Eleições 2026: o curioso processo de voltas e reviravoltas na candidatura do senador católico Cleitinho ao governo de Minas Gerais

Com a colaboração de Ana Clara Bento 

A tentativa de candidatura do senador católico Cleiton Gontijo de Azevedo, conhecido na política como Cleitinho (Republicanos-MG), para o governo de Minas Gerais,  passou por várias reviravoltas nos últimos meses. As muitas matérias jornalísticas sobre o caso e as postagens do senador nas redes chegaram a confundir quem acompanha o noticiário.

Bereia checou os acontecimentos que se sucederam e as possíveis motivações do que passou por anúncios de desistência e de disponibilidade para a disputa, veto do partido Republicanos, reafirmação da candidatura e anúncio oficial do nome do senador.

As muitas voltas e reviravoltas

Lançado como pré-candidato ao governo de Minas Gerais em março deste ano, Cleitinho alternou entre declarações de que disputaria a eleição com anúncios de desistência. Em junho passado, em discurso no Senado, Cleitinho negou que desistiria da corrida eleitoral. Na ocasião, ele afirmou que a candidatura estaria condicionada à “vontade de Deus” e ao fato de estar liderando as pesquisas de intenção de voto. Desde que o nome de Cleitinho foi testado em pesquisas de voto para governador de Minas, os números registraram entre 34% a 36% da preferência no primeiro turno, com vitória em todos os cenários de segundo turno simulados contra adversários locais, entre eles Alexandre Kalil (PDT), Patrus Ananias (PT) e Marcelo Aro (PP).

Em 5 de julho, o presidente do diretório estadual do Republicanos, deputado federal Euclydes Pettersen, declarou que a candidatura do senador estava confirmada. No entanto, a partir de meados daquele mês, ocorreu uma sequência de episódios que cercaram o anúncio da candidatura com uma grande confusão. A definição do nome do partido para os cargos majoritários deveria ter acontecido até 5 de agosto, prazo final para as convenções dos partidos de acordo com o calendário da Justiça Eleitoral, que dá até o dia 15 de agosto para que as candidaturas sejam registradas.

18 de julho – Tragédia familiar: falece o irmão mais novo do senador Cleitinho, Matheus Azevedo, vítima de complicações de leucemia. O fato abalou o senador e provocou uma postura de indecisão relacionada ao luto.
25 de julho – Ausência na convenção estadual: Cleitinho não compareceu à convenção estadual dos Republicanos, em Belo Horizonte. O partido lançou deputados, mas deixou as vagas majoritárias em aberto, gerando um vácuo político e impasses internos.

28 de julho – vídeo com Inteligência Artificial: após rumores de bastidores de que iria desistir, Cleitinho publicou um vídeo gerado por IA simulando uma conversa com seu pai, falecido em 2024, e com o irmão morto dias antes. Na gravação, eles o incentivaram a “ir em frente”, sinalizando que ele manteria a disputa. Na legenda da publicação nas redes o senador escreveu: “Seguirei na missão”. 

Imagem: trecho do vídeo publicado nas redes pelo senador Cleitinho em 28 de julho, em que ele afirma receber do pai e do irmão falecidos a missão de disputar o governo de Minas Gerais

29 de julho – Em nota oficial, o diretório nacional do Republicanos anuncia que Cleitinho não seria mais o candidato do partido. Logo após o anúncio, em entrevista à GloboNews, o presidente do Republicanos, deputado federal Marcos Pereira (SP) confirmou a desistência do senador. Porém, minutos depois, a  assessoria do senador publicou uma nota afirmando que a candidatura dele ao governo de Minas Gerais estava confirmada. No mesmo dia houve um convite à imprensa para uma coletiva em uma praça em Divinópolis-MG. No evento, Cleitinho ressalta a liderança nas intenções de voto, “Não é só eu que quero ser candidato não, tem quase 50% da população mineira que quer que eu seja candidato a governador, e as pesquisas mostram isso”. O senador negou participação em suposta reunião entre partidos onde ele teria aceitado desistir da candidatura “É mentira. Eu sou candidato”, afirmou o senador. 

3 de agosto – novo anúncio de desistência: após reunião em Brasília, Cleitinho gravou um vídeo chorando ao lado de representantes da cúpula do partido. Ele anunciou oficialmente sua renúncia à candidatura e, em lágrimas, afirmou não ter condições emocionais para enfrentar a campanha devido ao luto e que precisa cuidar de si e de sua família.

4 de agosto Convenção Nacional dos Republicanos, em Brasília, com nova declaração do senador Cleitinho. Ele pediu a palavra na reunião e, de surpresa, clamou publicamente pela ocupação da vaga para a disputa ao governo de Minas Gerais.  Na nova tentativa, Cleitinho disse que o Republicanos não se decepcionaria com ele e que Deus teria enviado uma mensagem, por meio do Espírito Santo, para que fosse candidato. O presidente da sigla Marcos Pereira negou o pedido de forma imediata e dura, alegando que a fase deliberativa havia sido encerrada e criticou a instabilidade e a falta de foco do senador.

4 de agosto – em vídeo intitulado “Tudo sobre a candidatura de Cleitinho: a verdade que você precisa saber”, publicado no canal no YouTube do partido Republicanos, durante a Convenção Nacional do Republicanos, o presidente nacional do partido, o deputado federal Marcos Pereira, comentou a decisão do senador Cleitinho de retomar a intenção de disputar o Governo de Minas Gerais. Ele recordou o vídeo do dia anterior em que o senador Cleitinho anunciou, ao seu lado, que não disputaria mais o cargo de governador. Pereira afirmou que o Republicanos concedeu todos os prazos necessários para a definição da candidatura e ressaltou que um partido com responsabilidade institucional precisa agir com previsibilidade e estabilidade na condução de um projeto eleitoral. “O senador Cleitinho ora dizia que era candidato, ora dizia que não era candidato. Nunca assumiu o papel de liderança de uma candidatura. (…) Eu seria irresponsável com o povo de Minas, em colocar Minas nas mãos de uma pessoa que ora pensa uma coisa e, cinco minutos depois, pensa outra”, afirmou o deputado presidente do partido.

Imagem: Trecho da gravação do pronunciamento do deputado Federal Marcos Pereira Convenção do Partido Republicanos, Youtube, 4 ago 2026.

7 de agosto de 2026 – O senador Cleitinho Azevedo anunciou, mais uma vez, que será candidato ao governo de Minas Gerais nas eleições de 2026. A declaração foi feita durante uma nova coletiva na Praça do Santuário, em Divinópolis (MG). O G1 apurou que horas antes, o presidente estadual do Republicanos, o deputado federal Euclydes Pettersen, havia ido a São Paulo pedir ao presidente nacional do partido que liberasse a candidatura. Em ligação de vídeo com o presidente do partido Marcos Pereira, Cleitinho agradeceu pela candidatura: “Presidente, quero agradecer por ter confiado em mim. Estou passando um momento difícil, mas o soldado vai ferido para a guerra, pois eu sei que terei milhões de soldados me defendendo em Minas Gerais”.

Minutos após a coletiva de Cleitinho, o partido Republicanos publicou nota confirmando a candidatura do senador ao governo de Minas Gerais.

A decisão foi tomada após o senador reconhecer os equívocos cometidos durante o processo, apresentar formalmente suas desculpas à direção nacional e estadual do partido, à população mineira e às forças políticas envolvidas na construção eleitoral, além de assumir o compromisso definitivo de levar sua candidatura até o fim. ”

Quem é Cleitinho Azevedo

Cleiton Gontijo de Azevedo, com nome de urna Cleitinho Azevedo, nasceu em Divinópolis, cidade do Centro-Oeste de Minas Gerais, e construiu sua trajetória pública como comerciante no sacolão de verduras da família e músico. Católico, com ampla ocupação nas mídias sociais, foi eleito  vereador, em 2016, em sua cidade natal, e deputado estadual, em 2018, com 115 mil votos, tendo disputado os dois pleitos pelo PPS/Cidadania. 

Nas eleições de 2022, já filiado ao Partido Social Cristão (PSC), foi eleito senador por Minas Gerais com 4.268.193 votos, tendo construído sua popularidade sobretudo por vídeos que viralizaram nas mídias sociais com críticas aos privilégios dos políticos. No final de 2022, mesmo antes de tomar posse como senador, filiou-se ao Republicanos e, em 2026, lidera as pesquisas de intenção de voto para o governo de Minas Gerais. Sobre a inserção na política, declarou em entrevista ao jornal O Globo, em julho passado:

“Entrei na política para aparecer, não sou hipócrita. Nunca nem tive título de eleitor, só queria ser famoso — afirma, para depois realmente dizer o seu sonho que nada tem a ver com o comando do Palácio da Liberdade. — Na verdade, queria ser comentarista de futebol ou apresentador de TV igual ao Ratinho. Se um dia tiver uma proposta, largo essa merda aqui”.

No Senado, Cleitinho consolidou o estilo que o tornou conhecido como alinhado da direita extremista no Congresso Nacional:  forte presença digital, discurso “antissistema” e mobilização de pautas ultraconservadoras com linguagem religiosa. Na Comissão Parlamentar de Inquérito das Bets, ao interrogar uma suspeita de ganhos ilegais, a influenciadora Virgínia Fonseca, fez um apelo à moral cristã: “Eu queria falar para você, se tocar seu coração, como cristão: você não precisa mais disso. Acaba com isso”. Depois, posou com a influenciadora, que também é católica, para uma selfie.

Em entrevista ao jornal O Globo, em julho passado, Cleitinho, chamou o bispo Edir Macedo de “falso profeta”, o que gerou tensão com a cúpula de seu próprio partido, que é conduzido pela Igreja Universal do Reino de Deus. “[O presidente do partido Marcos Pereira] garante que me dará a legenda para me candidatar, mas não confio 100%. Não sou amigo dele, tenho nojo de qualquer coisa que envolva partido do bispo Edir Macedo, falso profeta, nem quero me aproximar”, declarou ao jornalista Thiago Prado.

O Bereia checou várias publicações com mentiras e enganos produzidas pelo senador para as mídias sociais. Entre elas, em outubro de 2022, já eleito, Cleitinho divulgou um vídeo falso que atrelava o candidato Luiz Inácio Lula da Silva (PT) ao satanismo, para convocar eleitores ao segundo turno em apoio a Jair Bolsonaro (PL). Em maio de 2024, o senador compartilhou um vídeo originalmente publicado por Pablo Marçal afirmando que a Secretaria da Fazenda do Rio Grande do Sul estaria impedindo a entrada de caminhões com doações às vítimas das enchentes, o que era falso. Na ocasião, o governo federal acionou a Polícia Federal diante do conjunto de desinformações que atrapalhavam as operações de salvamento. Em janeiro de 2025, Cleitinho publicou conteúdo enganoso, em tom alarmista, sobre “a Receita Federal tomar conta dos gastos do seu cartão de crédito e Pix” da população, distorcendo a aplicação de uma norma tributária de rotina. O senador também publicou várias falsidades sobre vacinas, como o Bereia checou. O padrão é consistente: conteúdos que exploram o medo e atacam o atual governo federal e circulam com forte apelo entre o público religioso nas redes digitais.

Bastidores das reviravoltas

Analistas políticos observam os bastidores das reviravoltas da candidatura de Cleitinho ao governo de Minas Gerais, e atribuem as controvérsias a uma trama política articulada entre o ex-presidente da Câmara Eduardo Cunha, que se filiou ao Republicanos em Minas Gerais, e será candidato a deputado federal, e o ex-secretário da Casa Civil de Romeu Zema, Marcelo Aro (PP). Aro, conhecido como “o Eduardo Cunha nascido em Minas”, por sua forma ousada de atuar na política, tem a intenção de disputar o governo daquele estado com apoio do partido de Cleitinho e da Igreja Universal do Reino de Deus (IURD). 

Outro fato de bastidores é que Cleitinho é o principal nome da direita mineira para governador e as reviravoltas dos últimos meses afetam a campanha eleitoral do também senador e candidato à presidência Flávio Bolsonaro (PL). Minas Gerais é o segundo maior colégio eleitoral do Brasil, com 16 milhões de votantes, e é considerado, historicamente, um reflexo eleitoral do Brasil inteiro por conta da pluralidade no perfil dos eleitores. Desde 1989, quem ganha em Minas, ganha as eleições.

Com a insegurança em torno da candidatura de Cleitinho, o PL teria avaliado apoiar Marcelo Aro (PP). Porém, em 6 de agosto, o senador Rogério Marinho (PL-RN), coordenador da campanha presidencial de Flávio Bolsonaro, anunciou, em uma transmissão ao vivo ao lado do candidato a presidente, a retirada do apoio de seu partido a Cleitinho. Marinho informou que o PL teria candidato próprio, o empresário e presidente licenciado da Federação das Indústrias do Estado de Minas Gerais Flávio Roscoe (PL). 

Na gravação, o senador Marinho disse que o partido teve “uma aproximação muito grande com o Cleitinho” e que havia “se colocado à disposição para apoiá-lo” mas que com essas “idas e vindas” o Partido Liberal ficou “fragilizado” e não poderia ficar sem um candidato no estado. Ao seu lado, Flávio Bolsonaro afirmou que estava no aguardo da definição de Cleitinho há mais 120 dias, mas devido a instabilidade da situação, decidiu, com a bancada do PL em Minas Gerais, lançar Roscoe. “É um dos nossos. Faz política com coração de verdade”, disse o candidato à presidência ao citar Cleitinho. 

O noticiário político informa que Marcelo Aro concorrerá ao Senado e, com a nova declaração oficial do lançamento da candidatura de Cleitinho, aguarda novas definições de articulações.

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Bereia segue acompanhando o confuso processo em torno da disputa do senador católico Cleitinho pelo governo do estado de Minas Gerais nas eleições de 2026.

Referências

G1

https://g1.globo.com/politica/noticia/2026/08/04/cleitinho-pede-em-convencao-do-republicanos-para-ser-candidato-a-governador-de-minas-gerais.ghtml Acesso em 5 ago 2026

https://g1.globo.com/mg/minas-gerais/eleicoes/2026/noticia/2026/08/04/eleicoes-2026-as-idas-e-vindas-de-cleitinho-na-disputa-pelo-governo-de-minas-gerais.ghtml Acesso em 5 ago 2026

https://g1.globo.com/mg/minas-gerais/noticia/2026/07/29/assessoria-de-cleitinho-contradiz-presidente-do-republicanos-e-diz-que-senador-sera-candidato-ao-governo-de-mg.ghtml Acesso em 5 ago 2026

https://g1.globo.com/mg/minas-gerais/noticia/2026/07/28/cleitinho-posta-video-de-ia-com-pai-e-irmao-dizendo-para-ir-em-frente-e-fazer-o-que-tem-que-ser-feito.ghtml Acesso em 6 ago 2026

https://g1.globo.com/mg/centro-oeste/eleicoes/2026/noticia/2026/08/07/cleitinho-anuncia-pela-3a-vez-que-sera-candidato-ao-governo-de-minas.ghtml Acesso em 7 ago 2026

Veja

https://veja.abril.com.br/brasil/governador-de-minas-diz-que-cleitinho-foi-alvo-de-humilhacao-publica-pelo-republicanos/ Acesso em 6 ago 2026

Uol Notícias

https://noticias.uol.com.br/eleicoes/2026/08/03/cleitinho-anuncia-que-nao-sera-candidato-ao-governo-de-minas-gerais.ghtm Acesso em 6 ago 2026

https://noticias.uol.com.br/politica/ultimas-noticias/2026/08/04/cleitinho-governador-mg.ghtm Acesso em 6 ago 2026

https://noticias.uol.com.br/eleicoes/2026/08/05/como-o-vaivem-de-cleitinho-fragmenta-direita-em-mg.ghtm Acesso em 6 ago 2026

CNN Brasil

https://www.cnnbrasil.com.br/eleicoes/cleitinho-volta-atras-e-insiste-em-ser-candidato-ao-governo-de-mg/ Acesso em 6 ago 2026

ICL Notícias

https://iclnoticias.com.br/choro-de-senador-desonra-minas/ Acesso em 6 ago 2026

Jornal Opção

https://www.jornalopcao.com.br/ultimas-noticias/apos-dizer-ter-recebido-pedido-do-espirito-santo-cleitinho-tenta-disputar-o-governo-de-mg-e-e-rejeitado-novamente-853872/ Acesso em 7 ago 2026

Diário do Centro do Mundo

https://www.diariodocentrodomundo.com.br/como-desistencia-de-cleitinho-atrapalha-flavio-bolsonaro-em-mg/ Acesso em 7 ago 2026

Congresso em Foco

https://www.congressoemfoco.com.br/noticia/121106/rogerio-marinho-diz-que-pl-retirou-apoio-a-cleitinho-ao-governo-de-mg  Acesso em 7 ago 2026

Partido Republicanos

https://republicanos10.org.br/estadual/republicanos-divulga-nota-sobre-candidatura-de-cleitinho-ao-governo-de-minas-gerais/  Acesso em 8 ago 2026

https://republicanos10.org.br/imprensa/republicanos-confirma-candidatura-de-cleitinho-ao-governo-de-minas-gerais/ Acesso em 8 ago 26

O Globo

https://oglobo.globo.com/politica/noticia/2026/06/05/jogo-politico-a-classe-politica-me-subestima-e-nao-tenho-medo-de-virar-governador-diz-cleitinho-lider-nas-pesquisas-em-minas.ghtml  Acesso em 9 ago 2026

Pautas nada laicas e processos legislativos de baixa qualidade

Às vezes tenho a impressão de que o Brasil esta se convertendo em uma teocracia disfarçada de Estado Laico. A laicidade, principio da sociedade moderna, que longe de ser a negação do direito da liberdade de fé, reafirma a legitimidade da autonomia do Estado tornando-o garantidor da liberdade religiosa. 

Diferentemente de sociedades teocráticas, onde determinada religião tinha o poder de se impor sobre as mesmas, controlando todas as suas manifestações culturais e comportamentais, o Estado Laico é a garantia da liberdade religiosa e dos direitos dos cidadãos e cidadãs viverem entre si pautados, única e exclusivamente, por princípios racionais e universais, respeitado o princípio do bem-comum. 

No entanto, a despeito de nosso Estado se firmar neste principio, temos visto uma avalanche de legisladores que querem estabelecer, de forma vergonhosa, leis que quebram esse princípio e reafirmam a intenção de transformar o país numa republiqueta cristã fundamentalista. Estes legisladores transferem para a arena do parlamento uma agenda muitas vezes pessoal, atendendo a interesses de fé religiosa.

Dessa forma, tais legisladores comprometem o fortalecimento da Democracia e empobrecem o nível da igualdade de direitos, favorecendo determinados grupos religiosos e abrindo, para estes grupos, certos privilégios inadmissíveis. Tem se multiplicado exponencialmente iniciativas de leis, tanto na esfera municipal, quanto estadual e até no Congresso Nacional, que têm trazido a tona propostas normalmente oriundas do fundamentalismo protestante que tentam, por exemplo, criar regras que interferem diretamente em atividades pedagógicas de instituições publicas de educação. 

Entre os casos recentes temos uma propositura de lei na ALERJ que estabelece Jesus como guardião do estado do Rio de Janeiro, inclusive com a recomendação de que o Estado realize eventos anuais de promoção dessa homenagem. A referida autora da propositura pertence ao partido Republicanos, apoiado pela Igreja Universal. 

Considerando as questões de técnica legislativa, o referido projeto nem podia avançar para votação em plenário devido a sua líquida inconstitucionalidade. Inclusive com a assumida justificativa de que as pessoas cristãs constituem quase 80% da população, sustentando, por falso principio, uma ditadura da maioria, violando assim o principio da isonomia, pelo qual a lei deve servir a todas as pessoas. Outra questão é a previsão de obrigação do Estado realizar atividades de promoção e divulgação da homenagem, o que implica em uso de recursos públicos em favor de uma fé religiosa.

É evidente que esta iniciativa não está desconectada de iniciativas similares como, por exemplo, a realização de intervalos bíblicos nas escolas, ou mesmo a contratação de serviços de educação cristã que envolveriam pastores e educadores cristãos, às custas do erário público. 

A laicidade do processo pedagógico deve contemplar um currículo que explore o fenômeno da Religião como parte da evolução humana em seus aspectos históricos e culturais, sem promover qualquer crença especifica em clara ação proselitista. Inclusive respeitando a liberdade do discente em não ser obrigado a participar dessas atividades. 

A observância do principio da laicidade do Estado é de fundamental importância para se coibir abusos. Esse é um processo que, no Brasil, historicamente dominado pelo predomínio da religião católica, tem ainda hoje casas legislativas que regulam feriados religiosos. 

Outra pauta que atenta contra o principio da laicidade é a tendência de se apresentar projetos de leis referentes a pautas de costumes tão próprias dos segmentos confessionais. Temos tidos múltiplos exemplos em varias partes do Brasil, o que revela que não há preocupação com a formação dos futuros parlamentares sobre técnica legislativa. Isso evitaria muitos problemas e agilizaria a contento a prática legiferante para temas realmente relevantes para o povo brasileiro.

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Imagem de capa: Secom/Alerj

Site de notícias gospel do Brasil publica desinformação sobre eleições presidenciais dos EUA

O site evangélico de notícias Gospel Prime publicou matéria, em 7 de novembro, intitulada: “Joe Biden vence eleições nos EUA em disputa com suspeita de fraude”, apresentando um panorama de como se deu o pleito.

Inicialmente, Gospel Prime trouxe os números das eleições atualizados em 05 de novembro. Segundo a publicação, em uma disputa acirrada pela Casa Branca, Joe Biden foi eleito presidente dos Estados Unidos com 284 delegados e 50,6% dos votos populares, contra 214 delegados e 47,7% dos votos populares do republicano Donald Trump. Para além dos números, a matéria apontou a possibilidade de fraude no processo de apuração. “Biden usou sua conta no Twitter para se declarar vencedor, apesar de ainda ter de enfrentar uma longa batalha judicial que será travada pelo seu adversário, Donald Trump, atual presidente do país e que aponta indícios de fraudes”, ressaltou a publicação, que afirmou também que, ainda durante o processo de contagem, Trump chegou a usar o Twitter para colocar em dúvidas a apuração, dizendo que estava liderando em vários estados-chave controlados por democratas, mas que essas vantagens desapareceram após “cargas surpresas de votos” serem contabilizadas.

Gospel Prime afirmou que o republicano alertou que os democratas estariam “tentando roubar” as eleições e sugeriu que entraria com ação na Suprema Corte do país, já que havia suspeita de fraudes. Trump disse ainda na madrugada que, por direito, havia ganhado a eleição e que entraria com a ação para impedir uma “fraude”. Como já evidenciado anteriormente, apesar da Suprema Corte poder ser solicitada a intervir, as alegações parecem não ter qualquer perspectiva de sucesso.

Apenas repetindo o que é veiculado pela campanha de Trump, sem pesquisa e verificação próprias do jornalismo, a publicação no site evangélico ainda retomou as alegações infundadas do presidente dos Estados Unidos sobre o estado de Wisconsin, onde diversas denúncias de fraudes começaram a surgir na internet. De acordo com a matéria, o diretor de campanha de Trump, Bill Stepien, teria informado que o republicano pediria recontagem de votos naquele estado. “Wisconsin tem sido uma disputa frágil como sempre soubemos que seria. Tem surgido relatos de irregularidades em vários condados de Wisconsin, que levantam sérias dúvidas sobre a validade dos resultados. O presidente está bem dentro do limite para solicitar uma recontagem e faremos isso imediatamente”, reproduziu Gospel Prime a partir da afirmação em nota divulgada por Bill Stepien.

O processo eleitoral nos EUA

A matéria do site Gospel Prime, já mencionado em diversas checagens do Bereia categorizadas como falsas e enganosas, se junta a outros conteúdos sobre as eleições dos EUA, veiculados em espaços digitais religiosos no Brasil e no exterior, classificados como desinformação. Boa parte desses conteúdos diz respeito a supostas fraudes no processo eleitoral daquele país para favorecer o candidato Joe Biden (Partido Democrata).

Até a data de apuração desta reportagem, em 13 de novembro de 2020, as eleições presidenciais dos Estados Unidos ainda não contavam com um vencedor oficial, embora o democrata Joe Biden venha sendo amplamente aclamado presidente eleito do país. Segundo matéria da BBC, no último dia 07, de acordo com as projeções de resultados, o candidato ultrapassou o número de 270 votos do Colégio Eleitoral (de 538) necessários para chegar à presidência. No mesmo dia, Biden e sua companheira de chapa à vice-presidência Kamala Harris, à frente na apuração, fizeram discursos comemorando a vitória e, desde então, falaram sobre planos de governo.

Com comparecimento recorde, não visto no decorrer de 120 anos, Biden foi o candidato que mais recebeu votos na história recente do país, ultrapassando a marca anterior, de 69,5 milhões de votos recebidos pelo democrata Barack Obama em 2008.

De acordo com matéria publicada pela BBC News Brasil, a disputa foi apertada, uma vez que, nos Estados Unidos, o presidente é eleito de forma indireta, pelo Colégio Eleitoral, e receber a maioria do voto popular não desponta como sucesso garantido. A disputa pelos 270 votos do Colégio Eleitoral, necessários para ganhar a Presidência, segundo a BBC, foi acirrada e incerta até o último momento.

O cenário aponta para o fato de que, apesar de ter sido derrotado, Trump teve desempenho melhor do que o esperado e, segundo números parciais, recebeu neste ano mais de sete milhões de votos a mais do que havia recebido em 2016, quando também perdeu o voto popular, mas conquistou os votos necessários no Colégio Eleitoral para chegar à Casa Branca.

BBC News Brasil indicou ainda que, contrariando as expectativas dos democratas, o Partido Republicano ampliou a presença na Câmara dos Representantes (equivalente à Câmara dos Deputados no Brasil), recuperando algumas das cadeiras perdidas na eleição legislativa de 2018.

A expectativa de que o Partido Democrata conseguiria a maioria no Senado também foi colocada em xeque, apontou a mesma publicação. Assim, com poucas cadeiras ainda sem resultado confirmado, a única esperança do partido é vencer em janeiro duas disputas de segundo turno na Geórgia, Estado tradicionalmente republicano, apesar de Joe Biden aparecer à frente na apuração da eleição presidencial.

A base eleitoral fiel e o apoio de quase metade do país devem fazer com que, mesmo fora da Casa Branca, Trump continue sendo um líder influente no Partido Republicano. “O resultado desta eleição demonstra que o trumpismo continua firme e forte”, disse à BBC News Brasil o cientista político Justin Gest, professor da Universidade George Mason, na Virgínia. “Mesmo perdendo, será uma forte influência sobre os americanos e o futuro do Partido Republicano daqui para a frente”, afirmou o cientista político, autor do livro The New Minority: White Working Class Politics in an Age of Immigration and Inequality (A Nova Minoria: Política da Classe Trabalhadora Branca em uma Era de Imigração e Desigualdade, em tradução livre).

Enquanto isso, todo o mundo acompanha os desdobramentos do pleito, cuja previsão de finalização corresponde a 08 de dezembro, segundo estabelecido pela lei federal americana.

O pontapé das denúncias infundadas de fraude

Antes mesmo do início da contagem dos votos, o atual presidente Donald Trump já fazia alegações sobre fraudes nas eleições presidenciais, mesmo sem provas. Ele chegou a citar os votos antecipados pelos correios como possível brecha para fraudes, e chegou a afirmar que entraria com um processo para parar as contagens de votos recebidos pelo serviço postal após o dia 03 de novembro, quando ocorreu a eleição.

Em seu perfil no Twitter, diversos posts do dia 04 de novembro apontavam para supostas ações fraudulentas:

“Eles estão encontrando votos de Biden em todos os lugares – na Pensilvânia, Wisconsin e Michigan. Tão ruim para o nosso país!”, dizia em um dos posts, que contou com quase 180 mil comentários, 200 mil retuítes e cerca de 630 mil curtidas.

No dia 05 de novembro, a apuração na Filadélfia, maior cidade do estado da Pensilvânia, foi suspensa para que a Justiça tomasse decisão sobre qual deve ser o papel dos observadores dos partidos. Segundo informado em matéria publicada no G1, os partidos podem indicar representantes para acompanhar a abertura e a contagem dos votos nos centros de apuração. Após um homem, aparentemente do Partido Republicano, reclamar que não conseguia enxergar as informações escritas do lado de fora de uma das cédulas, a campanha de Trump protocolou – e ganhou – uma ação na Justiça estadual. A distância permitida para os observadores acompanharem a contagem foi reduzida para seis pés (cerca de 1,5 metro). A decisão judicial veio na manhã da quinta-feira, 05 de novembro.

No dia posterior, o presidente acusou, via perfil no Twitter, o Estado da Pensilvânia de má conduta nas eleições. “Legislatura. Eles simplesmente ignoraram isso, ignoraram a Constituição. Agora nós trazemos isso para as casas de contagem e, escandalosamente, os observadores, que são as sentinelas da integridade e transparência, foram excluídos. A Pensilvânia tem se conduzido de uma maneira horrível e sem lei, e espero que isso seja corrigido na Suprema Corte dos Estados Unidos. Além disso, essas votações tardias após o dia das eleições são ilegais, exatamente o que o presidente tem dito. O Supremo Tribunal, em circunstâncias extraordinárias, foi capaz de proferir decisões em questão de dias”, dizia Trump.

A administração da cidade, comandada por democratas, no entanto, recorreu a uma instância superior para reverter a decisão, mas o recurso ainda não foi julgado. A disputa judicial fez com que os trabalhos de contagem ficassem parados de uma a duas horas, segundo o jornal “Philadelphia Inquirer“.

Depois da aparente derrota, um movimento se iniciou nas redes sociais quando Trump afirmou que milhares de votos haviam sido recebidos “ilegalmente” na Pensilvânia e em outros estados-chave das eleições.

Contudo, de acordo apuração realizada pelo Portal G1, até a data de fechamento desta matéria, 13 de novembro, nenhuma prova concreta foi apresentada pelo atual presidente americano. Mesmo assim, Trump iniciou uma ofensiva judicial contra o resultado das eleições em estados-chave, porém, várias das ações já foram rejeitadas por tribunais estaduais. As ações dos republicanos visam principalmente os votos enviados pelo correio.

Publicação do Portal UOL do dia 12 de novembro apontou outras proposições sobre as medidas do presidente Trump e seus aliados para reverter os resultados. Segundo a matéria, eles insistem por diferentes meios, a exemplo do Twitter, de entrevistas e de comunicados, que todas essas investigações em torno das urnas levarão à reversão do resultado das eleições. UOL afirma que, no dia seguinte à eleição, após falar em fraude eleitoral sem provas, Trump anunciou: “Iremos ao Supremo Tribunal Federal”. Mas para que isso aconteça, várias etapas anteriores devem ser superadas. As equipes jurídicas precisam primeiro contestar o resultado nos tribunais estaduais, ainda que o procurador-geral do país também tenha aprovado “investigações preliminares” por procuradores federais, uma medida bastante incomum nos EUA.

Os juízes estaduais teriam então que decidir a favor da disputa e ordenar uma recontagem. Neste sentido, a Suprema Corte poderia ser solicitada a intervir. Mas, por mais que a campanha de desinformação em torno de Trump diga o contrário, nenhum dos casos acima mencionados parece ter qualquer perspectiva de sucesso.

O ponto comum entre todas essas ações judiciais que já foram indeferidas por juízes ao redor do país é que os advogados de Trump acabam, por falta de provas, apresentando no tribunal uma versão bem mais branda das acusações que o presidente faz em público. Enquanto o presidente fala sem provas no Twitter em “fraude desenfreada”, os advogados, ao contrário de Trump, têm de fundamentar suas alegações perante o juiz, o que desponta como uma difícil missão.

Na mesma semana, circulou em mídias sociais uma postagem mostrando supostas cédulas de votação das eleições dos Estados Unidos despejadas em uma estrada. Segundo a publicação, a imagem foi feita pelo FBI, que teria descoberto que houve fraude no pleito. Por meio de filtro de verificação de notícias do Facebook, usuários do aplicativo solicitaram que esse material fosse analisado, o que foi checado pela Agência Lupa, que categorizou a informação como falsa.

Fonte: Agência Lupa

A imagem é de setembro de 2018 e trata-se, na verdade, de correspondências que foram encontradas despejadas no chão por um funcionário dos correios na região de Pennsauken, em Nova Jersey, Estados Unidos. Portanto, não há qualquer relação com as eleições presidenciais norte americanas de 2020.

Segundo reportagem do The Philadelphia Inquirer, a foto enganosa foi feita por um morador da região, que publicou a cena em seu Facebook em 30 de setembro de 2018, com a seguinte legenda: “Se você está procurando sua carta, talvez esteja na estrada do rio pela estação 36…Compartilhe esse post”. De acordo com o texto do Philadelphia Inquirer, o carteiro responsável pela entrega pediu demissão do serviço. “O Correio da Estação Roxborough vai entregar a correspondência”, informou o Escritório do Inspetor Geral dos Correios dos EUA, na ocasião.

A peça de desinformação vem sendo compartilhada nos Estados Unidos desde setembro deste ano e já tinha sido desmentida por diversos veículos internacionais, a exemplo da NBC. Entretanto, voltou a ser usada para se disseminar desinformação s em mídias sociais, após a campanha do presidente Donald Trump pedir a recontagem de votos nos estados de Wisconsin e Michigan. Devido à pandemia da Covid-19, milhões de eleitores votaram por correio.

Desinformações sobre as eleições americanas continuam a circular em sites brasileiros

Mesmo sem o resultado do pleito à presidência dos EUA, iniciado em 03 de novembro, no Brasil, notícias falsas e enganosas continuam a circular nas redes sociais digitais e sites noticiosos.

No dia 10 de novembro, o portal G1 publicou matéria sobre a utilização da plataforma que se mostrou capaz de detectar centenas de contas brasileiras no Twitter disseminadoras de desinformações sobre a eleição americana.

De acordo com o criador do sistema que monitora robôs Christopher Bouzy, os autores das contas nem ao menos tentam disfarçar a origem, deixando claro que são brasileiras.

Fonte: Portal G1

A plataforma Bot Sentinel, que monitora atividade de robôs no Twitter, alertou no dia 10 de novembro, a existência de mais de mil contas brasileiras tentando espalhar desinformação sobre a eleição americana na rede social. Entre os exemplos apresentados estão contas que repetidamente publicam a hashtag #BidenWasNotElected (“Biden não foi eleito”), mensagem de apoio às alegações sem provas de Donald Trump sobre um suposto “roubo” na disputa presidencial para beneficiar o democrata Joe Biden.

À reportagem da GloboNews, Bouzy informou: “Desde a semana passada, acompanhamos as atividades das eleições e, desde o primeiro dia, percebemos que contas brasileiras estavam espalhando desinformação. Mas na semana passada eram aproximadamente 370-400 contas brasileiras no Twitter. Agora são bem mais de 1000 se aproximando de 2000″. O depoimento também foi publicado na matéria do portal G1.

Segundo o portal, o estadunidense nota que muitas das contas repetem insistentemente as mesmas mensagens de desinformação. “O curioso e bizarro é que não estão tentando esconder seu país de origem. A maioria dos atores estrangeiros que estão disseminando desinformação tenta se disfarçar como alguém dos Estados Unidos. Mas esses [brasileiros] estão fazendo isso à vista de todos”, comentou. “Contas estrangeiras no Twitter que disseminam desinformação sobre as eleições nos EUA não são raras, mas é incomum que haja um número significativo de contas brasileiras no Twitter que tentam semear a discórdia em uma eleição presidencial dos EUA”, disse o criador do Bot Sentinel à reportagem.

Em sua conta no Twitter, Bouzy também publicou as constatações evidenciadas pela plataforma de checagem:

Fonte: Twitter

Neste cenário, sites religiosos como o Gospel Prime entram novamente no rol da desinformação.

Entenda como será definido resultado das eleições

Ao contrário de muitos outros países, os Estados Unidos não têm um órgão eleitoral central que decide e certifica os resultados das eleições nacionais — o equivalente ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE) no Brasil, por exemplo. Vale ressaltar que cada um dos 50 Estados tem suas próprias regras e prazos diferentes, o que explica os desarranjos dos últimos dias, com foco em alguns Estados em disputa.

Em 2020, porém, enfrenta-se uma situação incomum por vários motivos. Por um lado, a pandemia do coronavírus e as precauções necessárias fizeram com que a votação pelo correio disparasse, o que desacelerou a contagem em alguns lugares.

Por outro lado, de acordo com matéria da BBC “há um presidente que não quer assumir as projeções de Estados que dão vitória a Biden, rompendo com uma tradição em que o perdedor reconhece a derrota e oferece sua colaboração ao presidente eleito”. Segundo a publicação, ao invés disso, a campanha de Trump e sua equipe jurídica entraram com ações judiciais em Estados importantes para bloquear o processo pelo qual as autoridades eleitorais certificam os resultados.

É importante entender ainda o conceito de Certificação de Resultados, ou seja, a comprovação que os Estados emitem confirmando o vencedor das eleições naquele território. Embora o processo varie por Estado, a certificação geralmente é concluída nas semanas seguintes às eleições, antes que a delegação de cada Estado no Colégio Eleitoral se reúna, em meados de dezembro, para emitir seus votos.

Os resultados geralmente divulgados na noite das eleições são considerados não oficiais e as autoridades de cada Estado levam algum tempo após as eleições para encerrar a contagem dos votos.

Para verificar os resultados, os funcionários checam os dados da contagem dos votos e confirmam se o manuseio das cédulas foi correto. O ato de certificação é normalmente realizado pelo chefe do órgão eleitoral estadual, pelo governador ou por uma junta de membros de campanha.

Cada Estado tem processos diferentes para verificar a contagem final dos votos antes que as autoridades certifiquem formalmente os resultados, o que pode demorar algumas semanas, com cada condado certificando os resultados de sua região e enviando-os às autoridades eleitorais estaduais em um prazo que varia de local para local.

Muitos dos Estados já concluíram esse processo, mas em muitos deles o período de certificação permanece aberto. Nos atemos aos prazos dos seguintes Estados, apurados pela BBC:

  • Nevada – Prazo termina em 16 de novembro.
  • Wisconsin – Condados devem fornecer resultados certificados à comissão eleitoral estadual até 17 de novembro.
  • Geórgia – Prazo termina em 20 de novembro.
  • Michigan e Pensilvânia – Condados devem certificar os resultados até 23 de novembro.
  • Arizona – Prazo termina em 30 de novembro.

Segundo a mesma publicação da BBC, em dois desses Estados, Wisconsin e Geórgia, foi anunciado que haverá uma recontagem de votos, uma ação que só pode começar depois que a certificação for feita.

As autoridades eleitorais de cada Estado verificam os resultados para garantir a precisão da contagem final e detectar possíveis problemas técnicos, erros humanos ou fraudes (que, segundo dados históricos, são muito raras nos Estados Unidos).

Vale lembrar que essas etapas de verificação e o ato de certificação geralmente não produzem mudanças drásticas nas projeções.

Segundo estabelecido pela lei federal estadunidense, existe uma data como prazo final para as contagens denominada de “porto seguro”, que neste ano corresponde a 08 de dezembro. Até lá, de acordo com a lei federal, todas as informações de resultados estaduais devem ter alcançado o “porto seguro”, ou seja, devem ter sido entregues pelas autoridades eleitorais de cada Estado.

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Bereia categoriza a matéria de Gospel Prime, que afirma suspeitas de fraude nas eleições dos Estados Unidos, como enganosa. Isso porque, segundo apurações de importantes veículos que seguem acompanhando o andamento das eleições, como a BBC, até 12 de novembro, nenhuma evidência de fraude apareceu.

Não se pode descartar que, devido às alegações do presidente de suposta fraude, algumas legislaturas estaduais em mãos dos republicanos decidam não aceitar como válidos os resultados das eleições em seu próprio Estado. Assim, no dia 14 de dezembro poderia ocorrer, no Colégio Eleitoral, uma divisão entre delegados de um mesmo Estado, com um grupo dando seu voto ao vencedor nas urnas do Estado e o outro, seguindo a orientação do legislativo do Estado. Nesse caso, a lei estabelece que cabe ao Congresso dos Estados Unidos escolher entre os dois grupos de delegados enviados pelo Estado, o que não acontece desde 1876.

A matéria de Gospel Prime também falha ao não informar seus leitores/as sobre os processos que envolvem a finalização da eleição e o papel da Suprema Corte americana em relação à intervenção na contagem dos votos, o que poderia elucidar a clareza nas apurações dos votos.

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Foto de Capa: Getty Images/Reprodução

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Referências de checagem

Eleição nos EUA 2020: por que a vitória de Biden não significa o fim do trumpismo? Disponível em https://www.bbc.com/portuguese/internacional-54843658. Acesso em 11 de novembro de 2020.

Plataforma detecta centenas de contas brasileiras no Twitter disseminando desinformação sobre a eleição americana. Disponível em: https://g1.globo.com/mundo/eleicoes-nos-eua/2020/noticia/2020/11/10/plataforma-detecta-centenas-de-contas-brasileiras-no-twitter-disseminando-desinformacao-sobre-a-eleicao-americana.ghtml. Acesso em 11 de novembro de 2020.

Como Trump quer reverter o resultado das urnas e qual a resposta de Biden. Disponível em: https://noticias.uol.com.br/ultimas-noticias/bbc/2020/11/12/como-trump-quer-reverter-o-resultado-das-urnas-e-a-qual-a-resposta-de-biden.htm Acesso em 13 de novembro de 2020.

Nem Trump nem a mídia: quem realmente decide oficialmente a eleição presidencial nos EUA. Disponível em: https://www.bbc.com/portuguese/internacional-54930248. Acesso em 13 de novembro de 2020.

Contagem de votos na maior cidade da Pensilvânia é brevemente interrompida por disputa judicial. https://g1.globo.com/mundo/eleicoes-nos-eua/2020/noticia/2020/11/05/contagem-de-votos-na-maior-cidade-da-pensilvania-e-interrompida.ghtml. Acesso em 11 de novembro de 2020.

É antiga imagem de ‘cédulas de votação’ das eleições dos EUA jogadas em estrada. Disponível em: https://piaui.folha.uol.com.br/lupa/2020/11/05/verificamos-imagem-cedulas-votacao/. Acesso em 13 de novembro de 2020.