Pesquisa alerta que sete em cada dez brasileiros acreditam em fake news sobre Covid-19

Publicado originalmente no site Coletiva.net, em 14/05/2020

A organização de pesquisa e petições online Avaaz divulgou um levantamento sobre as fake news durante a pandemia de Covid-19. Conforme o estudo, sete em cada 10 brasileiros acreditam em notícias falsas relacionadas ao novo coronavírus. O índice representa cerca de 110 milhões de pessoas. 

Ainda segundo o estudo, o WhatsApp é o principal vetor de desinformação. Já o Facebook aparece em segundo lugar no ranking, com cinco entre 10 internautas do País recebendo e repassando conteúdos mentirosos. 

A coordenadora de campanhas da Avaaz, Laura Moraes, salientou o risco que esses dados demonstram. “Mais preocupante ainda é que 110 milhões de brasileiros acreditam em ao menos uma notícia falsa que afeta as decisões que as pessoas tomam para se proteger. Isso pode levar cada indivíduo a contagiar centenas de pessoas com o coronavírus, anulando os esforços de médicos e do poder público”, explicou ela.

Comparado aos Estados Unidos e à Itália, o problema das fake news é maior no Brasil, de acordo com a pesquisa. Enquanto 73% dos brasileiros já acreditaram informação falsa, entre os norte-americanos o índice cai para 65%, e para 59% entre os italianos.

A notícia boa é que 80% dos entrevistados pela Avaaz responderam que gostariam de ver informações de correção feitas por agências verificadoras de fatos. No entanto, 57% afirmam que nunca viram as retificações ou algum alerta de conteúdo falso em plataformas digitais.

A descrença na instituição jornalística é também um produto da desinformação

Publicado originalmente no Observatório da Imprensa por Allysson Martins, em 12/05/2020*

O jornalismo é uma instituição que busca a verdade, diferente dos setores que criam e espalham fake news, trabalhando com a mentira em um processo articulado para a desinformação da sociedade. Esse esquema dissemina ainda a descrença na instituição jornalística. Por isso, tratar erros jornalísticos como “notícias falsas” é mais que um equívoco, é uma contribuição para a desinformação dos indivíduos ao desvalorizar uma instituição fundamental para o bom desenrolar da democracia. O jornalismo busca sempre apurar e divulgar a informação verdadeira.

O jornalista e o veículo podem cometer erros e até disseminar informações incorretas – porém, diferentemente dos propagadores de fake news, os jornalistas não possuem a intenção deliberada de enganar quem consome seus conteúdos. O profissional pode se enganar por incompetência ou falta de mecanismos suficientes para perceber o erro na apuração, mas, quando percebe que os supostos “fatos” são “fakes”, corrige-se e informa corretamente.

Por tratar-se de uma instituição com credibilidade, não é coincidência que algumas informações falsas espalhadas se valham de uma estrutura próxima da produzida pelo jornalismo. Essa estratégia, se não garante credibilidade, ao menos diminui a confiança na instituição; a ideia que passa nem sempre é “acredite no que a gente diz”, mas desconfie do que publicam as organizações jornalísticas.

Muito conteúdo de fake news que circula, de fato, aproxima-se menos de uma produção jornalística do que de uma fonte testemunhal ou de um documento verossímil.

Afinal, como não acreditar em alguém que diz ter visto algo? Ou como não confiar em uma imagem ou um vídeo? A tendência a aceitar informações que corroborem crenças e valores facilita a equação, sobretudo quando disseminadas por pessoas de quem se gosta e confia; estudos sobre exposição seletiva e viés de confirmação não são recentes.

As fake news ganharam popularidade a partir de 2016, durante a campanha para a presidência dos EUA, culminando na eleição de Donald Trump. No Brasil, muito começou a se falar das fake news em 2018, na campanha presidencial que terminou com a eleição de Jair Bolsonaro.

Os dois presidentes, desde então, tentam dirimir a credibilidade jornalística ao desqualificar constantemente suas produções, inclusive classificando-as como fake news. Essa associação precisa ser combatida, sempre evidenciando as diferenças entre elas.

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Allysson Martins é jornalista, professor e pesquisador do MíDI – Grupo de Pesquisa em Mídias Digitais e Internet da Universidade Federal de Rondônia (UNIR). Autor do livro Jornalismo e guerras de memórias nos 50 anos do golpe de 1964.

A trágica história por trás do vídeo ‘fake’ de idosa brasileira com covid-19 que se espalhou pelo mundo

Publicado originalmente pela BBC News Brasil por Vinicius Lemos, em 15/05/2020*

O vídeo é angustiante: uma idosa deitada sobre uma maca de hospital respira com dificuldades. Ela usa máscara e não tem nenhum tipo de aparelho de ventilação mecânica para auxiliá-la. A mulher está dentro de um saco plástico, o mesmo utilizado para carregar corpos de pessoas mortas.

FOTO: PEDRO GUERREIRO/AGÊNCIA PARÁ

Desde a semana passada, a gravação viralizou. Inúmeros compartilhamentos do vídeo afirmam que se trata do caso de uma paciente idosa encaminhada ao necrotério. Segundo esses textos, que não possuem autoria clara, ela seria enterrada viva para inflar os números de covid-19, a doença causada pelo novo coronavírus, no país.

A cena da idosa ofegante em uma maca tem se espalhado pelo mundo. Também fora do Brasil, o vídeo é acompanhado pela afirmação de que a paciente foi levada viva ao necrotério e foi resgatada pela própria família, que teria invadido o local.

A gravação tem sido compartilhada em outros países para ilustrar a situação do Brasil, que enfrenta o crescimento exponencial de casos e tem subido na lista de regiões do mundo com mais registros de covid-19 — os números atuais, divulgados n quinta-feira (14), mostram que o país tem mais de 202 mil casos confirmados e 14 mil mortes.

Algumas publicações dizem que o vídeo da idosa na maca foi gravado em Belém (PA). Outras, porém, afirmam que a filmagem é em um hospital de Manaus (AM), uma das primeiras regiões brasileiras a enfrentar colapso no sistema de saúde em razão da pandemia do coronavírus.

Em razão das polêmicas, o governo do Pará emitiu uma nota para informar que o vídeo foi gravado no distrito de Icoaraci, em Belém. As autoridades locais negam que a mulher estivesse em um necrotério. “Em nenhum momento a paciente foi encaminhada para o necrotério enquanto viva“, diz comunicado da Secretaria Estadual de Saúde do Pará. A divulgação do vídeo se tornou alvo de investigação policial.

As publicações que afirmam que a mulher foi encaminhada com vida para um necrotério são fake news. Elas têm viés negacionista em relação ao novo coronavírus, assim como outras notícias falsas que têm sido usadas para impor a ideia de que os números referentes à covid-19 no Brasil são inflados por autoridades — como histórias mentirosas sobre caixões enterrados vazios ou com pedras.

À espera de atendimento

As imagens da idosa, que não teve a identidade divulgada, foram feitas enquanto ela estava no setor de observação do Hospital Abelardo Santos. Conforme comunicado do Governo do Pará, a mulher esperava por um leito na unidade de saúde, que é referência no combate ao novo coronavírus no Estado.

O Pará tem registrado crescimento exponencial em casos do novo coronavírus. Até a quinta-feira (14) eram mais de 10,8 mil casos e 1.063 mortes. É o sexto Estado com mais casos e mortes no país.

Diante do aumento de registros no Estado, o Hospital Abelardo Santos, que até então era destinado a procedimentos de alta complexidade, passou a atender somente pacientes com o novo coronavírus. Profissionais da unidade relatam que o volume de pacientes se tornou muito grande desde então.

Dias antes do vídeo da idosa deitada na maca viralizar nas redes, um outro caso na mesma unidade de saúde repercutiu em todo o país: uma família abriu o caixão da parente que teria morrido e descobriu que o corpo era de outra pessoa. Mesmo com certidão de óbito, os familiares descobriram que a idosa, de 68 anos, permanecia viva no hospital Abelardo Santos, com suspeita de ter contraído o novo coronavírus. A mulher segue internada.

. FOTO: Reprodução

O caso da família que descobriu que enterraria um corpo desconhecido foi considerado um exemplo do colapso na saúde pública no Pará. A Secretaria de Saúde do Estado classificou a situação como uma consequência da falta de estrutura, em meio ao crescimento no número de doentes e mortos pelo novo coronavírus.

Diretor técnico do Hospital Abelardo Santos, o neurocirurgião Milton Bonny afirma à BBC News Brasil que a unidade de saúde enfrenta um grave problema de superlotação. “O Pará inteiro vem pra cá. No ambulatório é uma média de 1,2 mil pessoas. Era uma unidade de alta complexidade e, de repente, abriu para toda a população” diz.

Em meio à lotação do hospital, a idosa que aparece no vídeo que viralizou nas redes sociais estava à espera de um leito na sala vermelha da unidade de saúde.

Ela era uma paciente antiga da unidade de saúde, segundo Bonny. O neurocirurgião detalha que a idosa havia sido internada no local outras vezes, antes da pandemia. Ele conta que, em uma das internações, ela teve de amputar uma perna, em razão da diabetes.

Segundo a Direção da Santa Casa de Pacaembu, Organização Social em Saúde (OS) responsável pelo Abelardo Santos, a idosa deu entrada na unidade na noite de 4 de maio, em estado gravíssimo. Ela apresentava quadro de intensa falta de ar e fraqueza. A direção afirma que a paciente “recebeu assistência médica adequada pela equipe de plantão” logo que chegou.

O quadro dela foi considerado suspeito do novo coronavírus, em razão dos problemas respiratórios e do comprometimento nos pulmões, apontado por meio de tomografia. Os profissionais de saúde fizeram o teste RT-PCR, para identificar se ela havia sido infectada pelo vírus — o resultado ainda não ficou pronto. “Os exames são encaminhados para o Laboratório Central do Estado e têm demorado para chegar, pois são muitos casos“, diz Bonny.

Ao longo do dia 5 de maio, de acordo com a direção do hospital, o quadro de saúde da idosa se agravou enquanto aguardava internação. À espera de um leito, ela respirava com dificuldades, sem ventilação mecânica.

Segundo o diretor técnico do hospital, muitos pacientes precisam esperar por um leito na unidade de saúde, em razão da grande demanda no local.

Enquanto aguardava, foi colocada na maca, dentro de um saco que também é utilizado para levar cadáveres. “É um saco que pode ser usado para várias coisas e estava ali forrando a maca“, argumenta Bonny. O diretor justifica que o aparato iria ajudar a carregar a idosa para uma outra maca, em razão da fragilidade do estado de saúde dela.

FOTO: Reprodução

É uma prática comum em hospitais, ainda mais (em) épocas de pandemia ou epidemia, que mudam os nossos conceitos e precisamos fazer adaptações“, diz o diretor. Ele afirma que, em razão da grande demanda, são necessárias algumas alternativas mais rápidas no atendimento aos pacientes, como o uso do saco para a transferência entre macas — comumente, o procedimento é feito com um lençol.

A direção do hospital não informou por quanto tempo a idosa ficou sem respiradores, à espera de um leito. A nota emitida pela Organização Social em Saúde diz que a idosa, posteriormente, foi avaliada por dois médicos e encaminhada para a sala vermelha, que atende pacientes graves. Depois, não resistiu e morreu.

O vídeo

Após a morte da idosa, a direção do hospital foi informada sobre o vídeo que mostra a paciente à espera de atendimento. Para apurar os responsáveis pelo vazamento das imagens, o caso foi denunciado à polícia.

No entanto, posteriormente, segundo Bonny, uma filha, que acompanhava a idosa no hospital, disse ter sido a responsável pela filmagem.

Ela contou que mandou aquele vídeo para o irmão ver como a mãe estava e não sabe como a gravação vazou para outros grupos de WhatsApp“, diz o diretor. Segundo ele, os familiares da paciente não sabem como surgiu a fake news de que ela foi levada viva para o necrotério. A reportagem não conseguiu contato com os parentes da idosa.


FOTO: Reprodução

O diretor lamenta as notícias falsas que circularam no Brasil e em outros países. “Isso confundiu a população. Essa situação é muito chata“, comenta.

Em nota, representantes da OS que administra o Hospital Abelardo Santos lamentaram “a má utilização da imagem da paciente por pessoas que não respeitaram a dor da família“. A direção da unidade classificou a divulgação do vídeo como “uma atitude antiética, desumana e passível de punição penal”.

A Polícia Civil do Pará abriu inquérito para apurar o vazamento do vídeo e também para investigar os responsáveis pela fake news que afirma que a idosa foi levada viva para o necrotério. Os familiares dela e os profissionais de saúde envolvidos no atendimento à paciente devem ser ouvidos nos próximos dias.