Cantora evangélica e portal gospel enganam sobre IBGE manipular dados sobre evangélicos para ajudar governo federal

A cantora evangélica Sarah Farias, integrante da Assembleia de Deus Vitória em Cristo (ADVEC), publicou, em 22 de setembro, uma série de vídeos em seu perfil no Instagram sobre dados de religião divulgados pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). O conteúdo, posteriormente compartilhado pelo portal gospel Pleno News, havia alcançado centenas de milhares de visualizações. 

Na gravação, Farias afirma que o governo estaria “desesperado” para entender os evangélicos e sugere que a “pesquisa do IBGE” teria sido realizada para se identificar “o que fazer com os evangélicos”. O Bereia verificou a afirmação e a classificou como enganosa, pois a cantora atribui ao levantamento uma finalidade que não corresponde aos objetivos do IBGE e do Censo Demográfico, que não é uma simples pesquisa, como a artista menciona. 

O conteúdo dos vídeos repercutidos

Publicada em 22 de setembro passado, a sequência de vídeos de Sarah Farias, compartilhada pelo Pleno News, alcançou mais de 309 mil visualizações, 27 mil curtidas e três mil repostagens no Instagram, até o fechamento desta matéria.

Na gravação, a cantora comenta os dados recém- divulgados pelo IBGE sobre a população evangélica brasileira e outros grupos religiosos e afirma que o governo teria percebido a necessidade de realizar uma “pesquisa” com uma amostra “grande” e “diversificada” para descobrir “quem nós somos”. Em seguida, afirma que o governo estaria “desesperado” e que seria necessário “entender os evangélicos para saber o que fazer com os evangélicos”. Para ela, essa atenção teria chegado tarde. 

A afirmação é enganosa, pois atribui ao levantamento do IBGE uma finalidade que não corresponde aos objetivos do instituto. A produção de estatísticas sobre religião integra o Censo Demográfico, realizado a cada dez anos, e tem como finalidade conhecer as características da população brasileira, e não orientar o governo sobre como agir em relação aos evangélicos. 

Imagem: Captura de tela do conteúdo. Reprodução: Instagram

Farias também alerta seus seguidores para a possibilidade de surgirem “igrejas fake”, “líderes fake” e pessoas que estariam se convertendo com o objetivo de ocupar espaços de liderança na comunidade evangélica. Sem apresentar evidências para essas afirmações, ela relaciona o cenário ao período eleitoral e orienta os seguidores a terem “senso de responsabilidade” na hora de votar.

Ao final, a cantora afirma que não existe um lado político “100% transparente” ou “100% honesto” e diz que pretende escolher aquele que mais se aproxima do que considera um mundo melhor. Para justificar esse posicionamento, menciona aspectos como segurança e poder de compra e propõe que os eleitores comparem se estão “melhor agora” ou se estavam “melhor antes”.

A desinformação da cantora e do portal gospel que repercutiu o conteúdo 

Bereia ouviu a antropóloga diretora de pesquisa do Instituto de Estudos da Religião (ISER) Regina Novaes sobre o caso. Ela explica que o Brasil tem uma trajetória histórica de produção de dados sobre religião. De acordo com ela, o país realiza levantamentos censitários sobre a declaração religiosa desde 1872, e, a partir de 1940, essa coleta passou a ser responsabilidade do IBGE, criado em 1936.

Novaes destaca que os censos permitiram acompanhar as transformações do cenário religioso brasileiro, inclusive o crescimento da população evangélica em um país historicamente de maioria católica. A cada edição, conforme a antropóloga, o IBGE apresenta notas técnicas para informar ao público sobre diferenças metodológicas adotadas em razão das mudanças ocorridas no período entre os levantamentos.

Sobre o Censo 2022, Regina Novaes ressalta que, apesar do atraso de dois anos (por conta da pandemia de covid-19, que impediu a coleta em 2020), os dados apresentam um retrato das transformações no quadro religioso brasileiro. O levantamento foi acompanhado de nota técnica pública, com explicações sobre os critérios utilizados e os limites da coleta. Para a antropóloga, atribuir manipulação ao levantamento desconsidera o processo histórico de produção de conhecimento sobre a população brasileira.

Novaes também aponta a proximidade dos dados do IBGE com resultados de pesquisas quantitativas realizadas em outros períodos, como levantamentos do Datafolha e, mais recentemente, a pesquisa do Instituto de Estudos da Religião (ISER),  em parceria com a Quaest. Nesse sentido, segundo a pesquisadora, atribuir ao IBGE uma suposta manipulação dos dados significaria conferir ao governo um poder de controle sobre instituições de pesquisa que não corresponde ao funcionamento dessas organizações.

O que o IBGE faz?

O Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) é responsável pela produção de estatísticas oficiais sobre a população brasileira. Entre suas principais operações está o Censo Demográfico, realizado periodicamente para levantar informações sobre características da população e dos domicílios.

A religião integra os temas investigados pelo Censo. No levantamento de 2022, o IBGE perguntou às pessoas com 10 anos ou mais “Qual é sua religião ou culto?”, sem apresentar uma lista de alternativas para a resposta. A investigação sobre religião não é uma iniciativa recente. O tema faz parte dos recenseamentos brasileiros desde 1872, ano do primeiro censo realizado no país.

Portanto, os dados sobre religião fazem parte de uma série histórica utilizada para conhecer as características da população brasileira. Não há, na finalidade declarada pelo IBGE para o Censo, indicação de que o levantamento tenha sido realizado para definir como o governo deve agir em relação aos evangélicos ou a qualquer outro grupo religioso.

O que os dados do IBGE mostram? 

O Censo Demográfico 2022 contabilizou 47,4 milhões de pessoas que se declararam evangélicas entre a população de 10 anos ou mais (26,9% da população). O levantamento registrou ainda 100,2 milhões de católicos, 16,4 milhões de pessoas sem religião e 12,3 milhões de pessoas pertencentes a outras religiosidades.

Esses dados permitem dimensionar a presença das diferentes religiões na população brasileira e relacionar o pertencimento religioso a outras características demográficas e sociais.

A existência de informações sobre o segmento evangélico, portanto, não significa que o governo tenha criado uma “pesquisa” para descobrir “o que fazer com os evangélicos”. O censo tem como finalidade produzir estatísticas sobre a população e suas características.

E o que fazem os institutos de pesquisa? 

Além das estatísticas oficiais produzidas pelo IBGE, institutos e organizações especializadas realizam pesquisas com objetivos específicos. Esses levantamentos podem investigar opiniões, comportamentos, valores, percepções e relações entre diferentes características da população. Para isso, cada pesquisa estabelece sua metodologia, com definição do público, da amostra, do período de coleta e das perguntas. 

Um exemplo é a pesquisa Religião e Vida Pública no Brasil, realizada pelo Instituto de Estudos da Religião (ISER), com execução de campo da Quaest. O levantamento ouviu presencialmente 15 mil pessoas com 16 anos ou mais, em 412 municípios de todas as regiões do país, entre 14 de janeiro e 10 de fevereiro de 2026. O questionário teve 184 perguntas e a pesquisa apresenta margem de erro de 0,8 ponto percentual, com nível de confiança de 95%. 

O levantamento investiga aspectos que vão além da identificação da religião. Entre os temas estão trajetórias religiosas, práticas de fé, valores, consumo de mídias, posicionamentos políticos e características sociodemográficas. A pesquisa busca compreender como a experiência religiosa se relaciona com outros aspectos da vida social. 

O próprio ISER informa que a pergunta sobre religião segue a mesma metodologia utilizada pelo IBGE: o entrevistador pergunta “Qual é a sua religião ou culto?” sem apresentar alternativas. A semelhança está na forma de identificar a religião declarada, mas os levantamentos possuem objetivos distintos.

Enquanto o censo produz estatísticas sobre a população brasileira, pesquisas específicas podem aprofundar determinados temas e investigar relações entre diferentes dimensões da vida social. Por isso, os dados de uma pesquisa não devem ser interpretados como se revelassem, por si só, uma intenção política do governo.

Evangélicos não formam um grupo político homogêneo 

Os vídeos da cantora gospel foram divulgados  também no contexto da publicação de análises na imprensa sobre a relação entre evangélicos e política. Em coluna publicada na Folha de S.Paulo, em 21 de setembro passado, o antropólogo Juliano Spyer afirma que não haveria mais espaço para o diálogo entre a esquerda e os evangélicos “nesta geração”. 

A análise parte principalmente do relato de um pastor identificado pelo pseudônimo “Luís”. Para o entrevistado, as igrejas já apresentavam uma identidade política antiesquerda, mas a pluralidade neste quesito teria diminuído após 2018. “Luis” teria também afirmado ao articulista que o território do Cristianismo estaria sob controle de grupos ligados à direita e que lideranças contrárias ao ex-presidente Jair Bolsonaro teriam perdido espaço em igrejas.

É importante compreender aqui que afirmações apresentadas na coluna correspondem à avaliação do interlocutor de Spyer e não a resultados de uma pesquisa representativa de toda a população evangélica.

A pesquisa Religião e Vida Pública no Brasil oferece outra perspectiva sobre a diversidade do campo religioso. O levantamento identifica diferentes tradições e trajetórias dentro do segmento evangélico. Entre os entrevistados, 21% se identificam como pentecostais, 5% como protestantes e 3% como evangélicos sem igreja. O estudo também aponta que 23% dos brasileiros já trocaram de religião.

Os dados sobre posicionamento político também indicam diversidade. De acordo com o levantamento, 54% dos entrevistados se definem como conservadores e 24% como progressistas. Esses números não permitem, contudo, estabelecer uma correspondência automática entre religião e posição política por determinado partido ou candidato. 

O relato utilizado por Spyer pode registrar a percepção de uma liderança religiosa sobre o ambiente político de determinadas igrejas e tem cunho opinativo. Porem, ele não permite, isoladamente, afirmar que todo o segmento evangélico tenha rompido com a esquerda ou esteja sob controle de uma única orientação política. Para caracterizar o conjunto da população evangélica, é necessário considerar pesquisas que apresentem metodologia adequada para representar suas diferentes características.

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O Bereia classifica como enganosa a afirmação de Sarah Farias, repercutida pelo Pleno News, de que o governo federal teria realizado uma “pesquisa”, pelo IBGE, para “entender os evangélicos” e saber “o que fazer com eles”. O Censo Demográfico inclui a religião entre os temas investigados pelo IBGE para produzir estatísticas sobre a população brasileira desde 1872. Os dados de 2022 dimensionam a presença dos diferentes grupos religiosos no país, mas não indicam a finalidade política atribuída pela cantora ao levantamento. Além disso, pesquisas sobre religião e vida pública apontam diversidade de trajetórias, pertencimentos e posicionamentos entre os evangélicos, o que reforça a necessidade de evitar generalizações sobre o segmento.

Bereia alerta leitores e leitoras para discursos proferidos por influenciadores religiosos sobre eleições que fazem uso de desinformação (mentiras e enganoso) para interferir no voto de seguidores de forma desonesta. Saiba mais sobre o processo eleitoral com os materiais da campanha Boto Fé no Voto: Eu escolho a Verdade, disponíveis nas redes do Bereia (@coletivobereia).

Referências:

Brasil Escola. https://brasilescola.uol.com.br/geografia/ibge.htm. Acesso em 23 de setembro de 2026.

ISER. https://iser.org.br/religiaoevidapublicanobrasil/. Acesso em 23 de setembro de 2026.

Documento do IBGE – Religiões: resultados preliminares da amostra. https://agenciadenoticias.ibge.gov.br/media/com_mediaibge/arquivos/3f1708b5d315aca50d5a7d8764469c45.pdf. Acesso em 23 de setembro de 2026.

IBGE. https://agenciadenoticias.ibge.gov.br/agencia-noticias/2012-agencia-de-noticias/noticias/47888-ibge-disponibiliza-microdados-da-amostra-do-censo-demografico-2022-com-novo-modelo-de-acesso-e-reforco-a-confidencialidade. Acesso em 23 de setembro de 2026.