Investigações sobre produtora evangélica do filme de Bolsonaro avançam e indicam crimes graves
As investigações envolvendo a empresária evangélica Karina Ferreira da Gama, responsável pela produção do filme Dark Horse, inspirado na trajetória política de Jair Bolsonaro (PL), ganharam um novo capítulo com a operação realizada pela Polícia Civil de São Paulo, em 1º de junho passado.
A ação apura suspeitas de irregularidades em contratos firmados entre a Prefeitura de São Paulo e o Instituto Conhecer Brasil (ICB), organização presidida por Karina Gama. Reportagens investigativas já apontaram conexões entre recursos públicos, emendas parlamentares e iniciativas vinculadas ao campo político em torno do ex-presidente Jair Bolsonaro.
Em reportagem publicada em 22 de maio, Bereia abordou que Karina Gama integrava o chamado GT Cristão, grupo criado para atuar na mobilização de segmentos religiosos em campanhas eleitorais paulistas, e destacou sua atuação em uma rede que reunia lideranças evangélicas, agentes políticos, organizações do terceiro setor e projetos de comunicação alinhados ao campo conservador.
A apuração do Bereia também levantou questionamentos sobre possíveis conexões entre recursos públicos, emendas parlamentares e a produtora Go Up, do filme Dark Horse. Com o avanço das investigações policiais e novas revelações da imprensa, o caso passa a lançar luz sobre uma estrutura mais ampla de relações entre religião, política, produção cultural e financiamento estatal.
Menos de duas semanas depois, novos fatos ampliaram a dimensão do caso. Uma operação da Polícia Civil de São Paulo passou a investigar o contrato firmado entre a Prefeitura de São Paulo e o Instituto Conhecer Brasil (ICB), organização presidida por Karina Gama, para a implantação de uma rede Wi-fi na periferia da capital paulista. Paralelamente, reportagens publicadas por diferentes veículos de imprensa revelaram a expansão da rede empresarial e associativa construída pela produtora nos últimos anos, bem como novas suspeitas envolvendo a movimentação de recursos públicos por entidades ligadas ao mesmo grupo.

Operação policial leva caso a novo patamar de gravidade
A operação realizada pela Polícia Civil paulista teve como foco contratos celebrados entre a gestão do prefeito Ricardo Nunes (MDB) e o Instituto Conhecer Brasil. A entidade foi contratada, srm concorrentes, para executar serviços de inclusão digital na capital paulista, em um acordo que movimentou R$ 108 milhões. As investigações buscam apurar possíveis irregularidades na execução do contrato e na utilização dos recursos recebidos pela organização.
A ação representa uma mudança importante no caso, que até então vinha sendo sustentado principalmente por denúncias e suspeitas em torno dos recursos públicos aplicados nos serviços que deveriam ter sido prestados. Isto porque a entidade presidida por Karina Gama não tinha nenhuma experiência prévia na área exigida no certame, nunca havia trabalhado com implantação e manutenção de redes Wi-fi ou serviços digitais em seu escopo.
A repercussão política foi imediata. O senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) afirmou que a operação configuraria uma forma de perseguição política contra pessoas ligadas ao ex-presidente Jair Bolsonaro. O prefeito Ricardo Nunes (MDB) também questionou a motivação da investigação e garantiu a idoneidade da empresária Karina Gama.
As declarações, entretanto, foram respondidas pelo governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), aliado político da família de Bolsonaro. Ao comentar o caso, Tarcísio defendeu a atuação da Polícia Civil e afirmou que a corporação tem autonomia para conduzir investigações, sem interferência do governo estadual.
A posição do governador chama atenção porque enfraquece a ideia de perseguição política apresentada por aliados do ex-presidente, uma vez que a investigação é conduzida por uma instituição subordinada ao governo paulista, aliado do clã Bolsonaro.
Valores discrepantes
As investigações passaram a examinar os valores cobrados pelo Instituto Conhecer Brasil no programa WiFi Livre SP. Documentos da Polícia Civil apontam que a entidade cobrava pelo menos duas vezes mais por ponto de internet instalado do que os valores praticados pela Prodam, empresa de tecnologia da informação da própria Prefeitura de São Paulo. A diferença de preços tornou-se um dos principais elementos considerados pelos investigadores na apuração de possíveis irregularidades no contrato.
De acordo com a investigação, enquanto a Prodam operava pontos de acesso a custos significativamente menores, o contrato firmado com o Instituto Conhecer Brasil previa valores que chegavam a cerca de R$ 1,8 mil mensais por ponto de wi-fi. Os investigadores também apuram se houve pagamento por metas não cumpridas integralmente, já que apenas uma parte dos pontos previstos no contrato teria sido efetivamente instalada.
Relatórios citados pela investigação mencionam ainda pagamentos antecipados, inconsistências na prestação de contas, com notas fiscais frias, e questionamentos sobre a execução do programa. Esses elementos passaram a integrar o conjunto de informações analisadas pela Polícia Civil, pelo Ministério Público e por órgãos de controle.
Crescimento empresarial após aproximação com o deputado federal Mário Frias (PL)
Reportagens publicadas pela imprensa acrescentam novos elementos à trajetória da empresária Karina Gama.
Segundo os levantamentos, a empresária ampliou significativamente seus negócios após se aproximar do deputado federal Mário Frias (PL-SP), que foi secretário especial de Cultura do governo Bolsonaro, em 2020. A partir desse período, Karina Gama passou a ocupar posição de destaque em uma rede de empresas, institutos e organizações sociais que expandiu sua atuação em diferentes áreas, incluindo produção audiovisual, comunicação, cultura, tecnologia e projetos financiados por recursos públicos, incluídas emendas parlamentares.
As relações políticas da empresária evangélica se ampliaram para contratos na área de educação com o governo do Distrito Federal, sob a gestão de Ibaneis Rocha (MDB). Karina Gama recebeu cerca de R$ 5 milhões do DF para capacitação de professores.
O que inicialmente aparecia como uma produtora envolvida apenas com a realização do filme Dark Horse, passou a revelar uma estrutura muito mais abrangente. Foi descoberta uma rede composta por empresas privadas e organizações do terceiro setor que compartilham dirigentes, parceiros e projetos, formando um ecossistema institucional que cresceu paralelamente à aproximação da empresária com agentes políticos ligados ao bolsonarismo.
Nesse contexto, o Instituto Conhecer Brasil tornou-se uma das principais peças dessa engrenagem. A entidade passou a captar contratos públicos de grande porte e a ocupar posição estratégica dentro da rede de organizações vinculadas à empresária.
As novas informações ampliam o escopo das investigações porque deslocam o foco de um único produto audiovisual para um conjunto de relações envolvendo organizações sociais, empresas, agentes políticos e recursos públicos.
Roubo de dados de usuários
Outra denúncia que amplia o alcance do caso foi publicada em 2 de junho, pelo Intercept Brasil. O site de notícias revelou que o Instituto Conhecer Brasil teria cedido dados de usuários da rede pública que administrava para a Prefeitura de São Paulo, para disparos em massa de mensagens, inclusive com potencial uso eleitoral.
Segundo a reportagem, a organização de Karina Gama contratou a empresa Talk Communications por cerca de R$ 2,7 milhões para 12 campanhas de marketing digital, num total estimado de 8,1 milhões de mensagens. O uso desses dados, obtidos no acesso à rede pública, pode contrariar a LGPD, o edital da licitação e a legislação eleitoral, já que o contrato estava em vigor durante a eleição de 2024.
O site também informa que o próprio contrato com a Talk previa o fornecimento, pelo Instituto Conhecer Brasil, dos contatos dos usuários do Wi-Fi, o que, na prática, significaria a existência de uma base massiva de números de celular de pessoas que se conectaram ao serviço público. O Intercept reporta ter encontrado extratos bancários que apontam ao menos R$ 798 mil transferidos pela ONG à empresa terceirizada. A reportagem destaca que, em nenhum momento, o usuário foi informado ou consultado para consentimento sobre o uso desses dados em campanhas promocionais. Isto, segundo especialistas ouvidos pelo veículo de notícias, torna a prática uma dupla violação das regras do edital e da proteção de dados.

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As novas revelações ampliam o alcance das questões já apontadas por Bereia em maio. O que inicialmente envolvia possíveis conexões entre a produção do filme Dark Horse e o acesso suspeito a grande volume de recursos públicos passou a abranger suspeitas sobre contratos milionários. Além deles houve movimentações financeiras entre organizações vinculadas ao mesmo grupo, a execução de serviços públicos e o uso de dados de cidadãos cadastrados em programas financiados pelo Estado.
Embora as investigações ainda estejam em curso, os elementos reunidos até o momento indicam a necessidade de acompanhamento permanente sobre a atuação de organizações da sociedade civil que recebem recursos públicos e mantêm relações com agentes políticos. O avanço das apurações deverá esclarecer a extensão dessas conexões e a regularidade dos contratos e práticas agora sob investigação.
Para o Bereia, acompanhar essas conexões é parte do compromisso de observar criticamente os usos políticos da religião e seus impactos sobre a esfera pública, especialmente quando recursos públicos e interesses eleitorais passam a se cruzar em uma mesma rede de relações e na promoção da desinformação.
Referências Bibliográficas
Bereia
https://coletivobereia.com.br/produtora-que-integra-gt-cristao-para-campanhas-politicas-em-sp-pode-ter-articulado-verbas-publicas-indiretas-ao-filme-de-bolsonaro/ – Acesso em 2 Jun 26
ICL Notícias
https://iclnoticias.com.br/produtora-dark-horse-expandiu-apos-mario-frias/ – Acesso em 2 Jun 26
Folha de S.Paulo
https://www1.folha.uol.com.br/poder/2026/06/dona-de-produtora-do-dark-horse-expandiu-negocios-depois-de-conhecer-mario-frias.shtml – Acesso em 2 Jun 26
Metrópoles
https://www.metropoles.com/minas-gerais/flavio-bolsonaro-se-manifesta-sobre-operacao-contra-produtora-de-dark-horse – Acesso em 2 Jun 26
O Globo
https://oglobo.globo.com/politica/noticia/2026/06/02/tarcisio-defende-operacao-que-mirou-contrato-de-produtora-de-dark-horse-com-gestao-nunes-a-policia-tem-autonomia.ghtml – Acesso em 2 Jun 26
Estadão
https://www.estadao.com.br/politica/ong-ligada-a-dark-horse-repassou-r-13-milhao-da-prefeitura-de-sp-a-dirigente-da-propria-entidade/ – Acesso em 2 Jun 26
UOL
https://noticias.uol.com.br/politica/ultimas-noticias/2026/06/02/contrato-educacao-df-icb.ghtm – Acesso em 2 Jun 26
G1
https://g1.globo.com/sp/sao-paulo/noticia/2026/06/02/investigacao-aponta-que-contrato-do-wifi-livre-sp-com-ong-cobrava-pelo-menos-duas-vezes-mais-por-ponto-de-internet-do-que-a-prodam.ghtml – Acesso em 2 Jun 26
The Intercept
https://www.intercept.com.br/2026/06/02/ong-produtora-dark-horse-dados-usuarios-wi-fi-livre-sp-disparos-massa/?utm_source=terra_capa&utm_medium=referral – Acesso em 2 Jun 26
