Vídeo em que o Papa Leão XIV exalta o Frei Gilson é falso e tem sido usado para golpe

Circula nas mídias sociais um vídeo em que o Papa Leão XIV exalta o religioso católico brasileiro Frei Gilson como uma ‘ferramenta de Deus’. A produção é falsa e foi gerada por inteligência artificial. A publicação circulou nas mídias digitais da Meta (Instagram e Facebook) como um anúncio patrocinado. O objetivo da publicação, porém, é aplicar um golpe, com a solicitação de transferências via PIX. A checagem é do projeto Fato ou Fake! do portal G1. 

A apuração do G1 encontrou ao menos 32 versões da propaganda na Biblioteca de Anúncios da Meta. Em uma delas, há um vídeo falso, que começa com uma chamada do “Plantão da Globo”. O material conta com quatro gravações, três delas com o áudio manipulado por Inteligência Artificial. 

Apesar de contarem com estratégias diferentes, todas as gravações são conteúdos desinformativos. Em uma delas, um vídeo do atual âncora do Jornal Nacional César Tralli, no estúdio do Jornal Hoje, anuncia um suposto pronunciamento do Papa Leão XIV que classifica o Frei Gilson como “ferramenta de Deus”. Frei Gilson, membro da Congregação Carmelitas Mensageiros do Espírito Santo, é um sacerdote católico da Diocese de Santo Amaro (SP) ligado à Renovação Carismática Católica (RCC). A popularidade do religioso cresceu no meio católico por conta de transmissões de orações ao vivo durante madrugadas.

Um segundo vídeo, este sem manipulação por IA, exibia o momento em que a fumaça branca surgiu na Capela Sistina, antes do anúncio do novo papa, em maio de 2025. No entanto, a ocasião, conhecida como Conclave, não mantém nenhuma relação com o Frei Gilson.

No terceiro vídeo estão as imagens do primeiro discurso do Papa Leão XIV, em 8 de maio de 2025, com um áudio falso, gerado por inteligência artificial, no qual o pontífice diz ter testemunhado “sinais claros da ação de Deus por meio de um sacerdote brasileiro”. A última cena do conteúdo manipulou a voz da correspondente do Vaticano da TV Globo Ilze Scamparini, no qual ela relata que o Frei Gilson teria recuperado a versão original de uma “oração sagrada” com poder de cura e prosperidade. O vídeo se encerra com uma chamada da mesma para acompanhar uma transmissão ao vivo e aprender a oração em questão, apertando um botão de “assistir mais”.

A partir dali, o usuário que se interessou pelo conteúdo é direcionado a uma falsa transmissão ao vivo, com estética similar ao canal do Frei Gilson no Youtube. Há vídeos parecidos com os originais das transmissões do Frei, mas com o áudio manipulado por IA, no qual ele ensina uma oração. Ele completa dizendo que o conteúdo será disponibilizado gratuitamente em um aplicativo e que a apresentadora da TV Globo Ana Maria Braga teria usado a oração no seu tratamento contra o câncer. É de conhecimento público que a  apresentadora do “Mais Você” foi curada de câncer quatro vezes em sua vida e que o último anúncio de remissão da doença surgiu em 2024.  

Ao fim da falsa transmissão, o Frei Gilson pede doações para a construção santuário e incentiva os espectadores a comparem a versão física do livro “A fé explicada” (Quadrante), de Leo J. Trese. Ele anuncia, ainda, que aqueles que contribuíssem com a causa participariam de um sorteio ao vivo do “Mais Você”, com viagens para Itália e Vaticano. As vítimas então são direcionadas a uma página que objetiva aplicar os golpes, exigindo o preenchimento de dados pessoais e um PIX de R$97 para adquirir um suposto “grimório secreto”, em cujo o Frei estaria baseando a oração ensinada na transmissão falsa. A plataforma que intermediava o pagamento não identifica o destinatário da transação financeira.

Procurada pelo Fato ou Fake, a assessoria de imprensa da Meta respondeu: 

Os golpes cresceram em escala e complexidade nos últimos anos, impulsionados por redes criminosas transnacionais implacáveis. À medida que essa atividade se tornou mais persistente e sofisticada, nossos esforços para combatê-la também se intensificaram. Estamos testando o uso de tecnologia de reconhecimento facial, aplicando nossas regras contra golpes e capacitando as pessoas a se protegerem por meio das diversas ferramentas de segurança e alertas disponíveis em nossas plataformas. Continuaremos tomando medidas para melhorar a detecção e a aplicação de nossas políticas contra esse tipo de atividade“.

Bereia tem uma série de checagens de acontecimentos semelhantes, nos quais figuras religiosas são utilizadas para aplicar golpes. Entre elas, sobre vídeos manipulados com inteligência artificial que exploraram imagens dos padres Júlio Lancellotti e Marcelo Rossi, além de outros líderes religiosos, como o pastor Cláudio Duarte e o padre Fábio de Melo

Bereia chama a atenção de leitores e leitoras para não interagirem com vídeos que têm imagens de religiosos destacados e solicitam pagamentos. Antes de qualquer reação ao pedido, é preciso checar a veracidade do material. É preciso ainda apoiar as iniciativas de organizações que atuam pelo direito à comunicação e à informação digna, que demandam responsabilização das plataformas digitais por permitirem a circulação deste tipo de publicação e ainda lucrarem com os valores que são monetizados por meios destes golpes.

Papa Leão XIV pede à Imprensa que busque o caminho da comunicação da paz


Com informações de Vaticannews

O Papa Leão XIV falou com jornalistas e profissionais da mídia de todo o mundo nesta segunda-feira, 12 de maio. A entrevista coletiva que tradicionalmente é concedida pelos papas eleitos foi realizada na Sala Paulo VI, no Vaticano. O pontífice concluiu seu discurso dizendo aos jornalistas:

“Vós estais na linha da frente, narrando conflitos e esperanças de paz, situações de injustiça, de pobreza, e o trabalho silencioso de tantos por um mundo melhor. É por isso que vos peço que escolhais, de forma consciente e corajosa, o caminho da comunicação da paz.”

A paz é  o centro do discurso de Leão XIV e aparece cinco vezes, inclusive na inspiração bíblica do Sermão da Montanha citada, quando o papa disse aos jornalistas: “No ‘Sermão da Montanha’, Jesus proclamou: ‘Felizes os pacificadores’ (Mt 5: 9). Esta é uma bem-aventurança que nos interpela a todos e vos diz respeito de perto, chamando cada um ao compromisso de levar adiante uma comunicação diferente, que não procura o consenso a qualquer custo, que não se reveste de palavras agressivas, que não adere ao modelo da competição, que nunca separa a busca da verdade do amor com que humildemente a devemos procurar.”

E prosseguiu: “A paz começa em cada um de nós: na forma como olhamos para os outros, ouvimos os outros, falamos dos outros; e, neste sentido, a forma como comunicamos adquire uma importância fundamental: temos de dizer ‘não’ à guerra das palavras e das imagens, temos de rejeitar o paradigma da guerra.”

O Pontífice falou também sobre a solidariedade da Igreja Católica com jornalistas presos por apresentar a verdade. Ele pediu a libertação desses profissionais, dizendo que a “Igreja reconhece nestes testemunhos – penso naqueles que narram a guerra mesmo à custa da própria vida – a coragem de quem defende a dignidade, a justiça e o direito dos povos a serem informados.” E o papa reforçou: “Porque só os povos informados  podem fazer escolhas livres”.

Serviço à verdade

Em seu discurso, o Papa Leão XIV chamou os jornalistas de amigos e agradeceu pelo serviço à verdade, assim como por conseguirem,  desde a morte do Papa Francisco e a dor que trouxe e ainda durante o período do Conclave, “narrar a beleza do amor de Cristo que nos une a todos e faz de nós um só povo, guiado pelo Bom Pastor”, disse agradecido.

Leão XIV ressaltou a comunicação como criação de cultura e da necessidade de diálogo. Ele disse aos jornalistas que “um dos desafios mais importantes é promover uma comunicação capaz de nos fazer sair da ‘torre de Babel’ em que por vezes, nos encontramos”. E explicou que isso significa “sair da confusão de linguagens sem amor, muitas vezes ideológicas ou sectárias”. 

Para o papa o serviço da imprensa é importante e depende das palavras e do estilo usado. “Com efeito, a comunicação não é apenas a transmissão de informações,  mas a criação de uma cultura de ambientes humanos e digitais que se tornam espaços de diálogo e de confronto de ideias”.

Seguindo o discurso, o pontífice pediu responsabilidade e discernimento no uso da inteligência artificial: “Olhando para a revolução tecnológica,  essa missão se torna mais necessária.  Penso, em particular,  na inteligência artificial com seu imenso potencial, que exige no entanto, responsabilidade e discernimento  para orientar os instrumentos para o bem de todos, para que possam produzir benefícios para a humanidade”.

O novo papa afirmou que a Igreja Católila está vivendo tempos especiais, que estão sendo compartilhados com todos os meios de comunicação,  televisão, rádio,  internet e redes sociais e que gostaria que todos pudessem dizer que os meios de comunicação “nos revelaram um pouco do mistério da nossa humanidade e que nos deixaram um desejo de amor e de paz”. 

Durante o encontro com jornalistas Leão XIV repetiu o convite feito pelo Papa Francisco, em sua última mensagem, para o próximo Dia das Comunicações Sociais, que será celebrado pela Igreja Católica em 1° de junho, com o tema (escolhido por Francisco): “Partilhai com mansidão a esperança que está nos vossos corações”. Leão XIV também pediu aos jornalistas: “Desarmemos a comunicação de todos os preconceitos,  rancores  fanatismos e ódios; limpemo-la da agressividade. Não precisamos de uma comunicação beligerante e musculosa, mas sim de uma comunicação capaz de escutar, de recolher a voz dos fracos que não têm voz. Desarmemos as palavras e ajudaremos a desarmar a Terra”. 

Para o novo Papa, fazer uma comunicação desarmada e desarmante possibilita compartilhar uma nova visão do mundo e “agir de forma coerente com a nossa dignidade humana”.

Também para Leão XIV, os tempos estão difíceis para o trabalho do jornalista e representa para todos um desafio do qual não se pode fugir. “Pelo contrário,  estes tempos pedem a cada um de nós, nas nossas diferentes funções  e serviços,  que nunca cedemos à mediocridade”. O papa disse que tanto a Igreja deve aceitar o desafio do tempo como também “não pode haver comunicação e jornalismo fora do tempo e da história”. Ele citou Santo Agostinho no Sermão 80, 8: ‘Vivamos bem e os tempos serão bons! Nós somos os tempos’.

Referências:

VATICANNEWS. https://www.vaticannews.va/pt/papa/news/2025-01/papa-francisco-mensagem-dia-mundial-comunicacoes-sociais-2025.html Acesso em 12 maio 2025.

VATICANNEWS. https://www.vatican.va/content/leo-xiv/it/speeches/2025/may/documents/20250512-media.html Acesso em 12 maio 2025

Imagem de capa: Vatican News

Um papa de duas pátrias

Na manhã do dia 21 de abril, a humanidade amanhecia triste com a morte do papa Francisco. O papa que veio do fim do mundo, fez do mundo a sua casa e com o mundo dialogou, trazendo em evidência os gritos dos pobres e da terra. Passados os dias, toda a atenção se volta para o sucessor, se a pessoa escolhida seguirá a linha de Francisco ou se teremos um fechamento e um retorno ao passado.

Surgem sentimentos como expectativa, medo, mas também esperança e abertura ao novo, porque a memória de Francisco e as portas que foram abertas por ele trazem fatos que são irrenunciáveis e que devem permanecer.

Começam as congregações e o perfil do novo papa vai sendo desenhado, desejando ser em continuidade a Francisco, mantendo as suas reformas, de alguém que pudesse ser pastor e ao mesmo tempo atuante, experiente e com uma visão global, em atenção dos dramas humanos.

Então, na tarde do dia 08 de maio, sai a fumaça branca, os sentimentos ecoam e a expectativa toma conta de todos e de todas. No anúncio, a surpresa: a eleição como papa do cardeal Robert Francis Prevost, de nascimento norte-americano, mas de nacionalidade peruana, assumida em missão e de entrega a este povo.

No nome escolhido, outra surpresa: Leão XIV, em continuidade a Leão XIII, que trouxe à Igreja Católica a sua dimensão social, a defesa do trabalhadores explorados e a necessidade de dialogar com o mundo que avança e que muda constantemente. O tempo ainda é precoce para uma especulação mais precisa e para definir os rumos deste pontificado, mas o histórico de Prevost dá pistas de sua relação com Francisco, sua visão de mundo e de Igreja e o que dele se pode esperar.

Prevost nasceu em Chicago (Estados Unidos) e viveu a sua infância e adolescência no suburbio da cidade. Ainda nela, entra na ordem dos agostinianos e segue para a formação. Como padre, ele se faz missionário na América Latina, vindo para o Perú, atuando em regiões empobrecidas e de grande vulnerabilidade e precariedade.

Podemos dizer que isso marca a sua trajetória e visão de mundo e de igreja, porque o período era de meados da década de 1980 e estávamos no auge da Teologia da Libertação que influenciava o modo de ser Igreja e se fazer pastoral e missão neste continente. E esta teologia tem o seu nascimento, digamos assim, no Perú, com Gustavo Gutiérrez, e desta região se espalha para todo continente e depois pelo mundo.

Prevost volta aos Estados Unidos em 1999, torna-se provincial dos agostinianos e depois superior-geral em Roma, mas em 2014, é enviado novamente ao Perú, desta vez pelo próprio papa Francisco, que o faz bispo e depois cardeal. Esta ligação com a cidade peruana de Chiclayo, torna-se evidente, uma vez que em seu primeiro discurso na Praça de São Pedro, Prevost, agora como papa Leão XIV, passa do italino para o espanhol e saúda a sua igreja local, com a qual caminhou e pela qual se fez um com eles. É o autêntico da frase de Agostinho, que ele também traz no discurso: “com vocês sou cristão e para vocês sou bispo”.

Dizemos, com isso, que Prevost conviveu com a realidade sofrida e empobrecida daquele país e teve proximidade com este modo de ser igreja e de se ter uma teologia da práxis com a Teologia da Libertação e com Gutiérrez. Se sua origem é estadunidense, como primeira pátria, podemos dizer que a realidade peruana, assumida como segunda pátria, é que o faz padre, missionário, bispo e pastor. Sua visão de igreja é marcada pela formação e espiritualidade agostiniana, sim, mas também pelo modo de ser Igreja neste continente.

Pensando no Conclave e na eleição do Papa, estes fatores tiveram o seu peso, pela experiência missionária e pastoral. Hoje, o mundo é marcado por uma geopolítica preocupante, no aumento de excluídos, nos afetados pelo clima e pela política agressiva do presidente dos EUA Donald Trump. Uma verificação rápida nas redes sociais de Prevost, nos faz perceber as inúmeras críticas dele a este tipo de política, chamando a atenção para a defesa dos migrantes, refugiados e deportados.

Este é um ponto que também favorece a escolha do nome de Robert Prevost, porque é alguém que pode atuar nesta condição, falando como papa e falando desde dentro, sendo, portanto, uma voz autorizada e de peso e repercussão. Os impactos da política trumpista são de abrangência global e todas as pautas socioambientais defendidas por Francisco estão aí implicadas. Pelo seu histórico e postura, Prevost, agora como Leão XIV, pode atuar como uma voz firme, profética, em defesa dos excluídos e na construção de pontes e espaços de paz.

No balção da basílica de São Pedro, Prevost chorou, o que mostra que o humano prevalece acima de tudo. Um papa que chora, sabe da responsabilidade que assume, da história que leva e de quem caminha com ele. O peso do cargo é enorme, mas o chamado sinodal de Francisco o fortalece. O homem de duas pátrias agora é um homem do mundo.

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