Não existe estátua de 36 metros de Donald Trump em igreja batista no Alabama (EUA)

Circulam em redes digitais muitas publicações críticas a atitudes idolátricas de evangélicos em relação ao presidente dos Estados Unidos Donald Trump (Republicanos). Entre elas estão algumas viralizadas desde 7 de março passado, que afirmam que uma das maiores igrejas batistas naquele país, no estado do Alabama, nos Estados Unidos, pretende construir uma estátua de 36 metros de Trump em suas dependências. 

A imagem que viralizou nas redes, apresenta uma grande estátua dourada de Donald Trump, com braços abertos, em posição semelhante a representações religiosas monumentais, como o Cristo Redentor, no Rio de Janeiro. Esse tipo de composição costuma aparecer em peças satíricas que circulam em comunidades digitais.

Imagem: Foto que circula em mídias sociais diversas desde 7  de março de 2026

Bereia verificou que a foto surgiu inicialmente no perfil Ashes of Pompeii na plataforma de textos Substack.

No texto crítico à postura de líderes mundiais, o autor ou autora publica a imagem criada sobre o texto “E o próprio Donald? Em seus momentos de fraqueza, Donald Trump provavelmente se vê como Harrison Ford em Força Aérea Um, socando vilões e berrando “Saiam do meu avião!”. Mas aí ele cai em si. Quem precisa sonhar quando a realidade é o Pacificador, o Rei Guerreiro, o Maior Amante de Todos os Tempos, o Mestre da Negociação e o homem mais engraçado e generoso que existe? Como poderia ser melhor?”. Porém, não há nada relacionado a uma igreja batista no Alabama.

Imagem: Trecho da publicação do perfil Ashes of Pompeii, na plataforma Substack, em 7 mar 2026.

A pesquisa do Bereia indica que a foto foi recriada e relacionada à “maior Igreja Batista no Alabama” em um fórum da plataforma Reddit – uma comunidade que publica memes religiosos e políticos em inglês, a r/CatholicMemes. 

Imagem: Reprodução do perfil de r/CatholicMemes na plataforma Reddit

Imagem: Publicação do perfil r/CatholicMemes na plataforma Reddit. Legenda (tradução livre): “A maior igreja batista no Alabama anuncia plano de construir uma estátua de 120 pés do Presidente Trump em seu Campus em honra ao que Deus tem feito pelos EUA sob a sua liderança”

Depois de receber críticas por não tornar público que a imagem é uma criação sem base factual, a moderação removeu o conteúdo do espaço. Porém, a foto-montagem já havia sido replicada em outras redes digitais, como Threads, Instagram e X. 

Imagem: Print da plataforma Reddit que mostra a remoção do conteúdo original depois da viralização como verdade. Fonte: Reddit.

Viralização no  Brasil

No Brasil, em vários casos, as publicações perderam o contexto humorístico original e ganharam conteúdo crítico a grupos, em especial, a evangélicos. Ainda que algumas legendas registrassem que a foto foi elaborada por inteligência artificial, os textos acabavam levando à compreensão de que a imagem é verdadeira. 

Este foi o caso de um dos conteúdos que viralizou, publicado por um pastor alinhado a causas progressistas. Com o título “A idolatria evangélica em um novo nível. Igreja Batista anuncia construção de estátua gigante de Trump”, a legenda descreve a suposta construção de uma estátua de 36 metros do presidente dos EUA por uma igreja batista no Alabama e apresenta detalhes fictícios do projeto, além de comparar a pose do monumento à do Cristo Redentor.

Ao final da legenda, o próprio autor afirma que, conforme uma checagem feita com ferramenta de inteligência artificial da rede social, o conteúdo corresponde a uma sátira. Ainda assim, o pastor afirma que compartilhou o meme como forma de alertar para os riscos de idolatria política quando religião, poder e nacionalismo se misturam.

Imagem: Reprodução de perfil de usuário do Instagram. Publicação em 9 mar 2026

A publicação alcançou dezenas de milhares de curtidas, centenas de compartilhamentos e versões personalizadas.

Imagem: Reprodução de perfil de usuário do Instagram. Publicação em 9 mar 2026

Estátua não foi anunciada

Bereia verificou que não existe registro sobre a construção ou anúncio de uma estátua pública com essas características dedicada a Donald Trump em igrejas batistas do Alabama ou em qualquer outra instituição religiosa nos Estados Unidos. Bereia encontrou a imagem criada na plataforma Substack e a recriação que a relaciona a uma igreja de forma crítica humorística.

Bereia consultou a ferramenta SynthID de identificação de conteúdos gerados por máquinas. Embora não haja marca de água que caracteriza criações por inteligência artificial, a imagem apresenta características típicas deste tipo de criação, como uma textura excessivamente lisa e um cenário de fundo genérico e ligeiramente desfocado.

Em fevereiro de 2025, o próprio Donald Trump partilhou nas suas mídias sociais um vídeo gerado por IA que imaginava a Faixa de Gaza transformada num resort, o qual incluía uma estátua dourada gigante dele próprio. É muito provável que esta imagem seja um fotograma desse vídeo ou de uma criação semelhante.

Imagem: Trecho de vídeo publicado por Donald Trump em sua mídia social, a Truth Social, em 26 fev 2026 

Existem registros de estátuas douradas verdadeiras de Donald Trump, como a apresentada na Conferência da Ação Política Conservadora (CPAC), em 2021, e uma escultura recente ligada a investidores de criptomoedas chamada “Don Colossus”. Entretanto, nenhuma delas tem as dimensões monumentais ou a pose exata mostrada na imagem viralizada.

Imagem: Reprodução de matéria do jornal britânico The Guardian sobre Estátua de Trump na CPAC, 27 fev 2021.

Imagem: Reprodução de matéria da revista eletrônica Infomoney, 18 set 2025

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Bereia classifica as publicações que se referem ao anúncio da construção de uma estátua dourada de Donald Trump por uma igreja batista no Alabama (EUA) como falsas. A imagem repercutida foi criada por inteligência artificial para comunicar uma crítica no que diz respeito à política e foi recriada como sátira religiosa, porém acabou perdendo o contexto original ao circular em diferentes plataformas digitais como verdade.

O caso evidencia um padrão recorrente de desinformação nas redes: conteúdos criados como humor ou crítica política passam a circular isolados de sua intenção inicial e acabam interpretados como notícias verdadeiras. 

Ainda que autores de publicações apresentem a imagem em tom crítico e anunciem que o conteúdo corresponde a uma sátira, isto não é levado em conta por muitos usuários das redes digitais. Inúmeras pessoas compartilham publicações sem ler a legenda ou sem observar o contexto das postagens, apenas com base em imagens. Esse comportamento favorece conclusões precipitadas e amplia a circulação de informações falsas e enganosas.

Posturas críticas em relação a grupos religiosos ou a quaisquer outros personagens da cena pública podem tomar a forma de publicações, porém, com o devido cuidado de se basear em elementos factuais e não fictícios que, ainda que sejam anunciados, podem ser tomados como verdade e produzir injustiças e a destruição perversa de reputações.

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Referências:

Infomoney
https://www.infomoney.com.br/mundo/estatua-gigante-de-trump-segurando-um-bitcoin-e-erguida-em-washington/  Acesso 10 MAR 2026

The Guardian
https://www.theguardian.com/us-news/2021/feb/27/golden-trump-statue-mexico-cpac Acesso 10 MAR 2026

As histórias de fé que ouvi em igrejas neopentecostais

Quando o assunto é igreja evangélica brasileira, o que pensam as pessoas que estão fora dela? E de quem elas lembram? Bispo Edir Macedo (Igreja Universal), Apóstolo Valdemiro Santiago (Igreja Mundial) e Pastor Silas Malafaia (Assembleia de Deus Vitória em Cristo) certamente estão entre as pessoas que vêm à mente de muita gente devido ao poder midiático de suas igrejas.

Sou filho de uma família pastoral com raízes na Igreja Batista Independente (de vertente pentecostal) e passagem pela Renascer em Cristo (uma das maiores promotoras da cultura gospel nos anos 1990 e 2000). Hoje frequento uma Igreja Batista. E fora do que via pela TV, eu conhecia pouco sobre outras denominações com grande poder midiático.

Mas por que as pessoas vão a essas igrejas? Em 2019, foi com essa pergunta que decidi fazer uma pesquisa de iniciação científica cujo objetivo era entrevistar fiéis de três igrejas neopentecostais (Mundial, Universal e Plenitude) e uma pentecostal (Assembleia de Deus do Brás). A maioria delas fica no “Corredor da Fé”, na Avenida Celso Garcia, no bairro do Brás, zona leste de São Paulo. Na época da pesquisa, eram 26 igrejas só naquele endereço. Baseado nas entrevistas que fiz naquele ano, produzi o podcast Histórias de Fé.

A compreensiva resistência ao jornalismo

As reações à chegada de um jornalista variaram. Na igreja do Apóstolo Valdemiro, ter me apresentado como jornalista evangélico fez os fiéis se abrirem mais. Numa entrevista até escutei que, se eu não fosse crente, uma pessoa teria tentado me confrontar e evangelizar. Já nas outras, precisei convencer autoridades religiosas de que não procurava prejudicar as igrejas com as entrevistas. 

A resistência é compreensível. As igrejas evangélicas brasileiras saltaram de 5% a 22% da população entre 1970 e 2010, de acordo os dados do Censo Demográfico do IBGE. Essa é uma grande e rápida mudança em um país de histórica hegemonia Católica Romana. Além disso, a representação desse grupo religioso ainda é carregada de estereótipos (ou até mesmo imprecisões) que eram bem mais fortes em décadas passadas.

É verdade que isso tem sido superado. Exemplo disso é que a Folha de S. Paulo dedicou, em 2019, matéria para os resultados de uma pesquisa do DataFolha. O levantamento concluiu que a “cara típica” do evangélico brasileiro é feminina e negra. Nas igrejas neopentecostais, elas representam 69% dos fiéis.

Mesmo assim, visitar essas igrejas – em especial as neopentecostais – foi confrontar-me com meus próprios preconceitos. Entrevistar fiéis enquanto mantinha opinião crítica à teologia da prosperidade e considerar que, às vezes, as chamadas experiências de avivamento com o Espírito Santo eram exageradas, me obrigou a entender as suas crenças em seus próprios termos.

Entender a fé do outro muda perspectivas

Essa chave muda tudo. Se olharmos apenas para o que acontece nos púlpitos sem acreditar nos programas de TV, a imagem que fica é de bispos e apóstolos que exploram a fé de pessoas pobres e com pouca instrução. Mas se o foco são as pessoas sentadas nos bancos – não meros cases de sucesso que dão testemunho – a situação muda.

No primeiro episódio, conto um diálogo que tive com uma fiel da Universal fora da igreja. Ela diz acreditar que pode obrigar Deus a fazer um milagre acontecer e até me citou que declarou que teria um emprego e conseguiu-o de um dia para outro. Essa crença entra em choque com a tradicional doutrina da soberania de Deus. Mas se oração, dízimos e ofertas não resultarem no milagre, para ela, é porque Deus faz o que quer. Então, o debate que importa não é se uma doutrina clássica e cara a outras tradições evangélicas está em jogo ou não, mas se a fé pregada pela igreja dá resultados.

Mas não só de resultados vive a fé desses evangélicos. O maior exemplo que tive foi minha última entrevistada, na Igreja Plenitude. Elissandra contou que retornou ao evangelho pela Plenitude depois de 22 anos “desviada” (gíria crente que designa quem se converteu e posteriormente deixou a igreja). Pouco depois de ter se batizado, sua filha teve uma doença que afetou toda a pele. Os médicos não achavam solução. A cura veio depois que ela comprou frascos com o sangue do cordeiro e azeite e passou no corpo da filha. “Então, eu não tenho motivo pra sair da igreja. Eu tenho motivo pra permanecer. Pra ficar. Pra ser fiel a Ele. Eu não tenho motivo pra sair. Porque ele me provou quem Ele é na minha vida. Ele me provou que Ele está comigo. E que Ele ouviu o meu clamor, a minha oração, porque eu ajoelhei e pedi pra Ele. E Ele me ouviu e Ele me respondeu no mesmo dia”, explicou Elissandra. 

Apesar disso, toda a sua família questiona sua fé e a chama de macumbeira – um termo muito ofensivo, já que essas igrejas entendem os cultos afro-brasileiros como demoníacos. Mas quando o assunto era o que a mantinha na Plenitude, ela atribuiu sua persistência ao avivamento com o Espírito Santo. Mesmo que a cura da filha tenha sido um sinal de Deus, me pareceu que Elissandra quer bem mais respeito da família do que negociar bênçãos materiais com Deus.

Compreender não significa fechar os olhos para os problemas

Ao final de toda a pesquisa, não deixei de ter sérias divergências com as pregações das igrejas as quais visitei. Discordo da Teologia da Prosperidade e da Guerra Espiritual, defendidas pelas igrejas neopentecostais. Às vezes, a admiração aos líderes das denominações me parece exagero.

Além disso, há um alinhamento institucional e quase acrítico ao Presidente da República Bolsonaro, para dizer o mínimo. Não é por acaso que o voto evangélico foi forte fator para a eleição do capitão. É claro que isso não é exclusividade das igrejas que visitei e os efeitos são prejudiciais tanto para quem é da igreja quanto para quem é de fora dela. 

Em poucos meses como repórter verificador no Bereia cheguei à triste conclusão que, não raramente, líderes evangélicos importantes desistem da verdade para espalhar desinformação, seja para criticar opositores do presidente ou defender o governo. Isso se tornou mais dramático com a pandemia de covid-19. O grande problema disso tudo é: se a igreja evangélica se associar tão fortemente ao governo Bolsonaro, como as pessoas de fora da igreja conseguirão distinguir a diferença entre ser evangélico e ser bolsonarista?

Reconheço que essas igrejas não se encerram nos programas de TV e que chegam nas vidas das pessoas. E mesmo quando discordo, eu entendo os pontos de vista desses fiéis. Qualquer diálogo sério com evangélicos depende de tentar compreendê-los.

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Foto de Capa: Pixabay/Reprodução

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