Jornada 6×1: Entenda por que o deputado bispo da Igreja Universal desqualifica direito à redução
“Ócio demais faz mal” – esta frase que viralizou nas mídias sociais foi pronunciada pelo bispo da Igreja Universal do Reino de Deus (IURD), presidente do partido Republicanos e deputado federal Marcos Pereira. Em entrevista publicada pela Folha de S. Paulo, em 26 de fevereiro passado, Marcos Pereira criticou a proposta de emenda à Constituição que prevê o fim da jornada de trabalho 6×1. Além de descartar o direito de trabalhadores a mais tempo de descanso, o bispo deputado sugeriu que trabalhadores de baixa renda não saberiam aproveitar um dia adicional livre.
Como a Folha de S. Paulo omitiu na publicação que Marcos Pereira é bispo licenciado da IURD e que preside um partido historicamente ocupado pela igreja, Bereia oferece conteúdo mais completo sobre o caso. Estas informações são relevantes para a compreensão dos fundamentos morais e teológicos que permeiam a argumentação do parlamentar sobre trabalho, prosperidade e ética social.
O que o deputado afirmou na entrevista
Na entrevista à Folha de S. Paulo, o líder do Republicanos afirmou ter levado ao presidente da Câmara dos Deputados Hugo Motta, do mesmo partido (PB), preocupações em relação à tramitação da Proposta de Emenda à Constituição que prevê o fim da jornada de seis dias de trabalho por um de descanso. Para Marcos Pereira, o tema não deveria ser votado em ano eleitoral. Ele relatou ter ouvido de Motta que a decisão de fazer tramitar a PEC ocorreu diante da insistência do governo do presidente da República Luiz Inácio Lula da Silva (PT) em avançar com a pauta, o que teria levado a Câmara a assumir o protagonismo do debate.
Ao argumentar contra a proposta, Pereira afirmou que a redução da jornada de trabalho poderia expor trabalhadores de baixa renda a “drogas” e “jogos de azar”, e disse que um dia adicional sem trabalho não necessariamente se converteria em lazer. “Qual é o lazer de um pobre numa comunidade? Ou num sertão lá do Nordeste?”, questionou.
Para ele, a diminuição da carga horária comprometeria a competitividade das empresas brasileiras e afetaria a prosperidade econômica. “Quanto mais trabalho, mais prosperidade”, declarou, e ainda acrescentou que a reivindicação por mais tempo livre seria legítima “se as pessoas tivessem condições de fazer lazer”, mas que “o povo não tem dinheiro, infelizmente”.
O que é a Proposta de Emenda à Constituição sobre a jornada 6×1
A PEC da chamada “jornada 6×1” busca alterar o modelo de trabalho no Brasil previsto na Consolidação das Leis do Trabalho (CLT) que, atualmente, define que o trabalhador tenha apenas um dia de descanso após seis trabalhados – o regime conhecido como escala 6×1. A proposta mais avançada neste sentido é a PEC 148/2015, de autoria do senador Paulo Paim (PT-RS), que já foi aprovada pela Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) do Senado no final de 2025 e prevê o fim gradual dessa escala e a redução da jornada máxima semanal de 44 para 36 horas ao longo de alguns anos. Esta PEC inclui aumentar o descanso semanal remunerado de um para dois dias e estabelecer um período de transição para que as novas regras passem a valer, com votações consecutivas previstas em plenário tanto no Senado quanto na Câmara dos Deputados com quórum qualificado de 3/5.
Além da PEC de Paim, outra proposta tramita na Câmara dos Deputados: é a PEC 8/2025, de autoria da deputada Érika Hilton (PSOL-SP) que também pretende acabar com a escala 6×1, limitar a jornada a 36 horas semanais e permitir compensações de horário e reduções mediante acordos coletivos. Apesar de ter sido apresentado em fevereiro de 2025, apenas um ano depois, neste fevereiro de 2026, o presidente da Câmara Hugo Motta (Republicanos-PB), encaminhou o texto de Érika Hilton à Comissão de Constituição e Justiça da Casa (CCJ) para análise de admissibilidade, apensada (acoplada para trâmite conjunto) com a PEC 221/2019, do deputado Reginaldo Lopes (PT-MG), que propõe limite de 36 horas semanais com uma transição mais longa.
Ainda que tenha ampla aprovação popular, a proposta tem encontrado resistência do patronato e de parlamentares alinhados à direita e ao centro, inclusive aqueles com identidade religiosa, no Congresso Nacional, como Bereia já havia checado.
Quem é Marcos Pereira?
Bispo licenciado da Igreja Universal do Reino de Deus (IURD) para atuar no Congresso Nacional e um dos principais quadros do neopentecostalismo brasileiro, Marcos Pereira construiu trajetória que articula religião, comunicação e política institucional. Antes de consolidar sua atuação partidária, foi vice-presidente da Rede Record, entre 2006 e 2011, período em que a emissora alcançou o segundo lugar em audiência no país.
Em 2012, Pereira assumiu a presidência do então Partido Republicano do Brasil (PRB), partido político que passou a ser ocupado pela IURD. À época, a legenda contava com oito deputados federais. Sob sua condução, o partido ampliou de forma expressiva sua presença institucional.
Rebatizada como Republicanos, a sigla partidária passou a reunir, no atual quadro, 44 deputados federais, quatro senadores e dois governadores (Tarcísio de Freitas, em São Paulo, e Wanderlei Barbosa, em Tocantins), além do prefeito de Vitória (ES) Lorenzo Pazolini. Nas eleições municipais de 2024, a legenda mais que dobrou o número de prefeitos eleitos, passando de 216 para 433, e ampliou sua bancada de vereadores de 2.589 para 4.372.
Eleito deputado federal em 2018, Marcos Pereira assumiu, em seu primeiro mandato, a vice-presidência da Câmara dos Deputados.

A má repercussão da entrevista
As declarações de Marcos Pereira à Folha de S. Paulo repercutiram negativamente nas redes digitais e entre lideranças políticas. Após a viralização de críticas, o parlamentar divulgou um vídeo em que pediu desculpas pelas afirmações. Ele disse ter utilizado “palavras inadequadas”, que poderiam ter soado desrespeitosas aos trabalhadores brasileiros, e declarou que sua intenção era destacar possíveis impactos econômicos da medida sobre empresas e empregos.

No pronunciamento, Pereira ressaltou que “todo trabalhador merece descanso, respeito e tempo com a família” e que esse princípio não é negociável. Também mencionou sua trajetória pessoal, que começou a trabalhar ainda jovem e que sempre acreditou que o trabalho dignifica e cria oportunidades. O deputado reiterou que mudanças na legislação trabalhista devem ocorrer com responsabilidade, e considera especialmente o impacto sobre micro e pequenas empresas.
O recuo ocorreu em meio à intensificação do debate público sobre a jornada de trabalho e ampliou a discussão acerca dos fundamentos morais e sociais presentes no discurso do parlamentar.
Igreja com lógica empresarial
Entre os comentários críticos dirigidos a Marcos Pereira nas mídias sociais, estava o fato de ele ser um pastor evangélico e se colocar contra uma pauta que beneficia trabalhadores exaustos. Para compreender como se dá a lógica do pensamento deste líder político, Bereia ouviu o professor de Teologia e pastor da Igreja Batista de Água Branca (IBAB) Kenner Terra. O especialista destaca dois pontos centrais: a relação entre ética protestante e valorização do trabalho, conforme analisada pelo clássico sociólogo Max Weber, e a estrutura organizacional da IURD.
Sobre a tese de Weber, Terra afirma que ela ocupa lugar relevante nas pesquisas sobre o protestantismo, especialmente no contexto europeu dos séculos passados. Contudo, ele ressalta que a interpretação já passou por diversas críticas, inclusive em razão das transformações contemporâneas no próprio conceito de trabalho. Para o professor, a declaração do deputado parece estar mais associada a um posicionamento ideológico liberal, de defesa da classe empresarial e de grupos economicamente dominantes, do que propriamente à teologia da vocação para o trabalho, emergente da Reforma Protestante, conceito central na formulação de Weber.
Questionado sobre a constituição da teologia da IURD a partir de uma lógica empresarial, Terra afirma que a igreja é frequentemente apontada, em pesquisas recentes, como exemplo de “McDonaldização da fé”, expressão que designa a adoção de estratégias de mercado para atrair e fidelizar adeptos. De acordo com ele, nesse modelo, o culto e a experiência religiosa passam a ser organizados como produtos de consumo rápido, padronizado e espetacularizado.
Ele ainda menciona que a estrutura institucional da IURD foi adaptada a modelos organizacionais presentes em redes empresariais orientadas pela lógica da satisfação da demanda. Nesse contexto, categorias como rendimento, mérito, investimento e satisfação tornam-se elementos estruturantes do funcionamento religioso, e influenciam tanto a dinâmica interna da instituição quanto a forma como seus líderes interpretam temas sociais e econômicos no espaço público.
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Bereia afirma que a entrevista publicada pela Folha de S. Paulo omite informações relevantes ao deixar de mencionar que Marcos Pereira é bispo licenciado da Igreja Universal do Reino de Deus e dirigente de um partido historicamente vinculado à denominação religiosa. Embora as declarações dele estejam inseridas no debate político e econômico sobre a redução da jornada de trabalho, a ausência desse contexto impede leitores de compreenderem de forma mais ampla os referenciais simbólicos, morais e institucionais que podem estar inseridos no seu discurso.
Ao tratar de temas como trabalho, prosperidade e organização social, a identificação de vínculos religiosos e institucionais não constitui juízo de valor, mas elemento informativo essencial para a plena contextualização jornalística e para a transparência no debate público.
Referências:
Folha de S. Paulo. Presidente do Republicanos alertou Motta contra PEC 6×1 – 26/02/2026 – Economia – Folha. Acesso em 28 fev 2026.
O Globo. https://oglobo.globo.com/politica/noticia/2025/05/07/sob-pressao-da-igreja-universal-presidente-do-republicanos-decide-trocar-cunha-e-waguinho-por-bispo-no-rio.ghtml. Acesso em 28 fev 2026.
Platobr. https://platobr.com.br/a-disputa-entre-bispos-da-universal-pelo-controle-do-republicanos. Acesso em 28 fev 2026.
Veja. https://veja.abril.com.br/brasil/ocio-demais-faz-mal-presidente-do-republicanos-pede-desculpas-por-fala-sobre-fim-da-escala-6×1/. Acesso em 3 mar 2026.
Senado Federal
https://www25.senado.leg.br/web/atividade/materias/-/materia/124067. Acesso em 4 mar 2026
Câmara dos Deputados
https://www.camara.leg.br/proposicoesWeb/fichadetramitacao?idProposicao=2485341 Acesso em 4 mar 2026
G1
https://g1.globo.com/politica/noticia/2025/07/02/quaest-70percent-dos-deputados-federais-sao-contra-fim-da-escala-6×1-88percent-sao-a-favor-de-elevar-isencao-do-ir.ghtml Acesso em 4 mar 2026