicado no Instagram, em 16 de fev 2026

Imagem: Trecho de vídeo de Nikolas Ferreira publicado no Instagram, 17 fev 2026

Nas mídias sociais, a polêmica foi articulada como mobilização digital. Políticos de oposição, influenciadores e usuários de mídias digitais críticos ao governo federal passaram a publicar imagens de “famílias em conserva” em resposta ao desfile, criando uma tendência que viralizou após a apresentação da escola. A reação foi explicitamente apresentada como defesa de famílias conservadoras diante do que classificaram como ridicularização carnavalesca. Postagens virais classificaram a ala como “cristãos enlatados” ou “ataque à fé”, ampliando o alcance da controvérsia em plataformas como X, Instagram e YouTube. Veículos de mídia alinhados à extrema-direita política passaram a incentivar a adesão do público à campanha.

Imagem: Publicação do deputado federal evangélico Sóstenes Cavalcante (PL-RJ) no Instagram, 17 fev 22026

Imagem: Publicação do apresentador Ratinho no Facebook, 18 fev 2026

Imagem: Matéria de divulgação do jornal eletrônico Folha de Vitória, da Rede Vitória de Comunicação, que também inclui a TV Vitória/Record, a Jovem Pan Vitória e a rádio FM O Dia, publicada em 19 fev 2026

Imagem: Publicação de influenciadora evangélica no Instagram, 17 fev 2026

Com a força destas manifestações massivas nas mídias digitais, em algumas horas a Acadêmicos de Niterói, o governo Lula e as esquerdas políticas passaram a enfrentar mais uma acusação relacionada ao Carnaval 2026: intolerância religiosa. Desta vez com alto grau de afetação emocional no público cristão. Além das manifestações de parlamentares que anunciaram o acionamento do Ministério Público Federal, outros políticos vinculados à direita se manifestaram contra o que classificam como crime de intolerância religiosa da escola de samba, que os veículos de mídia alinhados passaram a chamar de “lulista”.

Imagem: Publicação no jornal eletrônico Gazeta do Povo, 16 fev 2026

Também foram divulgadas notas de repúdio no mesmo tom por parte da Frente Parlamentar Evangélica, da Frente Parlamentar Católica, da Associação Nacional de Juristas Evangélicos (Anajure) e da Ordem dos Advogados do Brasil – Seção RJ (desde 2024 presidida por advogada alinhada às Assembleias de Deus, como o Bereia já informou). A Igreja Universal do Reino de Deus  e a Arquidiocese do Rio de Janeiro também divulgaram palavras oficiais críticas à apresentação da escola de samba.

Imagem: Publicação da Anajure no Instagram, 17 fev 2026

As mídias digitais também foram espaço para lideranças evangélicas não conservadoras divulgarem posicionamento em contraposição ao discurso então predominante. Entre os que militam na esquerda política, o pastor presbiteriano e teólogo Luis Sabanay, membro do Diretório Nacional do Partido dos Trabalhadores e coordenador do Núcleo de Estudos sobre Religião da Fundação Perseu Abramo publicou artigo intitulado “Família e violência: a cortina moral que desvia o debate público para o Carnaval”.  O evangélico coordenador do setorial inter-religioso do PT comenta sobre desfile da Acadêmicos de Niterói Gutierres Barbosa, em entrevista à CNN, defendeu a autonomia das escolas de samba e afirmou que o governo foca em projetos como a escala 6×1 e a isenção do Imposto de Renda, e não em interferir em manifestações culturais.

Já o pastor o Hermes Fernandes publicou reflexão contrapondo a noção de família plantada em jardim/pomar (cultivada em amor, respeito e liberdade) à da família enlatada (cultivada artificialmente e padronizada por discursos tóxicos).

Imagem: Publicação do Pastor Hermes Fernandes no Instagram, em 16 fev 2026

Na mesma linha, um expressivo número de publicações de pessoas evangélicas e outras sem identificação religiosa criticaram o que consideram um movimento articulado contra a apresentação da Acadêmicos de Niterói. Em textos e imagens são feitas denúncias de hipocrisia diante de casos como o dos quase 500 mil reais escondidos em sacos de dinheiro, pelo deputado federal evangélico Sóstenes Cavalcante (PL-RJ), e o da ex-deputada federal evangélica Flordelis (PSD-RJ), presa por ter sido condenada de ser mandante do assassinato do marido.

Imagem: Publicação de usuária do Instagram, 17 fev 2026
Imagem: Publicação de usuário no X, 17 fev 2026

É, também, expressiva a reação de usuários nas redes digitais com comentários críticos nas postagens dos políticos e influenciadores que publicaram imagens de IA com suas famílias em latas de conserva:

Imagem: Comentário de usuário em publicação do deputado federal cassado Deltan Dallagnol (Podemos-PR) no Instagram, 18 fev 2026

Especialistas em religião e em cultura problematizam a acusação de intolerância religiosa

Bereia ouviu o antropólogo Lucas Bártolo, que defendeu, neste fevereiro de 2026, a tese “No altar do samba: a religião no mundo do Carnaval”, pelo Programa de Pós-Graduação em Antropologia Cultural do Museu Nacional/UFRJ para uma avaliação do que está em torno desta controvérsia. Ele explica que “o carnaval é um tempo de festejos marcado pelo excesso e pela licenciosidade que antecedem o período austero da Quaresma. Ao mesmo tempo, é um modelo de festa de inversão que brinca com a ordem social e cósmica: por meio do riso, da paródia e do exagero, oferece uma linguagem divertida e crítica de comentário social, político e moral. Por isso, até a própria religião entra nesse jogo, passando a fazer parte do universo simbólico carnavalizado. Inclusive a Igreja, como figura de autoridade, também vira objeto da brincadeira”, afirma. Bártolo acrescenta que “é importante reconhecer o lugar social do carnaval como expressão coletiva, em que a sociedade pode se ver, se criticar e se reinventar por meio da festa”.

Em artigo publicado no Nexo Políticas Públicas, Lucas Bártolo mostra como controvérsias em torno da presença de símbolos religiosos nos desfiles carnavalescos e das tentativas políticas de regulamentação da prática, não são novas, sobretudo no universo das escolas de samba do Rio de Janeiro. O antropólogo explica que esses debates “revelam tensões recorrentes entre visibilidade pública, classificações sociais e disputas por legitimidade na representação das religiões no espaço público”. Ao descrever disputas históricas e recentes Projetos de Lei para limitação da liberdade de expressão sobre religião no Carnaval, Bártolo fala do uso da ideia de intolerância e perseguição contra cristãos para controlar expressões carnavalescas em torno do cristianismo. Ele mostra no artigo como se tem consolidado “uma estratégia retórica centrada na noção de ‘cristofobia’, que afirma a existência de perseguição aos cristãos (católicos e evangélicos), a despeito da hegemonia histórica do cristianismo como matriz cultural dominante na sociedade brasileira”.

A especialista em economia comportamental Déborah Bizarria, em artigo para a Folha de S. Paulo, nota que o desfile da Acadêmicos de Niterói pretendia ironizar o neoconservadorismo bolsonarista por meio da sátira da “família tradicional”, num contexto de homenagem ao presidente Lula. Ela avalia que a apresentação foi interpretada como deboche do significado de família na sociedade brasileira, não como crítica à instrumentalização conservadora da instituição. A economista aponta que, como resultado, esse sentimento vem sendo capturado pela oposição para fortalecer o projeto político que o desfile pretendia criticar.

Bizarria analisa que dois comportamentos opostos acabam reforçando essa situação: de um lado, setores progressistas que ridicularizam ou tratam com desprezo a noção de família; de outro, grupos conservadores que tratam a família como algo sagrado e intocável. Para Bizarria, nenhum desses extremos ajuda de fato as famílias reais, que são diversas e mudam ao longo do tempo. Ela lembra que família não é um conceito religioso fixo, mas uma construção cultural que assume muitas formas e precisa ser respeitada em sua diversidade.

*****

Bereia seguirá acompanhando os desdobramentos deste caso e alerta leitores e leitoras sobre o uso político da ideia de intolerância religiosa para impedir críticas à instrumentalização da religião para fins políticos. Este tema já foi tratado em várias matérias do Bereia, em especial por conta do uso do termo “cristofobia”. Ao mesmo tempo, recomenda atenção a debates e reflexões em torno do tema família, pois esta noção, como recomendam competentes analistas que estudam religião, deve ser sempre tomada no plural. 

Referências

Correio Braziliense https://www.correiobraziliense.com.br/politica/2026/02/7356921-familias-em-conserva-politicos-ironizam-desfile-de-carnaval-veja.html?utm_source=chatgpt.com Acesso em 23 fev 2026

O Estado de S. Paulo
https://www.estadao.com.br/politica/escola-de-samba-que-homenageou-lula-mirou-evangelicos-agro-e-oposicao-em-ala-familia-em-conserva-nprp Acesso em 23 fev 2026

Frente Parlamentar Evangélica

https://www.facebook.com/photo?fbid=1245763927744018&set=pcb.1245763984410679 Acesso em 23 fev 2026

Frente Parlamentar Católica

https://www.instagram.com/p/DU5nE66gDny/?igsh=d3ppY29xbGp6aXVz Acesso em 23 fev 2026

Associação Nacional de Juristas Evangélicos (Anajure) 

https://www.instagram.com/p/DU3FtSPgFkM/?img_index=1 Acesso em 23 fev 2026

Ordem dos Advogados do Brasil – Seção RJ 

https://www.instagram.com/p/DU3fLU_ibTV/?img_index=1Acesso em 23 fev 2026

 Igreja Universal do Reino de Deus 

https://www.universal.org/noticias/post/desfile-da-academicos-de-niteroi-provoca-reacao-apos-ala-sobre-evangelicos/?utm_source=chatgpt.com Acesso em 23 fev 2026

Arquidiocese do Rio de Janeiro  

https://arqrio.org.br/wp-content/uploads/2026/02/A-Importancia-da-Familia-e-da-Religiao.pdf Acesso em 23 fev 2026

Partido dos Trabalhadores

https://pt.org.br/familia-e-violencia-a-cortina-moral-que-desvia-o-debate-publico-para-o-carnaval/ Acesso em 23 fev 2026

CNN

https://www.youtube.com/watch?v=5xdlnICEGp4 Acesso em 23 fev 2026

O Globo
https://g1.globo.com/rj/rio-de-janeiro/noticia/2022/11/20/caso-flordelis-entenda-como-foi-o-homicidio-do-pastor-anderson-com-base-no-que-foi-dito-no-julgamento.ghtml Acesso em 23 fev 2026

Nexo Políticas Públicas

https://pp.nexojornal.com.br/opiniao/2026/02/09/o-carnaval-como-campo-de-disputa-politica-do-conservadorismo-cristao Acesso em 23 fev 2026

Revista Fórum

https://revistaforum.com.br/cultura/bancada-evangelica-ataca-gavioes-da-fiel-por-desfile-corajoso-contra-intolerancia-religiosa/Acesso em 23 fev 2026

Metrópoles

https://www.metropoles.com/carnaval-2018/intolerancia-religiosa-diz-crivella-sobre-desfile-da-mangueira Acesso em 23 fev 2026

Folha de S. Paulo
https://www1.folha.uol.com.br/colunas/deborah-bizarria/2026/02/deboche-progressista-e-idolatria-conservadora-tornam-a-familia-uma-arma-cultural.shtml Acesso em 23 fev 2026

Religião e Poder

https://religiaoepoder.org.br/artigo/familias Acesso em 23 fev 2026

Homenagem a Lula no Carnaval é fonte de desinformação em espaços religiosos: Parte 2 – sobre uso ilícito de recursos públicos 

O desfile da Acadêmicos de Niterói no Carnaval do Rio, em 2026, foi marcado por controvérsias políticas e religiosas que extrapolaram o clima da tradicional festa popular. Os holofotes se viraram para a escola, estreante no grupo de elite das 12 Escolas de Samba do Rio neste ano, por conta do enredo intitulado “Do Alto do Mulungu surge a esperança: Lula, o operário do Brasil”, construído em forma de homenagem ao presidente da República. 

A representação carnavalesca da vida de Lula foi simbolicamente narrada pela mãe dele, D. Lindu, iniciada com a infância pobre no Nordeste do Brasil, passando pela liderança sindical como metalúrgico em São Paulo que o projetou à cena política e à Presidência da República em dois mandatos. O enredo ainda levou ao Sambódromo os revezes da vida do atual presidente do país, destacando a recente prisão que impediu sua recandidatura em 2018 até a posse no terceiro mandato como presidente da República, em vigor desde 2023.

Um dos principais focos de reação foi o político, uma vez que a apresentação da Acadêmicos de Niterói foi interpretada por opositores como propaganda eleitoral antecipada. Políticos e comentaristas críticos, tanto na imprensa como em perfis de mídias sociais, antes mesmo de o desfile ocorrer, alegaram que a escola teria utilizado o desfile como plataforma de apoio político, em articulação com o governo federal, o que foi tratado na parte 1 desta matéria. Estas personagens também levantaram questionamentos sobre o uso de recursos públicos para financiar a escola de samba e eventual infração à legislação eleitoral. 

O julgamento dos desfiles anunciado na Quarta-Feira de Cinzas, 18 de fevereiro, concedeu a vitória à Escola Unidos do Viradouro e deixou em último lugar a Acadêmicos de Niterói. Com isso, a agremiação retorna para a Série Ouro do Carnaval, pela qual desfilava desde 2023, tendo sido campeã em 2025 e, consequentemente, promovida ao Grupo Especial em 2026. O rebaixamento da Acadêmicos de Niterói, situação recorrente de escolas de samba menores que chegam ao Grupo Especial, manteve vivas, nas redes digitais religiosas, as polêmicas em torno do caso. 

Bereia produziu um levantamento sobre o conteúdo que circulou mais intensamente em espaços digitais de identidade evangélica sobre o caso para verificar a veracidade e a falsidade em torno dele. Na segunda parte desta matéria, é apresentada uma verificação sobre as acusações de uso ilícito dos recursos públicos.

Financiamento do desfile-homenagem com recursos públicos? Enganoso

Outras acusações contra o governo federal e a escola de samba Acadêmicos de Niterói circularam, também, nas mídias sociais no período pré, durante e pós-Carnaval, com respeito ao uso promocional de recursos públicos com finalidade eleitoral. Este conteúdo ganhou força após a divulgação de que verbas públicas federais foram destinadas a escolas de samba. 

Políticos de oposição e pessoas críticas ao governo Lula e ao Carnaval publicaram conteúdo condenatório da destinação de verbas às escolas de samba, levando seguidores a entenderem que tal ação foi praticada neste ano para favorecer a agremiação de Niterói. De igual modo, a Lei Rouanet, alvo constante de lideranças e grupos políticos anti-incentivos públicos a produções culturais, passou a ser citada como fonte dos recursos.

Imagem: Perfil de usuário do Instagram, 23 dez 2025

Imagem: Card de origem anônima que circula em vários perfis de mídias sociais desde dezembro

Já na virada de 2025 para 2026, agências jornalísticas de checagem como Aos Fatos e Reuters haviam contraposto este conteúdo, indicando que tais afirmações são falsas. As checagens mostraram que não houve liberação de verbas federais de milhões para a Acadêmicos de Niterói e que o Ministério da Cultura apenas autorizou a captação do valor junto a patrocinadores para todas as agremiações que se inscreveram por meio de edital baseado na Lei Rouanet. 

Como é de amplo conhecimento público e o Bereia já explicou em diversas matérias, captação pela Lei Rouanet não implica repasse direto de recursos financeiros federais, uma vez que este direito concedido por lei a produções culturais é conquistado por meio de renúncia fiscal, cabendo aos responsáveis pelos projetos buscar investidores que terão os valores abatidos de impostos. Além disso, a própria escola Acadêmicos de Niterói informou que não daria continuidade à captação, aprovada em 2025, por falta de tempo até o Carnaval.

De acordo com um levantamento do portal de notícias Infomoney, ao todo, oito das 12 escolas do Grupo Especial tiveram projetos aprovados na plataforma que realiza a captação de dinheiro por meio da Lei Rouanet. Porém, parte delas também não conseguiu captar recursos. A Estação Primeira de Mangueira, por exemplo, recebeu aval para buscar R$ 4,9 milhões, mas não registrou captação. O mesmo ocorreu com Beija-Flor de Nilópolis (R$ 5,9 milhões aprovados), Acadêmicos do Salgueiro (R$ 5,9 milhões), Unidos do Viradouro (R$ 4,7 milhões), Unidos da Tijuca (R$ 4,7 milhões) e Mocidade Independente de Padre Miguel (R$ 461 mil). Já a Unidos de Vila Isabel levantou R$188 mil de um total autorizado de R$4,9 milhões, enquanto a Acadêmicos do Grande Rio captou R$10,2 mil dos R$5,9 milhões aprovados.

Além deste tipo de conteúdo enganoso circulante, as acusações ao governo e à escola de samba de Niterói sobre abuso de poder econômico com finalidade eleitoral ganharam mais espaço com a chegada do Carnaval e a realização da apresentação. As publicações em torno desta abordagem variaram entre a suposta destinação exclusiva, pelo governo federal, de 1 milhão de reais para a Acadêmicos de Niterói, ao desvio de 12 milhões em verbas no orçamento da União para financiamento da homenagem a Lula no Carnaval.

Imagem: Publicação no perfil do deputado federal evangélico cassado Deltan Dallagnol (Podemos-PR), 3 fev 2026

Imagem: Publicação no Perfil do Instagram do deputado estadual autoidentificado cristão Cristiano Caporezzo (PL-MG) 

Imagem: Publicação de perfil do usuário do X, 15 fev 2026

O repasse de 12 milhões de reais do governo federal às 12 escolas de samba do Grupo Especial do Carnaval do Rio, de fato ocorreu, como foi amplamente divulgado em janeiro passado. Na ocasião, foi firmado um termo de cooperação técnica entre a Embratur (empresa ligada ao Ministério do Turismo) e a Liga Independente das Escolas de Samba do Rio de Janeiro (Liesa), com mediação do Ministério da Cultura. O aporte total foi de R$12 milhões, o que representa 1 milhão de reais destinado para cada uma das 12 agremiações.

Na justificativa, divulgada no ato de assinatura do acordo, a Embratur e o Ministério da Cultura disseram que “a medida visa fortalecer a grandiosidade do espetáculo, que funciona como uma das principais vitrines do Brasil para o mundo. O Governo do Brasil reafirma a importância do Carnaval não apenas como um espetáculo de projeção internacional, mas também como um pilar da indústria criativa e um vetor fundamental para o desenvolvimento econômico e social do Rio de Janeiro e do Brasil”.

Este repasse de recursos foi alvo de medida cautelar no Tribunal de Contas da União (TCU) apresentada pelo partido Novo. A ação solicitou apuração do TCU sobre possível desvio de finalidade na destinação de recursos públicos federais à Liesa. O ministro relator do caso Aroldo Cedraz rejeitou a representação por avaliar que o critério foi geral e não houve favorecimento a uma escola específica, já que todas as integrantes do Grupo Especial receberam o mesmo valor. Na decisão o relator ainda sentencia que não há indício de que os repasses tenham sido destinados à homenagem pessoal: “Pelo contrário, os elementos apontam tratar-se de repasse geral, destinado pela Embratur à Liesa, em virtude de termo de cooperação com a finalidade de potencializar a visibilidade internacional do Brasil como destino turístico”, diz a decisão.

De acordo com esta verificação do Bereia, publicações com afirmações definitivas de que o governo federal destinou valores milionários à Acadêmicos de Niterói diretamente ou via Lei Rouanet e que desviou recursos do orçamento da União para financiar o Carnaval-homenagem são desinformação de caráter enganoso, com distorção do que é fato para levar a um entendimento em outra direção. Os órgãos governamentais responsáveis continuam informando que os repasses da Embratur seguem padrão adotado em anos anteriores, junto dos apoios financeiros dados pelos governos municipais e estaduais ao Carnaval. Ainda assim, como já reportado nesta matéria, políticos e partidos anunciaram novas representações no TSE contra Lula e sua provável candidatura por conta do desfile-homenagem. 

Mentiras a reboque

Alguns veículos e personagens religiosos têm estendido esta controvérsia nas mídias digitais com conteúdo enganoso. Um exemplo é a publicação de números altos do repasse de dinheiro público para o Carnaval em matérias de vários veículos, entre eles o portal gospel Pleno News. Chamada para matéria desse portal, publicada em 17 de fevereiro, tem o título “Folia com dinheiro público: Carnaval recebeu R$ 85 milhões” e foto ilustrativa com carro alegórico da escola Acadêmicos de Niterói. 

A matéria do Pleno News explicita que se baseou em reportagem da Folha de S. Paulo, porém sem indicação da referência para conferência. Nesta verificação, porém, Bereia identificou que o texto do jornal paulista tem um enquadramento muito distinto do que é feito pelo Pleno News. A ênfase da Folha de S. Paulo sobre verbas públicas federais, na verdade,  está voltada para emendas parlamentares e o patrocínio de órgãos públicos como a Caixa Econômica Federal e a Embratur (estes em valores menores na comparação) para o Carnaval em todo o país. 

No corpo da reportagem da Folha de S. Paulo fica nítido que “a maior parte dessa fatia de dinheiro público — cerca de R$ 52 milhões — foi indicada pelo Congresso Nacional”. O jornal destaca que a injeção de verba nas festas costuma ser cobiçada por parlamentares, que buscam ampliar sua projeção política, especialmente em ano de eleições. Ainda assim, este valor é pequeno perto dos investimentos de parlamentares em projetos de municípios Brasil afora.

Esta composição do jornal Pleno News, no clima das controvérsias apresentadas nesta verificação do Bereia, e na cultura predominante entre leitores de se restringir ao título, sugere o entendimento enganoso de que o governo federal teria repassado este volume de recursos financeiros para a escola de samba Acadêmicos de Niterói, que produziu o desfile em homenagem a Lula.

Referências

BORTOLON, B. Lei Rouanet não vai pagar R$ 5,1 milhões para desfile em homenagem a Lula. Disponível em: <https://www.aosfatos.org/noticias/lei-rouanet-nao-vai-pagar-r-51-milhoes-para-desfile-em-homenagem-a-lula/> . Acesso em: 23 fev. 2026.

‌CHECK, R. F. Checagem de fatos: Não há registros de que escola de samba que homenageará Lula recebeu R$8,5 mi do governo federal. Reuters, 13 fev. 2026.

‌Você pesquisou por lei rouanet – Coletivo Bereia. Disponível em: <https://coletivobereia.com.br/?s=lei+rouanet> . Acesso em: 23 fev. 2026.

‌NETO, N. L. Lei Rouanet autoriza R$ 5,1 milhões para enredo sobre Lula na Sapucaí em 2026; escola diz que não irá captar valor. Disponível em: <https://oglobo.globo.com/blogs/ancelmo-gois/post/2025/12/lei-rouanet-autoriza-r-51-milhoes-para-enredo-sobre-lula-na-sapucai-em-2026-escola-diz-que-nao-ira-captar-valor.ghtml>. Acesso em: 23 fev. 2026.

‌VERENICZ, M. Escola que homenageou Lula recebeu verba pública? Entenda. Disponível em: <https://www.infomoney.com.br/politica/escola-que-homenageou-lula-recebeu-verba-publica-entenda/>. Acesso em: 23 fev. 2026.

‌Ministério da Cultura e Embratur garantem 12 milhões para o Carnaval do Rio. Disponível em: <https://www.gov.br/cultura/pt-br/assuntos/noticias/ministerio-da-cultura-e-embratur-garantem-12-milhoes-para-o-carnaval-do-rio> . Acesso em: 23 fev. 2026.

‌BECHARA, V. Ministro do TCU nega suspensão de repasse à escola que homenageará Lula. Disponível em: <https://noticias.uol.com.br/politica/ultimas-noticias/2026/02/06/ministro-do-tcu-nega-suspensao-de-repasse-a-escola-que-homenageara-lula.htm?cmpid=copiaecola> . Acesso em: 23 fev. 2026.

‌BARROS, P. Flávio diz que acionará TSE contra “crime” e ataques a Bolsonaro em desfile pró-Lula. Disponível em: <https://www.infomoney.com.br/politica/flavio-diz-que-acionara-tse-contra-crime-e-ataques-a-bolsonaro-em-desfile-pro-lula/> . Acesso em: 23 fev. 2026.

‌DE, A. “Propaganda”, “crime”, “abuso de poder”: oposição reage a desfile pró-Lula. Disponível em: <https://www.infomoney.com.br/politica/propaganda-crime-abuso-de-poder-oposicao-reage-a-desfile-pro-lula/>. Acesso em: 23 fev. 2026.

‌BARROS, P. Flávio diz que acionará TSE contra “crime” e ataques a Bolsonaro em desfile pró-Lula. Disponível em: <https://www.infomoney.com.br/politica/flavio-diz-que-acionara-tse-contra-crime-e-ataques-a-bolsonaro-em-desfile-pro-lula/>. Acesso em: 23 fev. 2026.

‌Folha de S. Paulo
https://www1.folha.uol.com.br/cotidiano/2026/02/emendas-e-patrocinio-federal-injetam-mais-de-r-85-milhoes-de-verba-publica-no-carnaval.shtml. Acesso em 23 fev 2026

Homenagem a Lula no Carnaval é fonte de desinformação em espaços religiosos: Parte 1 – sobre propaganda eleitoral antecipada

*Matéria atualizada às 20:54 para ajuste de imagens.

O desfile da Acadêmicos de Niterói no Carnaval do Rio, em 2026, foi marcado por controvérsias políticas e religiosas que extrapolaram o clima da tradicional festa popular. Os holofotes se viraram para a escola, estreante no grupo de elite das 12 Escolas de Samba do Rio neste ano, por conta do enredo intitulado “Do Alto do Mulungu surge a esperança: Lula, o operário do Brasil”, construído em forma de homenagem ao presidente da República. 

A representação carnavalesca da vida de Lula foi simbolicamente narrada pela mãe dele, D. Lindu, iniciada com a infância pobre no Nordeste do Brasil, passando pela liderança sindical como metalúrgico em São Paulo que o projetou à cena política e à Presidência da República em dois mandatos. O enredo ainda levou ao Sambódromo os revezes na vida do atual presidente do país, destacando a recente prisão que impediu sua recandidatura em 2018 até a posse no terceiro mandato como presidente da República, em vigor desde 2023.

Um dos principais focos de reação foi o político, uma vez que a apresentação da Acadêmicos de Niterói foi interpretada por opositores como propaganda eleitoral antecipada. Políticos e comentaristas críticos, tanto na imprensa como em perfis de mídias sociais, antes mesmo de o desfile ocorrer, alegaram que a escola teria utilizado o desfile como plataforma de apoio político, em articulação com o governo federal. Acusações de uso ilícito de recursos públicos e de intolerância religiosa também emergiram no caso.

O julgamento dos desfiles anunciado na Quarta-Feira de Cinzas, 18 de fevereiro, concedeu a vitória à Escola Unidos do Viradouro e deixou em último lugar a Acadêmicos de Niterói. Com isso, a agremiação retorna para a Série Ouro do Carnaval, pela qual desfilava desde 2023, tendo sido campeã em 2025 e, consequentemente, promovida ao Grupo Especial em 2026. O rebaixamento da Acadêmicos de Niterói, situação recorrente de escolas de samba menores que chegam ao Grupo Especial, manteve vivas nas redes digitais religiosas as polêmicas em torno do caso. 

Bereia produziu um levantamento sobre o conteúdo que circulou mais intensamente em espaços digitais de identidade evangélica sobre o caso para verificar a veracidade e a falsidade em torno dele. Na primeira parte desta matéria, é apresentada uma verificação sobre as acusações de propaganda eleitoral antecipada.

Propaganda eleitoral antecipada? 

Muitas postagens de políticos com identidade evangélica repetiram que o governo Lula teria cometido crime eleitoral por propaganda eleitoral antecipada, uma vez que a candidatura do presidente à reeleição, ainda não formalizada, é dada como certa. Estas publicações foram feitas seguidamente antes, durante e depois do desfile da Acadêmicos de Niterói. 

Imagem: Publicação do senador evangélico Cleitinho (Republicanos-MG) no Instagram em 17 fev 2026

Imagem: Publicação do senador evangélico Magno Malta (PL-MG) no Instagram em 17 fev 2026

Imagem: Capa da revista Veja de 6 de fevereiro de 2026 utilizada em vários perfis com identidade religiosa a partir de 15 de fevereiro.

Em torno desta controvérsia, foram várias as ações impetradas na Justiça por advogados e também por políticos com identidade religiosa e por partidos, contra o presidente Lula e a Acadêmicos de Niterói, para impedir o desfile, sob a acusação de propaganda eleitoral antecipada. Essas ações ganharam ampla repercussão em espaços digitais religiosos.

No início de fevereiro, a senadora evangélica Damares Alves (Republicanos-DF) já havia protocolado uma denúncia no Ministério Público Eleitoral. Na semana do desfile, a senadora, o deputado federal Kim Kataguiri (União Brasil-SP) e a  ex-assessora do senador Flávio Bolsonaro, Valdenice de Oliveira Meliga, conhecida como Val Meliga,moveram novos processos na Justiça Federal, que foram indeferidos.

Imagem: Publicação da senadora evangélica Damares Alves (Republicanos-DF) no seu perfil no Instagram, 14 fev 2026.

Também antes da apresentação no Sambódromo, os partidos Novo e Missão, este em conjunto com Kim Kataguiri, entraram com representações pelo mesmo motivo e alegação de “pedido de voto implícito”, no Tribunal Superior Eleitoral (TSE), igualmente contra o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e a Acadêmicos de Niterói, adicionado o Partido dos Trabalhadores (PT). O TSE rejeitou as ações, por unanimidade, aprovando o parecer da relatora Estela Aranha de que não se punem fatos antes de sua ocorrência (censura prévia). 

Porém, todos os ministros do TSE salientaram que a Justiça Eleitoral não está dando salvo-conduto para quem quer que seja por conta do indeferimento da liminar, destacando que o processo continua. Nesse sentido, a presidente do TSE, ministra Cármen Lúcia declarou no seu voto: “Não parece ser um cenário de areias claras de uma praia, parece mais areia movediça. Quem entra, entra sabendo que pode afundar”. 

Esta sentença do TSE deixou aberto o caminho para outras ações de responsabilização eleitoral posteriores ao desfile. O argumento central é que o enredo-homenagem configurou campanha antecipada em ano eleitoral. Partidos como Novo e Missão protocolaram representações no TSE com alegações de que o desfile teria usado símbolos do PT, número 13, programas sociais e imagens presidenciais como elementos de promoção política.

Também se alega que Lula teria estimulado a homenagem, ao receber dirigentes da escola antes do Carnaval. As ações podem gerar multas de até R$ 25 mil ao PT, à escola de samba e a Lula. Além disso, existe a possibilidade de, após o registro oficial das candidaturas, serem apresentadas Ações de Investigação Judicial Eleitoral (AIJEs), que podem solicitar sanções mais severas, incluindo cassação de mandato e inelegibilidade.

Imagem: Divulgação de matéria do portal gospel Pleno News, em perfil do Instagram, 16 fev 2026

O governo federal afirmou que as acusações de propaganda eleitoral antecipada relacionadas ao desfile da Acadêmicos de Niterói no Carnaval 2026 não procedem, por se tratar de manifestação cultural sem caráter de campanha. Segundo publicou a grande imprensa, como a CNN e a Agência Globo (repertutida em vários veículos), interlocutores do Palácio do Planalto e o ministro da Secretaria de Comunicação Social Sidônio Palmeira declararam que a homenagem foi iniciativa autônoma da escola de samba, sem coordenação com o presidente ou com o Partido dos Trabalhadores, e não houve pedido de voto nem material eleitoral, requisitos legais para configurar propaganda antecipada. 

Estas fontes do governo também sustentaram que a presença de Lula na Marquês de Sapucaí foi parte da agenda institucional do presidente na festa popular, nas principais praças carnavalescas do país (Recife, Salvador e Rio de Janeiro) e que a controvérsia foi politizada por adversários nas redes. Segundo Sidônio Palmeira, houve o que ele classifica como “produção de ruídos por oportunismo eleitoral”: “Digo com segurança que há um investimento milionário em impulsionamento de conteúdo nas redes para inflar uma polêmica que é falsa”, afirmou em entrevista a uma coluna do UOL.

A Acadêmicos de Niterói também se manifestou em relação às acusações de fazer propaganda política no desfile afirmando que exerceu sua autonomia artística e que sofreu pressão política para alterar o enredo. Em nota divulgada após a apresentação, a escola declarou ter sido alvo de “perseguição política” e de tentativas de interferência direta em sua criação, como pedidos para mudar o tema e questionamentos à letra do samba. “Houve tentativas de interferência direta em nossa autonomia artística… que buscavam nos enquadrar e silenciar. Não nos curvamos”, afirmou a agremiação.

Integrantes do desfile também negaram caráter eleitoral. O carnavalesco Tiago Martins disse à imprensa que a proposta era contar a trajetória de Lula como personagem histórico e social, não fazer campanha: “Não é campanha; é um enredo que conta a história de vida de um guerreiro”.

Juristas e advogados em Direito Eleitoral têm sido entrevistados pela imprensa e se manifestado em mídias sociais. Um dos mais acionado por grandes mídias, o advogado eleitoral Alberto Rollo, já apontava risco de propaganda eleitoral antecipada antes do desfile e, depois dele, sustentou que o conteúdo exibido confirmou sua avaliação de que a apresentação extrapolaria o campo da cultura para o eleitoral. Rollo afirmou à CNN Brasil que, ao assistir à apresentação completa, identificou “excessos” que teriam ultrapassado a narrativa biográfica, com presença de símbolos e mensagens associadas a agendas governamentais e à projeção eleitoral do presidente em ano de eleição. 

Em entrevista à Veja, Alberto Rollo lembra que a lei prevê multa que varia de 5 mil a 25 mil reais, ou o equivalente ao custo da propaganda, se for maior. Ele diz que “se o TSE entender que todo o desfile foi propaganda, a multa pode ser mais pesada. Sobre possibilidade de inelegibilidade, o advogado distingue dois planos: propaganda antecipada e abuso de poder econômico ou político. “A propaganda antecipada ficou mais evidente. O abuso exige um patamar probatório mais robusto. Para entrar na seara do abuso, é preciso processo e provas. Mas, se houver condenação por abuso, a consequência pode ser cassação e inelegibilidade por oito anos”, explicou, citando a Lei da Ficha Limpa. 

Já o idealizador da Lei da Ficha Limpa, o advogado e ex-juiz Marlon Reis, se coloca em outra direção. Ao se manifestar em sua conta no X, o jurista declarou: “Acabei de assistir o desfile da Acadêmicos de Niterói. A lei eleitoral exige pedido explícito de votos para caracterização da propaganda antecipada. A norma expressamente autoriza a exaltação de aspectos positivos de pré-candidatos. Não houve ilegalidade alguma”.

Imagem: Perfil de Márlon Reis no X, 16 fev 2026

Levantamento do Broadcast Político (sistema de notícias em tempo real do Grupo Estado) que mediu percepções de especialistas do Direito em postagens em mídias sociais sobre o caso, após o desfile, indica que a maioria considera que não houve propaganda eleitoral antecipada. Além de Marlon Reis, a pesquisa destaca posições similares do advogado, mestre em direito pela UERJ e doutorando em direito pela PUC-Rio André Matheus e do advogado constitucionalista e professor universitário Rodolfo Prado. Sobre avaliações opostas, o levantamento destaca o advogado, comentarista dos veículos Poder 360 e Brasil Paralelo André Marsiglia, que classificou o desfile como “abuso de poder político”: “Não foi apenas propaganda eleitoral antecipada; foi a mais descarada que já vi, digna de ilustrar manuais de direito eleitoral como exemplo de ilícito”, registrou em seu perfil no X.

Esta batalha judicial deverá se estender pelo ano, exigindo apresentação de provas consistentes pela acusação e conteúdo substancial na defesa. Lula, ministros de Estado e aliados receberam orientação jurídica para não fornecerem elementos que pudessem ser usados para referendar acusações. Para isso, não desfilaram com a escola de samba, incluindo a esposa do presidente, que havia sido convidada para estar em um dos carros alegóricos e foi solicitado a integrantes da agremiação que não fizessem gestos ou gritassem palavras de ordem que gerassem interpretação de campanha eleitoral. 

Um parecer final sobre a acusação de propaganda eleitoral antecipada neste caso, portanto, ainda não foi dado pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE), o que caracteriza o conteúdo circulante como inconclusivo. Qualquer publicação que apresente a acusação a Lula ou à Acadêmicos de Niterói como elemento dado é desinformativo. Para julgar ações denunciantes, o TSE se baseará na legislação eleitoral brasileira. A Lei nº 9.504/1997 (Lei das Eleições) considera propaganda eleitoral antecipada toda manifestação que, antes do início oficial da campanha (fixado pelo TSE para 16 de agosto do ano da eleição) contenha pedido explícito de voto ou apresente candidatura de forma inequívoca.  

A lei permite, no entanto, algumas condutas em relação a possíveis candidatos/candidatas no período pré-eleitoral, como a exaltação de qualidades pessoais, a participação em entrevistas e debates, e a divulgação de posicionamentos políticos, desde que não haja solicitação direta de voto nem uso de meios proibidos. Se for caracterizada, a propaganda antecipada pode resultar em multa que varia de R$ 5 mil a R$ 25 mil, ou valor equivalente ao custo da divulgação, se maior, aplicada ao responsável e ao possível candidato ou candidata, caso comprovado que ele/ela tinha o prévio conhecimento. 

Mentiras a reboque

Alguns veículos e personagens religiosos têm estendido esta controvérsia nas mídias digitais com conteúdo enganoso. Um exemplo é a publicação de uma suposta “prova” de crime eleitoral coletada durante a noite de 15 de fevereiro, no Sambódromo do Rio, que contou com a presença do presidente Lula, na qual a primeira escola a desfilar foi a Acadêmicos de Niterói. Perfis passaram a publicar uma imagem de Lula no Sambódromo, com a afirmação de que o presidente da República teria descido à pista durante o desfile da Acadêmicos de NIterói para cumprimentar integrantes da escola que o homenageou, o que  seria caracterizado como crime eleitoral. 

Imagem: Publicação do portal gospel Pleno News no Instagram, 16 fev 2026

Imagem: Publicação de usuário do Instagram, 16 fev 2026

Imagem: Publicação do deputado federal Messias Donato (Republicanos-ES) no X, 16 fev 206

No entanto, o presidente da República publicou nas mídias sociais, ao final do desfile, uma coleção de fotos que mostram que ele esteve, em momento não identificado, no chão com todas as escolas que desfilaram na noite de 15 de fevereiro. Nas fotos, em mesmo número (uma para cada escola) e com a mesma pose (beijando a bandeira de cada uma), Lula aparece com um chapéu personalizado correspondente para cada agremiação, com a legenda: “Tive a honra e a alegria de acompanhar o desfile da Acadêmicos de Niterói, Imperatriz Leopoldinense, Portela e Estação Primeira de Mangueira. Muita emoção”. Matéria do G1, publicada em 16 de fevereiro, detalhou que as quatro cenas ocorreram no momento da concentração (antes do início de cada desfile), contrapondo as afirmações de que o presidente teria descido à pista durante o desfile da Acadêmicos de Niterói.

Referências

…..

Luiz Inácio Lula da Silva on Instagram: “Depois de passar pelo carnaval de Recife e de Salvador, estive no Rio de Janeiro, na Sapucaí. Tive a honra e a alegria de acompanhar o desfile da Acadêmicos de Niterói, Imperatriz Leopoldinense, Portela e Estação Primeira de Mangueira. Muita emoção. O Rio é uma referência mundial de Carnaval e de turismo. A Marquês de Sapucaí mostra ao planeta a força das nossas escolas de samba, a criatividade do nosso povo e a capacidade que o Brasil tem de transformar cultura em desenvolvimento, emprego e renda. Tenho muito orgulho de ver o Brasil brilhando assim para o mundo inteiro. 🇧🇷🎭 📸 @ricardostuckert”. Disponível em: <https://www.instagram.com/p/DU0Q8wWjt_j/?img_index=1> . Acesso em: 23 fev. 2026.

‌LULA. Lula publica fotos com escolas de samba do RJ após críticas | G1. Disponível em: <https://g1.globo.com/politica/noticia/2026/02/16/apos-homenagem-criticada-pela-oposicao-lula-posta-foto-com-todas-as-escolas-na-sapucai.ghtml> . Acesso em: 23 fev. 2026.

G1

https://g1.globo.com/rj/rio-de-janeiro/carnaval/2026/noticia/2026/02/03/academicos-de-niteroi-vira-alvo-de-denuncia-no-mprj-apos-ensaio-tecnico-na-sapucai.ghtml Acesso em: 23 fev. 2026.

https://g1.globo.com/politica/noticia/2026/02/11/justica-federal-rejeita-recursos-de-deputados-contra-enredo-de-escola-de-samba-que-vai-homenagear-lula.ghtml Acesso em: 23 fev. 2026.

https://g1.globo.com/politica/noticia/2026/02/16/apos-homenagem-criticada-pela-oposicao-lula-posta-foto-com-todas-as-escolas-na-sapucai.ghtml Acesso em: 23 fev. 2026.

SBT News

https://sbtnews.sbt.com.br/noticia/politica/trf-2-nega-liminar-para-impedir-desfile-em-homenagem-a-lula-no-carnaval-do-rio Acesso em: 23 fev. 2026.

TSE

https://www.tse.jus.br/comunicacao/noticias/2026/Fevereiro/tse-nega-liminares-em-acoes-sobre-desfile-de-escola-de-samba-em-homenagem-ao-presidente-lula Acesso em: 23 fev. 2026.

https://www.tse.jus.br/comunicacao/noticias/2024/Marco/conheca-as-regras-gerais-para-a-divulgacao-de-propaganda-eleitoral Acesso em: 23 fev. 2026.

Bahia Econômica
https://bahiaeconomica.com.br/wp/2026/02/19/academicos-de-niteroi-e-lula-enfrentam-acoes-no-tse-apos-desfile-do-carnaval-2026/Acesso em: 23 fev. 2026.

CNN
https://www.cnnbrasil.com.br/politica/governo-nega-influencia-no-desenvolvimento-de-enredo-em-desfile-sobre-lula/ Acesso em: 23 fev. 2026.

https://www.cnnbrasil.com.br/politica/homenagem-a-lula-pode-ser-vista-como-comicio-de-campanha-diz-especialista/ Acesso em: 23 fev. 2026.

Reuters
https://www.reuters.com/world/americas/carnival-tribute-brazils-lula-rio-sparks-political-backlash-2026-02-15/ Acesso em: 23 fev. 2026.

Veja

https://veja.abril.com.br/politica/especialista-explica-as-possiveis-consequencias-para-lula-do-desfile-rebaixado-de-niteroi Acesso em: 23 fev. 2026.

Uol
https://noticias.uol.com.br/ultimas-noticias/agencia-estado/2026/02/16/especialistas-apontam-na-maioria-que-homenagem-a-lula-na-sapucai-nao-e-campanha-antecipada.htm Acesso em: 23 fev. 2026.

Imagem de capa: Alex Ferro/RioTur

Página gospel manipula imagem para associar falsamente Aline Barros a desfile de escola de samba

Bereia recebeu de leitores o pedido de checagem de uma imagem que mostra a cantora gospel Aline Barros caracterizada para um desfile de escola de samba. A publicação circula nas mídias sociais com o título de uma matéria do portal de notícias G1 sobre a participação da cantora no carnaval de Palmas (TO). Bereia checou informações sobre a participação de Aline Barros no carnaval e a veracidade das imagens divulgadas.

Imagem manipulada de Aline Barros em desfile de carnaval

A página Gospel Brasil, no TikTok, descrita como página de notícias da música gospel, publicou em 3 de março último, uma imagem que mostra a cantora evangélica Aline Barros fantasiada, em um desfile carnavalesco. Na foto, Barros aparece com as coxas e a barriga à mostra, em uma fantasia com detalhes em preto e dourado.

A publicação inclui o título de uma matéria atribuída ao Portal G1, em que se lê: “Aline Barros abre programação de carnaval na Praça dos Girassóis nesta sexta-feira, em Palmas”. A postagem também exibe um recorte do rosto da cantora e a legenda: “Cantora gospel Aline Barros abre Carnaval em Tocantins e choca a internet”, com  trecho de uma das canções gravadas pela cantora gospel.  

Entre os 3.698 comentários – até o momento da publicação desta matéria – algumas pessoas criticam a cantora e outras afirmam se tratar de uma montagem. A publicação também registrou mais de 12,5 mil curtidas.

Imagem: reprodução TikTok

A partir de ferramentas de busca de imagens, Bereia identificou que houve manipulação do conteúdo. A fotografia original retrata a atriz Paolla Oliveira, rainha de bateria da escola de samba Acadêmicos do Grande Rio, durante desfile no carnaval de 2024, no sambódromo Marquês de Sapucaí, no Rio de Janeiro. 

Imagem: reprodução Instagram

Cantores gospel em programação de carnaval em Palmas 

Conforme foi, de fato, noticiado pelo Portal G1, o show de Aline Barros foi a atração principal do primeiro dia da programação do Carnaval 2025, em Palmas, Tocantins – 28 de fevereiro. 

No mesmo dia, outros cantores evangélicos como Moyses Di Carvalho e Sandro Nazireu também se apresentaram. Já no sábado, 1º de março, a programação incluiu shows dos cantores católicos Padre Fábio de Melo, Adriana Arydes e Turma do Padre Dudu.

Imagem: reprodução G1

A programação, organizada excepcionalmente pelo Governo do Estado do Tocantins, depois do prefeito do município Eduardo Siqueira Campos (Podemos) ter anunciado a suspensão de qualquer programação de Carnaval para 2025, seguiu até terça-feira, 4 de março último, com apresentações de cantores de outros gêneros musicais. 

A Prefeitura de Palmas realiza, tradicionalmente, desde 2015, o evento gospel Capital da Fé, durante os dias do feriado de carnaval. No entanto, em 2025, conforme divulgado pelo portal de notícias regional Gazeta do Cerrado, a Prefeitura cancelou a realização das festividades, em decorrência de uma dívida estimada em R$ 300 milhões.

Desinformação de gênero em um contexto religioso

Apesar de algumas páginas de apoio à Aline Barros terem publicado notas sobre a divulgação de falsas informações e uso indevido de sua imagem, a cantora não se pronunciou oficialmente sobre a peça desinformativa envolvendo seu nome.

Barros fez uma publicação em sua página oficial no Instagram, em 6 de março, sobre a participação no evento. Nos comentários, algumas pessoas levantaram temas como mentira no meio religioso, desinformação e processo judicial em razão da difamação, enquanto outras publicaram mensagens de apoio. 

Imagem: reprodução Instagram

No entanto, além de julgamentos acerca da conduta cristã e do comportamento moral da cantora, surgiram também discussões sobre sua participação, enquanto cantora gospel – em um evento no período de carnaval. Também há registros de acusações de realizar shows por interesse financeiro, em detrimento do propósito religioso, que renderam comentários como “pastora de satanás”.

Para a doutoranda em Ciências Sociais da Universidade do Estado do Rio de Janeiro, pesquisadora do Núcleo de Estudos sobre Desigualdades Contemporâneas e Relações de Gênero (NUDERG) e integrante da equipe Bereia Rafaely Camilo, a adulteração na imagem teve o objetivo de expor a cantora gospel pelo viés da sensualidade, um tema valioso para o público evangélico por se tratar de uma pauta que trata da moral e de costumes.

“A imagem parece ter como objetivo causar escândalo no meio cristão evangélico, ao colocar uma figura conhecida do meio, numa posição de constrangimento, ridicularizando sua trajetória”, aponta Camilo.

Segundo a pesquisadora, nesse caso, a desinformação de gênero está assentada na exposição do corpo, algo que não é esperado para uma mulher na posição de Aline Barros, o que provavelmente a cantora não faria. 

“Por muitos anos, Aline Barros foi uma artista que caminhou entre os mundos secular e gospel e recebeu críticas por isso. O uso dessa imagem atende, para o efeito da viralização (caça-cliques), como afirmação de que ela estaria participando da festa ‘do mundo’, caracterizada como tal”, explica a doutoranda em Ciências Sociais.

Carnaval e manifestações religiosas

A atriz Paolla Oliveira é rainha de bateria da Grande Rio desde 2009. Após um hiato de dez anos, voltou a desfilar para a escola em 2020. Em 2022, Paolla Oliveira esteve na Marquês de Sapucaí fantasiada de Pombagira, e em 2023, sua fantasia representou as armas de Ogum. Pombagira e Ogum são entidades espirituais presentes nas religiões de matriz africana umbanda e candomblé. 

Em 2022, a escola de samba Acadêmicos do Grande Rio também foi a campeã do carnaval do Rio de Janeiro, com o samba-enredo que homenageou Exu, outra divindade das religiões de matriz africana.

O jornalista, escritor e pesquisador do carnaval carioca Aydano André Motta, em entrevista ao Instituto Humanitas Unisinos (IHU), afirmou que a visão de que o carnaval é uma festa pagã está equivocada. 

“O carnaval é uma festa completamente religiosa. Na fundação de todas as escolas de samba sempre houve presente um pai de santo ou uma mãe de santo. Várias escolas de samba estão assentadas, nas suas quadras e sedes, em antigos terreiros de candomblé e umbanda, então é uma festa que se move a partir da religião, não existiria sem os preceitos religiosos”, declara o pesquisador. 

Motta esclarece que o carnaval é uma festa extremamente religiosa e que no Brasil tem manifestações do sincretismo religioso. “As baterias das escolas e suas formas de execução estão ligadas a orixás, são batidas escolhidas para reverenciar orixás. A umbanda conecta santos católicos a orixás, então no Rio de Janeiro, Oxóssi é São Sebastião, Oxum se junta a Nossa Senhora da Conceição, São Jorge a Ogum, por exemplo”.

Entretanto, o Carnaval tem origem no Catolicismo ibérico que veio para o Brasil com os colonizadores. No artigo A fé como expressão da vida que pulsa no Carnaval, a pesquisadora da Religião e editora-geral do Bereia Magali Cunha indica a origem cristã da festa na Idade Média. “O Carnaval, criado na Europa medieval pela Igreja Católica, foi uma forma de controlar antigas festas populares, condenadas por ela por representarem uma entrega aos prazeres mundanos”.

Segundo a pesquisadora, a ideia do Carnaval (carnis levale, ou, “retirar a carne”), como um período para cometer todos os “excessos da carne”, surge da tentativa de dar um sentido cristão às festividades. “Com isto foi criado, também, o período da Quaresma, um tempo de 40 dias antes da Páscoa, logo depois do Carnaval, caracterizado pelo arrependimento dos excessos cometidos e pelo jejum (purificação)”.

Outros grupos religiosos, como os evangélicos – tradicionalmente opostos às festividades do Carnaval e habituados ao afastamento dos retiros – intensificaram nos últimos anos, marcados pela polarização política no Brasil, a desqualificação da cultura “secular ou mundana” e, ao mesmo tempo, a disputa pela noção de cultura, conforme apresenta a antropóloga, pesquisadora e coordenadora de religião e política no Instituto de Estudos da Religião (ISER) Lívia Reis, em artigo intitulado Religião como forma de “proteção da cultura”: manifestações culturais e artísticas como campo de disputa.

“Não se trata de um paradoxo, estes segmentos religiosos passaram, também, a disputar a noção de cultura, tentando definir o que seria ou não legítimo de ser considerado como parte dela. Parte desse movimento consiste em promover arte e cultura. Para além da consolidação do segmento gospel, houve um vasto investimento em outras formas de se experimentar a religião através da arte, tais como filmes, teatros, novelas, plataformas de streaming, programas de rádio e mega eventos em espaços públicos”, destaca Reis.

Carnaval, diversidade e tolerância religiosa

A organização do evento Capital da Fé, realizado pelo Estado do Tocantins, reflete estes elementos. O governo destacou as atividades como “uma experiência inclusiva e democrática aos foliões” e que “celebrou a diversidade musical e reforçou o compromisso com uma programação acessível a todos os públicos”. 

Apesar de cancelado em 2025, o evento gospel Capital da Fé, descrito no portal da Prefeitura de Palmas como “o maior evento Gospel do Brasil realizado no período de Carnaval”, ocorre há nove anos e já reuniu em torno de 200 mil pessoas, segundo a organização.

A programação de cinco noites com apresentações de nomes do segmento no cenário nacional é voltada para católicos, evangélicos e apreciadores do estilo musical. O portal afirma que o gospel detém o segundo lugar na preferência musical nacional, atrás apenas do sertanejo.

Imagem: Prefeitura de Sobral

Além de Palmas, outras cidades pelo Brasil também realizam eventos gospel durante o período de carnaval, como Sobral (CE) e Arraial do Cabo (RJ). As iniciativas apontam para uma mudança na participação deste grupo religioso nas comemorações do carnaval.  

A tendência em consolidação é parte do que já ocorre em outras esferas da sociedade. Aline Barros, por exemplo, é considerada a precursora da participação de cantores gospel em canais televisivos não segmentados para este público, por sua participação em atrações como a de Xuxa Meneghel, a partir da década de 90, e que trouxeram maior diversidade à televisão brasileira. 

O artigo de Lívia Reis também mostra que a disputa dos evangélicos pelo espaço público avança até a ocupação da festa de caráter profano e a apropriação de elementos de outras culturas demonizadas por eles. “Apesar de criminalizar o carnaval como uma prática demoníaca, alguns grupos passaram a mobilizar instrumentos musicais, danças e corporeidades de matriz africana, em suas tentativas de disputar a festa”. 

A antropóloga assinala que um movimento semelhante aconteceu com a capoeira, com a festa de Cosme e Damião e com bolinhos de acarajé, que se tornaram “capoeira de jesus”, “saquinhos de jesus” e “acarajé de jesus”, respectivamente. “Em comum a todos esses casos é o fato de que segmentos evangélicos apagam o que seria percebido como o sinal negativo dessas práticas tradicionais e populares, isto é, a ligação com tradições africanas”.

***

Após checar informações sobre o conteúdo que circulou nas redes digitais, Bereia classifica o conteúdo como falso. A imagem que mostra a cantora Aline Barros em uma fantasia de carnaval foi adulterada a partir da imagem original da atriz Paolla Oliveira, rainha de bateria da escola de samba Grande Rio, no carnaval carioca.

Apesar de conter elementos factuais e verdadeiros, como a participação de Aline Barros no carnaval de Palmas, foi feito uso de imagem que não corresponde ao que foi noticiado. É clara a intenção de distorcer a informação para instigar julgamentos negativos sobre a cantora – o que poderia ser considerado enganoso – a fim de se alcançar cliques,  portanto audiência. A imagem foi fabricada e é, portanto, falsa.

O sensacionalismo também foi utilizado como estratégia para captar audiência, por meio da sensação de escândalo, provocada pela falsa associação da mulher evangélica ao corpo sensual e à mostra, como forma de difamação e desvio de conduta esperada pelo meio religioso, o que se classifica como desinformação de gênero. 

Outro elemento falso presente na estratégia desinformativa, e que contribui para o sensacionalismo, é a caracterização de festividade carnavalesca que se relaciona com culturas e religiões de matriz africana – como os desfiles de escolas de samba no Rio de Janeiro, associado à imagem da cantora e que nada se assemelha ao evento do qual Aline Barros participou.

A disseminação de falsidades relacionadas a situações que envolvem temas referentes a gênero são frequentemente observadas nas redes digitais. Bereia alerta para publicações que se valham do sensacionalismo, do pânico moral e da intolerância religiosa como arma de violência contra mulher no contexto digital. No caso em questão, as imagens de duas mulheres foram utilizadas – e manipuladas – para provocar uma reação de indignação que não se sustenta na realidade.

Referências da checagem 

G1

https://g1.globo.com/to/tocantins/noticia/2025/02/28/aline-barros-abre-programacao-de-carnaval-na-praca-dos-girassois-nesta-sexta-feira-em-palmas.ghtml Acesso em: 09 mar 2025

https://g1.globo.com/rj/rio-de-janeiro/carnaval/2024/noticia/2024/02/16/paolla-oliveira-renova-com-a-grande-rio.ghtml Acesso em: 09 mar 2025

https://g1.globo.com/rj/regiao-dos-lagos/noticia/2023/02/17/festival-de-musica-gospel-esta-entre-as-atracoes-do-carnaval-de-arraial-do-cabo-no-rj.ghtml Acesso em: 11 mar 2025

https://g1.globo.com/rj/rio-de-janeiro/carnaval/2022/noticia/2022/04/26/grande-rio-e-a-campea-do-carnaval-2022-do-rio.ghtml Acesso em: 11 mar 2025

Gshow

https://gshow.globo.com/carnaval/2024/noticia/paolla-oliveira-vira-onca-na-sapucai-em-desfile-da-grande-rio.ghtml Acesso em: 11 mar 2025

https://gshow.globo.com/carnaval/2024/noticia/de-cleopatra-a-pombagira-relembre-as-fantasias-de-paolla-oliveira-como-rainha-de-bateria.ghtml Acesso em: 11 mar 2025

Instagram

https://www.instagram.com/p/DGyc1m4yOYs/?igsh=Nm55dWo3YTN1Y3Ri Acesso em: 09 mar 2025

https://www.instagram.com/paollaoliveirareal/ Acesso em: 09 mar 2025

Instituto Humanitas Unisinos

https://www.ihu.unisinos.br/categorias/159-entrevistas/596668-a-festa-religiosa-do-carnaval-a-resistencia-alegre-dos-povos-perifericos-contra-o-conservadorismo-elitista-entrevista-especial-com-aydano-andre-motta Acesso em: 10 mar 2025

https://www.ihu.unisinos.br/categorias/159-entrevistas/619912-a-falta-que-a-festa-faz-a-religiosidade-afro-brasileira-e-os-enredos-das-escolas-de-samba-a-dimensao-utopica-de-como-o-mundo-deveria-ser-entrevista-especial-com-renata-de-castro-menezes-e-lucas-bartolo Acesso em: 10 mar 2025

Facebook

https://www.facebook.com/PalmasShowsGospel/photos/est%C3%A1-chegando-a-hora-o-maior-evento-crist%C3%A3o-do-pa%C3%ADs-faltam-apenas-07-dias-para-o/362152127242859/?_rdr Acesso em: 10 mar 2025

Gazeta do Cerrado

https://gazetadocerrado.com.br/tocantins/palmas/dividas-herdadas-podem-chegar-a-r-300-milhoes-em-palmas-e-eduardo-decide-cancelar-capital-da-fe-e-carnaval-este-ano/ Acesso em: 10 mar 2025

https://gazetadocerrado.com.br/tocantins/palmas/palmas-capital-da-fe-tera-este-ano-varias-atracoes-nacionais-e-novidades-veja-quem-ja-esta-confirmado/ Acesso em: 10 mar 2025

Jornal Opção

https://www.jornalopcao.com.br/tocantins/capital-da-fe-chega-a-quinta-edicao-com-atracoes-religiosas-durante-o-carnaval-167826/ Acesso em: 10 mar 2025

YouTube

https://www.youtube.com/watch?v=DQz_reGSOCI Acesso em: 10 mar 2025

https://www.youtube.com/watch?v=Jtr6g_ohJcg Acesso em: 10 mar 2025

Governo do Tocantins

https://www.to.gov.br/secom/noticias/em-palmas-governo-do-tocantins-promove-carnaval-da-diversidade-musical/2yn3nsnqr9ku#:~:text=Em%20Palmas%2C%20Governo%20do%20Tocantins%20promove%20Carnaval%20da%20diversidade%20musical,-Carnaval%202025%20celebrou&text=Uma%20programa%C3%A7%C3%A3o%20para%20atender%20todos,2025%20na%20Pra%C3%A7a%20dos%20Girass%C3%B3is. Acesso em: 09 mar 2025

Prefeitura de Palmas

https://portal2013.palmas.to.gov.br/conheca_palmas/grandes-eventos/capital-da-fe/ Acesso em: 09 mar 2025

Prefeitura de Sobral

https://www.sobral.ce.gov.br/informes/principais/sobral-de-fe-prefeitura-de-sobral-promove-evento-cristao-no-periodo-de-carnaval Acesso em: 11 mar 2025

Carta Capital

https://www.cartacapital.com.br/blogs/dialogos-da-fe/a-fe-como-expressao-da-vida-que-pulsa-no-carnaval/ Acesso em: 12 mar 2025

Religião e Poder

https://religiaoepoder.org.br/artigo/religiao-como-forma-de-protecao-da-cultura-manifestacoes-culturais-e-artisticas-como-campo-de-disputa Acesso em: 12 mar 2025

Áudios falsos sobre vacinas e surto de doenças voltam a circular em grupos de igrejas

Áudios enganosos publicados em grupos de WhatsApp de igrejas voltaram a circular, neste fevereiro, para espalhar pânico e desinformação sobre saúde pública. Bereia recebeu alerta de checagem de dois áudios, por leitores que desconfiaram do material que chegou aos grupos dos quais participam. 

O primeiro áudio fala sobre uma suposta vacina bivalente que misturaria as imunizações contra gripe e Covid-19, enquanto o segundo alerta para um falso surto de covid-19, dengue, chikungunya e zika que estaria sendo “escondido” pela mídia até o término do Carnaval. Ambas as mensagens são falsas e foram amplamente verificadas pelo Boatos.org e demais agências de checagens. 

O que dizem os áudios?

No primeiro, uma voz de mulher que não se identifica, gravado em local e data não registrados, afirma a alguém que a vacina bivalente contra covid-19 estaria sendo aplicada para “exterminar 50% da população mundial”. A mensagem também sugere que o laboratório Pfizer estaria envolvido nesse suposto plano e que a vacina da covid-19 estaria sendo “escondida” na vacina da gripe que deve ser aplicada em breve no Brasil. O áudio também menciona que um médico teria relatado um aumento de pacientes com sequelas causadas pelas vacinas, em contraste com a eficácia do chamado “tratamento precoce”. A gravação traz uma chamada específica para que não se permita que nenhum idoso seja vacinado contra a gripe e não informa a fonte de tais informações oferecidas.

Já no segundo áudio, uma mulher, também não identificada, que alega trabalhar em um hospital não determinado,diz que os casos de covid-19, dengue, chikungunya e zika estão em alta no Brasil, mas que essas informações estariam sendo ocultadas pela mídia até o fim do Carnaval. A gravação, igualmente, não tem local e data registrados e não indica de onde são originadas as informações em questão. Esta gravação também traz apelo específico para que pessoas voltem a usar máscaras.

Sobre as vacinas

A verdade é que não existe vacina bivalente que combine o vírus influenza (gripe) e  Sars-CoV-2 (covid-19). As vacinas bivalentes contra covid-19 (como as da Pfizer e da Moderna) protegem contra duas variantes do coronavírus (a cepa original e a Ômicron), e não contra o vírus da gripe. 

Vale lembrar que embora as vacinas sejam aplicadas separadamente, elas podem ser administradas no mesmo momento. De acordo com a Câmara Técnica de Assessoramento em Imunização (CTAI) do Ministério da Saúde, “não há nenhum risco em tomar as duas vacinas ao mesmo tempo. A possibilidade de ofertar estes imunizantes na mesma oportunidade é benéfica para a população, por promover uma proteção mais eficiente”.

Sobre o surto de doenças

Embora os áudios tentem causar pânico, os dados do Ministério da Saúde indicam uma estabilidade nos casos de covid-19, dengue, chikungunya e zika desde o início de 2024. Não há evidências de um aumento alarmante em 2025 e que seja ocultado pela mídia devido ao Carnaval. Além disso, o mesmo áudio já foi compartilhado em outros anos próximo a data da festa popular, o que revela se tratar da disseminação recorrente destas mentiras.

De fato, a positividade para o vírus da covid-19 subiu de 17,1% para 24,1% entre 25 de janeiro e 15 de fevereiro, o maior índice do ano até o momento, de acordo com um levantamento do Instituto Todos pela Saúde (ITpS). Porém, dentro de índices normais, o que não justifica o alarde dos áudios. O aumento está relacionado à circulação de uma nova variante, a JN.1, considerada pela OMS como “digna de monitoramento”, mas com risco global baixo.

Além da covid-19, houve aumento na positividade de testes para influenza A (gripe) e vírus sincicial respiratório (VSR), que afeta principalmente crianças. Esse crescimento é atribuído a uma mudança na sazonalidade desses vírus, causada pelo isolamento social durante a pandemia. É importante, ainda, lembrar que o período do verão é, historicamente, um tempo de propagação de doenças, seja relacionado a períodos de seca como os de muitas chuvas (caso também da dengue).

Em entrevista ao jornal Estado de S.Paulo, o infectologista Igor Thiago Queiroz, membro da Sociedade Brasileira de Infectologia (SBI), reforça a importância da vacinação e dos cuidados durante o Carnaval.

“Caso a pessoa tenha sintomas, ela não deve ir para aglomerações. É necessário utilizar máscara e lavar as mãos. Também não deve compartilhar objetos que possam ser colocados nas mãos, no nariz, nos olhos ou na boca. São medidas preventivas”, alerta.

***

Bereia classifica como falsas as informações divulgadas nos áudios que circulam em grupos de WhatsApp de igrejas. Não há vacina bivalente que mistura gripe e covid-19, e não há evidências de um surto de doenças ocultado pela mídia. Embora haja um aumento na positividade de casos de covid-19 e outras doenças respiratórias, as informações estão sendo divulgadas amplamente, e as vacinas continuam sendo a melhor forma de proteção.

As vacinas contra covid-19 e gripe são seguras e eficazes, e a aplicação simultânea é recomendada pelo Ministério da Saúde para garantir proteção ampla e oportuna, especialmente para idosos, gestantes e pessoas com comorbidades.

Bereia alerta para conteúdos que chegam em grupos de WhatsApp por áudios que não têm identificação de quem fala, do local e da data de origem e da fonte das informações oferecidas , pedem compartilhamento indiscriminado, propagam ideias sem fundamento científico ou até mesmo bizarras. Esses elementos são comuns em materiais desinformativos (forjados com falsidades e mentiras), criados deliberadamente para enganar e causar medo.

Pessoas que receberem mensagens como essas, não devem compartilhá-las, e, sim, buscar verificação em veículos de checagem e outras fontes de informação credenciadas. 

Vale lembrar que mentiras sobre temas de saúde e vacinas são um dos conteúdos mais checados pelo Bereia desde sua fundação e observados, inclusive, em períodos eleitorais.

Referências:

Ministério da Saúde https://www.gov.br/saude/pt-br/assuntos/saude-com-ciencia/noticias/2023/outubro/posso-tomar-bivalente-e-influenza-no-mesmo-dia 

https://www.gov.br/saude/pt-br/assuntos/noticias/2023/fevereiro/determinadas-doencas-sao-mais-comuns-durante-o-verao-saiba-quais-sao-e-como-prevenir

Acesso 26-02-25

Boatos.Org

https://www.boatos.org/saude/estao-dando-vacina-bivalente-gripe-e-covid-para-matar-as-pessoas-em-2025.html Acesso 26-02-25

https://www.boatos.org/saude/vacina-bivalente-pfizer-aplicada-junto-vacina-da-gripe-matar-populacao-conta-medica-belo-horizonte.html Acesso 26-02-25

https://www.boatos.org/saude/brasil-esta-com-covid-19-em-alta-que-esta-sendo-escondida-por-causa-do-carnaval.html Acesso 26-02-25

Instituto Todos pela Saúde

https://www.itps.org.br/comunicacao/positividade-para-covid-19-cresce-sete-pontos-percentuais-em-um-mes-e-chega-a-24-a-poucos-dias-do-carnaval Acesso 26-02-25

Estado de S. Paulo

https://www.estadao.com.br/saude/positividade-para-covid-19-aumenta-a-poucos-dias-do-carnaval-indica-levantamento-nprm/ Acesso 26-02-25

Foto de capa: Camilo Jimenez/Unplash

Deputado evangélico publica montagem enganosa sobre desfile da Vai-Vai

*Matéria atualizada em 19/02 para complementação de informações

O desfile da escola de samba Vai Vai, de São Paulo, que trouxe em uma de suas alas pessoas fantasiadas de policiais militares com chifres e asas, gerou reações negativas de políticos ligados à extrema-direita, com notas de repúdio e pedidos de suspensão do repasse de recursos públicos à escola. 

Entre os insatisfeitos com a apresentação do último 10 de fevereiro, sábado de Carnaval,, que exaltou a cultura Hip Hop no Brasil, estava o deputado federal evangélico Sóstenes Cavalcanti (PL-RJ), pastor da Assembleia de Deus Vitória em Cristo liderada pelo pastor Silas Malafaia. 

O parlamentar publicou, em 15 de fevereiro passado, em suas contas oficiais no Instagram e Facebook, uma montagem com a chamada: “Aberração patrocinada”, seguida de manchete do portal de notícias Metrópoles. O jornal havia publicado matéria, em reforço às críticas da extrema-direita à Vai-Vai, sobre uma autorização do Ministério da Cultura para a escola de samba captar, via Lei Rouanet, cerca de dois milhões de reais. A montagem do deputado recebeu a legenda “No DESgoverno Lula o que não falta é dinheiro público para bancar aberrações”. 

Bereia, então, checou o conteúdo publicado.

Imagem: reprodução Instagram/Facebook

A Vai-Vai, maior campeã do Carnaval de São Paulo, foi autorizada pela Secretaria Economia Criativa e de Fomento Cultural, do Ministério da Cultura, a captar R$ 2,1 milhões de reais, por meio da Rouanet. É o que informa a Portaria nº416, publicada em 25 de julho de 2023.

Contudo, a escola não utilizou o recurso. Segundo a matéria do Metrópoles, a agremiação não conseguiu captar o mínimo de 20% do valor autorizado, estabelecido na Portaria. Na época da homologação do projeto, a Vai-Vai informou ao governo apenas o nome do projeto chamado “​​Capítulo 4, Versículo 3 – Da rua e do povo, o HipHop: Um Manifesto Paulistano”. Até então, a escola não tinha nem mesmo o samba-enredo, que veio a ser composto no final de 2023, conforme o site da agremiação. Este fato foi omitido pelo deputado em sua montagem, que fez uso do título explorado pelo jornal. 

A Lei Rouanet é frequentemente alvo de desinformação. Conforme Bereia explica em diversas checagens, a forma mais comum de financiar projetos pela Rouanet é o incentivo fiscal, prática que articula setor cultural, governo e setor privado. Para beneficiarem-se de um incentivo fiscal, os projetos culturais devem, primeiramente, ser submetidos à avaliação de um corpo técnico, que verifica se o projeto se enquadra nos requisitos da lei. 

Dessa forma, o projeto que é homologado não recebe do Governo a quantia, em espécie, como se pensa, mas recebe a autorização para captar a quantia de empresas dispostas a doar, como é o caso da Vai-Vai, que buscou esse patrocínio, porém não conseguiu, como descrito na matéria.

O deputado federal, entretanto, não está só na divulgação da desinformação. Na competição por views e cliques no X/Twitter, veículos de notícias utilizam, com frequência, manchetes sensacionalistas, que incorrem em desinformação. A chamada do site Metrópoles para este caso, por exemplo, também desinforma. Em sua conta no Twitter, o portal divulgou na primeira linha uma falsidade — o recebimento de R$2,1 milhões pela escola de samba — e depois a informação correta. Um artifício que prioriza o alcance da publicação na plataforma, mas que prejudica a qualidade do conteúdo jornalístico.

Imagem: reprodução X/Twitter

Historicamente, as escolas de samba produzem desfiles cujos enredos expressam abordagens críticas à realidade do país. Mesmo no período da ditadura militar, as escolas de samba tiveram papel destacado na crítica ao Estado de exceção. O enredo da Vai-Vai, em 2024, abordou o lugar do Hip Hop na cultura popular, em especial, no que toca o empoderamento das periferias e o repúdio à forma como agentes do Estado praticam arbitrariedades violentas a estas populações. Daí a composição da ala que denuncia o papel da polícia militar na violência contra habitantes das periferias, em especial negros e negras. 

Em 2024, o desfile crítico se deu em um contexto dramático, sob a Operação Escudo, da Polícia Militar Paulista, na Baixada Santista. Moradores da região denunciam a prática de execuções, tortura e abordagens violentas por policiais militares contra a população local e egressos do sistema prisional, depois que um policial foi morto em uma das ações repressivas ao crime.

Esta expressão por meio do samba-enredo da Vai-Vai gerou reações negativas de policiais e de políticos ligados à Bancada da Segurança Pública, conhecida como Bancada da Bala. O governador Tarcísio de Freitas seguiu na mesma direção,  e declarou que teria dado “nota zero à escola”. Veículos da extrema-direita chegaram a publicar que a Vai-Vai tem vínculos com o crime organizado. 

O presidente da Vai-Vai Clarício Gonçalves, explicou à imprensa que o enredo é baseado em livros e fatos: “Aquela ala que foi polêmica é uma coisa que estava dentro do enredo. Não é possível você falar de um enredo e você ocultar a história. Mas, em momento algum, a gente tem alguma coisa contra a organização que realmente protege São Paulo”.

***

Após a apuração, Bereia considera como enganosa a publicação do deputado evangélico Sóstenes Cavalcanti. Apesar de trazer a informação verdadeira — que a escola foi autorizada a captar recursos — o deputado engana seguidores ao colocar em destaque a expressão “Aberração patrocinada”, junto com a legenda. 

Com o intuito de ampliar a rejeição à expressão crítica da Vai-Vai sobre a violência em São Paulo praticada pela PM, a montagem do deputado Sóstenes Cavalcanti usa a desinformação sobre o direito aos recursos da Lei Rouanet, frequentemente atacada com falsidades pela extrema-direita. Com isto, tenta fazer crer que o desfile se utilizou de recursos federais para a sua produção, o que é falso, para classificar como “aberração” e gerar repúdio a uma expressão crítica da qual o parlamentar tem discordância.

Atualização:
A Escola emitiu a seguinte nota dia 16 de fevereiro, em sua conta no X/Twitter:
NOTA DE ESCLARECIMENTO GRCSES VAI-VAI
Em resposta às manifestações de repúdio contra o desfile 2024 Em 2024, a escola de samba Vai-Vai levou para a avenida o enredo Capitulo 4, Versículo 3 – Da rua e do povo, o Hip Hop – Um manifesto paulistano.

Como o próprio nome diz, tratou-se de um manifesto, uma crítica ao que se entende por cultura na cidade de São Paulo, que exclui manifestações culturais como o hip hop. O desfile homenageou artistas excluídos, que nunca tiveram seu talento e notadamente reconhecido. Neste contexto, foram feitos, ao longo do desfile, uma série de recortes históricos, como a semana de arte de 1922 e o lançamento do álbum “Sobrevivendo no Inferno”, dos Racionais MCs, em 1997.

“Sobrevivendo no Inferno” é considerado o álbum mais importante do rap brasileiro. Em 2007, figurou na 14ª posição da lista dos 100 melhores discos da música brasileira pela Rolling Stone Brasil. Em 2018, na lista de obras de leitura obrigatória para o vestibular da Unicamp.

Racismo, miséria e desigualdade social — temas cutucados nos discos anteriores — foram expostos como uma grande ferida aberta, vide ‘Diário de um Detento’, inspirada na grande chacina do Carandiru”. Ou seja, a ala retratada no desfile de sábado, à luz da liberdade e ludicidade que o carnaval permite, fez uma justa homenagem ao álbum e ao próprio Racionais Mcs, sem a intenção de promover qualquer tipo de ataque individualizado ou provocação.

Vale ressaltar que, neste recorte histórico da década de 90, a segurança pública no estado de São Paulo era uma questão importante e latente, com índices altíssimos de mortalidade da população preta e periférica.

Além disso, é de conhecimento público que os precursores do movimento hip hop no Brasil eram marginalizados e tratados como vagabundos, sofrendo repressão e, sendo presos, muitas vezes, apenas por dançarem e adotarem um estilo de vestimenta considerado inadequado pra época. O que a escola fez, na avenida, foi inserir o álbum e os acontecimentos históricos no contexto que eles ocorreram, no enredo do desfile. Existimos. Resistimos. E seguimos fazendo carnaval!

Referências de checagem:

Poder 360º https://www.poder360.com.br/brasil/pl-pede-a-tarcisio-e-nunes-que-vai-vai-nao-receba-recursos-publicos/  Acesso em 16 Fev 2024

Portaria SEFIC/MINC. https://www.in.gov.br/en/web/dou/-/portaria-sefic/minc-n-416-de-25-de-julho-de-2023-498926990  Acesso em 16 Fev 2024

Metrópoles. https://www.metropoles.com/colunas/igor-gadelha/escola-pms-diabos-rouanet Acesso em 16 Fev 2024

Site Oficial Vai Vai. https://vaivai.com.br/blog/vai-vai-lanca-sinopse-e-abre-a-disputa-do-samba-para-2024 Acesso em 16 Fev 2024

Núcleo Jornalismo. https://nucleo.jor.br/interativos/2023-06-01-revista-oeste-e-metropoles-disputam-por-views-no-twitter/ Acesso em 16 Fev 2024

Revista USP. https://www.revistas.usp.br/Rumores/article/view/202035/190082  Acesso em 16 Fev 2024

G1. https://g1.globo.com/google/amp/rj/rio-de-janeiro/carnaval/2024/noticia/2024/02/01/serie-resistencia-do-samba-globoplay.ghtml Acesso em 16 Fev 2024

Agência Brasil. https://agenciabrasil.ebc.com.br/direitos-humanos/noticia/2024-02/moradores-da-baixada-santista-denunciam-execucoes-na-operacao-escudo Acesso em 16 Fev 2024

Uol. https://www.uol.com.br/carnaval/noticias/redacao/2024/02/12/desfile-da-vai-vai-e-criticado-por-delegados-de-sp-demonizaram-a-policia.htm Acesso em 16 Fev 2024

Terra. https://www.terra.com.br/noticias/brasil/politica/bancada-da-bala-critica-desfile-da-vai-vai-demonizou-a-policia,c9d898043f64e970586c4722efd392b6evnedmj6.html Acesso em 16 Fev 2024

O Globo. https://oglobo.globo.com/brasil/sao-paulo/noticia/2024/02/15/se-fosse-jurado-daria-nota-zero-diz-tarcisio-sobre-fantasia-da-vai-vai-em-referencia-a-violencia-policial.ghtml  Acesso em 16 Fev 2024

***

Foto de capa: Câmara dos Deputados

Ministro do Turismo compartilha imagem enganosa para criticar o Carnaval

No sábado de Carnaval, 13 de fevereiro de 2021, o recém-empossado Ministro do Turismo Gilson Machado Neto publicou no Twitter uma montagem de fotos relacionando o adiamento dos desfiles das escolas de samba de 2021 à cena da apresentação de um samba-enredo na avenida que mostra Jesus Cristo sendo arrastado pelo diabo.

A montagem tem duas imagens: o trecho da apresentação em que o diabo arrasta Jesus pelo chão, com a legenda “2020”; e outra do Sambódromo do Anhembi, em São Paulo, vazio, com a legenda “2021” e a frase “Dá para entender quem manda? Ou tem que desenhar?”. Com a postagem o ministro de Estado, relaciona o adiamento dos desfiles de 2021, causado pela pandemia de covid-19, a um “castigo divino” por conta do “desrespeito a Jesus” que teria sido praticado no ano anterior.

Postagem enganosa do Ministro do Turismo (Fonte: Twitter/Reprodução)

Até a data da produção desta matéria a postagem havia sido curtida por quase 50 mil pessoas e reproduzida por quase 20 mil.

Data mudada

Para divulgar sua avaliação sobre o adiamento dos desfiles de Carnaval, Gilson Machado mudou a data de uma das fotos. A primeira imagem a que atribui a suposto desrespeito em 2020, é da apresentação da comissão de frente da Escola de Samba Gaviões em 2019, que reeditou o enredo de 1994 “A saliva do santo e o veneno da serpente” que conta a história, lendas, benefícios e malefícios do tabaco. Na apresentação a Comissão de Frente da escola encenou uma disputa entre Jesus e as forças do mal, incluindo o diabo. Após a repercussão com críticas de religiosos, inclusive da Banda Evangélica no Congresso Nacional que acusou a Gaviões da Fiel de desrespeito, a escola publicou fotos em suas mídias sociais de momentos do desfile em que Jesus sai vitorioso na disputa com os dizeres “Jesus venceu o mal”.

A Comissão de Frente da Gaviões encenava a história de Santo Antão, que, segundo a tradição católica, deparou-se com uma serpente debilitada durante peregrinação pelo deserto. Apesar de ter salvo a cobra, Antão acabou picado por ela. A narrativa afirma que o peregrino arrancou o veneno com a boca e cuspiu no chão, e ali nasceu um ramo do que veio a ser o tabaco. A comissão da escola narrava essa crença: Santo Antão foi representado por uma escultura que cuspia fumaça quando se livrava do veneno. A mesma apresentação mostrava um anjo e Jesus derrotando o diabo em uma batalha.

Em entrevista à revista Veja, em março de 2019, o coreógrafo da escola Edgar Júnior explicou:

“O personagem do diabo está ali para testar a fé do Santo Antão. O enredo mostra que o diabo perde a batalha para os anjos do bem diversas vezes. Depois disso, ele coordena com as forças do mal e batalha com Jesus, que realmente sofre. Mas, no final, os anjos protegem Jesus e ele aparece forte, abençoa a plateia, os anjos do bem e do mal e até o diabo, porque ele é uma pessoa de luz. Acaba a guerra e ele fala com Santo Antão como a dizer: ‘Não perca a sua fé, sempre vão testá-la, mas estou aqui contigo’. O bem vence no final”.

Edgar Júnior em entrevista à Revista Veja em março de 2019

Em 2019, a escola campeã de São Paulo foi a Mancha Verde, com desfile sobre a princesa africana Aqualtune, avó de Zumbi dos Palmares, e discutiu escravidão, direitos de negros e mulheres e intolerância religiosa na avenida. Em 2020, aconteceram desfiles em várias cidades do Brasil, normalmente, inclusive em São Paulo. No Anhembi, a escola Águia de Ouro, foi a campeã, com enredo sobre a evolução do conhecimento humano, da Idade da Pedra à esperança nos robôs. A Gaviões da Fiel desfilou com um enredo sobre o amor.

Portanto, o Ministro do Turismo publicou um trecho da encenação de 2019 em que o diabo parecia vencer, com a legenda “2020”, levando seguidores à noção enganosa de que foi o ocorrido no ano anterior que teria provocado a ira de Deus com o envio da pandemia de covid-19 sobre o mundo. Na compreensão de Gilson Machado, por causa da encenação na pista, Deus teria agido imediatamente com o coronavírus para fechar sambódromos, contaminando 109 milhões de pessoas e matando quase 2,5 milhões em 192 países/regiões (dados até o fechamento desta matéria).

O não-dito que fala

Confrontado por quem viu a postagem enganosa, Gilson Machado Neto respondeu: “Não sou contra o carnaval, sou músico. Sou contra tripudiar e blasfemar o nosso Pai!”, disse o ministro de fé católica romana, nomeado durante as negociações do governo com o chamado Centrão, em troca de apoio na eleição para a presidência da Câmara dos Deputados. Ele era presidente da Agência Brasileira de Promoção Internacional do Turismo (Embratur) e passa a ocupar a pasta responsável por promover o turismo do Brasil, que tem o Carnaval como evento historicamente atrativo.

A Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC) estima que os setores de transportes, hospedagem e alimentação serão os mais afetados com o cancelamento do carnaval no Brasil, em 2021, por conta da pandemia do novo coronavírus. No ano passado, a data movimentou aproximadamente R$ 8 bilhões e gerou cerca de 25 mil empregos. Excepcionalmente neste ano, a CNC não fez projeções concretas sobre o carnaval, sobretudo por conta das diferentes decisões de estados e municípios em relação ao feriado.

* * *

O Coletivo Bereia classifica como enganosa a postagem do Ministro do Turismo Gilson Machado Neto, que fez uso de montagem de fotos com alteração de data, para reforçar a crença em um Deus violento e vingativo, que teria se sentido ofendido com um desfile de carnaval no Brasil, e por isso contaminou dezenas de milhões de pessoas com vírus, matou outros milhões em todo o planeta, e tornou mais pobres pessoas que dependem do turismo para sobreviver.

***

Foto de Capa: Pixabay/Reprodução

Referências

Globoplay, https://globoplay.globo.com/v/7426808/. Acesso em: 16 fev. 2021.

Folha de S. Paulo, https://www1.folha.uol.com.br/cotidiano/2019/03/bancada-evangelica-acusa-gavioes-da-fiel-de-intolerancia-religiosa-em-desfile.shtml. Acesso em: 16 fev. 2021.

Veja, https://veja.abril.com.br/cultura/o-bem-vence-no-final-diz-coreografo-da-gavioes-da-fiel-sobre-desfile/. Acesso em: 16 fev. 2021.

G1, https://g1.globo.com/sp/sao-paulo/carnaval/2019/noticia/2019/03/05/mancha-verde-e-a-campea-do-carnaval-de-sp.ghtml. Acesso em: 16 fev. 2021.

G1, https://g1.globo.com/sp/sao-paulo/carnaval/2020/noticia/2020/02/25/aguia-de-ouro-e-a-campea-do-carnaval-de-sp-pela-1a-vez.ghtml. Acesso em: 16 fev. 2021.

Opera Mundi, https://operamundi.uol.com.br/coronavirus/63574/mapa-da-covid-19-siga-em-tempo-real-o-numero-de-casos-e-mortes-por-covid-19-no-mundo. Acesso em: 16 fev. 2021.

G1, https://g1.globo.com/politica/noticia/2020/12/10/gilson-machado-e-nomeado-ministro-do-turismo.ghtml. Acesso em: 16 fev. 2021.

CNC, http://cnc.org.br/editorias/economia/noticias/cnc-setor-de-hospedagem-e-alimentacao-sera-um-dos-mais-afetados-com-o. Acesso em: 16 fev. 2021.

O diabo na campanha das eleições municipais no Brasil

* Publicado originalmente no site de CartaCapital em 25 de novembro de 2020.

O diabo é uma figura surgida na tradição cristã, que está relacionada à encarnação do mal. São variadas as interpretações, religiosas e científicas, antigas e modernas, de como a existência deste mal encarnado se dá. Boa parte das vezes, a figura do diabo é reduzida à imagem de uma entidade, representada de muitas formas, dependendo da cultura e do clima social. Por isso, as imagens variam de um homem vermelho, com tridente e rabo, a um galã elegante e sedutor, e são tanto fonte de medo, de narrativas orais, teatrais ou cinematográficas, algumas bem atrativas, como motivo de humor ou de fantasia do Carnaval.

Entretanto, vale refletir que, na teologia cristã, o diabo está para além de uma entidade. A origem do termo explica. No grego, diabolos e no hebraico, satan, o sentido é o mesmo: “aquele que divide”, “provocador de confusão, discórdia”. Isto significa que, enquanto Deus, o Criador, age para transformar o caos, unir, harmonizar, trazer paz, o diabo trabalha no contrário: divide, confunde, mente, causa injustiça, destruição e provoca violência seja ela física, psicológica ou simbólica. Diabolos é, portanto, nas bases da teologia cristã, uma postura, uma força, um caráter, revelados nas pessoas que assumem tais expressões.

Não vamos adiante com discussões teológicas, que são importantes, mas não são objetivo deste artigo. Importa aqui, neste espaço, refletir como o significado de diabolos pode nos ajudar a pensar sobre o que está acontecendo neste exato momento do Brasil, com as expressões de confusão, mentira, injustiça, destruição e violência no processo eleitoral.

É fato que temos o permanente desafio de superarmos os controversos binarismos certo-errado, legal-ilegal, bem-mal, entre outros, que disfarçam as complexidades das relações humanas e de sua extensão na cultura, na economia, na política. No entanto, em nome da promoção da vida em sua plenitude, em todas as suas dimensões, pela causa da paz e da justiça, precisamos chamar o mal pelo nome (como já escrevi em artigo neste espaço) e denunciar ações diabólicas que estão em curso. Algumas delas, para dividir e confundir, usam até mesmo o nome de Deus para seduzir cristãos (coisa que, de acordo com registros da Bíblia cristã, o diabo faz muito bem).

Por isso, Jesus, ao se deparar com as ações antivida, aquelas que instituem privilégios, segregação, desigualdade, que impedem a plenitude e a abundância de vida a todas as pessoas, desejo de Deus, compara estas práticas diabólicas às de um “ladrão”, que surge para roubar, matar e destruir (João 10.10). Ele também identificou disseminadores de mentiras como quem age a partir de desejos diabólicos: “… [no diabolos] não há verdade; quando ele profere mentira, fala do que lhe é próprio; porque é mentiroso, e pai da mentira” (João 8.44).

Neste sentido, podemos classificar como diabólicas as campanhas políticas para eleições municipais no Brasil, que fazem uso de mentiras agressivas para destruir a imagem de concorrentes. Isto acontece principalmente, mas não exclusivamente, nas capitais Rio de Janeiro, Vitória, Recife, Fortaleza e Porto Alegre. Estas ações, que visam convencer eleitores pela confusão que causa medo, partem de candidatos como o bispo da Igreja Universal do Reino de Deus que pleiteia a reeleição como Prefeito do Rio de Janeiro Marcelo Crivella (Republicanos). Em vídeo espalhado pela internet, Crivella afirma que o concorrente Eduardo Paes (DEM), tem apoio do Partido Socialismo e Liberdade (PSOL), pela promessa de ocupar a Secretaria de Educação e introduzir pedofilia nas escolas.

Além da mentira sobre pedofilia nas escolas, o atual prefeito do Rio afirmou, na companhia de deputado federal da Igreja Assembleia de Deus Otoni de Paula (PSC/RJ), que o PSOL é inimigo do Presidente da República e deseja dar uma segunda facada nele (referindo-se ao atentado sofrido por Jair Bolsonaro em 2018). A campanha diabólica de Crivella também distribui panfletos com o mesmo conteúdo na porta de igrejas e em espaços públicos, usando funcionários da Prefeitura.

Pesquisa sobre este discurso acusatório em vídeos de candidatos e apoiadores (inclusive do Presidente da República e seus ministros), folhetos sem identificação e registro (por isso, ilegais) e áudios que circulam por grupos religiosos no WhatsApp, verifica prioritariamente o convencimento com mentiras pela imposição do medo. Há também vídeos com falsidades e pânico moral (terrorismo verbal produzido para criar aversão social a pessoa ou grupo) de contracampanha, ou seja, de influenciadores políticos e religiosos que não apoiam candidatos, mas agem contra outros que querem destruir. Os vídeos do pastor da Assembleia de Deus Vitória em Cristo Silas Malafaia, para interferir em cidades com as quais, curiosamente, ele não tem qualquer relação, são fortes exemplos de contracampanha.

Desde as eleições de 2018, candidatos que buscam apoio de eleitores religiosos recorrem a conteúdo falso e ao pânico moral com base em temas relacionados à sexualidade humana, ao que chamam de “defesa da família tradicional” aliada a “proteção das crianças nas escolas”, e ao enganoso conceito de “ideologia de gênero” (como já tratei neste espaço). Neste 2020, foi acrescentado o tema da “perseguição a cristãos”, criando pânico em torno de candidatos que, se eleitos, atuariam para “fechar igrejas usando como desculpa a prevenção ao coronavírus”.

É fato que qualquer tema que levante o assunto “sexo” e “sexualidade” mexe com o imaginário dos cristãos e provoca muitas emoções (tratei disto também no artigo “Por que os evangélicos só pensam em sexo?”). É de se considerar também que, nos últimos anos, o contexto político brasileiro ressuscitou e realimentou o velho temor do comunismo e do marxismo. Como a maioria nunca leu uma linha das teorias de Karl Marx, acaba acreditando nos irmãos de fé que falam de “doutrinação de mentes”.

É fato ainda que os avanços nas políticas que garantem mais direitos às mulheres e a LGBTI+, e ampliam a participação destas populações no espaço público, causam desconforto às convicções e crenças de grupos que defendem, por meio de leituras religiosas, a submissão das mulheres e a cura dos LGBTI+. Uma moralidade ressentida.

Por isso, para estes grupos, o trabalho das agências de pesquisa e dos sites que promovem a checagem de informações, por mais detalhado e correto que seja, acaba não tendo um efeito suficiente. Não adianta que interlocutores, pacientemente, tentem mostrar que o que se divulga é falsidade e mentira. Isto porque o que sustenta este processo de crença nas mentiras não é apenas a ignorância, mas o fato de que a audiência acredita no que escolhe acreditar.

Quando um grupo se identifica com mentiras, mesmo que elas sejam demolidas em nome da ética e da justiça, permanece com elas e as defende de qualquer jeito. Não importa que seja uma falsidade, o conteúdo não é apagado dos espaços virtuais e continua a ser reproduzido. Mais: aquele que desmascarou a notícia ou a ideia, que pode ser um familiar, amigo ou irmão na fé, chega a ser objeto de desqualificação e rancor.

Eis aí o sentido do diabólico, da imposição de divisão, confusão, de destruição da imagem do outro com mentira.

A despeito de tudo isto, sempre há chance de exorcizar o diabo: expeli-lo do processo. Por isso há que se ter esperança da presença pública de cidadãos e grupos, religiosos ou não, que atuam pela superação das ações diabólicas em nome da paz e da justiça. Eles/as estão por aí, pessoas eticamente responsáveis, agências de checagem de notícias, como fermento na massa, tentando juntar e não dividir, construir e não destruir. Como disse Jesus, “pelos frutos os conhecereis” (Mateus 7.20).

Foto de capa: iStock/Reprodução

Apoie o Bereia!

Faça parte da comunidade que apoia o jornalismo independente