É verdadeiro que Vera Magalhães publicou fake news sobre ato de oração em frente ao Planalto

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Em matéria publicada pelo site de notícias Pleno News em 21 de maio de 2020, intitulada “Jornalista posta fake como se ato de oração fosse nazismo” é renovada a discussão acerca das fake news no Brasil, devido a postagem feita em 18 de maio de 2020 pela jornalista Vera Magalhães, apresentadora do programa Roda Viva, da TV Cultura, em sua conta no Twitter. 

De acordo com o site, a jornalista insinuou na publicação que momento de oração feito por um grupo de paraquedistas pelo Presidente Jair Bolsonaro seria saudação nazista. Segue abaixo o print da publicação:


O caso ocorreu no domingo, 17 de maio de 2020, quando um grupo de paraquedistas da reserva se encontrou com o Presidente Jair Bolsonaro à frente do Palácio da Alvorada. O grupo que se dizia ligado à Brigada Paraquedista do Exército, em meio à pandemia, saiu do Rio de Janeiro para o ato, uniformizado com calça camuflada, boina e camiseta com caveiras.

Ao fazer a oração, gritou palavras de ordem e fez flexões junto com Bolsonaro. Na oração, com mãos direitas estendidas sobre o presidente, os militares disseram para Deus: “Reconhecemos que somos um povo abençoado e temos um presidente escolhido por ti, um presidente abençoado. Proteja ele, sua família, e todos que tenham seu sangue”. Ao final, gritaram juntos a frase “Bolsonaro somos nós!”. Os paraquedistas entregaram ao presidente uma camiseta que faz alusão ao grupo, com o nome “Bolsonaro” em destaque. Eles afirmaram ao chefe do Executivo que são apoiadores antes mesmo dele ser eleito em outubro de 2018.

Alegando falta de apuração sobre o ato realizado pelo grupo ou insinuação, Pleno News afirma que a jornalista utilizou frases soltas ao legendar a publicação, como “É disso que se trata” e que apesar de tentar se livrar de uma possível futura acusação, por isso, ficaria claro que ela insinuou que a imposição das mãos seria gesto nazista.

O assunto obteve grande repercussão e a matéria foi republicada em diversos sites de notícia, como AM Post, Portal dos Fatos, Hoje Notícias e Senso Incomum, além de, segundo Pleno News, usuários de redes sociais terem feito publicações a respeito. O deputado federal evangélico próximo a Jair Bolsonaro Hélio Lopes, por exemplo, por meio do Twitter compartilhou o vídeo completo para justificar que o ato não se tratava de apologia ao nazismo.

Segundo Pleno News, internautas se posicionaram de modo crítico diante da atitude da jornalista, afirmando que a insinuação foi mal intencionada. A matéria termina com uma opinião atribuída a um dos usuários das redes sociais que se manifestaram sobre o fato: “Tem que ser muito mal intencionado em achar que isso é saudação nazista. É tão verdadeiro quanto a suástica que a moça se fez nas eleições”.

A leitura por Vera Magalhães é reiterada em matéria publicada em 18 de maio de 2020 pela Revista Fórum, na qual outros aspectos do ato em questão são destacados como adaptações da saudação nazista ao Führer na Alemanha dos anos 30 e 40.

Mistura de exaltação e clamor, a frase “Heil Hitler”, cuja tradução significa “Viva Hitler”, tornou-se a bandeira verbal do Nazismo. A saudação que remonta ao Império Romano, pode ser comparada com a aclamação Ave César, utilizada pelos romanos para saudar o imperador. A frase dita no ato de erguer o braço direito e esticá-lo no ar, com a palma estendida para baixo, criava na prática e no imaginário, devoção e adoração.

O Código Penal alemão no parágrafo 86 não permite o uso de emblemas e símbolos de organizações anticonstitucionais, o que inclui distintivos, bandeiras, uniformes, slogans, canções e saudações. Símbolos de organizações e partidos que possam ser confundidos com partidos e associações proibidas são abrangidos pela proibição.

Na lista de símbolos nazistas proibidos estão a suástica, o retrato de Hitler, a insígnia da SS (organização paramilitar do Partido Nazista) e a saudação nazista. A saudação da organização neonazista Frente de Ação dos Nacional-Socialistas/ Ativistas Nacionais foi acrescentada à lista em 1983 pela semelhança com a saudação nazista.

Também são proibidos de acordo com o Departamento Federal de Proteção da Constituição (BfV, o serviço secreto interno da Alemanha), entre outros, os seguintes símbolos e emblemas: a cruz celta da associação proibida Movimento Popular-Socialista da Alemanha/Partido do Trabalho, o emblema (badge) triangular da Liga das Moças Alemãs, emblemas das gaue (divisões territoriais nazistas), o símbolo da caveira (totenkopf) das associações da SS, a bandeira imperial de guerra usada pelas Forças Armadas alemãs até 1945, as Ordens de Sangue (condecoração do Partido Nazista), braçadeiras com suástica, o estandarte pessoal  de Hitler, o punhal de honra da SS e emblemas skinheads com a insígnia da SS.

O BfV proibiu entre 1980 e 2015, cerca de 46 organizações e associações, incluindo a Nacionais-Socialistas de Chemnitz. Os símbolos dessas entidades foram proibidos e não podem ser usados em público. Violações podem ser punidas com multa ou pena de prisão de até três anos.

Embora as proibições sejam claras à primeira vista, as exceções causam confusão. Pois os símbolos nazistas não são proibidos se tiverem utilidade cívica, no sentido de esclarecimento para defesa contra aspirações inconstitucionais, para arte ou ciência, pesquisa ou ensino, informação sobre eventos históricos ou atuais, ou a propósitos similares.

As imagens gravadas do episódio na frente do Palácio da Alvorada com paraquedistas da reserva do Exército em 17 de maio, de fato mostram o grupo fazendo uma oração com imposição de mãos sobre Jair Bolsonaro, gesto pertencente a rituais de diferentes religiões. Na tradição cristã é utilizado nas ordenações de sacerdotes e certos ministérios, para o envio de missionários, para a consagração de lideranças ao serviço da igreja, nos atos de batismo e também para busca de cura. Tradicionalmente o sacerdote coloca uma ou as duas mãos sobre a pessoa que é objeto da oração ou da declaração. A imposição de mãos é muito comum no segmento pentecostal para estes propósitos tradicionais mas também para que o Espírito Santo aja sobre a pessoa que recebe a oração dentro do propósito que é solicitado. (Dicionário Cultura do Cristianismo. São Paulo: Loyola, 1999. Verbete Imposição de Mãos, p.159).

Nesse sentido, Bereia afirma ser verdadeira a crítica do site Pleno News à jornalista Vera Magalhães e sua insinuação de que o grupo teria feito uma” saudação nazista”. A postagem da jornalista é enganosa na medida que não leva em consideração o ato que, de fato, ocorreu na frente do Palácio da Alvorada. O fato de serem paraquedistas fazendo um ritual cristão descontextualizado e “ungindo” o Presidente Jair Bolsonaro como enviado de Deus pode ser até questionado pelas autoridades eclesiásticas e avaliações teológicas do que esta simbologia de fato representa politicamente podem ser feitas, mas a verificação do fato demonstra que não houve saudação nazista no episódio em questão.

No entanto, o Coletivo Bereia apurou que não foi a primeira vez que tal insinuação foi feita. No início do mês de maio circulou em diversos sites, como Catraca Livre,  matéria afirmando que o gesto feito por pessoas que aguardavam Bolsonaro na entrada do Palácio da Alvorada, se tratava de saudação nazista. Porém no dia 12 do mesmo mês, o site publicou matéria corrigindo o que havia sido dito anteriormente, que o gesto feito pelas pessoas se tratava, na verdade, de imposição das mãos, informação verificada e comprovada pelos sites Aos Fatos e E-Farsas. Apesar dos dois casos serem nitidamente ritual religioso, as simbologias nazistas flertam com o governo Bolsonaro, como diz o Catraca Livre:

-Slogan da campanha presidencial-“Brasil acima de tudo, Deus acima de todos”- fazia referência direta a um bordão da Alemanha de Hitler;

-Publicação nas redes sociais da Secom (Secretaria de Comunicação da presidência) sobre o coronavírus usou a frase-símbolo dos campos de concentração nazistas “O trabalho liberta” (“Arbeit macht frei”, em alemão). A frase, inclusive, aparece no portão do campo de concentração de Auschwitz, na Polônia;

-Em janeiro, o ex-secretário nacional de Cultura Roberto Alvim fez um discurso sobre artes semelhante ao do ministro da Propaganda de Hitler, Joseph Goebbels. A fala causou revolta da comunidade judaica e culminou com sua demissão. No ano passado o presidente Jair Bolsonaro recebeu críticas do governo israelense ao dizer que os crimes do Holocausto são perdoáveis;

– Bolsonaristas do grupo “300 do Brasil”, fizeram um ato no final de maio em frente ao STF (Supremo Tribunal Federal) e usaram elementos do nazismo e da Ku Klux Klan. Com máscaras, roupas pretas e tochas, além de uma faixa onde se lia”300″, o grupo composto por poucas dezenas de pessoas desceu a Esplanada e ficou em frente ao Supremo. Seguidos por Sara Winter, os bolsonaristas gritaram palavras de ordem contra o ministro Alexandre de Moraes, responsável pelo inquérito contra fake news.

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Referências de Checagem:

Jornalista posta fake como se ato de oração fosse nazismo. Pleno News, 21 de maio 2020. Disponível em: https://pleno.news/e-fake/jornalista-posta-fake-como-se-ato-de-oracao-fosse-nazismo.html

Jornalista posta fake como se ato de oração para Bolsonaro fosse nazismo. AM Post, 21 de maio 2020. Disponível em: https://ampost.com.br/2020/05/jornalista-posta-fake-como-se-ato-de-oracao-para-bolsonaro-fosse-nazismo/

Jornalista posta fake como se ato de oração fosse nazismo. Portal dos Fatos, 28 de maio 2020. Disponível em: https://portaldosfatos.com.br/2020/05/28/video-jornalista-posta-fake-como-se-ato-de-oracao-fosse-nazismo/

Jornalista posta fake como se ato de oração fosse nazismo. Hoje Notícias, disponível em: https://br.hojenoticias.com.br/jornalista-posta-fake-como-se-ato-de-oracao-fosse-nazismo/9

Vera Magalhães printa vídeo de mulatos fazendo oração para Bolsonaro e faz alusão a nazismo. Senso Incomum, 20 de maio 2020. Disponível em: https://sensoincomum.org/2020/05/20/vera-magalhaes-printa-video/

Vídeo com grito de “Bolsonaro somos nós”, adaptação de Heil Hitler, paraquedistas fardados fazem saudação nazista ao presidente. Revista Fórum, 18 de maio 2020. Disponível em: https://revistaforum.com.br/blogs/blogdorovai/video-com-grito-de-bolsonaro-somos-nos-adaptacao-de-heil-hitler-paraquedistas-fardados-fazem-saudacao-nazista-ao-presidente/amp/

“Somos todos Bolsonaro”: paraquedistas se reúnem com presidente, rezam e fazem flexões. O Estado de Minas, 17 de maio 2020. Disponível em: https://www.em.com.br/app/noticia/politica/2020/05/17/interna_politica,1148160/paraquedistas-se-reunem-com-bolsonaro-rezam-e-fazem-flexoes.shtml

Quando o uso de símbolos nazistas é permitido na Alemanha? Portal Deutsche Welle (DW), 30 de agosto 2020. Disponível em:https://m.dw.com/pt-br/quando-o-uso-de-s%C3%ADmbolos-nazistas-%C3%A9-permitido-na-alemanha/a-45284573

Bolsonaristas fazem gesto religioso para presidente na porta do Alvorada. Catraca Livre, 12 de maio 2020. Disponível em: https://catracalivre.com.br/cidadania/bolsonarista-fazem-saudacao-nazista-para-presidente-na-porta-do-alvorada/

É falso que apoiadores de Bolsonaro tenham feito saudação nazista; gesto é religioso. Portal Aos Fatos, 12 de maio 2020. Disponível em: https://www.aosfatos.org/noticias/e-falso-que-apoiadores-de-bolsonaro-tenham-feito-saudacao-nazista-gesto-e-religioso/

Apoiadores de Jair Bolsonaro fizeram um gesto nazista ao presidente? Portal E-Farsas, 12 de maio de 2020. Disponível em: https://www.e-farsas.com/apoiadores-de-jair-bolsonaro-fizeram-um-gesto-nazista-ao-presidente.html

Em ato contra STF, bolsonaristas usam símbolos do nazismo e da KKK. Catraca Livre, 31 de maio 2020. Disponível em: https://catracalivre.com.br/cidadania/em-ato-contra-stf-bolsonaristas-usam-simbolos-do-nazismo-e-da-kkk/

SILVA, Luciana Lobão da. Heil Hitler: análise semiológica de pôsteres nazistas do período 1933-1945. Disponível em:<https://scholar.google.com/scholar?cluster=14727049910344441026&hl=pt-BR&as_sdt=0,5&sciodt=0,5>. Acesso em: 10 jul. 2020

Relacionar brinde do Presidente Bolsonaro com leite ao nazismo é enganoso

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A Live da Semana do Presidente Jair Bolsonaro (sem partido), da última quinta-feira, 28 de maio, despontou como mais uma polêmica que o envolve. Na ocasião, ele tomou um copo de leite junto com os participantes, o presidente da Caixa Econômica Federal, Pedro Guimarães, e o Secretário de Aquicultura e Pesca do Ministério da Agricultura, Jorge Seif Junior.

Na transmissão no YouTube, cujas visualizações chegavam até quase 287 mil até a data desta matéria, o presidente diz (minuto 10’40’’)

“Vamos aproveitar o momento aqui, pessoal, eu não estou fazendo propaganda de marca nenhuma, tá? Desafio do Leite. Vamos brindar aqui o nosso produtor rural, o pessoal do setor leiteiro do Brasil, é uma atividade que não é fácil – eu morei em fazenda por algum tempo lá em Eldorado Paulista, na Fazenda Quirongosi – nós somos o terceiro maior produtor de leite do mundo e sempre tomei isso aqui. De vez em quando tomo uns venenos aí, tá certo, que vem aí a gente compra em lata nos bares, tá? Mas um brinde a todos os produtores de leite do Brasil e um brinde a nossa querida Tereza Cristina. Não é a melhor não né? Porque se for a melhor só podia ser ela porque não tem outra mulher. Entre todos os outros, homens, que passaram pela agricultura, com todo o respeito, a melhor… Ministério da Agricultura do Brasil, Tereza Cristina. Vamos lá. Selva!

Foto: Reprodução/ Youtube

Matéria publicada no site do Canal Rural, no mesmo dia daquela transmissão em vídeo, confirmou que o presidente teria feito “uma pequena homenagem” aos produtores de leite no Brasil.

A ação viral teria consistido no “desafio” entre produtores e personalidades midiáticas para que gravassem um vídeo tomando um copo de leite. A pessoa entrava na brincadeira, desafiava outros amigos durante a gravação e bebia o leite.

Em pouco tempo, várias postagens em mídias sociais de pessoas e organizações passaram a criticar o ato, que, em sua compreensão, seria uma mensagem subliminar do presidente em prol da supremacia branca, ou seja, Bolsonaro acreditaria na superioridade da raça caucasiana em detrimento das outras. Isso porque foi recuperado que diversos movimentos neonazistas têm adotado a prática de tomar leite em vídeos como um símbolo da tal supremacia racial. Alguns exemplos:

Reprodução/ Twitter

Depois que o debate sobre o tema viralizou nas mídias sociais, Jair Bolsonaro postou mensagens em seu perfil no Twitter dizendo que a discussão era fake news e mostrando estar participando do desafio do leite:

Foto: Reprodução/ Twitter

O filho do presidente, o deputado federal Eduardo Bolsonaro (PSL/SP), e o blogueiro pró-governo Allan dos Santos também se manifestaram com ampla repercussão. 

O primeiro postou no Twitter uma foto do casal de atores negros Taís Araújo e Lázaro Ramos tomando leite, enquanto o segundo postou um vídeo, ele mesmo, bebendo um copo de leite durante uma transmissão em seu canal do Youtube, logo após a live de Bolsonaro. Rindo, Allan dos Santos faz ainda o comentário de que “entendedores entenderão”. Um dos participantes da live ainda chega a citar “mensagem subliminar”.

Foto: Reprodução/ Youtube

Foram muitas as postagens de apoiadores do presidente com críticas às suspeitas levantadas pelos opositores:

Foto: Reprodução/ Twitter

Sobre Desafio do Leite

O Desafio do Leite é uma iniciativa apoiada pela Associação Brasileira dos Produtores de Leite. Segundo o seu Estatuto Social, a Abraleite é uma entidade civil sem fins lucrativos, constituída com o objetivo de defender nacionalmente os interesses dos produtores de leite e criadores de raças bovídeas leiteiras, representada por pessoas físicas ou jurídicas que atuem diretamente com a produção de leite e criação de raças bovídeas leiteiras.

Segundo o Canal do Leite,  foram os produtores Reynold Groenwold e Robert Salomons, juntamente com a equipe da COWSDIARIO, que criaram um  “desafio do leite” nas mídias sociais, em 20 de maio, antes da live do presidente Bolsonaro.

Destacando a importância e o dinamismo do setor lácteo nesse momento de crise do coronavírus, o ‘desafio’ consiste em gravar um vídeo tomando um copo de leite e convidar três outras pessoas para fazer o mesmo. Com o objetivo de valorizar a atividade leiteira e o consumo deste nobre produto pecuaristas do Brasil e de outros países, se uniram nessa campanha em prol do leite, buscando também maiores garantias para o setor e mais valorização do produto e seus derivados na vida das pessoas.”

O engenheiro agrônomo Marcelo Pereira de Carvalho explica, no portal da empresa especializada em informação para o agronegócio como AgriPoint, como a campanha é avaliada como bem sucedida:

“A ‘brincadeira’ foi ganhando corpo, as pessoas foram se desafiando e o número de vídeos atingiu um crescimento exponencial. Foi criado um perfil no Instagram, que já tem mais de 1000 seguidores. Lá, grande parte dos vídeos está sendo reproduzida. Produtores, técnicos, industriais, pesquisadores, lideranças, todo mundo entrou no jogo (até o técnico Dorival Jr gravou um vídeo), quem sabe em parte por precisarmos nos aproximar de alguma forma, ainda que simbólica, nesse momento de pandemia, elegendo o leite como algo em comum (…) Não sei se Reynold, Hans e Robert tinham ideia de que sua campanha iria atingir proporção tão grande que até o presidente da república bebeu seu leite, momento raro em que somos lembrados pelas mais altas esferas administrativas.”.

Além do presidente Jair Bolsonaro, a ministra da Agricultura Tereza Cristina também aceitou o desafio da Abraleite, conforme declarou em entrevista ao site do Globo Rural. No vídeo publicado no perfil da Abraleite do Facebook, no dia 28 de maio, a ministra tomou um copo de leite, um de iogurte e ainda comeu um pedaço de queijo. “Aceitei com muito prazer o Desafio do Leite. Fui desafiada por produtores rurais, deputados federais e associações do setor. Vamos tomar mais leite, faz bem para a saúde. Esse é um produto que nós precisamos incentivar”, disse Tereza Cristina no vídeo.

Foto: Reprodução/ Facebook

A deputada federal Aline Sleutjes (PSL/PR) havia publicado em perfil do Facebook, em 22 de maio de 2020, antes da live de Bolsonaro, sua participação no desafio do leite:

Reprodução/Facebook

O site Notícias Agrícolas publicou texto de dois produtores de leite criticando “grupos de esquerda” por atrelarem a campanha “desafio do leite” ao nazismo e classificam como “mediocridade de alguns que acreditam que ao se alimentar com leite, a pessoa estaria difundindo ideias nazistas”.

Qual o fundamento da relação ao símbolo neonazista?

Acredita-se que com o ressurgimento de movimentos supremacistas, entre os quais se destaca o neonazismo, a discussão sobre a simbologia do leite entrou novamente em pauta. Contudo, segundo a reportagem “Bebida mais do que branca: O leite como símbolo do neonazismo”, publicada em 01 de junho, no site Aventuras na História, seção do Portal UOL,  o significado tem origens ainda mais remotas.

São datadas de 100 anos atrás, quando um panfleto do Conselho Nacional de Laticínios dos EUA foi bastante categórico ao explicar a situação. De acordo com a reportagem, na peça, fica evidenciado que pessoas que consomem mais leite “são progressivas na ciência e em todas as atividades do intelecto humano”. Além disso, em 1933, a História da Agricultura do Estado de Nova York teria declarado que “de todas as raças, os arianos parecem ter sido os bebedores mais pesados ​​de leite e os maiores usuários de manteiga e queijo”. Para o órgão, isso teria ligação direta com o “rápido e alto desenvolvimento dessa divisão de seres humanos”.

Na matéria, a professora de direito na Faculdade de Direito da Universidade do Havaí Andrea Freeman ressalta que a ligação entre o leite e a simbologia neonazista é indiscutível. “Não é um novo relacionamento”, explica, pontuando o passado histórico. Autora de um artigo crítico intitulado “A brancura insuportável do leite”, Andrea Freeman acredita que a ligação entre o leite e a ideia supremacista ainda parte de origens biológicas e a indústria dos EUA se aproveita de diferenças raciais para estimular o consumo de leite nas elites norte-americanas.  “Neste momento”, teoriza Freeman, “tanto os supremacistas brancos quanto a política federal de alimentos nos Estados Unidos estão oprimindo através do leite”. Segundo ela, a maior parte do mundo não digere o leite de forma confortável, enquanto a população branca, original de países escandinavos, consome a bebida com facilidade.

Em 2019, a temática volta à tona. De acordo com matéria publicada no jornal Washington Post, em setembro de 2019,

o uso da imagem do leite começou em fevereiro de referido, quando usuários do 4chan, fórum de compartilhamento de imagens que acabou se transformando em um dos mais influentes e anárquicos sites da internet, usando uma imagem extraída de um artigo da revista Nature sobre 2013 sobre intolerância à lactose, aproveitaram a ideia de que adultos do norte da Europa não têm problemas com a lactose. A partir daí, foi apenas um pequeno salto para uma possível analogia racista e a ideia de fazer do leite um símbolo de brancura. 

Pesquisadores brasileiros enxergam uma correlação do gesto com movimentos neonazistas – que adotam o copo de leite como símbolo. À revista Fórum, a doutora em antropologia social pela Unicamp (Universidade Estadual de Campinas) Adriana Dias, que há anos pesquisa o fenômeno do nazismo,  disse que há uma referência clara entre o episódio e o neonazismo. “O leite é o tempo todo referência neonazi. Tomar branco, se tornar branco. Ele vai dizer que não é, que é pelo desafio, mas é um jogo de cena, como eles sempre fazem”, declarou à Fórum.

Segundo a pesquisadora, Bolsonaro poderia ter se escorado no Shavuot, festa judaica que teve início na quinta-feira, 28 de maio, para se justificar pelo ato, que ocorreu no mesmo dia em que explodiram manifestações em Minneapolis contra a violência policial contra negros – em razão do bárbaro assassinato de George Floyd. O leite como símbolo está diretamente ligado aos chamados “alt-right” estadunidenses. 

Já o antropólogo David Nemer, que pesquisa o bolsonarismo, fez uma sequência de postagens no Twitter comentando também a questão:

Em entrevista ele ressaltou:

Nacionalistas brancos fazem manifestações bebendo leite para chamar a atenção para um traço genético conhecido por ser mais comum em pessoas brancas do que em outros – a capacidade de digerir lactose quando adultos. É uma tentativa racista para se embasar em “ciência” p/ diferenciar e justificar a “raça branca”. Mas como já provado e explicado por toda ciência: Não há evidência genética para apoiar qualquer ideologia racista. O que há, é na verdade, um governo tosco e motivado pelo ódio”.

Outro ponto destacado pelo especialista diz respeito à apropriação do leite por um grupo de bolsonaristas ligado ao perfil Leitadas do Loen, cuja conta é alvo do inquérito do STF que investiga ataques ao Supremo e disseminação de fake news.

“O símbolo do copo de leite foi apropriado por uma facção das redes bolsonaristas, que são channers. Esse pessoal gosta da confusão que o meme gera com a simbologia nazista e se refestelam com a notoriedade que recebem da mídia. Essa fação é do Leon Leitadas”, acrescentou Nemer.

Reprodução/ Twitter

A pesquisa do Coletivo Bereia verificou que a declaração do presidente Jair Bolsonaro na transmissão ao vivo de 28 de maio, relacionando o ato de brindar com leite com seus acompanhantes à produção de leite no Brasil, pode estar associada à campanha “Desafio do Leite, de acordo com a menção do presidente no momento. A campanha de fato existe, tendo sido lançada em 20 de maio pelo Instagram, por dois produtores. Ela foi apoiada pela ministra da Agricultura Tereza Cristina, citada por Jair Bolsonaro no brinde com leite, e já vinha sendo divulgada por deputada ligada a ruralistas do Paraná antes da live de 28 de maio.

Bereia conclui que a relação do ato de Jair Bolsonaro com a simbologia do leite disseminada por nazistas e grupos supremacistas brancos disseminada em mídias sociais é enganosa pois relaciona um elemento real (a simbologia nazista e supremacista do leite) a um episódio que denota outra motivação (a live que responde ao “Desafio do Leite”). 

O Coletivo Bereia analisa que este conteúdo enganoso pode ter duas origens:

1) uma reação de opositores a Jair Bolsonaro (de esquerda e de outras tendências políticas, pois oposição atual ao presidente não está restrita às esquerdas), que recorreu a estudos do nazismo e dos movimentos da supremacia branca, ancorada na concepção de que o presidente do Brasil é racista. Esta concepção se consolidou por declarações públicas e atitudes dele ao longo de sua vida pública, como as de ser contra as cotas raciais; afirmar que seus filhos não se apaixonariam por uma mulher negra pois “foram muito bem educados”, quando se referiu à cantora Preta Gil em programa de TV (caso que rendeu a Bolsonaro condenação na Justiça); fala que negros habitantes de quilombos são gado; não nomeou ministros negros; faz “piadas” racistas frequentes com seu “braço direito” deputado federal Hélio Lopes (PSL-RJ). 

2) por uma estratégia diversionista (desviadora de atenção um dia depois da operação da Polícia Federal relacionada ao inquérito que investiga propagadores de fake news e de ódio contra o STF e outras autoridades públicas. Os investigados são aliados do presidente entre políticos, empresários, comediantes e blogueiros. O diversionismo criado pela viralização da história do leite não só desviraria a atenção do caso da operação da PF, tendo ocupado o lugar dela em discussões virtuais, como lançaria sobre a oposição a acusação de ser propagadora de fake news, o que também se deu em várias postagens sobre em apoio ao presidente e dele próprio. 

Sobre estas duas origens mais pesquisas são necessárias. 

***

Referências de Checagem:

Revista Fórum. https://revistaforum.com.br/politica/copo-de-leite-bolsonaro-usa-simbolo-nazista-de-supremacia-racial-em-live/.  Acesso em 2 jun 2020.

Perfil no Twitter do antropólo David Nemer. https://twitter.com/DavidNemer. Acesso em 2 jun 2020.

Perfil no Twitter de Eduardo Bolsonaro. https://twitter.com/bolsonarosp Acesso em 2 jun 2020.

Revista Globo Rural.   https://revistagloborural.globo.com/Noticias/Criacao/Leite/noticia/2020/05/bolsonaro-e-tereza-cristina-participam-do-desafio-do-leite.html Acesso em 2 jun 2020.

Canal rural. https://www.canalrural.com.br/radar/bolsonaro-faz-homenagem-a-produtores-de-leite-durante-live/ Acesso em 2 jun 2020.

Washington Post. https://www.washingtonpost.com/technology/2019/09/26/okay-hand-sign-has-moved-trolling-campaign-real-hate-symbol-civil-rights-group-says/ Acesso em 2 jun 2020.

Farmfor. https://www.farmfor.com.br/posts/a-estupidez-de-quem-associa-o-desafio-do-leite-ao-nazismo/ Acesso em 2 jun 2020.

Página da Abraleite no Facebook. https://www.facebook.com/pg/ABRALEITE/posts/?ref=page_internal Acesso em 2 jun 2020.

Catraca Livre. https://catracalivre.com.br/cidadania/bolsonaro-toma-leite-em-live-enquanto-milhares-morrem-de-coronavirus/ Acesso em 2 jun 2020.

Estatuto Social disponível no site da Abraleite. http://abraleite.org.br/wp-content/uploads/2017/09/Estatuto_Social.pdf Acesso em 2 jun 2020.

Aventuras na História. Portal UOL. https://aventurasnahistoria.uol.com.br/noticias/reportagem/bebida-mais-do-que-branca-o-leite-como-simbolo-do-neonazismo.phtml Acesso em 2 jun 2020.

Perfil do Desafio do Leite. no Instagramhttps://www.instagram.com/p/CAaJLbjjcYV/ Acesso em 2 jun 2020.

MilkPoint. https://www.milkpoint.com.br/colunas/milkpoint-20-anos/milkpoint20anos-dia-mundial-do-leite-219749/ Acesso em 2 jun 2020.

Notícias Agrícolas. https://www.noticiasagricolas.com.br/videos/leite/260682-como-bolsonaro-bebemos-leite-e-nao-somos-nazistas-por-jbolivi-e-jlcoelho.html?utm_source=parceiros&utm_medium=rss#.XtbKzTpKjIU Acesso em 2 jun 2020.

Exame. https://exame.com/brasil/o-diversionismo-como-estrategia-para-camuflar-os-problemas-do-governo/ Acesso em 2 jun 2020.