Debate sobre atuação de mulheres persiste no Supremo Concílio da Igreja Presbiteriana do Brasil 

O debate em torno do questionamento da atuação das mulheres em determinadas funções na igreja, como oficiais e pregadoras, passou a circular amplamente em redes digitais acompanhadas pelo Bereia nas últimas semanas. A discussão é provocada pelo fato de o tema ter sido incluído na agenda do Supremo Concílio (SC) da Igreja Presbiteriana do Brasil (IPB),  uma das mais destacadas igrejas evangélicas históricas do país, que se reúne entre os dias 26 de julho e 02 de agosto, em Manaus, para a 41ª reunião ordinária. 

Imagem: reprodução/Instagram (20/07/2026)

Imagem: reprodução/Instagram (02/05/2024)

As pautas que serão abordadas na reunião do SC devem ser previamente enviadas à Comissão Executiva (CE) do órgão, que nomeia subcomissões para emitir pareceres a serem votados na sessão plenária. As considerações da comissão de Legislação e Justiça sobre o tema indicam que a denominação deve manter posição contrária à atuação feminina na direção dos cultos. 

Por outro lado, as manifestações remetidas à CE do órgão presbiteriano apontam para um movimento consistente de questionamento dessa posição da denominação em relação às mulheres. Conforme os documentos analisados pelo Bereia, os sínodos Matogrossense, Sudoeste Paulista, Unido (de São Paulo), Leste Fluminense, Rio Grande do Norte e Zona da Mata Mineira são alguns dos quais expediram indagações acerca do assunto.    

Os sínodos são as assembléias de representantes dos presbitérios de uma região. Os presbitérios, por sua vez, são constituídos de todos os pastores e presbíteros das igrejas de uma região determinada pelo sínodo. O SC reúne deputados eleitos pelos presbitérios, que compõem delegações mistas, com pastores e presbíteros (leigos), que votam nas reuniões dos sínodos, a cada dois anos, e no Supremo Concílio, a cada quatro anos, cabendo revisões e recursos.

O sistema de governo da denominação se dá, assim, em parlamentos em ordem ascendente, a começar pelos conselhos das igrejas. Segundo dados oficiais da IPB, são mais de 4,3 mil igrejas, 402 presbitérios, 98 sínodos.

Posicionamento da Comissão Executiva do Supremo Concílio da IPB

A comissão de Legislação e Justiça, ao encaminhar parecer para análise do plenário do Supremo Concílio, agrupou consultas, propostas, e pedido de revogação e alteração de resolução em dois relatórios, nos quais aponta que a questão de fundo diz respeito a uma resolução do SC/IPB – 2022. Um dos documentos inclui um apelo para “evitar que matérias sejam repetidamente submetidas sem fatos novos ou argumentos substanciais”.  

Há ainda outros dois relatórios encaminhados para apreciação do SC que tratam da autorização para mulheres servirem a Santa Ceia (Eucaristia) e da ordenação como diaconisas (atuação em diversos serviços). Em seu parecer, a CE reafirma a resolução do SC/IPB – 2022 (que trata do tema da Santa Ceia) e orienta os concílios jurisdicionados a “não submeter novamente matérias que já foram objeto de decisão definitiva pelo Supremo Concílio, sem que existam fatos novos ou mudanças nos fundamentos bíblico-confessionais que as justifiquem”.

Um quinto documento que envolve a atuação das mulheres na IPB, e será discutido pelo SC em 2026, é um relatório sobre o Coletivo de Mulheres Presbiterianas do Brasil (Coletivo MPB) que resultou em um posicionamento contrário às atividades do grupo. O texto também repudia uma carta crítica emitida por essas mulheres logo após a 40ª Reunião Ordinária do Supremo Concílio, ocorrida em 2022. 

O parecer determina aos concílios que não deem acolhimento e divulgação de “documentos dessa natureza”, reforça que as resoluções de 2022 foram amplamente discutidas e aprovadas de forma majoritária pelo plenário para reafirmar a fidelidade aos padrões confessionais e “manter a pureza do culto contra agendas seculares”.

Resoluções da reunião do Supremo Concílio em 2022

As resoluções aprovadas pelo Supremo Concílio, em 2022, estabelecem expressamente que a autoridade na igreja deve ser exercida pelos homens, que a distribuição dos elementos da Santa Ceia está intrinsecamente ligada ao oficialato e que situações de excepcionalidade em que mulheres pregam impõe sobre elas um encargo do qual Deus não lhes incumbiu e, portanto, devem ser corrigidas. 

“O Senhor Deus ordenou a escolha de presbíteros e diáconos varões na Igreja para sua administração e serviço. Não é correto nem necessário designar as irmãs para servirem a Ceia do Senhor sob qualquer circunstância, ou corre-se o risco de se estabelecer paulatinamente um modelo antibíblico de liderança. Aqui não se deve depreender qualquer discriminação contra as mulheres, o propósito é o cumprimento de dons e ministérios dentro daquilo que lhes foi confiado por Deus em seu papel de auxiliadoras idôneas”, conforme trecho de um das resoluções (CCLII). 

Parte de outra resolução (CCLIII) alerta ministros, igrejas e concílios para o “avanço das novas mentalidades identitárias seculares e de sua respectiva agenda, na qual o tema do lugar da mulher se torna cada vez mais recorrente e que não há previsão de que tal assunto seja ofuscado nas pautas futuras do mundo evangélico brasileiro. Sendo assim, é mister que a igreja de Deus reafirme o propósito divino para homens e mulheres em sua igualdade essencial, mas em seus distintos papéis, e os concílios deem esse assunto como resolvido dentro da jurisdição das Igrejas federadas”.   

Estes posicionamentos da IPB renderam, ao ano de 2022, um marco político para denominação evangélica que, apesar de nunca ter adotado a ordenação feminina, sempre permitiu a atuação de mulheres. A ala mais conservadora da IPB segue com uma visão complementarista dos papéis da mulher e do homem na igreja e na família, aliando-se às pautas políticas conservadoras e de costumes, defendidas pelos movimentos ultradireitistas que ganharam espaço a partir de 2018. 

No contexto da masculinidade cristã, o Sínodo Tocantins enviou para apreciação plenária na próxima reunião do Supremo Concílio uma consulta sobre o Movimento Legendários, ao considerar a crescente participação de membros e oficiais da IPB.

O Sínodo aponta que dentro do movimento, a masculinidade não é definida pelos parâmetros bíblicos, mas por “estereótipos idealizados de masculinidade conservadora, enraizados em cultura de performance, força e competitividade”. 

O governo ultraconservador de Jair Bolsonaro teve laços estreitos com alguns líderes presbiterianos, como a indicação do pastor e atual ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) André Mendonça à corte, com a referência do então presidente da República de que se tratava de um “ministro terrivelmente evangélico”. Além disso, Bolsonaro nomeou o pastor Milton Ribeiro como ministro da Educação, que foi preso durante investigação do esquema de favorecimento de verbas com atuação de outros pastores como lobistas na pasta.

Crescente restrição às mulheres e oposição às decisões 

Imagem: recorte do livro “Por que não diaconisas?”, de Edijéce Martins Ferreira, publicado em 1990.

Bereia identificou que igrejas que integram o presbiterianismo do Brasil do Nordeste propuseram a ordenação de mulheres ao pastorado, em 1986. Em 2012, a Comissão Executiva do Supremo Concílio declarou não haver impedimento bíblico para que, em ocasiões ou situações especiais, mulheres pregassem, sob a autoridade do pastor. Essa resolução deu origem ao relatório da comissão permanente de interpretação da pergunta 158 do Catecismo Maior de Westminster (um dos símbolos de fé oficiais da IPB), que define por quem a Palavra de Deus deve ser pregada. 

O documento, que foi aprovado na 39ª reunião do Supremo Concílio (SC), em 2018, proíbe a ordenação de mulheres aos ofícios da IPB e que mulheres ordenadas a qualquer ofício em outras denominações ocupem os púlpitos da igreja. Após as definições do SC em 2022, além do surgimento do Coletivo de Mulheres Presbiterianas, o Sínodo Leste Fluminense e outros interpuseram sucessivos questionamentos ao SC, em 2023, 2024 e novamente em 2026. Assim como, o Sínodo da Zona da Mata Mineira em 2025.

Um estudo sobre desigualdade de gênero na liderança da igreja protestante nos Estados Unidos indica que a visão coletiva dos membros sobre as mulheres, como tão capazes e elegíveis quanto os homens, para se tornarem suas líderes espirituais pode ser a chave para eliminar a disparidade de gênero no acesso ao púlpito. O artigo sugere que confrontar as visões sobre liderança feminina e abordar as desigualdades de gênero dentro da congregação ajuda os membros a perceberem os estereótipos e preconceitos existentes e permite que a igreja se beneficie do que as mulheres podem oferecer como líderes de comunidades religiosas. 

O movimento de presbiterianos e presbiterianas Ecclesiae Renovare, liderado pelo pastor Rev. Wilson Emerich, também defende oposição firme a posturas que firam a liberdade cristã e civil. Por isso, com uma pauta ampla e integral para revitalizar a Igreja, tem na valorização da mulher um de seus objetivos centrais. “Rejeitamos visões distorcidas e preconceituosas sobre o papel eclesiástico da mulher. A alegação de que elas não podem atuar por falta de ordenação explícita na Bíblia parte de uma hermenêutica tendenciosa”, declara o ministro da IPB, ouvido pelo Bereia.

O Rev. Emerich pontua que o Novo Testamento cita apóstolos, profetisas e bispos (cargos que a IPB não adota), e também não menciona Sínodos, Supremo Concílio, Comissão Executiva, Estatutos, Código de Disciplina, Manual de Culto, Sociedades internas, Escola Dominical, Ministério de Louvor e Casais – estruturas criadas posteriormente pela denominação para organizar a missão da Igreja. O ministro defende, com base nesta compreensão, que a estrutura eclesiástica evolui. 

Para o pastor, o sistema parlamentar e conciliar da IPB perdeu a eficácia, e a denominação se transformou em uma igreja gerida por comissões, onde relatores são escolhidos a dedo para manter o status quo. Com a expectativa de mudança na liderança do Supremo Concílio em 2026, segundo ele, há esperança que a denominação decida devolver os direitos cassados por uma mentalidade retrógrada e machista que invadiu a igreja. 

No contexto da Igreja Presbiteriana do Brasil, o posicionamento da instituição em relação à ordenação das mulheres, não as priva somente de servir elementos da Santa Ceia, pregar ou ensinar nos púlpitos, mas de liderar órgãos internos. A medida restringe a própria composição do Supremo Concílio (SC) aos homens, e com isso, impede a participação das mulheres nas tomadas de decisão. Mesmo em um sistema de votos, o atual presidente do SC, o pastor Roberto Brasiliero Silva, ocupa o cargo há seis mandatos, ou seja, há 24 anos. 

“O Ecclesiae Renovare propõe o rodízio de lideranças em todas as esferas da igreja como forma de reoxigenar a estrutura eclesiástica e valorizar os dons de toda a comunidade presbiteriana. Além disso, valorizamos o Estado laico — com a estrita separação entre Igreja e Estado — e a despolitização partidária dos púlpitos, rejeitando a imposição de uma linha política única que fira o livre-arbítrio dos cidadãos. Combatemos veementemente a misoginia, o sexismo e o preconceito, enfatizando sempre a teologia do amor e da graça”, afirma o pastor Emerich, na entrevista com o Bereia.

As reações críticas à recente pregação sobre violência contra mulheres nas igrejas, pela pastora das Assembleias de Deus Helena Raquel, durante o 41º Congresso Internacional de Missões dos Gideões Missionários da Última Hora, são exemplos de que a presença de mulheres no púlpito ainda provoca incômodo e resistência em diferentes segmentos. A participação feminina em espaços de autoridade religiosa permanece um tema sensível e revela que as disputas em torno da legitimidade da voz feminina continuam longe de serem superadas. 

Referências:

IPB

https://www.ipb.org.br/content/Downloads/manual_presbiteriano_2025.pdf Acesso em: 16 JUL 2026

https://www.executivaipb.com.br/arquivos/constituicao.pdf Acesso em: 17 JUL 2026

https://www.executivaipb.com.br/estatisticas/ Acesso em: 19 JUL 2026

ICalvinus

https://se.icalvinus.app/php/pdfresolucao_app.php?resid=4023&reuniaoid=22 Acesso em: 17 JUL 2026

https://se.icalvinus.app/php/pdfresolucao_app.php?resid=4185&reuniaoid=27 Acesso em: 18 JUL 2026

CBE

https://www.cbeinternational.org/ Acesso em: 17 jul 2026

CNN

https://edition.cnn.com/2023/07/30/us/women-church-leadership-united-states-cec Aesso em: 17 JUL 2026

Ap News

https://apnews.com/article/southern-baptist-convention-evangelicals-women-pastors-7d85ddc4cc13f3c90a05c1ce3de196b3 Acesso em: 17 JUL 2026

CBN

https://cbn.com/news/us/pcusas-trans-vote-leaves-many-christians-stunned-how-did-we-get-here Acesso em: 19 JUL 2026

Imagem de capa: Magnific

Bancada Cristã: a tomada do Estado e o ódio às mulheres

*Texto publicado originalmente em Outras Palavras

A relação entre religião e política no Brasil sempre foi marcada por elevada permeabilidade. Desde o período colonial até a contemporaneidade, instituições religiosas atuam como agentes relevantes na conformação de valores morais, na organização da sociedade civil e na disputa por influência sobre políticas públicas. Embora essa presença não seja nova, nas últimas décadas ela assume formas renovadas, mais explícitas e institucionalizadas, revelando a capacidade adaptativa das organizações religiosas diante das transformações do campo político.

Nesse contexto, em 22 de outubro de 2025, o Congresso Nacional aprovou o regime de urgência para o projeto que cria a Bancada Cristã na Câmara dos Deputados, iniciativa apresentada conjuntamente pelas Frentes Parlamentares Evangélica e Católica Apostólica Romana. O pedido foi aprovado por 398 votos favoráveis e 30 contrários. Caso a proposta seja aprovada, a Bancada Cristã passará a ter direito a voz e voto no Colégio de Líderes, além de outras prerrogativas institucionais relevantes, como a influência direta sobre a definição da agenda legislativa.

Dois argumentos principais foram mobilizados para justificar a criação da Bancada. O primeiro sustenta que aproximadamente 80% da população brasileira se declara cristã. O segundo invoca a garantia constitucional da liberdade de manifestação da fé. Nenhum desses argumentos, contudo, é suficientemente consistente para fundamentar a institucionalização de uma bancada religiosa com poder formal de interferir na definição de prioridades do Parlamento. A representatividade numérica de uma identidade religiosa não autoriza sua tradução automática em representação política confessional, assim como a liberdade religiosa não implica o direito de capturar estruturas estatais para a promoção de agendas morais particulares.

Na esteira dessa proposição, ao longo de 2025, diversos municípios apresentaram e aprovaram projetos de lei que autorizam o uso da Bíblia como livro didático ou paradidático em escolas públicas e privadas. Municípios como Joinville (SC), Divinópolis (MG), Belo Horizonte (MG) e Rio Branco (AC), e os estados do Rio Grande do Norte e do Ceará, adotaram iniciativas dessa natureza. O principal argumento mobilizado é o de que a Bíblia teria exercido forte influência na formação da civilização ocidental. Foram rejeitadas, entretanto, emendas que propunham a inclusão de textos sagrados de outras tradições religiosas — como a Torá, o Alcorão, o Livro dos Espíritos, além de cantos e narrativas de religiões de matriz africana e de povos originários — evidenciando o caráter seletivo e excludente dessas propostas.

Esses exemplos ilustram a persistente e assimétrica relação entre religião e política no Brasil. Ainda que essa relação seja historicamente constituída, sua configuração atual revela novas estratégias de ocupação do espaço público, legitimadas por discursos de defesa da moral, da identidade cultural e da liberdade religiosa.

Alianças intercristãs e reconfigurações do campo religioso-político

Entre as estratégias contemporâneas de ampliação da influência religiosa na política, destaca-se a aproximação e a formação de alianças pontuais entre grupos que, até poucas décadas atrás, se percebiam como adversários. Trata-se, sobretudo, da convergência entre diferentes movimentos pentecostais, oriundas de variadas denominações evangélicas, e o movimento carismático católico romano.

Historicamente, a disputa pelo chamado “mercado religioso” incentivou a demarcação de fronteiras doutrinárias e simbólicas entre essas correntes. No âmbito da representação política, autoridades católicas passaram a interpretar o avanço evangélico como ameaça ao status, ainda que extraoficial, da Igreja Católica como “igreja dos brasileiros”. Nessa lógica, os privilégios historicamente naturalizados pela hegemonia católica não eram percebidos como problema democrático, mas como expressão legítima de uma tradição nacional.

Por muito tempo, parte significativa da produção intelectual e do debate público operou com uma dicotomia simplificadora: de um lado, um catolicismo progressista, democrático e comprometido com os direitos humanos; de outro, um evangelicalismo conservador, autoritário e antidemocrático. Essa leitura invisibilizou tanto o papel de organizações católicas tradicionalistas, como a Tradição, Família e Propriedade (TFP), quanto às contribuições históricas de protestantes para a defesa da laicidade do Estado, a organização sindical e a educação popular.

Nesse cenário polarizado foi, sobretudo, o movimento feminista não religioso e a teologia feminista que demonstraram maior acuidade analítica ao perceber que, quando estão em jogo a autonomia das mulheres e a igualdade de gênero, o cristianismo institucionalizado — em suas versões católica romana, ortodoxa ou protestante — tende a convergir na defesa de uma moral patriarcal. Essa moral atua como princípio ordenador destinado a conter aquilo que é interpretado como caos social decorrente das reivindicações feministas por igualdade jurídica, controle sobre o próprio corpo, participação política, liberdade sexual e direito a uma vida livre de violência.

Plataforma político-religiosa, guerra espiritual e bem público

Na segunda metade do século XXI, intensificam-se os discursos religiosos estruturados em torno da noção de guerra espiritual. Segundo essa perspectiva, os processos de secularização nas sociedades ocidentais estariam corroendo valores considerados fundamentais de uma suposta moral cristã. A guerra espiritual, nesse sentido, não se limita a uma metáfora teológica, mas opera como dispositivo mobilizador para ações políticas concretas, orientadas ao enfrentamento das transformações culturais associadas à modernidade.

Nesse enquadramento, proliferam narrativas de perseguição aos cristãos e de ameaça à liberdade religiosa. Os alvos privilegiados desses discursos são a ideia de uma sociedade plural e diversa, além dos movimentos que sustentam a pluralidade, como o feminista, o antirracista, os movimentos socioambientais, os de defesa dos direitos das pessoas LGBTQIA+, e os movimentos anticapitalistas. Esses atores são compreendidos pela direita cristã como responsáveis pela desintegração da ordem social.

É nesse contexto que católicos e evangélicos (protestantes) passam a estabelecer alianças estratégicas com o objetivo declarado de enfrentar o mal que, segundo essa narrativa, estaria corroendo as estruturas morais do Ocidente. A proposta de criação de uma Bancada Cristã deve ser compreendida à luz desse cenário mais amplo. Ela constitui uma cruzada moral institucionalizada, conduzida por meios formais e democráticos, contra agendas interpretadas pela direita cristã como ameaças existenciais.

No século XXI, essas alianças deixam de se organizar prioritariamente em torno de disputas doutrinárias e passam a se estruturar a partir da ideia de que o cristianismo, em suas múltiplas expressões, seria o principal provedor e guardião da identidade cultural ocidental. Essa reconfiguração desloca o foco da concorrência religiosa para a ação política coordenada.

A Declaração de Manhattan como plataforma transnacional

Um marco relevante, ainda pouco conhecido no debate público brasileiro, dessa convergência intercristã é a “Declaração de Manhattan: um chamado à consciência cristã”, lançada em 2009, nos Estados Unidos e assinada por cerca de 150 lideranças, incluindo bispos católicos romanos, cristãos ortodoxos, pastores evangélicos e intelectuais cristãos.

A Declaração pode ser interpretada como uma plataforma político-religiosa de alcance transnacional, voltada à orientação da ação pública de lideranças religiosas conservadoras e de atores políticos com vinculação confessional. O documento está estruturado em três grandes eixos: vida, casamento e liberdade religiosa.

No preâmbulo, as lideranças signatárias se apresentam como herdeiras de cristãos da Antiguidade que teriam confrontado a tirania do Império Romano, combatendo práticas como o infanticídio e a servidão. O texto reivindica ainda o papel dos mosteiros na preservação da Bíblia, da arte e da cultura ocidentais, menciona bulas papais dos séculos XVI e XVII que condenaram a escravidão. O documento recupera o papel de figuras como John Wesley e William Wilberforce na luta contra o tráfico de pessoas escravizadas. Ao mobilizar esse repertório histórico, a Declaração constrói uma narrativa de autoridade moral destinada a legitimar sua atuação contemporânea no espaço público.

No eixo da vida, o documento afirma que, apesar de um suposto sentimento público pró-vida nos Estados Unidos, o governo da época — liderado por Barack Obama — promoveria uma ideologia favorável à legalização do aborto. Critica a decisão da Suprema Corte no caso Roe v. Wade (1973). Para os signatários da Declaração, a decisão da Suprema Corte americana é interpretada como a retirada da proteção legal do nascituro. Aborto, eutanásia, suicídio assistido e pesquisas com embriões são enquadrados como expressões de uma “cultura da morte”, legitimada pelo Estado.

No eixo do casamento, apenas a união entre homem e mulher é reconhecida como válida. O casamento é apresentado como instituição central para a saúde, a educação e o bem-estar social. A dissolução da chamada cultura matrimonial é associada ao surgimento de patologias sociais, entre as quais se incluem o divórcio e as uniões entre pessoas do mesmo sexo.

No eixo da liberdade religiosa, o documento afirma que somente Deus é senhor da consciência cristã. A partir disso, reivindica que indivíduos e instituições religiosas não sejam obrigados a agir de modo contrário às suas convicções morais. Direitos como o aborto legal e seguro e o reconhecimento do casamento entre pessoas do mesmo sexo são reinterpretados como violações da liberdade religiosa daqueles que se opõem a essas práticas. Políticas antidiscriminatórias são descritas como restrições ao livre exercício da religião. O texto invoca explicitamente o direito à desobediência civil diante de leis consideradas “anti-vida”.

Embora elaborada em 2009 e situada no contexto político norte-americano, a Declaração de Manhattan pode ser lida como uma plataforma exportável e de pretensão atemporal, especialmente em razão da capilaridade das instituições religiosas e da diversidade de interesses econômicos e políticos que financiam a direita cristã em diferentes países.

Bem público, liberdade religiosa e ódio às mulheres

Um aspecto central dessa plataforma é a redefinição do conceito de bem público. Ele deixa de ser compreendido como resultado do equilíbrio entre direitos fundamentais em uma sociedade plural e passa a ser identificado com políticas públicas que reforçam concepções restritivas de vida, família e sexualidade. Trata-se de um bem público particularista, ancorado em uma moral religiosa específica e apresentado como universal.

De modo semelhante, a liberdade religiosa é reinterpretada de forma absolutizada e hierarquizada, desvinculada de sua interdependência com outros direitos fundamentais. Em vez de garantir a convivência entre diferentes crenças e convicções em um Estado laico, ela é mobilizada como instrumento político para bloquear direitos sexuais e reprodutivos e para legitimar práticas discriminatórias.

É nesse ponto que se torna possível compreender o sentido da expressão “ódio às mulheres” no contexto das alianças político-religiosas. Não se trata apenas de atitudes individuais de misoginia, mas de uma estrutura simbólica e institucional que opera para restringir a autonomia das mulheres, controlar seus os corpos e deslegitimar suas reivindicações por igualdade. Esse ódio manifesta-se na oposição sistemática ao direito ao aborto legal e seguro, na resistência à educação sexual, na naturalização da violência de gênero e na exclusão das mulheres dos espaços de poder e decisão.

A possibilidade de criação de uma Bancada Cristã no Congresso Nacional deve, portanto, ser analisada à luz dessa configuração mais ampla. O fortalecimento da democracia brasileira exige o enfrentamento transparente e crítico da histórica permeabilidade entre religião e política. Não é compatível com um regime democrático que critérios de vinculação religiosa ou de conservadorismo moral orientem a ocupação de cargos públicos estratégicos, como as indicações para o Supremo Tribunal Federal. Enquanto persistirem alianças político-religiosas que, sob o discurso do bem público e da liberdade religiosa, perpetuam a subordinação estrutural e o ódio às mulheres, a democracia permanecerá incompleta.