Crítica de pastor influenciador sobre Bolsa Família espalha preconceito e desinformação
“Centenas de pessoas” que, ao receberem o Bolsa Família, “não querem trabalhar” e acabam se acomodando a uma “mentalidade de miséria” – estas palavras foram proferidas pelo pastor presbiteriano Hernandes Dias Lopes, durante participação no podcast O Que a Bíblia Diz Sobre Dinheiro. A fala do pastor no canal do influenciador financeiro Thiago Nigro, o Primo Rico, ocorreu no episódio que discute riqueza, fé e prosperidade e acendeu um debate recorrente sobre políticas de transferência de renda no Brasil. Segundo o Lopes, quando o benefício se torna visto como “bênção”, pode se transformar em “maldição”, ao gerar dependência. Para fundamentar sua visão, o pastor citou os Dez Mandamentos para defender a ideia que Deus ordena o trabalho por seis dias e o descanso em um.
A fala adiciona conteúdo a um contexto em que o programa de transferência de renda é alvo frequente de desinformação nas redes sociais, muitas vezes associadas à ideia de que o benefício desestimularia o trabalho formal. Dados recentes, no entanto, indicam um cenário mais complexo.
O primeiro programa de transferência de renda do Brasil: a história do Bolsa Família
Criado em 2003, no primeiro mandato do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, o Bolsa Família unificou iniciativas anteriores de transferência de renda implementadas no governo Fernando Henrique Cardoso, como o Bolsa Escola, o Bolsa Alimentação e o Auxílio Gás. A consolidação ocorreu por meio da Lei nº 10.836/2004, que instituiu oficialmente o programa como política pública federal voltada ao enfrentamento da pobreza e da extrema pobreza.
O Bolsa Família opera por meio de transferência direta de renda a famílias em situação de vulnerabilidade, com critérios definidos a partir da renda per capita e com exigências relacionadas à frequência escolar e ao acompanhamento de saúde. A proposta combina alívio imediato da pobreza com estímulos à permanência na escola e ao acesso a serviços básicos.

Ao longo de duas décadas, o programa passou por reformulações. Em 2021, foi substituído pelo Auxílio Brasil, durante o governo Jair Bolsonaro (PFL e PL, 2019-2022). Em 2023, retomou o nome original por meio da Lei nº 14.601/2023, mantendo a lógica de transferência condicionada e incorporando ajustes nos valores e na estrutura de benefícios.
A criação e a manutenção do programa se inserem em um contexto de desafios sociais persistentes. Em 2022, cerca de 70 milhões de brasileiros enfrentavam algum grau de insegurança alimentar, segundo relatório da Organização das Nações Unidas (ONU). No mesmo período, levantamento da FGV Social indicou que aproximadamente 29,6% da população vivia com renda domiciliar per capita de até R$ 497 mensais, o pior índice desde 2012.
Estudo da Fundação Getúlio Vargas aponta que, entre 2022 e 2024, 17,4 milhões de pessoas deixaram a pobreza e passaram a integrar as classes A, B e C, contingente equivalente à população do Equador. Segundo o pesquisador e diretor da FGV Social, Marcelo Neri, o avanço foi impulsionado principalmente pela renda do trabalho. “O ganho de renda do trabalho foi o principal motor de ascensão social da chamada classe média. A regra de proteção do Bolsa Família impulsiona a geração de carteiras de trabalho”, afirmou.
Como são os programas em outros lugares do mundo
A adoção de programas de transferência direta de renda não é uma particularidade brasileira. Entre as dez maiores economias do mundo, iniciativas voltadas à garantia de renda mínima ou ao apoio a famílias de baixa renda estão presentes, ainda que com formatos distintos. Dados da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) indicam que países desenvolvidos gastam, em média, 1,6% do Produto Interno Bruto (PIB) em benefícios condicionados à renda, percentual superior ao registrado no Brasil, onde o Bolsa Família representa cerca de 0,5% do PIB.
Na França, por exemplo, os programas de transferência de renda somam cerca de 2,1% do PIB e integram um sistema de proteção social mais amplo, que inclui auxílio-moradia, subsídios para energia e benefícios vinculados à criação de filhos. A Alemanha garante um valor mensal para necessidades básicas, além de complementos para aluguel e educação. No Reino Unido, o Crédito Universal unificou benefícios destinados a famílias de baixa renda, trabalhadores informais e desempregados.
Nos Estados Unidos, o principal programa federal é o SNAP, voltado à segurança alimentar de famílias de baixa renda, além de iniciativas como o Supplemental Security Income (SSI), destinado a idosos e pessoas com deficiência. O sistema estadunidense inclui ainda o Temporary Assistance for Needy Families (TANF), que pode exigir contrapartidas relacionadas ao trabalho.
Já no Canadá, o modelo de transferência de recursos assume formato distinto do brasileiro. A chamada Transferência Social do Canadá (Canada Social Transfer – CST) é uma das principais transferências federais para províncias e territórios e financia áreas como educação pós-secundária, assistência social e políticas para a primeira infância. Diferentemente de programas focalizados diretamente em famílias, o mecanismo canadense repassa recursos de forma per capita e quase incondicional aos governos subnacionais, que têm autonomia para definir a aplicação dos fundos.

Na Ásia, a China mantém programas como o Dibao, que assegura um nível mínimo de renda tanto em áreas urbanas quanto rurais, com valores ajustados às realidades locais. O Japão opera o Seikatsu Hogo, que calcula o benefício com base no custo de vida da família e inclui apoio para moradia e despesas médicas. A Coreia do Sul ampliou, após a crise de 1997, seu programa nacional de subsistência básica, que combina transferência de renda com assistência educacional e médica.
Fora do eixo das economias desenvolvidas, programas de transferência de renda também foram estruturados em países de baixa renda. Um deles é o Programa de Rede de Segurança Produtiva (PSNP), da Etiópia, lançado em 2005 para enfrentar a insegurança alimentar crônica. A iniciativa combina transferências em dinheiro ou alimentos com frentes de trabalho em obras públicas voltadas principalmente a famílias vulneráveis em regiões de alto risco climático. O modelo etíope prevê ainda apoio incondicional para grupos sem capacidade laboral, como gestantes, pessoas com deficiência e idosos, e integra ações de adaptação climática e fortalecimento de meios de subsistência, com o objetivo de reduzir a dependência prolongada do programa.

Na Índia, a política de transferência de renda opera em larga escala por meio do sistema de Transferência Direta de Benefícios (Direct Benefit Transfer – DBT), que reúne centenas de programas federais. Nos últimos anos, o país ampliou sobretudo as transferências incondicionais, cujo volume cresceu de forma expressiva e já representa parcela relevante do gasto social. Entre as principais iniciativas estão o PM-KISAN, que garante apoio anual a agricultores elegíveis; o National Social Assistance Programme (NSAP), que paga pensões a idosos, viúvas e pessoas com deficiência; e o Pradhan Mantri Matru Vandana Yojana (PMMVY), voltado a gestantes, com parcelas vinculadas ao acompanhamento de saúde materno-infantil.
O que dizem os dados
Estudo divulgado em dezembro de 2025 pela Escola de Economia e Finanças da Fundação Getulio Vargas (FGV EPGE) aponta que, entre o início de 2023 e outubro de 2025, o número total de beneficiários do Novo Bolsa Família diminuiu, assim como o volume total de recursos pagos. De acordo com a pesquisa, 31,25% das pessoas que estavam no programa no começo de 2023 já não recebiam o benefício em outubro de 2025. O levantamento descreve o movimento como uma “rotatividade saudável”, com mais saídas do que novas entradas no período analisado.
A análise também destaca que o programa funciona como proteção temporária em momentos de vulnerabilidade de renda, e não como política de permanência automática. Entre os beneficiários de 2014, 60,68% não estavam mais no Bolsa Família em 2025. Entre aqueles que eram adolescentes naquele ano, as taxas de saída ultrapassam 70%.
Os dados indicam ainda que a permanência no programa não impede a inserção no mercado formal. Em 2024, 13,4 milhões de beneficiários estavam empregados. No primeiro semestre de 2025, pessoas cadastradas no Bolsa Família ocuparam 58,2% das novas vagas formais criadas no país. O programa prevê uma regra de proteção que permite à família continuar recebendo parte do benefício por até dois anos após aumento da renda, mecanismo que busca evitar quedas bruscas e reduzir o receio de aceitar emprego formal.
Levantamento do IBGE mostra que o Brasil tinha, em dezembro de 2025, 103,2 milhões de pessoas ocupadas, número que inclui trabalhadores formais, informais, autônomos e servidores públicos. O dado é mais que o dobro do total de empregados com carteira assinada, frequentemente utilizado de forma isolada em comparações enganosas que circulam nas redes.
Desinformação contra o Bolsa Família
Em novembro passado, o Estadão Verifica classificou como enganosa uma postagem que comparava 48 milhões de beneficiários do Bolsa Família com 39 milhões de trabalhadores formais, sugerindo que haveria mais “dependentes” do que empregados no país. A checagem apontou que o total de beneficiários inclui crianças e adolescentes e que parte significativa dos adultos atendidos exerce atividade remunerada.
A circulação desse tipo de enquadramento foi analisada em estudo acadêmico recente publicado no Brazilian Journal of Development. No artigo, os pesquisadores Lana Krisna Morais e Heitor Costa Lima da Rocha identificam que a desinformação sobre o Bolsa Família se organiza, com frequência, em torno da ideia de “dependência permanente” e da associação entre recebimento do benefício e falta de esforço individual, como propagado pelo pastor presbiteriano Hernandes Dias Lopes.
Muitos desses discursos midiáticos não apresentam dados falsos, mas recorrem a generalizações a partir de casos isolados ou a comparações numéricas descontextualizadas, o que produz percepções distorcidas sobre o programa.
Um exemplo são os casos de fraude durante a pandemia de covid-19. Na época, órgãos de controle identificaram pagamentos indevidos do Auxílio Emergencial, administrado pelo governo de Jair Bolsonaro, a pessoas fora dos critérios. O Tribunal de Contas da União (TCU) apontou que mais de 79 mil militares das Forças Armadas receberam o benefício de forma irregular, apesar de ele ser destinado a desempregados e pessoas sem renda. À época, o ministro do TCU Bruno Dantas afirmou que não havia hipótese legal para militares da ativa, da reserva ou pensionistas figurarem como titulares do auxílio, determinando a devolução dos valores.
Os autores do estudo observam ainda que parte das postagens críticas ao programa constroem uma “moralização da pobreza”, ao atribuir ao indivíduo a responsabilidade exclusiva por sua condição socioeconômica. Essa lógica tende a desconsiderar fatores estruturais que impõem empobrecimento a cidadãos como desigualdade regional, informalidade e acesso desigual à educação.
Leitura teológica contesta ideia de “acomodação” atribuída ao Bolsa Família
Para o teólogo e pastor da Primeira Igreja Batista do Limoeiro (São Paulo) Alonso Gonçalves a afirmação de que beneficiários do Bolsa Família se acomodam e deixam de trabalhar carece de base de dados e ignora o funcionamento do programa. “Por aí já se vê a falta de informação e lisura na afirmação que o programa incentiva a preguiça, a acomodação”, contesta.
Gonçalves destaca que se trata de uma política de Estado com critérios definidos e foco prioritário em mulheres responsáveis pelo cuidado dos filhos. Segundo ele, há condicionalidades ligadas principalmente ao acompanhamento das crianças, o que afasta a ideia de incentivo à inatividade. O pastor também observa que, em 2025, mais de 2 milhões de famílias deixaram o benefício após melhora de renda, movimento que, em sua avaliação, reforça o caráter transitório da política.

No campo teológico, Gonçalves sustenta que a assistência aos mais vulneráveis encontra respaldo direto na tradição cristã. “Dar o que comer para quem tem fome é um ensinamento de Jesus”, afirma, ao citar o Evangelho de Mateus como referência ética central da fé cristã. Para ele, episódios bíblicos mostram que a ajuda imediata não é condicionada previamente à situação de trabalho de quem passa necessidade.
Ao recuperar a tradição protestante, Gonçalves afirma que iniciativas históricas de cuidado social, como práticas diaconais ligadas a Calvino, em Genebra, no século 16, e a atuação social de John Wesley, na Inglaterra, no século 18, demonstram que a assistência aos pobres sempre integrou a prática cristã. Ele também menciona a atuação de Walter Rauschenbusch, estadunidense precursor do Evangelho Social, no início do século 20, e, no Brasil, o trabalho da médica sanitarista católica Zilda Arns, nos séculos 20 e 21..
“Os evangélicos, caso seguissem sua tradição, seriam os primeiros a defender que os mais vulneráveis da sociedade tivessem auxílio e, assim, diminuir a desigualdade que fere o caráter de Deus”, afirma o pastor.
Referências:
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https://www.estadao.com.br/estadao-verifica/postagem-engana-ao-comparar-numeros-de-beneficiarios-do-bolsa-familia-e-de-empregos-formais/ Acesso em 23 FEV 2026
Portal Câmara dos Deputados
https://www2.camara.leg.br/legin/fed/lei/2004/lei-10836-9-janeiro-2004-490604-publicacaooriginal-1-pl.html Acesso em 23 FEV 2026
Portal do Governo Federal Ministério do Desenvolvimento
https://www.gov.br/mds/pt-br/noticias-e-conteudos/desenvolvimento-social/noticias-desenvolvimento-social/em-dois-anos-17-4-milhoes-de-pessoas-sairam-da-pobreza-e-ascenderam-de-classe-social Acesso em 23 FEV 2026
G1
https://g1.globo.com/mundo/noticia/2018/12/08/como-funcionam-programas-nos-moldes-do-bolsa-familia-nas-10-maiores-economias-do-mundo.ghtml Acesso em 23 FEV 2026
ONU
https://openknowledge.fao.org/handle/20.500.14283/cc3017en Acesso em 23 FEV 2026
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https://projetos.fgv.br/sites/default/files/users/user6/apresentacao_mds_04.pdf?utm_source=portal-fgv&utm_medium=fgvnoticias&utm_id=fgvnoticias-2025-12-05 Acesso em 23 FEV 2026
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https://www.canada.ca/en/department-finance/programs/federal-transfers/canada-social-transfer.html Acesso em 23 FEV 2026
Global Alliance
https://globalallianceagainsthungerandpoverty.org/pt-br/country-example/ethiopia-productive-safety-net-program-psnp/ Acesso em 23 FEV 2026
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https://thewire.in/ptiprnews/indias-unconditional-cash-transfers-grow-23x-in-a-decade-cross-inr-2-8-lakh-crore-project-deep-report Acesso em 23 FEV 2026
IBGE
https://agenciadenoticias.ibge.gov.br/agencia-noticias/2012-agencia-de-noticias/noticias/45761-desocupacao-cai-para-5-1-em-dezembro-e-2025-tem-melhores-resultados-da-serie-historica Acesso em 23 FEV 2026
Brazilian Journal of Development
https://ojs.brazilianjournals.com.br/ojs/index.php/BRJD/article/view/77603/53858 Acesso em 23 FEV 2026
TCU
https://portal.tcu.gov.br/imprensa/noticias/tcu-determina-devolucao-do-auxilio-emergencial-da-covid-19-recebido-por-militares.htm Acesso em 23 FEV 2026
