PMs invadem escola infantil em SP contra atividade sobre cultura afro-brasileira 

A Polícia Militar do estado de São Paulo entrou em uma escola municipal da capital paulista  por conta da denúncia de uma atividade proposta em sala de aula sobre cultura afro-brasileira. O caso ocorreu na Escola Municipal de Ensino Infantil (EMEI) Antônio Bento, em 12 de novembro passado, a propósito do mês da Consciência Negra.

No dia anterior, o pai de uma aluna, um policial militar, foi à escola reclamar sobre a atividade que sua filha de 4 anos havia executado em sala de aula, um desenho do orixá Iansã. Na unidade escolar, ele foi acusado por funcionários de danificar o mural com a exposição da atividade com os desenhos dos demais alunos e acusou os funcionários de praticarem “culto religioso” dentro da escola

A intervenção da PM

A reclamação do pai da estudante aconteceu no último dia 11, e foi seguida pela intervenção da Polícia Militar na unidade, no dia seguinte. Segundo relatos de testemunhas, durante a abordagem, o responsável pela aluna, que é policial, foi visto entre agentes do lado de fora da escola. 

Os homens, um deles com uma arma de grosso calibre, disseram que a criança estava sendo obrigada a ter “aula de religião africana”. 

Professores e pais de crianças relataram que a atuação dos policiais foi hostil,  uma funcionária da escola teria sido prensada contra a parede, com uma arma encostada em seu corpo, durante horário de saída escolar, o que causou medo e revolta entre pais e alunos. 

A reclamação do pai, que não teve a identidade divulgada, era que a menina estava tendo ensino sobre uma religião que não é a da família. Relatos ainda registram  que os policiais permaneceram na escola por mais de uma hora e foram embora por volta das 17h com o pai da aluna. 

Sobre a atividade escolar

Como parte de atividades em torno do mês da Consciência Negra, que valoriza expressões da cultura afro-brasileira, a tarefa era desenhar uma das orixás cultuadas em religiões de matriz africana, com base na leitura do livro “Ciranda de Aruanda”, de Liu Olivina. A obra é parte da bibliografia recomendada pela Prefeitura de São Paulo e trata de mitologia afro-brasileira. 

As atividades e a bibliografia representam o cumprimento da Lei n° 10.639, de 2003, que torna obrigatório o ensino sobre História e Cultura Afro-Brasileira nas escolas. Em 2008 esta lei foi ampliada por uma nova, a de n° 11.645/2008 que torna obrigatório o ensino de história e cultura afro-brasileira e indígena em todas as escolas de ensino fundamental e médio no Brasil, públicas e privadas. As leis foram aprovadas no Congresso Nacional para que crianças e adolescentes recebam educação sobre as raízes indígenas e negras que  formam o país e as valorizem, em busca da superação do racismo e de uma cultura antirracista.

As Diretrizes Curriculares Nacionais para a Educação das Relações Étnico-Raciais, do Ministério da Educação, reforçam que essas abordagens não configuram ensino religioso, mas conteúdos culturais e históricos obrigatórios.

Reações ao abuso de autoridade e o racismo 

O Ministério Público de São Paulo solicitou acesso às câmeras de segurança da unidade escolar, para identificar o momento em que o pai da estudante teria danificado o mural escolar. O MPSP solicitou também o acesso às câmeras corporais dos policiais do dia em que fizeram a abordagem na EMEI. 

O presidente da Comissão Parlamentar em Defesa do Estado Laico, o deputado federal Pastor Henrique Vieira (PSOL/RJ), repercutiu o caso em sua conta no Instagram e disse que a Comissão iria acionar o Ministério Público e a Corregedoria da PM.

“Em quantas escolas nós aprendemos sobre mitologia romana, mitologia grega? Daí é formação, quando se fala em cultura africana vão dizer que é doutrinação. O nome disso é racismo, o nome disso é truculência policial, o nome disso é fanatismo religioso tomando conta das forças de segurança pública”, disse o parlamentar.

Organizações como o Coletivo Educação em 1º Lugar e o Sindicato dos professores e funcionários municipais de São Paulo (APROFEM) prestaram solidariedade aos afetados e publicaram notas de repúdio, respectivamente. 

“A APROFEM condena toda forma de intimidação e qualquer tentativa de cerceamento da autonomia pedagógica. A segurança física e emocional de Educadores e estudantes não pode ser colocada em risco por motivações pessoais, preconceitos ou desconhecimento das diretrizes legais da Educação Básica.”, disse a APROFEM, em nota.

Após o ocorrido, a diretora da unidade Aline Aparecida Floriano Nogueira pediu licença médica de 30 dias. Ela alega não conseguir voltar ao trabalho por se sentir ameaçada. A educadora disse que passou cerca de 20 minutos sendo questionada pelos agentes armados após a entrada deles na unidade. “Me apresentei como diretora da unidade, perguntei se eram da ronda escolar. Informei que a escola não trabalha com doutrina religiosa. O que fazemos é trabalho centrado a partir do currículo antirracista, documento oficial da rede e apresentamos a cultura afro-brasileira para as crianças”, contou a diretora

A Secretaria Municipal de Educação de São Paulo (SME)  pediu à Ouvidoria da PMSP apuração sobre a conduta dos policiais. “A SME, por meio do Gabinete Integrado de Proteção Escolar, informa que solicitou esclarecimentos à Ouvidoria da Polícia Militar sobre a ocorrência registrada na Escola Municipal de Educação Infantil (EMEI) Antônio Bento. A pasta quer compreender os procedimentos adotados pela corporação”, diz a nota.

Em 25 de novembro, pais, professores, estudantes e representantes de sindicatos realizaram um protesto em frente à escola, com cartazes e mensagens como “Escola não é lugar de polícia”, “Mais amor e mais livros, menos violência” e “Onde houver intolerância, que haja mais educação”. Entre as organizações articuladoras estavam o Sindicato dos Profissionais em Educação no Ensino Municipal de São Paulo (Sinpeem) e o Sindicato dos Trabalhadores nas Unidades de Educação Infantil (Sedin). O ato também teve discursos pela ampliação das redes de resistência antirracistas no país e pela eliminação do machismo dentro das escolas.

Integrante do conselho da escola e mãe de uma das estudantes,  Gisele Nery acompanhou todo o episódio de perto. A conselheira relatou que os policiais ameaçaram dar voz de prisão à diretora, que é negra. Naquele instante, os conselheiros, que estavam em uma reunião, escutaram a discussão e saíram em defesa da diretora. “A polícia foi dar voz de prisão a ela. Mas aí todo mundo já tinha visto a cena, as crianças viram”. 

A Secretaria de Segurança Pública de São Paulo informou que a “Polícia Militar instaurou apuração sobre a conduta da equipe que atendeu à ocorrência, inclusive com a análise das imagens das câmeras corporais”. Segundo o órgão, a professora da unidade de ensino registrou boletim de ocorrência contra o pai da estudante “por ameaça”.

“Lamentável. Triste pela criança, e por todas as crianças que passam por isso. Revoltante a atitude desse pai e da polícia. Que arte faça seu caminho de informar, que o Ciranda transforme medo em encanto. Que as crianças de terreiro sejam sim representadas em sala de aula. Não queremos doutrinar ninguém, queremos apenas informar para termos respeito, coisa que nossa religião dificilmente teve na história desse país. Agradeço o apoio de todos! E aos educadores que seguem trabalhando esse tema em sala, parabéns!”, escreveu a autora do livro Liu Olivina, em publicação na sua conta no Instagram.

A editora também se manifestou: 

“A Quatro Cantos seguirá publicando livros de autores e ilustradores negros, continuará acreditando num futuro em que o racismo, inclusive o religioso, não faça mais parte de nossa sociedade. Para que isso aconteça, apresentar às crianças livros como o ‘Ciranda em Aruanda’, da incrível @liuolivina , é imprescindível. Estudamos na escola os mais variados povos, estudamos suas geografias, economias, agriculturas e religiões. Nunca ouvimos falar que algum pai tenha se oposto ao estudo da mitologia grega, ou ao estudo do cristianismo ou protestantismo. O preconceito é direcionado para religiões de origem africana, e isso tem nome: RACISMO RELIGIOSO. Por sorte a lei 10.639/2003 segue respaldando escolas e educadores para que essa luta continue. Axé!”, lamentou o perfil oficial da editora publicadora do livro trabalhado na rede municipal paulista. 

Pedagoga especialista  “Não houve doutrinação; houve cumprimento da lei”

Bereia ouviu a doutora em Ciência da Religião pela Universidade Federal de Juíz de Fora, Andréa Silveira de Souza. Ela é especialista na área de religião, política, educação, fundamentalismo religioso e ensino religioso, e professora da educação básica.  Para a professora, o que ocorreu foi uma distorção provocada por desconhecimento, ou por preconceito, sobre o que se ensina na escola pública.

“Não houve culto, não houve ritual, não houve prática religiosa. As crianças apenas desenharam um personagem da mitologia afro-brasileira depois de lerem um livro. Isso é ensino de cultura, não ensino de religião”, afirma.

A pesquisadora explica, ainda, que a escola é obrigada a abordar história e cultura afro-brasileira, o que inclui elementos da religiosidade dos povos africanos. “A professora estava cumprindo a Lei 10.639/2003. O que o pai interpretou como ‘doutrinação’ é, na verdade, parte do currículo. A escola não está formando fiéis; está formando cidadãos capazes de conhecer e respeitar diferentes tradições.”

De acordo com a professora, a presença armada da polícia em uma EMEI foi desproporcional e representa um ataque à autonomia pedagógica e ao ambiente seguro de aprendizagem, além de demonstrar a persistência de preconceitos e intolerância contra religiões e culturas de matriz africana. “É inadmissível que um conflito pedagógico seja tratado como caso de segurança pública. Isso só aconteceu porque o pai é policial. É um exemplo claro de abuso de poder”. 

***

O episódio na EMEI Antônio Bento, em São Paulo, de fato ocorreu e evidencia o quanto persistem no Brasil percepções equivocadas e preconceituosas acerca da cultura afro-brasileira. Percepções que, quando combinadas com poder institucional e uso de força, geram violência, intimidação e violação de direitos. Ao mesmo tempo, reafirma a importância da lei que obriga o ensino da história e cultura afro-brasileira e indígena nas escolas, como instrumento de combate ao racismo e de valorização da diversidade.

Além disso, é evidente o abuso de autoridade ocorrido por parte do pai da aluna com respaldo de colegas policiais. É imprescindível que a investigação sobre a conduta policial seja feita com transparência e que haja responsabilização, mas também é urgente que a sociedade reafirme e defenda seus direitos: escolas são território de educação, não de armas; e ensinar sobre a cultura afro-brasileira é ensinar sobre o Brasil — com toda sua diversidade histórica, cultural e religiosa.

Referências

Estadão
https://www.estadao.com.br/educacao/pms-entram-escola-infantil-sp-pai-reclamar-tarefa-religiao-matriz-africana-npr/ 

Uol
https://noticias.uol.com.br/cotidiano/ultimas-noticias/2025/11/19/escola-alvo-pm-orixa-licenca-medica.htm 

https://noticias.uol.com.br/cotidiano/ultimas-noticias/2025/11/18/mpsp-pre-apuracao-pm-escola-orixa-sp.htm

Metrópoles
https://www.metropoles.com/sao-paulo/quem-iansa-orixa-polemica-escola 

https://www.metropoles.com/sao-paulo/absurdo-autora-livro-orixa-denuncia-pm

Instagram
https://www.instagram.com/p/DRKO-4YjVIA/?img_index=1 

https://www.instagram.com/reel/DRKhNClDk5E/

https://www.facebook.com/proflucienecavalcante/videos/den%C3%BAncia-pol%C3%ADcia-militar-armada-invadiu-uma-escola-infantil-na-zona-oeste-de-s%C3%A3o/874212518365668

Planalto
https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/2003/l10.639.htm#:~:text=Nos%20estabelecimentos%20de%20ensino%20fundamental,Hist%C3%B3ria%20e%20Cultura%20Afro%2DBrasileira

http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2007-2010/2008/lei/l11645.htm 

http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/2003/l10.639.htm 

Aprofem
https://www.aprofem.com.br/nota-de-repudio-aprofem-condena-acao-policial-e-defende-a-integridade-da-comunidade-escolar-da-emei-antonio-bento 

Agência Brasil
https://agenciabrasil.ebc.com.br/direitos-humanos/noticia/2025-11/manifestantes-protestam-contra-entrada-de-pms-armados-em-escola-de-sp?utm_source=chatgpt.com 

https://agenciabrasil.ebc.com.br/direitos-humanos/noticia/2025-11/manifestantes-protestam-contra-entrada-de-pms-armados-em-escola-de-sp

http://portal.mec.gov.br/dmdocuments/rcne_relacoes_raciais.pdf 

Segregação contra crianças negras em Santa Catarina foi comprovada por vereador

O caso de crianças terem sido segregadas em salas de aula diferentes, por causa da cor da pele, no Núcleo Infantil Cebolinha, em São João Batista (SC, região metropolitana de Florianópolis), repercutiu intensamente em mídias sociais no final de fevereiro passado. O vereador mais votado da cidade Teodoro Adão (MDB) visitou a escola e produziu uma denúncia ao Ministério Público, pois afirma ter encontrado salas organizadas com crianças brancas em uma turma e crianças negras em outra. O parlamentar classificou a situação como “inadmissível” e disse que foi como “um tapa na cara”.

Na repercussão em mídias sociais de identidade religiosa, houve críticas e protestos, mas também houve negação do ocorrido. Bereia verificou o caso.

O que a visita do vereador levantou

Em vídeo produzido pelo canal TV Vip, que veicula notícias da região, o vereador Teodoro Adão descreve o que viu na escola: “Quando cheguei lá, vi todas as crianças branquinhas, de olho verde, de um lado, e os negrinhos do outro. Eu falo ‘negrinhos’ porque sou negro e não tenho vergonha da minha raça. Mas isso aí é um absurdo. “Se eu tivesse ido lá com um advogado ou com a polícia, isso viraria matéria do Fantástico, da Rede Globo! Essas coisas não podem acontecer no nosso município. Estamos no século 21! Não pode ter discriminação contra ninguém, todos devem ser respeitados”. 

Educadoras teriam dito ao vereador que a divisão já estava feita antes do início das aulas. Segundo Teodoro Adrão, uma professora afirmou que “quando chegou, já estava separado” e que “não poderia fazer nada”. Outra docente teria percebido a situação, mas evitou questionar para “não criar desgaste”. Após a denúncia, segundo o parlamentar, famílias relataram que não podiam mais entrar com as crianças na escola e precisavam deixá-las no portão com um segurança. “Isso é o que mais me dói. Tem pai me ligando dizendo que agora o filho chora e não pode mais ter a companhia do responsável nos primeiros minutos”.

O Ministério Público foi acionado para investigar o caso. A Prefeitura de São João Batista, liderada por Juliano Peixer (União Brasil) afirmou que a prática de racismo é crime inafiançável e que qualquer denúncia deverá ser apurada pelos órgãos competentes. O município garantiu estar à disposição das autoridades, porém divulgou uma nota, em 21 de fevereiro passado, pela qual afirma ter realizado “uma apuração interna dos fatos” e “não ter constatado “nenhuma evidência de que haja ou tenha ocorrido a separação de turmas por cor da pele no Núcleo Infantil Cebolinha”. A nota ainda informa que “os pais/responsáveis foram ouvidos e indagados se, de alguma forma, sentiram-se com algum direito desrespeitado ou gostariam que suas crianças trocassem de turma. Para ambos os questionamentos, as respostas foram negativas”.

São João Batista: Nova Itália, Capital do Calçado e Caminho do Louvor  

São João Batista tem 32 mil habitantes, faz parte da Grande Florianópolis e integra um percurso turístico que inclui as cidades de Brusque e Nova Trento.  A região é considerada o “berço da imigração italiana” e a cidade é hoje o que foi a Colônia Nova Itália, organizada em 1836, a mais antiga do país. Ela se tornou um pólo industrial e “Capital do Calçado”, atraindo muitos imigrantes e migrantes de outras regiões. 

São João Batista conta atualmente com 395 empresas de fabricação de calçados, que produzem em média 1 milhão e 600 mil pares de calçados por mês. O polo emprega diretamente nas linhas de produção mais de 10 mil trabalhadores.

Desde 2024 o município foi integrado a uma rota de peregrinação, romarias e turismo religioso – em uma articulação católica intermunicipal denominada “Caminho do Louvor”. Os peregrinos concentram-se no Complexo Nossa Senhora de Lourdes e do Louvor (Ituporanga/SC) e no Santuário Santa Paulina (Nova Trento/SC). 

O prefeito Juliano Peixer, que é católico, sancionou, em 19 de fevereiro de 2025, a Lei Municipal 4.333 que autoriza a inclusão de São João Batista na rota turística religiosa. 

Imagem: Juliano Peixer (União Brasil) em missa entre os atos de sua posse como Prefeito em janeiro de 2025 (Facebook)

Racismo em Santa Catarina – um problema maior?

Entre as críticas em mídias sociais, pessoas destacam que o caso de segregação nas escolas em Santa Catarina é apenas  “mais um”. Bereia constatou que o estado, de fato, tem um registro crescente de ocorrências de injúria racial e racismo, e que Ministério Público, Defensoria, Tribunal de Contas do Estado (TCE) e Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) lançaram programas para combater tal situação. 

Em evento recente, janeiro de 2025, o governador Jorginho Mello (PL), durante a abertura da 40ª edição da Festa Pomerana, em Pomerode — cidade conhecida como a mais alemã do Brasil — polemizou, ao amplificar um debate sobre racismo e supremacia branca. Ao elogiar os atrativos locais, Mello destacou a beleza turística, a arquitetura e a “cor da pele das pessoas”, afirmando que esses elementos fazem de Pomerode “um lugar especial e marcante para quem a visita”. 

Apesar de ter se desculpado, após críticas, e alegar não ter conotação racista em sua fala, a repercussão nacional revela que há um estranhamento entre os descendentes dos colonos (alemães e italianos) que insistem em celebrar “sua origem” e a mudança demográfica populacional, com a chegada de imigrantes estrangeiros e migrantes brasileiros. Segundo o IBGE, Santa Catarina é o estado que mais recebeu migrantes nos últimos dez anos.



Imagem: Tabela com dados do Ministério da Economia

Em 2024, um grupo formado por 50 pessoas representantes de diferentes organizações catarinenses com atuação na área da educação, direito, infância e antirracismo se reuniu para buscar saídas frente às diferentes formas de violência racial, no ambiente escolar, contra crianças e adolescentes. Várias organizações e instituições  (como o Ministério Público) criaram políticas e publicações educativas para o enfrentamento do racismo.

Em 2023, seis pessoas procuraram a polícia por dia, em média, para denunciar casos de injúria racial. Em 2024, 2.280 pessoas sofreram ofensas por conta da raça, cor, etnia, religião ou origem –  tais dados deram ao estado o primeiro lugar do país no ranking da violência em números absolutos. Os dados, do Anuário Brasileiro de Segurança Pública, reportam  2.280 casos de injúria racial em 2023, superando o Rio de Janeiro, a segunda unidade da federação com mais episódios, que  2.021. Em um ano, o registro do crime cresceu 51%.

Imagens: Infográfico do Fórum Brasileiro de Segurança Pública 2024

***

Bereia
verifica que é verdade que há tensões étnicas e religiosas em Santa Catarina e que o caso da separação de crianças brancas e negras em uma escola do estado, divulgado nas mídias sociais, têm farta comprovação. Como identificado, racismo e injúria racial são problemas que precisam ser enfrentados por meio de políticas públicas em Santa Catarina, especialmente no ambiente escolar. Até o fechamento desta matéria, não houve desdobramentos administrativos e judiciais do caso da cidade de São João Batista.

Referências:

Youtube TV Vip

https://www.youtube.com/watch?v=M7rhReoZCik – Acesso em 7 mar 25

Câmara Municipal de São João Batista SC

https://camarasjb.sc.gov.br/vereadores/teodoro-marcelo-adao – Acesso em 7 mar 25

Instagram Jornal O Estado Online

https://www.instagram.com/jornaloestado/reel/DGX3pTSxzwm/ – Acesso em 7 mar 25

Instagram Pretessências

https://www.instagram.com/pretessencias/p/DGV6oqsuG7X/ – Acesso em 7 mar 25

Site Vip Social

https://www.vipsocial.com.br/noticia/%E2%80%98brancos-numa-sala-negros-em-outra%E2%80%9D-nucleo-infantil-estaria-separando-criancas-pela-cor-da-pele-denuncia-vereador/50483 – Acesso em 7 mar 25

Uol

https://noticias.uol.com.br/cotidiano/ultimas-noticias/2025/02/22/tapa-na-cara-diz-vereador-sobre-suposta-separacao-de-alunos-por-cor-em-sc.htm – Acesso em 7 mar 25

Portal Geledés

https://www.geledes.org.br/apartheid-em-sc-vereador-denuncia-segregacao-racial-em-escola-publica/ – Acesso em 7 mar 25

https://www.geledes.org.br/sc-tem-alta-de-51-nos-casos-de-injuria-racial-e-lidera-denuncias-do-crime-no-pais/ – Acesso em 7 mar 25

Revista Fórum

https://revistaforum.com.br/brasil/2025/2/21/apartheid-em-sc-vereador-denuncia-segregao-racial-em-escola-publica-174536.html  – Acesso em 7 mar 25

Instagram do projeto “Caminho do Louvor”

https://www.instagram.com/caminhodolouvor/reel/C-eNP8DOQn5/ – Acesso em 7 mar 25

Site NDMais

https://ndmais.com.br/cultura/sao-joao-batista-berco-da-colonizacao-italiana-no-brasil/ – Acesso em 7 mar 25

https://ndmais.com.br/indicadores/santa-catarina-foi-o-estado-que-mais-recebeu-pessoas-de-outras-regioes-aponta-ibge/ – Acesso em 7 mar 25

https://ndmais.com.br/educacao/alunos-de-escola-de-sao-jose-denunciam-racismo-de-professora-em-atividade-de-aula/ – Acesso em 7 mar 25

Porta de Imigração – Ministério da Justiça

https://portaldeimigracao.mj.gov.br/images/dados/relatorio-anual/2020/OBMigra_RELATÓRIO_ANUAL_2020.pdf

Site O Município

https://omunicipio.com.br/entrevista-grosselli-imigracao/ – Acesso em 7 mar 25

Portal de Imigração Laboral do Ministério da Justiça e segurança Pública

https://portaldeimigracao.mj.gov.br/images/dados/relatorio-anual/2020/OBMigra_RELATÓRIO_ANUAL_2020.pdf – Acesso em 7 mar 25

Portal da Prefeitura do Município de São João Batista

https://sjbatista.sc.gov.br/nota-oficial-esclarecimento-sobre-a-denuncia-de-suposta-segregacao-racial-em-unidade-escolar/ – Acesso em 7 mar 25

D.O SC

https://www.diariomunicipal.sc.gov.br//atos/6953709 – Acesso em 10 mar 25

Portal NSC Total

https://www.nsctotal.com.br/noticias/sc-tem-maior-numero-de-registros-de-injuria-racial-do-pais – Acesso em 7 mar 25

https://www.nsctotal.com.br/noticias/denuncia-de-racismo-em-florianopolis-leva-a-pedido-de-afastamento-de-diretor-e-professora Acesso em 7 mar 25

https://www.nsctotal.com.br/noticias/policial-militar-e-investigado-apos-denuncia-de-racismo-e-agressao-contra-aluno-em-escola-de-sc – Acesso em 7 mar 25

Fórum de Segurança

https://publicacoes.forumseguranca.org.br/items/f62c4196-561d-452d-a2a8-9d33d1163af0 – Acesso em 7 mar 25

https://publicacoes.forumseguranca.org.br/handle/fbsp/259 – Acesso em 7 mar 25

https://forumseguranca.org.br/publicacoes/anuario-brasileiro-de-seguranca-publica/ – Acesso em 7 mar 25

https://fontesegura.forumseguranca.org.br/o-silencio-sobre-questoes-raciais-na-seguranca-publica/ – Acesso em 7 mar 25

Revista Exame

https://exame.com/esg/registros-de-injuria-racial-e-racismo-aumentam-na-maioria-dos-estados-brasileiros/ – Acesso em 7 mar 25

Portal Catarinas

https://catarinas.info/declaracao-de-governador-coloca-santa-catarina-no-centro-do-debate-sobre-racismo/ – Acesso em 7 mar 25

Site da Executiva Nacional de Estudantes de Pedagogia (ExNEPe)

https://exnepe.com/2025/02/28/sc-casos-crescentes-de-racismo-em-creches-e-escolas-catarinenses-devem-ser-combatidos – Acesso em 7 mar 25

Site da UFSC

https://noticias.ufsc.br/tags/politica-de-enfrentamento-ao-racismo-institucional/ – Acesso em 7 mar 25

Ministério Público de Santa Catarina

https://www.mpsc.mp.br/noticiass/necrim-intensifica-combate-aos-crimes-de-racismo-e-intolerancia-contra-populacao-mais-vulneravel-em-santa-catarina – Acesso em 7 mar 25

EBC

https://agenciabrasil.ebc.com.br/direitos-humanos/noticia/2023-07/registros-de-racismo-e-homofobia-disparam-no-pais-em-2022 – Acesso em 7 mar 25

Site do TCE/SC

http://www.tcesc.tc.br/tcesc-promove-reflexao-sobre-questoes-etnico-raciais-em-parceria-com-o-tjsc-e-o-tresc-nos-dias-28-e Acesso em 7 mar 25 

Ministério Público Federal/SC

https://www.mpf.mp.br/regiao4/sala-de-imprensa/noticias-r4/mpf-sc-recebe-relatora-especial-da-onu-para-o-racismo – Acesso em 7 mar 25

Defensoria Pública/SC

https://defensoria.sc.def.br/uploads/cartilhas/anexos/CartilhaDiaInternacionaldaLutapelaEliminacaodaDiscriminacaoRacial_62abb08acb226.pdf – Acesso em 7 mar 25

CUT/SC

https://sc.cut.org.br/noticias/caso-de-segregacao-racial-em-creche-de-sao-batista-sc-escancara-racismo-8f92 – Acesso em 7 mar 25

CNJ

www.cnj.jus.br/wp-content/uploads/2024/11/protocolo-para-julgamento-com-perspectiva-racial-2.pdf – Acesso em 7 mar 25

Perfil do Psicólogo Júlio Bittencourt

www.tiktok.com/@juliocriciuma/video/7473540492005756166 – Acesso em 7 mar 25

Site da Prefeitura de Florianópolis 

https://www.pmf.sc.gov.br/arquivos/arquivos/pdf/27_09_2019_7.20.09.e37692d403fcdcd97a84c5c7aa507172.pdf – Acesso em 7 mar 25

Nos EUA, igreja alega que Conselho negou construção de escola por perseguição religiosa

Circula em sites religiosos a notícia de que o governo estadunidense teria desaprovado um projeto de construção de uma escola privada cristã, ligada à Igreja hispânica Vida Real. O fato teria ocorrido na cidade de Somerville, em Massachusetts (EUA), e de acordo com as publicações, o impedimento para a abertura do colégio teve como base perseguição religiosa e étnico-racial. Ainda segundo a informação em circulação, o motivo do veto se deu por conta das crenças da igreja em relação a assuntos como ciência, sexualidade e saúde mental.

Os Estados Unidos proíbem escolas religiosas?

Nos Estados Unidos, escolas privadas podem, sim, ter ligações com instituições religiosas. A regulação e secularização do ensino se detêm apenas ao ensino público. O programa educacional público prevê autonomia para que cada estado possa construir sua base comum curricular, desde que siga os princípios legais estabelecidos pela Constituição estadunidense. Dentre eles, encontra-se a Primeira Emenda, que trata da separação entre Estado e religião:

 O Congresso não legislará no sentido de estabelecer uma religião, ou proibindo o livre exercício dos cultos; ou cerceando a liberdade de palavra, ou de imprensa, ou o direito do povo de se reunir pacificamente, e de dirigir ao Governo petições para a reparação de seus agravos. [p.07]

Seguindo essa Emenda, o Estado não deve intervir diretamente sobre o estabelecimento, ou mesmo proibição, do exercício religioso. Assim, o governo fica impedido de determinar uma religião oficial ou realizar interferências nas religiões, desde que sejam “privadas”. Em 1940 a Suprema Corte norte-americana decretou que não apenas o Governo Federal, como os estaduais e municipais devem acatar a decisão de um ensino público secularizado. De acordo com a decisão, o texto bíblico poderia continuar sendo lido nas escolas, se feito dentro de motivações seculares, sem o propósito de evangelizar: Defende-se que o objetivo primário de uma instituição deve ser aquele que não promova nem inibe a religião, e não devendo promover “envolvimento excessivo do governo com a religião”.

Contudo, escolas privadas se encontram fora das regularidades da primeira emenda, por se tratarem de instituições privadas. Elas podem, mesmo hoje, ter relações com instituições religiosas. Exige-se, no entanto, que o plano educacional da escola seja submetido e aprovado por órgãos educacionais regionais, a fim de manter a qualidade do ensino. Como resultado de pesquisa associada ao Pew Research Center, o pesquisador Gregory A. Smith, em seu livro  “Fé + Liberdade: religião nos EUA,  aponta que:

As escolas públicas formavam um número cada vez maior de jovens americanos, mas os cidadãos continuavam livres para enviar seus filhos — normalmente os meninos — para escolas dirigidas por denominações religiosas. Os católicos frequentemente construíam escolas paroquiais. Outras religiões seguiram o exemplo, fundando escolas que refletiam seus valores. Hoje, muitas congregações oferecem instrução religiosa suplementar para os alunos que frequentam a escola pública. As igrejas oferecem “escola dominical” ou aulas de catecismo. As mesquitas e as sinagogas oferecem oportunidades semelhantes para os americanos muçulmanos e judeus. Várias universidades americanas respeitadas começaram como faculdades religiosas. Entre as mais antigas está a Universidade de Princeton, fundada em 1746.  [p.38]

A decisão do Supremo Tribunal, 1940, se dirige majoritariamente para as escolas públicas. Ainda de acordo com o livro “Fé + Liberdade: religião nos EUA”, instituições de educação particulares podem exercer sua liberdade religiosa desde que respeitem os princípios constitucionais, como a defesa da liberdade de expressão individual e o direito ao culto e ao credo. Isto é, “Os alunos, no entanto, podem orar voluntariamente, sozinhos ou em grupos, desde que não obriguem outros a participar da oração e que não perturbem a escola” [p.39].

Escola cristã teve autorização negada

No último 30 de março, o Conselho Escolar de Somerville, Massachusetts, recusou que a Igreja Real Life International (Vida Real), formada majoritariamente por imigrantes e descendentes hispânicos, abrisse uma escola particular na cidade, com o nome de Real Life Learning Center (RLLC). Em carta aberta, publicada pela RLLC, a Igreja aponta que:

Apesar do desejo expresso da Vida Real de abrir o RLLC o mais rápido possível, o Comitê repetidamente impediu os esforços da Vida Real de fornecer educação religiosa privada para sua comunidade há mais de cinco meses. Ainda mais preocupante, o Comitê expressou hostilidade em relação às crenças religiosas de Vida Real, e vários membros do Comitê afirmaram que o desejo do RLLC de criar um currículo consistente com suas crenças religiosas é motivo para negar sua inscrição em escolas particulares.[p.02]

De acordo com o documento, os motivos para a não concessão do direito ao exercício educacional se deu graças à visão religiosa da escola, sua relação com as ciências e a psiquê humana. 

No entanto, segundo o pronunciamento municipal, a recusa se deu devido aos seguintes fatores:

Não há acomodações para alunos matriculados em educação especial, ou alunos não apresentem progresso acadêmico/cognitivo. Não há detalhes sobre avaliações ou como a escola usará avaliações para melhorar os resultados dos alunos. Não há detalhes sobre as formas como os funcionários serão apoiados. Não está claro como o processo de inscrição será resultar em um conjunto diversificado de candidatos. Não está claro se as instalações são adequadas para alunos mais jovens, e não está claro como são as instalações quando os alunos estão lá. A posição da escola sobre a homossexualidade e o criacionismo torna difícil ver como um currículo completo de ciências e saúde é possível. A abordagem da escola para serviços e aconselhamento estudantil parece desvalorizar a psicologia baseada em evidências e sua ênfase em abordagens enraizadas na crença de que a doença mental é causada pelo pecado e pelos demônios é não científico e nocivo. A escola não apresentou provas relacionadas com a segurança da planta física e solvência financeira. No geral, a escola foi totalmente contrária aos valores da SPS e à ideia de educar toda a criança como sendo inclusiva. [tradução livre, p. 03 e 04]

A decisão do Conselho de negar a criação da instituição de ensino se deu, portanto, com base na problemática relação que a instituição religiosa tem com questões ligadas aos direitos humanos, como destaca a carta, em questões como saúde mental, sexualidade e acessibilidade. Pode-se compreender que tal recusa alinha-se aos Direitos Humanos universais, sobre a preservação da qualidade de vida dos possíveis alunos matriculados.

1. Todo ser humano tem capacidade para gozar os direitos e as liberdades estabelecidos nesta Declaração, sem distinção de qualquer espécie, seja de raça, cor, sexo, língua, religião, opinião política ou de outra natureza, origem nacional ou social, riqueza, nascimento, ou qualquer outra condição. 2. Não será também feita nenhuma distinção fundada na condição política, jurídica ou internacional do país ou território a que pertença uma pessoa, quer se trate de um território independente, sob tutela, sem governo próprio, quer sujeito a qualquer outra limitação de soberania.

Bereia classifica a informação como enganosa. A notícia insinua que a decisão do  Conselho Educacional se deve a perseguição religiosa, quando, na verdade, como exposto na própria carta publicada pela RLLC, a escola a ser construída teria seus processos pedagógico e metodológico norteados por uma visão religiosa, sob a negação princípios seculares previstos na Constituição dos Estados Unidos. Cai-se aqui em uma questão pertinente, isto porque o Estado não deve, de acordo com a Constituição, interferir na questão do ethos religioso de uma comunidade. Porém, em igual medida, não pode autorizar uma instituição educacional que se oponha aos direitos universais da vida e integridade humana.  

Bereia alerta leitores e leitoras para o uso de material enganoso, no Brasil, com o tema de “perseguição a cristãos”, com o objetivo de criar pânico moral com o público religioso. Este recurso que vem sendo utilizado em campanhas eleitorais no país, como já demonstrado em outras matérias aqui publicadas.

****

Referências de checagem:

U.S. Senate: Constitution of the United States. https://www.senate.gov/civics/constitution_item/constitution.htm. Acesso em: 08 abr 2022.

Universidade Estadual de Londrina – tradução da Constituição dos EUA. http://www.uel.br/pessoal/jneto/gradua/historia/recdida/ConstituicaoEUARecDidaPESSOALJNETO.pdf. Acesso em: 08 abr 2022.

BBC. https://www.bbc.com/portuguese/geral-48336499. Acesso em: 4 abr 2022.

Novos Alunos. https://novosalunos.com.br/entenda-como-funciona-a-grade-curricular-americana-no-ensino-bilingue/ Acesso em: 4 abr 2022.

First liberty.

https://firstliberty.org/wp-content/uploads/2022/03/Somerville-School-Board-Demand-Letter_Redacted.pdf Acesso em: 4 abr 2022.

https://firstliberty.org/. Acesso em: 4 abr 2022.

Oyez. https://www.oyez.org/cases/1970/89#:~:text=The%20statute%20must%20have%20a,secular%20legislative%20purposes%20because%20they. Acesso em: 4 abr 2022.

Pew Research Center. https://www.pewresearch.org/about/  Acesso em: 4 abr 2022.

Livro: Fé+ Liberdade: religião nos Estados Unidos. https://share.america.gov/wp-content/uploads/2020/01/Faith-Freedom_Religion-in-the-USA_Portuguese-Lo-Res.pdf. Acesso em: 4 abr 2022.

Gestão Escolar. https://gestaoescolar.org.br/conteudo/728/as-leis-brasileiras-e-o-ensino-religioso-na-escola-publica. Acesso em: 4 abr 2022.

UNICEF. https://www.unicef.org/brazil/declaracao-universal-dos-direitos-humanos Acesso em: 4 abr 2022.

Igreja Vida Real. https://vidareal.net/ Acesso em: 4 abr 2022.

Senado Federal. https://www2.senado.leg.br/bdsf/bitstream/handle/id/181796/000433550.pdf?sequence=1&isAllowed=y Acesso em: 4 abr 2022.

Foto de capa: El País

Apoie o Bereia!

Faça parte da comunidade que apoia o jornalismo independente