As imagens das câmeras corporais utilizadas por policiais militares que entraram com armas de alto calibre em uma escola municipal da capital paulista, em 2025, por conta de uma atividade sobre cultura afro-brasileira foram divulgadas. Os vídeos mostram momentos de agressividade e discussão entre o tenente Ronald Camacho e a diretora da Escola Municipal de Ensino Infantil (EMEI) Antônio Bento. Internautas e associações civis se revoltaram com as imagens e cobram novo posicionamento das autoridades competentes.

As câmeras registraram a conversa da diretora da escola com o tenente Ronald Camacho, que atendeu ao chamado do pai da aluna, um colega de farda. Na gravação, a professora afirma que o pai havia sido agressivo ao chegar na escola, no dia anterior, quando reclamou do conteúdo desenvolvido. Ela contou que argumentou com ele que a atividade educativa é oferecida como cumprimento às Leis 11.645/2008 e 10.639/2003. O tenente, por outro lado, confronta a diretora, em defesa da queixa do pai da estudante, e a acusa de impôr e ditar sua ideologia.
Ronald Camacho afirmou, em depoimento à Polícia Civil, que a ocorrência não teve episódios de agressividade, mas o vídeo mostra o contrário: em determinado momento, os ânimos se agitam e os dois entram em discussão. Com a divulgação das imagens, internautas se revoltaram com a situação com inúmeros comentários de reprovação a este tipo de abuso de autoridade.
Em outro momento da gravação, o oficial da Polícia Militar utiliza a Lei nº 13.796/2019 como argumento para confrontar a direção da escola. Esta Legislação garante que a presença de estudantes em provas e aulas de ensino religioso não seja obrigatória. Porém, tal afirmação do tenente revelou desconhecimento sobre o conteúdo em questão, que não se enquadra na lei citada por ele. De acordo com as Diretrizes Curriculares Nacionais para a Educação das Relações Étnico-Raciais, do Ministério da Educação, o ensino de cultura afro-brasileira não é considerado ensino religioso, mas sim conteúdo referente a história e cultura que é obrigatório por lei, juntamente com o ensino de história e cultura indígena, tendo em vista, justamente, a educação contra o preconceito e o racismo.
O caso ocorreu no dia 12 de novembro de 2025, e um dos agentes que entraram no colégio estava armado com um fuzil. Quatro policiais foram citados nas investigações da Polícia Civil, cujo inquérito concluiu que eles seguiram o protocolo. Porém, a investigação foi encerrada antes mesmo da análise completa das câmeras corporais dos policiais.

Registro da câmera corporal de um agente da polícia militar. Reprodução/G1
O delegado responsável concluiu que “A atuação policial decorreu de procedimento padrão, inexistindo qualquer indício de conluio ou instrumentalização indevida da força estatal, sendo relevante consignar que a escalada do conflito decorreu da iniciativa do investigado, a partir de premissa subjetiva equivocada quanto à natureza da atividade pedagógica desenvolvida”.
Relembre o caso
Em uma aula de cultura afro-brasileira, em escola pública de São Paulo, uma atividade consistiu em desenhar algum orixá cultuado em religiões de matriz africana, com base na leitura do livro “Ciranda de Aruanda”, de Liu Olivina. Uma aluna desenhou a orixá Iansã. O pai da menina, um policial militar, viu o desenho e foi à escola, em 11 de novembro de 2025. Depois de discutir com a diretora, ele fez um chamado de apoio a colegas policiais. No dia seguinte, uma equipe de PMs foi à escola. Testemunhas relataram que o pai da estudante estava entre eles. A reclamação do responsável pela criança foi de que ela estava tendo aulas de uma religião não correspondente à da família. Bereia fez uma checagem sobre o caso.
Em boletim de ocorrência, o pai foi acusado por funcionários de danificar um mural e ter tido atitudes agressivas.

Em março passado, o policial, pai da estudante, foi indiciado pela Polícia Civil por intolerância religiosa. O indiciamento foi realizado pelo 34º Distrito Policial da Vila Sônia, e o inquérito foi concluído e relatado ao Poder Judiciário em fevereiro.



