Perfis católicos da direita extremista usam desinformação para derrubar contas progressistas no Instagram

O grupo Katholikos denunciou uma campanha com conteúdo desinformativo para derrubar perfis católico em mídias sociais da Meta. “Está em curso uma campanha para nos tirar do Instagram. Nós, do campo progressista católico”, diz o post publicado em 12 de março passado. 

Como registrado no perfil, Katholikos é um “espaço onde abordam o Catolicismo de maneira inclusiva, oferecendo informações, reflexões e curiosidades sem fanatismo ou fundamentalismo” e está ligada a um site homônimo. 

Por conta do posicionamento crítico a posturas ultraconservadoras de lideranças católicas, Katholikos virou alvo de ações extremistas que têm tentado derrubar o perfil no Instagram. “Pessoal, aqui os @ para tentarmos derrubar”, comentou em publicação um homem que se apresenta como escritor e que se diz “ex-protestante e agora defensor da fé católica”. 

As ações ocorreram no contexto das críticas ao cantor católico Frei Gilson, conhecido por transmissões ao vivo para milhões de fiéis nas redes digitais, que ganhou notoriedade neste março com controvérsias por ter proferido fala desqualificadora das mulheres, em evento nas redes digitais no Dia Internacional da Mulher.

Bereia recebeu de um leitor a sugestão de checagem, analisou o conteúdo e verificou os fatos para esclarecer a veracidade das informações.

Imagem: Post distorcido da página Katholikos. Reprodução/Instagram


Imagem: Post distorcido da página Katholikos. Reprodução/Instagram

Em 1 de março de 2024, a página Katholikos publicou em seu perfil no Facebook a imagem do líder do Partido Nazista da Alemanha entre 1934 e 1945 Adolf Hitler, acompanhada da legenda: “Reunir muitas pessoas não significa estar certo, seja presencialmente ou no meio virtual”. O perfil decidiu republicar a imagem, desta vez, no Instagram, em 10 de março deste ano, com a mesma legenda.  

Imagens: Publicações de Katholikos. Reprodução/ Facebook e Instagram

Como começou?

A publicação, de caráter reflexivo e genérico, gerou interpretações diversas e foi alvo de desinformação. Perfis como o do jornalista Tiago Bruno de Almeida Prado, Educar para o Céu, entre outros manipularam a imagem deixando aparente apenas parte da legenda e afirmaram se tratar de um ataque a Frei Gilson, levando a crer que o perfil Katholikos e outros estavam associando a imagem do religioso a Adolf Hitler, o que não procede.  

Em nota oficial, a Katholikos afirmou repudiar a disseminação de informações falsas sobre a postagem e esclareceu que em nenhum momento fez menção direta ou indireta a Frei Gilson ou a qualquer outra pessoa.

Imagem: Denúncia da página Katholikos. Reprodução/Instagram

“Cabe ressaltar que a única publicação que realizamos nomeando Frei Gilson é clara e explícita, não deixando margens para interpretações ou associações indevidas. No entanto, a postagem em questão está sendo descontextualizada por terceiros, que divulgaram apenas um recorte parcial da imagem, sem a legenda, manipulando assim o entendimento do público e sugerindo interpretações maliciosas” afirma a nota publicada pelo Katholikos

A publicação que viralizou nas redes digitais foi tirada de contexto e divulgada de forma parcial, o que levou a interpretações distorcidas. Um dos perfis a compartilhar o conteúdo desinformativo foi o do grupo Renovação Tradismática Católica do Brasil. Publicado em 11 de março, o post já acumula quase quatro mil comentários, muitos de abordagem ofensiva e com distorções. Como consequência, uma campanha para a remoção do perfil Katholikos e outros três de conteúdo católico progressista no Instagram, classificados pejorativamente como páginas de “Teologia da Libertação”, ganhou força nas redes.

Imagem: Post da página Katholikos. Reprodução/Instagram

O canal “Católicos de Verdade” no YouTube, do jornalista Tiago Bruno de Almeida Prado, publicou um vídeo para se retratar por ter proferido falsidades a respeito do site Katholikos e de outros perfis digitais. Entretanto, a publicação com o conteúdo desinformativo segue disponível no Instagram e não foi excluída do perfil do jornalista na rede digital. Até o fechamento desta matéria a publicação soma quase sete mil curtidas. 

Além disso, o direito de resposta foi publicado apenas na conta de Tiago Prado no YouTube e reproduzido pelos perfis caluniados: Katholikos, Mente Pejoteira, Movimento Igreja em Saída e Teologia da Libertação. Apesar de Tiago Prado ter dado o direito de resposta, o conteúdo desinformativo foi publicado originalmente no perfil “Educar para o Céu”, em colaboração com o jornalista e outras três contas do Instagram. 

Imagem: publicação do perfil do jornalista Tiago Prado no Instagram

Por que o nome de Frei Gilson é usado nesta disputa?

Gilson da Silva Pupo Azevedo de 38 anos é sacerdote, cantor e influenciador católico, membro da congregação Carmelitas Mensageiros do Espírito Santo, é ligado à Renovação Carismática Católica (RCC). Ordenado em 2013, atuou por nove anos na Paróquia Nossa Senhora do Carmo, em São Paulo. Durante a pandemia, ganhou destaque nacional com transmissões ao vivo e pregações nas redes digitais, onde milhões de seguidores

No período da Quaresma, realiza orações diárias durante a madrugada, e reúne um grande público. Recentemente, uma de suas lives de oração do Rosário ultrapassou 1,3 milhão de espectadores simultâneos. Sua crescente influência tem recebido apoio de figuras conservadoras, mas também despertado críticas de outros grupos por conta do conteúdo ultraconservador que defende. As plataformas da Meta já suspenderam perfis religioso por engano, o que também gerou desinformação sobre falsa perseguição a ele, como Bereia já checou.

Fenômeno nas redes digitas, o líder religioso é protagonista ainda de um embate que envolve cristãos, extremistas de direita e o campo da esquerda. O nome do frei aparece no relatório da Polícia Federal (PF) que investigou a tentativa de golpe de Estado que envolve o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) e aliados.

O relatório de novembro de 2022 da Polícia Federal (PF) aponta que Frei Gilson teria recebido a chamada “oração do golpe”, elaborada pelo padre José Eduardo de Oliveira e Silva, pároco da Paróquia São Domingos, em Osasco (SP). O texto pedia que católicos e evangélicos incluíssem em suas orações o então ministro da Defesa, general Paulo Sérgio Nogueira, e outros 16 generais quatro estrelas. No entanto, Frei Gilson não foi indiciado pela PF nem denunciado pela PGR.

A mais recente controvérsia, que projetou  Frei Gilson nacionalmente,  foi a fala em uma de suas pregações neste período da Quaresma,  que desqualifica as mulheres, atribuindo-as à submissão a homens, justamente no último Dia Internacional da Mulher. Bereia cobriu o caso.

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Bereia analisou as publicações sugeridas por um de nossos leitores e constatou o caráter desinformativo das publicações que rechaçam os perfis Katholikos, Mente Pejoteira, Movimento Igreja em Saída e Teologia da Libertação. De fato, é possível  identificar um ataque articulado para retirar do ar estes perfis e cercear o direito à liberdade de opinião deles. 

Bereia alerta leitores e leitoras quanto ao uso da falsa noção de perseguição a cristãos,  tratada como “cristofobia”, por pessoas e grupos que buscam impedir a expressão  crítica a posturas públicas de indivíduos e grupos de identidade cristã.  É direito humano expressar opinião crítica, desde que proferida de forma respeitosa e coerente, sem ofensas ou caráter discriminatório, no espírito do debate público saudável.

Referências:
Instagram.
https://www.instagram.com/p/DHGjv9FR26i/?igsh=OTAwZG5rbnQ0bHM%3D. Acesso em 17 de março de 2025.

Instagram.
https://www.instagram.com/p/DHGcNWHx4bF/?igsh=bzIwOXlhZmphMjI%3D.  Acesso em 17 de março de 2025. 

Instagram. https://www.instagram.com/p/DHYz2Alxy52/ – Acesso em 20 de março de 2025.
G1. https://g1.globo.com/sp/sao-paulo/noticia/2025/03/10/quem-e-frei-gilson-lider-religioso-que-reune-milhoes-em-madrugadas-de-quaresma-digital.ghtml. Acesso em 17 de março de 2025.

CNN Brasil.
https://www.cnnbrasil.com.br/politica/padre-indiciado-pela-pf-fez-oracao-do-golpe-para-generais-e-ministro-da-defesa/. Acesso em 17 de março de 2025.

CNN Brasil.
https://www.cnnbrasil.com.br/politica/quem-e-frei-gilson-sacerdote-envolvido-em-polemica-nas-redes/. Acesso em 17 de março de 2025.Coeltivo Bereia.
https://coletivobereia.com.br/ainda-sobre-frei-gilson-um-agente-nodal-no-catolicismo-brasileiro/. Acesso em 17 de março de 2025.

Mulheres no Jornalismo: Bereia em meio aos desafios e avanços em um cenário de desigualdade

Enquanto a presença feminina no jornalismo avança em algumas frentes, a desigualdade de gênero ainda persiste, especialmente em cargos de liderança. Dados recentes do Reuters Institute for the Study of Journalism, publicados em 2024, revelam que apenas 24% dos editores-chefes em 240 veículos de notícias ao redor do mundo são mulheres, mesmo que, em média, 40% dos jornalistas nesses mercados sejam do sexo feminino. No entanto, iniciativas como o Coletivo Bereia provam que é possível construir um ambiente mais justo e inclusivo, com presença feminina em posições-chave.

A pesquisa do Instituto Reuters, que analisou 12 mercados em cinco continentes, incluindo países como Estados Unidos, Reino Unido, Brasil e Japão, aponta que a desigualdade de gênero no jornalismo é um problema global. Em todos os mercados estudados, a maioria dos editores-chefes são homens, mesmo em países onde as mulheres representam uma parcela significativa dos jornalistas. Por exemplo, no Japão, nenhuma mulher ocupa o cargo de editora-chefe nos veículos analisados, enquanto nos Estados Unidos, o país com a maior representação feminina, menos da metade, apenas 43% dos editores-chefes, são mulheres.

A pesquisa Reuters também destaca que não há correlação entre a igualdade de gênero na sociedade e a representação de mulheres em cargos de liderança no jornalismo. Isso sugere que as barreiras à ascensão das mulheres na indústria de notícias são específicas do setor e não refletem necessariamente as tendências sociais mais amplas.

Bereia: um raro exemplo de equilíbrio e representatividade

Em contraste com esse cenário global, o Coletivo Bereia se destaca como um exemplo positivo de representatividade feminina no jornalismo. Com 19 integrantes, o grupo conta com dez mulheres, representando 52,6% do total. A editoria-geral é ocupada por uma mulher, Magali Cunha, o que já coloca o Bereia à frente de muitos veículos de notícias no mundo, onde a liderança feminina ainda é uma exceção.

Além disso, a Equipe de Checagem do Bereia é majoritariamente feminina, com cinco mulheres em um total de seis integrantes. Essa forte presença feminina na verificação de fatos, área que exige alta assertividade em meio a velocidade da produção de matérias, demonstra que é possível construir equipes diversas, inclusivas e eficientes, mesmo em setores tradicionalmente dominados por homens.

A editora-geral do Bereia Magali Cunha vê a experiência do projeto como uma inspiração: “Como se diz na linguagem da religião cristã, a equidade de gênero na equipe Bereia é um testemunho importante. É uma inspiração para que veículos que, como o Bereia, que defendem o direto humano à informação digna e coerente com os valores da justiça, honrem sua vocação na forma como desenvolvem o trabalho”, afirma a jornalista.

Quem são as mulheres que fazem o Bereia

O Bereia é formado por um coletivo de mulheres talentosas, formadas em diversas áreas do conhecimento, unidas pela paixão pelo jornalismo e pela missão de levar mais verdade nos ambientes religiosos. Conheça um pouco mais sobre elas:

Representatividade é também qualidade

A presença de mulheres em cargos de liderança e em equipes técnicas não é apenas uma questão de igualdade, mas também de qualidade do jornalismo. O estudo intitulado “The Impact of Sexual Harassment on Job Satisfaction in Newsrooms” (O Impacto do Assédio Sexual na Satisfação no Trabalho em Redações), da Universidade de Londres, publicado em 2023, demonstra que a diversidade de gênero nas redações contribui para uma cobertura mais abrangente e sensível a questões que afetam as mulheres e outros grupos sub-representados. 

No caso do Bereia, a forte presença feminina na equipe de checagem pode trazer perspectivas únicas e necessárias para a análise de informações, especialmente em um contexto onde a desinformação afeta desproporcionalmente as mulheres.

Referências:

Blumell, L., Mulupi, D. & Arafat, R. (2023). The Impact of Sexual Harassment on Job Satisfaction in Newsrooms. Journalism Practice, pp. 1-20. doi: 10.1080/17512786.2023.2227613 Disponível em https://openaccess.city.ac.uk/id/eprint/30825/1/The%20Impact%20of%20Sexual%20Harassment%20on%20Job%20Satisfaction%20in%20Newsrooms.pdf 

Intervozes

https://intervozes.org.br/publicacoes/desinformacao-direitos-humanos-contribuicao-onu/#:~:text=Al%C3%A9m%20disso%2C%20a%20desinforma%C3%A7%C3%A3o%20afeta,em%20pa%C3%ADses%20como%20o%20Brasil.

No Dia Internacional da Mulher, editora-geral do Bereia é homenageada pelo enfrentamento à desinformação

A editora-geral do Coletivo Bereia Magali Cunha foi uma das mulheres homenageadas pela Agência Lupa no Dia Internacional da Mulher neste 2024 pelo trabalho de enfrentamento à desinformação. Sob o  título “8 cientistas mulheres que pesquisam desinformação que você precisa conhecer”, Lupa, um hub de soluções de combate à desinformação por meio do jornalismo e da educação midiática, as apresentou e também trouxe uma reflexão de cada uma dentro da área de atuação delas.

Imagem: reprodução do X

Além de Magali Cunha, também receberam o reconhecimento Ana Regina Rego (coordenadora da Rede Nacional de Combate à Desinformação – RNCD), Luisa Massarani (Fiocruz), Thaiane Moreira (UFF), Adriana Barsotti (UFF), Alyne Costa (PUC-RJ), Marie Santini (UFRJ) e Helena Martins (UFC).

Em seu artigo, publicado na revista Debates da NER e reproduzido na Lupa, a editora-geral do Bereia aborda o impacto das mídias sociais no voto das mulheres evangélicas. O foco é a pesquisa qualitativa realizada por Jaqueline Teixeira e Lívia Reis com 45 mulheres evangélicas de diferentes denominações, idades e regiões do Brasil. De acordo com Magali Cunha, três elementos são essenciais em qualquer análise sobre política no Brasil: religião, gênero e mídias.

“Quaisquer considerações sobre a presença de evangélicos na igreja e nas dinâmicas socioculturais e políticas do Brasil precisam levar em conta a expressão de uma religião que carrega simbólicas e intensas marcas das lógicas da mídia e de seu processo de produção de sentidos”, destacou a pesquisadora.

O dia internacional da mulher nos desafia a pensar

O dia internacional da mulher nos oferece a oportunidade de pensar o desafio que o movimento feminista mundial nos lança.

Esse movimento, mais que outros, fez duas revoluções: colocou em questão o machismo e o patriarcalismo. O machismo, como a dominação do homem sobre a mulher, que já se perpetua há séculos.

A luta das mulheres nos desperta para a questão de gênero que envolve relações de poder, que no sistema patriarcal é somente. É necessário haver partilha entre homem e  mulher, evitar divisão sexual de trabalho e priorizar a lógica da distribuição e coparticipação em todo o projeto de vida a dois. Daí surge uma relação mais justa e harmoniosa.

Em segundo lugar, o movimento feminista fez, talvez, a crítica mais consistente à cultura patriarcal, que organizou toda a sociedade e as várias instâncias da vida e também da religião. O homem assumiu o poder através do qual submete os demais, chefia o Estado, cria a burocracia, organiza o exército e faz guerras. Quase todos os heróis e a maioria das divindades são masculinas. Ele ocupa a vida pública e relega à mulher à vida privada e familiar. O patriarcado, pela crítica feminista, foi teoricamente desmantelado, embora na prática, tente sempre de novo dominar a mulher. Um refúgio especial do patriarcado é a mídia e o marketing, que usam a mulher não só no seu todo, mas partes dela, os seios, as pernas, as partes íntimas. É uma forma de transformar a mulher em objeto e uso.

A grande contribuição do feminismo foi ter mostrado que todas ou quase todos as culturas, nos dias de hoje, são patriarcais. Como consequência, a manutenção da desigualdade na relação homem-mulher se perpetua em todos os âmbitos. Seja nos USA, na Alemanha ou no Brasil, uma mulher pode fazer o mesmo trabalho do homem, até o mais competente, mas pelo fato de ser mulher, ganha pelos menos 20-30% a menos que o homem que executa a mesma função. Não basta a consciência da superação teórica do patriarcado, mas a demolição de seus hábitos mantidos nas instituições e comportamentos sociais.

Mas nem sempre foi assim. O ser humano existe há 7-8 milhões de anos. Na primeira fase, que durou milhões de anos, as relações homem-mulher eram de harmonia e de equilíbrio com a natureza. Contrariamente do que crê o pensamento patriarcal, a verdadeira convivência humana não foi regida pela violência de uns sobre outros mas pela solidariedade e cooperação. A violência é recente no processo da antropogênese. Ela começou com o homo faber há dois milhões de anos, que na busca dos alimentos, especialmente da caça, começou a usar o instrumento e a força. O masculino passa, então, a ser o gênero predominante. Ela ganhou hegemonia ao surgir, há 8 mil anos, a agricultura, as vilas, as cidades e os impérios. As relações homem-mulher passam a ser de desigualdade: ele ocupa toda a vida pública, governa sozinho e relega a mulher à função de procriadora e cuidadora do lar.

As mudanças que sempre se buscaram, culminaram no século XX com a segunda revolução industrial, quando a mulher entra no domínio público porque o sistema competitivo faz mais máquinas que machos. Já no final do século XX e até hoje as mulheres são maioria na humanidade e praticamente 50% da força de trabalho mundial. Com isso se cerra, de certa forma, o ciclo patriarcal e se inicia um novo paradigma de valorização das diferenças e a busca da igualdade ainda a ser alcançada.

As mulheres trazem para o sistema produtivo e para o Estado algo radicalmente novo. Não será só competitivo e autoritário. A mulher traz o que viveu no domínio privado: os valores da solidariedade, da partilha e do cuidado. Milenarmente foi educada para o altruísmo. Se um bebê não tiver à sua disposição alguém altruísta que o ampare, não consegue durar, sequer, uns dias. Desta forma, a entrada da mulher no domínio público masculino é condição essencial de humanização e mais cooperação no mundo do trabalho e, o que é fundamental, reverter o processo de destruição da natureza e da espécie humana.

Isso ficou claro na consciência coletiva no Relatório da ONU para o Fundo para a População (FNUAP) que sustenta: “a raça humana vem saqueando a Terra de forma insustentável e dar às mulheres maior poder de decisão sobre o seu futuro pode salvar o planeta de sua destruição”. Veja que aqui não se fala de “poder de participação”que elas sempre tiveram, mas de “poder de decisão”.

São elas que entendem de vida, pois a geram. Serão elas as principais protagonistas na decisão de uma biocivilização acentada no cuidado, na solidariedade e na lógica do coração, sem as quais a vida não viceja. Elas, junto com os homens que desentranharam a sua dimensão de “anima”(cuidado, gentileza e amorosidade) que se articula com a dimensão de “animus” (razão, organização,direção) presentes, em proporções próprias em cada pessoa, poderão dar um rumo novo à nossa existência neste planeta e nos afastar do caminho sem retorno, caminho de perdição.

Leonardo Boff escreveu com Rose Marie Muraro o livro Feminino & Masculino: uma nova consciência para o encontro das diferenças, Record, Rio 2010.