O fracasso ético e moral da humanidade

Nossa origem se encontra na África, por isso, somos todos africanos. O Vale do Rift, com extensão de  3 mil km, começando no norte da Síria e chegando ao centro de Moçambique, é uma zona privilegiada. Nesse Vale se produziu uma grande divisão: de um lado, mais alto, ficaram as florestas nas quais nossos antepassados antropóides e depois os símios  superiores, como os gorilas e orangotangos viviam e tinham abundância de alimentos. Não precisavam evoluir para sobreviver.

Os seres humanos derivam de um ancestral comum. Não era um macaco, como comumente se pensa, mas um primata primitivo que se bifurcou. Por um lado, deu origem aos grandes símios, acima referidos, e, por outro, ao ser humano, em suas várias fases: o Homo habilis, depois o Homo erectus e, por fim, o homo sapiens, de onde nós procedemos. Estes últimos ficaram na parte rebaixada do Vale do Rift tornada uma espécie de savana. Nossos ancestrais neste “nordeste seco” evoluíram seja em seu corpo, seja em seu cérebro no afã de buscar o necessário para a sobrevivência. Ecologicamente, a vida  na savana não é tão rica quanto as demais biorregiões. 

Em 1974, descobriu-se um fóssil bastante completo,  no deserto de Afar na Etiópia, datado de 3,18 milhões de anos. Ele sugeria ser de uma mulher. Foi chamada de “Lucy”, nome tirado de uma canção dos Beatles, “Lucy in the Sky with Diamonds”.

A grande mudança começou com o Homo habilis há mais de 2 milhões de anos. Ele já utilizava instrumentos como pedras pontiagudas, paus aguçados e ossos grossos, com os quais intervinha na natureza e facilitava a caça de animais.

Com a diferença de centenas de anos, surgiu o Homo erectus, já bípede que utilizou instrumentos mais potentes a ponto de, em grupos coordenados, caçar bovinos e até elefantes. Usou pela primeira vez  o fogo introduzindo uma verdadeira revolução cultural, passando do cru para o cozido, como foi estudado pelo antropólogo Claude Levy Strauss. Esse Homo erectus talvez tenha sido o primeiro a sair da África, migrar para a Ásia Central, chegando à Índia, à China até à Austrália. Mais tarde, com seus descendentes, o Homo sapiens chegou às Américas por volta de 20 mil  anos atrás e, assim, ocupou todo  o planeta.

Do Homo erectus, chegamos ao Homo sapiens de 100 mil anos atrás. Este introduziu, há  10 mil anos, talvez a maior revolução na história, cujas consequências perduram e se aprofundaram até os dias atuais. É a revolução do Neolítico. Os seres humanos ficaram sedentários, criaram vilas e cidades. A grande invenção foi a agricultura e a irrigação, especialmente junto aos grandes rios: Tigre, Eufrates, Nilo e Indo. 

Com a agricultura, formou-se  um superávit de meios de vida. Isso possibilitou a guerra, pois havia reservas para alimentar os soldados. Foi nesse ponto que o historiador Arnold Toynbee, em sua imensa obra  A Study of History, afirma ter surgido o fenômeno que jamais desapareceu da face da Terra: as guerras. Começou a verdadeira “abominação da desolação”, como biblicamente se descreve o nível da agressividade humana. Essa agressividade se estendeu contra a natureza, queimando e devastando vastas regiões.

Mas a sistemática violência contra outros seres humanos e a natureza ganhou dimensões nunca vistas antes com o processo de colonização e escravização de África e da América Latina, bem como de outras regiões, a partir da Europa. Milhões foram sacrificados. Só nas Américas, 61 milhões, no espaço de um século e meio. Foi o maior holocausto da história. 

Houve verdadeiros genocídios, analisados nos dias atuais, como aquele da Faixa de Gaza contra os palestinos. A inauguração da industrialização moderna, até a presente data, com as formas mais sofisticadas de dominação de pessoas e de depredação de praticamente todos os ecossistemas, utilizando a IA, propiciou o auge do uso da violência. Até criarmos o princípio de autodestruição, com todo tipo de armas letais.

Devemos reconhecer que, graças às ciências e às técnicas modernas, o bem estar humano cresceu prodigiosamente. Tornou a vida mais cômoda e mais longeva, embora grande parte da humanidade seja condenada à exclusão desses benefícios. Indubitavelmente, houve um progresso, mas não devemos nos orgulhar, pois como observou o geneticista francês, André Langaney (*1942), as algas e as borboletas desenvolveram mais o DNA que nós. Em termos de massa, os vermes da terra possuem mais do que todos nós juntos.

Não obstante este desenvolvimento, em termos morais – modos de organizar a vida – e éticos – os princípios que orientam a vida-, estamos ainda na pré-história. Acompanhou-nos sempre  a maldade, a crueldade, a mentira intencional e a falta de empatia, como se estão mostrando em nossos dias. Somos os últimos dos seres portadores de inteligência reflexa a entrar no processo da evolução. 

No derradeiro minuto, antes da meia-noite, se reduzirmos a idade do universo (13,7 bilhões de anos) ao calendário de um ano, será que ainda temos a chance de fazer predominar a bondade sobre a brutalidade, o cuidado sobre a destrutividade de nosso modo de viver? 

Um insano, como o presidente Donald Trump, ameaça usar seu poder militar para submeter todos os países, com o risco de eliminar, por uma guerra nuclear, a vida humana. Ou, por sua incontida vontade de poder letal, seria aquele que poria fim à saga humana? 

A Terra continuará a girar por milênios ao redor do sol, mas sem nós, ou apenas com os trilhões de trilhões micro-organismos no subsolo que sobreviverão. O destino está em nossas decisões, em nossas mãos. Como salvar a nós e a vida, fazendo do amor, do cuidado e da empatia os eixos estruturadores de um novo tipo de civilização? Sem isso não teremos futuro.

Um desafio: a salvaguarda da unidade da família humana

Há o risco real de que a família humana seja bifurcada, entre aqueles que se beneficiam dos avanços tecnológicos, da biotecnologia, da inteligência artificial e da nanotecnologia e dispõem de todos os meios possíveis de vida e de bem-estar, cerca de 1,6 bilhões de pessoas, podendo prolongar a vida até aos 120 anos que corresponde à idade possível das células. E a outra humanidade, os restantes mais de 5,4 bilhões, barbarizados, entregues à sua sorte, podendo viver, se tanto, até os 60-70 anos com as tecnologias convencionais num quadro perverso de pobreza, miséria e exclusão.

Esse fosso deriva do horror econômico que tomou a cena histórica sob a dominação do capital globalizado especialmente do especulativo sob a regência cruel do neoliberalismo radical. Considerando-se triunfante face ao socialismo real cuja derrocada se deu no final dos anos 80, exacerbou seus princípios como a competição,o individualismo, a privatização e a difamação de todo tipo de política e satanização do Estado, reduzido ao mínimo. Cerca de 200 megacorporações, cujo poder econômico equivale a 182 países, conduzem junto com os organismos da ordem capitalista como o FMI, o Banco Mundial e a Organização Mundial do Comércio a economia mundial sob o princípio da competição sem qualquer sentido de cooperação e de respeito ecológico da natureza. Tudo é feito mercadoria, do sexo à religião, numa volúpia de acumulação desenfreada de riquezas e serviços à custa da devastação da natureza e da precarização ilimitada dos postos de trabalho.

Há o risco real de que a família humana seja bifurcada, entre aqueles que se beneficiam dos avanços tecnológicos, da biotecnologia, da inteligência artificial e da nanotecnologia e dispõem de todos os meios possíveis de vida e de bem-estar, cerca de 1,6 bilhões de pessoas, podendo prolongar a vida até aos 120 anos que corresponde à idade possível das células. E a outra humanidade, os restantes mais de 5,4 bilhões, barbarizados, entregues à sua sorte, podendo viver, se tanto, até os 60-70 anos com as tecnologias convencionais num quadro perverso de pobreza, miséria e exclusão.

O risco consiste em que os muito ricos criem um mundo só para si, que rebaixem os direitos humanos a uma necessidade humana que deve ser atendida pelos mecanismos do mercado (portanto só tem direitos quem paga e não quem é simplesmente pessoa humana), que façam dos diferentes desiguais e dos desiguais dissemelhantes, aos quais se nega praticamente a pertença à espécie humana. São outra coisa, óleo gasto,zeros econômicos.

No Ocidente que hegemoniza o processo de globalização, a ideia de igualdade politicamente nunca triunfou. Ela ficou limitada ao discurso religioso-cristão, de conteúdo idialístico. Esse déficit de uma cultura igualitária impediria a bifurcação da família humana. Pode triunfar uma idade das trevas mundial que se abateria sobre toda a humanidade. Seria a volta da barbárie.

O desafio a ser enfrentado é fazer tudo para manter a unidade da família humana, habitando a mesma Casa Comum. Todos são Terra, filhos e filhas da Terra, para os cristãos, criados à imagem e semelhança do Criador, feitos irmãos e irmãs de Cristo e templos do Espírito. Todos têm direito de serem incluídos nesta Casa Comum e de participarem de seus dons.

Para dar corpo a este desafio precisamos de uma outra ética humanitária que implica resgatar os valores ligados à solidariedade, à empatia e à compaixão. Importa recordar que foi a solidariedade/cooperação que permitiu a nossos ancestrais, há alguns milhões de anos, darem o salto da animalidade à humanidade. Ao saírem para recoletar alimentos, não os comiam individualmente como o fazem os animais. Antes, reuniam os frutos e a caça e os levavam para o grupo de coiguais e os repartiam solidariamente entre todos. Deste gesto primordial nasceu a socialidade, a linguagem e a singularidade humana. Será hoje ainda a solidariedade irrestrita, a partir de baixo, a compaixão que se sensibiliza diante do sofrimento do outro e da Mãe Terra, que garantirão o caráter humano de nossa identidade e de nossas práticas. Foi o que vergonhosamente faltou aos grandes credores internacionais que face à tragédia do tsunami do sudeste da Ásia não perdoaram os 26 bilhões de dívidas daqueles países flagelados, Apenas protelaram por um ano, o seu pagamento.

Sem o gesto do bom samaritano que se verga sobre os caídos da estrada ou a vontade de infinita compaixão do bodhisatwa que renuncia penetrar no nirvana por amor à pessoa que sofre, ao animal quebrantado ou à árvore mirrada, dificilmente faremos frente à desumanidade cotidiana que está se naturalizando a nível brasileiro e mundial.

Na perspectiva dos astronautas, daqueles que tiveram o privilégio de ver a Terra de fora da Terra, Terra e Humanidade formam uma só entidade, complexa mas una. Ambas estão agora ameaçadas. Ambas possuem um mesmo destino comum e comparecem juntas diante do futuro. Sua salvaguarda constitui o conteúdo maior de um ancestral sonho: todos sentados à mesa, numa imensa comensalidade, desfrutando dos frutos da boa e generosa Mãe Terra.

 Se o cristianismo e os demais caminhos espirituais não ajudarem a realizar esse sonho e não levarem as pessoas a concretizá-lo, não teremos cumprido a missão que o Criador nos reservou no conjunto dos seres, que é a de sermos o anjo bom e não o Satã da Terra. Nem teremos escutado e seguido Aquele que disse: “Vim trazer vida e vida em abundância”(Jo 10,10).

Importa conscientizarmo-nos de nossa responsabilidade, sabendo que nenhuma preocupação é mais fundamental do que cuidar da única Casa Comum que temos e de alcançar que toda a família humana, superando as contradições sempre existentes, possa viver unida dentro dela com um mínimo de cuidado, de solidariedade, de irmandade, de compaixão e de reverência face ao Mistério de todas as coisa, que produzem a discreta felicidade pelo curto tempo que nos é concedido passar por esse pequeno, belo e radiante Planeta.

 Uma utopia? Sim, mas necessária se quisermos sobreviver.

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