Fala mal construída de Lula é manipulada para acusação falsa de pedofilia e é parte de mobilização maior da direita política | parte 2

Mentiras em torno de uma fala do presidente Lula pronunciada em comício pela reeleição, em Belém, em 28 de setembro passado, foram produzidas pelo deputado Nikolas Ferreira, pela senadora Damares Alves, entre outros parlamentares com identidade religiosa e por mídias alinhadas à direita. Bereia checou e colocou o caso em um contexto maior de exploração do tema da proteção às crianças por políticos que mobilizam religião em suas ações.

Na segunda parte deste levantamento, Bereia verifica como a ideia de uma infância ameaçada aparece no debate público atual com exploração do medo e recurso a falsidades. Para isso foram identificados discursos públicos realizados ao longo de 2026 por parlamentares, lideranças e organizações religiosas, movimentos ligados à educação domiciliar e atores envolvidos em debates sobre proteção infantil. O levantamento reuniu pronunciamentos, proposições legislativas, audiências públicas, páginas institucionais e conteúdos religiosos.

O objetivo não foi buscar apenas menções a “ideologia de gênero”, a escola ou ao homeschooling, temas relatados na parte 1 desta reportagem. A pergunta aplicada ao levantamento foi mais ampla: quando esses atores falam em proteger crianças, do quê e de quem  dizem que elas precisam ser protegidas? 

Após a revisão das fontes e a retirada de conteúdos redundantes, o Bereia reuniu 22 ocorrências de 2026, envolvendo proteção da infância, educação e autoridade parental. Foram considerados pronunciamentos, proposições legislativas, audiências públicas, páginas institucionais e conteúdos religiosos. Cada ocorrência foi classificada segundo a ameaça apresentada, o agente responsabilizado, o papel atribuído à família e a resposta proposta. As categorias podem se sobrepor. 

O levantamento é qualitativo e não representa estatisticamente o conjunto de conservadores, religiosos ou parlamentares brasileiros. O caráter qualitativo e intencional levam a resultados que não representam estatisticamente o discurso de grupos religiosos ou de conservadores brasileiros. Eles permitem identificar, porém, alguns padrões entre os episódios observados.

As 22 ocorrências analisadas pelo Bereia

Data Ator / organização Material analisado Principal enquadramento identificado
03/02/2026Carla DicksonPL 188/2026“Sexualização precoce” em ambientes educacionais, culturais e institucionais
04/02/2026Julia ZanattaPL 289/2026Sexualização, exploração e riscos no ambiente digital
23/02/2026Damares AlvesPronunciamentoErotização, violência sexual e responsabilidade de adultos
07/04/2026Ana Paula LimaPL 1.637/2026Exploração sexual de crianças no ambiente digital
13/04/2026Dr. Ismael AlexandrinoPL 1.765/2026Gênero e sexualidade na escola e autorização dos responsáveis
23/04/2026Material de Escola DominicalConteúdo religiosoEscola, cultura, “ideologia de gênero” e formação moral pela família
03/05/2026Raimundo SantosPL 2.131/2026Sexualidade, identidade de gênero, orientação sexual e veto parental
06/05/2026José MedeirosPL 2.209/2026“Ideologia de gênero”, orientação sexual e direito de veto dos pais
06/05/2026Damares AlvesManifestação públicaErotização e violência também no ambiente familiar
18/05/2026Teresa LeitãoPronunciamentoExploração sexual e redes criminosas no ambiente digital
19/05/2026Silvio AntonioPL 2.474/2026Precedência da família na orientação moral e religiosa
20/05/2026Magno MaltaPronunciamentoAbuso intrafamiliar e violência praticada por pessoas próximas
26/05/2026Eduardo GirãoPronunciamentoEstado, escola, “doutrinação” e educação domiciliar
27/05/2026Magno MaltaPronunciamentoEscola, professores, “doutrinação” e homeschooling
27/05/2026Eli BorgesPL 2.655/2026Conteúdos educacionais e convicções morais e religiosas das famílias
27/05/2026Mauricio do VôleiProjeto de leiSexualização, conteúdos considerados inadequados e proteção da infância
28/05/2026Zequinha MarinhoProjeto de leiAbordagem escolar de sexualidade e gênero e autoridade parental
09/06/2026Nikolas FerreiraAudiência públicaAutoridade dos pais e educação domiciliar
2026Associação Nacional de Educação Domiciliar (ANED)Página institucional / eleitoralLiberdade educacional, direitos parentais e homeschooling
01/07/2026Jadyel AlencarDebate em comissão da CâmaraSuperexposição infantil por responsáveis e ambiente digital
10/07/2026Romero Rodrigues / Dagoberto NogueiraDebate em comissão da CâmaraAdultização infantil e responsabilidade compartilhada
28/08/2026Carlos VianaProjeto de leiExposição de crianças e adolescentes a publicidade de natureza sexual

Fonte: levantamento próprio do Coletivo Bereia. Cada linha corresponde a uma ocorrência utilizada no corpus. A presença de um ator mais de uma vez significa que foram analisadas manifestações distintas. As categorias são analíticas e não excludentes.

Em 11 ocorrências, escola, currículo, discussões sobre gênero e sexualidade, autoridade parental ou educação domiciliar estavam diretamente no centro da disputa. Outras três incluíam ambientes educacionais em debates mais amplos sobre sexualização, adultização ou exposição a conteúdos considerados impróprios. Em seis registros, a ameaça estava ligada à internet, plataformas, influenciadores ou exploração no ambiente digital.

O que apareceu no levantamento

Categoria identificada Ocorrências
Escola, currículo, discussões sobre gênero e sexualidade, autoridade parental ou educação domiciliar no centro da disputa 11
Ambientes educacionais em debates mais amplos sobre sexualização, adultização ou exposição a conteúdos considerados impróprios 3
Internet, plataformas, influenciadores ou exploração no ambiente digital 6

Nota: as categorias podem se sobrepor. O levantamento é qualitativo e não representa estatisticamente o conjunto de conservadores, religiosos ou parlamentares brasileiros.

Fonte: levantamento próprio do Coletivo Bereia, 2026.

Ao contrário do que indicam os dados oficiais levantados na parte 1 desta reportagem, as ocorrências identificadas mostram que o perigo passa com frequência a ser localizado fora da família: na escola, em espaços públicos, em determinados conteúdos ou em atores sociais, enquanto a família assume o papel de espaço privilegiado de proteção. 

Essa representação ganhou também expressão legislativa. Entre 13 de abril e 28 de maio de 2026, sete projetos foram apresentados no Congresso para ampliar ou assegurar direitos parentais diante da abordagem escolar de gênero, sexualidade, moral ou religião. As propostas variam em alcance, mas incluem autorização prévia, direito de veto, comunicação aos responsáveis e precedência da família na orientação moral e religiosa.

A questão imposta a partir do levantamento do Bereia, portanto, não é se pais devem ou não proteger os filhos. É quem define onde está o perigo e quais instituições são apresentadas como ameaça ou proteção quando a infância entra na disputa política, o que é marcado pelo acionamento do medo e de enganos frente aos dados oficiais.  

O que realmente ajuda a proteger uma criança? 

Se, conforme dados empíricos e oficiais, o agressor pode ser alguém que a criança conhece, ama, admira ou aprendeu a obedecer, a prevenção não pode se resumir a ensiná-la a evitar desconhecidos ou situações consideradas perigosas fora de casa. Ela precisa também aprender, de maneira adequada à idade, que possui direitos sobre o próprio corpo, que determinados contatos podem ser recusados mesmo quando partem de alguém conhecido e que existem situações que devem ser contadas a um adulto de confiança.

Isso não significa transferir para a criança a responsabilidade por impedir uma violência. A proteção continua sendo dever dos adultos, das instituições e do Estado. O conhecimento funciona como uma camada adicional de proteção, capaz de ajudar meninas e meninos a reconhecer situações inadequadas, pedir ajuda e encontrar palavras para contar o que aconteceu.

Programas escolares de prevenção de violência sexual trabalham justamente com esse tipo de conteúdo. Um estudo da rede global Cochrane que reuniu 24 pesquisas, envolvendo 5.802 crianças e adolescentes, identificou elementos recorrentes nesses programas: regras de segurança, conhecimento sobre o próprio corpo e suas partes íntimas, distinção entre diferentes tipos de toque e de segredo e identificação de pessoas a quem recorrer quando algo acontece.

A revisão encontrou evidências de que crianças que participaram desses programas ampliaram tanto o conhecimento sobre prevenção do abuso sexual quanto habilidades de autoproteção. Também não foram encontradas evidências de que as atividades aumentassem medo ou ansiedade entre os participantes. Em relação à revelação de abusos, os resultados indicaram maior probabilidade de relatos entre crianças expostas aos programas, embora os próprios autores ressaltem incertezas metodológicas nesse resultado.

A evidência disponível, portanto, não autoriza afirmar que uma aula ou programa escolar seja capaz, isoladamente, de impedir que uma criança sofra abuso. A própria revisão Cochrane observa que os estudos não permitem avaliar adequadamente efeitos de longo prazo sobre a incidência da violência. O que os resultados sustentam é algo mais específico: essas intervenções aumentam conhecimento e habilidades de proteção.

No Brasil, materiais produzidos pelo Fundo das Nações Unidas para a Infância  (UNICEF) tratam a escola como parte dessa rede. O guia Conhecer para Proteger, elaborado pelo UNICEF, em parceria com a Secretaria Municipal de Educação de São Paulo, foi criado para auxiliar educadores a reconhecer, acolher, prevenir e encaminhar diferentes formas de violência contra crianças. O documento parte da compreensão de que a escola pode funcionar como espaço privilegiado para a identificação de violências físicas, psicológicas, sexuais e situações de negligência. 

A estratégia Educação que Protege, também do UNICEF, é ainda mais direta: segundo a organização, é na escola que muitas violências sofridas no ambiente familiar ou comunitário são percebidas e é a professores que estudantes, muitas vezes, relatam pela primeira vez experiências de sofrimento. Entre os fatores que a instituição associa à prevenção estão autoproteção, autoestima, autoconfiança, construção de relações protetivas e capacidade de romper ciclos de violência. 

Isso ajuda a explicar por que determinados conhecimentos sobre corpo e limites não são tratados por especialistas como uma ameaça à infância, mas como instrumentos possíveis de proteção.

Ensinar uma criança pequena que determinadas partes do corpo são privadas; que ela pode dizer não a um toque que a deixa desconfortável; que ninguém deve obrigá-la a guardar um segredo que lhe cause medo; ou que deve procurar outro adulto caso a primeira pessoa não a escute não equivale a ensinar práticas sexuais.

É justamente essa diferença que tende a desaparecer quando qualquer abordagem de corpo, sexualidade ou consentimento é resumida politicamente pela expressão “sexualização infantil”.

A escola tampouco deve ser idealizada. Violências também podem ser cometidas em instituições de ensino, por profissionais, colegas ou outras pessoas. Uma política de proteção precisa reconhecer essa possibilidade e criar mecanismos de prevenção e responsabilização.

Sua função na rede de proteção é outra: oferecer à criança relações e canais de escuta que não dependam exclusivamente de sua própria família.

Essa característica ganha importância particular quando os dados apresentados anteriormente mostram que a residência é o principal local dos estupros de vulnerável registrados e que familiares e conhecidos predominam entre os autores identificados.

Se a pessoa que ameaça a criança pode ser justamente alguém de quem ela depende, a proteção exige mais do que vigilância parental. Exige que a criança saiba que pode falar. E que exista alguém, fora daquela relação de poder, capaz de ouvi-la.

E quando a criança deixa de frequentar a escola?

Se a escola pode funcionar como um dos espaços externos à família em que situações de violência são percebidas ou reveladas, a expansão da educação domiciliar coloca uma questão adicional para a rede de proteção: quem mantém contato independente e regular com a criança quando sua rotina educacional passa a acontecer predominantemente dentro de casa?

A pergunta está no centro de um debate que voltou a ganhar força no Congresso em 2026, como o Bereia já publicou. O PL 1.338/2022, que regulamenta a educação domiciliar na educação básica, permanece em tramitação no Senado. O texto foi aprovado pela Câmara em 2022 e recebeu parecer favorável da relatora na Comissão de Educação e Cultura, senadora Professora Dorinha Seabra (União-TO). 

Pelo projeto, a educação domiciliar não significaria um rompimento completo com o sistema escolar. A criança ou adolescente teria de permanecer matriculado anualmente em uma instituição de ensino credenciada. Pelo menos um dos responsáveis ou o preceptor deveria comprovar formação superior ou profissional tecnológica, e os pais ou responsáveis teriam de apresentar certidões criminais. O currículo deveria observar a Base Nacional Comum Curricular, e as atividades realizadas em casa seriam registradas em relatórios trimestrais enviados à instituição. 

O texto prevê ainda acompanhamento por um docente tutor da escola, com encontros semestrais envolvendo responsáveis, estudante e eventual preceptor, além de avaliações anuais de aprendizagem. Também estabelece acompanhamento pelo sistema de ensino e fiscalização pelo Conselho Tutelar, bem como a obrigação de garantir a convivência familiar e comunitária da criança ou adolescente. 

Há ainda impedimentos relacionados à proteção da criança. A modalidade não poderia ser adotada quando o responsável legal direto tivesse sido condenado ou estivesse cumprindo pena por crimes previstos no Estatuto da Criança e do Adolescente, na Lei Maria da Penha, nos crimes contra a dignidade sexual previstos no Código Penal, na Lei de Drogas ou na Lei de Crimes Hediondos. 

Esses dispositivos são apresentados por defensores da regulamentação como demonstração de que homeschooling não significaria ausência de supervisão estatal. Em pronunciamento no Senado, Magno Malta (PL-ES) chegou a citar a existência do Conselho Tutelar ao responder às críticas sobre a dificuldade de fiscalização das famílias que adotassem a modalidade. 

O texto, portanto, prevê salvaguardas. Porém, a pergunta levantada pelos dados sobre violência intrafamiliar é mais específica: essas salvaguardas são suficientes para que uma criança que esteja sofrendo violência dentro de casa consiga ser vista, ouvida e protegida?

Grande parte dos mecanismos estabelecidos no projeto está relacionada ao acompanhamento pedagógico: matrícula, currículo, relatórios, avaliações e desempenho escolar. Há previsão expressa de fiscalização pelo Conselho Tutelar e de contatos periódicos com a instituição de ensino. No texto aprovado pela Câmara e agora analisado pelo Senado, porém, Bereia não identificou exigência expressa de visitas domiciliares periódicas, de escuta individual e reservada da criança sem a presença dos responsáveis ou de outro procedimento específico voltado à detecção de uma eventual violência praticada dentro da própria residência. 

A distinção é importante porque uma certidão criminal pode impedir que alguém já condenado em determinadas situações adote a modalidade, mas não resolve, por si só, o problema de uma violência que ainda não foi descoberta ou denunciada.

Essa preocupação não permite concluir que crianças educadas em casa sofram mais abusos.

Um artigo publicado, em 2025, na revista científica Child Abuse & Neglect, realizada por pesquisadores das universidades da Pensilvânia, Carolina do Norte, Berkeley e Southern California, analisou justamente a relação entre homeschooling e maus-tratos infantis nos Estados Unidos. Os autores encontraram evidências empíricas ainda limitadas e insuficientes para estabelecer que crianças educadas em casa tenham maior risco de abuso ou negligência do que estudantes escolarizados. 

Ao mesmo tempo, a revisão identifica uma preocupação específica: a redução do contato cotidiano com profissionais e instituições externas à família pode diminuir oportunidades de identificação de maus-tratos. Casos graves envolvendo crianças homeschoolers impulsionaram propostas de maior supervisão em estados norte-americanos, mas os autores ressaltam que faltam dados confiáveis para medir adequadamente o fenômeno.

É justamente essa função de observação externa que organismos de proteção destacam ao falar da escola.

Unicef

O UNICEF afirma que muitas violências ocorridas no ambiente familiar ou comunitário são percebidas na escola e que professores estão, frequentemente, entre as primeiras pessoas a quem estudantes contam experiências de sofrimento. Por isso, a organização trata a comunidade escolar como parte de uma rede intersetorial que envolve também saúde, assistência social, Conselhos Tutelares, segurança pública e Justiça. 

Ao se posicionar especificamente sobre educação domiciliar, o UNICEF argumentou que a escola desempenha funções que vão além da aprendizagem: convivência com diferentes pessoas e ideias e, especialmente, proteção contra a violência. A organização relacionou essa preocupação ao fato de grande parte das violências contra crianças ocorrer dentro de casa e envolver pessoas conhecidas.

O debate, portanto, não pode ser reduzido a uma oposição entre “pais que protegem” e “Estado que interfere”, nem à ideia inversa de que toda criança educada em casa estaria em situação de risco.

Quem define o perigo?

Quando a violência pode partir de alguém próximo, proteção significa também permitir que crianças adquiram linguagem para reconhecer limites, tenham contato com diferentes adultos de confiança e saibam que podem buscar ajuda fora da relação em que a violência ocorre.

É aí que a diferença entre proteção baseada em evidências e proteção mobilizada como disputa moral se torna relevante. Foi esse deslocamento que o Bereia encontrou ao percorrer dados oficiais, pesquisas, checagens anteriores e manifestações políticas de 2026. A questão não é decidir quem “se importa mais” com as crianças.

É observar quem recebe autoridade para definir o perigo, quais ameaças são colocadas no centro do debate e quais ficam à margem quando se fala em protegê-las. Porque uma política de proteção infantil não pode depender apenas daquilo que mais assusta, mobiliza e cria identificação política. Precisa começar por aquilo que as evidências mostram.

E, quando os dados indicam que o perigo pode estar justamente entre pessoas conhecidas, relações de confiança e paredes familiares, proteger crianças também significa garantir que elas tenham direitos, informação e pessoas a quem recorrer além dessas paredes.

****

O levantamento do Bereia e os dados pesquisados indicam um processo de desinformação em torno dos perigos alçados a prioridade política e legislativa por parlamentares e grupos alinhados à direita política, que apagam aqueles, mais frequentes nos registros oficiais, que fazem parte do mesmo debate. 

Referências: 

UNICEF/FBSP – Panorama da Violência Letal e Sexual contra Crianças e Adolescentes no Brasil 2021–2023. https://www.unicef.org/brazil/relatorios/panorama-da-violencia-letal-e-sexual-contra-criancas-e-adolescentes-no-brasil-2021-2023  Acesso em 30 set 2026

UNICEF – Disrupting Harm in Brazil: Enfrentando a violência sexual contra crianças facilitada pela tecnologia (2026). https://www.unicef.org/brazil/relatorios/disrupting-harm-brazil-2026   Acesso em 30 set 2026

UNICEF – Educação que Protege. https://www.unicef.org/brazil/educacao-que-protege   Acesso em 30 set 2026

UNICEF/SME-SP – Conhecer para Proteger: enfrentando a violência na primeira infância. https://www.unicef.org/brazil/relatorios/conhecer-para-proteger   Acesso em 30 set 2026

UNICEF – Experiências didáticas por uma Educação que Protege. https://www.unicef.org/brazil/relatorios/experiencias-didaticas-por-uma-educacao-que-protege   Acesso em 30 set 2026

UNICEF/Undime https://www.unicef.org/brazil/relatorios/busca-ativa-escolar-e-protecao-contra-violencias   Acesso em 30 set 2026

Lei 13.431/2017 https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2015-2018/2017/lei/l13431.htm   Acesso em 30 set 2026

Trotti & Lowenkron

https://www.scielo.br/j/sess/a/q5rrcnY5bDHDLTf7qFk4BRL/abstract/?lang=pt   Acesso em 30 set 2026

Educação https://educa.fcc.org.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1984-64442023000100298   Acesso em 30 set 2026

Revista Linhas ,https://share.google/FnoRxGFRZIUlh9wcc   Acesso em 30 set 2026

Cadernos de Pesquisa. https://www.scielo.br/j/cp/a/W6SQyMyKWG6SfzKbLVbsWHQ/abstract/?lang=pt   Acesso em 30 set 2026

PL 1.338/2022 – Senado Federal.
https://www25.senado.leg.br/web/atividade/materias/-/materia/153194   Acesso em 30 set 2026

RQS 495/2026.
Requerimento apresentado por lideranças do Novo, PL, PP e Republicanos. https://www25.senado.leg.br/web/atividade/materias/-/materia/174906   Acesso em 30 set 2026

Influenciador cristão propaga conteúdo enganoso no Youtube sobre descriminalização de pedofilia e drogas

Em 17 de abril, o músico e influenciador cristão Rafael Bitencourt publicou, em seu canal no YouTube, um vídeo em que afirma que a Organização das Nações Unidas (ONU) tem um novo projeto para que seus países membros descriminalizassem o uso de drogas e atos sexuais entre adultos e crianças. O conteúdo ultrapassou a marca de 75 mil visualizações em apenas 10 dias.

No vídeo, Rafael faz uso de imagens de captura de tela, de um site dos Estados Unidos, que teria publicado a notícia para sustentar sua afirmação. Outros veículos de comunicação, como Gazeta do Povo e Tribuna Nacional, repercutiram a polêmica.

Conteúdo e objetivo do vídeo 

O vídeo intitulado “Todo cristão e quem ainda tem alma, têm que ver isso! Novo Projeto da ONU (sic) traz como imagem de capa (“thumbnail”) o símbolo da Organização das Nações Unidas (ONU) com os dizeres: “pediu a legalização da ‘pedo’ e das drogas”.

Imagem: reprodução do Youtube



Segundo o youtuber, ele precisa “passar a informação e instar” os seguidores “a pensar e criticar sabiamente essa agenda global”. Na sequência, o músico afirma que a ONU lançou um relatório com orientações jurídicas para seus países membros com relação a descriminalização do uso de drogas e de atos sexuais entre adultos e crianças.

Ao longo do vídeo, o influenciador Rafael Bitencourt apresenta a cartilha supostamente publicada pela ONU e diz: “está aí, a ONU pede a liberação da ‘pê.do’, é isso que você está vendo”. Bitencourt não menciona a palavra “pedofilia”. Segundo ele, é constantemente perseguido e corre o risco de ter seus vídeos banidos da plataforma caso mencione determinadas palavras.

Um pouco adiante, o influenciador afirma que o documento da ONU usa “as terminologias utilizadas pela esquerda marxista, pelos socialistas do Brasil ou de vários lugares do mundo, a exemplo dos estados democratas radicais nos Estados Unidos, da Holanda, de outros países do mundo”.

O vídeo é marcado por indagações genéricas como “para quem a ONU trabalha?” e por omissões reiteradas de palavras que supostamente levariam à retirada do vídeo da plataforma. Uma clara necessidade de manter a constante mensagem de que algo oculto está sendo revelado pelo influenciador e que por isso há perseguição.

Imagem: reprodução do Youtube

Quem é Rafael Bitencourt

Rafael Bitencourt é músico, abertamente cristão, e foi membro da banda gospel Toque no Altar. Em 2011, rompeu com o grupo e seguiu carreira solo, tendo lançado três discos desde então, sempre no nicho gospel. As informações estão disponíveis na aba “sobre” da conta do cantor no Spotify.

Seu canal no YouTube, criado em 2011, mesma época em que o músico iniciou carreira solo, continha vídeos de cunho musical ou religioso até meados de 2019. Músicas autorais, pregações e testemunhos de fé podiam ser facilmente encontrados.

Com o início da pandemia de covid-19, porém, Bitencourt realizou uma mudança em sua presença digital. Em 23 de março de 2020, o youtuber publicou o vídeo “2020 A Igreja Nunca Mais Será a Mesma”, o primeiro em que é possível constatar uma nova forma de se apresentar para o grande público, deixando de lado a música e incorporando abordagens de temas de grande engajamento nas redes digitais.

No dia 28 do mesmo mês, Bitencourt publicou vídeo intitulado “Quarentena? É muito além disso! Entenda!!!”. A partir daí, observa-se o aumento na frequência de postagens, vídeos mais elaborados e a paulatina construção de um discurso conspiratório sobre política, finanças, ciência e religião.

Real origem do relatório apresentado por Rafael Bitencourt

O documento utilizado por Bitencourt para sustentar o argumento, segundo o qual a ONU gostaria de promover o consumo de drogas e a pedofilia, intitula-se, em tradução livre, “Os princípios de 8 de março para uma abordagem baseada em Direitos Humanos para a proscrição de uma condução de Direito Penal associada a sexo, reprodução, uso de drogas, HIV, falta de moradia e pobreza”.

Imagem: site da Comissão Internacional de Juristas

Ao contrário do que diz o youtuber, o documento em questão não foi publicado pela ONU. Trata-se de uma publicação da Comissão Internacional de Juristas (CIJ), organização não-governamental, fundada em 1952, que reúne 60 juristas de todas as partes do mundo com o objetivo de “garantir o desenvolvimento e a efetiva implementação dos direitos humanos internacionais e do direito internacional humanitário”.

A CIJ não tem o poder de implementar legislações, quer sejam internacionais ou nacionais. Suas publicações são orientações gerais, oferecidas por um grupo de juristas, que podem servir de inspiração para juízes, legisladores ou, até mesmo, para discussão em foros internacionais. No caso específico da publicação de 8 de março, a CIJ promoveu uma apresentação da abordagem na 52ª Sessão do Conselho de Direitos Humanos da ONU, no último Dia Internacional da Mulher, em Genebra, em conjunto com programas específicos da ONU, organizações não governamentais e governos nacionais.

Do que trata o relatório da CIJ

O documento foi lançado em 8 de março de 2023, Dia Internacional da Mulher, e aponta questões consideradas importantes para a preservação dos direitos humanos no mundo. Como o título informa, não apenas drogas e direitos sexuais e reprodutivos estão incluídos, mas também o cenário da pobreza, da falta de moradia e das condições de portadores do HIV.

O cerne da preocupação exposta no documento é a atual tendência crescente de Estados utilizarem o Direito Penal para lidarem com situações diversas, da pobreza a comportamentos sexuais, resultando em um processo de excessiva criminalização de indivíduos e, às vezes, de comunidades inteiras. 

O documento ressalta que, embora o Direito Penal esteja disponível como forma mais dura de controle estatal, muitas vezes é utilizado em sua função meramente expressiva, sem levar em conta aspectos como dissuasão e reabilitação dos indivíduos.

Ao contrário do que afirma o influenciador cristão, não se trata de propor que países adotem legislações exageradamente permissivas. O que o documento propõe é que haja, primeiro, uma abordagem não-penal dos fenômenos descritos, para que os direitos humanos sejam preservados.

Conduta sexual consensual

O documento da CIJ afirma que o sexo com consentimento não deve ser criminalizado, independentemente de quem esteja envolvido. Fica clara a preocupação dos juristas com perseguições à comunidade LGBTQIA+ e com a criminalização, que ocorre em alguns países, do sexo (mesmo que consensual) feito por mulheres antes do casamento.

A respeito da idade de consentimento, aspecto alarmado pelo youtuber, os juristas consideram que a aplicação da lei penal deve considerar as capacidades evolutivas de pessoas menores de 18 anos, tendo em conta sua idade, maturidade, autonomia e, primordialmente, garantindo a não discriminação de indivíduos e comunidades historicamente perseguidas.

Não se busca, como afirma Bitencourt, autorizar a pedofilia ou “aliviar a barra dos criminosos”.  O que se quer é garantir que indivíduos plenamente capazes que, por livre e espontânea vontade, tenham praticado atos sexuais, não sejam considerados criminosos. 

A agência de notícias The Associated Press (AP) desmentiu a informação enganosa, que também circulou fora do Brasil.

Drogas para uso pessoal

Sobre o uso de drogas, os juristas recomendam que não sejam criminalizadas pessoas que tenham sob sua posse drogas para uso pessoal, que distribuam bens ou informações relacionadas ao uso pessoal de drogas, que estejam envolvidas em esforços científicos para prevenir danos associados a drogas e que busquem receber informações sobre serviços de saúde para pessoas que usem drogas.

Apesar de não explorar muito o tema das drogas no vídeo em questão, Bitencourt afirma que “já estão fazendo muita pressão (…) para aprovar a descriminalização”, e então mostra um papel em que é possível ler a palavra “drogas”, em mais uma referência à suposta perseguição promovida contra si na plataforma de vídeos.

Conforme publicado anteriormente por Bereia, tanto o tema da pedofilia quanto o tema das drogas têm sido frequentes em narrativas desinformativas veiculadas por grupos e indivíduos religiosos.

***

O conteúdo checado por Bereia é considerado enganoso. O vídeo oferece a informação de que há um documento, lançado por ocasião do Dia Internacional da Mulher, que trata sobre descriminalização de alguns comportamentos. No entanto, a verdadeira autoria do documento é apresentada de forma a confundir os interlocutores e sua verdadeira substância é manipulada.

A apresentação do conteúdo é desenvolvida para confundir, com títulos e imagens que não correspondem à realidade, instigando julgamentos negativos de uma organização. Além disso, evoca sensacionalismo para conquistar audiência, ao tratar de forma sensacionalista temas de grande apelo popular.

Bereia incentiva que seus leitores e leitoras continuem alertas para conteúdos nas redes digitais que mesclam discurso religioso com pautas políticas pouco claras e que apresentem sinais clássicos de desinformação, como discurso vago, afirmações genéricas, terceirização de responsabilidades e apelo à pauta de costumes.

Referências de checagem:

The 8 March Principles for a Human Rights-Based Approach to Criminal Law Proscribing Conduct Associated with Sex, Reproduction, Drug Use, HIV, Homelessness and Poverty.

https://icj2.wpenginepowered.com/wp-content/uploads/2023/03/8-MARCH-Principles-FINAL-printer-version-1-MARCH-2023.pdf Acesso em: 27 abr 2023

ICJ. https://www.icj.org/icj-publishes-a-new-set-of-legal-principles-to-address-the-harmful-human-rights-impact-of-unjustified-criminalization-of-individuals-and-entire-communities/ Acesso em: 27 abr 2023

UNAIDS. https://unaids.org.br/sobre-o-unaids/ Acesso em: 27 abr 2023

Agência AIDS. https://agenciaaids.com.br/noticia/unaids-novos-principios-juridicos-lancados-no-dia-internacional-da-mulher-para-promover-os-esforcos-de-descriminalizacao/#:~:text=Os%20’%20princ%C3%ADpios%20de%208%20de,falta%20de%20moradia%20e%20pobreza. Acesso em: 27 abr 2023

AP News. https://apnews.com/article/fact-check-united-nations-report-consent-772818741019 Acesso em: 27 abr 2023

***

Imagem de capa: reprodução do Youtube

Deputado federal evangélico Nikolas Ferreira promove desinformação em discurso na Câmara dos Deputados

No último 8 de março, Dia Internacional da Mulher, o deputado federal Nikolas Ferreira (PL-MG) subiu à tribuna da Câmara dos Deputados e, aproveitando-se da data em homenagem às mulheres, proferiu discurso que gerou forte reação negativa nas redes digitais, e por parte de políticos e grupos sociais. Ironizando a realidade de pessoas transgênero, o deputado vestiu uma peruca amarela e passou a falar como se fosse uma mulher de nome “Nicole”. A fala repercutiu como ofensa não apenas às mulheres trans, mas também às mulheres em geral e à sociedade brasileira.

Eleito na esteira do avanço conservador capitaneado pelo ex-presidente da República Jair Bolsonaro,  o filho e neto de pastor Nikolas Ferreira, vinculado à Comunidade Evangélica Graça e Paz, foi o deputado federal mais votado em 2022, com campanha em que se apresentou, genericamente, como “cristão”. Pesquisa do Instituto de Estudos da Religião (ISER) que levantou a identidade religiosa de parlamentares eleitos para o mandato 2023-2017 aponta que, desde as eleições municipais de 2020, políticos passaram a utilizar o termo genérico “cristão” como estratégia para alcançar diferentes segmentos da sociedade que se identificam com as moralidades e valores cristãos. Ele é conhecido por suas polêmicas envolvendo temas religiosos, pautas anti-feministas e LGBTQIAP+ e a defesa de posições radicais.

Bereia checou a fala do deputado e constatou, entre outros temas, falsas menções a  “banheiro unissex”, a acusação de pedofilia à intelectual feminista Simone de Beauvoir (1908-1986) e interpretações pessoais do papel supostamente reservado às mulheres na sociedade.

Banheiro unissex

Em seu discurso, o deputado Nikolas Ferreira fez alusão aos “banheiros unissex”, afirmando que defendia a liberdade “de um pai recusar (…) um marmanjo entrar no banheiro da sua filha sem você ser considerado um transfóbico”. A frase apela para uma das mais utilizadas fake news em campanhas eleitorais nos últimos anos. Ao abordar o assunto, o deputado do PL cria uma situação hipotética de abuso infantil, utilizando o medo como principal recurso retórico.

A fake news do banheiro unissex foi amplamente utilizada na campanha presidencial de 2022, em que apoiadores do candidato Jair Bolsonaro atribuíam a Luís Inácio Lula da Silva um falso projeto de implementar banheiros compartilhados por homens e mulheres nas escolas infantis brasileiras.

Em entrevista à Folha de São Paulo, a pesquisadora do Núcleo de Pesquisa e Extensão em Culturas, Gêneros e Sexualidades da Universidade Federal da Bahia (UFBA) Viviane Vergueiro, afirma que “não necessariamente a demanda da população trans parte da bandeira de banheiros multigênero ou unissex. Ela parte da ideia de que as pessoas trans, como todas as pessoas, têm o direito de utilização dos espaços públicos”.

No entanto, assim como a fake news do “kit gay”, a do banheiro unissex segue sendo utilizada por políticos conservadores para manter suas bases de apoio permanentemente engajadas contra pautas associadas aos grupos progressistas.

A narrativa dos banheiros compartilhados tem sido cada vez mais frequente em diversas disputas ideológicas. Conforme Bereia já publicou, sites religiosos e políticos já exploraram o tema de maneira inadequada, acusando adversários políticos sem apresentar provas ou fontes que sustentem suas alegações. 

Simone de Beauvoir e pedofilia

A fala do deputado Nikolas Ferreira, proferida no Dia Internacional da Mulher, contemplou uma crítica ao feminismo. Entre outros trechos questionáveis do ponto de vista factual, o deputado acusou a intelectual francesa Simone de Beauvoir, célebre feminista, de apoiar a pedofilia.

O parlamentar evangélico fez referência ao controverso episódio, ocorrido em 1977, em que vários intelectuais, incluindo Beauvoir, defenderam, perante o Parlamento francês, a abolição da idade de consentimento para o ato sexual, o que não significa defesa da pedofilia.

A pedofilia é considerada uma doença pela Organização Mundial da Saúde (OMS) desde os anos 1960. Segundo reportagem publicada pelo TAB/UOL, são considerados pedófilos – ou seja, portadores da doença pedofilia – pessoas que sentem atração sexual compulsiva por crianças abaixo de 13 anos. A equivocada associação da doença com o crime contra a dignidade sexual da criança, previsto no arcabouço jurídico brasileiro, é utilizada pela extrema direita no intuito de confundir e causar pânico, conforme Bereia checou.

O deputado utilizou-se do caso específico na França, em 1977, desconhecido por boa parte da população, para menosprezar o feminismo enquanto luta pela justiça de gênero. “Mulheres, vocês não devem nada ao feminismo, pelo contrário”, afirmou.

Trata-se de uma polêmica antiga no Brasil e que já havia demonstrado seu poder de promover agitação ideológica. Os ataques contra Simone de Beauvoir avolumaram-se após o Exame Nacional do Ensino Médio (ENEM) abordar, em 2015, a obra da escritora em uma de suas questões. Nos dias seguintes à realização do exame, uma enxurrada de críticas circulou na internet.

Conforme consta em matéria da BBC divulgada à época, o verbete sobre Beauvoir no site Wikipedia foi alterado diversas vezes, ridicularizando a feminista. Segundo a BBC, de 250 visitas diárias, o verbete passou para 35 mil visitas em um só dia e as edições foram tantas que o site restringiu a possibilidade de alteração do texto, considerando o que ocorreu como “vandalismo excessivo”.

Violência política de gênero no Dia Internacional da Mulher

Em outro trecho de sua fala na tribuna, o deputado do PL dirige-se às mulheres: “retomem sua feminilidade, tenham filhos, amem a maternidade, formem a sua família porque, dessa forma, vocês colocarão luz no mundo e serão, com certeza, mulheres valorosas”. Segundo a avaliação do Instituto de Estudos da Religião (ISER),  utilizando a religião como alicerce de posições políticas conservadoras – o deputado escreveu o livro “O Cristão e a Política”, em que reúne o conteúdo de suas palestras – Nikolas Ferreira valeu-se do Dia Internacional da Mulher para, a partir de suas crenças pessoais, ditar às mulheres como proceder em suas vidas.

Segundo matéria da BBC, o relatório “Evangélicos nas redes”, elaborado pelo NetLab, grupo de pesquisa da Escola de Comunicação da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), identificou que os conteúdos divulgados por Nikolas Ferreira caracterizam-se por propor uma oposição entre evangélicos e figuras ligadas à esquerda do espectro político, sejam políticos ou meros apoiadores. O grande alcance que possui, materializado no expressivo número de votos que obteve no pleito de 2022 – 1,47 milhão de votos, recorde histórico para o cargo de deputado federal –, está relacionado, entre outros fatores, à vinculação da política à religião.

No discurso de 8 de março, Ferreira, enquanto ataca pautas progressistas, defende referências religiosas anti-feministas com base na sua interpretação e na sua opinião, ignorando um fenômeno nada novo na religião: o feminismo de orientação cristã, como recordam as pesquisadoras do ISER. Mundo afora, mulheres protestantes e católicas dedicam-se a uma leitura feminista da Bíblia, ressaltando figuras bíblicas femininas que fogem do modelo de submissão e devoção apregoado por muitos.

Conforme divulgado pelo jornal El País em matéria publicada em 2018, o livro “Uma Bíblia das Mulheres”, desenvolvido por teólogas e historiadoras, apresenta um olhar feminista sobre os ensinamentos bíblicos. Na reportagem, Lauriane Savoy, codiretora do projeto argumenta que “pode-se ler a Bíblia sendo feminista, e inclusive a leitura da Bíblia pode nos nutrir como feministas”.

O feminismo na religião está presente também no Brasil. Odja Barros, que se diz uma “feminista da Bíblia” e é pastora da Igreja Batista do Pinheiro, em Maceió (AL), recebeu apoio do Conselho Nacional de Igrejas Cristãs no Brasil (Conic) após sofrer ameaças de morte por ter celebrado um casamento homoafetivo. Em entrevista ao blog Universa, do UOL, a pastora afirma que “argumentar dizendo ‘É bíblico’ é terrível. Impede o diálogo, é simplesmente para fechar uma postura conservadora e encerrar a conversa”.

Existem, ainda, grupos como o Evangélicas pela Igualdade de Gênero que, no Facebook, descreve-se como uma “ação coletiva em que as mulheres tomam controle de seus próprios assuntos, de sua própria vida e de seu destino”.

***

O discurso proferido pelo deputado federal evangélico Nikolas Ferreira (PL-MG) na tribuna da Câmara dos Deputados no dia 8 de março foi checado por Bereia, que considerou o conteúdo veiculado como enganoso. As informações expostas necessitam de correções, substância e contextualização. Além disso, faz uso do pânico moral para captar apoios e confunde o público dando caráter de informação a interpretações e posições pessoais exclusivistas de leitura da Bíblia, em detrimento das outras abordagens existentes.

O parlamentar exerceu seu direito de discursar para o plenário, utilizando-se de sensacionalismo com discurso transfóbico e de desrespeito à história das lutas das mulheres por direitos, para conquista de audiência, especialmente na data em que o fez, em que se comemorou o Dia Internacional da Mulher.

Referências:

Youtube. https://www.youtube.com/watch?v=XTpCxJl3WLw Acesso em: 10 mar 2023

CNN https://www.cnnbrasil.com.br/politica/apos-discurso-em-que-disse-se-sentir-mulher-deputado-nikolas-ferreira-multiplica-numeros-de-seguidores-nas-redes/ Acesso em: 10 mar 2023

Bereia

https://coletivobereia.com.br/sites-religiosos-e-politicos-exploram-caso-de-suposto-afastamento-de-diretor-de-escola-de-sorocaba-por-transfobia/ Acesso em: 10 mar 2023

https://coletivobereia.com.br/etiquetas/descriminalizar-a-pedofilia/ Acesso em: 10 mar 2023

Folha de São Paulo https://www1.folha.uol.com.br/poder/2022/10/banheiros-unissex-viram-pauta-de-campanha-e-lula-e-bolsonaro-se-dizem-contra.shtml Acesso em: 10 mar 2023

BBC https://www.bbc.com/portuguese/noticias/2015/10/151028_simone_beauvoir_wikipedia_enem_rb Acesso em: 10 mar 2023

El País
https://brasil.elpais.com/brasil/2018/12/06/cultura/1544116577_543552.html Acesso em: 10 mar 2023

BBC
https://www.bbc.com/portuguese/brasil-63136759 Acesso em: 10 mar 2023

Twitter ISER https://twitter.com/isernarede/status/1633887087995879427?t=D7RKPAyL6cwkVieWM8czIA&s=19 Acesso em: 10 mar 2023

Youtube
https://www.youtube.com/watch?v=AfYNI0QvdiM Acesso em: 10 mar 2023

Centro Feminista de Estudos e Assessoria https://www.cfemea.org.br/index.php/pt/?view=article&id=6273:ele-fez-um-discurso-criminoso-diz-duda-salabert-sobre-nikolas-ferreira&catid=567:lgbtqi Aceeso em: 10 mar 2023

Câmara dos Deputados https://www.camara.leg.br/noticias/911272-nikolas-ferreira-e-o-deputado-mais-votado-do-pais-com-147-milhao-de-votos/ Acesso em: 10 mar 2023

UOL

https://www.uol.com.br/universa/noticias/redacao/2020/02/16/usam-palavra-de-deus-para-manter-a-mulher-submissa-diz-pastora-feminista.htm Acesso em: 10 mar 2023

https://tab.uol.com.br/noticias/redacao/2020/06/23/por-que-a-discussao-sobre-abuso-sexual-infantil-precisa-evoluir-no-brasil.htm Acesso em: 10 mar 2023

https://mulherias.blogosfera.uol.com.br/2020/03/07/jesus-apoia-o-feminismo/ Acesso em: 10 mar 2023

Instituto Humanitas Unisinos https://www.ihu.unisinos.br/categorias/615330-nota-do-conic-em-solidariedade-a-pastora-odja-barros Acesso em: 10 mar 2023

Religião e Poder https://religiaoepoder.org.br/artigo/pesquisa-do-iser-levanta-identidade-religiosa-dos-deputados-e-deputadas-federais-diplomados/ Acesso em: 10 mar 2023

Facebook. https://www.facebook.com/mulhereseig Acesso em: 10 mar 2023

***

Imagem de capa: reprodução TV Câmara

Pânico moral sobre “ideologia de gênero”, aborto, erotização de crianças e defesa da família é usado para disputa eleitoral com base em desinformação

Na disputa político-eleitoral de 2022, o principal embate é travado no território da da linguagem. Uma das estratégias mais utilizadas neste conflito informacional é o pânico moral e o ataque à cognição (a forma de raciocínio e assimilação de conteúdo) dos eleitores via mídias sociais. Nas diversas declarações e notícias checadas pelo Bereia em processos eleitorais, temas como “ideologia de gênero”, aborto, erotização de crianças e defesa da “família tradicional” são temas recorrentes. 

O pânico moral pode ser compreendido “numa acepção mais abrangente, como o consenso, partilhado por um número substancial de membros de uma sociedade, de que determinada categoria de indivíduos estaria ameaçando a estrutura social e a ordem moral”. Esta ideia é explicada pelo professor associado de Direito Civil da UFMG César Fiúza e da doutora em Direito Privado pela PUC-MG, Luciana Poli.

Na guerra de discursos pela internet, este estado de pânico é desencadeado com terror verbal com falsas acusações a líderes políticos, partidos e formadores de opinião que não partilham das mesmas opiniões ou são uma ameaça à hegemonia dos grupos que estão atualmente no poder. 

A recente declaração em vídeo da ex-ministra de Estado e senadora eleita  Damares Alves sobre as criancinhas que teriam seus dentes arrancados por pedófilos, sob investigação do Ministério Público, segue uma cartilha já conhecida e bastante utilizada pela senadora eleita: falta de fontes ou provas; combinação e reconfiguração de temas anteriormente explorados; forte apelo à emoção e a fé; discurso exaltado; inimigo a ser combatido.

Segue uma seleção as checagens do Bereia sobre  declarações, publicações e mensagens que exploraram o pânico moral e  “viralizaram” nas mídias sociais religiosas:

Fake news sobre livro de educação sexual infantil nas escolas volta a circular – https://coletivobereia.com.br/fake-news-sobre-livro-de-educacao-sexual-infantil-nas-escolas-volta-a-circular/ 

Em vídeo que volta a circular, ministra propaga pânico sobre erotização em desenhos animados e universidades  – https://coletivobereia.com.br/em-video-que-volta-a-circular-ministra-propaga-panico-sobre-erotizacao-em-desenhos-animados-e-universidades/ 

Ministra Cármen Lucia é acusada em mídias digitais de assinar carta pró-aborto  – https://coletivobereia.com.br/ministra-carmen-lucia-teria-assinado-carta-pro-aborto/

Site religioso afirma que LEGO vai lançar brinquedos com “ideologia de gênero” – https://coletivobereia.com.br/site-religioso-afirma-que-lego-vai-lancar-brinquedos-com-ideologia-de-genero/ 

Site gospel repercute afirmação falsa de Bolsonaro contra STF e ministro Barroso – https://coletivobereia.com.br/site-gospel-repercute-afirmacao-falsa-de-bolsonaro-contra-stf-e-ministro-barroso/ 

Site evangélico diz que pediatra defende masturbação infantil – https://coletivobereia.com.br/site-evangelico-diz-que-pediatra-defende-masturbacao-infantil/ 

Deputado afirma que cartilha de escola em Palmas promove “ideologia de gênero” – https://coletivobereia.com.br/deputado-afirma-que-cartilha-de-escola-em-palmas-promove-ideologia-de-genero/ 

Unicef é contra pornografia para crianças: portais desinformam com interpretação distorcida de estudo do organismo – https://coletivobereia.com.br/unicef-e-contra-pornografia-para-criancas-portais-desinformam-com-interpretacao-distorcida-de-estudo-do-organismo/ 

Portais de notícias religiosas desinformam quanto a suposto projeto comunista para crianças.
https://coletivobereia.com.br/portais-de-noticias-religiosas-desinformam-quanto-a-suposto-projeto-comunista-para-criancas/

Mensagem anônima que circula em mídias sociais usa pânico moral contra partidos de esquerda
https://coletivobereia.com.br/mensagem-anonima-panicomoral/

As mentiras que circulam em ambientes religiosos no Brasil
https://coletivobereia.com.br/as-mentiras-que-circulam-em-ambientes-religiosos-no-brasil/

Referências de checagem:

CUNHA, Magali do Nascimento. Do púlpito às mídias sociais: Evangélicos na política e ativismo digital. Curitiba: Prismas, 2017.

Carta Capital. Artigo: Evangélicos foram alvo privilegiado de mentiras na campanha do 1º turno; veja as principais. Disponível em: https://www.cartacapital.com.br/blogs/dialogos-da-fe/evangelicos-foram-alvo-privilegiado-de-mentiras-na-campanha-do-1o-turno-veja-as-principais/ Acesso em 17 OUT 2022

Artigo. Direitos políticos, liberdade de expressão e discurso de ódio. Volume V – organização de Rodolfo Viana Pereira – Brasília: IBRADEP, 2022. Disponível em: https://abradep.org/wp-content/uploads/2022/06/Direitos-Politicos-Liberdade-de-Expressao-e-Discurso-de-Odio-volume-V.pdf#page=171 Acesso em 17 OUT 2022

Artigo. FIÚZA, Cesar e POLI, Luciana Costa. Famílias Plurais o Direito Fundamental à Família. Revista da Faculdade de Direito da UFMG, n. 67, 2015, p. 151-180. Disponível em: https://egov.ufsc.br/portal/sites/default/files/1730-3302-1-sm.pdf Acesso em 17 OUT 2022

G1. https://g1.globo.com/pa/para/noticia/2022/10/17/termina-nesta-segunda-feira-prazo-para-ministerio-dar-explicacoes-a-procuradoria-do-mpf-apos-relatos-de-damares-sobre-supostas-torturas-contra-criancas-no-marajo.ghtml Acesso em 17 OUT 2022

Revista Questão de Ciência. 

https://revistaquestaodeciencia.com.br/index.php/apocalipse-now/2018/12/05/ameaca-nossos-filhos-cuidado-com-o-panico-moral Acesso em 17 OUT 2022

JN.

https://www.jn.pt/opiniao/david-pontes/panico-moral-6234400.html Acesso em 17 OUT 2022

Uol.

https://noticias.uol.com.br/colunas/carlos-madeiro/2022/08/29/panico-moral-como-ala-evangelica-pro-bolsonaro-cresce-e-domina-as-redes.htm Acesso em 17 OUT 2022

Poder 360.

https://www.poder360.com.br/poderdata/poderdatacast-29-bolsonaro-deve-acionar-panico-moral-em-eleicoes/ Acesso em 17 OUT 2022

Ponte.

https://ponte.org/artigo-bolsonaro-e-o-panico-moral/ Acesso em 17 OUT 2022

Revista Eletrônica Internacional de Economia Política da Informação, da Comunicação e da Cultura.

https://brapci.inf.br/index.php/res/v/158606 Acesso em 17 OUT 2022

Fundação Maurício Grabois.https://grabois.org.br/2022/08/26/o-retorno-do-panico-moral-na-disputa-pelo-voto-evangelico/ Acesso em 17 OUT 2022

***

Foto de capa: Pexels/Samer Daboul

Grupos evangélicos e olavistas ajudaram a espalhar fake news de Bolsonaro sobre esquerda e pedofilia

Publicado originalmente pela Agência Pública. Reportagem de Ethel Rudnitzki e Mariama Correia.

***

Maior portal de notícias evangélicas do país, o Gospel Prime publicou, ainda em maio, texto onde afirmava haver um crescimento de “grupos pela legalização da pedofilia nas redes sociais”. Embora amparado em argumentos falsos e vagos como “muitos usuários das redes sociais relataram a criação de grupos para esse fim”, a publicação do site – listado pela CPMI das Fake News – circulou em grupos de WhatsApp cristãos e foi amplamente compartilhada por evangélicos nas redes sociais no começo de julho.

Reprodução/Facebook
Fake news que associa pedofilia à esquerda circulou em grupos evangélicos

O mesmo argumento do Gospel Prime apareceu no Twitter do presidente Jair Bolsonaro (sem partido), na terça-feira (14). Bolsonaro aproveitou a apresentação de um Projeto de Lei que aumenta a pena para pedófilos para afirmar, sem provas, que “a esquerda busca meios de descriminalizar a pedofilia, transformando-a em uma mera doença ou opção sexual”. O presidente mentiu, como mostraram várias checagens, incluindo esta do UOL e do Projeto Comprova, mas conseguiu atiçar ainda mais grupos religiosos radicais e discípulos do autodeclarado filósofo Olavo de Carvalho, que representam grande parte da sua base aliada.

Personalidades cristãs conservadoras também fizeram coro com Bolsonaro, como a deputada estadual Janaína Paschoal (PSL-SP), que é católica. Ela afirmou ser “muito comum esquerdistas relativizarem o sexo com menores de 14 anos”. O post de Janaína tinha quase seis mil curtidas e 900 compartilhamentos até a quinta-feira (16). O lutador de MMA evangélico Vitor Belfort, também postou no Twitter uma mensagem parabenizando Bolsonaro e Damares Alves pelo projeto e repetiu a fala de que a esquerda “busca meios de descriminalizar a pedofilia”.

Outros religiosos envolvidos na política, como o pastor e deputado estadual Léo Portela (PSL-MG), com mais de 20 mil seguidores no Twitter, também ajudaram a disseminar a fake news, assim como políticos bolsonaristas, a exemplo do Deputado Federal Daniel Silveira (PSL-RJ), e seguidores de Olavo de Carvalho, como o youtuber Bernado Kuster, ambos investigados no inquérito do STF que apura a disseminação de fake news. O boato também foi repercutido por outros portais de direita e circulou por grupos bolsonaristas no WhatsApp.

Reprodução/WhatsApp
Correntes que associam pedofilia à esquerda circulam em grupos bolsonaristas no Whatsapp
Reprodução/WhatsApp
Fake que associa pedofilia à esquerda repercutiu em portais e grupos de direita

Mentiras e moralismo

Bolsonaro usa fake news sobre pedofilia para ganhar apoio de lideranças religiosas conservadoras porque sabe que esse tema dialoga com o “moralismo cristão”, na visão do pastor progressista e crítico do atual governo, Ricardo Gondim. “As fake news fazem parte do arcabouço desse moralismo, que tem na ministra Damares, evangélica, um elemento muito representativo no governo federal”, considera.

Herbert Rodrigues, sociólogo e autor do livro “Pedofilia e suas narrativas”, diz que o tema da pedofilia foi capturado politicamente pela direita e pelas bancadas religiosas há alguns anos. “Desde a CPI da pedofilia no Senado(2008 -2010). Todos os membros da CPI eram homens. Muitos ligados à chamada bancada evangélica e tinham perfil conservador e punitivista. O presidente da CPI era o ex-senador Magno Malta, que é pastor evangélico”, lembra.

Entretanto, pelo menos a partir das eleições de 2018, Rodrigues observa que a extrema direita passou a associar a pedofilia com a esquerda mais sistematicamente. “Na minha opinião trata-se de uma estratégia fascista”, diz. Para a pesquisadora da USP Isabela Kalil, que estuda bolsonarismo e política antigênero desde 2013 este “é um tema recorrentemente usado como cortina de fumaça”. Ela acredita que não à toa o tuíte do presidente Bolsonaro foi publicado em um momento de crise do governo, na semana seguinte à soltura de Fabrício Queiroz, investigado por esquema de ‘rachadinhas’ quando era assessor do senador Flávio Bolsonaro (Republicanos).

Isabela observa ainda que a questão da pedofilia sempre consegue chamar atenção de lideranças cristãs e abastecer correntes de fake news. “Embora seja um assunto muito específico e grave, faz parte de um pacote de desinformação antigênero, que inclui outras fake news, como a ‘mamadeira erótica’ e o ‘kit gay’. Há, na visão de certos grupos, uma conspiração pela sexualização precoce das crianças, e isso é associado ao movimento LGBT e às feministas. Nessa perspectiva, a pedofilia seria a ponta de um iceberg nesses discursos enviesados”, considera.

Propagação de fake news acontece de forma estratégica

Em 2016, o pastor Silas Malafaia, da Assembleia de Deus Vitória em Cristo e colunista do site Gospel Mais, gravou um vídeo falando sobre mudança de sexo em crianças e ideologia de gênero. Nele, Malafaia afirma que pedofilia é ideologia de gênero, e que “é um jogo dos esquerdopatas”. Com mais de 70 mil visualizações, o vídeo continua disponível no Youtube.

Reprodução/Youtube
Pastor Silas Malafaia espalha boato que associa pedofilia à esquerda em vídeo de 2016

Dois anos depois, uma imagem que afirmava que Fernando Haddad, na época candidato à presidência da República pelo PT, era autor de um projeto pró-pedofilia, viralizou nas redes sociais. A montagem falsa fazia referência ao Projeto de Lei (PL) 236/10, que nem era de autoria de Haddad, nem tratava de legalização da pedofilia, como mostrou o Estadão.

Apesar disso, no começo deste ano, a ministra Damares fez referência ao mesmo PL em entrevista onde afirmou haver risco de legalização da pedofilia no Brasil.

O ex-deputado Federal Jean Willys (PSOL) também foi caluniosamente acusado de defender a pedofilia em 2018, pelo ainda deputado Federal Alexandre Frota (PSDB), condenado por disseminar fake news, na época aliado de Bolsonaro.

Recentemente, um tuíte falso, defendendo um pedófilo, também foi atribuído ao youtuber Felipe Neto, que tem feito críticas ao atual governo.

Acusar alguém de pedofilia ou de apoio à pedofilia é quase infalível enquanto tática para enfraquecer inimigos políticos e despertar apoio de grupos conservadores, avalia a pesquisadora Isabela Kalil. “Não tem como ser a favor da pedofilia. É um tema que perpassa a educação, mobiliza as famílias, é repercutido pela opinião pública. Desperta um pânico moral nas pessoas, mas por vezes carrega um pacote, como um Cavalo de Tróia que, quando aberto, está cheio de ideias antigênero, antiLGBT e de posições transfóbicas, também bandeiras de grupos católicos e evangélicos conservadores”.

Para Isabela, a falsa associação entre esquerda e pedofilia voltou à tona em um momento particularmente estratégico para o governo federal, que lançou em abril, no meio da pandemia, o Observatório da Família, dentro do ministério de Damares Alves. O Observatório teria a finalidade de “produzir conhecimento científico sobre a família e servir de referência para a criação de políticas públicas”. “O projeto foi lançado como se não fosse nada. Em um olhar mais atento se vê que é uma ameaça de grave retrocesso de direitos públicos, de desmonte do Plano Nacional de Direitos Humanos (PNDH) – que envolve Comissão da Verdade, cotas raciais, políticas LGBTQI+. É bom lembrar que o PNDH tem sido um empecilho para o avanço de pautas conservadoras, muitas delas cristãs”, considera.

Embora a mentira pareça só uma afirmação descontextualizada, a desinformação obedece a um processo bem articulado e em cadeia: “Você cria um medo ou um problema e depois se apresenta a solução. No exemplo mais recente de Bolsonaro, para o medo da pedofilia, a solução é o PL e ainda outras ações do governo, como o Observatório da Família”, analisa Isabela Kalil.

Fake news importada

A pesquisadora também observa que as fake news circulam em movimentos encadeados. No caso do boato que associa a defesa da pedofilia à esquerda, a origem é estrangeira e é resgatada em momentos oportunos.

A reportagem do Gospel Prime cita um suposto movimento de legalização da pedofilia chamado MAP, sigla em inglês para pessoa sexualmente atraída por menores de idade. O texto afirma que “circulam rumores na internet de que uma das pautas dessa militância é inserir P (de pedófilo) à sigla LGBTI”. A notícia é falsa. O portal evangélico brasileiro traduz o texto do site latinoamericano “Notícias Cristianas”, que por sua vez importou uma notícia falsa dos Estados Unidos, verificada ainda em 2018 pela organização de fact-checking Snopes. Na verdade, MAP é um termo criado por uma organização norte-americana que auxilia pedófilos em busca de tratamento, diz a checagem.

Mas a associação de pedofilia com a esquerda é ainda mais antiga que isso. No Brasil, ela foi propagada pela figura de Olavo de Carvalho. Em um texto de 2002, intitulado “Cem anos de pedofilia”, o autoproclamado filósofo e atual guru de Bolsonaro elenca uma série de elementos que estariam por trás do que ele chama de “movimento de indução à pedofilia”. Entre eles estão as teorias de Sigmund Freud, o movimento feminista, e até o advento da pílula anticoncepcional e da camisinha. Para Carvalho, que é bastante religioso, “por toda parte onde a prática da pedofilia recuou, foi a influência do cristianismo — e praticamente ela só — que libertou as crianças desse jugo temível”.

Depois do texto, o guru continuou propagando essa falsa teoria para seus seguidores e a resgatando em momentos oportunos. Uma das aulas de seu curso online de filosofia (COF) de título “Poder e Pedofilia – um breve resumo” foi relembrada por seu aluno e youtuber, Bernardo Küster na ocasião da polêmica a respeito da mostra “Queer Museu” no MASP. Em vídeo, olavista argumenta que a exposição faz parte do grande projeto da esquerda de legalizar a pedofilia, como já dizia seu guru.

Reprodução/ Facebook
Youtuber olavista Bernardo Küster, repercutiu boato ainda em 2017

Sistematicamente portais de desinformação liderados por seguidores de Olavo de Carvalho também ressuscitaram essa teoria. No último dia 15, o site Estudos Nacionais, do aluno de Olavo Cristian Derosa, publicou um texto que buscava legitimar a afirmação de Bolsonaro. “Esquerda quer descriminalizar a pedofilia? Entenda a declaração de Bolsonaro e sua repercussão” dizia.

***

Foto de Capa: Pixabay/Reprodução

Presidente Bolsonaro mente ao dizer que “esquerda” quer descriminalizar pedofilia

Publicado originalmente no UOL Notícias, com adaptações do Coletivo Bereia

Postagem do Presidente Jair Bolsonaro (sem partido) no Twitter, em 14 de junho de 2020, foi intensamente compartilhada em mídias digitais de pessoas e grupos cristãos. Ele acusou “a esquerda” de buscar “meios de descriminalizar a pedofilia“, ao falar sobre um PL (Projeto de Lei) apresentado pela Ministra da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos Damares Alves, na segunda-feira, 13 de julho, que sugere aumento na pena de crimes sexuais praticados contra crianças e adolescentes. 

Inicialmente, a fake news surgiu em 2015, tendo como alvo a deputada Maria do Rosário (PT-RS) e o ex-deputado Jean Wyllys (PSOL-RJ). Voltando a circular em 2017, quando foi desmentida pelo então deputado em suas redes sociais.

Os criadores da mentira chegaram a adulterar fotos dos dois deputados para forjar cartazes e folders dizendo que a pedofilia não seria crime, e sim doença. Tais fotos não existem, bem como nunca foi apresentado nenhum projeto de lei com esse conteúdo, como a imprensa alertou na época.

Durante as eleições de 2018, o candidato do PT à Presidência da República, Fernando Haddad, foi alvo de uma notícia falsa que afirmava que ele defendia a legalização da pedofilia. O projeto Comprova verificou , na ocasião, que o PL 236/2012 tramita no Senado desde 2012, não propõe a legalização da pedofilia e não tinha relação com o PT e com Haddad.

A proposta foi apresentada pelo ex-presidente e ex-senador José Sarney (MDB-AP) e estava sob a relatoria do senador Antonio Anastasia (PSDB). O projeto de lei em questão trata de uma proposta de novo Código Penal.

No artigo 186, o projeto propôs a redução de 14 anos para 12 anos o limite de idade da vítima na qualificação do crime de “estupro de vulnerável”, um agravante do crime de estupro. Acima do limite de idade, a violência sexual não deixaria de ser considerada crime de estupro

Formulada por juristas e debatida por cerca de sete meses, a proposta de mudança se baseia no ECA (Estatuto da Criança e do Adolescente), que considera crianças aquelas pessoas que têm até 12 anos de idade incompletos.

Pedofilia é transtorno mental, diz OMS 

Pedofilia não é um crime, mas um transtorno mental reconhecido pela OMS (Organização Mundial da Saúde) desde os anos 1960. 

Pelas leis brasileiras, qualquer ato que atente contra a dignidade sexual da criança é tipificado como crime, como o estupro de incapaz (artigo 217-A do Código Penal) e a pornografia infantil (prevista nos artigos 240 e 241 do ECA). Não é só no Brasil, mas também no resto do mundo, não existe qualquer dispositivo legal que criminalize a pedofilia. 

Segundo reportagem publicada pelo TAB/UOL, não existe cura para a pedofilia. Por isso, é preciso acompanhamento médico constante — terapia e, em alguns casos, medicação hormonal para inibir o desejo sexual — para tratar os impulsos. O tratamento não é só importante para o pedófilo como também o impede de fazer vítimas. Quando um pedófilo comete abuso sexual, aí sim ele passa a ser um abusador e deve responder pelos seus atos perante a Justiça. 

No entanto, nem todos os abusadores de crianças são pessoas portadoras do transtorno.

“O principal problema é que o uso indiscriminado do termo obscurece a verdadeira questão: a pedofilia é classificada no conjunto de uma desordem mental; ao passo que o abuso sexual infantil (a pornografia infantil) se refere ao perpetrador de abuso sexual e não implica, necessariamente, doença mental, mas crime“, explicou  Herbert Rodrigues, sociólogo, professor da Missouri State University (EUA) e autor do livro “A pedofilia e suas narrativas” (Editora Multifoco). Portanto, a pedofilia seria uma doença mental que poderia ser classificada sob o termo de molestador infantil. 

Mesmo que pedófilos sejam classificados como molestadores infantis, nem todos os molestadores podem ser considerados — ou diagnosticados — como pedófilos.

Na mesma linha, psiquiatras especializados entendem que a banalização do termo “pedofilia” é uma das causas que impedem pessoas com essa doença de procurar ajuda e evitar algum tipo de abuso contra crianças. Além disso, nem sempre os casos de abusos sexuais contra menores são cometidos por pedófilos, mas muitas vezes por pessoas que se aproveitam de uma situação de vulnerabilidade da vítima para agir. O psiquiatra Danilo Baltieri, coordenador do ABSex (Ambulatório de Transtornos da Sexualidade da Faculdade de Medicina do ABC), avalia que cerca de 30% a 40% dos agressores sexuais de crianças são, de fato, pedófilos.

***

Referências de checagem

BR Política – Bolsonaro mente no Twitter que esquerda quer descriminalizar pedofilia

Comprova – Projeto não torna a pedofilia um ato legal nem tem participação de Haddad.

Senado Federal- 236/2012

Twitter – Bolsonaro

UOL – Bolsonaro distorce ao postar que esquerda quer descriminalizar pedofilia

UOL – PEDÓFILO PROCURA AJUDA

UOL – Por que a discussão sobre abuso sexual infantil precisa evoluir no Brasil.