Em 2015, mais de 100 mil mulheres negras marcharam em Brasília contra o racismo, a violência e em defesa do bem viver. O ato, considerado um marco na história da luta antirracista no Brasil e na América Latina, consolidou uma nova etapa de organização política das mulheres negras no país. Mulheres negras evangélicas estiveram presentes, mas de forma dispersa, invisibilizadas pela falta de uma articulação própria.
Neste 2025, dez anos depois, o movimento retornou à capital federal no último 25 de novembro, com uma pauta ampliada. A 2ª Marcha Nacional das Mulheres Negras, marcada para o encerramento da Semana da Consciência Negra, teve caráter internacional e trouxe como tema central a “Reparação e o Bem Viver”. A expectativa inicial superou as previsões mais otimistas, reunindo mais de 300 mil.
Para a carioca do Movimento Negro Evangélico Rakel Matoso, a experiência de se unir a mulheres negras na Esplanada dos Ministérios, em Brasília, transcendeu a política, “foi uma epifania”. “Ao me unir de maneira muito real a 300 mil mulheres em Brasília, eu vi Deus”, resume. A declaração, curta e potente, sintetiza o sentimento de um grupo que fez história na 2ª Marcha das Mulheres Negras: o Comitê de Mulheres Negras Evangélicas e Protestantes. A organização marcou uma presença inédita e articulada: “não vi o evento como um ponto de chegada, mas como um catalisador de transformações que agora ecoam em suas casas, igrejas e comunidades”, avalia Rakel Matoso.
O Bereia ouviu quatro mulheres que estiveram na linha de frente dessa articulação. Seus depoimentos revelam que a marcha não terminou quando os ônibus voltaram para seus estados de origem. Ela continua na forma como essas mulheres passaram a se posicionar, a desafiar estruturas e a reinterpretar a própria fé.
O Eco da Marcha: da Esplanada para a sala de estar
Na voz das participantes, o impacto mais imediato da marcha não foi institucional, mas pessoal e familiar. Para muitas, a experiência em Brasília significou a legitimação de uma luta que, até então, era travada em silêncio. “Quando uma mulher evangélica volta da marcha trazendo reflexões, testemunhos e vivências de Brasília, ela volta mais fortalecida para iniciar conversas que antes pareciam impossíveis”, explica Ivanete Xavier, da Primeira Igreja Batista de Curitiba.
Foto: Movimento Negro Evangélico/Divulgação
Esse fortalecimento se materializa em mudanças concretas. Juliana Santos, psicóloga, que também faz parte da coordenação do Comitê de Mulheres Negras Evangélicas, viu o reflexo da marcha em sua própria família. “Algumas mudanças já podem ser percebidas em meu contexto familiar, quando minhas irmãs, também mulheres negras, que não puderam estar na marcha se sentem representadas”, relata.
A participação de Juliana Santos ressoou como uma forma de reparação intergeracional: “Elas sentem também que nossa mãe, Dona Márcia, que já virou ancestral e que sofreu muitas violências em vida, também foi representada. Hoje, as filhas da Dona Márcia estão vivendo e não somente sobrevivendo”. “Estamos caminhando para viver aquilo que ela não pode viver, uma vida com um pouco mais de qualidade. Ainda precisamos lutar para conquistar muitas coisas, mas já estamos no caminho”, afirma a psicóloga.
Essa transição da sobrevivência para a vida é o cerne do impacto pós-marcha. Não se trata apenas de ocupar um espaço político, mas de ressignificar a própria existência.
Conquista da visibilidade: Sujeito político e de fé
A organização do comitê de evangélicas, que na primeira marcha, em 2015, era apenas uma articulação incipiente, desta vez foi estratégica. “Dessa vez nos aquilombamos mais, e acompanhamos a construção da marcha desde o início”, conta Rakel Matoso. Esse “aquilombamento”, como define, foi fundamental para a conquista de um objetivo central: visibilidade.
“Ao marcharem em bloco, com uma pauta própria […] nós ganhamos algo muito importante: visibilidade como sujeito político e como sujeito de fé”, analisa Ivanete Xavier. Essa dupla identidade – política e de fé – é o que permite a essas mulheres desafiarem a narrativa hegemônica que tenta apartar os dois mundos.
Essa visibilidade, segundo a evangélica de Curitiba, “abre portas” e “facilita o diálogo com lideranças religiosas sobre temas que, durante muito tempo, foram silenciados dentro das nossas igrejas: violência doméstica e familiar, machismo religioso e o racismo que ainda atravessa nossas congregações”.
A Teologia do Asfalto: Fé, Justiça e Reparação
Para as mulheres do comitê, a marcha foi um ato teológico de luta por reparação, justiça e bem viver, que não é vista como uma agenda secular, mas como a própria encarnação do evangelho. “O ajuntamento de mulheres negras evangélicas e protestantes junto a tantas outras mulheres de diversas religiosidades é fundamental para construção de um mundo mais justo”, defende Juliana Santos. “Acreditamos que a justiça só se efetiva quando a gente se junta, reivindica e exige a reparação e bem viver em nossas vidas”.
Aydee Valério, da comunidade Ciranda de Fé (RJ) e também uma das líderes do comitê, reforça que a ocupação de Brasília foi um ato de reivindicação de existência. “Estávamos ali por políticas públicas, por educação, por saúde, pelos direitos de existir, para declarar que somos donas dos nossos úteros, dos nossos corpos”, diz. “Nossa existência, nossa sobrevivência, é um ato revolucionário”.
O impacto da Marcha, contudo, não se restringiu ao espaço público da Esplanada dos Ministérios, mas reverberou na individualidade e na comunidade de fé de muitas mulheres, enfatiza Heloísa Souza, da Rede de Mulheres Evangélicas: “O dia 25 de novembro foi a apoteose de uma série de eventos que se deram não apenas no espaço público, mas também na individualidade de muitas mulheres negras que estiveram presencialmente em Brasília e de tantas outras que não puderam estar”, reflete a participante de Taboão da Serra (SP).
Heloísa Souza enfatiza que o processo de construção do movimento, como mulher negra e evangélica, abriu oportunidades de diálogo e reconhecimento dos avanços e desafios na luta por justiça e equidade. “Para mim, participar deste movimento é um processo pedagógico para mulheres evangélicas, em especial, no diálogo inter-religioso que me deu ferramentas para ampliar essa perspectiva na comunidade Cristã”, conclui a evangélica, que pertence à Primeira Igreja Batista em Taboão da Serra há 40 anos. Ela destaca a importância de acolher pessoas diversas, sensibilizadas por informações que, em geral, são silenciadas no contexto cristão.
Essa “teologia do asfalto”, construída na coletividade da luta, oferece um contraponto poderoso à teologia de púlpitos que, na maioria das igrejas, prega a resignação. Ela encontra Deus não no silêncio, mas no grito por justiça. A marcha, nesse sentido, se torna um espaço de revelação divina, como expressou Rakel Matoso.
O legado do dia 25, portanto, não está apenas nas fotos ou nos discursos, mas na força que cada mulher levou de volta para o seu território. Como conclui Ivanete Xavier, a luta é contínua: “A marcha não termina quando a gente volta para casa. Ela continua na forma como passamos a nos posicionar, educar nossas famílias, acolher outras mulheres e reafirmar que fé e justiça caminham juntas. E, para nós, mulheres negras evangélicas, essa caminhada é também uma forma de testemunho”.
**** Foto de capa: Movimento Negro Evangélico/Divulgação
Em 08 de setembro de 2020 o portal evangélico Gospel Mais noticiou que Sam Bethea, um ex-presidiário e pregador de rua, teria sido agredido por manifestantes do movimento antirracista Black Lives Matter (BLM) em Charlotte, Carolina do Norte (EUA).
De acordo com o site da emissora de TV WSOCTV, aliada local da rede ABC, Bethea foi atingido por farinha, refrigerante e suco ao cruzar com manifestantes do “movimento” enquanto levava uma placa com a frase “Jesus Saves” (“Jesus Salva”, em inglês). A manifestação se deu em protesto à convenção do Partido Republicano na cidade em que Donald Trump foi confirmado como candidato a reeleição. O pleito será realizado em 3 de novembro deste ano.
O pregador é figura conhecida do centro da cidade, como mostra reportagem de outra televisão local, de 2019. Em entrevista para o jornal local Charlotte Observer, Bethea disse que não estava procurando confronto, mas entende que o conflito vem até ele por falar alto. Ele diz que, como um homem negro, se sente ofendido quando ouve “vida negras importam”. “Eu sinto a dor quando vejo atos contra afro-americanos. Entendo que o BLM é um movimento que divide. É um movimento contra Deus. Eu sei disso porque eu estou lá com eles, ouço a mensagem deles. Minha mensagem é muito diferente da sua. E eu sou negro. É isso que vocês estão gritando. Mas a minha vida não importa”, afirma.
Outra matéria do Charlotte Observer revela que o caso não é tão simples como pareceu nas mídias sociais e na matéria do site Gospel Mais. O pregador Sam Bethea foi agredido por ser, na verdade, um “contramanifestante”. A matéria intitulada “Este homem está tentando compartilhar o amor de Jesus com os manifestantes? Ou ele está apenas sendo um incômodo?”, o jornal mostra que Bethea tem sido uma presença quase constante em protestos envolvendo Black Lives Matter, e que ele opõe-se abertamente ao movimento.
A reportagem destaca ainda que é importante notar que o pregador se colocou intencionalmente no meio dessas manifestações, e que testemunhas do episódio na cidade declararam sentir fortemente que ele tentou agitar os manifestantes deliberadamente. Desta forma, diz o Charlotte Observer, “enquanto alguns pensam que Sam Bethan é um herói, outros se perguntam o que exatamente ele estaria tentando provar lá – e acreditam que, nesta saga em andamento, Bethea pode realmente ser um pouco vilão”.
Charlotte Observer apurou que tudo começou em setembro de 2016, durante os protestos na parte alta da cidade após o tiroteio fatal de Keith Lamont Scott pela polícia. Bethea diz que, na primeira noite, o mar de manifestantes se dirigiu para a rua, onde ele estava sempre gritando palavras religiosas.
“Eles não eram violentos, mas … você sabia que eles eram loucos”, diz ele. Desta forma, enquanto uma pessoa com o megafone tentava liderar um canto, Bethea berrava “Jesus saves!” para que “eles não soubessem quando desligar”, segundo o pregador. Após uma hora de envolvimento no que ele chama de “guerra espiritual”, os manifestantes seguiram em frente. No dia seguinte, e nos outros ele fez o mesmo até o fim dos protestos, segundo o próprio Bethea, continuando a gritar mesmo quando os manifestantes o xingavam, jogavam coisas nele e ocasionalmente até o empurravam.
Kass Ottley, uma ativista comunitária que fundou o Procurando Justiça CLT e ajudou a organizar protestos em 2016, diz que entende esse tipo de comportamento dos manifestantes e diz que não aprecia o dele. Ela se lembra de Bethea interrompendo um momento de silêncio que seu grupo estava tendo do lado de fora do hotel Omni para Justin Carr, um manifestante morto a tiros por outro homem na segunda noite de protestos após o assassinato de Scott. Ottley diz: “Foi uma falta de respeito. Você não pode ser um homem de Deus e não respeitar os outros. Se ele estivesse em silêncio, nós o teríamos respeitado.”
E, de modo geral, ela sente: “Ele está agitando as pessoas que já estão chateadas e emocionadas”, acrescentando que “ele não pode bancar a vítima quando segue intencionalmente os manifestantes, quando sabe que sua mensagem em voz alta não é desejada”. Bethea ri da ideia: “Eles odeiam minha mensagem”, disse ao Charlotte Observer, “e, honestamente, odeio a mensagem deles”. Ele diz que os manifestantes do BLM são divisionistas, propensos a usar retórica odiosa, construindo paredes entre eles e a polícia quando deveriam estar construindo pontes.
Desta forma, diz o levantamento do Charlotte Observer, Sam Bethea estava no meio das manifestações com a maior frequência possível em Charlotte, após a execução de George Floyd em 25 de maio, em Minneapolis. Ele estava novamente nos protestos relacionados á Convenção Nacional do Partido Republicano, em agosto, um declarado contra-manifestante exercendo ruidosamente seu direito de contra-protestar.
Entre várias testemunhas ouvidas pelo Charlotte Observer, Justin LaFrancois, que é editor do jornal Queen City Nerve e participou de “99,8 por cento dos protestos”, declarou:
“A presença constante de Bethea parece causar todos os tipos de interações adversas. Eu o vi instigar casos, vi outras pessoas instigarem casos com ele. É meio que funciona nos dois sentidos. É claro que as emoções vão ser altas para todos. Então, se ele sente que as pessoas estão tentando silenciá-lo, ele fica chateado; se as pessoas sentem que ele está tentando silenciá-las, elas ficam chateadas”.
Justin LaFrancois
De acordo com Ronilso Pacheco, teólogo pela PUC-Rio e mestrando no Union Seminary (Nova York/EUA) com estudos em Teologia Negra, ouvido pelo Coletivo Bereia, há uma investida conservadora de contranarrativa para retratar o BLM e a luta antirracista como incitadora de ódio ou algo que busca dividir o país.
“Não é o caso do Bathea [participar dessa investida], mas os episódios como o dele são pegos de forma isolada e são usados como uma contranarrativa ao BLM. É o reconhecimento do racismo como mal social, mas a desaprovação da luta antirracista. A verdade é que, não podendo negar os efeitos danosos que o racismo tem causado na sociedade americana, sobretudo por causa da sociedade branca conservadora, constrói-se uma narrativa que reconhece os males do racismo, mas se critica a luta antirracista.”
De acordo com o site do movimento, a missão é “erradicar a supremacia branca e construir poder local para intervir na violência infligida às comunidades negras pelo estado e vigilantes. Ao combater atos de violência, criando espaço para a imaginação e inovação Negras, e centrando a alegria Negra, estamos conquistando melhorias imediatas em nossas vidas.”
No artigo “A tomada do palco: performances sociais de Mao Tsé-Tung a Martin Luther King, e a Black Lives Matter hoje”, Jeffrey Alexander, professor de Sociologia na Universidade de Yale, qualifica o Black Lives Matter como um novo movimento de direitos civis. As performances do movimento por direitos civis de meados do século XX deixaram por herança uma cultura profundamente enraizada, um conjunto de experiências-modelo evocativas, que os protestos afro-americanos posteriores tomaram por base.
Entretanto, Alexander ressalta que a capacidade de mobilização em torno dos protestos em favor da subclasse seguiu existindo, ao lado da possibilidade de inspirar a crítica social pela reparação cívica por parte das instituições que sustentaram sua devastação. O professor destaca que os disparos feitos por policiais contra homens negros é um fato que ocorre há décadas, mas raramente ganharam visibilidade pública. Esta realidade mudou quando as novas tecnologias de comunicação e o advento da internet propiciaram o registro das cenas de violência e mobilizações através de slogans e símbolos visuais e sua disseminação pelas redes sociais. Celulares e computadores permitiram que milhares de mulheres e homens negros tomassem as ruas, em manifestações que sugestivamente constatavam a inocência das pessoas negras e a brutalidade policial.
O professor Jeffrey Alexander cita o jornal The Huffington Post para dizer que o movimento Black Lives Matter” reformulou o modo como os americanos veem o tratamento policial dado às pessoas não brancas”. Nesse sentido, as vidas das pessoas negras passaram a ter importância.
Alexander também recorre ao jornal The New York Times para citar uma descrição dos protestos:
Apesar da proporção do movimento, Ronilso Pacheco destaca ao Coletivo Bereia, que o BLM não pode ser visto com as mesmas lentes da luta por direitos civis nos anos 1960 e 1970, que teve lideranças centralizadas e mais coesão.
“O BLM é diverso e pluralizado. Cada núcleo, cada estado tem sua autonomia e até um pequeno grupo pode se organizar enquanto parte do movimento. Tem-se usado a diversidade de estratégias de ações dentro do movimento de forma a pinçar casos mais extremos de embate e confronto para desqualificar toda a história do BLM”.
Ronilso Pacheco
George Floyd e novos protestos
O caso George Floyd gerou novos protestos antirracistas nos EUA em 2020. No dia 25 de maio, ele foi morto por asfixia provocada por Derek Chauvin, um policial branco na cidade de Minneappolis, no estado de Minnesota. Segundo dados levantados pelo jornal americano The Washington Post, 1018 americanos foram mortos por policiais em 2019. Apesar de brancos serem a maioria dos mortos pela polícia, proporcionalmente, a violência policial atinge mais a população negra: 32 negros mortos por milhão contra 24 por milhão de hispânicos (classificados como não brancos) e 13 por milhão de brancos. Vale lembrar que a população negra é minoria nos EUA: são 13% dos habitantes.
No depoimento ao Coletivo Bereia, Ronilso Pacheco avalia que o caso George Floyd veio como uma gota d’água que fez transbordar a pressão sobre a população afro-americana.
“Há uma combinação da força da imagem da morte do Floyd, que remete ao contexto escravocrata pela maneira fria de se matar um homem negro, com o contexto da pandemia e como ela afetou a população negra”.
Ronilso Pacheco
Dados levantados pela emissora CNN mostram que, até o mês de maio de 2020, afro-americanos eram 27% dos mortos por covid-19 enquanto correspondem por 13% da população dos EUA. Já a população branca, que são 62% de todos habitantes do país, correspondem a 49% das mortes. Levando em conta o desemprego daquele período, os negros são tinham maior índice do que hispânicos (16,7% contra 18,9% entre os latinos) – a taxa entre brancos e asiáticos-americanos ficava entre 14,2% e 14,5%.
O caso de Jacob Blake, em Kenosha, Wisconsin, gerou protestos antirracistas e contra a violência policial no final de agosto passado. Blake foi alvejado por um policial branco que respondia chamado de incidente doméstico. Enquanto entrava em seu carro, onde seus filhos estavam, o homem foi baleado sete vezes e foi socorrido em estado grave. As manifestações que vieram a seguir registraram alguns episódios violência e a polícia usou de gás lacrimogêneo e toque de recolher.
Outras ocorrências entre manifestantes do BLM e cristãos
Em coluna no The Intercept Brasil, Ronilso Pacheco demonstra como um site que diz fazer “ativismo pró-família” deturpou o texto explicativo sobre o movimento e sua origem para afirmar que a verdadeira missão do BLM era promover a destruição da família, a agenda LGBT, fronteiras abertas e doutrina racista bizarra.
Declarações dos candidatos à presidência
A disputa de narrativa acerca do BLM acontece no contexto da corrida presidencial estadunidense de 2020. Candidato à reeleição, Donald Trump promove a narrativa de que o objetivo de protestos não é uma América melhor, mas sim o fim da América. “Essa revolução cultural de esquerda quer reverter a Revolução Americana”, disse o presidente em seu discurso no dia da Independência, no Monte Rushmore. Em relação aos protestos, Trump defende o discurso de “Lei e Ordem” e acusa Joe Biden, candidato Democrata à Casa Branca, de ser um “cavalo de tróia para o socialismo”.
Ronilso Pacheco, no depoimento ao Coletivo Bereia, analisa os posicionamento dos dois candidatos sobre os protestos:
“A despeito da Lei e da Ordem que mantém uma estrutura racista e muito segregacionista em muitos aspectos, o discurso ‘Lei e Ordem’ faz parte do linguajar e narrativa do público evangélico conservador. E Trump não vai recuar nisso porque essa é a grande base”.
Ronilso Pacheco
Para ele, Biden não faz nada além do esperado ao ser moderado.
“Ele não vai correr os riscos de endossar um discurso mais radical, no sentido de endossar protestos que acabem com destruição de estabelecimentos. Essa também é a sua base, que tem voz e voto e poder decisivo nas eleições. [Seu discurso é moderado por] não tirar as razões de quem se exacerba e apela à violência (pensando na violência que a provocou) mas diz que a destruição de estabelecimentos é um exagero, um excesso com o qual ele não pode concordar.”
Ronilso Pacheco
A opinião pública sobre o Black Lives Matter
Pesquisa do Pew Research Center, publicada em junho, demonstrou que dois terços da população americana adulta dá algum apoio ao Black Lives Matter. 38% “apoiam fortemente” o movimento enquanto 29% dão “um pouco de apoio”. Os dados apontam uma diferença entre brancos e negros em relação ao BLM. 31% dos brancos apoiam fortemente o movimento e 30% dão algum apoio. Já em negros, as respostas de apoio são, respectivamente, 71% e 15%.
Outra diferença está entre democratas e republicanos. Enquanto 92% dos cidadãos identificados com o Partido Democrata de Biden apoiam o BLM (sendo que 62% deles apoiam fortemente), apenas 37% dos identificados com o Partido Republicano de Trump apoiam o movimento (só 7% dão “forte apoio”). Por fim, 59% dos adultos acreditam que pessoas estão se aproveitando dos protestos para ter comportamento criminoso. Enquanto 8 em cada 10 republicanos acreditam nisso, 39% dos democratas pensam o mesmo.
Com base na verificação, o Coletivo Bereia classifica a matéria do Gospel Mais como enganosa. Apesar da agressão ao pregador de rua ter existido, o recorte do conteúdo não contextualiza como se deu o episódio, fazendo parecer que Sam Bethea era um simples pregador que foi atacado. A pesquisa do Bereia mostra que Bethea agia durante protestos do BLM desde 2016, “criando casos” como “contramanifestante” e não como mero pregador evangélico. Ao omitir esta informação, o Gospel Mais induz leitores e leitoras a uma rejeição ao movimento Black Lives Matter, como se fosse contrário à pregação do Evangelho, sem também uma contextualização a respeito do movimento.