Deputados que propõem obstáculos à redução da jornada de trabalho no Brasil têm identidade católica e evangélica

A alteração apresentada por um grupo de 176 deputados, em 14 de maio, da Proposta de Emenda Constitucional que propõe a redução da escala de trabalho 6 x 1 no Brasil,  foi recebida sob muitas críticas nas redes digitais. A  alteração prevê a redução da jornada de trabalho para 40 horas semanais apenas a partir de 2036, com período de transição de dez anos. Além disso, o texto também autoriza, mediante acordos sindicais, a ampliação da carga horária em até 30%, o que permitiria jornadas de até 52 horas semanais, além de condicionar a mudança ao cumprimento de metas de produtividade ainda não detalhadas. Diante do impacto e das reações em torno da proposta, o Bereia realizou um levantamento da identidade religiosa dos deputados que assinaram, em apoio,  a emenda apresentada.

O que propõe a controvertida emenda à PEC que reduz a escala 6×1

A emenda para a PEC que reduz a escala de trabalho 6 x 1, em discussão na Câmara Federal, foi apresentada pelo deputado católico Sérgio Turra (PP-RS). O texto propõe uma transição de dez anos para a redução da jornada de trabalho no Brasil para 40 horas semanais, mas autoriza uma carga maior, de 52 horas. Esta é a proposta  assinada por 176 deputados federais. O grupo, com parlamentares vinculados a partidos de direita, centro-direita e centro, representa cerca de 34% da Câmara dos Deputados. Entre as siglas dos parlamentares que apoiaram a proposta estão Cidadania, MDB, Novo, PDT, PL, Podemos, PP, PSD, PSDB, Republicanos, Solidariedade e União Brasil. 

A medida prevê que a nova jornada só entre em vigor em 2036 e condiciona a implementação ao cumprimento de metas de produtividade por parte dos setores empresariais, critérios que ainda não foram detalhados no projeto.

Além de adiar a redução da carga horária, a emenda permite que acordos e convenções coletivas ampliem em até 30% o limite das 40 horas semanais. Na prática, a proposta autoriza jornadas de até 52 horas por semana, e ultrapassa o teto atual de 44 horas previsto na legislação trabalhista brasileira. O texto também estabelece que atividades consideradas essenciais poderão manter a jornada atual, sem alteração, para “evitar riscos à segurança e ao bem-estar social”.

Outro ponto previsto na emenda é a ampliação da prevalência de acordos coletivos sobre a legislação trabalhista em temas como banco de horas, escalas de revezamento e intervalos. O projeto ainda propõe outros benefícios a  empresas diante do novo regime, na forma de incentivos fiscais. Entre eles estão a redução da contribuição patronal ao Fundo de Garantia do Tempo de Serviço (FGTS), de 8% para 4% sobre o salário do trabalhador e a isenção temporária da contribuição patronal ao Instituto Nacional do Seguro Social (INSS) para novas contratações após a redução da jornada. A proposta também prevê o uso de recursos do Fundo de Amparo ao Trabalhador (FAT) para auxiliar empresas durante a transição

A  identidade religiosa dos deputados que assinaram a emenda controversa  

Bereia levantou a identidade religiosa dos deputados federais que assinaram a alteração do texto da  PEC que reduz a escala 6×1. O Bereia tomou por base os dados abertos do Instituto de Estudos da Religião (ISER), dispostos na Plataforma Religião e Poder.

São Paulo (SP)

Nome                           PartidoIdentidade religiosa
Pastor Marco FelicianoPLEvangélica(Assembleia de Deus)
Paulo BilynskyjPLCatólica
Major José Olimpio            PLEvangélica (Igreja Mundial do Poder de Deus)
Vinicius CarvalhoPLEvangélica(Universal do Reino de Deus)
Mário FriasPLCristã sem denominação
Rosângela MoroUnião BrasilCatólica
Jefferson CamposPLEvangélica(Evangelho Quadrangular)
Luiz Philippe de Orleans e BragançaPLCatólico
Adilson BarrosoPLEvangélica (Assembleia de Deus)
Adriana VenturaNovoCristã
Ricardo SallesNovoCatólica
Renata AbreuPodemosCatólica
Simone MarquettoPPCatólica
Mauricio NevesPPCatólica
Vitor LippiPSDCatólica
Celso RussomannoRepublicanosCatólica
Arnaldo JardimCidadaniaCatólica
Baleia RossiMDBCatólica
MarangoniPodemosCatólica

Minas Gerais (MG)

NomePartidoIdentidade religiosa
Nikolas FerreiraPLEvangélica (Comunidade Evangélica Graça e Paz)
Zé VitorPLCatólica
Greyce EliasPLEvangélica (Comunidade Evangélica Sara Nossa Terra)
Lafayette de AndradaPLCatólica
Domingos SávioPLCatólica
Junio AmaralPLCristão sem denominação
Rosângela ReisPLEvangélica
(Igreja não identificada)
Marcelo Álvaro AntônioPLEvangélica (Igreja Maranata)
Lincoln PortelaPLEvangélica (Igreja Batista Solidária)
Ana Paula LeãoPPCatólica
PinheirinhoPPCatólico
Gilberto AbramoRepublicanosEvangélica ( Universal do Reino de Deus)
Luiz Fernando FariaUnião BrasilCatólica
Zé SilvaUnião BrasilCatólica
Newton Cardoso JrMDBCatólica
Hercílio Coelho DinizMDBCatólica
Mário HeringerPDTCatólica
Diego AndradePSDCatólica
Maurício do VôleiPLCristã sem denominação
Rafael SimõesUnião BrasilNão identificada

Rio de Janeiro (RJ)

NomePartidoIdentidade religiosa
Sóstenes CavalcantePLEvangélica(Assembleia de Deus Vitória em Cristo)
Chris ToniettoPLCatólica
Carlos JordyPLEvangélica(Igreja não identificada)
Dr. Flávio                  PLNão identificada
Julio LopesPPCatólica
BebetoPPEvangélica (Igreja Assembleia de Deus )
Doutor LuizinhoPPCatólica
Jorge BrazRepublicanosEvangélica (Universal do Reino de Deus)
Daniela do WaguinhoRepublicanosEvangélica (Igreja de Nova Vida)
Murillo GouveaPSDBCatólica
Luciano VieiraPSDBNão identificada
Hugo LealPSDCatólica
Luiz LimaNovoCatólica
Max LemosPDTNão identificada

Espírito Santo (ES)

Nome        PartidoIdentidade religiosa
Da VitoriaPPCatólica
Amaro NetoPPEvangélica(Igreja não identificada)
Evair Vieira de MeloRepublicanosCatólica
Messias DonatoUnião BrasilEvangélica (Evangelho Quadrangular)

Rio Grande do Sul (RS)

NomePartidoIdentidade religiosa
Mauricio MarconPLCatólica
Sanderson                 PLCatólica
Bibo NunesPLCristã sem denominação
Giovani CheriniPLEspírita
Marcelo MoraesPLEvangélica (Igreja Batista)
Osmar TerraPLCatólica
Sérgio TurraPPCatólica
Afonso HammPPNão identificada
Any OrtizPPCatólica
Pedro WestphalenPPCatólica
Marcel van HattemNovoEvangélico (Igreja Evangélica Luterana do Brasil)
Luiz Carlos BusatoUnião BrasilNão identificada
Franciane BayerRepublicanosEvangélica(Internacional da Graça de Deus)
Lucas RedeckerPSDEvangélica(Igreja Evangélica de Confissão Luterana do Brasil)
Alceu MoreiraMDBCatólica

Santa Catarina (SC)

Nome                           PartidoIdentidade religiosa
Daniela ReinehrPLCristã sem denominação
Caroline de ToniPLCatólica
Daniel FreitasPLCatólica
Julia ZanattaPLCatólica
Zé TrovãoPLNão identificada
IsmaelPLEvangélica(Assembleia de Deus)
Ricardo GuidiPLCatólica
CobalchiniMDBCatólica
PezentiMDBCatólica
Carlos ChiodiniMDBCatólica
Jorge GoettenRepublicanosCatólica
Geovania de SáRepublicanosEvangélica
(Assembleia de Deus)
Fabio SchiochetUnião BrasilCatólica
Gilson MarquesNovoNão identificada

Paraná (PR)

Nome      PartidoIdentidade religiosa
Tião MedeirosPPCatólica
Toninho WandscheerPPEvangélica (Assembleia de Deus)
PadovaniPPCatólica
Dilceu SperaficoPPCatólica
Luisa CanzianiUnião BrasilCatólica
Geraldo MendesUnião BrasilCatólica
Paulo LitroUnião BrasilNão identificada
VermelhoPLCatólica
Sargento FahurPLCatólica
Luiz NishimoriPSDNão identificada
Felipe FrancischiniPodemosEvangélica (Assembleia de Deus)
Beto RichaPSDBCatólica
Pedro LupionRepublicanosNão identificada
Sergio SouzaMDBNão identificada

Goiás (GO)

NomePartidoIdentidade religiosa
Gustavo GayerPLCatólica
Magda MofattoPL           Católica
Daniel AgrobomPSDEvangélica (Mundial do Poder de Deus)
Dr. Ismael AlexandrinoPSDCatólica
José NeltoUnião BrasilCatólica
Marussa BoldrinRepublicanosCatólica
Adriano do BaldyPPCatólico
Glaustin da FokusPodemosEvangélico (Assembleia de Deus)
Dr. Zacharias CalilMDBCatólica
Célio SilveiraMDBCatólica

Mato Grosso (MT)

Nome      PartidoIdentidade religiosa
Rodrigo da ZaeliPLCatólica
José MedeirosPLEvangélica (Igreja Presbiteriana do Brasil)
Coronel FernandaPLEvangélica (Assembleia de Deus)
Nelson BarbudoPodemosCatólica
Juarez CostaRepublicanosEvangélica(Igreja não identificada
Fabio GarciaUNIÃOEvangélica(Igreja não identifiada)

Mato Grosso do Sul (MS)

NomePartidoIdentidade religiosa
Marcos PollonPLCatólica
Rodolfo NogueiraPLEvangélica(Igreja não identificada)
Dr. Luiz OvandoPPEvangélica (Igreja Batista Kairós)
Beto PereiraRepublicanosCatólica

Distrito Federal (DF)

NomePartidoIdentidade religiosa
Alberto FragaPLCatólica
Bia KicisPLCatólica

Bahia (BA)

NomePartidoIdentidade religiosa
Capitão AldenPLEvangélica(Igreja não identificada)
Roberta RomaPLCatólica
João Carlos BacelarPLCatólica
Arthur Oliveira MaiaUnião BrasilCatólica
José RochaUnião BrasilCatólica
Paulo AziUnião BrasilCatólica
Diego CoronelRepublicanosCatólica
Claudio CajadoPPCatólica

Ceará (CE)

Nome                           PartidoIdentidade religiosa
Dr. JazielPLEvangélica(Assembleia de Deus)
AJ AlbuquerquePPNão identificada
Danilo FortePPCatólica
Fernanda PessoaPSDCatólica
Luiz GastãoPSDCatólica
Eunício OliveiraMDBCatólica

Pernambuco (PE)

NomePartidoIdentidade religiosa
Pastor EuricoPSDBEvangélica(Assembleia de Deus)
Clarissa TércioPPEvangélica(Assembleia de Deus)
Coronel MeiraPLCatólica
Fernando Coelho FilhoUnião Católica
Augusto CoutinhoRepublicanosCatólica

Maranhão (MA)

Nome                           PartidoIdentidade religiosa
Josivaldo JpUnião BrasilEvangélica (Igreja Assembleia de Deus )
Aluisio MendesRepublicanosCatólica
Márcio HonaiserSolidariedadeCatólica
Hildo RochaMDBNão identificada

Piauí (PI)

Nome                           PartidoIdentidade religiosa
Átila LiraPPCatólica
Julio ArcoverdePPCatólica

Alagoas (AL)

NomePartidoIdentidade religiosa
Delegado Fábio CostaPPEvangélica(Não identificada)

Rio Grande do Norte (RN)

NomePartidoIdentidade religiosa
General GirãoPLCatólica
Sargento GonçalvesPLEvangélica (Igreja Batista)
João MaiaPPCatólica

Sergipe (SE)

NomePartidoIdentidade religiosa
Rodrigo ValadaresPLEvangélica(Igreja Sara Nossa Terra )
Gustinho RibeiroPPCatólica

Paraíba (PB)

NomePartidoIdentidade religiosa
Cabo Gilberto SilvaPLCatólica

Acre (AC)

NomePartidoIdentidade religiosa
Meire SerafimUnião BrasilCatólica
Coronel UlyssesUnião BrasilEvangélica (Comunidade Batista Vida)
Zezinho BarbaryPPCatólico
Zé AdrianoPPNão identificada
Roberto DuarteRepublicanosNão identificada

Rondônia (RO)

NomePartidoIdentidade religiosa
Lucio MosquiniPLEvangélica (Igreja Batista)
Coronel ChrisóstomoPLEvangélica (Assembleia de Deus)
Dr. Fernando MáximoPLEvangélica(Igreja não identificada)
Thiago FloresUnião BrasilNão identificada
Rafael FeraPODENão identificada

Tocantins (TO)

NomePartidoIdentidade religiosa
Alexandre GuimarãesMDBCristã sem denominação
Eli BorgesRepublicanosEvangélica(Assembleia de Deus)
Antonio AndradePSDBCatólica
Filipe MartinsPLEvangélica(Igreja Presbiteriana do Brasil)

Pará (PA)

Nome                           PartidoIdentidade religiosa
Joaquim PassarinhoPLCatólica
Henderson PintoUnião BrasilCatólica

Roraima (RR)

NomePartidoIdentidade religiosa
Pastor DinizUnião BrasilEvangélica (Assembleia de Deus)
NicolettiPLCristã sem denominação

Amazonas (AM)

NomePartidoIdentidade religiosa
Fausto Jr.União BrasilEvangélica(Não identificada)

Amapá (AP)

NomePartidoIdentidade religiosa
Aline GurgelUnião BrasilNão identificada

O que é a PEC da escala 6×1

A Constituição da República (artigo 7º, inciso XIII), estabelece, entre os direitos dos trabalhadores e trabalhadoras, que a duração da carga de trabalho “não deve ser superior a oito horas diárias e 44 semanais, facultada a compensação de horários e a redução da jornada, mediante acordo ou convenção coletiva de trabalho”. 

Na Consolidação das Leis do Trabalho (CLT), em vigor desde 1943, a regra é tratada na Seção II, artigos 58 a 65. Naquela época, o modelo familiar tradicional e a dinâmica do mercado permitiam que o domingo fosse o dia de folga padrão. Contudo, apesar da expansão dos setores da indústria, do comércio e dos serviços, mais de 80 anos depois, a escala de seis dias de trabalho diretos com apenas um de folga permanece mantida como protocolo padrão.  

Algumas poucas categorias de trabalhadores cumprem jornada diferenciada por terem regulamentação própria. É o caso de bancários (seis horas diárias ou 30 horas semanais), jornalistas (cinco horas diárias ou 30 horas semanais), médicos (quatro horas diárias), aeronautas (devido ao tipo de atividade, a jornada pode chegar a 20 horas), radiologistas (24 horas semanais) e advogados (quatro horas diárias ou 20 horas semanais).

A origem das propostas legislativas recentes para redução do formato mais comum de carga de trabalho está na Proposta de Emenda à Constituição (PEC) 221, de 2019. De autoria do deputado federal católico Reginaldo Lopes (PT-MG) a  proposta prevê a redução gradual da jornada semanal de trabalho das atuais 44 horas para 36 horas, sem redução salarial, além da ampliação do período de descanso dos trabalhadores. Sem ser tratada com prioridade na Câmara Federal desde então, a pauta ganhou força em 2023, quando o  movimento VAT (Vida Além do Trabalho), pela redução da escala 6×1, foi popularizada nas mídias sociais. Liderado pelo influenciador e atual vereador da cidade do Rio de Janeiro Rick Azevedo (PSOL), o movimento se baseia no argumento de que a jornada de seis dias seguidos é exaustiva, compromete a saúde física e mental, resultando em baixa produtividade, e deixa pouco tempo para o trabalhador descansar, cuidar da família e buscar qualificação.  

A partir das articulações do movimento VAT e da popularização da pauta nas mídias sociais e nas ruas, a deputada federal de identidade religiosa não identificada Érica Hilton (PSOL-SP) apresentou uma nova PEC, a de nº  8/2025, para redução da carga horária semanal e a imposição de limites ao modelo 6×1. Apesar da resistência da mesa diretora da Câmara, sob a liderança de Hugo Motta (Republicanos-PB) de pautar a proposta, o amplo apoio popular e uma pressão do governo federal, somados à atmosfera do ano eleitoral, levaram a um novo impulso à proposta em 2026.   

No final de abril foi instalada uma  comissão especial na Câmara dos Deputados para analisar o mérito das propostas de Reginaldo Lopes, de 2019, e de Erika Hilton, de 2025. além de outras proposições apensadas. A comissão é presidida pelo deputado de vinculação religiosa não identificada Alencar Santana (PT-SP) e tem como relator o deputado católico Leo Prates (PDT-BA). 

De acordo com o relator, o parecer deverá estabelecer uma transição gradual da jornada semanal de 44 para 40 horas, com adoção da escala 5×2 e prazo estimado entre dois e cinco anos para implementação. Durante esse período de adaptação, trabalhadores e trabalhadoras poderão cumprir jornadas de até dez horas diárias, desde que tenham ao menos oito folgas mensais, sendo uma delas preferencialmente aos domingos. O movimento VAT, a deputada Érika Hilton e o governo federal defendem a implementação imediata da redução da jornada. Da parte do governo, há diálogo em torno da negociação de um modelo de transição para viabilizar consenso no Congresso Nacional. 

A comissão especial estabeleceu um cronograma para concluir a tramitação ainda em maio de 2026. A previsão é de apresentação do relatório final no dia 25 de maio e votação em plenário a partir de 27 de maio. O debate tem mobilizado setores empresariais, sindicatos e movimentos sociais. 

Foi no contexto da instalação da comissão e da avaliação na casa legislativa de que a aprovação da PEC será inevitável que foi apresentada a proposta de emenda assinada pelos 176 deputados para a transição de dez anos.

***

Em um período eleitoral em que a religião e a fé são amplamente acionados em campanhas, Bereia chama a atenção de leitores e leitoras para estarem atentos à atuação dos políticos que se lançam de sua identidade religiosa em sua atividade parlamentar. O levantamento do Bereia evidencia que o apoio à emenda da PEC da escala 6×1 reúne uma presença significativa de parlamentares com identidade religiosa declarada, especialmente vinculados aos segmentos católico e evangélico. 

Tal retrato da atuação destes políticos demonstra como os interesses econômico-financeiros predominantes no país orientam a atuação de parlamentares autoidentificados como conservadores, em especial os que instrumentalizam a religião em seus discursos. Isto se explicita na discussão de pautas que envolvem direitos trabalhistas e relações de trabalho no Congresso Nacional.

 Referências:

Proposta de emenda à constituição nº 221, de 2019. https://static.poder360.com.br/2026/05/emenda-6-x-1-deputados.pdf. Acesso em 21 de maio de 2026.

Poder 360. https://www.poder360.com.br/poder-congresso/saiba-quem-assinou-a-proposta-que-amplia-jornada-para-52h-semanais/.  Acesso em 21 de maio de 2026.

Brasil de fato. https://www.brasildefato.com.br/2026/05/20/deputados-do-df-apoiam-emenda-que-adia-fim-da-escala-6×1-e-amplia-jornada-para-ate-52-horas/.  Acesso em 21 de maio de 2026.

PEC 8/2025. https://www.camara.leg.br/proposicoesWeb/fichadetramitacao?idProposicao=2485341.  Acesso em 21 de maio de 2026.

Uol.. https://economia.uol.com.br/noticias/redacao/2026/04/28/relator-6×1.ghtm?utm_source. Acesso em 21 de maio de 2026.

Câmara dos deputados. https://www.camara.leg.br/tv/bora-entender/1251476-bora-entender-fim-da-escala-6×1/. Acesso em 21 de maio de 2026.

Câmara dos deputados. https://www.camara.leg.br/noticias/1267523-comissao-especial-que-vai-analisar-o-fim-da-escala?utm_source. Acesso em 21 de maio de 2026.

Câmara dos deputados. https://www.camara.leg.br/noticias/1136412-pec-preve-a-adocao-da-jornada-de-quatro-dias-de-trabalho-para-todos-os-trabalhadores-brasileiros. Acesso em 21 de maio de 2026.

Câmara dos deputados. https://www.camara.leg.br/noticias/632530-pec-reduz-jornada-semanal-de-trabalho-de-44-para-36-horas. Acesso em 21 de maio de 2026.

Câmara dos deputados. https://www.camara.leg.br/internet/deputado/frenteDetalhe.asp?id=54326. Acesso em 21 de maio de 2026.

Câmara dos deputados. https://www.camara.leg.br/deputados/frentes-parlamentares/57/54477/membros. Acesso em 21 de maio de 2026.

Câmara dos deputados. https://www.camara.leg.br/deputados/frentes-parlamentares/57/54326/membros. Acesso em 22 de maio de 2026.

G1. https://g1.globo.com/politica/noticia/2026/05/19/fim-da-escala-6×1-relatorio-deve-ser-apresentado-na-proxima-segunda-transicao-ainda-precisa-ser-acertada.ghtml. Acesso em 21 de maio de 2026.

Religião e Poder. https://religiaoepoder.org.br/artigo/religiao-como-forma-de-protecao-da-cultura-manifestacoes-culturais-e-artisticas-como-campo-de-disputa. Acesso em 21 de maio de 2026.

CPAD News. https://www.cpadnews.com.br/evangelico-assume-a-vaga-de-carla-zambelli-na-camara/. Acesso em 21 de maio de 2026.

Bancos de dados ISER. https://docs.google.com/spreadsheets/d/1PHKg_hQ5imp81SYcyVevSCdH3PNj1u30SMpEiYOk1y8/edit?gid=529573698#gid=529573698. Acesso em 21 de maio de 2026.

Instagram. https://www.instagram.com/p/DYiVW5NGKiQ/?img_index=20. Acesso em 21 de maio de 2026.

Constituição da República. http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/Constituicao/ConstituicaoCompilado.htm. Acesso em 24 de maio de 2026.

CONSOLIDAÇÃO DAS LEIS DO TRABALHO. http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/decreto-lei/Del5452.htm. Acesso em 24 de maio de 2026.Infomoney. https://www.infomoney.com.br/politica/hugo-motta-sobre-pec-que-acaba-com-escala-de-trabalho-6×1-me-preocupa-muito/. Acesso em 24 de maio de 2026.

Imagem de capa: Letycia Bond/Agência Brasil

Jornada 6×1: Entenda por que o deputado bispo da Igreja Universal desqualifica direito à redução

“Ócio demais faz mal” – esta frase que viralizou nas mídias sociais foi pronunciada pelo bispo da Igreja Universal do Reino de Deus (IURD), presidente do partido Republicanos e deputado federal Marcos Pereira. Em entrevista publicada pela Folha de S. Paulo, em 26 de fevereiro passado, Marcos Pereira criticou a proposta de emenda à Constituição que prevê o fim da jornada de trabalho 6×1. Além de descartar o direito de trabalhadores a mais tempo de descanso, o bispo deputado sugeriu que trabalhadores de baixa renda não saberiam aproveitar um dia adicional livre. 

Como a Folha de S. Paulo omitiu na publicação que  Marcos Pereira é bispo licenciado da IURD   e que preside um partido historicamente ocupado pela igreja, Bereia oferece conteúdo mais completo sobre o caso.  Estas informações são  relevantes para a compreensão dos fundamentos morais e teológicos que permeiam a argumentação do parlamentar sobre trabalho, prosperidade e ética social. 

O que o deputado afirmou na entrevista

Na entrevista à Folha de S. Paulo, o líder do Republicanos afirmou ter levado ao presidente da Câmara dos Deputados Hugo Motta, do mesmo partido (PB), preocupações em relação à tramitação da Proposta de Emenda à Constituição que prevê o fim da jornada de seis dias de trabalho por um de descanso. Para Marcos Pereira, o tema não deveria ser votado em ano eleitoral. Ele relatou ter ouvido de Motta que a decisão de fazer tramitar a PEC ocorreu diante da insistência do governo do presidente da República Luiz Inácio Lula da Silva (PT) em avançar com a pauta, o que teria levado a Câmara a assumir o protagonismo do debate.

Ao argumentar contra a proposta, Pereira afirmou que a redução da jornada de trabalho poderia expor trabalhadores de baixa renda a “drogas” e “jogos de azar”, e disse que um dia adicional sem trabalho não necessariamente se converteria em lazer. “Qual é o lazer de um pobre numa comunidade? Ou num sertão lá do Nordeste?”, questionou. 

Para ele, a diminuição da carga horária comprometeria a competitividade das empresas brasileiras e afetaria a prosperidade econômica. “Quanto mais trabalho, mais prosperidade”, declarou, e ainda acrescentou que a reivindicação por mais tempo livre seria legítima “se as pessoas tivessem condições de fazer lazer”, mas que “o povo não tem dinheiro, infelizmente”.

O que é a Proposta de Emenda à Constituição sobre a jornada 6×1

A PEC da chamada “jornada 6×1” busca alterar o modelo de trabalho no Brasil previsto na Consolidação das Leis do Trabalho (CLT) que, atualmente, define que o trabalhador tenha apenas um dia de descanso após seis trabalhados – o regime conhecido como escala 6×1. A proposta mais avançada neste sentido é a PEC 148/2015, de autoria do senador Paulo Paim (PT-RS), que já foi aprovada pela Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) do Senado no final de 2025 e prevê o fim gradual dessa escala e a redução da jornada máxima semanal de 44 para 36 horas ao longo de alguns anos. Esta PEC inclui aumentar o descanso semanal remunerado de um para dois dias e estabelecer um período de transição para que as novas regras passem a valer, com votações consecutivas previstas em plenário tanto no Senado quanto na Câmara dos Deputados com quórum qualificado de 3/5.

Além da PEC de Paim, outra proposta tramita na Câmara dos Deputados: é a PEC 8/2025, de autoria da deputada Érika Hilton (PSOL-SP) que também pretende acabar com a escala 6×1, limitar a jornada a 36 horas semanais e permitir compensações de horário e reduções mediante acordos coletivos. Apesar de ter sido apresentado em fevereiro de 2025, apenas um ano depois, neste fevereiro de 2026, o presidente da Câmara Hugo Motta (Republicanos-PB), encaminhou o texto de Érika Hilton à Comissão de Constituição e Justiça da Casa (CCJ) para análise de admissibilidade,  apensada (acoplada para trâmite conjunto) com a PEC 221/2019, do deputado Reginaldo Lopes (PT-MG), que propõe limite de 36 horas semanais com uma transição mais longa. 

Ainda que tenha ampla aprovação popular, a proposta tem encontrado resistência do patronato e de parlamentares alinhados à direita e ao centro, inclusive aqueles com identidade religiosa, no Congresso Nacional, como Bereia já havia checado.

Quem é Marcos Pereira?

Bispo licenciado da Igreja Universal do Reino de Deus (IURD) para atuar no Congresso Nacional e um dos principais quadros do neopentecostalismo brasileiro, Marcos Pereira construiu trajetória que articula religião, comunicação e política institucional. Antes de consolidar sua atuação partidária, foi vice-presidente da Rede Record, entre 2006 e 2011, período em que a emissora alcançou o segundo lugar em audiência no país.

Em 2012, Pereira assumiu a presidência do então Partido Republicano do Brasil (PRB), partido político que passou a ser ocupado pela IURD. À época, a legenda contava com oito deputados federais. Sob sua condução, o partido ampliou de forma expressiva sua presença institucional. 

Rebatizada como Republicanos, a sigla partidária passou a reunir, no atual quadro, 44 deputados federais, quatro senadores e dois governadores (Tarcísio de Freitas, em São Paulo, e Wanderlei Barbosa, em Tocantins), além do prefeito de Vitória (ES) Lorenzo Pazolini. Nas eleições municipais de 2024, a legenda mais que dobrou o número de prefeitos eleitos, passando de 216 para 433, e ampliou sua bancada de vereadores de 2.589 para 4.372.

Eleito deputado federal em 2018, Marcos Pereira assumiu, em seu primeiro mandato, a vice-presidência da Câmara dos Deputados. 

Imagem: Marcos Pereira em participação no Programa  Roda Viva. Fonte: Youtube.

A má repercussão da entrevista 

As declarações de Marcos Pereira à Folha de S. Paulo  repercutiram negativamente nas redes digitais e entre lideranças políticas. Após a viralização de críticas, o parlamentar divulgou um vídeo em que pediu desculpas pelas afirmações. Ele disse ter utilizado “palavras inadequadas”, que poderiam ter soado desrespeitosas aos trabalhadores brasileiros, e declarou que sua intenção era destacar possíveis impactos econômicos da medida sobre empresas e empregos.

Imagem: Publicação de  Marcos Pereira em perfil noInstagram, 2 mar 2026

No pronunciamento, Pereira ressaltou que “todo trabalhador merece descanso, respeito e tempo com a família” e que esse princípio não é negociável. Também mencionou sua trajetória pessoal, que começou a trabalhar ainda jovem e que sempre acreditou que o trabalho dignifica e cria oportunidades. O deputado reiterou que mudanças na legislação trabalhista devem ocorrer com responsabilidade, e considera especialmente o impacto sobre micro e pequenas empresas.

O recuo ocorreu em meio à intensificação do debate público sobre a jornada de trabalho e ampliou a discussão acerca dos fundamentos morais e sociais presentes no discurso do parlamentar.

Igreja com lógica empresarial

Entre os comentários críticos dirigidos a Marcos Pereira nas mídias sociais, estava o fato de ele ser um pastor evangélico e se colocar contra uma pauta que beneficia trabalhadores exaustos. Para compreender como se dá a lógica do pensamento deste líder político, Bereia ouviu o professor de Teologia e pastor da Igreja Batista de Água Branca (IBAB) Kenner Terra. O especialista destaca dois pontos centrais: a relação entre ética protestante e valorização do trabalho, conforme analisada pelo clássico sociólogo  Max Weber, e a estrutura organizacional da IURD.

Sobre a tese de Weber, Terra afirma que ela ocupa lugar relevante nas pesquisas sobre o protestantismo, especialmente no contexto europeu dos séculos passados. Contudo, ele ressalta que a interpretação já passou por diversas críticas, inclusive em razão das transformações contemporâneas no próprio conceito de trabalho. Para o professor, a declaração do deputado parece estar mais associada a um posicionamento ideológico liberal, de defesa da classe empresarial e de grupos economicamente dominantes, do que propriamente à teologia da vocação para o trabalho, emergente da Reforma Protestante, conceito central na formulação de Weber.

Questionado sobre a constituição da teologia da IURD a partir de uma lógica empresarial, Terra afirma que a igreja é frequentemente apontada, em pesquisas recentes, como exemplo de “McDonaldização da fé”, expressão que designa a adoção de estratégias de mercado para atrair e fidelizar adeptos. De acordo com ele, nesse modelo, o culto e a experiência religiosa passam a ser organizados como produtos de consumo rápido, padronizado e espetacularizado.

Ele ainda menciona que a estrutura institucional da IURD foi adaptada a modelos organizacionais presentes em redes empresariais  orientadas pela lógica da satisfação da demanda. Nesse contexto, categorias como rendimento, mérito, investimento e satisfação tornam-se elementos estruturantes do funcionamento religioso, e influenciam tanto a dinâmica interna da instituição quanto a forma como seus líderes interpretam temas sociais e econômicos no espaço público.

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Bereia afirma que a entrevista publicada pela Folha de S. Paulo omite informações relevantes ao deixar de mencionar que Marcos Pereira é bispo licenciado da Igreja Universal do Reino de Deus e dirigente de um partido historicamente vinculado à denominação religiosa. Embora as declarações dele estejam inseridas no debate político e econômico sobre a redução da jornada de trabalho, a ausência desse contexto impede leitores de compreenderem de forma mais ampla os referenciais simbólicos, morais e institucionais que podem estar inseridos no seu discurso. 

Ao tratar de temas como trabalho, prosperidade e organização social, a identificação de vínculos religiosos e institucionais não constitui juízo de valor, mas elemento informativo essencial para a plena contextualização jornalística e para a transparência no debate público.

Referências: 

Folha de S. Paulo. Presidente do Republicanos alertou Motta contra PEC 6×1 – 26/02/2026 – Economia – Folha. Acesso em 28  fev 2026.

O Globo. https://oglobo.globo.com/politica/noticia/2025/05/07/sob-pressao-da-igreja-universal-presidente-do-republicanos-decide-trocar-cunha-e-waguinho-por-bispo-no-rio.ghtml.  Acesso em 28 fev 2026.

Platobr. https://platobr.com.br/a-disputa-entre-bispos-da-universal-pelo-controle-do-republicanos.  Acesso em 28 fev 2026.

Veja. https://veja.abril.com.br/brasil/ocio-demais-faz-mal-presidente-do-republicanos-pede-desculpas-por-fala-sobre-fim-da-escala-6×1/. Acesso em 3 mar 2026.

Senado Federal

https://www25.senado.leg.br/web/atividade/materias/-/materia/124067. Acesso em 4 mar 2026

Câmara dos Deputados 

https://www.camara.leg.br/proposicoesWeb/fichadetramitacao?idProposicao=2485341 Acesso em 4 mar 2026

G1

https://g1.globo.com/politica/noticia/2025/12/19/quaest-fim-da-escala-6×1-onibus-gratuito-imposto.ghtml

https://g1.globo.com/politica/noticia/2025/07/02/quaest-70percent-dos-deputados-federais-sao-contra-fim-da-escala-6×1-88percent-sao-a-favor-de-elevar-isencao-do-ir.ghtml Acesso em 4 mar 2026