Projeto Comprova encerra terceira fase de projeto colaborativo sobre verificação de conteúdos suspeitos

Nesta sexta-feira, dia 05 de março, o Projeto Comprova concluiu a terceira fase do projeto colaborativo formado por 28 organizações de mídia para verificar conteúdos suspeitos que trafegam pelas redes sociais com alta viralização. O Coletivo Bereia integrou essa fase por meio do projeto Comprova + Comunidades, que integrou oito iniciativas jornalísticas, com as jornalistas Luciana Petersen e Juliana Dias. O grupo recebeu treinamento e apoiou investigações de conteúdos suspeitos sobre a pandemia de covid-19, entre os meses de setembro de 2020 a fevereiro de 2021. 

No total, 78 jornalistas e 14 estagiários de jornalismo participaram da fase 3 do Comprova. Foram publicados 283 relatórios de verificações. Dessas, apenas 8 provaram-se verdadeiras. As demais 275 eram falsas (conteúdo fabricado) ou enganosas (informações descontextualizadas, que confundem ou usam dados imprecisos).

Sete em cada dez investigações do Comprova nessa fase (194 verificações) estavam relacionadas à pandemia. Dois temas se sobressaíram nesse período: conteúdos suspeitos sobre o chamado tratamento precoce e drogas cuja eficiência contra a covid-19 não foi comprovada, caso de cloroquina e ivermectina, somaram 52 investigações; e 46 boatos sobre vacinas foram investigados pelos jornalistas do Comprova, com maior incidência nas últimas semanas.

Sobre esse tema, o Bereia colaborou também com as verificações que envolveram o contexto religiosos, entre elas, Informações sobre ivermectina divulgadas por Silas Malafaia são enganosas e É enganoso post no Facebook sobre morte de médico por covid-19 após tomar a vacina.

Conteúdos suspeitos sobre políticas públicas relacionadas ao governo federal também foram investigados. Na fase 3, o número de investigações chegou a 61 verificações, a maior parte delas ligadas a políticas de infraestrutura e meio ambiente. Dentre as verificações que o Bereia participou sobre esse tema, destacamos a de um vídeo que engana ao atribuir a Bolsonaro obras em estradas do Mato Grosso feitas também por outros governos, que foi divulgado por uma pastora em no Pará.

Nesse período também contamos com o apoio da assessoria de comunicação do Grupo de Trabalho (GT) Multidisciplinar de enfrentamento à covid-19 da UFRJ, com indicações de especialistas para as verificações sobre a pandemia.

“Fazer parte do Comprova + Comunidades foi uma experiência transformadora, pude aprender amais sobre combate à desinformação com as metodologias e os profissionais do Comprova e sentir que fizemos a diferença combatendo tantas mentiras, especialmente a respeito da pandemia”, conta Luciana.

Para Juliana, a participação no Comprova, representando o Bereia, foi uma experiência importante em sua trajetória como pesquisadora na área da desinformação e jornalista que atua com verificação de conteúdos suspeitos.

“O trabalho colaborativo com jornalistas de diferentes Brasil e com os editores do projeto contribuíram para meu aprendizado sobre o processo crítico e criterioso que envolve as etapas de uma verificação. Formamos uma equipe que só se conheceu virtualmente para trabalhar durante seis meses num ambiente de solidariedade, companheirismo e profissionalismo em que compartilhamos experiências, conhecimentos e os desafios de atuar com checagem de informações. Agradeço ao Bereia, a parceria Luciana e ao Comprova por essa oportunidade incrível”, declara Juliana.

O Projeto Comprova é uma iniciativa colaborativa cuja redação foi coordenada pelos editores Sérgio Lüdtke, José Antônio Lima, Helio Miguel Filho e David Michelsohn.

Para conhecer o projeto acesse o site oficial clicando aqui.

É falso que EUA estejam distribuindo ivermectina e leite condensado a vacinados

*Investigado por Luciana Petersen e Juliana Dias, do Coletivo Bereia, em parceria com Amazônia Real e Marco Zero Conteúdo. Verificação por Estadão, UOL, Correio, Poder 360 e NSC Total. Publicado originalmente no Comprova.

Em vídeo compartilhado em grupos de WhatsApp e no Facebook, um homem, que se apresenta como um brasileiro de mais de 50 anos que acabara de se vacinar, afirma que o governo de Joe Biden está distribuindo ivermectina e leite condensado para quem for vacinado contra a covid-19 nos EUA. Essa afirmação é falsa.

Usando ferramentas de verificação de imagens, o Comprova descobriu o lugar onde foi realizada a gravação, um condomínio em Miami Beach, e entrou em contato com a prefeitura de Miami, responsável pela vacinação no local. A administração da cidade norte-americana informou que o vídeo se trata de uma farsa, que não há distribuição de ivermectina ou leite condensado e que a faixa etária para grupo de risco é acima de 65 anos.

Instituto Nacional de Saúde dos Estados Unidos, em suas diretrizes sobre o tratamento da covid-19, não recomenda o uso de agentes como a hidroxicloroquina e a ivermectina contra a doença e informa que ainda não há dados suficientes para a recomendação do uso da ivermectina no tratamento da doença.

A agência reguladora dos Estados Unidos, a Food and Drug Administration (FDA), equivalente à Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária), informa em seu site que embora existam usos aprovados para ivermectina, a droga não foi aprovada para a prevenção ou tratamento da covid-19.

No final do vídeo, de quase seis minutos, o homem diz “desculpa aí a brincadeira”, dando a entender que se trata de uma peça de humor. Mas como o Comprova não conseguiu contato com o autor do vídeo e muitas das páginas que o reproduziram levaram o conteúdo a sério, consideramos o conteúdo como falso.

Como verificamos?

Inicialmente, buscamos informações sobre o autor da postagem no Facebook e o homem que aparece no vídeo.

Para identificar o local onde o video foi gravado, foi feita uma captura de tela do vídeo verificado para começar a busca do local de gravação. Depois, utilizamos o aplicativo do Google Fotos e uma das ferramentas disponíveis para o usuário, o Google Lens, que oferece a possibilidade de selecionar um pedaço da foto para fazer uma busca mais detalhada.

Utilizando essa ferramenta, chegamos ao campo de pesquisa do Google Imagens, que trouxe uma foto que se assemelhava muito ao local onde fora feito o vídeo verificado.

O resultado da busca era uma imagem com o detalhe da fachada do prédio que nos permitiu identificar a construção.

Abaixo da imagem, havia o nome do lugar – North Beach Senior Center / Unidad of Miami Beach – com um link que nos levou para um site que exibia novamente a mesma fachada, mas agora ampliada. A foto trazia, no entanto, a inscrição “ em breve” (coming soon em inglês), o que poderia indicar se tratar apenas de uma imagem feita no computador.

Uma busca semelhante no Google retornava, no entanto, um texto informando sobre a inauguração deste centro, em julho de 2010.

Na sequência, tomamos dois caminhos. Primeiro, buscamos no Google Maps o endereço disponível na imagem: 7251 Collins Ave, Miami Beach, FL 33141, EUA. Utilizando a ferramenta do Google Street View, encontramos o prédio, mas a partir de um local mais distante.

Fotos do local disponíveis no Google Street View traziam, no entanto, indícios de que realmente era esse o prédio.

O Google Street View mostrou, também, que havia uma longa faixa de areia bem à frente do condomínio. Isso era consistente com o reflexo nos óculos escuros do homem responsável pelo vídeo, que aparentava mostrar areia.

Em paralelo, jogamos no Google o nome do local e chegamos ao site da Plaza Constructions, uma construtora com sete escritórios nos Estados Unidos. No site da construtora é possível ver uma série de imagens do empreendimento, mas de ângulos que não permitiam uma confirmação com certeza a respeito do local da gravação.

O site da construtora trazia, no entanto, uma outra informação importante, o nome do escritório responsável pelo projeto – Rene Gonzalez Architects. No Google, encontramos a página do escritório no Instagram e, buscando nas imagens disponíveis, encontramos uma imagem do local publicada em 13 de março de 2020, que mostra a fachada e traz elementos que permitem a confirmação do prédio como sendo aquele em que a pessoa no vídeo estava.

A imagem abaixo mostra as diversas imagens que encontramos e a comparação com as capturas de tela do vídeo verificado:

Consultamos também o site da Itambé, marca do leite condensado exibido no vídeo, e entramos em contato com o departamento de marketing da indústria, para confirmar se o produto é exportado para os Estados Unidos.

Por fim, entramos em contato com o departamento de comunicação e marketing da prefeitura de Miami, que nos retornou informando que o vídeo se trata de uma farsa, que não há distribuição de ivermectina e que a faixa etária para grupo de risco é acima de 65 anos.

O Comprova fez esta verificação baseado em informações científicas e dados oficiais sobre o novo coronavírus e a covid-19 disponíveis no dia 9 de fevereiro de 2020.

Verificação

Houve vacinação no local em que o vídeo foi gravado?

Apesar do local não fazer parte da lista de postos de vacinação informados pelo governo da Flórida, uma busca no Instagram revelou que o prédio da uma localização nomeada como “UNIDAD of Miami Beach (Senior Employment Program) realmente foi usado para essa finalidade pela prefeitura de Miami.

Nas imagens mais recentes, é possível encontrar uma foto que mostra bombeiros de Miami vacinando pessoas. A imagem foi postada por Michael C. Gongora, commissioner (o equivalente a vereador, representa um distrito determinado nas comissões que administram os condados nos Estados Unidos) de Miami Beach.

Ao divulgar a mesma coleção de fotos, o Twitter de Gongora, marcou diversas contas que divulgam notícias de Miami. Uma delas era a @MiamiBeachNews, conta oficial da cidade de Miami Beach. Um dos tweets divulgados por esta conta nos levou a um vídeo de 6 minutos postado em 1º de fevereiro por Dan Gelber, prefeito da cidade. Aos 2min40s, Gelber destaca que o posto de vacinação no “Unidad” foi montado pela prefeitura comandada por ele.

Por email, Melissa Berthier, uma das responsáveis pelo departamento de comunicação e marketing da prefeitura de Miami Beach, confirmou que a cidade está realizando a vacinação, com o imunizante da Moderna, e informou que não há distribuição de ivermectina ou leite condensado pela prefeitura da cidade. Além disso, ela destacou que o suprimento de vacinas é limitado e que, portanto, apenas pessoas com mais de 65 anos estão sendo vacinadas no momento.

Os EUA com Biden anunciaram o chamado “tratamento precoce” com ivermectina e cloroquina?

Segundo as últimas atualizações das diretrizes do Instituto Nacional de Saúde dos Estados Unidos publicadas no dia 14 de janeiro de 2021, sobre o uso de ivermectina para o tratamento da covid-19, os estudos realizados com a ivermectina em pacientes infectados se mostraram inconclusivos e foi determinado que não há dados suficientes para recomendar a favor ou contra o uso de ivermectina para o tratamento da doença.

Assim como a FDA avisa em seu site que “embora existam usos aprovados para a ivermectina em pessoas e animais, ela não está aprovada para a prevenção ou tratamento de covid-19. Você não deve tomar nenhum medicamento para tratar ou prevenir covid-19, a menos que tenha sido prescrito por seu médico e obtido de uma fonte legítima”.

No site criado especificamente para informar sobre a pandemia, o estado da Flórida também não indica a ivermectina ou qualquer outro medicamento como tratamento precoce em caso de infecção pelo vírus. O medicamento sequer é mencionado na página.

Leite condensado, kiwi e uvas

No vídeo o homem afirma que o “novo protocolo do novo presidente dos EUA, que é o Biden” inclui a entrega de um kit com uma marmita com camarão, além de frutas como kiwi e uva. Na sequência, o homem mostra a marmita, sem mostrar seu conteúdo, e diz que, com a marmita, veio uma caixinha do “ivermedicina, o remédio do Bolsonaro”. A caixa do remédio é, no entanto, um genérico de fabricação brasileira.

O homem diz que, após receber a vacina, foi chamado por um oficial das Forças Armadas (ele menciona que havia militares do Exército, da Marinha e da Aeronáutica na sala de vacinação) que lhe entregou o brinde. Ele exibe também, como sendo um dos itens do kit, uma lata de leite condensado da Itambé com rótulo bilíngue, com inscrições em português e em inglês. Segundo o site da Itambé, a marca exporta o produto regularmente para os Estados Unidos e pode ser comprado com facilidade pela Amazon ou em lojas especializadas em produtos brasileiros.

Por que investigamos?

Em sua terceira fase, o Comprova investiga conteúdos duvidosos relacionados às políticas públicas do governo federal e à pandemia do novo coronavírus, que tenham alcançado grande repercussão nas redes sociais.

O vídeo sobre o suposto kit de ivermectina e leite condensado, oferecido após a vacinação em um posto de Miami, nos Estados Unidos, foi compartilhado no WhatsApp e em milhares de páginas, grupos e perfis do Facebook. Segundo a ferramenta de monitoramento CrowdTangle, o vídeo teve mais de 736 mil visualizações até o dia 9 de fevereiro. Uma das páginas que publicou o vídeo, cujo post foi compartilhado 24 mil vezes, acrescentou um texto fazendo referência ao presidente Jair Bolsonaro: “veja nesse vídeo pq o homem (presidente) mais uma vez tem razão!!”

Apesar do conteúdo apresentar elementos de uma sátira, o vídeo foi compartilhado por muitas páginas como informação verdadeira. E como o Comprova não localizou o homem que aparece na gravação para apurar a intenção do autor, considerou as informações apresentadas na gravação como falsas.

Falso, para o Comprova, é um conteúdo inventado ou que tenha sofrido edições para mudar o seu significado original e divulgado de modo deliberado para espalhar uma mentira.

Esta verificação contou com o apoio de estudantes de jornalismo do programa de estágio Comprova/FAAP.

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Vídeo atribui a Bolsonaro obras em estradas no MT feitas também por outros governos

 Projeto Comprova on 25 de fevereiro de 2021

*Investigado por Luciana Petersen e Juliana Dias, do Coletivo Bereia, em parceria com Estadão, Amazônia Real, A Gazeta e Alma Preta. Verificado por UOL, Rádio Noroeste, Correio e Poder 360. Publicado originalmente no Comprova.

Em vídeo publicado no Facebook, um caminhoneiro diz que está numa estrada asfaltada que liga Comodoro, no Mato Grosso, a outros quatro municípios do estado e que isso seria obra do governo Bolsonaro. Ele diz também que os caminhoneiros precisam propagar, porque “a mídia não vai divulgar o que o presidente está fazendo”. O vídeo, que já foi compartilhado 56 mil vezes desde sua publicação em 29 de agosto de 2020 no perfil de uma pastora da Assembleia de Deus que mora no Pará, é enganoso.

O trajeto mencionado pelo narrador tem cerca de 582 km e usa três rodovias, somente uma delas federal, a BR-364. E, embora alguns trechos tenham recebido obras de restauração durante o governo Bolsonaro, a pavimentação já havia sido feita bem antes do atual presidente ser empossado.

Procurado pelo Comprova, o Departamento Nacional de Infraestrutura e Transportes (DNIT) informou que, em 2020, foram restaurados 78,8 quilômetros da BR-364/MT, com investimento de R$ 37 milhões, mas não precisou quando os trechos mencionados no vídeo foram pavimentados. O órgão argumentou que, como uma rodovia nunca é entregue ao tráfego de uma só vez, não tem o histórico. “Os trechos são pavimentados ao longo de muitos anos. Esta rodovia, especificamente, tem 4.141,5 km de extensão, com início em Limeira (SP) e final na fronteira com o Peru”, descreveu o órgão, na nota.

O Comprova encontrou registros da pavimentação nos trechos mencionados no vídeo. O Diário de Cuiabá já mencionava obras de pavimentação da BR-364 na região em 2001. Outra notícia, publicada em 2006 no site do governo de Mato Grosso, relata a inauguração de três trechos da estrada, entre Comodoro e Diamantino, da qual participaram o então presidente Lula e o governador do MT à época, Blairo Maggi.

As rodovias MT-170 e MT-235, que estão no trajeto entre Comodoro e Juína, são estaduais. O governo do Mato Grosso afirmou que realizou obras de restauração de 75,5 quilômetros entre o entroncamento da MT-249 até o município de Campo Novo do Parecis.

O Comprova entrou em contato com a pastora Agricola Neta de Aquino Carrera, autora da primeira postagem do vídeo no Facebook. Ela reside na cidade paraense de Ananindeua, localizada ao norte de Belém. Em entrevista por WhatsApp, ela contou que recebeu o vídeo de um caminhoneiro que conheceu em um grupo de Facebook e que ele seria o autor. Agricola, no entanto, diz não lembrar do nome, que já teria apagado o registro e a gravação de seu celular e que não tem certeza da veracidade do conteúdo, pois apenas compartilhou o vídeo.

Como verificamos?

Entramos em contato com as prefeituras das cidades citadas, com o governo do estado do Mato Grosso e com o Departamento Nacional de Infraestrutura e Transportes (DNIT).

Analisamos as imagens para verificar se as placas poderiam auxiliar  na identificação dos trechos mostrados da gravação, com ajuda do Google Maps e outras ferramentas.

Utilizamos o Google Maps para ver se os trechos citados no vídeo conferiam com o posicionamento do governo de Mato Grosso.

Com os locais informados e identificando alguns elementos no vídeo que pudessem auxiliar na localização em que a gravação foi realizada, como a ponte com placas pela qual o motorista passa, próximo a um campo aberto, chegou-se a um possível local no Google Maps e confirmando que o vídeo foi gravado na BR-364.

Captura de um trecho do vídeo 

Captura do Google Maps da ponte sobre o Rio Juína, na BR-364

Captura de um trecho do vídeo, após o motorista passar pela ponte

Captura do Google Maps do trecho logo após a ponte sobre o Rio Juína, na BR-364

Verificação

O vídeo verificado mostra um homem dirigindo e exibindo uma estrada à sua frente. Ele afirma que a rodovia é obra da administração de Jair Bolsonaro e faz agradecimentos à gestão, citando também o ministro da Infraestrutura, Tarcísio Gomes de Freitas. O homem menciona ainda que a estrada garante acesso do município de Comodoro até Campos de Júlio, Sapezal, Campo Novo e Juína, todos no estado do Mato Grosso. Na legenda, o post critica a imprensa por não mostrar a obra, e reforça que Bolsonaro está garantindo auxílio e fortalecendo o agronegócio.

As estradas

Para ir de Comodoro a Juína, passando por Campos de Júlio, Sapezal e Campo Novo, municípios citados no vídeo, é necessário utilizar três rodovias, uma delas federal e as outras duas, estaduais.

O trajeto entre Comodoro e Campos de Júlio é feito pela BR-364 e tem 74 km.

Para ir de Campos de Júlio a Sapezal são 57 km, também pela BR-364.

De Sapezal a Campo Novo do Parecis são 108 km feitos pela MT-235.

De Campo Novo a Juína são 344 km e para fazer esse trajeto, o motorista deve transitar por 242 km da MT-170 e outros 103 km da BR-364.

É possível conferir o mapa clicando aqui.

O que dizem os governos

Em contato com os governos estadual e federal, o Comprova confirmou que houve obra de recuperação em 2020 em trechos citados no vídeo, mas as intervenções não foram feitas exclusivamente pela administração de Bolsonaro.

O DNIT informou, em nota, que o trecho da BR-364 tem um serviço de manutenção contratado por licitação, que realiza as obras à medida que surgem demandas para garantir condições de trafegabilidade e segurança. E que, quando o contrato está próximo de ser encerrado, é realizado outro processo de licitação para sempre ter uma empresa responsável pelos trechos das rodovias sob sua administração. A rodovia federal é uma das estradas que liga as cidades de Comodoro, Campos de Júlio, Sapezal, Campo Novo e Juína, citadas no vídeo. Em 2020, foram realizadas obras de restauração de 78,8 km da BR-364/MT, com investimentos de R$ 37 milhões.

Questionado sobre a pavimentação da estrada, o DNIT informou que, como uma rodovia nunca é entregue ao tráfego de uma só vez, não tem o histórico. “Os trechos são pavimentados ao longo de muitos anos. Esta rodovia, especificamente, tem 4.141,5 km de extensão, com início em Limeira [SP] e final na fronteira com o Peru”, descreveu o órgão, na nota.

Já entre Sapezal e Campo Novo do Parecis a rodovia é a MT-235, sob responsabilidade do governo de Mato Grosso. A administração estadual afirmou em nota, que nessa rodovia foi realizada a restauração de 75,5 km do entroncamento da MT-249 até o município de Campo Novo do Parecis. Os serviços foram entregues em maio de 2020, com investimento de  R$ 4,34 milhões. A MT-235 foi pavimentada em 2009, na gestão do então governador Blairo Maggi (2003-2010).

Quem é a autora da publicação

Agricola Neta de Aquino Carrera tem 47 anos, é pastora da Assembleia de Deus no Pará e foi candidata a vereadora em 2020 pelo Partido Renovador Trabalhista Brasileiro (PRTB),  do vice-presidente Hamilton Mourão, na cidade de Ananindeua, no Pará.

Em entrevista por WhatsApp, ela contou ao Comprova que um caminhoneiro em um grupo de Facebook do Mato Grosso do Sul pediu apoio para compartilhar o vídeo. A pastora garante que foi o próprio autor quem enviou o vídeo para o seu celular. Mas ela não lembra o nome do homem e apagou os registros do aparelho.

Perguntada se poderia confirmar a veracidade do conteúdo que publicou, ela disse não ter certeza, pois apenas compartilhou o vídeo.

Por que investigamos?

Em sua terceira fase, o Comprova verifica conteúdos duvidosos sobre Covid-19 e políticas públicas do governo federal que tenham grande potencial de viralização.

O vídeo verificado pelo Comprova foi publicado em agosto de 2020 por um perfil pessoal no Facebook. Desde então foi compartilhado 56 mil vezes. Recentemente foi compartilhado pelo grupo de Facebook Fechados com Bolsonaro 2022 e nele alcançou 5,8 mil curtidas e 3,2 compartilhamentos na rede social.

O Comprova já fez verificações anteriores a respeito de publicações sobre obras e outros possíveis feitos por parte do governo federal, como sobre uma obra na rodovia Transamazônica durante o governo Bolsonaroimagens antigas com obras atribuídas ao presidente e fotos fazendo uma comparação da situação da rodovia BR-163 nos governos petistas e no atual.

Enganoso, para o Comprova, é o conteúdo que confunde, com ou sem a intenção deliberada de causar dano.

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Foto de Capa: Projeto Comprova/Reprodução

Postagem usa vídeo de 2018 para afirmar que idosa morreu após tomar vacina

*Investigado por Luciana Petersen e Juliana Dias, do Coletivo Bereia, em parceria com Marco Zero Conteúdo e Estadão. Verificado por Jornal do Commercio, Rádio Band News, Rádio Noroeste e Correio. Publicado originalmente no Comprova.

É enganoso um vídeo publicado no Facebook que sugere que uma idosa morreu após ser vacinada contra a covid-19. A postagem usa somente um trecho de uma reportagem, veiculada na TV Record em 2018, com a legenda “mulher morre imediatamente depois da vacina”. A matéria trata da morte de uma mulher de 71 anos por infarto, após a vacinação contra a gripe Influenza A (H1N1), naquele mesmo ano (e antes do surgimento da covid-19), na cidade de Goiânia (GO).

O vídeo que viralizou nesta semana corta propositalmente os trechos em que as palavras “gripe” e “H1N1” são mencionadas.

A matéria original foi veiculada em 18 de abril de 2018, e em determinado momento da reportagem, a então coordenadora de imunização da Secretaria Municipal de Saúde de Goiânia, Grécia Pessoni, ressalta que o laudo de óbito não indica relação entre a morte da idosa e a vacina contra a gripe. “A suspeita é de um infarto agudo do miocárdio”, disse à equipe de TV. Em outra reportagem, um membro da família também descarta a correlação.

Como verificamos?

Analisando o vídeo, notamos que as pessoas não utilizam máscara na rua nem no posto de saúde, dando a impressão de que se trata de um material antigo. Para verificar a data do vídeo, o Comprova foi atrás do conteúdo original e de outras notícias que tratassem sobre o mesmo caso.

Algumas informações disponíveis no vídeo são o sobrenome da vítima, “Batista da Silva”, narrado pelo jornalista no começo do vídeo, e o bairro “Ville de France”, que também aparece na placa do posto de saúde.

Ao buscar no Google os termos “batista da silva ville de france”, o Comprova encontrou uma notícia do Jornal Opção de 19 de abril de 2018 como quinto resultado.

Na notícia, conseguimos mais informações sobre o caso, como o nome completo, “Maria Batista da Silva”, a data e a informação de que o óbito teria ocorrido após a vacinação contra H1N1.

Outra informação disponível no vídeo é a tarja animada da matéria, em azul na parte inferior do vídeo: “Outra mulher morreu depois de tomar vacina”. Procurando pela frase no YouTube, o primeiro resultado é o vídeo completo no canal da Record TV Goiás.

Vídeo editado

Nota-se que o vídeo original tem 4:40 minutos de duração, e o que viralizou, 2:47 minutos. Comparando as duas versões, notamos que o vídeo foi editado para excluir referências à vacina contra H1N1 e informações sobre o laudo de óbito de Maria Batista da Silva, que indica morte por infarto.

O Comprova ainda entrou em contato com a autora da postagem por meio do Messenger do Facebook, mas não obteve retorno.

O Comprova fez esta verificação baseado em informações científicas e dados oficiais sobre o novo coronavírus e a covid-19 disponíveis no dia 4 de fevereiro de 2020.

Verificação

reportagem original foi exibida pela Record TV Goiás em 18 de abril de 2018, e está disponível no canal da emissora no YouTube. A matéria trata da morte de Maria Batista da Silva, aos 71 anos, por infarto, após a vacinação contra a gripe Influenza A (H1N1), em 2018. Não há, portanto, relação com a vacina contra o coronavírus, como tenta indicar o vídeo que viraliza no Facebook.

Em reportagem do jornal O Popular, de 20 de abril de 2018, o filho de Maria Batista da Silva, Paulo Henrique da Silva, afirmou que não associava a morte da mãe ao fato dela ter tomado o imunizante. Segundo ele, a mãe se vacinava todos os anos e não apresentava reações. “A vacina é de extrema importância”, afirmou na época.

No vídeo completo da TV Record, a então coordenadora de imunização da Secretaria Municipal de Saúde de Goiânia, Grécia Pessoni, ressalta que o laudo do Serviço de Verificação de Óbito (SVO) não indica relação entre a morte de Maria Batista da Silva e a vacina contra a gripe. “A suspeita é de um infarto agudo do miocárdio”, disse.

Por que investigamos?

Em sua terceira fase, o Comprova investiga conteúdos duvidosos relacionados às políticas públicas do governo federal e à pandemia do novo coronavírus. É importante investigar conteúdos duvidosos sobre vacinação e pandemia, pois é justamente o trabalho da ciência que garante a erradicação de doenças e a preservação da vida.

Compartilhamentos como este visam desacreditar a vacinação ao redor do mundo, colocando em xeque a eficácia das vacinas, cientificamente comprovadas no caso de Moderna, Pfizer/BioNTech, AstraZeneca/Oxford e CoronaVac. Até o fechamento da publicação, a conta que publicou o vídeo fora de contexto teve mais de 43 mil compartilhamentos de uma única postagem.

Enganoso, para o Comprova, é o conteúdo retirado do contexto original e usado em outro de modo que seu significado sofra alterações.

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Foto de Capa: Projeto Comprova/Reprodução

É falso que eficácia da CoronaVac seja apenas 0,38% superior ao placebo

*Verificado por Luciana Petersen e Juliana Dias, do Coletivo Bereia, em parceria com Estadão, Rádio Noroeste, Jornal do Commercio e NSC Comunicação. Investigado por Correio e Favela em Pauta. Publicado originalmente no Comprova.

É falso que a CoronaVac, vacina desenvolvida pelo Instituto Butantan, em São Paulo, em parceria com a chinesa Sinovac, tenha eficácia contra a covid-19 apenas 0,38% superior ao placebo. A eficácia da vacina, na verdade, é 50,38% superior à do placebo – mesmo dado da eficácia geral, divulgada no último dia 12 de janeiro pelo Butantan.

A informação de que a vacina seria apenas 0,38% superior ao placebo consta em um tuíte publicado no último dia 14 de janeiro, sugerindo que não há diferença significativa entre a vacina e o placebo, o que não é verdade.

A eficácia da vacina é calculada levando em conta o quanto de efeito ela provoca a mais do que o placebo, que tem eficácia zero na proteção contra o vírus. Ou seja: se a eficácia geral da CoronaVac foi de 50,38%, significa que ela teve 50,38% mais efeito do que o placebo administrado nos participantes dos testes da fase 3.

No caso da CoronaVac, os testes foram feitos em 9.242 participantes, todos profissionais de saúde que trabalham na linha de frente do combate à covid-19. Destes, 4.653 receberam a vacina e outros 4.599 receberam o placebo. No primeiro grupo, o dos vacinados, 85 pessoas adoeceram, enquanto no segundo, que receberam placebo, 167 contrairam a doença.

Além da eficácia global, os testes com a CoronaVac alcançaram outros percentuais secundários de eficácia: 78% para casos leves, em que a pessoa precisa de assistência médica, e nenhum dos que receberam as doses da vacina nos testes da fase 3 apresentou casos moderados a graves em que o paciente precisa de hospitalização e, em alguns casos, de internação em leito de UTI. Isso geraria um índice de 100% de eficácia contra casos graves, mas o próprio Instituto Butantan indicou que, como são poucos casos registrados nesse critério, mais observações precisam ser feitas.

Como verificamos?

Primeiramente, entramos em contato com o Instituto Butantan, para que explicasse como a eficácia da vacina é calculada em relação ao placebo.

Em seguida, ouvimos Luiz Gustavo Almeida, doutor em Microbiologia pelo Instituto de Ciências Biomédicas da USP e diretor do Instituto Questão de Ciência (IQC), Rafael Dhalia, doutor em biologia molecular e especialista em desenvolvimento de vacinas de DNA pela Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), e o biomédico e mestre em microbiologia Mateus Falco, integrante da Rede Análise Covid-19.

Por fim, consultamos reportagens que explicam o que é a eficácia de uma vacina e como ela se aplica à CoronaVac. Também procuramos a autora do tuíte, identificada na rede social como Paula Marisa, mas não obtivemos resposta até a publicação desta checagem.

O Comprova fez esta verificação baseado em informações científicas e dados oficiais sobre o novo coronavírus e a covid-19 disponíveis no dia 20 de janeiro de 2021.

Verificação

Eficácia da vacina é 50,38% superior à do placebo

É equivocada a afirmação, feita no tuíte verificado, de que a CoronaVac é apenas 0,38% mais eficaz do que o placebo. Especialistas ouvidos pelo Comprova explicam que ela é 50,38% superior ao placebo, que tem eficácia zero em proteger contra a covid-19. Por e-mail, o Instituto Butantan, em São Paulo, nos encaminhou o relatório da pesquisa simplificado, apresentado na coletiva de imprensa que divulgou a eficácia da vacina e reafirmou, por telefone, que a eficácia dela é 50,38%, enquanto o placebo tem efeito zero de proteção contra a covid-19.

De acordo com resolução da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), o placebo é uma “formulação sem efeito farmacológico, administrada ao participante do ensaio clínico com a finalidade de mascaramento ou de ser comparador”.

Luiz Gustavo Almeida, doutor em Microbiologia pelo Instituto de Ciências Biomédicas da USP e diretor do Instituto Questão de Ciência (IQC), explica que, nos estudos clínicos para medicamentos ou vacinas, é sempre medido qual o efeito a mais que eles provocam em relação ao verificado sobre o grupo placebo.

No caso da CoronaVac, o placebo tinha uma série de substâncias, mas não o vírus inativado usado na vacina. De uma forma simplificada, pode-se dizer que o placebo não tinha justamente aquilo que era necessário para que o sistema imunológico produzisse anticorpos contra o coronavírus.

Ou seja, mesmo que não seja uma substância totalmente inerte, a eficácia do placebo é zero, porque não tem um princípio ativo capaz de proteger as pessoas do vírus. “A vacina CoronaVac tem 50,38% de eficácia em relação ao placebo, ou seja, o placebo tem 0%, portanto a diferença é de 50,38% e não 0,38%, como comentado”, explica Rafael Dhalia, doutor em biologia molecular e especialista em desenvolvimento de vacinas de DNA pela Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz).

Por que não é possível dizer que a diferença é de 0,38%?

Para que a eficácia da CoronaVac fosse apenas 0,38% superior à do placebo, seria necessário partir do pressuposto de que cada um dos grupos tem uma eficácia de 50% – e que a vacina teria, após os testes, conseguido ‘avançar’ apenas 0,38% em relação ao placebo, alcançando uma eficácia de 50,38%. Seria como dizer que a proteção seria como um jogo de cara ou coroa.

Isso não faz sentido a partir do momento em que se compreende que o placebo não tem qualquer eficácia em proteger as pessoas contra a covid-19. Se ele tem uma eficácia de 0%, a vacina, obviamente, é 50,38% superior a ele.

Especialistas ouvidos pelo Comprova explicam que, durante os testes, é feito um cálculo de risco de se contrair a doença a partir do número de pessoas que adoeceram no grupo vacina e no grupo placebo, de forma proporcional.

A partir desses resultados é que é calculada a eficácia da vacina, que aponta o quanto ela teve mais sucesso em imunizar as pessoas de seu grupo do que o placebo administrado no outro grupo. A única coisa aleatória nesse processo, explica o biomédico e mestre em microbiologia Mateus Falco, integrante da Rede Análise Covid-19, é a escolha sobre quem vai participar do grupo vacina e quem vai para o grupo placebo.

“Não tem como você comparar dois grupos e falar que você jogou uma moeda para cima para selecionar aquele que se infectou ou não. Você pode jogar uma moeda para cima para saber quem vai ficar em cada grupo [placebo ou vacina], mas não para dizer quem se infectou, isso não existe”, afirma.

O que significa o resultado da eficácia da CoronaVac

No último dia 12 de janeiro, o Instituto Butantan informou que a CoronaVac tinha uma eficácia geral de 50,38%. O Instituto Butantan explica que a taxa geral de eficácia de 50,38% se aplica em pacientes que tenham sintomas muito leves e não dependem de suporte médico.

“O estudo verificou que a menor taxa foi registrada em casos de infecções muito leves, considerados score 2 e verificados em pacientes que receberam placebo. De uma amostragem de 9,2 mil participantes, 85 dos casos muito leves foram de pessoas que receberam vacina, e 167 em voluntários que tomaram placebo” apontam o Instituto e o Governo de São Paulo, em comunicado oficial.

A mesma taxa de eficácia vai aumentando de acordo com o agravamento dos sintomas e do quadro clínico: em pacientes leves – que precisam de ajuda e suporte médico -, a taxa de eficácia foi de 78%. Para os casos moderados e graves, que precisaram de internação, a taxa de eficácia foi de 100% – nenhum dos voluntários que recebeu a vacina desenvolveu quadros moderados a graves da doença, enquanto no grupo placebo, sete pessoas tiveram quadros assim. Como mencionado acima, no entanto, este resultado ainda não tem significância estatística e precisa ser confirmado com mais observações.

“É importante reforçar que essa eficácia diz que 50,38% dos vacinados estão totalmente protegidos em relação à contrair SARS-Cov-2, ou seja pegar a covid-19. Os outros 49,62%, apesar de poderem contrair a doença, também desenvolvem anticorpos. Desses, 78% ficaram protegidos de evoluírem para as formas mais severas e nenhum deles, 100%, foram à óbito”, explica Rafael Dhalia.

Nesta reportagem publicada pelo CORREIO, especialistas explicam que há uma série de variantes que influenciam no resultado da eficácia de uma vacina, inclusive o ambiente em que ela foi testada. A CoronaVac mostrou-se uma vacina segura em ambientes de alto risco, já que foi testada apenas em profissionais de saúde na linha de frente de combate à doença.

Além disso, a eficácia da vacina é utilizada para definir uma estratégia de vacinação: quanto maior a eficácia, menor o número de pessoas que precisará ser vacinada para se alcançar uma imunidade coletiva.

Por que investigamos?

Em sua terceira fase, o Comprova investiga conteúdos duvidosos relacionados às políticas públicas do governo federal e à pandemia do novo coronavírus que tenham grande alcance nas redes sociais. O conteúdo que motivou esta verificação teve, até o fechamento desta reportagem, 4,1 mil compartilhamentos no Twitter e 19 mil no Facebook.

O post que sugere que a vacina é apenas 0,38% superior ao placebo teve mais de 5 mil interações no Twitter em uma semana. Conteúdos como esse são prejudiciais porque ajudam a disseminar a falsa informação de que a vacina não é eficaz ou que não faz diferença tomar ou não o imunizante, enquanto especialistas trabalham para mostrar que a vacinação é a saída para a crise que o mundo vive atualmente com a pandemia.

Falso, para o Comprova é, conteúdo inventado ou que tenha sofrido edições para mudar o seu significado original e divulgado de modo deliberado para espalhar uma mentira.

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Foto de Capa: Projeto Comprova/Reprodução

Distribuição em massa de ivermectina não está ligada aos números da covid-19 na África

*Verificado por Luciana Petersen e Juliana Dias, do Coletivo Bereia, em parceria com Estadão, Correio, GauchaZH e Rádio Noroeste. Investigação por Alma Preta, Niara, NSC Comunicação e Rádio Band News. Publicado originalmente no Comprova.

É enganoso relacionar a incidência relativamente baixa da covid-19 em alguns países africanos com a distribuição de ivermectina para o tratamento de doenças causadas por parasitas. A sugestão foi feita pelo presidente Jair Bolsonaro em um tuíte, no dia 5 de janeiro.

Apesar dos números relativamente mais baixos de casos de coronavírus nos países do continente africano – sobretudo na comparação com os registros na Europa e nas Américas -, especialistas descartam qualquer relação com o uso de ivermectina. Para a própria Organização Mundial da Saúde, os resultados positivos no combate à pandemia podem ser atribuídos às medidas de distanciamento físico e social e à ampliação da capacidade do sistema de saúde.

Outros fatores, como a experiência com epidemias, o fato da circulação de pessoas entre o continente e outras partes do mundo ser menor e a idade média mais baixa da população, também são apontados como possíveis influenciadores nos níveis da covid-19. Além disso, em vários países africanos, há a possibilidade de subnotificação dos casos do novo coronavírus.

O Programa Africano para Controle da Oncocercose (APOC, na sigla em inglês), de fato distribuiu milhões de doses de ivermectina para o tratamento da doença também conhecida como “cegueira do rio” em alguns países africanos, mas a iniciativa, mencionada na postagem, foi interrompida em 2015. No ano seguinte, outro programa da Organização Mundial da Saúde (OMS), o Projeto Especial Expandido para Eliminação de Doenças Tropicais Negligenciadas, passou a distribuir a ivermectina e outros medicamentos para o combate a outras doenças comuns no continente e em outras partes do mundo. Em 2019, ano anterior à pandemia da covid-19, 152,9 milhões de pessoas receberam tratamento com ivermectina em países da África – em meio a uma população de mais de 1,3 bilhões de pessoas. A droga, porém, não tem eficácia comprovada contra o novo coronavírus. A própria OMS não recomenda a utilização do medicamento para o tratamento da infecção pelo Sars-CoV-2.

Como verificamos?

O primeiro passo da verificação foi checar os números da covid-19 no continente africano, especificamente nos países listados no tuíte. Para isso, utilizamos os dados disponibilizados pela própria Organização Mundial da Saúde.

Em seguida, buscamos reportagens e publicações científicas que tentam explicar o motivo para a incidência relativamente mais baixa da covid-19 na África.

Sobre a distribuição de ivermectina, consultamos os registros da OMS relativos ao Programa Africano para Controle de Oncocercose e ao Projeto Especial Expandido para Eliminação de Doenças Tropicais Negligenciadas. Em boletins semanais, a Organização divulgou o número de comprimidos de ivermectina distribuídos globalmente e em países da África.

Em uma última etapa, buscamos informações sobre a eficácia da ivermectina no tratamento da covid-19. Consultamos o posicionamento divulgado por órgãos como a OMS, a Anvisa e a FDA, além de entrevistas anteriores feitas pelo Projeto Comprova com diversos especialistas.

O Comprova fez esta verificação baseado em informações científicas e dados oficiais sobre o novo coronavírus e a covid-19 disponíveis no dia 13 de janeiro de 2021.

Verificação

A covid-19 no continente africano

É verdade que os números de óbitos em decorrência da infecção pelo novo coronavírus nos países africanos listados por Bolsonaro são menores do que os registrados no Brasil. Porém, os dados apresentados na tabela anexada ao tuíte não refletem exatamente os dados de covid-19 do dia 4 de janeiro. Os dados atualizados pelo site oficial utilizado pela OMS mostram números superiores já no relatório do dia 3 de janeiro. Segue relação de infectados/vítimas fatais dos países selecionados pelo presidente:

PAÍSCASOS CONFIRMADOSMORTES
Angola17.642408
Camarões26.848448
República do Congo17.997596
Etiópia125.6221.948
Moçambique19.309169
Nigéria90.0801.311
Quênia96.8021.685
África Central4.96363
Ruanda8.676101

Fonte:Organização Mundial da Saúde| dados de 03/01/2021

Inicialmente, a expectativa de especialistas e analistas de todo o mundo era de que o número de mortes pelo novo coronavírus e as taxas de infecção pela doença no continente africano fossem altas, em função do alto índice de populações vivendo em condição de vulnerabilidade. A dificuldade de acesso aos equipamentos de proteção e higiene supostamente sustentava essas previsões. Porém, os números são outros e não há ainda uma confirmação científica sobre a causa dos números baixos nesta região.

Além da possibilidade de subnotificação dos casos e mortes pelo novo coronavírus em vários países da África, apontada desde os primeiros meses de 2020, especialistas também levantam outras hipóteses para a incidência da doença no continente.

Em maio, em uma entrevista à BBC, o especialista em saúde global e emergências sanitárias no Centro de Genebra para Educação e Pesquisa em Ação Humanitária, Karl Blanchet, também destacou o fato da população de vários países africanos já ter lidado com outras epidemias graves no passado. Na mesma reportagem, o especialista africano em saúde pública da equipe de medicina tropical e humanitária do Hospital Universitário de Genebra, Frederique Jacquerioz, aponta a “baixa circulação existente entre os países do continente e o resto do mundo”.

A capacidade de resposta a pandemias, a imunidade da população, já afetada por outras doenças e a média etária mais baixa – já que o continente possui a população mais jovem do mundo – também são apontadas pelo pesquisador do Centro de Relações Internacionais em Saúde da Fundação Oswaldo Cruz, Augusto Paulo Silva, ouvido em outubro pela Agência Brasil.

Uma matéria da revista Época que analisa este mesmo tuíte de Bolsonaro relembra que em junho de 2020, a diretora regional da OMS na África, Matshidiso Moeti, atribuiu o bom desempenho destes países na pandemia às medidas de isolamento implementadas e melhorias realizadas no sistema de saúde.

“O que o Brasil pode aprender? Os países da África, desde muito cedo, implementaram medidas muito significativas de distanciamento social e físico. Isso nos deu um tempo a mais. Ao mesmo tempo, esses países trabalharam duro para ampliar a capacidade do sistema de saúde”, afirmou Moeti.

O Programa Africano para Controle de Oncocercose

A tabela publicada no tuíte do presidente menciona a distribuição em massa de ivermectina feita pelo Programa Africano para Controle de Oncocercose (Apoc, na sigla em inglês), voltado ao combate da doença, também chamada de “cegueira do rio”, por meio da aplicação de ivermectina. No entanto, o programa foi encerrado em 2015, após 20 anos de ações. Os últimos dados disponíveis na página do programa no site da OMS apontam que 100,8 milhões de pessoas nos países que integravam a iniciativa recebiam tratamento regular até o fim de 2012.

A partir de 2016, outra iniciativa teve início para suceder o programa – o Projeto Especial Expandido para Eliminação de Doenças Tropicais Negligenciadas (Espen, na sigla em inglês). Este plano também prevê a distribuição de ivermectina, mas também de outros medicamentos para combater outras doenças comuns no continente além da oncocercose, como filariose linfática e esquistossomose.

Em 2019, 152,9 milhões de pessoas receberam tratamento com ivermectina em países da África, conforme registro epidemiológico da primeira semana de novembro de 2020, disponível no site da OMS. Nos nove países citados por Bolsonaro na postagem, 105,4 milhões de pessoas receberam a medicação em massa com ivermectina. No entanto, três desses países não tiveram nenhuma pessoa submetida ao tratamento em 2019 porque, segundo o relatório, ele não era mais considerado necessário. São eles: Moçambique, Quênia e Ruanda.

O número de pessoas tratadas preventivamente corresponde a uma cobertura de 70,4% do total de 217,2 milhões que requerem tratamento preventivo contra a doença oncocercose. Foi o segundo maior número desde 2011, atrás apenas de 2018, quando o alcance atingiu a marca de 160 milhões de pessoas tratadas.

A Nigéria e a República Democrática do Congo foram os países com mais pessoas submetidas à medicação em massa, com 40,7 milhões e 39,8 milhões, respectivamente. Segundo dados de 14 de janeiro de 2021 da OMS, esses países tinham respectivamente o 14º e 15º menor número de mortes por milhão de habitantes por coronavírus na África, com 6,7 e 6,8 óbitos por grupo de 1 milhão. Entre os nove países citados por Bolsonaro, apenas Moçambique aparecia com número proporcionalmente menor de óbitos por covid-19.

A ivermectina e a covid-19

O uso de ivermectina como suposto tratamento ou prevenção ao novo coronavírus foi alvo de outras checagens do Comprova. Uma delas, em dezembro do ano passado, mostrou serem enganosas afirmações do pastor Silas Malafaia sobre o medicamento como medida preventiva à covid-19. Nesta verificação, o médico veterinário Marcelo Beltrão Molento, professor e pesquisador na Universidade Federal do Paraná (UFPR) que estuda a ivermectina há mais de 20 anos e é consultor da OMS, definiu como “uma desinformação gigantesca” dizer que o remédio impede a transmissão do vírus. Ele apontou problemas em alguns estudos conduzidos sobre a droga e possível papel de combater a forma grave de infecção pelo Sars CoV-2, como falta de grupo de controle, disse que comparar cidades de dinâmicas diferentes, como ocorreu em um estudo citado pelo pastor, era um tipo de erro que “enfraquece a credibilidade dos estudos”.

Molento ainda avaliou um estudo laboratorial australiano, que identificou potencial da ivermectina para inibir a reprodução do novo coronavírus em culturas de células de primatas. Ele afirmou que “o fato de ser antiviral in vitro [em laboratório] não prova em absoluto o mecanismo de ação dela em humanos”, já que estudos laboratoriais ocorrem em condições controladas que não podem ser reproduzidas no corpo humano.

Na mesma checagem, a microbiologista clínica e professora da Universidade de Brasília (UnB) Fabiana Brandão, afirmou ao Comprova que muitos dos ensaios clínicos da ivermectina ainda são pré-publicações e precisam passar por revisão por pares. Ela defendeu a necessidade de mais estudos sobre a droga e disse que algumas pesquisas precisam de “metodologias melhor delineadas”.

A OMS e a OPAS “aconselham fortemente contra o uso de ivermectina para quaisquer outros propósitos diferentes daqueles para os quais seu uso está devidamente autorizado”. A Organização Pan-Americana de Saúde chegou a analisar a possível eficácia da ivermectina no tratamento da covid-19 com base em estudos publicados entre janeiro e maio de 2020, e concluiu que nenhum deles – nem os realizados em laboratório, in vitro, nem os que chegaram à fase clínica, comprovavam a eficácia da medicação.

A agência reguladora dos Estados Unidos, Food and Drug Administration (FDA), afirma em seu site que o uso de ivermectina como prevenção à covid-19 deve ser evitado “uma vez que os seus benefícios e segurança para estes fins não foram estabelecidos.”. A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) também se posicionou em nota divulgada em julho de 2020 sobre o fármaco afirmando que “até o momento, não existem medicamentos aprovados para prevenção ou tratamento da Covid-19 no Brasil. Nesse sentido, as indicações aprovadas para a ivermectina são aquelas constantes da bula do medicamento”

Por que investigamos?

Em sua terceira fase, o Comprova investiga conteúdos duvidosos relacionados às políticas públicas do governo federal e à pandemia do novo coronavírus. Postagens imprecisas podem ser um risco adicional no contexto da pandemia, que já provocou a morte de quase dois milhões de pessoas no mundo.

O tuíte enganoso do presidente Jair Bolsonaro, do dia 5 de janeiro, teve mais de 38 mil interações, entre retuítes, comentários e curtidas. Em julho do ano passado, o Comprova já havia desmentido vídeos que relacionavam os números da pandemia da covid-19 na África ao uso em massa da ivermectina.

Revista Época também publicou, no começo do mês, uma matéria que questionava a afirmação feita pelo presidente Bolsonaro.

Enganoso, para o Comprova, é conteúdo retirado do contexto original e usado em outro de modo que seu significado sofra alterações; que usa dados imprecisos ou que induz a uma interpretação diferente da intenção de seu autor; conteúdo que confunde, com ou sem a intenção deliberada de causar dano.

Informações sobre ivermectina divulgadas por Silas Malafaia são enganosas

*Investigado por Luciana Petersen e Juliana Dias, do Coletivo Bereia, em parceria com Estadão e A Gazeta. Verificaçã por Niara, Rádio Noroeste, UOL, NSC Comunicação. Publicado originalmente no Comprova.

São enganosas as informações contidas no vídeo divulgado pelo pastor Silas Malafaia em que o médico pneumologista norte-americano Pierre Kory recomenda a prescrição de ivermectina para a prevenção da covid-19, durante audiência no Senado nos Estados Unidos. Malafaia afirma que o vídeo “pode salvar vidas” e sugere que seus seguidores peçam a um médico orientação sobre a quantidade de remédio a ser ingerida.

O líder religioso compartilhou uma versão legendada em português de um discurso de Kory em que ele se refere ao medicamento como uma “droga milagrosa” com potencial de prevenir e tratar pacientes com a doença.

Especialistas consultados pelo Comprova, no entanto, afirmam que as evidências expostas nos documentos apresentados pelo médico são insuficientes e não têm qualidade científica para promover o uso preventivo ou terapêutico da droga.

Agências reguladoras e organizações da sociedade civil da área de medicina dos Estados Unidos e do Brasil também mantêm recomendações contrárias à aplicação do medicamento para tratar ou prevenir o novo coronavírus.

Como verificamos?

Para analisar os argumentos científicos apresentados pelo médico Pierre Kory, o Comprova entrevistou o médico veterinário Marcelo Beltrão Molento, professor e pesquisador na Universidade Federal do Paraná (UFPR), que pesquisa sobre a ivermectina (IVM) desde 1994 e que publicou em dezembro um artigo com um alerta para o uso de larga escala do composto. Também foram entrevistadas Fabiana Brandão, especialista em microbiologia clínica e professora do departamento de Farmácia da Universidade Brasília (UNB); e Raquel Stucchi, médica infectologista, professora da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e consultora da Sociedade Brasileira de Infectologia (SBI).

O Comprova consultou os comunicados oficiais sobre a ivermectina divulgados nos sites da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), da agência federal de alimentos e medicamentos (FDA, na sigla em inglês) e do Instituto Nacional de Saúde (NIH, também na sigla em inglês), ambos dos Estados Unidos.

Para esta verificação também foi feito contato com o pastor Silas Malafaia e com o médico Pierre Kory por e-mail, mas até o fechamento desta verificação o Comprova não obteve retorno.

O Comprova fez esta verificação baseado em informações científicas e dados oficiais sobre o novo coronavírus e a covid-19 disponíveis no dia 28 de dezembro de 2020.

Verificação

Não há comprovação dos efeitos da ivermectina na prevenção da covid-19

No discurso capturado em vídeo, Kory aponta que a ivermectina é “milagrosa” na prevenção e no tratamento da covid-19 diz que há “montanhas” de dados e estudos que comprovam essa afirmação. Ele diz estar embasado em uma revisão contendo dados de quase 30 estudos assinada por ele e outros profissionais de saúde, que indicaria a eficácia do remédio contra a doença.

O médico diz ainda que o relatório mostra que o medicamento basicamente “oblitera a transmissão desse vírus” e que se uma pessoa tomar a ivermectina ela não ficará doente.

Para Marcelo Molento, que estuda a ivermectina há mais de 20 anos e é consultor da Organização Mundial da Saúde, é “uma desinformação gigantesca” dizer que o remédio impede a transmissão do vírus. Ele pontua que a revisão de Kory e os estudos que baseiam o artigo pecam gravemente na condução e no desenho dos ensaios clínicos, assim como na compilação de dados e na interpretação dos resultados.

“Há estudos que nem sequer têm grupo de controle”, diz o especialista. Molento ainda ressalta que alguns trabalhos não fizeram um acompanhamento adequado dos pacientes durante os testes e se baseiam somente em boletins médicos.

O cientista critica ainda um levantamento presente no estudo que compara a curva de mortes e infecções de municípios comuns com cidades que implementaram programas massivos de distribuição da ivermectina. “Não dá pra comparar cidades de dinâmicas diferentes (comportamento social, localização geográfica e clima). Este tipo de erro enfraquece a credibilidade dos estudos”, afirma.

Falta rigor nos estudos feitos até o momento

A microbiologista clínica e professora da Universidade de Brasília (UnB) Fabiana Brandão afirmou ao Comprova que muitos dos ensaios clínicos da ivermectina ainda são pré-publicações e precisam passar por revisão por pares. As próprias plataformas de preprint (que reúnem esse material) dizem que os artigos ali publicados não devem ser usados para guiar procedimentos clínicos.

A pesquisadora diz que é a favor de mais estudos com o medicamento. Ela afirma, no entanto, que o discurso de Pierre Kory de que o medicamento tem efeitos milagrosos não tem sustentação. “Não é verdade que se as pessoas tomarem ivermectina podem sair às ruas que nada vai acontecer. Isso gera um risco tremendo das pessoas se exporem mais ao confiar num tratamento que pode não ser eficaz”, pontuou.

Um levantamento da professora no site de pesquisas clínicas Clinical Trials identificou que há pelo menos 45 experimentos registrados para testar a eficácia da ivermectina, dos quais 13 já foram concluídos. Ela explica, no entanto, que os estudos apresentam um número de pacientes muito reduzido e que não têm “força estatística suficiente” para responder se a ivermectina é de fato eficaz.

Outro ponto destacado por Brandão é que as pesquisas carecem de metodologias científicas rigorosas que eliminem os vieses das investigações. “Muitos estudos combinam medicamentos. Você vê uma discordância muito grande entre as pesquisas. Ainda faltam estudos com metodologias melhor delineadas”, diz a cientista.

Brandão explica que até 80% dos pacientes com covid-19 se recupera sem nenhum tratamento medicamentoso específico. Isso dificulta ainda mais entender quando um fármaco teve ou não teve efeito sobre a doença.

Estudo in vitro não comprova resultado em humanos

No vídeo, Kory também cita um estudo laboratorial conduzido pela Universidade Monash, na Austrália, que identificou o potencial da ivermectina de inibir a reprodução do novo coronavírus em culturas de células de primatas.

Os próprios autores, assim como a instituição de ensino, alertaram porém que a ivermectina não deveria ser recomendada contra a covid-19 “até que sejam concluídos mais testes e ensaios clínicos para estabelecer a eficácia do fármaco a níveis seguros para a dosagem humana.” A universidade também apontou riscos da automedicação.

“O fato de ser antiviral in vitro não prova em absoluto o mecanismo de ação dela em humanos”, afirmou Marcelo Molento ao Comprova. Isso acontece porque os estudos laboratoriais ocorrem em condições controladas que não podem ser reproduzidas no corpo humano.

“O corpo humano é mais complexo. Você tem mecanismos que influenciam na doença que não se resumem apenas à ação da droga sobre o vírus, como no laboratório.”, explica a consultora da Sociedade Brasileira de Infectologia Raquel Stucchi. “A cloroquina, por exemplo, apresentou bons resultados em laboratórios, mas até agora não se provou eficaz nos ensaios clínicos.”.

Outro ponto de alerta é que as dosagens de ivermectina aplicadas no estudo da Universidade de Monash são maiores do que o recomendado para o tratamento de parasitas em humanos. Identificar uma dose viável do medicamento é, inclusive, um dos desafios ressaltados pelos autores e outros cientistas.

De acordo com Brandão, trata-se de uma investigação delicada. “A ivermectina é um fármaco com mais de 50 anos e tem um efeito muito bom para enfrentar algumas doenças e parasitas. Mas a dosagem usada para tratamento parasitário é muito inferior à usada nos estudos para a covid-19. Essas doses elevadas podem ter um risco muito grande de atingir o sistema nervoso central.”, pontua a cientista.

O que dizem as agências reguladoras

Diante da ausência de dados confiáveis sobre a eficácia da ivermectina, diversas organizações da área da saúde desaconselham o uso do medicamento para combater a covid-19.

A Food and Drug Administration (FDA), agência sanitária dos Estados Unidos, afirma que “a utilização de ivermectina para a prevenção ou tratamento da COVID-19 deve ser evitada, uma vez que os seus benefícios e segurança para estes fins não foram estabelecidos.”.

Instituto Nacional de Saúde americano (NIH) e o Centro de Controle e Prevenção de Doenças (CDC) também se opõem ao uso indiscriminado do medicamento contra a covid-19. No Brasil, um informe da Sociedade Brasileira de Infectologia reforça que não há comprovação científica que ateste a eficácia da ivermectina ou qualquer outro medicamento no tratamento precoce da doença.

Já a Anvisa ressalta que “até o momento, não existem medicamentos aprovados para prevenção ou tratamento da Covid-19 no Brasil. Nesse sentido, as indicações aprovadas para a ivermectina são aquelas constantes da bula do medicamento”.

Uso indiscriminado tem risco de aumentar resistência de parasitas

Segundo artigo publicado por Marcelo Molento, a ivermectina (IVM) é um derivado da bactéria Streptomyces avermitilis introduzida comercialmente em 1981. Poderia ser colocada entre as drogas asmorfina (1827), aspirina (1899) e penicilina (1942), devido os seus benefícios vitais para os humanos e saúde animal. A IVM faz parte da família exclusiva dos endectocidas (avermectinas e milbemicinas), junto com a moxidectina, abamectina, doramectina, entre outras. Esta família de drogas tem a característica de ter alta eficácia contra a maioria dos parasitas mais importantes, sendo utilizada na região central da África.

Em 2015, Satoshi Ômura e William Campbell ganharam o Prêmio Nobel de Medicina 2015 pela descoberta da ivermectina e seu uso mundial no combate a doenças parasitárias. Em algumas regiões, ela é essencial para o controle de doenças parasitárias, tendo status de vacina, devido ao seu amplo uso. Ganhou popularidade pela sua importância na medicina veterinária e humana. Até a chegada do coronavírus, era reservada para a área de parasitologia.

Em artigo, Molento adverte quanto aos efeitos neurológicos adversos do medicamento em pacientes, como confusão, tremores, convulsão, inchaço local e vômitos, que podem durar até uma semana. No caso de animais, a utilização em intervalos curtos criou resistência aos parasitas. A seleção de parasitas para combater essa resistência tornou-se um dos fatores mais perigosos para a falha da droga.

O tratamento em massa também é praticado para controlar parasitas humanos, e a resistência aos medicamentos é uma das principais preocupações para a continuação dos programas de erradicação de parasitas em grande escala, conforme explica Molento.

De acordo com Molento, a IVM tem a reputação de ter efeitos antivirais, no caso da dengue, e é bem aceito na prática médica. Com a covid-19 voltou a ser manchete internacional a partir de evidências de suas atividades in vitro contra o vírus. O pesquisador alerta que apesar do medicamento ser conhecido por sua margem de segurança, esse fato não é suficiente para o seu uso regular. “O risco também pode ser potencializado por interações medicamentosas desconhecidas, que podem afetar a fisiologia do sistema nervoso central (barreira hematoencefálica), tornando potenciais efeitos nocivos à saúde”, explica em seu artigo. A recomendação do pesquisador é cautela, especialmente para o uso da IVM.

Quem é o médico que aparece no vídeo?

O homem que figura no vídeo publicado pelo pastor é o médico Pierre Kory, presidente da organização Frontline Covid-19 Critical Care Alliance (FCCCA, na sigla em inglês). Ele se identifica como pneumologista e especialista em cuidados intensivos.

De acordo com o site da St. George’s University, em Granada, ele se graduou na instituição de ensino em 2002 e hoje trabalha no centro acadêmico de medicina da Universidade de Wisconsin, nos Estados Unidos.

Na página da FCCCA consta que o grupo é uma organização formada por dez médicos que tem o objetivo de revisar trabalhos e estudos publicados sobre remédios já existentes no combate ao vírus e publicar protocolos. Há dois tipos disponíveis no site, um para pacientes hospitalizados e outro para profilaxia da doença. Esse último inclui a ivermectina, mas também recomenda uso de máscara e distanciamento social.

No dia 8 de dezembro, Kory foi ouvido na Comissão de Segurança Interna e Assuntos Governamentais do Senado americano,que realizou uma audiência com o tema “Tratamento ambulatorial precoce: parte essencial de uma solução para a covid-19”.

Quem é Silas Malafaia?

Silas Malafaia, 62 anos, é pastor e presidente da igreja Assembleia de Deus Vitória em Cristo (ADVEC) no Rio de Janeiro, desde 2010. É graduado em psicologia e fundador da Associação Vitória em Cristo (AVEC), criada em 1982 com a finalidade de arrecadar fundos para o programa de TV Vitória em Cristo.

Nas mídias sociais, seus perfis reúnem mais de 3 milhões de seguidores.

Em março de 2020, logo no início da pandemia de covid-19, o coletivo Bereia publicou uma verificação sobre os posts e vídeos enganosos acerca do novo coronavírus postados pelo pastor. Em um dos posts, ele minimiza a gravidade da covid-19 comparando-a com a gripe H1N1 e ataca a ampla cobertura da imprensa sobre a doença. Sua postura em relação à pandemia está alinhada com a do presidente Jair Bolsonaro. Em suas postagens, é comum temas como acusações contra a China, a Organização Mundial da Saúde (OMS), a defesa do uso da hidroxicloroquina e da ivermectina e questionamentos sobre a vacinação contra a covid-19.

Em abril, o Facebook, o Instagram e o Youtube apagaram um vídeo publicado pelo pastor, no qual afirmava que a quarentena era “uma farsa”.

Por que investigamos?

Em sua terceira fase, o Comprova investiga conteúdos duvidosos relacionados às políticas públicas do governo federal e à pandemia do novo coronavírus. Conteúdos falsos prejudicam o trabalho dos pesquisadores e diminuem a confiança das pessoas nas autoridades. A postagem no Facebook, publicada em 18 de dezembro, tinha 98,9 mil visualizações em sete dias, até o dia 24 do mesmo mês. Em 22 de dezembro, o Comprova também publicou uma verificação com conteúdos enganosos sobre ivermectina e vacina chinesa do pastor Silas.

Enganoso, para o Comprova, é conteúdo retirado do contexto original e usado em outro de modo que seu significado sofra alterações; que usa dados imprecisos ou que induz a uma interpretação diferente da intenção de seu autor; conteúdo que confunde, com ou sem a intenção deliberada de causar dano.

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Foto de Capa: Projeto Comprova/Reprodução

Vídeo do pastor Silas Malafaia engana sobre eficácia da ivermectina contra covid-19 na África

*Investigado por Luciana Petersen e Juliana Dias, do Coletivo Bereia, em parceria com A Gazeta e Favela em Pauta. Verificado por Rádio Noroeste, Estadão, O Povo, Correio, Rádio Band News e NSC Comunicação. Publicado originalmente no Comprova.

É enganoso um vídeo publicado pelo pastor Silas Malafaia no qual ele defende o uso da ivermectina na prevenção da covid-19 e faz comentários a respeito da Coronavac, vacina desenvolvida pela companhia chinesa Sinovac e que vem sendo testada no Brasil. No vídeo, o pastor alega de maneira equivocada que a distribuição em massa de ivermectina na África estaria relacionada aos números relativamente baixos de mortes pelo novo coronavírus no continente.

Malafaia questiona ainda a Coronavac afirmando que o Brasil será o primeiro a se vacinar com a “vacina em parceria com a China”, antes que a China o faça. Ainda não é possível fazer tal afirmação, pois a vacinação não teve início no Brasil. Na China, a Coronavac recebeu autorização para uso emergencial. A fase 3 de testes do imunizante está sendo realizada, além do Brasil, no Chile, na Indonésia e na Turquia.

Especialistas consultados pelo Comprova ressaltam que não há, até o momento, comprovação científica da eficácia do uso de ivermectina na prevenção ou tratamento da doença provocada pelo novo coronavírus. Eles alertam também que os dados epidemiológicos em alguns países africanos não são confiáveis, pois o sistema de vigilância não é bem estruturado.

Como verificamos?

Para elucidar as questões sobre a capacidade da ivermectina de prevenir ou tratar o novo coronavírus, entramos em contato com Alberto Chebabo, diretor médico do Hospital Universitário Clementino Fraga Filho, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). A coordenadora de pesquisa clínica na UFRJ, Valéria Viana, esclareceu pontos relacionados à vacina Coronavac.

O Comprova buscou ainda informações para identificar o médico americano citado pelo pastor, que “quase chorou” em audiência no Senado americano enquanto falava da suposta eficácia do medicamento em protocolos profiláticos.

Já para checar os dados de casos e mortes por covid-19 nos países africanos citados pelo pastor, foi acessado o painel de monitoramento de casos e mortes de covid-19 da Universidade Johns Hopkins.

O Comprova fez esta verificação baseado em informações científicas e dados oficiais sobre o novo coronavírus e a covid-19 disponíveis no dia 21 de dezembro de 2020.

Verificação

Covid na África e a ivermectina

O pastor também cita o número relativamente baixo de mortes provocadas pela covid-19 em países africanos como Nigéria, Angola e Moçambique. Segundo Malafaia, o uso em massa da ivermectina para tratamento de verminoses seria a causa dessa baixa mortalidade.

De acordo com o painel de monitoramento de casos e mortes de covid-19 da Universidade Johns Hopkins, dos Estados Unidos, os dados apresentados pelo pastor no vídeo são compatíveis com aqueles relatados pelos países africanos.

Porém, especialistas afirmam que não é possível relacionar os números de covid-19 na África com o uso da Ivermectina. Além disso, eles chamam a atenção para a má qualidade das informações de vigilância em muitos países africanos.

“O que se usou muito na África para prevenção e tratamento de verminoses foi o mebendazol e não a ivermectina. E os dados que ele coloca não são confiáveis, a gente tem poucos dados confiáveis da África. A vigilância epidemiológica é muito ruim para todas as doenças. Não dá para relacionar o uso de qualquer droga com essa mortalidade descrita na África”, pontua o diretor médico do Hospital Universitário Clementino Fraga Filho da UFRJ, Alberto Chebabo.

Um artigo da BBC aponta ainda outras variáveis que podem ter influenciado o número de casos e mortes por coronavírus no continente. Especialistas citam as inúmeras experiências com pandemias em anos recentes, um contato menor com outros países e até características demográficas (uma população bem mais jovem que na Europa, por exemplo).

Em julho, o Comprova classificou como falso um vídeo segundo o qual a pandemia estaria controlada na África por conta da ivermectina. Em agosto, mostramos também ser falso outro vídeo que fazia a mesma alegação a respeito da Austrália.

Ivermectina não tem comprovação “in vivo”

Segundo Chebabo, não há recomendação para o uso de ivermectina na prevenção da covid-19 devido à ausência de estudos científicos publicados que deem embasamento para essa indicação. “Só temos dados in vitro de atividade da ivermectina na inibição do Sars-Cov-2 em culturas de células. A atividade in vitro não significa que a droga terá atividade in vivo”, explica o diretor que integra o Grupo de Trabalho Multidisciplinar para Enfrentamento da covid-19 da UFRJ.

Ainda segundo Chebabo, de cada 100 moléculas testadas com atividade in vitro, apenas uma chega na fase clínica com eficácia. O especialista destaca que não há pesquisa clínica que mostre a real eficácia da ivermectina. “Alguns [estudos] são observacionais ou com muita baixa qualidade e que não suportam a recomendação do uso da ivermectina tanto para prevenção quanto para tratamento”, completa o pesquisador. Portanto, não há evidência científica para a indicação do medicamento.

O médico lembra ainda que a cloroquina também passou por essa fase de recomendação por conta da atividade in vitro, mas os estudos clínicos controlados não demonstraram a eficácia da droga contra a covid-19, e a utilização não é recomendada por entidades como a Organização Mundial da Saúde e a Sociedade Brasileira de Infectologia. “Ninguém mais fala em usar cloroquina a não ser alguns grupos aqui no Brasil. A gente aguarda resultados de estudos randomizados que estão sendo realizados com a ivermectina para avaliar se ela realmente tem ou não eficácia para ser recomendada como indicação de tratamento para covid-19”, explica.

Contraindicação

Em relação ao fato de a ivermectina não ter contraindicações, como assegura o pastor, Chebabo afirma que qualquer droga as possui, apesar desse medicamento específico ser seguro, com poucos efeitos colaterais. Ele explica que, quando o remédio é ingerido sem indicação, o paciente não só deixa de se beneficiar, já que não há eficácia comprovada, como passa a ter somente as desvantagens de um possível efeito adverso.

Chebabo é enfático ao reiterar que não há nenhuma justificativa para se indicar a ivermectina. Em relação ao vídeo de Malafaia, ele chama a atenção para o fato de que o pastor recomendou o uso de um medicamento e que isso se configura em um exercício ilegal da medicina.

De acordo com o Conselho Federal de Medicina (CFM), as sanções e punições só são cabíveis para o profissional médico ou estabelecimentos de saúde. O conselho só tem alcance com a população médica. Por isso, nesse caso, o pastor não poderia ser responsabilizado. A apuração sobre suspeitas de ilegalidade deve ser feita pelo Ministério Público e pela polícia.

De qual médico americano ele fala no vídeo?

Malafaia afirma no vídeo que um médico, “representando 2 mil médicos e cientistas que estão na linha de frente de combate à covid […] diante da comissão do Senado americano quase chorou clamando ‘por que não dar ivermectina pro povo como preventivo?’”

Ele não cita nominalmente o especialista. Contudo, o Comprova apurou que o médico em questão é Pierre Kory, presidente da organização Frontline Covid-19 Critical Care Alliance (FCCCA). No último dia 8 de dezembro, ele foi ouvido na Comissão de Segurança Interna e Assuntos Governamentais do Senado americano – que realizou uma audiência sobre “Tratamento ambulatorial precoce: parte essencial de uma solução para a covid-19”.

No vídeo, Kory aponta que a Ivermectina é “milagrosa” na prevenção e no tratamento da doença e que há “montanhas” de dados e estudos que comprovam essa afirmação. Segundo o site da FCCCA, eles são uma organização formada por dez médicos que tem o objetivo de revisar trabalhos e estudos publicados sobre remédios já existentes no combate ao vírus e publicar protocolos. Há dois tipos disponíveis no site, um para pacientes hospitalizados e outro para profilaxia da doença. Esse último inclui a ivermectina, mas também recomenda uso de máscara e distanciamento social.

Brasil vai se vacinar com a Coronavac antes dos chineses?

O pastor começa o vídeo questionando o porquê de o Brasil ser o primeiro país a se vacinar com a Coronavac, imunizante desenvolvido em parceria com a China, antes que o país asiático tenha vacinado a própria população.

A vacinação no Brasil não teve início, no entanto. A Coronavac encontra-se, atualmente, na fase final de testes, que no Brasil é realizada em parceria com o Instituto Butantan, em São Paulo.

Na China, a Coronavac ainda não foi oficialmente registrada, mas é uma das diversas vacinas de companhias chinesas que receberam autorização do governo de Pequim para uso emergencial.

Malafaia aponta ainda que as nações “do primeiro mundo” não estão utilizando a vacina chinesa. De fato, além do Brasil, apenas países como Turquia, Indonésia e Chile fizeram compras de doses da vacina através de acordo com a Sinovac e realizam atualmente a fase 3 de testes com o imunizante.

Segundo informações até 17 de dezembro da Organização Mundial da Saúde (OMS), há atualmente 56 vacinas candidatas em ensaio clínico (sendo testadas em humanos). Entre elas, ao menos 13 foram desenvolvidas por companhias chinesas ou institutos de pesquisa da China. Uma, a Coronavac, tem acordo para distribuição no Brasil por ter sido feita em parceria com o Butantan.

Quem é Silas Malafaia?

Silas Malafaia, de 62 anos, é pastor e presidente da igreja Assembleia de Deus Vitória em Cristo (ADVEC) no Rio de Janeiro. Desde 2010, assumiu a liderança da igreja, que possui 35 mil membros, 118 templos no Brasil e três igrejas em Portugal, segundo informações no site da ADEVEC. É graduado em psicologia, autor de diversos livros e fundador da Associação Vitória em Cristo (AVEC), criada em 1982 com a finalidade de arrecadar fundos para o programa de TV Vitória em Cristo, lançado no mesmo ano. O programa é transmitido semanalmente pela Rede TV em rede nacional, e aos sábados em emissoras locais da Band, na Bahia e Espírito Santo.

A AVEC possui uma rede de doadores que contribuem regularmente com quantias a partir de R$ 30 para manutenção do programa e de projetos sociais. Para essa rede, é produzida uma revista exclusiva chamada Fiel, ou seja, mais um canal de comunicação direto com seu público. Suas outras atuações estratégicas no campo da comunicação incluem a gravadora Central Gospel Music, uma das principais do segmento no país, e a Central Gospel, que já foi considerada segunda maior editora gospel do Brasil, mas em 2019 entrou com pedido de recuperação judicial no valor de quase R$ 16 milhões. Nas mídias sociais, seus perfis reúnem mais de 3 milhões de seguidores.

Em março de 2020, logo no início da pandemia de covid-19, o coletivo Bereia publicou uma verificação sobre os posts e vídeos enganosos acerca do novo coronavírus postados pelo pastor. Em um dos posts, ele minimiza a gravidade da covid-19 comparando-a com a gripe H1N1 e ataca a ampla cobertura da imprensa sobre a doença. Sua postura em relação à pandemia está alinhada com a do presidente Jair Bolsonaro. Em suas postagens, é comum temas como acusações contra a China, a Organização Mundial da Saúde (OMS), a defesa do uso da hidroxicloroquina e da ivermectina e questionamentos sobre a vacinação contra a covid-19.

Em abril, o Facebook, o Instagram e o Youtube apagaram um vídeo publicado pelo pastor, no qual afirmava que a quarentena era “uma farsa”.

Por que investigamos?

Em sua terceira fase, o Comprova investiga conteúdos duvidosos relacionados às políticas públicas do governo federal e à pandemia do novo coronavírus. Conteúdos falsos prejudicam o trabalho dos pesquisadores e diminuem a confiança das pessoas nas autoridades. A postagem no Facebook, publicada em 14 de dezembro, tinha 711 mil visualizações até o dia 16 de dezembro. No mesmo dia, o pastor publicou um tuíte com conteúdo similar. Até o dia 21 de dezembro, tinha 57 mil compartilhamentos.

Enganoso, para o Comprova, é conteúdo retirado do contexto original e usado em outro de modo que seu significado sofra alterações; que usa dados imprecisos ou que induz a uma interpretação diferente da intenção de seu autor; conteúdo que confunde, com ou sem a intenção deliberada de causar dano.

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Foto de Capa: Projeto Comprova/Reprodução

É enganoso que trecho de ferrovia em GO seja obra do governo Bolsonaro

*Verificado por Luciana Petersen e Juliana Dias, do Coletivo Bereia, em parceria com Marco Zero Conteúdo, Correio e UOL. Investigação por Rádio Noroeste, Estadão, NSC Comunicação, Favela em Pauta e Agência Mural. Publicado originalmente no Comprova.

É enganoso que um trecho da ferrovia Norte-Sul tenha sido liberado recentemente, durante a gestão de Jair Bolsonaro (sem partido), como induz uma publicação feita no Facebook e acompanhada de um vídeo. A legenda diz que “começam os trens a circular pela ferrovia Norte-Sul” e diversos dos comentários que aparecem no post celebram o fato como uma conquista do governo atual. As imagens do vídeo foram de fato registradas no local citado no post verificado e a estrada de ferro está em fase final de obras, mas a operação naquele trecho só começará oficialmente em 2021.

A ferrovia Norte-Sul, que quando estiver totalmente pronta ligará Barcarena (PA) a Rio Grande (RS), teve sua construção iniciada em 1987. A parte da via mostrada no vídeo está concluída desde 2014. Ele fica em Mara Rosa, no norte de Goiás, e integra o trecho da ferrovia que vai de Porto Nacional (TO) a Estrela d’Oeste (SP). Este trecho foi concedido à iniciativa privada em março de 2019, em um leilão realizado no início do governo Bolsonaro, mas anunciado ainda no mandato de Michel Temer, no final de 2018.

A empresa Rumo venceu a disputa, mas só deve começar a operação neste trecho no primeiro semestre de 2021, segundo informou a própria companhia ao Comprova. Até lá, somente trens de outra concessionária, a VLI, que opera outro trecho da Norte-Sul, transitam no trajeto ferroviário já concluído entre Anápolis (GO) e Porto Nacional, onde está inserida Mara Rosa, local da gravação do vídeo verificado. As obras que ainda faltam se concentram no trecho sul, entre São Paulo, Goiás e Minas Gerais, segundo a Rumo. A VLI informou ao Comprova usar “de forma pontual” o trecho de Anápolis a Porto Nacional, que passa por Mara Rosa. A empresa não informou desde quando faz uso desta parte da ferrovia.

Ao Comprova, a Rumo confirmou que o trem que aparece no vídeo é de outra concessionária, mas que o registro se deu na Ferrovia Norte-Sul e que a viagem ocorreu entre 16 e 17 de outubro deste ano. A VLI também confirmou que o registro é de uma composição da companhia, que circulou nessas datas. A primeira divulgação do vídeo nas redes sociais foi em 21 de outubro. Fontes de Mara Rosa (GO) também confirmaram que o registro foi feito na cidade.

A postagem, divulgada em vários grupos de Facebook e perfis do Twitter desde o final de novembro, também traz na legenda mensagens de que “é um sonho de mais de 30 anos” que começa a virar realidade e a mensagem “É um novo Brasil!”, tendo sido postada em diversos grupos de apoio a Bolsonaro.

Como verificamos?

Para checar as informações e o conteúdo do vídeo, fizemos buscas reversas em ferramentas como InVID e Google, com o objetivo de localizar outras publicações em que o vídeo pudesse ter sido utilizado. Também consultamos o Ministério da Infraestrutura, a empresa pública Valec, que executou a maior parte da obra da ferrovia, a Rumo, que é a atual concessionária do trecho onde foi feito o vídeo investigado, e a empresa VLI, que detém a concessão de outro trecho da Ferrovia Norte-Sul e foi apontada como dona do trem que aparece nas imagens.

Recorremos ainda a um profissional da imprensa local. Consultamos também o Google Earth para tentar localizar o ponto da filmagem, a prefeitura de Mara Rosa e reportagens sobre a concessão e as obras da ferrovia.

Verificação

O vídeo da passagem do trem foi gravado no trecho da Ferrovia Norte-Sul que passa entre Mara Rosa e a cidade de Amaralina, no norte de Goiás. A cidade faz parte de um trecho da ferrovia que já teve obras concluídas em 2014, mas que deve ter o início de uma nova operação somente em 2021.

A cidade de Mara Rosa tem 9.363 habitantes, segundo o último dado do IBGE e faz parte da trama central do Ferrovia Norte Sul, concluída em 2014, ainda no governo de Dilma Rousseff (PT).

Por telefone, o diretor da Rádio Alternativa da cidade, Marcelo Matias, confirmou que a passagem entre Mara Rosa e Amaralina está pronta. Ele assistiu ao vídeo e confirmou que se trata do viaduto da Ferrovia Norte-Sul.

Em contato com a prefeitura de Mara Rosa, a assessoria disse que não tem informações sobre as rotas e cargas transportadas na rodovia, mas confirmou que o percurso de Mara Rosa está pronto há “uns quatro ou cinco anos”.

O Comprova procurou o Ministério da Infraestrutura para pedir informações sobre o trem registrado no vídeo. A assessoria de imprensa do órgão respondeu confirmando que o trecho da ferrovia que passa em Mara Rosa ficou pronto em 2014 e que foi concedido em março de 2019. Sobre o vídeo verificado, no entanto, o ministério solicitou que fosse feito contato com a concessionária desta área da ferrovia, a empresa Rumo.

Em nota ao Comprova, a companhia Rumo confirmou que o trem que aparece no vídeo pertence a outra concessionária que exerce o direito de passagem para circular no trajeto administrado pela Rumo na Ferrovia Norte-Sul. “A composição partiu de Anápolis (GO) em 16/10 com destino a Porto Nacional (TO), chegando no dia seguinte (17). A cidade de Mara Rosa (GO) está entre essas duas cidades”.

A empresa também explicou que, por ter vencido o leilão no ano passado, coordena e autoriza todas as circulações de trens no trecho entre Anápolis (GO) e Porto Nacional (TO) desde 1º de agosto de 2019 – mesmo trajeto em que Mara Rosa está inserida. Apesar de ter vencido a concessão, a Rumo ainda não iniciou a operação neste trecho da Ferrovia Norte-Sul. A previsão é de que isso ocorra no início do primeiro semestre de 2021, segundo a companhia.

Por enquanto, quem utiliza este trecho da ferrovia entre Anápolis (GO) e Porto Nacional (TO) são apenas trens de outra empresa, a VLI, que tem a Vale como acionista e é concessionária do trecho em direção ao Norte, entre Porto Nacional (TO) e Açailândia (MA). Procurada pelo Comprova, a VLI confirmou por e-mail que o vídeo verificado mostra a passagem de uma composição da companhia pelo tramo central da Ferrovia Norte-Sul (FNS), entre os dias 16 e 17 de outubro.

A empresa também afirmou que “utiliza de forma pontual o trecho que aparece no vídeo para enviar trilhos de sua unidade de manutenção, em Minas Gerais, para a operação do tramo norte da FNS, entre Porto Nacional (TO) e Açailândia (MA)”. O Comprova também questionou desde qual período a empresa utiliza o trecho e com qual frequência, no entanto, esses pontos não foram esclarecidos até o fechamento desta publicação.

Histórico conturbado

Segundo informações no site da Valec, a construção da Ferrovia Norte-Sul teve início em 1987. O traçado original era de 1.550 quilômetros, de Açailândia (MA) a Anápolis (GO), passando pelos Estados do Maranhão, Tocantins e Goiás. Esse trajeto está concluído e em operação, segundo o site da Valec. No entanto, os trens da nova concessionária deste trecho só devem circular a partir de 2021. O trecho de Anápolis (GO) a Porto Nacional (TO) é usado “de forma pontual” por outra empresa, a VLI, que administra outro trecho da ferrovia.

Ao longo dos anos, a ferrovia foi recebendo projetos para ampliação. Em 2006, uma lei incluiu um trecho mais ao norte, de Açailândia (MA) a Barcarena (PA) – este trecho ainda está apenas em projeto. Em 2008, uma nova lei ampliou o traçado em direção ao Sul, até Panorama (SP). As informações também estão disponíveis no site da Valec.

As obras da ferrovia ficaram paradas por longos períodos nos mais de 30 anos desde seu início. Também houve polêmicas sobre sua execução. A obra é envolvida em denúncias de irregularidades desde a primeira licitação, em 1987, e chegou a ser alvo de operações da Polícia Federal e de outras investigações sobre corrupção, como mostra reportagem do jornal O Globo. A primeira viagem comercial só ocorreu um ano e meio após a inauguração do trecho entre Anápolis (GO) e Porto Nacional (TO), em 2014, de acordo com reportagem do portal G1.

Em 2015, foram concluídos os estudos de viabilidade para mais dois trechos, de Panorama (SP) a Chapecó (SC) e de Chapecó (SC) a Rio Grande (RS) – esses trechos da ferrovia também estão apenas no papel. Caso esses trajetos sejam totalmente executados, a via permitirá o transporte de cargas cruzando o país do Pará ao Rio Grande do Sul, com interligação com estradas férreas que acessam portos, o que faz com que a ferrovia seja chamada de “espinha dorsal” do transporte ferroviário no Brasil.

Em 2019, um trecho da Ferrovia Norte-Sul foi concedido à iniciativa privada. Segundo reportagem do portal G1, a empresa Rumo arrematou o trecho de 1,5 mil km com um lance de R$ 2,7 bilhões, o dobro do lance mínimo previsto. O contrato tem duração de 30 anos. A empresa já possui outras concessões de ferrovias do país.

O leilão foi anunciado no fim do governo Michel Temer (MDB), mas foi realizado já na gestão de Jair Bolsonaro (sem partido), em março de 2019. O contrato foi assinado em 31 de julho de 2019. O trecho entre Porto Nacional (TO) e Estrela d’Oeste (SP) estava previsto para ser entregue com a execução concluída à concessionária vencedora do leilão, mas foi repassado com 93% das obras terminadas, segundo informou ao Comprova o Ministério da Infraestrutura.

O trajeto de Anápolis (GO) a Porto Nacional (TO) já estava concluído e chegou a ser inaugurado em 2014 pela presidente Dilma Rousseff (PT). As obras que ainda faltam se concentram no trecho sul, entre São Paulo, Goiás e Minas Gerais, segundo nota da empresa.

Antes disso, em 2007, durante o governo Lula, o trecho entre Porto Nacional (TO) e Açailândia (MA) já havia sido concedido, com vitória da empresa Vale.

A Ferrovia nos dias atuais e sua divisão

Projetada para se tornar a espinha dorsal do transporte ferroviário no Brasil, quando concluída a Ferrovia Norte-Sul vai interligar terminais portuários das regiões Norte e Sudeste, passando pelo Centro-Oeste do país.

Atualmente ela está dividida em três partes:

Tramo Norte: Entre Açailândia (MA) e Porto Nacional (TO), com 720 quilômetros de extensão.

> Tramo Central: com 855 quilômetros de extensão, entre Porto Nacional (TO) e Anápolis (GO). Esse trecho da ferrovia passa por 14 municípios de Tocantins e 19 de Goiás.

Tramo Sul: entre os municípios de Ouro Verde de Goiás (GO) e Estrela d´Oeste (SP), com 682 km de extensão. Seu traçado passa por 16 municípios de Goiás, 3 de Minas Gerais e 3 de São Paulo.

O caminho das publicações

O Comprova não conseguiu localizar o autor do vídeo. As imagens circulam desde novembro deste ano. De acordo com a ferramenta CrowdTangle, o primeiro registro ocorreu no dia 26 por um perfil pessoal em um grupo chamado “PT Nunca Mais”. No dia seguinte, o mesmo perfil publicou o vídeo com legenda idêntica elogiando a conclusão das obras da ferrovia em outro grupo, de nome “A gente não tem cara de babaca”. Nesse mesmo dia, a primeira publicação, do dia anterior, foi compartilhada por outro usuário em um grupo diferente, o “Debates do Movimento Avança Brasil”.

A partir do dia 28 a postagem começou a ser republicada por diversos perfis, com o mesmo texto de legenda. Segundo a plataforma CrowdTangle, foram 268 publicações e 6,6 mil interações até o dia 7 de dezembro.

O vídeo com a legenda enaltecendo o avanço da Ferrovia Norte-Sul também circulou no Twitter. Nesta rede, foram 36 postagens até 7 de dezembro, segundo a plataforma Tweetdeck.

Buscas reversas por meio da ferramenta InVID mostraram que o vídeo já havia sido publicado no Facebook mais de um mês antes, em 21 de outubro, em uma página que divulga vídeos de entretenimento. Na ocasião, no entanto, não havia nenhuma menção à Ferrovia Norte-Sul na publicação. A página publicou a gravação do trem apenas com a legenda “Oi o trem”, seguida de três emojis. Apenas a narração do vídeo é que fazia referência à Ferrovia Norte-Sul.

O Comprova tentou contato com alguns perfis que divulgaram o vídeo nas redes sociais, mas não obteve retorno até a publicação desta checagem.

Por que investigamos?

Em sua terceira fase, o Comprova verifica conteúdos duvidosos sobre as eleições municipais de 2020, a pandemia de covid-19 e as políticas públicas do governo federal que tenham viralizado nas redes sociais. A checagem de conteúdo é importante pois ajuda as pessoas a formarem suas próprias conclusões com base em fatos verdadeiros.

O vídeo publicado na página “Aliança pelo Brasil” teve mais de 2 mil interações no Facebook desde sua publicação no dia 29 de Novembro. Pelo Twitter, publicado no dia 30 de Novembro por um perfil pessoal, teve mais de 1.700 interações.

Em agosto deste ano o Comprova checou outro conteúdo que também atribuía a conclusão de uma obra à gestão do presidente Jair Bolsonaro (sem partido). Na ocasião, o foco era um viaduto na BR-277 em Foz do Iguaçu e foi confirmado pelo próprio Ministério da Infraestrutura que a obra não tinha nenhuma relação com o governo federal. Já em outubro, o Comprova também identificou como engano um tuíte que afirmava que a “Ferrovia do Sol” estava em vias de ser implementada e também comprovou que trecho na BR-163 foi asfaltado no governo do presidente Bolsonaro.

Enganoso, para o Comprova, é o conteúdo retirado do contexto original e usado em outro de modo que seu significado sofra alterações.

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Foto de Capa: Comprova/Reprodução.

Médico tira de contexto dados de estudo para sugerir que máscaras são ineficientes

* Investigado por Luciana Petersen e Juliana Dias, do Coletivo Bereia, em parceria com Correio 24 horas e Favela em Pauta. Verificado por Jornal do Commercio, NSC Comunicação, Folha, UOL, Estadão, GZH e A Gazeta. Publicado originalmente no Projeto Comprova.

É enganoso o tuíte que insinua que o uso de máscara é ineficaz contra o novo coronavírus com base em dados de 154 pacientes que testaram positivo para o novo coronavírus nos Estados Unidos coletados no mês de julho deste ano. O tuíte compartilha parte de uma tabela publicada em um artigo do Centro de Controle e Prevenção de Doenças (CDC) dos Estados Unidos e destaca os dados sobre o uso de máscara: 85% dos novos casos eram pacientes que usavam a máscara sempre ou com frequência nos 14 dias que antecederam o início da doença, 7% usavam eventualmente e 8% usavam raramente ou nunca.

O tuíte, contudo, omite a informação de que a tabela foi publicada em um estudo que afirma que a exposição da comunidade e o contato próximo entre as pessoas contribui para a disseminação de covid-19. O artigo leva em conta o processo de reabertura em bares e restaurantes e conclui que os pacientes infectados tinham, aproximadamente, duas vezes mais chances de frequentar estes locais, onde é mais difícil manter o uso de máscaras e outros tipos de cobertura facial. Ou seja, quando as pessoas tiram a máscara, aumenta o risco de contaminação.

O autor do post não respondeu às tentativas de contato do Comprova até o fechamento desta verificação.

Como verificamos?

Primeiramente, buscamos o artigo original que contém a tabela compartilhada pelo usuário do Twitter @AlessandroLoio2. Na rede social ele não cita sua formação, mas a imagem de capa do perfil mostra a ‘orelha’ de um livro de sua autoria em que ele afirma ser médico, formado em 1996 pela Escola de Medicina da Santa Casa, no Espírito Santo, e ex-coordenador da Secretaria Especial da Cultura do governo federal.

Em seguida, buscamos por registros com o nome de Alessandro Loiola no Conselho Regional de Medicina do Espírito Santo e por menções a seu cargo como coordenador na Secretaria Especial de Cultura.

Procuramos ainda os responsáveis pela publicação do artigo onde consta a tabela publicada no Twitter, o autor do tuíte, além dos médicos infectologistas Edimilson Migowski, que é professor de Doenças Infecciosas da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), e Alberto Chebabo, diretor médico do Hospital Universitário Clementino Fraga Filho/UFRJ.

Até o fechamento desta verificação, os responsáveis pelo artigo não tinham respondido aos e-mails enviados pelo Comprova. Procurado através de seu e-mail pessoal e de outro contato usado em seu portal, Alessandro Loiola também não retornou.

O Comprova fez esta verificação baseado em informações científicas e dados oficiais sobre o novo coronavírus e a covid-19 disponíveis no dia 19 de outubro de 2020.

Os dados são reais?

As informações do tuíte são verdadeiras, mas foram tiradas de contexto para levar a uma conclusão enganosa. Os dados constam em uma tabela que faz parte de um artigo publicado no dia 11 de setembro no site do CDC. A publicação original, no entanto, não faz menção a uma eventual ineficácia do uso de máscaras.

Pelo contrário: os pesquisadores mostraram que, entre as pessoas que relataram exposições semelhantes durante os 14 dias antes do início da doença, aquelas que testaram positivo tinham aproximadamente duas vezes mais chances de terem frequentado bares ou restaurantes neste período. O problema é que, nestes lugares, apontam os pesquisadores, não se pode usar máscaras com eficácia durante refeições e ingestão de bebidas.

“Relatos de exposições em restaurantes foram relacionados à circulação de ar. A direção, a ventilação e a intensidade do fluxo de ar podem afetar a transmissão do vírus, mesmo se medidas de distanciamento social e uso de máscara forem implementados de acordo com as orientações atuais. As máscaras não podem ser usadas com eficácia durante as refeições e bebidas, ao passo que fazer compras e muitas outras atividades internas não impedem o uso da máscara”, diz um trecho do artigo assinado por 24 pesquisadores, incluindo Kiva Fisher, da Escola de Saúde Pública de New Orleans e membro da Equipe de Resposta CDC Covid-19.

Ida a restaurantes, bares e cafés

Os pesquisadores ouviram 314 pacientes adultos com mais de 18 anos atendidos em 11 unidades de saúde ambulatoriais dos Estados Unidos no mês de julho. Do total, 154 testaram positivo para a covid-19. Os números destacados pelo tuíte aparecem na continuação de uma tabela que mostra as características desses pacientes.

Sobre o uso de máscaras, eles relataram o seguinte: 70,6% disseram ter usado máscara sempre nos 14 dias que antecederam o início da doença; 14,4% afirmaram que usaram frequentemente; 7,2% usaram algumas vezes; 3,9% usaram raramente e outros 3,9% disseram não ter usado.

O que o tuíte não mostra é que, destes mesmos 154 pacientes que testaram positivo, 40,9% disseram ter ido a restaurantes neste mesmo intervalo de 14 dias e 8,5% afirmaram ter ido a bares ou cafés. É um percentual maior do que os outros 160 pacientes entrevistados e que testaram negativo. Entre eles, 27,7% foram a restaurantes e 5% a bares e cafés.

Esses dados significam que o uso de máscaras é inútil?

A conclusão do artigo aponta que a frequência em locais onde não é possível manter o uso de máscaras corretamente é um fator de risco para contaminação, e é necessário fazer uma avaliação contínua sobre os vários tipos de exposição aos vírus, à medida que locais reabrem – como bares, restaurantes, escolas e igrejas.

“Exposições e atividades nas quais o uso de máscara e o distanciamento social são difíceis de manter, incluindo ir a locais que oferecem refeições e bebidas no local, podem ser fatores de risco importantes para infecção por SARS-CoV-2. A implementação de práticas seguras para reduzir a exposição ao coronavírus durante as refeições e bebidas no local deve ser considerada para proteger os clientes, funcionários e comunidades e retardar a disseminação da covid-19”, conclui o artigo.

Para o infectologista Alberto Chebabo, diretor médico do Hospital Universitário Clementino Fraga Filho, na Universidade Federal do Rio de Janeiro, os dados não apontam que o uso de máscaras seja ineficaz. “Não tem o menor sentido isso que o tuíte afirma. O estudo prova exatamente o contrário. Nos momentos em que tiramos a máscara estamos mais expostos e com maior risco de nos infectarmos. O estudo recomenda o uso da máscara e distanciamento social em suas conclusões”, afirma.

O também infectologista Edmilson Migowski, professor de doenças Infecciosas da UFRJ, explica que a máscara só oferece risco se for mal utilizada. “Por exemplo, eu peguei uma máscara, espirrei, tossi, estou com a covid-19, coloco a minha mão na máscara de uma forma errada, contamino as coisas. Quando a máscara é utilizada dentro dos critérios de utilização, ela é protetora. Ela não seria e não vai ser uma ameaça para as pessoas”, explica.

A própria página do CDC recomenda o uso de máscaras para proteger as pessoas e tem postagens indicando os melhores tipos de máscara e como se proteger, o que inclui cobrir a boca e o nariz com a proteção quando estiver próximo de outras pessoas.

Quem é Alessandro Loiola

Alessandro Lemos Passos Loiola nasceu em 1971, é médico formado pela Escola de Medicina da Santa Casa, no Espírito Santo, e possui dois registros ativos em conselhos regionais de medicina no Brasil: Minas Gerais e São Paulo. Isso é comum porque um médico precisa ter registro em cada estado em que atua.

O registro mais antigo é de Minas Gerais, feito em 7 de fevereiro de 1997 – a foto foi apresentada ao Conselho em 2008. Nele, constam duas especialidades, ou áreas de atuação: cirurgia geral e coloproctologia.

O segundo registro é de 18 de março de 1999, feito no Conselho Federal de Medicina do Espírito Santo, com as mesmas especialidades. Este registro, no entanto, consta como ‘Transferido’.

O terceiro registro, ainda ativo, é do Conselho Regional de Medicina de São Paulo, feito em 7 de janeiro de 2010, mas não há especialidades ou áreas de atuação cadastradas. A exibição de telefones e endereços onde ele poderia trabalhar não foi autorizada pelo usuário e, por isso, eles não aparecem em suas fichas profissionais. O Comprova não conseguiu encontrar um currículo do médico na Plataforma Lattes, que reúne pesquisadores do país.

Em sua conta no Twitter, ele publica o link para um site com conteúdo de direita voltado para o público masculino, como um curso para discutir “as falácias esquerdistas”. Entre as publicações, há outras que se posicionam contra o uso de máscaras de pano. A imagem de capa do perfil mostra a ‘orelha’ de um livro de sua autoria, em que, além de se apresentar como médico, ele diz que foi, também, coordenador da Secretaria Especial de Cultura do governo federal.

A nomeação para o cargo foi publicada no Diário Oficial da União de 27 de novembro de 2019. Alessandro Loiola foi nomeado pelo ministro do Turismo, Marcelo Henrique Teixeira Dias, para exercer o cargo de Coordenador-Geral de Empreendedorismo e Inovação, do Departamento de Empreendedorismo Cultural, da Secretaria da Economia Criativa, da Secretaria Especial da Cultura.

Menos de dois meses depois, no dia 24 de janeiro, ele foi exonerado do cargo também pelo ministro. A exoneração foi publicada no Diário Oficial da União no dia 27 de janeiro de 2020.

No mesmo dia, foram exonerados também outros dois funcionários da Secretaria Especial da Cultura que eram próximos e tinham sido nomeados pelo ex-secretário Roberto Alvim. Este havia sido demitido dez dias antes, após fazer um pronunciamento oficial com referências nazistas, como mostra esta reportagem publicada por O Globo.

Por que investigamos?

Em sua terceira fase, o Comprova checa conteúdos virais que possam espalhar desinformação nas redes sociais sobre a pandemia da covid-19. O tuíte investigado pelo Comprova teve mais de 4 mil interações na rede social até o dia 19 de outubro.

Conteúdos com alegações enganosas, como essas feitas pelo médico, questionando o uso de máscaras, enfraquecem a confiança da população em instituições sanitárias e podem dificultar os esforços de combate à pandemia. Autoridades médicas e acadêmicas defendem o uso de máscara como uma das formas de se voltar à normalidade sem aumentar a disseminação da doença.

Esta não é a primeira vez que as máscaras foram alvo de desinformação. O Comprova já checou boatos que negavam a eficácia das máscaras em proteger as pessoas, outros afirmavam que seu uso era nocivo à saúde e até que insinuavam que a máscara tinha sido responsável pela morte de uma estudante na Alemanha. Também verificamos postagens alarmistas com alegações de que máscaras exportadas pela China estariam contaminadas. Tais alegações não encontram respaldo científico.

Enganoso, para o Comprova, é o conteúdo que usa dados imprecisos ou que induz a uma interpretação diferente da intenção de seu autor; conteúdo que confunde, com ou sem a intenção deliberada de causar dano.

Áudio falso com apoio do Padre Marcelo Rossi a Jair Bolsonaro volta a circular

Voltou a circular nas mídias sociais de grupos católicos e evangélicos, um áudio atribuído ao Padre Marcelo Rossi, no qual ele declara apoio ao governo Jair Bolsonaro. O áudio é antigo, circulou durante a campanha eleitoral de 2018, e foi desmentido pelo próprio Padre Marcelo e verificado como falso por várias agências de checagem de notícias.

O Projeto Comprova publicou, em 15 de setembro de 2018, matéria sobre o áudio que o Coletivo Bereia reproduz aqui com adaptações.

Comprova: Padre Marcelo Rossi não divulgou áudio com apoio a Bolsonaro

É falsa a informação de que o padre Marcelo Rossi apoia o candidato à Presidência pelo PSL, Jair Bolsonaro. Um áudio atribuído ao religioso que circula no WhatsApp e no YouTube diz que o candidato do PSL é “pró-família, pró-Deus e pró-valores”. “E quando vejo quem são os inimigos do Bolsonaro, eu falo ‘eu to escolhendo o cara certo para votar’”, diz o homem em trecho final do áudio. O padre Marcelo Rossi negou que a voz na gravação seja dele.

No WhatsApp, uma corrente com o áudio é compartilhada seguida de um texto que chama Marcelo Rossi de porta-voz da igreja.

O Comprova localizou versões do áudio que variam de 9 a 18 minutos —é possível ouvir aplausos em determinados momentos. A informação falsa da peça está no texto que acompanha o áudio, atribuindo o discurso a Marcelo Rossi. Em nenhum momento do áudio viral o dono da voz, também vítima da informação falsa, diz seu nome.

Nas suas mídias sociais, Marcelo Rossi pediu ajuda aos seus seguidores para encontrar o responsável por criar o boato. “Um áudio que está viralizando no WhatsApp, e eu nem tenho WhatsApp, com a minha voz falando sobre política, falando absurdos. Além de ser uma notícia mentirosa, eu jamais me meto em política, vocês me conhecem”, disse o sacerdote.

“Além do que não é a minha voz. Infelizmente foi viralizado. Eu não me meto em política. A minha função é orar pelo Brasil”

Padre Marcelo Rossi

Em comentários nas mídias sociais, internautas afirmaram que o autor da voz é Rinaldo Seixas Pereira, o Apóstolo Rina, da igreja Bola de Neve, que não faz imitações de Marcelo Rossi e que seria tão vítima do boato falso quanto Marcelo Rossi. O Comprova tentou contato com Rina pelo telefone da igreja, sem sucesso. Até a publicação deste texto, Rina também não tinha respondido às solicitações feitas por e-mail pelo Comprova.

O site Aos Fatos também fez a verificação deste boato.

O Projeto Comprova é uma coalizão de 24 veículos de imprensa que visa combater a desinformação durante as eleições presidenciais.

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Bereia alerta leitoras/es: não compartilhem conteúdo que chegue por Whatsapp e peça a quem recebe: “Repasse para seus contatos”, “Compartilhe, o país está nas nossas mãos”. Este tipo de mensagem é, frequentemente, falsa e o apelo é feito justamente para usar as pessoas como propagadoras de material falso.

Sempre desconfie; antes de compartilhar, verifique a veracidade do conteúdo. As agências e projetos de checagem de conteúdos como o Comprova, Aos Fatos, Lupa, Fato ou Fake?, Boatos.org, E-Farsas e o Coletivo Bereia, com sua especialidade em verificar conteúdo de cunho religioso ou que circula em mídias religiosas, fazem verificações de boatos que circulam na internet. Nosso WhatsApp está disponível para receber indicações de checagem: (38) 98418-6691.