Perfis digitais e big techs atuam para aliviar envolvimento de André Mendonça com Daniel Vorcaro

Uma investigação do Instituto Democracia em Xeque revelou que ferramentas de inteligência artificial do Google e do X reproduziram uma conversa falsa envolvendo o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) André Mendonça e o banqueiro Daniel Vorcaro como se fosse verdadeira. 

A suposta troca de mensagens começou a circular em 21 de setembro nas redes digitais, insinuando que Vorcaro, em um diálogo com um interlocutor chamado “Francisco”, expressava desconfiança em Mendonça. Porém, apuração do Intercept Brasil demonstrou que o diálogo foi fabricado: a imagem foi manipulada a partir de uma conversa verdadeira, que não mencionava o ministro.

Quatro IAs foram testadas: Gemini (Google), Grok (X), ChatGPT (OpenAI) e Claude (Anthropic). Gemini e Grok confirmaram a informação falsa; ChatGPT e Claude também reproduziram a narrativa, com algumas ressalvas. A pesquisa identificou que um dos principais problemas está no uso de sites, blogs e perfis pouco conhecidos como fontes, muitas vezes citando referências já desmentidas por agências de checagem.

O estudo destaca um novo desafio no combate à desinformação: além das plataformas digitais impulsionarem desinformação, sistemas de IA podem conferir uma falsa aparência de credibilidade a conteúdos não verificados. Em ano eleitoral, especialistas alertam que chatbots usados como fontes políticas podem reforçar percepções errôneas sobre fatos,

autoridades e candidatos. Essa situação reforça algo fundamental no jornalismo responsável: respostas de inteligência artificial não podem ser tratadas como fatos consumados. Como qualquer fonte, devem ser confrontadas com documentos oficiais, veículos confiáveis e checagens independentes para evitar a propagação de desinformação.

O print de tela que viralizou entre evangélicos e apoiadores da direita política

O conteúdo circulante que foi objeto da pesquisa do Intercept é uma captura de tela atribuída ao celular do ex-banqueiro Daniel Vorcaro. A imagem divulga um suposto diálogo em que o tal interlocutor chamado “Francisco” afirma: “não confio no Mendonça, deixa quieto” e, questionado se a tentativa de diálogo teria dado certo, responde que “o cara só fala de Deus, pô, não dá pra dialogar não”.

O print é manipulado e se revela uma tentativa de atribuir isenção ao ministro do Supremo Tribunal, que aparece nos vazamentos de partes das investigações sobre o golpe financeiro do Banco Master, relacionando-se com o  banqueiro Daniel Vorcaro. 

A divulgação de conversas que revelaram o relacionamento de Mendonça com Vorcaro, que envolve intermediação do pastor das Assembleias de Deus deputado Cezinha de Madureira (PL-SP), abalaram a imagem do ministro do STF, que, desde agosto passado, vinha sendo apresentado nas mídias como novo “herói anti-corrupção”. Mendonça não negou os encontros, apenas relatou que teriam sido para assuntos técnicos sobre precatórios. Suspeitas sobre isto recaíram no fato de os encontros terem ocorrido fora do STF, em espaços privados, como a sede do instituto liderado por Mendonça. O conteúdo propagador da ideia de isenção do ministro se apoia no fato de ele ser um homem religioso, “de Deus”, o que teria dito pelo personagem “Francisco”.

Não há comprovação documental no inquérito para qualquer conversa naquele formato. O relatório da Polícia Federal (PF), com a análise e extração dos dados armazenados no celular de Daniel Vorcaro, está anexado à Petição 16.662 no STF. O documento possui 218 páginas e detalha mensagens, contratos e fluxos de pagamentos investigados pela Polícia Federal. 

A mensagem “não confio no Mendonça, ele só fala de Deus” não sai da boca do ex-controlador do Banco Master. A busca no registro de áudios do inquérito não localizou o conteúdo como fala de Vorcaro.

O print forjado foi publicado no Instagram e viralizado pelo empresário Tallis Gomes. A publicação passou a ser contestada como falsa, a empresa Meta etiquetou como “informação falsa” e foi, depois, excluída pelo proprietário.

Imagem: Perfil no Instagram de Tallis Gomes

Tallis Gomes é empresário mineiro, que ganhou projeção nacional como fundador da Easy Taxi, startup de mobilidade que chegou a atuar em dezenas de países. Entre outros empreendimentos criou a G4 Educação, empresa voltada para educação e formação de empresários.Gomes acumula polêmicas. Em 2024, após declarar nas redes sociais “Deus me livre de mulher CEO” e defender uma visão tradicional sobre os papéis de homens e mulheres, deixou o comando do G4 e foi retirado do conselho consultivo da empresa Hope. O empresário também já afirmou publicamente defender jornadas de 70 a 80 horas semanais e declarou que não contrataria profissionais de esquerda, declarações que provocaram forte repercussão.

O print produzido por Tallis Gomes para diminuir o peso da relação entre o ministro do STF André Mendonça e o banqueiro preso por golpes financeiros viralizou nas redes digitais. Na legenda da publicação, Tallis Gomes saiu em defesa da honestidade de Mendonça e afirmou que o ministro estaria enfrentando uma “batalha espiritual”. O empresário também destacou a postura religiosa do magistrado ao comentar o conteúdo. 

Vários seguidores assimilaram a imagem falsa e passaram a defender Mendonça das suspeitas em torno do caso com base nela. Nos comentários, surgiram mensagens exaltando a integridade do ministro que também é pastor evangélico presbiteriano, como “homem de Deus não se vende fácil” e não estaria disposto a negociar com banqueiros. Estas mensagens seguem todas ativas nas redes.

O conteúdo viral ainda tem inconsistências que indicam a sua manipulação. Um exemplo é a falta de ordem cronológica das mensagens que teriam sido trocadas entre Vorcaro e a personagem “Francisco”. A falsa resposta aparece como se tivesse sido enviada às 17h23, enquanto a mensagem seguinte tem o horário de 16h50. Outro indício é o cabeçalho com os dados do contato. Enquanto as conversas recuperadas pela PF aparecem com o escrito “WhatsApp Chat” antes do nome da pessoa e o número de contato, a imagem apenas traz o nome “Francisco”.

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Bereia confirma que o  print que atribui a Daniel Vorcaro a frase “não confio no Mendonça, ele só fala de Deus” é falso. O conteúdo não consta no registro de áudios do inquérito e a imagem apresenta inconsistências de horário e de cabeçalho que indicam manipulação. O episódio mostra como uma informação falsa, quando compartilhada sem verificação, pode rapidamente gerar uma onda de apoio ou críticas baseada em algo que nunca aconteceu. 

Referencias

VEJA

ttps://veja.abril.com.br/economia/deus-me-livre-de-mulher-ceo-empresario-e-expulso-do-conselho-da-hope/ Acesso em  24 set 2026

UOL

https://economia.uol.com.br/noticias/redacao/2024/09/19/tallis-gomes.htm Acesso em  24 set 2026

Portal STF

https://portal.stf.jus.br/processos/detalhe.asp?incidente=7681133 Acesso em 1 out 2026

Intercept Brasil

https://www.intercept.com.br/2026/09/29/ias-google-x-espalham-mentira-andre-mendonca-daniel-vorcaro/ Acesso em 30 set 2026

Instituto Democracia em Xeque

https://institutodx.org/publicacoes/rastreando-fake-news-validadas-por-iagen/ Acesso em 30 set 2026

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