Quase 60 milhões de pessoas expostas: Bereia promove pesquisa que mapeia desinformação religiosa no Instagram

Os primeiros resultados do estudo “Mapa da desinformação em ambientes digitais religiosos” já identificaram 141 perfis de conteúdo religioso que atuam na circulação de desinformação pelo Instagram, terceira plataforma digital mais popular do Brasil, em 2026, atrás do WhatsApp e do Youtube.

O novo levantamento, que será periodicamente atualizado a partir de outubro de 2026, estima que as contas mapeadas somem cerca de 140 milhões de seguidores brutos e alcancem entre 60 milhões e 70 milhões de pessoas, após a correção pela sobreposição de públicos. O número corresponde a aproximadamente 40% da população brasileira conectada.

A pesquisa é um projeto do Bereia em parceria entre com o Laboratório de Internet e Ciência de Dados da Universidade Federal do Espírito Santo (Labic/Ufes), com a colaboração da doutora em Linguística, pesquisadora de discursos em redes digitais e jornalista Lidia Neves.

O objetivo da pesquisa não é produzir um ranking dos perfis que promovem desinformação ou dos temas mais frequentes nem afirmar que a desinformação caracteriza o conjunto do ambiente religioso. O estudo procura localizar fontes que produzam ou disseminem desinformação voltada especialmente ao público cristão (maioria da população do país). Com a identificação, busca-se entender como os conteúdos circulam nas redes religiosas e se conectam a perfis religiosos, políticos, portais, mídias digitais e influenciadores.

Para Lidia Neves, um dos achados que merece atenção é justamente a diferença entre essas duas dimensões, a do público amplo e a dos perfis de produção de conteúdo. “Você encontra bastante desinformação voltada para público religioso em datasets de desinformação. Então, apesar de existir um volume de desinformação voltada para as pessoas cristãs, principalmente evangélicas, a maioria das pessoas não faz isso”, ressalta a pesquisadora. 

Os primeiros dados do Mapa surgem em um período em que outras investigações têm identificado, também no Instagram, mecanismos para ampliar artificialmente audiências, reaproveitar perfis, distribuir conteúdo em rede e direcionar seguidores entre contas. Os levantamentos têm objetos e metodologias diferentes e seus números não podem ser somados. Juntos, porém, documentam práticas que ajudam a compreender o ambiente digital no qual estão inseridos os 141 perfis encontrados pelo Mapa da desinformação. 

Como a pesquisa foi feita

Para chegar aos 141 perfis, a investigação combinou diferentes métodos e partiu do acervo produzido pelo Bereia ao longo dos mais de seis anos de sua atuação, desde 2019. Conteúdo já checado pelo coletivo serviu de referência para cruzamentos com bases trabalhadas pelo Labic/Ufes e para a identificação de novas contas nas plataformas.

“A princípio, eu usei esses dados como base para treinar o algoritmo para ele me entregar outras fontes de desinformação voltadas para evangélicos”, explica Lidia Neves. Para ela, o processo também mostrou “o quanto o Bereia já é referência nesse mundo de enfrentamento à desinformação voltada,  muito especialmente,  para evangélicos”.

A metodologia reuniu análise qualitativa, cruzamento e mineração de bases de dados, rastreamento com inteligência artificial e etnografia algorítmica. A pesquisa partiu de 96 perfis e materiais sistematizados a partir do banco de dados do Bereia, cruzou esse material com bases do Labic e trabalhou com cerca de 10 mil posts relacionados à religião e teorias da conspiração. As palavras-chave encontradas nessa etapa orientaram a filtragem de aproximadamente 20 mil publicações no Instagram.

Entre os eixos usados para localizar os conteúdos estão pânico moral, perseguição religiosa, ameaça à liberdade religiosa, gênero e família, instrumentalização político-eleitoral da fé, sionismo cristão, geopolítica bíblica, antivacina e narrativas apocalípticas. “Esses temas não constituem um ranking dos assuntos mais disseminados, mas foram empregados como caminhos para identificar as fontes de desinformação”, frisa a pesquisadora colaboradora.

Nesse rastreamento, realizado entre 15 de julho e 9 de setembro passado, a pesquisa encontrou três diferentes grupos de contas no Instagram: lideranças religiosas; políticos e mandatários; portais e mídias digitais e influenciadores de nicho. Entre os nomes mais recorrentes no levantamento estão os pastores André Valadão (Igreja Batista da Lagoinha), Silas Malafaia (Assembleia de Deus Vitória em Cristo) e Valnice Milhomens (Igreja Nacional do Senhor Jesus Cristo) no primeiro grupo. No grupo de políticos estão o deputado federal Nikolas Ferreira (PL/MG), o deputado federal Pastor Marco Feliciano (PL/SP), o senador Flávio Bolsonaro (PL/RJ, atual candidato à Presidência da República) e o deputado federal cassado Eduardo Bolsonaro (PL/SP). Já a produtora Brasil Paralelo, o portal gospel Pleno News e o perfil Direita Brasil estão entre as mídias digitais que disseminam sistematicamente conteúdo desinformativo. Entre os influenciadores de nicho identificados há vários candidatos a deputados/as federais e estaduais.

Estes e 131 outros perfis foram identificados com base nos critérios e procedimentos adotados pela pesquisa científica. Por isso, os promotores do levantamento destacam que estar na lista não significa que todo o conteúdo publicado por esses perfis seja classificado como desinformativo (falso, enganoso, impreciso ou inconclusivo,  conforme a verificação do Bereia). 

A análise das estratégias empregadas nesses conteúdos aponta para o uso recorrente da ideia de ameaça à liberdade religiosa. “Esses perfis encontrados procuram trabalhar como se a liberdade religiosa estivesse ameaçada, algumas vezes, juntando com questões relacionadas a outras liberdades”, observa a Dra. Lidia Neves. A pesquisadora também identificou casos em que acontecimentos isolados são apresentados como fenômenos generalizados e conteúdos que associam candidaturas ou posições políticas a riscos para as igrejas.

O uso descontextualizado de textos bíblicos também apareceu no radar do mapa, embora, segundo a pesquisadora colaboradora, isto não seja predominante. Um exemplo observado durante este período eleitoral foi o do texto do livro bíblico de Eclesiastes 10.2, versículo sobre o sábio inclinar o coração para a direita e o insensato para a esquerda, empregado como referência à divisão político-ideológica contemporânea. “Interpretar isso politicamente, totalmente tirado de contexto, é algo bem complicado, mas tem acontecido neste período eleitoral”, lamenta Lidia Neves.

O contexto é de vários levantamentos sobre desinformação eleitoral 

A sobreposição entre política e religião observada no Mapa construído na pesquisa promovida pelo Bereia, aparece, sob outro recorte, em investigação publicada pela agência de checagem Aos Fatos, em 16 de setembro passado. O veículo identificou pelo menos 24 perfis no Instagram dedicados ao ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) André Mendonça e promovidos por meio de publicações colaborativas e de contas ligadas ao universo político bolsonarista. Entre 1º e 9 de setembro, 156 publicações analisadas pela reportagem que apresentavam a atuação do ministro como uma espécie de missão religiosa acumularam 228 milhões de visualizações. 

As 24 contas somavam 5,6 milhões de seguidores em 16 de setembro. Metade já existia antes da mobilização em torno de Mendonça e apenas mudou de nome. O maior perfil, com 1,9 milhão de seguidores, havia sido criado em novembro de 2024 e passou por oito mudanças de nome. Antes de assumir a nova identidade, já republicava conteúdos religiosos, sobre futebol e contrários a pessoas LGBTQIA+. 

Imagem: Reprodução do site “Aos Fatos” – publicado em 16 set 26 – Acesso 24 set 26

O Aos Fatos classificou a prática como “astroturfing”, estratégia que busca produzir a aparência de uma mobilização popular espontânea. A investigação encontrou ainda perfis que publicam peças quase idênticas, usando o recurso de colaboração do Instagram e direcionando suas audiências para contas dedicadas ao ministro. Uma delas chegou a relacionar às discussões recentes no STF uma pregação feita por Mendonça em fevereiro, durante uma conferência cristã, embora os dois episódios não tivessem relação temporal.


A mudança de identidade das contas também foi percebida durante a elaboração do Mapa da Desinformação Religiosa. A pesquisadora colaboradora Dra. Lidia Neves observou tanto perfis que alteraram seus nomes no período,  quanto influenciadores que passaram a disputar as eleições. Nestes primeiros resultados da pesquisa ainda não é possível determinar a motivação dessas alterações. A prática será um dos pontos a serem acompanhados com a atualização periódica da base.

Porém,  no levantamento foram observadas três contas que usam a mesma sequência de nomes, associada ao deputado federal Nikolas Ferreira (PL-MG), além de perfis de fãs que também aparecem com destaque no estudo. Lidia Neves alerta que com os dados disponíveis nesta etapa, não é possível afirmar que todas as contas pertençam ao parlamentar. “As contas usam a mesma sequência e, além disso, tem outros perfis de fãs que também aparecem com protagonismo”, explica.

O recurso de publicação colaborativa, ou collab, também aparece com frequência entre essas contas. Nesse formato, uma mesma publicação é exibida simultaneamente nos perfis que aceitam a colaboração e passa a circular entre suas respectivas audiências. “Nesses casos, a prática de collab é bastante intensa também”, diz a pesquisadora, o que significa mais participação na disseminação de desinformação. 

Fazendas de conteúdo multiplicam publicações e compartilham audiências

Outra reportagem publicada pelo “Aos Fatos”, neste 23 de setembro, em parceria com a Agência Pública, ampliou a dimensão desse mecanismo. Com base em relatório do Instituto Democracia em Xeque, o veículo identificou uma rede de fazendas de conteúdo gerado por inteligência artificial formada por **255 perfis no Instagram**. 

Imagem: Reprodução de matéria publicada no site Aos Fatos em 23 set 26 

Fazendas de conteúdo são estruturas digitais montadas com centenas de smartphones e notebooks, voltadas à produção rápida e em massa de publicações. A prioridade é o volume de cliques e os ganhos financeiros e/ou políticos para amplo alcance de apoios ao que é enviado a consumidores de conteúdo, em detrimento da qualidade e da veracidade da informação. Recentemente o tema ganhou projeção por conta da prisão do argentino Fernando Cerimedo, por tentativa de assassinato da ex-companheira. 

Cerimedo é consultor político, marqueteiro e estrategista digital argentino que ganhou projeção como um dos principais nomes da comunicação de direita e extrema-direita na América Latina. Ficou conhecido no Brasil por atuar no apoio digital à campanha de reeleição de Jair Bolsonaro em 2022 e por divulgar desinformação sobre a confiabilidade das urnas eletrônicas brasileiras. Em 2023, Cerimedo atuou na campanha eleitoral de Javier Milei, para a Presidência da Argentina. Em 2024, foi incluído pela Polícia Federal brasileira no inquérito sobre a tentativa de golpe de estado em 2022-2023, porém não foi denunciado formalmente pela Procuradoria-Geral da República. 

Entre 15 de agosto e 15 de setembro, as  255  contas identificadas no levantamento do Democracia em Xeque publicaram ou co-assinaram (collab) 1.204 posts, que alcançaram 58 milhões de visualizações e 5 milhões de curtidas e comentários. Essas peças responderam por 63% de todo o engajamento registrado. Em alguns casos, o mesmo conteúdo apareceu simultaneamente em até seis perfis. A rede foi organizada pelo instituto em seis núcleos formados por contas que compartilhavam publicações e, consequentemente, suas audiências 

O alcance estava concentrado em poucas publicações. Apenas 25 posts, equivalentes a 2,1% da amostra, reuniram 53% das curtidas e dos comentários. O perfil “narrativascuriosastv” acumulou 17,2 milhões de visualizações e 1,5 milhão de interações no período. A “imperio_patriotico”, por sua vez, registrou 8,3 milhões de visualizações e 1,1 milhão de interações 

A transferência de audiência também fazia parte do funcionamento da rede. Em 30 de agosto, a “narrativascuriosastv” pediu aos seguidores que acompanhassem um “novo perfil” porque a conta principal poderia ser derrubada. Três dias depois, a página deixou de publicar na base analisada e uma conta alternativa começou a produzir conteúdo próprio. A original foi posteriormente bloqueada em decorrência de uma liminar da Justiça Eleitoral, enquanto o perfil reserva permaneceu ativo no momento da publicação da reportagem. 

A investigação encontrou ainda conexões entre a fazenda de conteúdo e os perfis dedicados a André Mendonça, registrados nesta matéria. O Instituto Democracia em Xeque identificou 20 contas não oficiais que usavam nomes ou apelidos de políticos ou do ministro acompanhados de expressões como “apoio”, “presidente” ou números. Quatro integravam diretamente a lista de fazendas de conteúdo com IA e outras se conectavam a ela por publicações colaborativas. Esse núcleo de 28 perfis publicou 84 conteúdos e acumulou 2,9 milhões de interações.

Os 255 perfis identificados pelo Democracia em Xeque não correspondem necessariamente aos 141 perfis do Mapa da Desinformação Religiosa. As duas pesquisas adotam critérios e recortes distintos, e não há base metodológica para somar seus números. O ponto de contato entre as pesquisas está nas práticas observadas: circulação entre contas, compartilhamento de audiências, alterações de perfis e conexões entre conteúdos políticos e religiosos.

Anúncios pagos abrem outra frente de distribuição

A circulação orgânica e o compartilhamento de audiências não são os únicos caminhos pelos quais conteúdos políticos ganham alcance no Instagram. Levantamento publicado pelo ICL Notícias, neste 23 de setembro mostrou que o gasto diário declarado com anúncios na Meta contra o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e o governo federal cresceu 123% entre agosto e setembro, de R$ 15,4 mil para R$ 34,5 mil.

O monitoramento registrou também uma mudança nos assuntos. Referências ao STF e ao ministro Alexandre de Moraes passaram de 3,3% das peças em agosto para 14% em setembro. Até o levantamento encerrado em 3 de setembro passado, ataques pessoais contra Lula representavam 73,4% dos anúncios analisados e economia, impostos e taxação respondiam por 21,2% 

O número de anunciantes cresceu no mesmo intervalo. Entre 1º e 16 de agosto, foram encontrados 160 perfis; entre 26 de agosto e 3 de setembro, eram 229. Desses, 163 não estavam na primeira amostra e responderam por 61% das 410 peças registradas. Candidatos sem mandato passaram de 31,1% dos anúncios para 60,1%, enquanto páginas classificadas como “satélite” caíram de 23,9% para 7,6%.

O levantamento do ICL mede publicidade política paga e não desinformação direcionada ao público religioso. Não há, a partir dos dados publicados, fundamento para afirmar que seus anunciantes integram os 141 perfis do Mapa. O estudo registra, no entanto, outra forma de ampliação de alcance na mesma plataforma observada pela pesquisa do Bereia e Labic/Ufes.

Imagem: Reprodução do site “ICL Notícias” – publicado em 23 set 26 – Acesso 24 set 26

Um mapa em desenvolvimento

Para a editora-geral do Bereia, a jornalista e também pesquisadora, doutora em Ciências da Comunicação, Magali Cunha, a parceria com o Labic-Ufes para a realização do Mapeamento da Desinformação Religiosa segue um princípio que acompanha o coletivo desde sua criação, em 2019, a partir dos resultados de uma pesquisa sobre circulação de desinformação em redes digitais religiosas. “Nosso trabalho tem por princípio que jornalismo e conhecimento científico têm que andar de mãos dadas. Afinal, informação é o conteúdo que forma”, ressalta Cunha.

A adoção de métodos científicos, segundo a editora-geral, busca dar sustentação ao levantamento e permitir que os resultados sejam revistos à medida que o ambiente analisado se transforma. “Queremos ser responsáveis com este conteúdo e com o nosso público que vai acessá-lo e oferecer informação segura, resultante da aplicação de um método científico ancorado em testes e comprovação”. Ela reforça que os dados divulgados agora representam o início do mapeamento: “Este é apenas o começo de um processo que será permanentemente revisado e atualizado, pois a própria pesquisa aponta para a dinâmica intensa da atuação de perfis que produzem desinformação nas redes digitais”.

A pesquisa segue em desenvolvimento, com previsão de ampliação do monitoramento, análises de gráficos e cruzamentos com outras bases, a partir de outubro. As 141 contas identificadas até aqui funcionam como ponto de partida para acompanhar novas narrativas, perfis e formas de circulação de desinformação no ambiente digital religioso.

O Mapa da Desinformação em Ambientes Digitais Religiosos é uma pesquisa em andamento conduzida a partir de cooperação entre o Bereia e o Labic-Ufes. O foco é a compreensão das relações entre religião, desinformação, algoritmos e circulação de conteúdos no ambiente digital.

Referências

A Pública

https://apublica.org/2026/09/fazendas-de-ia-inflam-extrema-direita-com-255-perfis/ – Acesso em 24 set 26

ICL Notícias

https://iclnoticias.com.br/gastos-com-anuncios-na-meta-contra-lula/ – Acesso em 24 set 26

Aos Fatos

https://www.aosfatos.org/noticias/bolsonaristas-capturam-perfis-inflar-apoio-religioso-mendonca/ – Acesso em 24 set 26

https://www.aosfatos.org/noticias/fazendas-de-ia-inflam-pauta-da-extrema-direita-com-255-perfis-e-mais-de-mil-posts/ – Acesso em 24 set 26

Labic/Ufes

https://www.labic.net/labic/  – Acesso em 24 set 26

EBC

https://agenciabrasil.ebc.com.br/direitos-humanos/noticia/2026-08/entenda-como-fazenda-de-cliques-pode-influenciar-debates-em-eleicao – Acesso em 24 set 26