Só uma espiritualidade da Terra e sua ética salvará a Casa Comum

É de praxe, no final de cada ano, fazer-se um balanço do que foi vivido e sofrido. Desta vez, sigo outro caminho. Ousarei refletir sobre a crise planetária que, se não a superarmos, poderá ameaçar a vida sobre a Terra. O tempo do relógio corre contra nós, há muitos negacionistas e não acumulamos suficiente consciência e sabedoria para definir um outro rumo. 

O Papa Francisco em sua encíclica, escrita para a humanidade, Sobre o Cuidado da Casa Comum (2015), observou: “As previsões catastróficas não podem ser olhadas com desprezo e ironia. Podemos deixar às próximas gerações demasiadas ruínas, desertos e lixo. Nosso estilo de vida, insustentável, só pode desembocar em catástrofes” (n.161). Na outra encíclica, Fratelli tutti (2020), foi mais severo: “Estamos no mesmo barco, ou nos salvamos todos, ou ninguém se salva” (n.34).

As várias Conferências das COPs tratam de muitos temas, geralmente, ligados à economia no sentido de como diminuir o efeito estufa – causador do aquecimento global – que, não controlado, pode comprometer, num futuro não muito distante, a vida e a nossa civilização. Nunca, se bem me recordo, tratou-se do principal: como cuidar da Casa Comum como tal. Nunca se evocou aquilo que seria solução para o clamor ecológico: uma espiritualidade natural da Terra e a ética que a acompanha. Só na COP30, em Belém, havia um documento preparatório sobre um Balanço Ético da Situação Mundial. Sequer foi tomado em conta! O vil metal ainda é dominante.

Há uma percepção generalizada de que assim como o mundo está não pode continuar: há demasiada iniquidade social, uma devastação ilimitada de todo o planeta e uma acumulação de riqueza de pequenos grupos como nunca se viu antes na história. 

Ademais, apropriamos-nos dos meios de nossa própria destruição com armas químicas, biológicas e nucleares que, por várias vezes, podem destruir as bases que sustentam a vida e a civilização. O Armagedom não é uma fantasia apocalíptica, mas uma ameaça real, letal e final. 

A alternativa que se põe, indubitavelmente, é: ou mudamos, ou vamos engrossar o cortejo dos que rumam na direção da vala comum, para recordarmos as palavras derradeiras do filósofo Zygmunt Bauman.

Afirmou, acertadamente, o mestre Celso Furtado: “O desafio maior é mudar o curso da civilização, deslocar seu eixo da lógica dos meios a serviço da acumulação, num curto horizonte de tempo, para uma lógica dos fins em função do bem-estar social, do  exercício da liberdade e da cooperação entre os povos” (Brasil: a construção interrompida, Rio de Janeiro 1993,76).

Assumo a contundente afirmação de C.G.Jung: “É minha convicção mais profunda de que, a partir de agora,  até a um futuro indeterminado, o verdadeiro problema é de ordem psicológica. A alma é o pai e a mãe de todas as dificuldades não resolvidas que lançamos na direção do céu” (Cartas III, 2004,243). 

Esclareçamos que para Jung a Psicologia não se restringe ao estudo da psique, mas abrange a totalidade da vida e do universo enquanto percebidos e articulados com o ser humano, seja pelo consciente, seja pelo inconsciente pessoal e coletivo. É nesse sentido que deve ser entendida a ordem psicológica. 

Neste contexto, vale recordar a frase do indiscutido A.Saint-Exupéry na “Carta ao General X”, deixada sobre a mesa em 1943, antes que seu avião fosse derrubado, na qual escreveu: “Não há senão um problema, somente um: redescobrir que há uma vida do espírito que é ainda mais alta que a vida da inteligência, a única que pode satisfazer o ser humano”. Termina a Carta com estas palavras: “temos tanta necessidade de um Deus”. Num texto anterior diz que se cultivássemos a vida do espírito, não haveria todas essas guerras mortais (Macondo Libri 2015, 31.36). O lucro deve assumir outros objetivos para além do lucro, para não terminar a ser uma ameaça global à vida.

Em que sentido uma espiritualidade e uma ética da Terra nos oferecem  uma possível saída da ameaçadora crise planetária? Acompanhem-me neste raciocínio: possuímos nossa exterioridade que constitui a nossa corporeidade. Por ela, temos a ver com tudo o que nos relaciona com o mundo exterior, com a natureza, com os outros, com a sociedade, com as energias e com o universo. Possuímos também nossa interioridade que é o universo da psique com suas pulsões, paixões, estrutura de desejos, imagens poderosas como os arquétipos ancestrais que modelam nossa vida interior e nosso equilíbrio existencial. Por fim, possuímos a profundidade. Por ela  nos capacitamos captar o que está além daquilo que se vê, se pensa. Todas as coisas não são apenas coisas, são símbolos e metáforas de outra realidade que elas recordam e trazem presente. Bem dizia Fernando Pessoa: “tudo é símbolo e analogia, o vento que passa e a noite que esfria; são outra coisa que a noite e o vento – sombras de vida e de pensamento” (Obra poética,1974,463). 

A montanha não é apenas montanha, ela nos traduz o que é majestade. O mar evoca grandiosidade e o céu estrelado, a infinitude. Nestas coisas identificamos valores e significados. Nestas três dimensões está sempre o ser humano inteiro e não compartimentado.

A profundidade se apresenta como o nosso mundo espiritual. Está relacionado com as qualidades humanas como o amor, a empatia, a compaixão, a tolerância, a capacidade de perdoar e o sentido de responsabilidade, a noção da justa medida, o respeito e a veneração face ao Sagrado, realidades profundamente humanas, não tangíveis mas que nos realizam como pessoas. Há uma espiritualidade que nasce da religião, mas não necessariamente. Há pessoas religiosas que não são espirituais pois não cultivam o amor e não se compadecem do pobre. Há outros que não são religiosos, mas vivem o amor e a compaixão. Expressam o que é a espiritualidade. O ideal seria ser simultaneamente religioso e espiritual, mas não necessariamente.

Hoje está se impondo na new science e nas neurociências que o espírito – e daí a espiritualidade – é dimensão do profundo humano, com o mesmo reconhecimento, como a inteligência, a vontade e a afetividade. Chama-se espiritualidade natural, vale dizer, pertence à nossa essência humana da qual bebem todas religiões.

A tragédia de nosso tempo foi ter obscurecido e até reprimido esta dimensão e pondo no seu lugar o materialismo, o consumismo, o individualismo, a vontade de acumulação, a meritocracia e a feroz competição. A consequência é o surgimento de um mundo frio, insensível, incapaz de chorar sobre a desgraça de milhões que morrem de fome e de sede. Recuperar a nossa profundidade, a nossa espiritualidade, é resgatar o melhor de nós mesmos, nossa sensibilidade para com os semelhantes, o cuidado  para com a natureza e o amor à vida acima do lucro.

O filósofo da religião Steven Rockefeller, um dos principais redatores da Carta da Terra assumida pela UNESCO, face à crise da juventude norte-americana, afogada na superficialidade dos meios digitais modernos e  no consumismo, propõe uma democracia espiritual (Spiritual Democracy,N.Y. 2022). Deve ser vivida já na escola primária e em todas as fases da vida, caso contrário nos desumanizamos. A espiritualidade sempre vem acompanhada por comportamentos éticos positivos, pois só assim ela se sustenta e se faz real. Ética e espiritualidade são irmãs gêmeas.

Estes valores intangíveis do mundo do espírito fazem parte de nossa realidade humana total, bem como o invisível do nosso mundo espiritual faz parte do visível.

A espiritualidade resgatada e vivida  nos sinaliza uma alternativa ao nosso modo de habitar a Terra. Ela tem a força de marcar um novo rumo e, destarte, de salvar a vida e nossa Casa Comum.

COP 30: Conferência Mundial do Clima se reúne no Brasil e evento preparatório mobiliza grupos religiosos

Neste 2025, o Brasil receberá delegações governamentais de todo o mundo, organizações nacionais e internacionais, mídias corporativas e alternativas, redes de comunicação, ativistas e estudiosos que têm a defesa do meio ambiente no centro de suas ocupações e preocupações. Entre os dias 10 e 21 de novembro, a cidade amazônica de Belém do Pará será sede da Conferência das Nações Unidas sobre as Mudanças Climáticas de 2025 (COP 30), a maior conferência global sobre mudanças climáticas já realizada no Brasil.

O que é a COP 30?

A 30ª Conferência das Nações Unidas sobre Mudança do Clima (Conferência das Partes/COP,  refere ao termo em inglês Conferece of Parties), é considerado um dos principais eventos sobre o tema no mundo. Um encontro global anual, realizado desde 1995, (Berlim, Alemanha) no qual líderes mundiais, cientistas, organizações não governamentais e representantes da sociedade civil discutem ações para combater as mudanças do clima. 

O encontro, organizado anualmente pela ONU, reúne representantes de quase 200 países signatários do tratado climático internacional para negociar ações de combate ao aquecimento global. A origem da COP está na assinatura da Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudança do Clima, durante a Cúpula da Terra (ECO-92), no Rio de Janeiro, em 1992.

O número “30” se refere justamente à edição do evento, que já percorreu diferentes cidades do mundo ao longo das últimas três décadas. A escolha de Belém é considerada simbólica por colocar a Amazônia — região estratégica para o equilíbrio climático do planeta — no centro das discussões globais. 

Neste momento em que o Brasil chama a atenção do mundo, no protagonismo de várias pautas políticas e econômicas, e nesta etapa da vida na Terra em que a crise climática está cada vez mais aguda, com a vida em todas as dimensões sob ameaça,  a realização da COP no país ganha forte relevância. Esta é a compreensão das lideranças governamentais brasileiras, entre elas, a ministra do Meio Ambiente e Mudança do Clima Marina Silva. A ministra, que é evangélica, nascida em um seringal na Amazônia (Acre), alfabetizada na adolescência aprendeu com a vida a defender o meio ambiente e se tornou uma das personalidades mais relevantes no mundo nesta pauta.

Em entrevista ao programa Bom Dia, Ministra, da Empresa Brasil de Comunicação (EBC), Marina Silva destacou a relevância da COP 30 para o país. “Nós estamos num momento crucial, que é o momento da implementação de tudo que foi decidido, debatido ao longo desses 33 anos. Nós já estamos vivendo sob os efeitos da mudança do clima, com eventos climáticos extremos no mundo inteiro. Só em função das ondas de calor, mais de 170 mil pessoas morrem por ano no mundo inteiro. Só para se ter uma ideia, quando você acrescenta secas, furacões, tufões, enchentes torrenciais, esse número é avassalador, então é uma COP muito desafiadora e num contexto complexo”, declarou a ministra.

Marina Silva ainda afirmou na entrevista que o Brasil vai liderar a COP 30 pelo exemplo. “O Brasil tem insistido muito desde 2003, quando eu fui ministra pela primeira vez, que é a decisão de liderar pelo exemplo. Hoje, a gente precisa mais do que falar, fazer”, explicou a ministra.

Buscando o fazer mais do que falar, entre as centenas de participantes dos tantos espaço de discussão e manifestação da COP 30 estarão também vozes religiosas. É fato que os impactos da crise climática são sentidos por toda a sociedade e as tradições religiosas são marcadas por teologias e práticas que dão lugar de destaque ao meio ambiente, como Criação Divina. Porém, o engajamento das tradições religiosas com a pauta ambiental ainda é marcado por aproximações, envolvimentos, indiferenças e afastamentos.

Bereia levantou as movimentações que mobilizam grupos religiosos em torno da realização da COP 30 e recuperou a memória da participação deles em eventos que antecederam esta conferência.

Vigílias pela Terra: mobilização inter-religiosa rumo à COP 30

Um exemplo concreto das articulações religiosas em torno da COP 30 é a iniciativa do projeto Fé no Clima, do Instituto de Estudos da Religião (ISER), que tem promovido as “Vigílias pela Terra” em várias capitais brasileiras ao longo de 2025. Inspirada na primeira vigília inter-religiosa realizada na ECO-92, também organizada pelo ISER, a mobilização reúne tradições religiosas diversas em defesa do planeta.

No sábado, 30 de agosto, o Largo da Candelária, no centro do Rio de Janeiro, recebe a edição carioca da vigília, com apresentações artísticas de Jongo da Serrinha, Kaê Guajajara, Xangai, Coral Guarani da Aldeia de Mata Bonita, Olivia Byington e muitos outros.

Para o diretor-adjunto do ISER Clemir Fernandes, a mobilização traz um diferencial ético e espiritual. “Mais de três décadas depois, as religiões e tradições espirituais podem aportar um despertamento ético fundamental para que tomadores de decisão sejam ousados e eficazes no cumprimento de metas para enfrentar a crise climática.”

A coordenadora de Meio Ambiente e Religião do ISER Isabel Pereira, reforça a dimensão pedagógica. “Apesar das limitações das negociações oficiais da COP, temos a oportunidade de fazer o tema chegar a mais pessoas. A mobilização popular pode ser transformadora, especialmente quando conecta os territórios e as agendas locais.”

A pastora evangélica Priscilla Ribeiro também reforça o papel de cristãos evangélicos nesse processo. Para ela, a participação é essencial para “fomentar uma cultura de pensamento crítico sobre justiça climática e ambiental”.

“Como discípulos e discípulas de Jesus, nossa missão é criar pontes para que seja possível agir em cooperação não só por políticas públicas, mas também por uma nova mentalidade, não predatória, mas propositiva, de uma convivência harmônica e respeitosa entre todos os seres da criação de Deus”, afirma Ribeiro.

Entre as lideranças presentes no evento, a ambientalista e representante dos budistas na Vigília Maíra Fernandes de Melo acredita que a ideia de trazer todas as religiões juntas para cuidar da “nossa mãe comum” faz muito sentido.

 “Quando você junta a energia coletiva de tanta gente em torno de um mesmo propósito, a força que isso tem é muito maior do que cada um mobilizado no seu próprio canto. Esse encontro é fundamental, primeiro porque as religiões têm um alcance e um poder muito grandes, em termos de influência.Em termos budistas, a gente pode chamar de um despertar coletivo”, declara Fernandes.  

A Ìyálorixá Mônica de Ọba irá representar os candomblecistas no evento promovido pelo ISER no Rio e entende a importância em participar desta ação. “Como liderança religiosa, representante das comunidades tradicionais de Terreiro, entendo que representa uma ótima oportunidade de visibilização, inclusão e igualmente de nossa religião fazer parte de um evento com esta temática em favor do compromisso com a pauta ambiental e climática”.

Nós na Criação

Em Recife (PE), a Vigília pela Terra contará com a participação do fundador do movimento “Nós Na Criação” o pastor da Igreja Batista do Coqueiral Josias Vieira Kaeté. De acordo ele, que também compõe a equipe de parceiros do ISER que organiza o evento na capital pernambucana, a vigília vai trabalhar uma mescla entre falas de espiritualidades diversas e manifestações artísticas. “Em Recife, a gente tem uma peculiaridade muito interessante, a nossa arte brota do chão. Ela brota da vida da pessoa comum, nossos mestres e mestras são pessoas pobres que sofrem as consequências de uma crise climática que chega primeiro neles. É com esse espírito, que daremos os braços entre os diferentes para celebrar a vida e promover uma vigília, que vai marcar com voz profética aquilo que precisa ser marcado”, declara.

As Vigílias pela Terra acontecem em cinco regiões do Brasil. A mobilização teve  início em abril deste ano, no ato de abertura do Acampamento Terra Livre (ATL), em Brasília, e seguiu  para Porto Alegre. O evento também será realizado em Manaus, em 6 de setembro; Natal, em 13 de setembro; Recife, em 11 de outubro. A culminância deste percurso será uma vigília de múltiplas tradições espirituais e  sociais, em novembro, durante a COP 30, em Belém, que ocorrerá no âmbito do “Tapiri Ecumênico e Inter-religioso COP 30”.

Um momento decisivo: As novas vigílias pela Terra

À medida que o Brasil se prepara para receber a COP 30, cresce o debate sobre o papel das religiões na luta climática. Para além das diferenças teológicas, o que está em jogo é a capacidade de mobilizar milhões de pessoas em torno de um valor comum: o cuidado com a vida na Terra. 

Nas posturas e nos documentos de católicos e evangélicos, nas ações das tradições de Terreiro, na espiritualidade budista, nas vozes das nações e povos indígenas e de outras comunidades, a mensagem parece convergir: sem espiritualidade, a luta ambiental corre o risco de ser apenas técnica; sem ação prática, a espiritualidade corre o risco de ser apenas discurso. A lição da ECO-92 continua presente: a pela fé e pelo “espírito de 1992” (invisível, coletivo e real) novos avanços e ações globais se tornam visíveis. 

O Bereia está entre os parceiros do ISER na realização da Vigília pela Terra, Rio de Janeiro, no sábado, 30 de agosto, a partir das 15h, no Largo da Candelária, no Centro da Cidade. O evento é um importante meio de informação sobre os desafios da COP 30 e de enfrentamento da desinformação sobre a crise climática. 

Para participar e saber mais: Vigília pela Terra, Rio

CONVITE

https://iser.org.br/noticia/convite-vigilias-pela-terra-30-de-agosto-no-rio-de-janeiro/

Foto capa: Fabio Rodrigues-Pozzebom/Agência Brasil

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