8 de Março e o enfrentamento do feminicídio: para que a vergonha mude de lado

A extrema direita conservadora se gaba de defender a sociedade e as famílias brasileiras. E justo esse movimento que se lambuza da instrumentalização da religião cristã a seu bel prazer e em benefício próprio deveria se envergonhar.

Notícias recentes nos impactam a toda hora. As guerras, os hediondos casos de pedofilia e a brutalidade de estupros, feminicídios, lesbocídios e transfeminicídios inundam o cotidiano de nossas vidas a partir das redes sociais, de programas de TVs, das páginas de jornais de grande circulação e em nossa vizinhança mais próxima. Não há memes e o tom do repasse destas notícias são de seriedade e perplexidade. São reais consequências de discursos de ódio contra as mulheres transversalmente intensificadas a partir das vozes da extrema direita neoliberal branca e cristã brasileira, embora no mesmo padrão de recorrência mundial. 

Nessa toada, as mulheres cis, trans e travestis transformam o amargor do luto e da dor em combustível inacabável de luta. As feministas cristãs e de outras matizes – quase sempre expurgadas de seus espaços de fala e de autodeterminação – aumentam o tom de suas manifestações, sinalizando nitidamente que “a vergonha precisa mudar de lado”.

Recentemente soubemos que a francesa Gisèle Pelicot desbravou o mundo ao recusar o anonimato por ter sido vítima de sistemáticos estupros. O então marido, Dominique Pelicot, a drogava e facilitou que mais de outros 50 homens a estuprassem por diversas vezes em décadas seguidas. Há ainda a suspeita de que a filha e as duas noras tenham sido vítimas dele. Foi na dor e na angústia de sua vida que Gisèle encontrou fôlego para soltar a frase que aqui usamos por empréstimo, devolvendo-a aos políticos conservadores das chamadas Bancadas da Bíblia e da Bala.  

Este que é um grito-denúncia orbita aqui e indaga pela responsabilização de qualquer porta-voz do ódio contra as mulheres nos contextos da política institucional, das comunidades de fé e para além delas. Não só pela instrumentalização das teologias cristãs, das constantes tentativas do sequestro da laicidade do Estado ou de discursos de reforço à submissão das mulheres, do racismo e da LGBTQIA+fobia pregados nos ‘púlpitos’ do Congresso brasileiro na invocação apenas do Pater Familias e do Patria Potestas. É também por um nada de Evangelho sal da terra nas mesmas vozes que pregam a defesa da sociedade brasileira.

Nós nos referimos assim às movimentações práticas e à amplificação das críticas verborrágicas aos programas sociais e leis de proteção às crianças, adolescentes e mulheres. São discursos cheios de perdigotos mal cheirosos à lobbies financistas, corrupções e de agendas antidireitos que precarizam ainda mais as famílias, em especial, as vidas de crianças, adolescentes e mulheres, em especial as negras e empobrecidas. Em grande medida, elas são as mesmas constantemente deixadas às margens de nossa sociedade. 

Neste emaranhado de ataques e da inexistência do bem-querer coletivo que tensionam mudanças de mentalidade e de nossa teia social, destacamos o forte ímpeto da extrema direita brasileira na substituição da ética do cuidado pelo lucro bélico, pelo controle dos corpos, pelo enfraquecimento da democracia e pela defesa da machosfera. Isto se identifica quando:

1)  tendem a desqualificar políticas públicas e de preservação de nossa Casa Comum que priorizam a titularidade das mulheres como beneficiárias, sejam elas do campo, das águas, quilombolas, indígenas e especialmente aquelas vítimas de violência doméstica, dos programas sociais como o Minha Casa, Minha Vida, o Bolsa Família e a Estratégia Nacional Mulheres e Clima (plano Clima 2025-2035). Para isso são usados falsos argumentos de que tais programas atrapalham o desenvolvimento econômico e o mercado de trabalho. Essa titularidade é seguridade social e dignidade por extensão para crianças e adolescentes, condicionada por mecanismos de continuidade à educação formal e aos cuidados com a saúde como a manutenção de cartão de vacinação atualizado.

2)  promovem a precarização e o enfraquecimento das leis de proteção às mulheres em várias frentes discursivas e legislativas. Por exemplo, a proposta de emenda à Constituição que desloca o debate da violência vicária no escopo da Lei Maria da Penha (já estabelecido formalmente por meio do PL nº 3880/2024) para o Código Penal Brasileiro via apresentação de Emenda de Plenário datada de 25 de fevereiro de 2026. Por razões óbvias, não podemos promover a revitimização das mulheres. Nesse sentido, nunca nos esqueceremos de tragédias como a ocorrida em Itumbiara (GO), quando um ex-marido tirou a vida de duas crianças e a dele mesmo para “infernizar” a ex-mulher;

3)  propagam abertamente a violência política de gênero a ponto de, entre outras ocorrências, uma ministra de Estado como a do Meio Ambiente e Mudanças Climáticas Marina Silva, mulher negra e evangélica, reconhecida liderança ambiental pelo mundo afora, ter sido publicamente ameaçada de enforcamento em audiência da Comissão Parlamentar de Inquérito das ONGS, no Senado Federal, em 2025;

4)  buscam, em provável conluio com o lobby armamentista e sob a falsa ideia de defesa das mulheres, a promoção do PL nº 2959/2025 para subsidiar a aquisição de uma primeira arma, como solução mágica, para as vítimas de violência doméstica. Em absoluto show de hipocrisia, as justificativas apresentadas se desfazem diante dos vários indicadores que demonstram que o fato de haver mais armas circulando na sociedade causa diretamente mais feminicídios e o aumento da orfandade no Brasil, além de favorecer grupos milicianos e facções criminosas. Políticos da extrema direita brasileira têm uma pérfida tendência em utilizar passagens bíblicas para justificar a posse e o porte de armas de fogo, tal qual ocorre nos Estados Unidos onde a indústria armamentista é uma das principais bases econômicas do país em decadência. Tragicamente e sem razão, fabricam guerras exploratórias para depois pedirem um Prêmio Nobel, embora diante da ausência da justa paz.

5)  instrumentalizam dogmas religiosos para criar estigmas, pânico moral e entraves políticos à saúde das mulheres e à justiça reprodutiva. Tais ações não apenas barram a descriminalização do aborto, como precarizam e impedem o acesso ao procedimento nas redes públicas de saúde. Essa estratégia é expressa em casos recorrentes de crianças forçadas à maternidade após um estupro. Merece atenção a situação de  tragédia que se abateu sobre Paloma Alves Moura, de 46 anos, em Olinda (PE), em 2025. No Hospital e Maternidade do Tricentenário, o atendimento da mulher com hemorragia teria sido negligenciado diante de uma suspeita de aborto induzido. Paloma, que não estava grávida e  sofria de endometriose, morreu após passar quase dez horas aguardando atendimento médico;

6)  promovem a letalidade policial contra a população negra, operada sob as engrenagens do racismo estrutural e a serviço da manutenção dos privilégios das classes elitistas. Grupos que se dizem defensores de valores morais instrumentalizam o Estado para legitimar uma política de morte que corrói famílias inteiras, comunidades de fé e dizima a juventude negra nas periferias. Existe uma hipocrisia central nesse projeto: enquanto reivindicam uma base religiosa cristã, ignoram o preceito evangélico da vida em abundância. Na prática, os políticos convertidos à religião da extrema direita não buscam a preservação da dignidade humana, mas sim o controle disciplinar dos corpos e a eliminação de quem desconsideram. A fé é sequestrada para servir de blindagem ética a um sistema punitivista que prioriza o encarceramento em massa e a execução sumária em detrimento do cuidado e da justiça social.

Poderíamos tecer detalhes e continuar a lista. Embora com tais sinalizações e como ecotransfeministas cristãs em luta pelo feminicídio zero, devolvemos a vergonha às chamadas Bancadas da Bíblia, da Bala e aos demais porta-vozes que propagam o ódio às mulheres. 

Não nos deixamos cair em qualquer distração: as alegações de defesa da sociedade e das famílias brasileiras, que ao mesmo tempo cerceiam o fortalecimento de programas de políticas públicas e a manutenção e o aprofundamento da Legislação de Defesa da Mulher, são falsas. 

Com as razões pinçadas na leitura dos sinais dos tempos, tendo como exemplo não só a voz de Gisèle Pelicot, mas também de todas as mulheres que resolveram denunciar, nós gritamos: parem de nos matar!

Que nenhuma mulher se envergonhe de ter seu nome como beneficiária de programas sociais do Governo Federal!

Que nenhuma mulher idosa se envergonhe de denunciar o motorista do ônibus que a estuprou.

Que nenhuma jovem evangélica se envergonhe de denunciar os abusos cometidos por um pastor.

Que nenhuma mãe se envergonhe em denunciar o companheiro, o parente ou o vizinho.

Que nenhuma mulher se envergonhe de denunciar o jogador de futebol.

Que nenhuma mulher se envergonhe de denunciar o estupro coletivo!

Que nenhuma mais tenha vergonha de denunciar o juiz!

Que nenhuma mulher trans ou travesti se envergonhe de denunciar!

Que nenhuma mulher sinta vergonha!

Que a vergonha esteja com os porta-vozes dos discursos de ódio às mulheres. Eles sim merecem corar a face da vergonha. Não nós! E não em nome de nossa fé! 

Foto de capa: Rovena Rosa/Agência Brasil

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