“Mulher não sabe votar!”: como extremistas propagam violência política contra mulheres
O trecho da live de Paulo Figueiredo que viralizou nas mídias digitais, em junho passado, apresenta elementos alarmantes de extremismo. O influenciador, neto do ditador general. João Figueiredo, e apoiador da família Bolsonaro, afirmou em vídeo publicado no YouTube, em 25 de junho, que “mulher vota estatisticamente muito mal, principalmente mulheres solteiras. Mulheres casadas, em geral, tendem a acompanhar o voto do marido”.

Essa visão sobre as mulheres se entrelaça com a proposta de revisão ou de revogação da 19ª Emenda da Constituição dos Estados Unidos, que garantiu o direito de voto às mulheres naquele país em 1920. Ela tem sido defendida por setores da direita radical ligados ao nacionalismo cristão dos Estados Unidos, onde vive Paulo Figueiredo.
Pastores, como Douglas Wilson e Dale Partridge, além de influenciadores como Nick Fuentes propagam pelas mídias digitais o ideal de retirar das mulheres o direito arduamente conquistado de participar democraticamente da escolha de líderes políticos. Entre as propostas defendidas estão ideias como o voto unitário por família, em que a unidade familiar teria um único voto, exercido pelo homem. O secretário de Defesa dos Estados Unidos e líder do Pentágono Pete Hegseth compartilhou, em seu perfil no X (antigo Twitter), uma reportagem sobre as ideias do nacionalismo cristão.

Violência política contra mulher
A violência política contra as mulheres se manifesta por ações ou omissões, de forma direta ou indireta, que visem ou causem danos ou sofrimento a uma ou várias mulheres com o propósito de anular, impedir, depreciar ou dificultar o exercício dos seus direitos políticos, pelo fato de ser mulher, de acordo com cartilha sobre o tema, elaborada pelo Observatório da Violência Política Contra a Mulher, com o apoio do Tribunal Superior Eleitoral (TSE)
O documento deixa claro que a violência política de gênero se manifesta como atos que restringem ou anulam o direito ao voto livre e secreto das mulheres, como qualquer expressão que rebaixe a mulher no exercício de suas funções políticas. O texto alerta que tais atos se dão com base no estereótipo de gênero, com o propósito ou o resultado de minar a sua imagem pública ou anular seus direitos políticos e que pode ocorrer no espaço virtual. A Lei nº 14.192 que determina regras para prevenção, repressão e combate à violência política contra a mulher entrou em vigor em 2021.
No vídeo disseminado pelas redes, Paulo Figueiredo também sugere, sem apresentar dados, que estatísticas corroboram sua afirmação. Uma outra cartilha, esta elaborada pelo Internetlab e o Programa de Combate à Desinformação do Supremo Tribunal Federal (STF) sobre desinformação como uma das dimensões da violência de gênero, considera como desinformação mensagens que imitam o formato jornalístico ou se alinham a crenças, preconceitos e convicções visuais para reforçar narrativas sem apoio nos fatos.
A publicação é taxativa em apontar que esse fenômeno acarreta diversas consequências negativas para a integridade do ambiente informacional. O texto alerta que discursos misóginos que estruturam a sociedade também se reproduzem no ambiente digital e que algumas características desse ecossistema, como a rápida replicabilidade de conteúdos para um grande público, podem amplificá-los ainda mais.
Episódios marcantes na história política do Brasil
A violência política não atinge apenas as eleitoras, como praticou Paulo Figueiredo. Mulheres em cargos públicos, posição de liderança e destaque no campo político são historicamente agredidas no Brasil. Um caso emblemático para o combate a esse tipo de crime foi o assassinato da trabalhadora rural e líder sindical paraibana Margarida Alves, em 1983, a mando de latifundiários em Alagoa Grande (PB). A líder católica tornou-se mártir pela causa da justiça e dá nome à maior manifestação de trabalhadoras rurais da América Latina, a Marcha das Margarida, realizada, desde 2000, anualmente, em Brasília.
Mais recentemente, o caso de Marielle Franco tornou-se também representativo no combate à violência política de gênero. Insultos à sua vida pessoal foram uma das táticas mais usadas para atacar e desqualificar a atuação da vereadora do Rio de Janeiro pelo PSOL. Marielle Franco foi morta a tiros, em 2018, a mando de políticos, os irmãos Brazão (União Brasil e PL), que tiveram seus interesses atravessados pela atuação política da parlamentar.
Dilma Roussef, Manuela D’Ávila, Maria do Rosário, Eliziane Gama entre tantas outras, são nomes que viveram na pele essa tipificação da violência contra mulher em suas variadas formas. A ex-presidenta do Brasil, além de ter seu mandato interrompido, foi vítima de muitos ataques contra sua capacidade intelectual, de controle emocional e de liderança, como ficou registrado na agressiva capa da revista Istoé.

A pré-candidata ao senado Manuela D’Ávila foi vítima de manterrupting (interrupção desnecessária da fala de uma mulher), durante entrevista à TV Cultura, alvo de desinformação relacionada a temas morais (classificada como “abortista”) e religiosos (denunciada como anticristã) e falsamente associada ao ataque a faca sofrido por Jair Bolsonaro em Juiz de Fora (MG). Todos estes ataques misóginos ocorreram durante a campanha eleitoral de 2018, na qual D’Ávila compunha, como vice, a chapa de Fernando Haddad (PT) à Presidência da República.
Quando voltou a se candidatar, dessa vez à Prefeitura de Porto Alegre, em 2020, os ataques se intensificaram. Naquele ano, o Tribunal Regional Eleitoral do Rio Grande do Sul (TRE-RS) ordenou que links com mentiras sobre a então candidata, em diferentes plataformas digitais, fossem removidos. Em 2022, Manuela D’Ávila comunicou a decisão de não concorrer ao Senado e, entre as principais justificativas, apontou a insegurança que ela e sua família enfrentaram nos anos anteriores. A ex-deputada continuou a denunciar que, além dela, a filha e a mãe foram ameaçadas.
Em entrevista à Agência Pública, a deputada federal Maria do Rosário (PT-RS) declarou não querer ser conhecida pela mulher agredida por Jair Bolsonaro, à época deputado federal. O caso de violência marcante aconteceu em 2014, quando o ex-presidente disse em plenário que não a estupraria porque ela não merecia. Bolsonaro foi condenado a se retratar e pagar 10 mil reais por danos morais, mas o processo por incitação ao estupro foi arquivado por prescrição.
Em 2023, a senadora evangélica Eliziane Gama (PSD-MA) exercia a função de relatora da Comissão Parlamentar Mista de Inquérito (CPMI) sobre os ataques a Brasília em 8 de janeiro, para golpe de Estado, quando teve sua competência descredibilizada e a capacidade intelectual para ocupar a função de relatora questionada por parlamentares. A senadora foi chamada de ‘burra’ e ‘analfabeta’, entre outros xingamentos proferidos por apoiadores de seus colegas extremistas nas redes digitais.
Também em 2023, no primeiro dia da Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI), que investigava o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), o presidente da comissão, o deputado federal tenente-coronel Zucco (Republicanos-RS), desligou o microfone da deputada federal Sâmia Bomfim (PSOL-SP) enquanto ela se pronunciava. Em 2025, foi a vez do deputado federal Gustavo Gayer (PL-GO), que comparou a deputada federal Gleisi Hoffman (PT-PR) a profissionais do sexo em publicação no X (antigo Twitter).
Conforme explica a doutora em Ciências Sociais Lívia Reis, ouvida pelo Bereia, o Brasil é uma sociedade estruturalmente machista e os espaços de decisão não foram construídos para serem ocupados por mulheres, que deveriam, supostamente, ficar restritas ao domínio privado. “A violência política de gênero não é, nesse sentido, um ataque ao conteúdo do que as mulheres defendem, mas à sua presença num espaço codificado como masculino”, afirma a antropóloga pesquisadora do Instituto de Estudos da Religião (ISER).
Casos recentes de violência política de gênero
A ex-ministra do Meio Ambiente e Mudança do Clima Marina Silva (Rede-SP) é antigo alvo de ataques contra sua condição física e sua inteligência. Porém, em 2025 se viu no meio, não de um, mas dois episódios de violência no Congresso Nacional.
Durante a audiência pública na Comissão de Serviços de Infraestrutura do Senado, em maio, o senador evangélico Marcos Rogério (PL-RO) afirmou durante o debate que a então ministra, que tem identidade religiosa evangélica, deveria pôr-se no seu lugar. Na mesma ocasião, o senador Plínio Valério (PSDB-AM) também declarou, referindo-se a Marina Silva, que “a mulher merece respeito; a ministra, não”. Meses antes, o parlamentar já havia feito referência a enforcar a hoje pré-candidata ao Senado, por São Paulo, e, posteriormente, afirmou não estar arrependido.
Já durante audiência na Comissão de Agricultura, Pecuária, Abastecimento e Desenvolvimento Rural da Câmara dos Deputados, em julho daquele ano, Marina Silva ouviu do deputado federal católico Cabo Gilberto (PL-PB), em tom paternalista, que deveria se acalmar. A pré-candidata a senadora repudiou a fala. Cerca de um ano depois, a ex-ministra de Estado também manifestou-se em defesa da senadora evangélica Damares Alves (Republicanos-DF), após a parlamentar ter sido vítima do mesmo tipo de violência.
“O apoio de Marina a Damares no combate à violência política de gênero mostra que uma parlamentar conservadora, que defende papéis tradicionais, também é atacada como mulher no momento em que ocupa autoridade pública. Isso acontece porque essa violência atravessa esquerda e direita, pessoas de qualquer religião. O motivo do ataque não é a ideologia da mulher, mas é ela ser mulher num lugar de poder”, observa Lívia Reis.
Durante reunião da Comissão de Direitos Humanos do Senado, em 1º de julho último, Damares Alves revelou ter sido vítima de desinformação de gênero, ataques à honra e ter recebido ameaças de morte contra ela e sua filha por apoiadores do senador Flávio Bolsonaro (PL). Um dia antes, a parlamentar havia afirmado que não compareceria à reunião voltada a lideranças femininas do PL, organizada pelo pré-candidato à Presidência da República.
A decisão de Damares Alves e os ataques que ela recebeu, assim como as declarações de Paulo Figueiredo, seguiram na esteira do pronunciamento em vídeo divulgado pela ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro, em seu perfil no Instagram, em 24 de junho passado, sobre violência política que teria sofrido do enteado Flávio Bolsonaro. A transmissão de Paulo Figueiredo no YouTube, no dia seguinte, foi inteiramente pautada no posicionamento da ex-primeira-dama.
Contribuição de políticos extremistas para violência de gênero
Estes casos tornam evidente que políticos extremistas, e por vezes com identidade religiosa cristã declarada, estejam envolvidos em episódios de violência de gênero, no campo político, ou para além dele. Sob a alegação de princípios tradicionais e defesa da liberdade de expressão, essas figuras públicas atacam medidas como a criminalização da misoginia e defendem que o lugar da mulher se restringe à esfera particular.
Mesmo quando são “autorizadas” na esfera pública, seus papéis são reduzidos a uma figura acessória dos maridos, dos filhos, de líderes políticos ou outros homens ocupantes de espaços de poder. Ao mesmo tempo, espera-se delas uma postura submissa. Isso fica explicitado no conflito interno da família Bolsonaro, que surge da diferença de compreensão sobre o lugar que a ex-primeira-dama pode ocupar.
De acordo com Lívia Reis, a identidade religiosa explicitada acrescenta uma linguagem que dá sentido e legitima a hierarquia entre os gêneros e a divisão dos papéis sociais. “As mulheres, nessa visão, devem se preocupar em cuidar e sustentar a família material e espiritualmente. Para esses políticos – e isso se concentra, mas não se restringe, ao campo da direita – a pauta de gênero e de costumes não é um tema entre outros, mas é um eixo que organiza a mobilização política”.
Apesar da relevância de Michelle Bolsonaro para a aliança da direita extremista com grupos evangélicos, e sua consequente influência sobre o eleitorado feminino e cristão nas eleições de 2026, o desentendimento tem significado. Ele mostra que, além do enteado e do marido, a liderança do partido também consente com o papel concedido à ex-primeira-dama – presidente do PL Mulher –, mas não com um escolhido por ela. Ao negar às mulheres igual capacidade de atuação política, essas narrativas enfraquecem valores essenciais à democracia.
Nesse sentido, as críticas de Paulo Figueiredo à falta de apoio de Michelle Bolsonaro a Flávio Bolsonaro, assim como a fala do vídeo sem base científica, que usa enganosamente o tema da estatística, mobiliza uma visão patriarcal de suposta incapacidade feminina de exercer cidadania por meio de participação política, associada a uma negação de autonomia política às mulheres.

“A desigualdade de gênero estrutura a nossa sociedade, e no enquadramento religioso, a mulher que desafia a ordem de gênero deixa de ser uma adversária comum e passa a ser vista como ameaça à ordem moral, quase como um mal a ser combatido. Isso dá ao ataque um tom de defesa do sagrado, e não de mero debate político, e é justamente esse deslocamento que autoriza a agressão”, acrescenta Lívia Reis.
Referências
Instagram
https://www.instagram.com/p/DaL-MqTjDLO/ Acesso em 2 JUL 2026
https://www.instagram.com/p/DaL96HxgtRi/?hl=pt-br Acesso em 2 JUL 2026
Jornal Opção
https://www.jornalopcao.com.br/ultimas-noticias/apos-serie-de-ataques-a-dilma-justica-condena-istoe-a-direito-de-resposta-71649/ Acesso em 2 JUL 2026
Correio do Povo
https://www.correiodopovo.com.br/not%C3%ADcias/pol%C3%ADtica/marina-silva-se-solidariza-com-damares-alves-apos-ataques-de-misoginia-1.1728078 Acesso em 3 JUL 2026
CNN
https://www.cnnbrasil.com.br/politica/damares-diz-que-faltara-ao-evento-feminino-de-flavio-apos-video-de-michelle/#goog_rewarded Acesso em 3 JUL 2026
YouTube
https://www.youtube.com/shorts/Wl9j4U_UfRM Acesso em 4 JUL 2026
Coletiva.net
https://coletiva.net/noticias/manuela-d-avila-vence-processo-contra-record-nacional-e-igreja-universal/ Acesso em 4 JUL 2026
