“Auê”: uma canção evangélica desafia a cultura gospel e se torna alvo de mentiras

Nos últimos dias, a cena musical gospel brasileira foi sacudida por uma intensa controvérsia envolvendo a canção “Auê (A fé ganhou)” do Coletivo Candieiro. O Bereia verificou que a música se tornou centro de uma intensa onda de ataques e desinformação em plataformas como Instagram, TikTok e X (antigo Twitter). 

A produção, que integra o projeto audiovisual “O Grande Banquete”, gravado ao vivo em João Pessoa (PB), tem sido alvo de perfis de identidade religiosa conservadora que classificam a composição como “macumba gospel”, “invocação de demônios” e acusam seus autores de serem “servos de Satanás”. Bereia buscou informações em torno da produção, da identidade do grupo musical e confrontou críticas com ataques de violência verbal que circulam no ambiente digital.

A produção “O Grande Banquete” e a canção “Auê”

A música “Auê” faz parte do álbum “O Grande Banquete”, lançado no início deste 2026 pelo pastor e cantor Marco Telles, em parceria com o Coletivo Candieiro. Os compositores explicam que o álbum é concebido como um “sermão musical”, uma experiência sonora contínua composta por nove faixas que exploram a temática da hospitalidade divina e a inclusão dos “improváveis” no banquete do Reino de Deus. 

Ritmicamente, “Auê” é uma fusão de elementos da música popular brasileira, com forte presença da ciranda, do samba e de percussões nordestinas. A letra utiliza termos do cotidiano brasileiro para ilustrar a alegria da fé. A polêmica concentra-se em trechos como:

“Agora que o Zé entrou, e todo mundo viu / (…) Agora que a fé ganhou, e a Maria sambou / Sua saia balançou, alguém se incomodou”.

O que é o Coletivo Candieiro?

O Coletivo Candieiro não é uma banda vinculada a uma única denominação, mas o selo de um movimento de artistas cristãos, majoritariamente do nordeste do país, fundado por volta de 2019. O grupo é liderado por Marco Telles, que também é pastor da Igreja Luzeiro, em João Pessoa (PB). O propósito do coletivo, conforme manifesto publicado em seu site oficial e em entrevistas a veículos como Ultimato e Apenas Música, é “ecoar a voz e o canto da regionalidade com sotaque”, rompendo com a estética homogeneizada da indústria gospel do Sudeste. O grupo defende a “teologia da cultura”, buscando expressar a fé cristã através das linguagens e ritmos brasileiros, combatendo o que chamam de “elitismo litúrgico”.

Desinformação e ataques

As publicações verificadas pelo Bereia mostram que a polêmica não se restringe a uma mera divergência estética. Críticos, majoritariamente de vertentes teológicas e políticas mais conservadoras apontam para elementos na letra e no ritmo que, em sua visão, rompem com os padrões estabelecidos da música cristã. O uso da palavra “auê” – que significa barulho, agitação – e referências a figuras populares como “Zé” e “Maria”, além da incorporação de ritmos como ciranda e samba, foram interpretados por alguns como um perigoso flerte com o sincretismo religioso e uma diluição da pureza doutrinária cristã. 

A associação de “Maria sambou” com a figura de Maria Padilha, divindade de religiões de matriz africana, e a menção a “Zé” remetendo a Zé Pelintra, entidades afro-brasileiras, são exemplos das interpretações que alimentaram a controvérsia e causou repercussão negativa entre os mais conservadores agitando as redes sociais. Ouvidos pelo Bereia, os compositores Marco Telles e Filipe da Guia reafirmaram o que tem sido amplamente divulgado pelo grupo nas mídias sociais: que os nomes representam o “povo comum brasileiro” e que a intenção foi “representar o nosso povo e de forma nenhuma fazer alguma conexão ou associação a outra religião”.

A controvérsia, marcada inicialmente por estas interpretações, acabou sendo alimentada por desinformação. Alguns perfis publicaram vídeos da apresentação da música, com edições manipuladas, afirmando que a música conteria “mensagens subliminares” e que o ritmo de ciranda seria uma forma de “evocação espiritual não-cristã”.

Entre as mentiras levantadas na pesquisa do Bereia, destacam-se acusações de “satanismo” – postagens que classificam os integrantes como “intrusos do satanismo no meio evangélico”.

Imagem: reprodução/Youtube


Imagem: reprodução/Instagram

Imagem: reprodução/Instagram

Foram publicadas também afirmações de que o grupo estaria realizando um ritual sincrético oculto, com desconsideração ao histórico dos músicos e as explicações teológicas e poéticas que forneceram.

Apoios e defesa da pluralidade

Apesar dos ataques, o Coletivo Candieiro recebeu apoio de lideranças evangélicas de diferentes vínculos políticos e teológicos e de pessoas das igrejas, evidenciando que a aceitação da obra não está restrita a um único grupo.

Pastor Carlos Alberto Bezerra Jr.  Imagem: reprodução/Instagram

Pastor Alexandre Gonçalves. Imagem: reprodução/X

Pastor Luiz Sayão. Imagem: reprodução/Instagram

 

Pastor Kenner Terra. Imagem: reprodução/X

Sincretismo ou racismo religioso? A visão dos especialistas

Bereia ouviu o especialista em pluralismo religioso, pesquisador do Programa de Pós-Graduação em Ciências da Religião da Universidade Federal de Juiz de Fora, Prof. Dr. Cláudio Ribeiro sobre o caso. Para ele, a polêmica em torno da música está diretamente relacionada ao uso dos termos “Zé e Maria” como expressão do universo afro-brasileiro. Ele considera que essa controvérsia expõe uma dificuldade dos grupos evangélicos em lidar com elementos religiosos de matriz africana. Ribeiro é categórico ao afirmar:

“Quando as pessoas falam de sincretismo, elas estão escondendo o racismo que está dentro delas; elas não querem se misturar com elementos de outras religiões, em especial das comunidades negras. É um racismo religioso.”

Para o pesquisador, essa perspectiva lança luz sobre uma dimensão frequentemente ignorada no debate: o racismo religioso, onde a aversão a certas expressões culturais pode mascarar preconceitos mais profundos.

Já o músico Jorge Camargo, com uma trajetória sólida de 45 anos na cena musical evangélica, também ouvido pelo Bereia, destaca que a letra que menciona “a Maria sambou e o céu se abriu” gera desconforto por associar o samba ao ambiente de adoração. 

Para Camargo, essa é uma discussão antiga, pois “em nossas liturgias, a presença do corpo ou de danças sempre foi muito rechaçada sobre o argumento de que isso possa sensualizar ou carnalizar as nossas expressões de louvor e tudo mais.”  O músico defende que a dança deveria ter mais espaço, criticando a superficialidade ou os “cuidados excessivos” que cercam essa expressão, como se a carnalidade estivesse presente apenas nas manifestações artísticas culturais e não no “labor teológico, no labor da pregação”. 

Músico Jorge Camargo. Imagem: reprodução/Instagram

Camargo traça um paralelo histórico, lembrando que a figura do artista e do músico no Brasil, desde o início do século 20, foi muitas vezes associada ao “boêmio e que não gostasse de trabalhar”. Para ele, a reação a “Auê” é um “filme antigo” que se repete:

“Nada muda desde a década de 80, a arte chamada secular contaminando a arte cristã para os tradicionais.

No seu ponto de vista, o que está acontecendo com a canção ‘Auê’ parece mais do mesmo, parece a reprodução de um filme antigo; onde muda-se as personagens, muda-se o tema, o roteiro, mas a essência é a mesma. Esse misto de ignorância e, hoje com o advento das mídias sociais, também um componente de maldade e de agressividade gratuito.”

O que dizem os compositores de “Auê”

Em entrevista ao Bereia, o diretor criativo do Coletivo Candieiro e um dos compositores da canção pastor Marco Telles, oferece uma avaliação sobre o impacto de “Auê”. Ele acredita que o “burburinho” causado pela música no contexto das igrejas evangélicas se deve a um distanciamento da própria cultura brasileira:

“Acho que essa música causou tanto burburinho na igreja porque a igreja tem demonstrado um imenso afastamento de sua própria cultura, de seus traços mais elementares, dos seus símbolos de identificação própria. Como a música AUÊ resgata alguns dos símbolos e traços culturais do Brasil, isso soa estranho para a igreja.”

Essa avaliação sugere que a estranheza não reside na música em si, mas na desconexão de parte do evangelicalismo com as raízes culturais do país, preferindo modelos importados que, por vezes, não dialogam com a realidade local.

“Quando eu e Filipe estávamos compondo essa canção a gente só pensava na alegria de representar o povo brasileiro entrando na festa de Deus. A gente só queria representar que essa festa de Deus é um banquete para os improváveis, é uma festa que acolheu tanta gente diferente no mundo, tanta gente diminuta, tanta gente periférica e entre esses estamos nós os latino-americanos, que estamos na parte sul do globo e que historicamente estamos sempre submetidos a tanta exploração e tantas guerras culturais.

A gente agora tem a possibilidade de se ver na festa de Deus, de se ver na obra de Cristo, de se encontrar na obra de Cristo. Nossa única intenção foi representar o nosso povo e de forma nenhuma fazer alguma conexão ou associação a outra religião” destaca Telles.

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A partir desta apuração, Bereia avalia que “Auê” do Coletivo Candieiro, mais do que uma simples canção, tornou-se um catalisador para debates urgentes e necessários para o campo religioso. A controvérsia em torno da letra e do ritmo da canção não apenas expõe as tensões entre religião  e cultura musical, mas também revela questões mais profundas relacionadas à identidade cultural, ao racismo religioso e à forma como a fé se expressa em um contexto tão plural como o Brasil. 

A música, ao resgatar símbolos e traços culturais nacionais, força as igrejas e suas lideranças a confrontarem seu próprio espelho, questionando até que ponto estão dispostas a abraçar a riqueza da cultura brasileira sem cair em preconceitos ou em uma ditadura do mercado gospel”  que marginaliza expressões autênticas de fé. O “auê” gerado pela canção é, em última instância, um convite à reflexão sobre o futuro de uma fé que busca ser relevante e encarnada em seu próprio “chão”.

As críticas resultam de interpretações subjetivas e preconceitos culturais (racismo religioso) contra ritmos e termos da cultura popular brasileira. A verificação mostra que o Coletivo Candieiro possui fundamentação teórica e teológica para sua produção, e que as acusações de “invocação de demônios” são FALSAS pois carecem de base factual, servindo para alimentar o pânico religioso e a perseguição a artistas que buscam inovar na estética cristã nacional.

Referências

https://www.apenasmusica.com.br/entrevista/por-um-canto-com-sotaque-am-entrevista-coletivo-candiero Acesso em 10 fev 2026

https://www.ultimato.com.br/conteudo/colcha-de-retalhos-coletivo-candiero Acesso em 10 fev 2026

https://comunhao.com.br/musicas-gospel-au-e-controversia-entre-evangelicos/ Acesso em 10 fev 2026

https://www.instagram.com/reel/DUV_1sIEb1t/?igsh=Y3preGQycTM5emZu Acesso em 10 fev 2026

https://www.instagram.com/p/DUbhCw9Accz/?igsh=NmIwanl3bDFkMno2 Acesso em 10 fev 2026

https://x.com/pr_alexandregon/status/2019001176604152307?s=46 Acesso em 10 fev 2026

https://www.instagram.com/reel/DURuy-DDlCh/?igsh=MXYxYXFrNWRzam45dQ== Acesso em 10 fev 2026

Do templo ao mercado: a expansão econômico-financeira da cultura evangélica no Brasil

Um mercado especializado, que vai além de produtos religiosos tradicionais tem sido impulsionado, nos últimos anos, pelo crescimento da população evangélica no Brasil. Condomínios residenciais, parques temáticos, bancos digitais e planos de saúde voltados exclusivamente a esse público revelam uma tendência: a consolidação de um setor econômico que une fé, consumo e identidade religiosa.Com propostas similares, as empresas têm propagado a manutenção de um ideal religioso personalizado através da fé comum. 

Segundo dados do Censo Demográfico de 2022, realizado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), os evangélicos já representam 26,9% da população brasileira. Essa representatividade tem atraído o interesse de setores empresariais que veem oportunidades de investimento em produtos e serviços voltados para esse grupo.

Entre os exemplos mais recentes está o Residencial Clube Manancial da Fé, primeiro condomínio com foco exclusivo no público evangélico, que ganhou destaque nas mídias de notícias em julho passado. Localizado em Nova Iguaçu (RJ), o projeto promete uma “morada edificada sobre os alicerces da tradição familiar”, diz o slogan estampado no website do empreendimento. O empresário responsável pelo condomínio Alcindo Plácido, declarou que seu objetivo é mostrar aos investidores “a força do setor evangélico” e o retorno financeiro possível ao atender esse segmento. 

Um dos slogans do empreendimento afirma: “Você não vai à Terra Santa, mas a Terra Santa vai até você”, em referência a elementos arquitetônicos e simbólicos inspirados em Israel, além disso, versículos bíblicos alusivos a áreas como quadras esportivas, ou piscinas, são utilizados para retratar as facilidades do local. 

Imagem: Extrato do jornal Folha de S. Paulo on line, publicado em 22 jul 2025

Para a revista Veja, Plácido afirmou que, embora o projeto tenha um apelo religioso evidente, parte das moradias estará aberta ao público em geral. Essa abertura é respaldada pelo artigo 5º, inciso VIII, da Constituição Federal, que proíbe qualquer tipo de discriminação ao acesso a bens e serviços por crença religiosa.

Ainda na esfera do lazer, a Prefeitura do Rio de Janeiro já havia anunciado, em 2024, a criação do parque temático Terra Prometida, voltado ao público cristão. Com 198,5 mil metros quadrados, o parque será construído em Santa Cruz, Zona Oeste carioca, e ocupará a sexta posição entre os parques erguidos na região desde 2021.

“Esse será um parque especial porque, além dos benefícios que trará para o meio ambiente e para a população, também será um espaço dedicado à propagação e ao exercício da fé. Um lugar de congregação, peregrinação e para realização de eventos religiosos, que fará bem ao corpo e à alma”, afirmou o prefeito do Rio, Eduardo Paes, durante o anúncio oficial.

Imagem: Site da Prefeitura do Rio de Janeiro

Outro setor que aderiu à lógica da segmentação religiosa foi o bancário. O banco digital Clava Forte, fundado pelo pastor e cantor da Igreja Batista Lagoinha André Valadão, apresenta-se como uma solução financeira voltada ao público gospel. Com sede em Belo Horizonte (MG), o banco oferece serviços como crédito, cashback, planos funerários e seguros de vida. A esposa de André, Cassiane Montosa Pitelli Valadão, atua como diretora do banco.

Em seu site, o banco se apresenta com a missão de criar soluções financeiras personalizadas, oferecendo espaço para instituições religiosas e pastores. Entre os serviços estão financiamentos para apoiar igrejas em seus projetos, além de seguro de vida e planos funerários para líderes religiosos e suas famílias.

Imagem: Reprodução


O segmento fitness também ganhou versão religiosa. Em Curitiba (PR), foi inaugurado em junho de 2024 o estabelecimento esportivo Sou Mais Cristo, considerada a primeira academia cristã do Brasil. O espaço traz cruzes na decoração, uma sala de oração disponível aos alunos e treinos embalados por música gospel em vez das tradicionais batidas eletrônicas. Segundo o sócio-proprietário Patrick Baptista, a ideia nasceu após sua conversão à fé evangélica e busca oferecer um ambiente mais “familiar e acolhedor”, que já reúne mais de 400 frequentadores. A proposta viralizou nas redes sociais e deve se expandir em modelo de franquias a partir de 2025.

Imagem: Academia Sou Mais Cristo/Reprodução

Na área de relacionamentos, aplicativos como o Amor em Cristo seguem a mesma lógica de segmentação. Com uma proposta conservadora e tradicional, o app se propõe a unir casais cristãos, com funcionalidades similares a outras plataformas de encontros, como localização por proximidade e filtros personalizados.

Imagem: Reprodução da internet

O setor de saúde também aderiu a esta tendência gospel. A plataforma ACBI Saúde disponibiliza planos de saúde, seguros e serviços odontológicos voltados a fiéis e instituições religiosas, com um discurso de acolhimento e cuidado espiritual aliado ao físico.

Diante da multiplicação desses empreendimentos, especialistas analisam o que esse fenômeno representa no contexto religioso e sociocultural brasileiro.

Fenômeno não é novo, mas se atualiza

Para a editora-geral do Bereia e pesquisadora do Instituto de Estudos da Religião (ISER) doutora em Comunicação Social Magali Cunha, a relação entre fé e mercado é antiga e ganha novos contornos com a consolidação da cultura gospel no Brasil. “Sempre houve produtos religiosos voltados para as pessoas de fé. Em relação a evangélicos, as lojas de produtos para este grupo sempre existiram – livros, camisetas, Bíblias, objetos simbólicos”. 

A pesquisadora explica que esse movimento se intensificou a partir dos anos 1990 e 2000, com a expansão do mercado fonográfico gospel e a emergência de um consumo simbólico voltado aos fiéis. “Quando a cultura gospel do show business se ampliou, começaram a surgir também produtos simbólicos diversos, como bares gospel, aparelhos eletrônicos gospel (como o celular da Nokia), cursos pré-vestibular gospel, grifes de roupas e calçados, cosméticos gospel, seguradoras e até sex shops com nomes como ‘Rosa de Sarom’”, ressalta. 

Para Cunha, o que se vê atualmente é uma nova fase desse fenômeno, com mais diversidade e alcance. “Com a cultura evangélica consolidada e expandida no Brasil, e o número de fiéis do segmento ampliado para 26,9% da população, conforme o Censo 2022, vemos uma atualização e uma expansão desta cultura mercadológica de bens e serviços com marca religiosa em nova versão — o que podemos chamar de ‘mercado gospel 2.0’. É a expansão do alcance da lógica mercadológica desta cultura religiosa”.

Lógica de consumo e pertença simbólica

Já a professora titular de Comunicação da Universidade Federal de Pernambuco e doutora Karla Patriota, enxerga essa expansão como parte de um processo sociocultural mais amplo, onde fé e consumo caminham lado a lado.

“Vejo a expansão do ‘mercado gospel’ como resultado de um processo histórico de longa duração, sustentado por dinâmicas graduais e contínuas que integram práticas religiosas e lógicas de consumo num mesmo ecossistema simbólico. Nesse ambiente, produtos e serviços funcionam como dispositivos de pertença que atravessam múltiplos segmentos, conectando-se a repertórios de fé e estilos de vida.”

De acordo com a doutora em sociologia, essas iniciativas ajudam a consolidar identidades e criam novas formas de vivência religiosa no cotidiano. Ela também destaca os desafios que ainda persistem. “Persistem lacunas de representação e de alinhamento comunicacional que o próprio público identifica como relevantes. O desafio consiste em compreender as gramáticas de uso e os contratos de leitura que se estruturam nesses contextos, valorizando as mediações cotidianas que geram reconhecimento, legitimidade e sentido para um grupo que busca ver refletidas, no mercado, suas concepções identitárias e seu universo simbólico”, indica Karla Patriota.

É verdade que Fabiana Anastácio negou o risco de ser infectada pela COVID-19

A cantora gospel Fabiana Anastácio publicou “o coronavírus não atingirá a sua casa, porque quem guarda a sua casa é Jesus”

Na última quinta-feira, 04, o novo Coronavírus vitimou de forma fatal a cantora gospel Fabiana Anastácio. Ela era hipertensa e diabética, tendo falecido em São Paulo, após ficar uma semana internada em decorrência da Covid-19, segundo a página da artista no Facebook.

Último clipe lançado durante a internação da cantora

Natural de Santo André (SP), ela era filha de um pastor e de uma maestrina. Fabiana tinha 45 anos e era pastora da igreja evangélica Assembleia de Deus, no bairro Demarchi, em São Bernardo do Campo, na Grande São Paulo. De acordo com matéria publicada em 08 de junho, no portal G1 , em 2008, uma apresentação de Fabiana na igreja Assembleia de Deus de Santo André viralizou e ela passou a ser conhecida em todo o Brasil pelos evangélicos. Em 2012, gravou seu primeiro CD intitulado: “Adorador 1″. Outros dois CD’s foram lançados posteriormente: “Adorador 2 – Além da Canção”, em 2015, e “Adorador 3 – Além das Circunstâncias”, em 2017.

Segundo matéria publicada no portal Hoje em Dia no dia 04 de junho, a cantora teria esperado por sete dias uma vaga na UTI em uma unidade pública.

Conforme anunciado na mídia social da cantora no dia 01 de junho, amigos, familiares e fãs se mobilizaram para custear as despesas por meio de uma campanha de arrecadação. 

De acordo com o site Correio Braziliense, em matéria publicada no dia 04 de junho, a campanha conseguiu angariar mais R$ 24 mil para ajudar no tratamento de Fabiana.

“Como igreja sabemos que quando uma parte do corpo perece, todo corpo sente a dor ou, pelo menos, deveria sentir. A dor não escolhe cor, nem raça, nem status ou condição… ela simplesmente surge e traz suas consequências. Nesse momento nossa amiga/pastora/cantora Fabiana Anastácio precisa da nossa ajuda para combater o COVID-19, ela está internada no hospital com todos os cuidados necessários, mas com um custo alto para a família, ainda mais nesse momento de recesso de agendas e claro, com algo que ninguém esperava. Estamos todos juntos nessa causa, #SomosTodosFabiana!”, dizia a campanha

Na já citada reportagem do Hoje em Dia, o esposo e pastor, Ruben Nascimento também foi testado positivo para Covid-19, mas se recuperou. Fabiana e Ruben estavam juntos há 21 anos e casados há 20, tendo gerado três filhos: Ruben Junior, 17 anos, Guilherme, 16 e Lucas, de 13.

De acordo com o marido, a doença evoluiu rápido para Fabiana. Segundo ele, no início, ela tinha sintomas de gripe e foi isolada em casa. Quando piorou, foi para um hospital, testou positivo e ficou internada. Ruben chegou a convocar uma campanha de oração e jejum na segunda-feira, 01.

Dois dias depois, uma nota oficial nas mídias sociais da cantora mostrava que havia a expectativa dela se recuperar.

“Ela continua na UTI do hospital aqui em São Paulo. Seu quadro geral ainda é estável, mas com um pouco de dificuldade pra respirar. Lembrando que essa dificuldade tem a ver com seu peso, ou seja, a recuperação toda tem a tendência de ser mais lenta por causa disso”, dizia o texto.

Contudo, a cantora gospel Fabiana Anastácio morreu na manhã desta quinta-feira, 04. A notícia foi confirmada na página oficial da artista, nas mídias sociais.

Na nota dizia: “Deus decidiu levar, nossa (Fabiana Anastacio Nascimento) para os seus braços. Obrigado a todos pelas orações, ao longo do dia será postado mais informações.

Te Adorarei, te adorarei, quando chegar aí no Céu te adorarei”.

A publicação contou com 191 mil interações, 41 mil comentários e 24 mil compartilhamentos. “Deus decidiu levar, nossa (Fabiana Anastácio Nascimento) para os seus braços. Obrigado a todos pelas orações, ao longo do dia será postado mais informações. Te Adorarei, te adorarei, quando chegar aí no Céu te adorarei”, dizia a legenda.

Ao G1, o Pastor Ruben Souza Nascimento, marido da cantora, afirmou que Fabiana deixa como lembrança para familiares e fãs o sorriso largo e contagiante que carregava e afirma que a cantora “cumpriu sua missão de levar fé e alegria para pessoas de todo o Brasil“.

Ela era muito bonita, muito alegre. Todo ambiente em que ela estava, era contaminado por alegria e simpatia. Ela cantava e palestrava em igrejas no Brasil inteiro e quem a conheceu sabia que era uma pessoa extraordinária”, disse  o p Pastor Ruben em entrevista ao G1 nesta segunda-feira, 08 de junho.

Na entrevista, Ruben ainda afirmou que a missão dele e da família agora é caminhar e, apesar da dor do luto, encontrar forças na fé para superar a perda. O pastor diz que a esposa cumpriu em vida uma importante missão.

Cantora publicou frase sobre o Coronavírus? 

Circula nas redes sociais uma frase que teria sido publicada pela cantora Fabiana Anastácio. A postagem, realizada em um perfil do Facebook no dia 05 de junho, salienta na legenda: “O negacionismo é que está matando a população”.

Reprodução/ Facebook

O Coletivo Bereia checou as mídias sociais da cantora, de onde a publicação teria surgido e constatou que a existência da frase é verdadeira e foi postada no Instagram de Fabiana Anastácio no dia 21 de março, período em que os governos se mobilizavam para implantar o sistema de isolamento social como forma de conter o avanço da doença no país. 

Cantora gravou áudio alertando sobre Covid-19 enquanto esteve internada?

Circula na internet um áudio atribuído à Fabiana Anastácio, no qual essa afirmaria que a doença não vê religião. Além disso, o áudio alerta os cristãos a ficarem em casa para não se exporem ao vírus.

Segundo a matéria do Boatos.org, diversas histórias falsas de pessoas gravando áudio antes de morrerem já circularam na internet. Outrossim, é perceptível o caráter vago e alarmista da mensagem, sem contar os erros de português e a falta de fontes confiáveis. Todos esses pontos são indicativos de uma fake news.

Confira o áudio :

Mesmo que a mensagem tenha algo de verdadeiro, quando afirma que “a doença não vê religião”, além da sugestão positiva para “que fiquem casa”, o áudio não é da cantora Fabiana Anastácio. De acordo com a assessoria da cantora, Fabiana não teve acesso a nenhum tipo de dispositivo móvel enquanto permaneceu no hospital.

Por fim, Bereia checou que o áudio foi gravado pela missionária Maiara Machado, da Assembleia de Deus, da Bahia.

A própria missionária comentou o assunto em sua página no Facebook :

Agora sim!!! A postagem está correta!!

ÁUDIO QUE VAZOU DIZENDO SER A CANTORA FABIANA ANASTÁCIO ANTES DE MORRER!!

Obs: Não foi da cantora!! Entrem nesse canal e vejam!”

Pandemia e o racha entre os evangélicos no Brasil

Em entrevista para a BBC Brasil, o teólogo Kenner Terra afirma que “só de você estar considerando as recomendações da OMS já é quase como um ‘ato de resistência”.

Terra é pastor de uma igreja Batista, coordenador do Fórum Evangelho e Justiça no Espírito Santo e está entre os que defendem as medidas recomendadas pela Organização Mundial de Saúde (OMS) para evitar a disseminação da covid-19. Por isso, foi alvo de muitas críticas e comentários agressivos de outros evangélicos contrários ao isolamento.

As igrejas estão divididas. De um lado líderes que defendem o fim do isolamento, a manutenção dos templos abertos e os cultos presenciais — destes, alguns até entraram em disputa com o Ministério Público do Rio de Janeiro pelo direito de manter as igrejas abertas. Do outro lado, líderes que fecharam os templos, fazem cultos online e pedem que os fiéis orem em casa”, diz a matéria da BBC Brasil. 

Para Terra, essa divergência expõe uma divisão nesse grupo religioso que se acentuou durante os últimos anos, à medida que o presidente Jair Bolsonaro assumia uma “aura de autoridade religiosa”. Esses que minimizam a pandemia, continua Terra, “em geral, são grupos que se alinham com o projeto bolsonarista e o acompanham na forma de lidar com a pandemia”.

Já em matéria publicada em 14 de abril de 2020, a socióloga Rosana Pinheiro-Machado afirma que:

Nos últimos dias, pastores como Edir Macedo e Silas Malafaia têm feito um grande desserviço ao combate da epidemia, colocando-se contra o isolamento social e temendo o esvaziamento das igrejas, que é fonte de arrecadação de dízimo e também de formação de coesão social. Mais do que isso, multiplicam-se memes e vídeos no WhatsApp de pastores charlatões, dizendo que quem tem fé está imune, que a epidemia é coisa de satã, uma vingança divina. Também há aqueles que oferecem receitas de cura”.

A relação entre parte do público evangélico e Bolsonaro é de mão dupla. Como exemplo, há a fala de Bolsonaro, no Programa do Ratinho, onde esse se conecta com esses religiosos quando diz que a igreja às vezes é a única coisa que as pessoas têm. Além disso, ele também pediu jejum nacional para combater o vírus com a fé.

Em uma entrevista dada para a jornalista Patrícia Fachin, do Instituto Humanitas Unisinos, a socióloga Rosana Pinheiro-Machado afirma que “o que está em jogo é uma disputa por novos discursos, regimes de verdade e fontes de autoridade”. “São sistemas de pensamentos distintos. Um é baseado em evidência; outro, na autoridade da fé” [].

Conclusão

Bereia conclui ser verdadeira a informação de que a cantora gospel Fabiana Anastácio disse que o Coronavirus não atingirá a sua casa, porque quem guarda a sua casa é Jesus. A publicação está em sua própria página no Instagram. Por outro lado, o áudio atribuído à cantora é falso

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Referências de Checagem

Metropoles– Frase sobre Coronavirus – Disponível em: https://www.metropoles.com/colunas-blogs/pipocando/o-coronavirus-nao-atingira-sua-casa-disse-cantora-gospel-antes-de-morrer

Instagram de Fabiana Anastáciohttps://www.instagram.com/p/B9_v_KDA51b/ acessado em 09.06.20

BBC – Como a crise do coronavírus expõe racha entre evangélicos no Brasil – Disponível em : https://www.bbc.com/portuguese/brasil-52313890

Intercept – Coronavírus: como as igrejas evangélicas estão se aproveitando da crise para ocupar o vácuo do estado  – https://theintercept.com/2020/04/14/coronavirus-igrejas-evangelicas/

Ihu – Esquerda e direita disputam regimes de verdade. Entrevista especial com Rosana Pinheiro-Machado Disponível em: http://www.ihu.unisinos.br/159-noticias/entrevistas/573311-esquerda-e-direita-disputam-a-verdade-entrevista-especial-com-rosana-pinheiro-machado

Boatos– Cantora gospel Fabiana Anastácio gravou áudio alertando sobre Covid-19 no hospital Disponível em: https://www.boatos.org/religiao/cantora-gospel-fabiana-anastacio-audio-covid-19-hospital.html

Áudio da missionária Maiara Machado alertando os cristãos contra o coronavírus –

Página do Facebook da missionária Maiara Machado

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