Site gospel distorce informação sobre pesquisa que mediu campanha eleitoral em cultos e missas e espalha pânico

Enganoso

O portal de notícias gospel Pleno News publicou, neste 14 de outubro, um artigo de opinião do pastor sênior da Igreja Cristã da Aliança Renato Vargens, intitulado “Liberdade religiosa sob vigilância: o risco de monitorar cultos e missas”. O texto questiona pesquisa científica sobre campanha eleitoral em  celebrações religiosas com alegações de possível ameaça à liberdade religiosa reportada pelo Bereia.

O texto sugere que o monitoramento pode abrir caminho para censura e intimidação de comunidades religiosas. Bereia não checa textos de opinião, apenas material de caráter informativo, porém, como o site gospel tem apresentado o conteúdo em formato de informação, a equipe verificou que o artigo usa conteúdo distorcido sobre a pesquisa para sustentar uma interpretação. 

O que diz o conteúdo publicado?

Erroneamente, o Pleno News anuncia na chamada sobre o artigo, publicado na rede digital, que a pesquisa é conteúdo promovido pelo jornal Folha de S. Paulo. Na verdade, a pesquisa foi realizada pela organização More in Common, em parceria com o Grupo de Pesquisa Passagens da Universidade Federal do Rio de Janeiro. O texto do site gospel é baseado na reportagem do jornal sobre a investigação científica. 

Imagem: Post em carrossel sobre o conteúdo do artigo. Reprodução/Instagram

No artigo divulgado, o pastor Vargens pergunta como os áudios foram obtidos, se as igrejas tinham conhecimento da iniciativa e quais critérios os pesquisadores utilizaram para identificar crimes eleitorais e manifestações políticas. Ele levanta suspeitas sobre a forma de coleta dos dados. 

De fato, a reportagem omite a informação sobre a metodologia,  porém,  o relatório é acessível e o Bereia ofereceu este detalhamento na matéria que publicou sobre o tema, em 13 de outubro. O processo é cientificamente exposto no relatório. O estudo foi baseado na transmissão de milhares de cultos e missas pelo YouTube,  disponíveis ao público nas duas semanas anteriores ao primeiro turno das eleições de 2026.  publicação também foi divulgada no perfil do Pleno News no Instagram com registro de mais de duas mil curtidas e 200 comentários

O  artigo opinativo, apresentado em caráter informativo, omite a metodologia aplicada para oferecer suspeita de que pesquisadores teriam vigiado as comunidades de fé secretamente. Para ele, isto representaria risco à liberdade religiosa, por isso sugere, em conclusão, que o monitoramento pode ser usado futuramente para intimidar comunidades religiosas. 

Ao enfatizar cenários hipotéticos de censura e perseguição sem base factual, sem lançar mão do conteúdo relatado pelos pesquisadores, o autor e o veículo gospel distorce o teor e a metodologia da pesquisa, optando por incitar temor no público das igrejas.

O que a pesquisa identificou?

Em checagem já publicada, o Bereia apresentou os resultados da pesquisa Fé e voto: um retrato do discurso eleitoral nas igrejas brasileiras, realizada pela More in Common Brasil em parceria com o grupo Passagens, da UFRJ.

O levantamento analisou cerca de 7,4 mil cultos e missas transmitidos publicamente em 25 estados e no Distrito Federal, referentes aos dois domingos anteriores ao primeiro turno de 2026. Identificou propaganda eleitoral em 3% das celebrações.

Foram classificadas como propaganda eleitoral manifestações que promoviam ou atacavam candidaturas. Entre os exemplos estavam pedidos de votos, bênçãos específicas a candidatos, avisos sobre distribuição de panfletos e convites para adesivar veículos de fiéis.

O estudo também identificou mensagens cívicas, como incentivo ao voto consciente e combate à polarização. Esse tipo de manifestação foi quase cinco vezes mais frequente do que a propaganda eleitoral. A propaganda apareceu em 8,3% dos cultos das Assembleias de Deus analisados, 1,4% dos cultos batistas e 0,7% das missas católicas.

Os dados distinguem propaganda eleitoral de outras manifestações políticas e cívicas. Não indicam que toda menção a governantes, leis ou questões sociais tenha sido classificada como propaganda ou crime.

Análise de celebrações públicas significa censura religiosa?

Não. A análise de transmissões públicas no YouTube não representa, por si só, interferência nas celebrações ou restrição à liberdade de culto. O material é público.  Identificar propaganda eleitoral em espaços religiosos não significa criminalizar toda referência à política, a valores morais ou a questões sociais. Porém os dados são importante instrumento de levantamento do irregular pedido de votos e do abuso religioso nas eleições, o que contraria a legislação eleitoral. 

De qualquer forma,  a caracterização de infração eleitoral depende das circunstâncias e das normas aplicáveis e só pode ser feita pelas instituições do Judiciário responsáveis. 

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Bereia alerta sobre o caráter desinformativo  do artigo opinativo na forma como está exposto pelo Pleno News, que ganha expressão enganosa. O  texto impõe desnecessariamente suspeição sobre obtenção dos áudios, como as igrejas foram estudadas e os critérios dos pesquisadores. O documento produzido os detalha. Tais pontos poderiam ser fonte de questionamento para discussão da viabilidade do método utilizado, porém não de suspeita quanto à aplicação dele, uma vez que a pesquisa em espaços digitais é fartamente utilizada na academia e também fora dela, da parte de empresas que visam maior alcance de público. 

A hipótese interpretativa de que igrejas podem sofrer censura e perseguição no Brasil, apesar de incabível no contexto atual, não é nova entre grupos cristãos que lançam mão dela para alcançar audiência ou convencer para certas pautas políticas, como Bereia tem insistentemente publicado. A publicação pode levar leitores a confundir uma investigação sobre propaganda eleitoral em espaços religiosos com uma iniciativa de controle das pregações.

O leitor pode consultar o relatório original e a matéria publicada pelo Bereia para conhecer os objetivos, os métodos e os resultados da pesquisa antes de compartilhar afirmações sobre seus possíveis efeitos.

Referências:

Fé e voto: um retrato do discurso eleitoral nas igrejas brasileiras, More in Common Brasil em parceria com o Grupo de Pesquisa Passagens da UFRJ. https://moreincommon.org.br/fe-e-voto-o-que-padres-e-pastores-disseram-nos-pulpitos-as-vesperas-da-eleicao/. Acesso em 14 d eout de 2026. 

Folha de S. Paulo. https://www1.folha.uol.com.br/colunas/rodrigo-toniol/2026/10/pesquisa-inedita-monitora-mais-de-7000-cultos-e-missas-durante-as-eleicoes.shtml. Acesso em 14 d eout de 2026.

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