8 de Março e o enfrentamento do feminicídio: para que a vergonha mude de lado

A extrema direita conservadora se gaba de defender a sociedade e as famílias brasileiras. E justo esse movimento que se lambuza da instrumentalização da religião cristã a seu bel prazer e em benefício próprio deveria se envergonhar.

Notícias recentes nos impactam a toda hora. As guerras, os hediondos casos de pedofilia e a brutalidade de estupros, feminicídios, lesbocídios e transfeminicídios inundam o cotidiano de nossas vidas a partir das redes sociais, de programas de TVs, das páginas de jornais de grande circulação e em nossa vizinhança mais próxima. Não há memes e o tom do repasse destas notícias são de seriedade e perplexidade. São reais consequências de discursos de ódio contra as mulheres transversalmente intensificadas a partir das vozes da extrema direita neoliberal branca e cristã brasileira, embora no mesmo padrão de recorrência mundial. 

Nessa toada, as mulheres cis, trans e travestis transformam o amargor do luto e da dor em combustível inacabável de luta. As feministas cristãs e de outras matizes – quase sempre expurgadas de seus espaços de fala e de autodeterminação – aumentam o tom de suas manifestações, sinalizando nitidamente que “a vergonha precisa mudar de lado”.

Recentemente soubemos que a francesa Gisèle Pelicot desbravou o mundo ao recusar o anonimato por ter sido vítima de sistemáticos estupros. O então marido, Dominique Pelicot, a drogava e facilitou que mais de outros 50 homens a estuprassem por diversas vezes em décadas seguidas. Há ainda a suspeita de que a filha e as duas noras tenham sido vítimas dele. Foi na dor e na angústia de sua vida que Gisèle encontrou fôlego para soltar a frase que aqui usamos por empréstimo, devolvendo-a aos políticos conservadores das chamadas Bancadas da Bíblia e da Bala.  

Este que é um grito-denúncia orbita aqui e indaga pela responsabilização de qualquer porta-voz do ódio contra as mulheres nos contextos da política institucional, das comunidades de fé e para além delas. Não só pela instrumentalização das teologias cristãs, das constantes tentativas do sequestro da laicidade do Estado ou de discursos de reforço à submissão das mulheres, do racismo e da LGBTQIA+fobia pregados nos ‘púlpitos’ do Congresso brasileiro na invocação apenas do Pater Familias e do Patria Potestas. É também por um nada de Evangelho sal da terra nas mesmas vozes que pregam a defesa da sociedade brasileira.

Nós nos referimos assim às movimentações práticas e à amplificação das críticas verborrágicas aos programas sociais e leis de proteção às crianças, adolescentes e mulheres. São discursos cheios de perdigotos mal cheirosos à lobbies financistas, corrupções e de agendas antidireitos que precarizam ainda mais as famílias, em especial, as vidas de crianças, adolescentes e mulheres, em especial as negras e empobrecidas. Em grande medida, elas são as mesmas constantemente deixadas às margens de nossa sociedade. 

Neste emaranhado de ataques e da inexistência do bem-querer coletivo que tensionam mudanças de mentalidade e de nossa teia social, destacamos o forte ímpeto da extrema direita brasileira na substituição da ética do cuidado pelo lucro bélico, pelo controle dos corpos, pelo enfraquecimento da democracia e pela defesa da machosfera. Isto se identifica quando:

1)  tendem a desqualificar políticas públicas e de preservação de nossa Casa Comum que priorizam a titularidade das mulheres como beneficiárias, sejam elas do campo, das águas, quilombolas, indígenas e especialmente aquelas vítimas de violência doméstica, dos programas sociais como o Minha Casa, Minha Vida, o Bolsa Família e a Estratégia Nacional Mulheres e Clima (plano Clima 2025-2035). Para isso são usados falsos argumentos de que tais programas atrapalham o desenvolvimento econômico e o mercado de trabalho. Essa titularidade é seguridade social e dignidade por extensão para crianças e adolescentes, condicionada por mecanismos de continuidade à educação formal e aos cuidados com a saúde como a manutenção de cartão de vacinação atualizado.

2)  promovem a precarização e o enfraquecimento das leis de proteção às mulheres em várias frentes discursivas e legislativas. Por exemplo, a proposta de emenda à Constituição que desloca o debate da violência vicária no escopo da Lei Maria da Penha (já estabelecido formalmente por meio do PL nº 3880/2024) para o Código Penal Brasileiro via apresentação de Emenda de Plenário datada de 25 de fevereiro de 2026. Por razões óbvias, não podemos promover a revitimização das mulheres. Nesse sentido, nunca nos esqueceremos de tragédias como a ocorrida em Itumbiara (GO), quando um ex-marido tirou a vida de duas crianças e a dele mesmo para “infernizar” a ex-mulher;

3)  propagam abertamente a violência política de gênero a ponto de, entre outras ocorrências, uma ministra de Estado como a do Meio Ambiente e Mudanças Climáticas Marina Silva, mulher negra e evangélica, reconhecida liderança ambiental pelo mundo afora, ter sido publicamente ameaçada de enforcamento em audiência da Comissão Parlamentar de Inquérito das ONGS, no Senado Federal, em 2025;

4)  buscam, em provável conluio com o lobby armamentista e sob a falsa ideia de defesa das mulheres, a promoção do PL nº 2959/2025 para subsidiar a aquisição de uma primeira arma, como solução mágica, para as vítimas de violência doméstica. Em absoluto show de hipocrisia, as justificativas apresentadas se desfazem diante dos vários indicadores que demonstram que o fato de haver mais armas circulando na sociedade causa diretamente mais feminicídios e o aumento da orfandade no Brasil, além de favorecer grupos milicianos e facções criminosas. Políticos da extrema direita brasileira têm uma pérfida tendência em utilizar passagens bíblicas para justificar a posse e o porte de armas de fogo, tal qual ocorre nos Estados Unidos onde a indústria armamentista é uma das principais bases econômicas do país em decadência. Tragicamente e sem razão, fabricam guerras exploratórias para depois pedirem um Prêmio Nobel, embora diante da ausência da justa paz.

5)  instrumentalizam dogmas religiosos para criar estigmas, pânico moral e entraves políticos à saúde das mulheres e à justiça reprodutiva. Tais ações não apenas barram a descriminalização do aborto, como precarizam e impedem o acesso ao procedimento nas redes públicas de saúde. Essa estratégia é expressa em casos recorrentes de crianças forçadas à maternidade após um estupro. Merece atenção a situação de  tragédia que se abateu sobre Paloma Alves Moura, de 46 anos, em Olinda (PE), em 2025. No Hospital e Maternidade do Tricentenário, o atendimento da mulher com hemorragia teria sido negligenciado diante de uma suspeita de aborto induzido. Paloma, que não estava grávida e  sofria de endometriose, morreu após passar quase dez horas aguardando atendimento médico;

6)  promovem a letalidade policial contra a população negra, operada sob as engrenagens do racismo estrutural e a serviço da manutenção dos privilégios das classes elitistas. Grupos que se dizem defensores de valores morais instrumentalizam o Estado para legitimar uma política de morte que corrói famílias inteiras, comunidades de fé e dizima a juventude negra nas periferias. Existe uma hipocrisia central nesse projeto: enquanto reivindicam uma base religiosa cristã, ignoram o preceito evangélico da vida em abundância. Na prática, os políticos convertidos à religião da extrema direita não buscam a preservação da dignidade humana, mas sim o controle disciplinar dos corpos e a eliminação de quem desconsideram. A fé é sequestrada para servir de blindagem ética a um sistema punitivista que prioriza o encarceramento em massa e a execução sumária em detrimento do cuidado e da justiça social.

Poderíamos tecer detalhes e continuar a lista. Embora com tais sinalizações e como ecotransfeministas cristãs em luta pelo feminicídio zero, devolvemos a vergonha às chamadas Bancadas da Bíblia, da Bala e aos demais porta-vozes que propagam o ódio às mulheres. 

Não nos deixamos cair em qualquer distração: as alegações de defesa da sociedade e das famílias brasileiras, que ao mesmo tempo cerceiam o fortalecimento de programas de políticas públicas e a manutenção e o aprofundamento da Legislação de Defesa da Mulher, são falsas. 

Com as razões pinçadas na leitura dos sinais dos tempos, tendo como exemplo não só a voz de Gisèle Pelicot, mas também de todas as mulheres que resolveram denunciar, nós gritamos: parem de nos matar!

Que nenhuma mulher se envergonhe de ter seu nome como beneficiária de programas sociais do Governo Federal!

Que nenhuma mulher idosa se envergonhe de denunciar o motorista do ônibus que a estuprou.

Que nenhuma jovem evangélica se envergonhe de denunciar os abusos cometidos por um pastor.

Que nenhuma mãe se envergonhe em denunciar o companheiro, o parente ou o vizinho.

Que nenhuma mulher se envergonhe de denunciar o jogador de futebol.

Que nenhuma mulher se envergonhe de denunciar o estupro coletivo!

Que nenhuma mais tenha vergonha de denunciar o juiz!

Que nenhuma mulher trans ou travesti se envergonhe de denunciar!

Que nenhuma mulher sinta vergonha!

Que a vergonha esteja com os porta-vozes dos discursos de ódio às mulheres. Eles sim merecem corar a face da vergonha. Não nós! E não em nome de nossa fé! 

Foto de capa: Rovena Rosa/Agência Brasil

Mulheres no Jornalismo: Bereia em meio aos desafios e avanços em um cenário de desigualdade

Enquanto a presença feminina no jornalismo avança em algumas frentes, a desigualdade de gênero ainda persiste, especialmente em cargos de liderança. Dados recentes do Reuters Institute for the Study of Journalism, publicados em 2024, revelam que apenas 24% dos editores-chefes em 240 veículos de notícias ao redor do mundo são mulheres, mesmo que, em média, 40% dos jornalistas nesses mercados sejam do sexo feminino. No entanto, iniciativas como o Coletivo Bereia provam que é possível construir um ambiente mais justo e inclusivo, com presença feminina em posições-chave.

A pesquisa do Instituto Reuters, que analisou 12 mercados em cinco continentes, incluindo países como Estados Unidos, Reino Unido, Brasil e Japão, aponta que a desigualdade de gênero no jornalismo é um problema global. Em todos os mercados estudados, a maioria dos editores-chefes são homens, mesmo em países onde as mulheres representam uma parcela significativa dos jornalistas. Por exemplo, no Japão, nenhuma mulher ocupa o cargo de editora-chefe nos veículos analisados, enquanto nos Estados Unidos, o país com a maior representação feminina, menos da metade, apenas 43% dos editores-chefes, são mulheres.

A pesquisa Reuters também destaca que não há correlação entre a igualdade de gênero na sociedade e a representação de mulheres em cargos de liderança no jornalismo. Isso sugere que as barreiras à ascensão das mulheres na indústria de notícias são específicas do setor e não refletem necessariamente as tendências sociais mais amplas.

Bereia: um raro exemplo de equilíbrio e representatividade

Em contraste com esse cenário global, o Coletivo Bereia se destaca como um exemplo positivo de representatividade feminina no jornalismo. Com 19 integrantes, o grupo conta com dez mulheres, representando 52,6% do total. A editoria-geral é ocupada por uma mulher, Magali Cunha, o que já coloca o Bereia à frente de muitos veículos de notícias no mundo, onde a liderança feminina ainda é uma exceção.

Além disso, a Equipe de Checagem do Bereia é majoritariamente feminina, com cinco mulheres em um total de seis integrantes. Essa forte presença feminina na verificação de fatos, área que exige alta assertividade em meio a velocidade da produção de matérias, demonstra que é possível construir equipes diversas, inclusivas e eficientes, mesmo em setores tradicionalmente dominados por homens.

A editora-geral do Bereia Magali Cunha vê a experiência do projeto como uma inspiração: “Como se diz na linguagem da religião cristã, a equidade de gênero na equipe Bereia é um testemunho importante. É uma inspiração para que veículos que, como o Bereia, que defendem o direto humano à informação digna e coerente com os valores da justiça, honrem sua vocação na forma como desenvolvem o trabalho”, afirma a jornalista.

Quem são as mulheres que fazem o Bereia

O Bereia é formado por um coletivo de mulheres talentosas, formadas em diversas áreas do conhecimento, unidas pela paixão pelo jornalismo e pela missão de levar mais verdade nos ambientes religiosos. Conheça um pouco mais sobre elas:

Representatividade é também qualidade

A presença de mulheres em cargos de liderança e em equipes técnicas não é apenas uma questão de igualdade, mas também de qualidade do jornalismo. O estudo intitulado “The Impact of Sexual Harassment on Job Satisfaction in Newsrooms” (O Impacto do Assédio Sexual na Satisfação no Trabalho em Redações), da Universidade de Londres, publicado em 2023, demonstra que a diversidade de gênero nas redações contribui para uma cobertura mais abrangente e sensível a questões que afetam as mulheres e outros grupos sub-representados. 

No caso do Bereia, a forte presença feminina na equipe de checagem pode trazer perspectivas únicas e necessárias para a análise de informações, especialmente em um contexto onde a desinformação afeta desproporcionalmente as mulheres.

Referências:

Blumell, L., Mulupi, D. & Arafat, R. (2023). The Impact of Sexual Harassment on Job Satisfaction in Newsrooms. Journalism Practice, pp. 1-20. doi: 10.1080/17512786.2023.2227613 Disponível em https://openaccess.city.ac.uk/id/eprint/30825/1/The%20Impact%20of%20Sexual%20Harassment%20on%20Job%20Satisfaction%20in%20Newsrooms.pdf 

Intervozes

https://intervozes.org.br/publicacoes/desinformacao-direitos-humanos-contribuicao-onu/#:~:text=Al%C3%A9m%20disso%2C%20a%20desinforma%C3%A7%C3%A3o%20afeta,em%20pa%C3%ADses%20como%20o%20Brasil.

Deputado federal evangélico Nikolas Ferreira promove desinformação em discurso na Câmara dos Deputados

No último 8 de março, Dia Internacional da Mulher, o deputado federal Nikolas Ferreira (PL-MG) subiu à tribuna da Câmara dos Deputados e, aproveitando-se da data em homenagem às mulheres, proferiu discurso que gerou forte reação negativa nas redes digitais, e por parte de políticos e grupos sociais. Ironizando a realidade de pessoas transgênero, o deputado vestiu uma peruca amarela e passou a falar como se fosse uma mulher de nome “Nicole”. A fala repercutiu como ofensa não apenas às mulheres trans, mas também às mulheres em geral e à sociedade brasileira.

Eleito na esteira do avanço conservador capitaneado pelo ex-presidente da República Jair Bolsonaro,  o filho e neto de pastor Nikolas Ferreira, vinculado à Comunidade Evangélica Graça e Paz, foi o deputado federal mais votado em 2022, com campanha em que se apresentou, genericamente, como “cristão”. Pesquisa do Instituto de Estudos da Religião (ISER) que levantou a identidade religiosa de parlamentares eleitos para o mandato 2023-2017 aponta que, desde as eleições municipais de 2020, políticos passaram a utilizar o termo genérico “cristão” como estratégia para alcançar diferentes segmentos da sociedade que se identificam com as moralidades e valores cristãos. Ele é conhecido por suas polêmicas envolvendo temas religiosos, pautas anti-feministas e LGBTQIAP+ e a defesa de posições radicais.

Bereia checou a fala do deputado e constatou, entre outros temas, falsas menções a  “banheiro unissex”, a acusação de pedofilia à intelectual feminista Simone de Beauvoir (1908-1986) e interpretações pessoais do papel supostamente reservado às mulheres na sociedade.

Banheiro unissex

Em seu discurso, o deputado Nikolas Ferreira fez alusão aos “banheiros unissex”, afirmando que defendia a liberdade “de um pai recusar (…) um marmanjo entrar no banheiro da sua filha sem você ser considerado um transfóbico”. A frase apela para uma das mais utilizadas fake news em campanhas eleitorais nos últimos anos. Ao abordar o assunto, o deputado do PL cria uma situação hipotética de abuso infantil, utilizando o medo como principal recurso retórico.

A fake news do banheiro unissex foi amplamente utilizada na campanha presidencial de 2022, em que apoiadores do candidato Jair Bolsonaro atribuíam a Luís Inácio Lula da Silva um falso projeto de implementar banheiros compartilhados por homens e mulheres nas escolas infantis brasileiras.

Em entrevista à Folha de São Paulo, a pesquisadora do Núcleo de Pesquisa e Extensão em Culturas, Gêneros e Sexualidades da Universidade Federal da Bahia (UFBA) Viviane Vergueiro, afirma que “não necessariamente a demanda da população trans parte da bandeira de banheiros multigênero ou unissex. Ela parte da ideia de que as pessoas trans, como todas as pessoas, têm o direito de utilização dos espaços públicos”.

No entanto, assim como a fake news do “kit gay”, a do banheiro unissex segue sendo utilizada por políticos conservadores para manter suas bases de apoio permanentemente engajadas contra pautas associadas aos grupos progressistas.

A narrativa dos banheiros compartilhados tem sido cada vez mais frequente em diversas disputas ideológicas. Conforme Bereia já publicou, sites religiosos e políticos já exploraram o tema de maneira inadequada, acusando adversários políticos sem apresentar provas ou fontes que sustentem suas alegações. 

Simone de Beauvoir e pedofilia

A fala do deputado Nikolas Ferreira, proferida no Dia Internacional da Mulher, contemplou uma crítica ao feminismo. Entre outros trechos questionáveis do ponto de vista factual, o deputado acusou a intelectual francesa Simone de Beauvoir, célebre feminista, de apoiar a pedofilia.

O parlamentar evangélico fez referência ao controverso episódio, ocorrido em 1977, em que vários intelectuais, incluindo Beauvoir, defenderam, perante o Parlamento francês, a abolição da idade de consentimento para o ato sexual, o que não significa defesa da pedofilia.

A pedofilia é considerada uma doença pela Organização Mundial da Saúde (OMS) desde os anos 1960. Segundo reportagem publicada pelo TAB/UOL, são considerados pedófilos – ou seja, portadores da doença pedofilia – pessoas que sentem atração sexual compulsiva por crianças abaixo de 13 anos. A equivocada associação da doença com o crime contra a dignidade sexual da criança, previsto no arcabouço jurídico brasileiro, é utilizada pela extrema direita no intuito de confundir e causar pânico, conforme Bereia checou.

O deputado utilizou-se do caso específico na França, em 1977, desconhecido por boa parte da população, para menosprezar o feminismo enquanto luta pela justiça de gênero. “Mulheres, vocês não devem nada ao feminismo, pelo contrário”, afirmou.

Trata-se de uma polêmica antiga no Brasil e que já havia demonstrado seu poder de promover agitação ideológica. Os ataques contra Simone de Beauvoir avolumaram-se após o Exame Nacional do Ensino Médio (ENEM) abordar, em 2015, a obra da escritora em uma de suas questões. Nos dias seguintes à realização do exame, uma enxurrada de críticas circulou na internet.

Conforme consta em matéria da BBC divulgada à época, o verbete sobre Beauvoir no site Wikipedia foi alterado diversas vezes, ridicularizando a feminista. Segundo a BBC, de 250 visitas diárias, o verbete passou para 35 mil visitas em um só dia e as edições foram tantas que o site restringiu a possibilidade de alteração do texto, considerando o que ocorreu como “vandalismo excessivo”.

Violência política de gênero no Dia Internacional da Mulher

Em outro trecho de sua fala na tribuna, o deputado do PL dirige-se às mulheres: “retomem sua feminilidade, tenham filhos, amem a maternidade, formem a sua família porque, dessa forma, vocês colocarão luz no mundo e serão, com certeza, mulheres valorosas”. Segundo a avaliação do Instituto de Estudos da Religião (ISER),  utilizando a religião como alicerce de posições políticas conservadoras – o deputado escreveu o livro “O Cristão e a Política”, em que reúne o conteúdo de suas palestras – Nikolas Ferreira valeu-se do Dia Internacional da Mulher para, a partir de suas crenças pessoais, ditar às mulheres como proceder em suas vidas.

Segundo matéria da BBC, o relatório “Evangélicos nas redes”, elaborado pelo NetLab, grupo de pesquisa da Escola de Comunicação da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), identificou que os conteúdos divulgados por Nikolas Ferreira caracterizam-se por propor uma oposição entre evangélicos e figuras ligadas à esquerda do espectro político, sejam políticos ou meros apoiadores. O grande alcance que possui, materializado no expressivo número de votos que obteve no pleito de 2022 – 1,47 milhão de votos, recorde histórico para o cargo de deputado federal –, está relacionado, entre outros fatores, à vinculação da política à religião.

No discurso de 8 de março, Ferreira, enquanto ataca pautas progressistas, defende referências religiosas anti-feministas com base na sua interpretação e na sua opinião, ignorando um fenômeno nada novo na religião: o feminismo de orientação cristã, como recordam as pesquisadoras do ISER. Mundo afora, mulheres protestantes e católicas dedicam-se a uma leitura feminista da Bíblia, ressaltando figuras bíblicas femininas que fogem do modelo de submissão e devoção apregoado por muitos.

Conforme divulgado pelo jornal El País em matéria publicada em 2018, o livro “Uma Bíblia das Mulheres”, desenvolvido por teólogas e historiadoras, apresenta um olhar feminista sobre os ensinamentos bíblicos. Na reportagem, Lauriane Savoy, codiretora do projeto argumenta que “pode-se ler a Bíblia sendo feminista, e inclusive a leitura da Bíblia pode nos nutrir como feministas”.

O feminismo na religião está presente também no Brasil. Odja Barros, que se diz uma “feminista da Bíblia” e é pastora da Igreja Batista do Pinheiro, em Maceió (AL), recebeu apoio do Conselho Nacional de Igrejas Cristãs no Brasil (Conic) após sofrer ameaças de morte por ter celebrado um casamento homoafetivo. Em entrevista ao blog Universa, do UOL, a pastora afirma que “argumentar dizendo ‘É bíblico’ é terrível. Impede o diálogo, é simplesmente para fechar uma postura conservadora e encerrar a conversa”.

Existem, ainda, grupos como o Evangélicas pela Igualdade de Gênero que, no Facebook, descreve-se como uma “ação coletiva em que as mulheres tomam controle de seus próprios assuntos, de sua própria vida e de seu destino”.

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O discurso proferido pelo deputado federal evangélico Nikolas Ferreira (PL-MG) na tribuna da Câmara dos Deputados no dia 8 de março foi checado por Bereia, que considerou o conteúdo veiculado como enganoso. As informações expostas necessitam de correções, substância e contextualização. Além disso, faz uso do pânico moral para captar apoios e confunde o público dando caráter de informação a interpretações e posições pessoais exclusivistas de leitura da Bíblia, em detrimento das outras abordagens existentes.

O parlamentar exerceu seu direito de discursar para o plenário, utilizando-se de sensacionalismo com discurso transfóbico e de desrespeito à história das lutas das mulheres por direitos, para conquista de audiência, especialmente na data em que o fez, em que se comemorou o Dia Internacional da Mulher.

Referências:

Youtube. https://www.youtube.com/watch?v=XTpCxJl3WLw Acesso em: 10 mar 2023

CNN https://www.cnnbrasil.com.br/politica/apos-discurso-em-que-disse-se-sentir-mulher-deputado-nikolas-ferreira-multiplica-numeros-de-seguidores-nas-redes/ Acesso em: 10 mar 2023

Bereia

https://coletivobereia.com.br/sites-religiosos-e-politicos-exploram-caso-de-suposto-afastamento-de-diretor-de-escola-de-sorocaba-por-transfobia/ Acesso em: 10 mar 2023

https://coletivobereia.com.br/etiquetas/descriminalizar-a-pedofilia/ Acesso em: 10 mar 2023

Folha de São Paulo https://www1.folha.uol.com.br/poder/2022/10/banheiros-unissex-viram-pauta-de-campanha-e-lula-e-bolsonaro-se-dizem-contra.shtml Acesso em: 10 mar 2023

BBC https://www.bbc.com/portuguese/noticias/2015/10/151028_simone_beauvoir_wikipedia_enem_rb Acesso em: 10 mar 2023

El País
https://brasil.elpais.com/brasil/2018/12/06/cultura/1544116577_543552.html Acesso em: 10 mar 2023

BBC
https://www.bbc.com/portuguese/brasil-63136759 Acesso em: 10 mar 2023

Twitter ISER https://twitter.com/isernarede/status/1633887087995879427?t=D7RKPAyL6cwkVieWM8czIA&s=19 Acesso em: 10 mar 2023

Youtube
https://www.youtube.com/watch?v=AfYNI0QvdiM Acesso em: 10 mar 2023

Centro Feminista de Estudos e Assessoria https://www.cfemea.org.br/index.php/pt/?view=article&id=6273:ele-fez-um-discurso-criminoso-diz-duda-salabert-sobre-nikolas-ferreira&catid=567:lgbtqi Aceeso em: 10 mar 2023

Câmara dos Deputados https://www.camara.leg.br/noticias/911272-nikolas-ferreira-e-o-deputado-mais-votado-do-pais-com-147-milhao-de-votos/ Acesso em: 10 mar 2023

UOL

https://www.uol.com.br/universa/noticias/redacao/2020/02/16/usam-palavra-de-deus-para-manter-a-mulher-submissa-diz-pastora-feminista.htm Acesso em: 10 mar 2023

https://tab.uol.com.br/noticias/redacao/2020/06/23/por-que-a-discussao-sobre-abuso-sexual-infantil-precisa-evoluir-no-brasil.htm Acesso em: 10 mar 2023

https://mulherias.blogosfera.uol.com.br/2020/03/07/jesus-apoia-o-feminismo/ Acesso em: 10 mar 2023

Instituto Humanitas Unisinos https://www.ihu.unisinos.br/categorias/615330-nota-do-conic-em-solidariedade-a-pastora-odja-barros Acesso em: 10 mar 2023

Religião e Poder https://religiaoepoder.org.br/artigo/pesquisa-do-iser-levanta-identidade-religiosa-dos-deputados-e-deputadas-federais-diplomados/ Acesso em: 10 mar 2023

Facebook. https://www.facebook.com/mulhereseig Acesso em: 10 mar 2023

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Imagem de capa: reprodução TV Câmara

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