Bereia Explica: Machosfera, grupos masculinistas e religião 

O Farol e a Forja” é o nome do evento promovido pelo ator Juliano Cazarré, que reacendeu o debate sobre discursos em torno da masculinidade e evidenciou a aproximação entre setores do conservadorismo cristão, discursos políticos e o ecossistema digital, conhecido como popularmente como “machosfera’. 

O evento, que foi divulgado como “o maior encontro de homens do Brasil”, e ganhou muito espaço nas mídias, provocou, ao mesmo tempo, uma intensa quantidade de críticas e reações nas redes digitais. O projeto, que reuniu cerca de 600 participantes para discutir masculinidade, cristianismo e o suposto “enfraquecimento dos homens atualmente”, expôs as tensões atuais sobre papéis de gênero no país. 

Embora o ator promotor da reunião tenha se defendido ao afirmar ser contra movimentos masculinistas extremistas, a iniciativa se insere em um ecossistema mais amplo e estruturado conhecido como “machosfera”. Nesta matéria, o Bereia explica  este  termo e os subgrupos nele contidos, como redpills, incels, Machonaria e Legendários

Aqui se aborda também como a machosfera se organiza nas plataformas digitais e de que forma os discursos propagados dialogam com agendas políticas e culturais no Brasil contemporâneo, especialmente no campo religioso. 

Para compor esta explicação, o Bereia ouviu dois especialistas: a doutora em Sociologia e  pesquisadora do Laboratório de Estudos de Religião e Política, da Fundação Joaquim Nabuco (PE) e colaboradora do Instituto de Estudos da Religião (ISER) Ana Carolina Marsicano; o doutorando e mestre em Educação, pesquisador do Instituto de Estudos da Religião (ISER) Silas Veloso.

O que é a “machosfera”?

A machosfera é um termo que descreve um conjunto de comunidades digitais, compostas predominantemente por homens, que se articulam em torno de discussões sobre gênero, masculinidades e interações com mulheres. Para a pesquisadora Ana Carolina Marsicano, a definição vai além do debate que ganhou as redes sociais e sites de notícias:

“A machosfera é um ecossistema digital que transforma misoginia, ressentimento masculino e reação ao feminismo em conteúdo, identidade e negócio. Ela reúne influenciadores, fóruns, podcasts e comunidades que difundem visões hierárquicas sobre homens e mulheres, seja por meio do ódio explícito, seja por uma linguagem aparentemente moderada, científica, religiosa ou voltada ao autocuidado. Seu poder está justamente nessa capacidade de revestir desigualdades antigas com uma aparência moderna, racional e aceitável, ao mesmo tempo que converte conflito de gênero em engajamento, audiência e lucro”, explica.

No Brasil, a escala do fenômeno é alarmante. Um levantamento do observatório do NetLab da UFRJ, em parceria com o Ministério das Mulheres, mapeou  em 2024, a existência de conteúdo misógino em pelo menos 137 canais brasileiros no YouTube. Esses espaços digitais produziram mais de 105 mil vídeos, acumulando bilhões de visualizações e gerando fortunas por meio de cursos, mentorias e live streamings, monetizando o ódio e a frustração masculina.

Vocabulário para entender a machosfera e ambientes religiosos:

Misoginia

Embora o termo tenha origem na Grécia Antiga, designando o ódio ou aversão às mulheres, a relevância dele no debate contemporâneo está na forma como foi institucionalizado em práticas de controle social. Historicamente onipresente nas estruturas que estabelecem um poder masculino sobre mulheres (patriarcado). A misoginia opera como um mecanismo de reação contra a perda de privilégios masculinos, com a conquista de direitos pelas mulheres nas diferentes sociedades. Pedagogicamente, ela deve ser compreendida não apenas como um sentimento individual, mas como um sistema de preconceitos que busca manter a subordinação das mulheres por meio da desvalorização e da desqualificação do feminino. A misoginia gera diversas formas de violência, entre elas a física, a psicológica, a simbólica, a patrimonial. Ela assume novas facetas na era digital com pessoas misóginos atuando na promoção destas violências.

Redpills

Movimento masculinista surgido no início dos anos 2000 em fóruns nos Estados Unidos, e popularizado no Brasil com grande intensidade a partir de 2018, principalmente em redes digitais. Homens “redpills” apropriam-se da metáfora do conhecido filme “Matrix”, cujos personagens eram submetidos a uma pílula vermelha (red pill, no inglês) para “despertarem para a realidade”. Os adeptos deste movimento defendem  que a sociedade moderna é estruturada para favorecer as mulheres e prejudicar os homens, em um sistema que chamam de ginecocentrismo (uma característica ou comportamento em que mulheres se colocariam como o centro de tudo). A ideia é que homens precisam despertar para esta realidade e agir contra ela. Por isso, o grupo prega o desapego emocional e a adoção de estratégias defensivas nas relações afetivas, fundamentando sua visão em uma interpretação cínica e transacional da dinâmica de gênero. Há grupos mais radicais que apregoam o desrespeito à vontade das mulheres até mesmo em atos sexuais (o que resulta no incentivo a estupros).

Incels

O termo, que vem do inglês e significa “celibatários involuntários”, surgiu no final da década de 1990 em comunidades de apoio mútuo nos Estados Unidos. É composto por homens que atribuem sua incapacidade de estabelecer vínculos sexuais ou afetivos a fatores genéticos ou a uma suposta “decadência moral” causada pelo feminismo. O movimento sofreu uma radicalização agressiva ao longo dos anos 2010 em fóruns anônimos da internet, recrutando, principalmente, homens jovens. O discurso incel é marcado por ressentimento com mulheres, transformando frustrações em relacionamentos pessoais em uma ideologia de ódio coletivo que frequentemente desumaniza a figura das mulheres. A série de streaming “Adolescência” representou como ocorre o movimento e consequências dele.

Machonaria

Fundada no Brasil em 2018, a Machonaria apresenta-se como uma confraria cristã dedicada ao resgate do que define como “masculinidade bíblica”. O movimento surge como uma resposta direta à percepção de “emasculação” do homem moderno nas instituições religiosas e sociais, incentivando a retomada da liderança patriarcal no lar e na igreja. A base é a noção de que o homem é o cabeça e a estrutura central da família. Pedagogicamente, o grupo foca na disciplina e na responsabilidade espiritual do homem como provedor e protetor, embora a retórica religiosa frequentemente reforce modelos tradicionais de autoridade em oposição a masculinidades mais plurais. 

Legendários

Criado na Guatemala em 2015 e expandido para o Brasil no final da mesma década, o movimento Legendários utiliza experiências de imersão física extrema e espiritualidade para “quebrantar” o ego masculino diante do poder divino. O grupo busca forjar homens que sejam “inquebrantáveis” frente às tentações morais, promovendo uma estética de vigor, superação de limites e fraternidade guerreira. O movimento propõe uma masculinidade ativa e espiritualmente engajada, mas é destacado por uma ênfase na hierarquia rígida e na simbologia de força de um “homem alfa” (termo atribuído a animais dominantes em um grupo).

A pedagogia da masculinidade entrelaçada com religião

A forma como a machosfera constrói seus discursos, em especial em redes digitais, é o ponto central do alcance que tem. Os influenciadores e produtores de conteúdo apresentam uma visão de mundo na qual o homem deve ser o provedor, protetor, líder e centro moral da família. Às mulheres, reservam-se funções associadas ao cuidado, à maternidade e à submissão. Essa aproximação com a religião não é acidental. O pesquisador Silas Veloso tem estudado sobre redpills, um dos subgrupos mais radicais da machosfera.

“Os redpills não são um movimento religioso. O ponto analítico está nas zonas de contato. Parte desses discursos passou a usar vocabulários cristãos para explicar a ‘crise masculina’ como perda de Deus, disciplina, autoridade familiar e ordem natural”, afirma Veloso. 

No meio evangélico e católico conservador, essa “zona de contato” se manifesta na promoção da “masculinidade bíblica”, na defesa da chefia masculina e na rejeição do que é chamado de “ideologia de gênero”. A escola, nesse contexto, é frequentemente acusada de “feminizar meninos”, deslocando debates relevantes sobre respeito e consentimento para uma ideia de ameaça moral.

A interseção entre a machosfera, a religião e a política brasileira se explica, em grande parte, pela mobilização do medo e do ressentimento. A pesquisadora Christina Vital desenvolveu o conceito de “retórica da perda” para analisar o conservadorismo brasileiro. No artigo “Religião, masculinidade viril e retórica da perda na política brasileira”, ela demonstra como o extremismo conservador se alimenta de um desejo de retorno a um passado idealizado.

“A valorização de um passado (em parte idealizado) e a centralidade que a retomada da autoridade e da ‘‘masculinidade viril’ têm na retórica da perda foram armas importantes na construção do governo de Jair Bolsonaro (PFL/PL, 2019-2022). Nesse sentido, a formação de padrões sociais, reguladores da ação coletiva, não visa retratar necessariamente a maioria, mas estabelecer distinções e hierarquias. A toxicidade do fenômeno reside em atores que procuram conduzir legitimamente esses sentimentos para ‘recolocar a sociedade nos eixos’, desrespeitando a pluralidade e os direitos humanos”, conclui Christina Vital. 

Um ecossistema de violência e lucro

O fenômeno da machosfera não pode ser compreendido apenas como um debate cultural, mas como um ecossistema que pode alimentar ciclos de violência real. A ONU Mulheres alerta que o abuso digital, a misoginia e os discursos de ódio online contribuem para a normalização da violência contra as mulheres no mundo físico. 

Imagens: Exemplo de ação violenta contra mulheres. Portal G1, 10 out 2025; BBC Brasil, 16 out 2025 

A tentativa de separar a machosfera radical (redpills, incels) da busca conservadora por valores tradicionais (como a Machonaria, Legendários e o evento do ator Juliano Cazarré) muitas vezes serve apenas para “lavar” a imagem do movimento, utilizando a religião e o bem-estar masculino como escudos contra críticas. No entanto, como demonstra pesquisa do NetLab da UFRJ, a monetização da frustração masculina e a defesa da hierarquia de gênero são as bases que sustentam esse ecossistema, seja nos fóruns anônimos ou em eventos com 600 pessoas em São Paulo.

O Bereia reforça sua atuação na vigilância contra a desinformação que circula em ambientes religiosos, reiterando que já checou sobre publicações da produtora Brasil Paralelo nessa direção. Trata-se de um documentário com mentiras e enganosos sobre a Lei Maria da Penha, que impõe punições a quem pratica violência doméstica e familiar contra mulheres. O vídeo foi retirado do ar pela Justiça por conta das distorções históricas e jurídicas que veiculava. Esse padrão de manipulação desinformativa manifestou-se de forma grave no marco dos 20 anos da Lei Maria da Penha, neste 2026.

A Rede Record de TV, seguindo a trilha da Brasil Paralelo, pautou uma entrevista com o ex-marido de Maria da Penha Maia Fernandes, para que ele, novamente, expusesse sua versão dos fatos em torno da violência, pela qual já foi condenado judicialmente, depois de tentar matar a ex-esposa, deixando-a paraplégica. A entrevista com Marco Antônio Heredia Viveros seria exibida como planejado, no Programa Domingo Espetacular da emissora, em 9 de agosto passado. Foram amplamente veiculadas na TV e nas redes digitais chamadas e trechos do conteúdo. 

O Instituto Maria da Penha recorreu ao Ministério Público do Ceará (MP-CE) para solicitar a não transmissão da entrevista, depois de não ter obtido resposta da emissora quanto ao mesmo pedido. O instituto, que atua há 17 anos na defesa das mulheres, recorreu a uma decisão judicial de 2024, que impôs medidas cautelares contra Viveros, incluindo a proibição de divulgar o nome ou a imagem de Maria da Penha Fernandes e de duas filhas. A organização alegou ainda a inexistência de duas versões (por isso, a entrevista estaria divulgando mentiras) e a possibilidade de uma nova onda de ataques digitais contra a vítima (o que já havia ocorrido com o documentário da Brasil Paralelo).

Além de tentar dar voz a um agressor condenado a Rede Record acabou provocando a prisão dele. Ao acatar a denúncia do Instituto Maria da Penha, o MP-CE decretou a reclusão de Marco Antônio Viveiros, em 10 de agosto, por descumprimento das determinações da da Justiça que o proibiam de citar a ex-mulher ou divulgar imagens e informações sobre ela. 

O caso acabou sendo objeto de mentiras e falsidades em publicações de políticos e grupos conservadores extremistas que transformaram Viveros e a Rede Record em vítimas de censura. Sobre isto, a Federação Nacional de Jornalistas (Fenaj) divulgou nota, na qual repudia e registra indignação contra a produção da entrevista pela Rede Record. A organização  classifica como “escolha grave da emissora” e “desserviço”.

“Não é razoável transformar em fonte jornalística privilegiada justamente aquele cuja violência deu origem a uma das mais importantes mobilizações legislativas brasileiras de proteção às mulheres — especialmente quando ele continua descumprindo determinações judiciais destinadas a proteger a própria vítima e suas filhas. Repudiamos a decisão da Rede Record de realizar essa entrevista. O jornalismo pode ouvir qualquer pessoa, mas responsabilidade editorial também significa saber quando uma entrevista não contribui para informar a sociedade, quando pode revitimizar uma mulher e quando acaba oferecendo espaço indevido a quem não deveria”, diz a nota da Fenaj, que pode ser lida na íntegra aqui.

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A articulação entre misoginia, conservadorismo religioso e da retórica política transforma ressentimento masculino em lucro e influência. Do evento “O Farol e a Forja” e dos encontros dos Legendários e da Machonaria aos canais do YouTube e perfis de mídias sociais com milhões de visualizações, a estratégia é a mesma: retomar hierarquias do gênero masculino sobre o feminino encobrindo-as com linguagem de autocuidado, ciência e fé. 

Em nome da informação digna, Bereia afirma que o  enfrentamento desse fenômeno exige atenção de instituições educativas, comunidades religiosas, famílias, plataformas digitais, Estado e sociedade civil, reafirmando que o enfrentamento da desinformação e da cultura de ódio contra mulheres e contra pessoas LGBTQIA+ é responsabilidade de todas as pessoas de boa vontade.

Algumas pesquisas sobre a machosfera citadas nesta reportagem são desenvolvidas em parceria entre a pesquisadora entrevistada Ana Carolina Marsicano e Maria Eduarda Antonino, também pesquisadora do  Laboratório de Estudos em Religião e Política (Laberp). O trabalho integra uma agenda de investigação voltada às relações entre gênero, religião e política no ambiente digital. Como parte dessa iniciativa, ambas também produzem uma série de conteúdos de divulgação científica sobre o tema no perfil do Instagram Gênero em Disputa.

Referências:

Uol

https://www.uol.com.br/splash/noticias/estadao-conteudo/2026/04/22/juliano-cazarre-e-criticado-apos-criar-evento-para-fortalecer-homens-incompreensivel.html.   Acesso em 10 ago 2026

NetLab

https://netlab.eco.ufrj.br/post/aprenda-a-evitar-esse-tipo-de-mulher-estrat%C3%A9gias-discursivas-e-monetiza%C3%A7%C3%A3o-da-misoginia-no-yout  Acesso em 11 ago 2026

Extra

https://extra.globo.com/entretenimento/noticia/2026/05/quanto-custa-participar-do-evento-de-juliano-cazarre-veja-programacao-palestrantes-e-o-que-ele-promete-ensinar.ghtml Acesso em 11 ago 2026

Nexo

https://pp.nexojornal.com.br/academico/2026/06/10/relacoes-entre-politica-religiao-e-genero-no-brasil-contemporaneo Acesso em 11 ago 2026

ONU Mulheres

O que é a Machosfera? | ONU Mulheres – Brasil  Acesso em 11 Ago 2026

Diadorim

Alvo de ataques transfóbicos, Erika Hilton tem 26 propostas sobre mulheres Acesso em 11 ago 2026

Veja 

A parcela de culpa da TV Record para prisão de ex-marido de Maria da Penha | VEJA Acesso em 11 Ago 2026

Lei Maria da Penha

https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2004-2006/2006/lei/l11340.htm  Acesso em 12 ago 2026

Senado
https://www12.senado.leg.br/noticias/infomaterias/2026/07/a-historia-por-tras-dos-20-anos-da-lei-maria-da-penha  Acesso em 12 ago 2026

G1
https://g1.globo.com/ce/ceara/noticia/2026/08/10/por-que-o-instituto-maria-da-penha-pediu-a-suspensao-de-entrevista-com-o-ex-marido-da-ativista-cearense.ghtml  Acesso em 12 ago 2026


Fenaj
https://fenaj.org.br/rede-record-presta-desservico-ao-entrevistar-agressor-de-maria-da-penha/  Acesso em 12 ago 2026

Líder da “Machonaria”, pastor Anderson Silva é acusado por pares de corrupção nas contas da confraria

O pastor Anderson Silva, fundador e líder da Igreja em Movimento Brasília está no centro de uma polêmica envolvendo acusações de desvio de dinheiro dos projetos sociais do movimento evangélico que fundou, a Machonaria – Confraria Nacional de Homens. Em maio de 2025, um grupo de 18 pastores anunciou publicamente renunciarem ao projeto, acusando Anderson Silva de má gestão e do desvio de R$ 500 mil. A denúncia foi divulgada por diversos veículos de imprensa.

Imagem: Reprodução do site Metrópoles

Entenda o caso

Um grupo de 18 pastores que faziam parte da liderança da Confraria Nacional de Homens anunciou a renúncia coletiva aos cargos em carta divulgada nas redes digitais, em 19 de maio de 2025. Os ex-dirigentes da Machonaria alegaram que tomaram a decisão motivados pela falta de transparência e pela violação dos princípios da instituição por parte do presidente, o pastor Anderson Silva. 

Segundo os ex-líderes do grupo, a atual liderança “se afastou dos valores originais da Machonaria”. As práticas irregulares caracterizam má gestão dos recursos, confusão entre finanças pessoais e institucionais, e uso indevido de dados de terceiros para contratos e financiamentos. 

“A ausência de prestação de contas e de alinhamento à diretoria atual tornou insustentável nossa permanência em qualquer função de representação, pois cremos que nenhuma missão, por mais nobre que seja, pode subsistir sem verdade, transparência e obediência aos princípios que a legitimam. Diante disso, reiteramos que não podemos e não devemos compactuar com tais violações, sendo nossa renúncia um ato de fidelidade à missão original que um dia nos uniu e que ainda consideramos nobre”, descreve a nota publicada no perfil do ex-vice-presidente da entidade pastor Radamés Morais. 

Imagem: Reprodução Instagram 

Segundo os pastores denunciantes, o sustento da entidade religiosa provinha de eventos realizados pela Confraria, além de campanhas, rifas, venda de Bíblias personalizadas e cursos. “Começaram a chegar várias cobranças: aluguel atrasado, ordem de despejo, contas de energia que não eram pagas. Nós, então, fazíamos um rateio entre nós mesmos para conseguir pagar a energia elétrica. Em nenhum momento, cogitamos a possibilidade de que pudesse haver algum desvio. Mas essas questões de contas em atraso e falta de pagamento foram se acumulando”, declarou Morais ao site Metrópoles. 

Já o ex-diretor administrativo da confraria Jhonny Alves, alega na mesma reportagem, que surgiram cobranças de diversas partes do Brasil, de pessoas com quem o pastor Anderson Silva havia feito orçamentos de serviços em nome da instituição e que não foram pagos. “A única conclusão à qual pude chegar foi: se ele não está pagando nem as contas da própria instituição e ainda acumula boletos de fora, então estamos lidando com alguém que compra e não paga — em outras palavras, um caloteiro”.

De acordo com informações disponíveis no site da Machonaria, o hub social (um espaço ou plataforma on line que conecta e apoia projetos sociais) embarca 33 projetos ativos, entre os quais constam ações para ajudar pessoas autistas, famílias em vulnerabilidade social, pastores em depressão e até “resgate de ex-transexuais”. 

Contudo, ex-líderes do movimento expõem que apenas cinco projetos estavam em operação atualmente – um deles é a Casa do John John. Segundo os relatos, o hub social do projeto, localizado em Samambaia Sul (DF), acumulou dívidas vultosas enquanto campanhas de arrecadação e doações continuavam sendo promovidas. Os ex-líderes cobram uma auditoria nas contas da instituição. 

O que dizem os documentos oficiais

No site oficial da entidade, existe uma aba nomeada “Transparência”, porém o espaço não disponibiliza informações financeiras ou relatórios de prestação de contas. O grupo continua promovendo eventos e realizando campanhas com forte apelo emocional para a arrecadação de recursos. Entretanto, há apenas um link para um canal no Telegram cuja última atualização foi em 31 de outubro de 2023. 

Apesar da promessa de “transparência”, o site oficial da Machonaria não oferecia qualquer informação financeira pública até o fechamento desta checagem.

Imagem: Reprodução do site Machonaria

Imagem: Reprodução do canal da Confraria no Telegram

Resposta de Anderson Silva

Em seu site pessoal, Anderson Silva se apresenta como teólogo, pai de quatro filhos, residente em Brasília há mais de 20 anos e líder de mais de 30 projetos sociais. Procurado pela imprensa, o pastor Anderson Silva não se pronunciou formalmente sobre as acusações. 

No entanto, em seus perfis nas redes digitais, o pastor tem feito postagens com tom de deboche, sugerindo que as denúncias seriam “intrigas” ou “perseguição”. 

“Pessoal, se vocês acharem os 500k me avisem, pois preciso pagar 150k de aluguel atrasado do projeto social, além de tirar a moto da rifa”, escreve o pastor, seguido de risos, sem fornecer explicações concretas sobre a movimentação financeira do projeto, apenas reproduções (prints) com o saldo das contas correntes pessoais e da entidade, em publicação do dia 14 de junho.

Já no vídeo destacado em seu perfil no Instagram, postado em 18 de junho, o líder da entidade adota um tom mais formal e defende-se das acusações. “Tomei uma decisão na minha vida, nunca mais entrarei em processo jurídico nenhum na minha vida. A Bíblia me proíbe e Deus é meu juiz. Então, digam o que quiserem, façam o que quiserem, não cabe a mim, a minha justificação pertence a Jesus”, diz o pastor. 

“Alguns desses homens que já andaram comigo, estão agindo de maneira leviandade, por pura maldade. Eles sabem que os meus erros não são de caráter, mas de excesso de generosidade. Mas vale cuidar de uma vida, do que na gestão em si”, admite Silva e questiona: “Pode um homem fraudulento produzir tantos frutos, abençoar tantas vidas e transformar tantas pessoas, inclusive a vida deles mesmos?”.

Imagem: Reprodução Instagram

Esta não é a primeira vez que o nome de Anderson está envolvido em polêmicas. Entre as principais, estão suas declarações consideradas misóginas (posturas machistas de ódio), como a afirmação de que mulheres têm “potencial demoníaco”, que tomaram forma de livro. 


Imagem: Reprodução Instagram

No campo político, o lider da Machonaria também gerou controvérsia ao fazer orações públicas pedindo a “quebra da mandíbula de Lula”, o que resultou em investigação da Polícia Federal. 

Imagem: Reprodução site CNN

Anderson Silva também foi candidato a deputado no Distrito Federal nas eleições de 2022 pelo Partido Liberal, contudo não foi eleito.

O que é a Machonaria?

Fundado em 2018 por Anderson Silva, a Machonaria se define como “o maior movimento de masculinidade da América Latina”. De acordo com o site da entidade, o projeto surgiu com o objetivo de promover valores cristãos voltados à “masculinidade bíblica”, liderança familiar, combate à pornografia e engajamento social. 

Ainda, segundo a página da iniciativa, mais de 10 mil homens já participaram do trabalho promovido pela Confraria. Com forte presença digital e eventos realizados em várias cidades do país, o movimento também criou a “Igreja de Segunda-feira”, estrutura paralela a cultos tradicionais.

Bereia ouviu a antropóloga da religião Simony dos Anjos sobre o movimento. Ela explica que grupos como a Machonaria têm recorte de gênero e de classe. “Além da estratégia de politizar a categoria família como uma forma de conquistar a base da sociedade que vê nessa instituição seu bem de maior valor, esses discursos vêm atrelados à Fé.”, diz a cientista social. 

“Não é incomum que perfis de influencers homens e mulheres que se dizem cristãos tenham um momento de devocional diário. Livros como ‘Café com Deus Pai’, entre outras modas devocionais que demonstram uma esfera de acolhimento por meio da espiritualidade, convivem com a defesa do uso de armas e de papéis de gênero conservadores.” Para Dos Anjos, esses movimentos masculinistas não funcionam sozinhos, eles precisam de um movimento de mulheres submissas. 

Além disso, Simony dos Anjos traça uma relação entre esses movimentos e a violência de gênero a partir da circulação de narrativas do homem provedor e da mulher submissa como a solução para os conflitos familiares. “Homens, como machos provedores, querem mulheres submissas e que cobram um cuidado que eles não podem oferecer. Essa situação fica ainda mais tensa quando esse homem não consegue prover o lar, seja por desemprego ou por sub-salários.”, avalia a antropóloga. Ela traça uma conclusão desse cenário: “O resultado são homens frustrados em uma sociedade violenta, que respondem a esse sentimento com violência”.

Por fim, Simony Dos Anjos acredita que narrativas masculinistas e que defendem uma “masculinidade bíblica” oferecem soluções para homens que acham que se encaixar nesse modelo pode tornar suas famílias perfeitas. Porém, na verdade, ainda segundo a especialista, os problemas familiares são muito mais complexos porque envolvem desigualdade social e de gênero.

“Um homem que siga um defensor da masculinidade cristã pode se decepcionar com a impossibilidade de ser um provedor e isso não vai gerar crítica social sobre os problemas econômicos, vai gerar frustração e revolta que vai ser despejada justamente nas ‘filhas de Eva: as mulheres eternas pecadoras com seus potenciais demoníacos’”.

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Embora ainda não existam provas judiciais de que Anderson Silva desviou R$ 500 mil do movimento que criou, as acusações são consistentes, documentadas e partem de fontes internas do próprio movimento. Apesar da resposta do pastor líder nas redes digitais, não há uma nota oficial institucional. 

No primeiro momento, houve um desprezo pelas alegações, por parte de Anderson Silva, entretanto, em vídeo mais recente, o pastor tenta justificar os problemas financeiros dizendo  preferir “primeiro a vida, depois a gestão”. Em suas palavras, ele diz priorizar o atendimento aos necessitados em detrimento de honrar as dívidas da Confraria. Entretanto, ele não explica o desvio do montante de R$500 mil reais da entidade, o que se soma à falta de transparência financeira e dívidas públicas registradas oficialmente.

Bereia checou e classificou como verdadeira a denúncia que culminou com a renúncia do grupo de 18 líderes da Confraria Nacional de Homens, já que o próprio pastor Anderson Silva admite, em vídeo publicado em seu canal, erros na gestão dos projetos que compõem o hub social da Machonaria. 

Referências

Metrópoles
https://www.metropoles.com/distrito-federal/machonaria-18-pastores-expoem-lider-religioso-apos-sumico-de-r-500-mil – Acesso em 21 Jun 25

Diário do Nordeste

https://diariodonordeste.verdesmares.com.br/ultima-hora/pais/pastor-fundador-de-machonaria-e-acusado-de-desviar-r-500-mil-de-projetos-sociais-1.3660321?utm_source=twitter – Acesso em 21 Jun 25

Carta Capital

https://www.cartacapital.com.br/blogs/dialogos-da-fe/machonaria-um-demonio-que-precisa-ser-exorcizado/ – Acesso em 21 Jun 25

Revista Fórum

https://revistaforum.com.br/brasil/2025/6/16/machonaria-em-crise-pastores-denunciam-fundador-por-desvio-de-r-500-mil-181552.html – Acesso em 21 Jun 25

CNN

https://www.cnnbrasil.com.br/politica/pastor-que-pediu-que-deus-arrebentasse-a-mandibula-de-lula-diz-ter-recebido-ligacoes-da-pf/ – Acesso em 21 Jun 25

O Hub Social

https://www.ohubsocial.com.br/  – Acesso em 21 Jun 25