Pesquisa sobre racismo religioso no Brasil destaca evangélicos entre maiores agressores
Evangélicos são identificados como a maioria dos perpetradores de racismo religioso. Este dado chamou a atenção como parte do relatório da pesquisa “Respeite Meu Terreiro”, divulgado no Seminário Nacional da Rede Nacional de Religiões Afro-Brasileiras e Saúde (Renafro), realizado em Brasília (DF). O levantamento foi realizado em terreiros de todas as regiões do país, que representam diversas tradições religiosas de matriz africana.
Segundo o estudo, 59% dos agressores em casos de racismo religioso são identificados como evangélicos. O dado viralizou nas mídias sociais, o que levou o Bereia a verificar o conteúdo com acesso ao texto do relatório e coleta da avaliação de especialistas.
O que diz o relatório
O Caderno Informativo reúne os resultados da pesquisa “Respeite Meu Terreiro: Racismo religioso contra os povos tradicionais de religiões de matriz africana no Brasil”. O estudo foi idealizado pela Rede Nacional de Religiões Afro-Brasileiras e Saúde (Renafro) em parceria com o terreiro de Candomblé Ilê Omolu Oxum, localizado em São João de Meriti (RJ).
Em sua segunda edição, a pesquisa contou com a participação da Coordenação de Liberdade Religiosa (CGLIB) e da Secretaria de Promoção e Defesa dos Direitos Humanos (SNDH) do Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania (MDHC). Também colaboraram o Grupo de Pesquisa Museologia Experimental e Imagem (MEI) da Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (Unirio), a Defensoria Pública da União (DPU) e o Instituto Raça e Igualdade.
O objetivo central do projeto foi mapear a violência motivada pelo racismo religioso contra comunidades afroreligiosas. O estudo buscou identificar agentes, contextos, padrões das agressões e formas de resistência adotadas pelas lideranças religiosas.
O relatório apresenta análises sobre impactos físicos e emocionais da violência, casos de racismo religioso em ambientes offline e online, perfis dos agressores, locais onde as agressões ocorrem com maior frequência, além de indicadores regionais. O material também reúne propostas de enfrentamento elaboradas pelas próprias lideranças e orientações de denúncia para responsabilização dos autores.
Para o levantamento, foi aplicado um questionário direcionado exclusivamente a líderes religiosos responsáveis por terreiros em atividade. O alcance nacional ocorreu com o apoio de religiosos de todas as regiões do país, da Defensoria Pública do Estado do Rio de Janeiro, do Instituto de Defesa dos Direitos das Religiões Afro-Brasileiras (Idafro) e do Instituto Raça e Igualdade.
O relatório destaca um dos relatos recorrentes entre as lideranças: “Atualmente, temos sido vítimas de uma campanha orquestrada por grupos religiosos, muitas vezes de origem pentecostal, que em alguns casos são associados ao narcotráfico e à milícia.”
Dados alarmantes
O estudo revela que 77% dos terreiros entrevistados sofreram racismo religioso e que 74% das lideranças relataram ameaças ou destruição de casas sagradas. Apesar da gravidade das ocorrências, apenas 26% dos casos foram registrados em boletim de ocorrência, o que aponta dificuldades persistentes no acesso à justiça.
A pesquisa também mostra que:
- 97% dos participantes afirmam saber o que é racismo religioso;
- 80% já foram alvo de atos discriminatórios;
- 52% sofreram racismo religioso na internet;
- Ambientes digitais mais citados como locais de violência: Facebook, Instagram, YouTube, TikTok e X (87%);
- Principais grupos mencionados como agressores: evangélicos (59%), servidores públicos em atendimentos (10%), vizinhos (8%) e usuários de redes sociais (6%);
- 79% dos terreiros possuem perfis nas redes digitais, com predominância do Instagram.

De acordo com a Defensoria Pública da União (DPU), racismo religioso é crime e se caracteriza por desvalorizar ou rejeitar práticas religiosas, seus adeptos, tradições e territórios sagrados com base em preconceito racial ou étnico. A prática expressa discriminação e ódio racial ao afirmar, direta ou indiretamente, que apenas uma religião deve prevalecer sobre as demais.
O Bereia ouviu um pastor evangélico e um pesquisador em Ciências da Religião que atuam no campo religioso, para analisar os dados e compreender diferentes perspectivas sobre o tema.
Conforme o pesquisador do Programa de Pós-Graduação em Ciência da Religiao ds Universidade Federal de Juiz de Fora Cláudio Ribeiro, o caráter conversionista, próprio de segmentos evangélicos, em alguns momentos produziu discursos de tom mais combativo. Porém, eles não se traduziram, historicamente, em atos sistemáticos de violência ou intolerância religiosa.
Esse cenário, no entanto, passou por mudanças significativas na última década. Ribeiro explica que a disseminação de uma cultura de violência e ódio, incentivada por determinados grupos políticos nos últimos dez anos, contribuiu para a radicalização de discursos e práticas. Nesse contexto, a busca por um inimigo, real ou imaginário, tornou-se uma estratégia recorrente de afirmação identitária, especialmente entre grupos que historicamente ocuparam posições minoritárias na sociedade.
Associado a isso, o pesquisador destaca a presença estrutural do racismo no Brasil. Sob influência de uma ideologia política que legitima a violência, parte de grupos evangélicos passou a direcionar ataques mais agressivos contra comunidades de religiões de matriz africana. As manifestações mais graves aparecem nas agressões físicas e na destruição total ou parcial de terreiros.
O pastor batista Julio Oliveira, de São Gonçalo (RJ), que tem atuado no diálogo inter-religioso, realizou uma leitura atenta do relatório. Ao Bereia, o pastor afirmou que o conteúdo lhe causou angústia e dor. Para ele, mesmo com uma prática pastoral e teológica voltada ao enfrentamento da intolerância religiosa e do racismo religioso, os dados apresentados reforçam uma realidade já conhecida por quem acompanha o tema.
Julio Oliveira converge com os resultados da pesquisa, embora considere que o percentual de agressões possa ser ainda maior. Ele atribui essa percepção à diversidade existente entre os grupos evangélicos e às diferentes formas como cada segmento se relaciona com as religiões de matriz africana.
O líder evangélico explica que o protestantismo histórico, que ao longo do tempo passou por processos de pentecostalização e neopentecostalização, deixou de sustentar, em muitos casos, uma teologia e uma liturgia nos moldes denominacionais clássicos. Ainda assim, conforme ele, as igrejas históricas tendem a atuar de maneira mais sutil na demonização das religiões afro-brasileiras, prática que aparece em estudos de escola dominical, pregações, encontros bíblicos e cursos sobre outras religiões.
Em relação ao movimento pentecostal, o pastor avalia que a postura costuma ser mais direta, combativa e aguerrida. Ele ressalta, no entanto, a necessidade de cautela ao tratar do tema e destaca que não é possível generalizar, já que nem todos os segmentos ou lideranças incentivam perseguição ou violência religiosa.
Sobre o neopentecostalismo, Oliveira observa que, embora existam lideranças que respeitam a pluralidade religiosa, parte desse movimento tornou pública sua visão sobre outras crenças, especialmente as religiões de matriz africana. O pastor avalia que essa postura se expressa por meio de programas de rádio e televisão, disputas territoriais e ações em espaços públicos, como orações em ruas e encruzilhadas, acompanhadas de discursos que classificam orixás como demônios.
Julio Oliveira aponta ainda que, em casos mais graves, há violações de espaços sagrados, destruição de objetos religiosos e atuação direta desses grupos em territórios, escolas e espaços de políticas públicas. Para ele, essas práticas vão além do proselitismo religioso e contribuem para a disseminação de uma cultura do medo e da culpa. O pastor afirma que o enfrentamento do racismo religioso exige atenção permanente e que ainda há muitas lutas pela frente diante de um tema urgente e complexo.
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A análise do relatório “Respeite Meu Terreiro” mostra que o dado no qual 59% dos agressores em casos de racismo religioso são identificados como evangélicos consta no levantamento, mas não pode ser lido de forma simplista ou generalizante. O pesquisador e a liderança religiosa, ouvidos pelo Bereia, destacam que o número reflete percepções e relatos de vítimas, inseridos em um contexto marcado por racismo estrutural, disputas simbólicas e radicalização de discursos, sobretudo na última década. A apuração confirma a existência do dado, mas reforça que ele exige leitura contextualizada, distinção entre diferentes segmentos evangélicos e atenção ao alto índice de subnotificação, sob risco de reforçar estigmas e desinformação em um debate que demanda responsabilidade, precisão e compromisso com os direitos humanos.
Referências:
Governo Federal. https://www.gov.br/mdh/pt-br/assuntos/noticias/2025/novembro/mdhc-lanca-pesquisa-201crespeite-meu-terreiro201d-durante-seminario-sobre-envelhecimento-na-matriz-africana. Acesso em 11 de dezembro de 2025.
Caderno informativo: Respeite meu terreiro. https://www.gov.br/mdh/pt-br/navegue-por-temas/liberdade-religiosa/CADERNO_RESPEITEOMEUTERREIRO_pdf.pdf. Acesso em 11 de dezembro de 2025.











