Após a divulgação, em 13 de outubro de 2026, do estudo “Fé e voto: o que padres e pastores disseram nos púlpitos às vésperas da eleição”, realizado pela organização More in Common Brasil em parceria com o Grupo de Pesquisa Passagens, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), foram publicados artigos e postagens que distorcem o propósito da pesquisa, para disseminar suspeitas sobre perseguição, como o Bereia checou. A Frente Parlamentar Evangélica (FPE) e o Instituto Brasileiro de Direito e Religião (IBDR) amplificaram o tema e divulgaram notas de repúdio à pesquisa. Os textos, porém, repetem o teor das suspeitas baseadas em imprecisões. As notas afirmam que o estudo teria o objetivo de verificar se líderes religiosos teriam cometido crime eleitoral, sem precisarem de que forma isto foi praticado.


Bereia ouviu o professor e pesquisador da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e co-autor do estudo Rodrigo Toniol, que explica que “a pesquisa não partiu de qualquer presunção de ilicitude por parte de padres, pastores ou fiéis. O problema investigado foi compreender como temas políticos e eleitorais aparecem nas celebrações religiosas brasileiras, quais formas assumem e como variam entre diferentes tradições religiosas”.
A antropóloga coordenadora acadêmica do Instituto de Estudos da Religião (Iser) Regina Novaes, também entrevistada pelo Bereia sobre o caso, ressalta que “do ponto de vista científico, uma pesquisa que investiga a ocorrência de determinada prática não pressupõe que todos os integrantes do universo estudado a realizem. De fato, o que se busca saber é: como e com qual frequência acontece determinado fenômeno?”
Toniol destaca que a pesquisa não se limitou a identificar propaganda eleitoral. Foram investigadas também manifestações de caráter cívico, como orientações para o voto consciente, apelos à responsabilidade dos eleitores e discursos contrários à polarização política. Essas ações foram quase cinco vezes mais frequentes do que as classificadas como propaganda eleitoral. Para o pesquisador, isto demonstra que o levantamento não foi criado com o propósito de encontrar irregularidades, mas para compreender de que forma a política aparece no cotidiano das igrejas.
Liberdade religiosa
As notas de deputados evangélicos (FPE) e de juristas católicos (IBDR) também classificam o estudo como um risco à liberdade religiosa, o que não se aplica ao caso. O professor Toniol afirma que é importante distinguir a análise de discursos religiosos públicos da coleta de informações pessoais sobre as convicções religiosas dos indivíduos. “A pesquisa utilizou exclusivamente gravações de celebrações disponibilizadas publicamente pelas próprias instituições religiosas em seus canais do YouTube. Não houve investigação das crenças individuais dos fiéis, elaboração de perfis religiosos pessoais ou coleta de informações privadas”. O relatório divulgado também não identifica nominalmente padres ou pastores, nem traz informações pessoais sobre os fiéis.
Já a professora Regina Novaes reforça que a legislação prevê hipóteses específicas para o tratamento de dados para fins acadêmicos e de pesquisa, mediante condições e salvaguardas adequadas. “Para concluir que uma pesquisa sobre religião é ilegal, seria necessário demonstrar concretamente alguma irregularidade no tratamento dos dados. O que as notas das organizações não demonstram.”
A coordenadora acadêmica do Iser avalia que não há qualquer contradição entre defender a liberdade religiosa e reconhecer a legitimidade de pesquisas sobre a atuação política das instituições religiosas. “É verdade que a Constituição proíbe que o poder público embarace o funcionamento das igrejas, mas não há como demonstrar que uma pesquisa acadêmica – realizada a partir de transmissões públicas, sem interferência nas celebrações – possa, de alguma forma, equivaler a uma ação estatal de fiscalização ou constrangimento religioso.” Para Novaes, a liberdade de culto não pressupõe que aquilo que acontece nas igrejas esteja imune à observação, à pesquisa ou ao debate público. Até porque, explica a antropóloga, a liberdade de pesquisa também é constitucionalmente protegida.
“É fundamental preservar a autonomia universitária e a liberdade de investigação científica. Pesquisar a atuação pública de instituições religiosas, partidos políticos ou quaisquer outros atores sociais é uma atividade legítima da universidade. O exercício dessa liberdade não pode ser condicionado à concordância dos grupos ou instituições que são objeto da investigação”, defende Rodrigo Toniol. Já Regina Novaes argumenta que “a liberdade religiosa não deve ser usada para silenciar a liberdade de produção científica das ciências sociais”, e acrescenta: “fica aqui um convite para que todos leiam o relatório, acessível publicamente”.
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Bereia alerta leitores e leitoras sobre o uso da ideia de vigilância e perseguição a igrejas amplamente utilizada para disseminação de medo e desconfiança, especialmente em campanhas eleitorais, como tem sido tratado em várias matérias e artigos neste espaço.
Referências
Fé e voto: um retrato do discurso eleitoral nas igrejas brasileiras, More in Common Brasil em parceria com o Grupo de Pesquisa Passagens da UFRJ
Frente Parlamentar Evangélica
https://www.instagram.com/fparlamentarevangelica/p/DeiUDizxZNN/ Acesso em 17 out 2026
IBDR
https://www.ibdr.org.br/notas-publicas/eleicoes/ Acesso em 17 out 2026


