São falsas correntes de whatsApp pedindo oração por cristãos perseguidos

Desde 2016 circulam nos grupos de whatsApp mensagens falsas, repassadas em forma de corrente, contendo pedidos de oração por “missionários condenados à morte por afegãos islâmicos”.

Segundo o site Boatos.org, a mensagem abaixo teria sido desmentida em 2007 pela equipe do Snope.

“Por favor, vamos orar pelos 22 missionários que foram condenados à morte. Um deles é nosso irmão Fabio Schuartz, missionário da cidade de Niterói RJ, que será morto amanhã por afegãos islâmicos. Tentem não demorar e passar essa mensagem bem rápido para que muitas pessoas estejam orando também. Pastor Márcio da Batista de Niterói postou pedindo oração. E também que cada um repasse para mais pessoas orarem. Não importa a religião de cada um, oremos pelo ser humano que está no campo levando a Palavra do SENHOR, obrigado!!!”

Outra mensagem enganosa diz que vinte igrejas teriam sido queimadas e duzentos missionários mortos em 24 horas, na Índia.

“Notícia triste. Por favor, pedido de oração urgente. Ore pela igreja na Índia. 20 igrejas foram queimadas ontem à noite. E hoje à noite, querem destruir, mais de 200 igrejas na província de Olisabang. Querem matar 200 missionários dentro dos próximos 24 horas. Todos os cristãos estão se escondendo em aldeias… Ore por eles e envie esta mensagem para todos os cristãos que você conhece em todo o mundo. Peça a Deus que tenha misericórdia dos nossos irmãos e irmãs na Índia. Quando você receber esta mensagem, por favor, envie-a com urgência para outras pessoas.

Em 2018, o site BBC também desmentiu uma mensagem do mesmo tipo. Nela, homens, mulheres e crianças estariam sendo decapitadas por um grupo radical islâmico em Quaragosh, no Iraque.

“Se puder encaminhá-lo, junte-se a nós em oração urgente, porque o grupo radical islâmico acaba de tomar Quaragosh, a maior cidade cristã do Iraque. Onde há centenas de homens, mulheres e crianças cristãs que estão sendo decapitados. Por favor, tome um minuto e ore por eles. Passar a mensagem para todos os seus contatos, não cortar a cadeia. Nós fomos convidados a orar, por favor, passe para outros.”

Nas três mensagens é possível perceber algumas características que, geralmente, são usadas em correntes de whatsApp. Usam advérbios de tempo “ontem, hoje, amanhã”, que podem ser usados para qualquer dia, sem especificar uma data. Carregam um tom alarmista e pedem que a mensagem seja repassada com “urgência”, o que facilita o compartilhamento sem nenhum tipo de verificação, e, por fim, misturam realidade com ficção, já que a perseguição em alguns países acontece em níveis severos.

No último dia 15, a Organização Cristã Portas Abertas divulgou a Lista Mundial da Perseguição, apresentando os 50 países em que há grande hostilidade a quem professa fé cristã. Os dados mostram que entre 1º de novembro de 2018 e 31 de outubro de 2019, período em que foi realizado a pesquisa, 8 cristãos foram mortos por dia, 182 igrejas ou edifícios cristãos foram atacados por semana e 309 cristãos foram presos injustamente por mês.

A perseguição aos cristãos é real e crescente em muitos países, como mostram os dados. Essa realidade acaba servindo como pano de fundo para a criação e propagação de mensagens falsas, com pedidos oração por pessoas que supostamente estariam em situação de risco de morte.

De acordo com o secretário geral de Portas Abertas no Brasil, Marco Cruz, essas correntes pelo whatsApp são um desserviço à Igreja Perseguida.  Para ele, muitas dessas informações são difíceis de checar por falta de provas, como boletins de ocorrência, relatos na imprensa ou outros documentos confiáveis. A Missão trabalha somente com dados checáveis de monitoramento.

Ele ainda afirmou que a equipe de PB sempre recebe questionamentos sobre o caso das 20 igrejas queimadas na Índia. “Essa é a mais antiga. A mensagem fala sempre ‘de ontem’, mas nunca acertam o dia de real ocorrência. Sim, a Índia está em 10° lugar na Lista Mundial da Perseguição que classifica os 50 países que mais perseguem cristãos no mundo. Por isso, acredito que seja a notícia que mais se espalhe. Mas, vamos aos números corretos. Em 2019, 2.983 cristãos foram mortos em todo o mundo por motivos de sua fé. Na Índia, houve 9 ocorrências de mortes e 34 ataques à propriedades cristãs (casas, igrejas, hospitais, escolas), além de 295 cristãos presos ou condenados sem julgamento”.

Já em relação a corrente sobre o Iraque, o secretário afirmou que este tipo de perseguição acontece com certa regularidade no Iraque, não apenas em Quaraqosh. “O Iraque está no 15º lugar da Lista Mundial da Perseguição em 2020. Os ataques são frequentes à igrejas e comunidades, principalmente pela presença do Estado Islâmico no país. Porém, no ano passado, com a expulsão do Estado Islâmico, houve um tempo de paz e os dados mostram que 3 cristãos foram mortos por motivos religiosos. Mesmo assim, o número de cristãos mortos aumenta no país. Pode parecer estranho e contraditório, mas os ataques de outros países, por conflitos que não são religiosos, acabam deixando os cristãos em estado de vulnerabilidade ainda maior e, no meio de fogo cruzado, eles também são atingidos”, observa Cruz.

Na dúvida, quando o assunto é perseguição religiosa, é sempre importante consultar fontes para averiguar a veracidade da informação.

Referências de Checagem:

22 missionários condenados à morte por afegãos#boatos. Disponível em: www.boatos.org/mundo/22-missionarios-condenados-a-morte-por-afegaos.html

20 igrejas foram queimadas ontem à noite em Olisabang. Disponível em: https://www.boatos.org/religiao/20-igrejas-queimadas-ontem-olisabang-india.html

Recebeu pedido de orações por crianças cristãs decapitadas em Qaraqosh? O que há de verdadeiro ou falso na mensagem. Disponível em: https://www.bbc.com/portuguese/salasocial-43324898

Não há dúvida: a existência de um “kit gay” organizado por Fernando Haddad é falsa

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O  ministro da Educação, Abraham Weintraub, voltou a afirmar sobre a existência de um ‘kit gay’. A declaração ocorreu durante a audiência pública da Comissão de Educação da Câmara dos Deputados, ocorrida na última quarta-feira (11/12). 

De acordo com o ministro, o MEC, sob sua gestão, fez “a maior revolução na área do ensino no Brasil nos últimos 20 anos” e, para fundamentar sua fala, emendou que “o símbolo máximo é que sai o  ‘ki gay’ e entra livros para crianças lerem com os pais”

Nestes últimos dias, Bereia recebeu de vários leitores a pergunta: kit gay existe?”

Apesar de ser um tema exaustivamente abordado nas mídias noticiosas, ainda há pessoas que têm dúvida sobre a existência, ou não, de tal material didático que teria sido distribuído às crianças nas escolas públicas durante a gestão de Fernando Haddad, quando ministro da Educação. A suspeita é alimentada ainda mais por meio de declarações, como a do ministro da Educação durante audiência no Congresso. 

A fala sobre a existência do “kit gay” passou a circular pelas mídias sociais durante a campanha eleitoral de 2018. Vídeos, fotos e textos atribuíam ao candidato à Presidência da República, Fernando Haddad (PT), a criação de um “kit gay” para crianças de 6 anos. Parte dos posts diziam que o livro “Aparelho Sexual e Cia” teria sido adotado em programas do governo enquanto Haddad teria ocupado o cargo de ministro da Educação, de 2005 a 2012.

O então candidato e hoje Presidente da República, Jair Bolsonaro, divulgou amplamente os conteúdos em sua campanha pelas mídias sociais e chegou a afirmar, durante entrevistas ao Jornal Nacional (Rede Globo) e Globo News, em 28 de agosto de 2018, que o livro “Aparelho Sexual e Cia” estava no programa do Ministério da Educação do PT. “Estavam discutindo ali, comemorando o lançamento de um material para combater a homofobia, que passou a ser conhecido como ‘kit gay’. Entre esse material, estava esse livro [Aparelho Sexual e Cia – Um guia inusitado para crianças descoladas]. Se bem que na biblioteca das escolas públicas tem”, disse na entrevista transmitida ao vivo. 

Jair Bolsonaro também afirmou nas entrevistas que o debate contra o “kit gay” teria ocorrido durante o “9º Seminário LGBT Infantil”, na Câmara dos Deputados, entre 2009 e 2010. 

O que é verdade?

“Kit gay” foi o apelido dado por deputados federais conservadores ao material do projeto “Escola sem Homofobia”, campanha lançada no governo anterior (em 2004), denominada “Brasil sem Homofobia”, aprovada no Congresso Nacional. 

O material, finalizado em 2011, seria dirigido aos professores e não às crianças e adolescentes. A cartilha explicava conceitos como gênero e sexualidade e sugeria atividades em sala de aula para os alunos refletirem sobre temas como comportamento preconceituoso ou analisarem, por exemplo, expressões sexistas na língua portuguesa. Também havia sugestão de materiais audiovisuais para a sala de aula. Organizado por profissionais de educação, gestores e representantes da sociedade civil, o material era composto de um caderno, uma série de seis boletins, cartaz, cartas de apresentação para os gestores e educadores e três vídeos.

O Ministério da Educação, no entanto, cedeu às pressões das bancadas religiosas do Congresso Nacional e setores conservadores da sociedade, e suspendeu a distribuição do material antes dele ser, de fato, enviado aos professores.

Já o livro “Aparelho Sexual e Cia – Um guia inusitado para crianças descoladas”, publicado no Brasil pela Companhia das Letras, de autoria dos educadores da Suíça e França, Phillipe Chappuis, com o coidinome ZEP e Hélène Bruller, nunca foi comprado pelo Ministério da Educação, nem foi distribuído em escolas. A obra publicada pela Companhia das Letras é destinada à crianças e jovens de 11 a 15 anos, e não para crianças a partir de 6 anos, como circulou nas mídias sociais e foi reforçado por Jair Bolsonaro em entrevista.

Sobre o “kit gay” ter sido discutido no Seminário LGBT Infantil, no Congresso, em 2010, tal evento nunca aconteceu. Em maio de 2012, ocorreu o evento anual “9º Seminário LGBT no Congresso Nacional”, que tratou dos temas “infância e sexualidade”. O evento não tinha relação com o Ministério da Educação ou com materiais por ele produzidos. 

Uma representação contra a campanha de Jair Bolsonaro no Tribunal Superior Eleitoral (TSE) resultou na decretação, pelo órgão, de que o “kit gay” não existe e ainda a suspensão de links de sites e mídias sociais com a expressão “kit gay”, usados pela campanha de Bolsonaro para atacar o candidato do PT, Fernando Haddad. Bolsonaro foi proibido, de acordo com a sentença, de compartilhar este conteúdo, pois o mesmo foi classificado, pela justiça, como notícia falsa.

“Nesse quadro, entendem comprovada a difusão de fato sabidamente inverídico, pelo candidato representado e por seus apoiadores, em diversas postagens efetuadas em redes sociais, requerendo liminarmente a remoção de conteúdo. Assim, a difusão da informação equivocada de que o livro em questão teria sido distribuído pelo MEC gera desinformação no período eleitoral, com prejuízo ao debate político”, concluiu o ministro do TSE Carlos Horbach, que assinou a sentença.

Importa registrar que há uma Comissão Parlamentar Mista de Inquérito (CPMI), em curso no Congresso Nacional, que investiga o amplo uso de notícias falsas (fake news) pela campanha eleitoral de Jair Bolsonaro.

Com a sentença do TSE, não deve restar dúvidas de que o material do projeto ‘Escola sem homofobia’, chamado “kit gay”, tenha sido distribuído em escolas, pois foi vetado antes de ser impresso. Não deve haver dúvidas, ainda, de que o livro “Aparelho Sexual e Cia” tenha sido adotado pelo Ministério da Educação e muito menos distribuído por ele em escolas.

Portanto, Bereia reproduz o que foi determinado pela justiça brasileira: a existência de um ‘kit gay’, tal como alardeado, é notícia FALSA. 

Referências de Checagem:

Declaração do ministro da Educação, Abraham Weintraub na última quarta-feira (11/12). Disponível em: https://www.cartacapital.com.br/educacao/weintraub-o-pais-vive-a-maior-revolucao-do-ensino-nos-ultimos-20-anos/amp/?__twitter_impression=true

Entrevista com Jair Bolsonaro no Jornal Nacional. Disponível em: https://g1.globo.com/politica/eleicoes/2018/noticia/2018/08/28/bolsonaro-diz-ao-jn-que-criminoso-nao-e-ser-humano-normal-e-defende-policial-que-matar-10-15-ou-20.ghtml

Entrevista com Jair Bolsonaro na Globo News. Disponível em: https://g1.globo.com/politica/eleicoes/2018/noticia/2018/08/28/bolsonaro-diz-que-se-eleito-extinguira-ministerio-das-cidades-e-mandara-dinheiro-diretamente-para-prefeituras.ghtml

Dilma Rousseff manda suspender lit anti-homofobia. Disponível em: http://g1.globo.com/educacao/noticia/2011/05/dilma-rousseff-manda-suspender-kit-anti-homofobia-diz-ministro.html

“Aparelho Sexual e Cia – Um guia inusitado para crianças descoladas”, publicado no Brasil pela Companhia das Letras. Disponível em: https://www.companhiadasletras.com.br/detalhe.php?codigo=12264

Não existiu ‘9º Seminário LGBT Infantil’ no Congresso Nacional em 2010. Disponível em: https://www.huffpostbrasil.com/2018/08/30/nao-existiu-9o-seminario-lgbt-infantil-no-congresso-nacional-em-2010_a_23512614/

“9º Seminário LGBT no Congresso Nacional, realizado em maio de 2012. Disponível em: https://www.valor.com.br/node/5957839

TSE diz que kit gay não existiu e proíbe Bolsonaro de disseminar notícia falsa. Disponível em: https://congressoemfoco.uol.com.br/eleicoes/tse-diz-que-kit-gay-nao-existiu-e-proibe-bolsonaro-de-disseminar-noticia-falsa/# 

Comissão Parlamentar Mista de Inquérito (CPMI) investiga amplo uso de notícias falsas. Disponível em: https://legis.senado.leg.br/comissoes/comissao?0&codcol=2292