Quem é o deputado Cezinha de Madureira, evangélico articulador do encontro secreto entre Vorcaro e André Mendonça 

Mensagens e áudios extraídos do celular do banqueiro Daniel Vorcaro, divulgados pela imprensa neste 2 de setembro de 2026, revelam que o deputado federal e pastor evangélico Cezinha de Madureira (PL), ao lado do advogado baiano Ciro Rocha Soares, passou semanas articulando um encontro em Brasília entre o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF), o pastor presbiteriano André Mendonça e o banqueiro, preso desde março de 2026. A reunião durou cerca de duas horas e não constava na agenda pública do ministro.

Mendonça confirma parcialmente o episódio, ocorrido em 14 de março de 2025,no Instituto Iter, em Jardim Paulista, São Paulo. Ele afirma ter “se limitado a ouvir” Vorcaro e ter tratado apenas de uma ação sobre precatórios, a STP 976. Apesar de ser um encontro entre o juiz da causa e o investigado/réu, Mendonça nega ter discutido os problemas do Master junto ao Banco Central.

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Suspensão de Tutela Provisória (STP) é um processo da Advocacia Geral da União (AGU) encaminhado ao STF para suspensão de decisões que interfiram negativamente em políticas públicas. No caso da STP 976, a AGU demandou do STF a suspensão do pagamento de precatórios (dívidas judiciais do governo) que o Banco Master comprou de terceiros em 2023,  sob suspeita de que parte desses créditos tenha sido emitida de forma irregular. O ministro do STF André Mendonça assumiu a relatoria desse processo específico em fevereiro de 2026, quase um ano depois do encontro reservado com Vorcaro, o maior interessado no pagamento dos precatórios.

A revelação do caso, pelo jornalista Paulo Motoryn, em sua newsletter Noites Húngaras, publicada com exclusividade pelo ICL Notícias, colocou Cezinha de Madureira no centro de uma investigação sensível e levanta algumas questões: por que um deputado federal, liderança da Bancada Evangélica, serviu de ponte entre um banqueiro sob escrutínio regulatório e um ministro da mais alta corte do país, e o que essa capacidade de abrir portas em qualquer esfera de poder revela sobre o personagem que a exerce?

Foto: Marina Ramos/Câmara dos Deputados

Essa não é a primeira vez que Cezinha de Madureira aparece como o homem que conecta personagens políticas em esferas diferentes. Bereia faz um levantamento do perfil do deputado federal e reconstrói a trajetória do radialista baiano que virou “ungido” da maior denominação evangélica do país, a Assembleia de Deus – Ministério Madureira. Também aborda como, décadas depois, ele transita com desenvoltura entre direita, esquerda, bancada evangélica e ministros do Supremo. 

Imagem: Cezinha de Madureira acompanha bispo Samuel Ferreira (Assembleia de Deus Madureira) em visita ao presidente Lula, em outubro de 2025. Reprodução do perfil de Gleisi Hoffmann no Instagram, 16 out 2025.

Imagem: Cezinha de Madureira na garupa durante motociata do ex-presidente Jair Bolsonaro, em 2021. Imagem extraída de matéria da CNN – https://www.cnnbrasil.com.br/politica/bolsonaro-escolhe-lider-religioso-para-garupa-de-moto-de-olho-em-2022/ Acesso em 2 set 2026

O encontro que vazou

Segundo a reportagem de Motoryn, veiculada pelo ICL, a aproximação entre Daniel Vorcaro e André Mendonça foi arquitetada ao longo de semanas no início de 2025, quando o banqueiro estava em vias de ser preso por golpes no sistema financeiro. Em troca de mensagens com Vorcaro, nos dias 7 e 8 de fevereiro, o advogado baiano Ciro Rocha Soares relata que está “trabalhando” por ele e que havia conseguido um encontro com Mendonça. Em seguida, envia uma foto ao lado do ministro do STF numa alfaiataria em São Paulo. Soares diz, ainda, ter deixado Mendonça “balançado” com o assunto do Master. Um novo encontro chegou a ser agendado para 19 de fevereiro, sem confirmação de que tenha ocorrido. 

Em 13 de março, foi a vez do deputado Cezinha de Madureira entrar em ação: marcou um encontro com Mendonça sobre o caso Vorcaro para o dia seguinte, às 17h, no Instituto Iter, ,do próprio ministro do STF. No áudio de posse da Polícia Federal, Ciro Soares relata que o deputado avisa Vorcaro, a caminho da reunião:  “o ministro já está te esperando”. Segundo o advogado, Mendonça já sabia previamente do assunto, pois “o Cezinha já tinha falado com ele” sobre os problemas do Banco Master junto ao Banco Central. Portanto, as mensagens sugerem que Cezinha de Madureira não apenas articulou a logística do encontro, mas também preparou o terreno de conteúdo antes que ele acontecesse.

O encontro de 14 de março durou cerca de duas horas. Na nota oficial em que confirmou o episódio, Mendonça disse ter recebido Vorcaro “uma única vez”, por iniciativa do banqueiro; afirmou que se “limitou a ouvi-lo”, que manteve registro escrito do encontro em seu gabinete, que o assunto se restringiu à ação STP 976 sobre precatórios, então sob relatoria de outro ministro, e que seu voto posterior no caso Master foi contrário aos interesses do banqueiro. 

No dia seguinte ao encontro, o advogado Ciro Soares enviou a Daniel Vorcaro uma foto ao lado do procurador-geral da República Paulo Gonet, com a mensagem “Liga aqui… Ele quer falar com você”, seguida de quatro ligações entre os dois em poucos minutos. Este seria um indício, ainda não plenamente esclarecido publicamente, de que a rede de contatos articulada por Cezinha de Madureira e Ciro Soares pode não ter se limitado ao Judiciário.

Antes da reunião de Vorcaro e Mendonça, na manhã daquele mesmo dia, o ministro do STF participou de um evento no Tribunal de Contas do Estado de São Paulo (TCE-SP) junto com Cezinha de Madureira. A questão Master/Vorcaro não foi tratada no encontro, Mendonça e o deputado do PL compuseram a mesma mesa durante a posse solene do conselheiro Maxwell Borges de Moura Vieira, segundo registro oficial do TCE-SP. 

A cerimônia ocorreu no Auditório Nobre do tribunal, na capital paulista. Horas depois, segundo os áudios já divulgados, André Mendonça recebeu Vorcaro no Instituto Iter, entidade fundada por ele em 2024, em encontro que durou cerca de duas horas.

A Revista Fórum revelou que a instituição acumulou ao menos R$ 10,8 milhões em contratos com órgãos públicos desde novembro de 2023, dos quais 54, o equivalente a 98,2% do total, foram firmados sem licitação prévia, a maior parte por inexigibilidade.

Após as revelações sobre os contratos firmados sem licitação com órgãos públicos pelo instituto do qual é sócio, o ministro André Mendonça decidiu deixar a entidade, da qual detém, com a esposa, 77,5% de participação. Segundo nota divulgada pelo Iter, ele cederá suas cotas e de sua esposa sem contrapartida financeira e passará a prestar ali apenas serviços acadêmicos, na condição de professor.

Até o fechamento desta apuração, não havia declaração pública de Cezinha de Madureira sobre seu papel no episódio. 

De rádio comunitária ao púlpito político

Antonio Cezar Correia Freire nasceu em 12 de dezembro de 1973 em Ipiaú, na Bahia, e começou a trabalhar no rádio ainda adolescente, na comunicação comunitária baiana. Membro da Assembleia de Deus, aos 18 anos, em 1991, mudou-se para São Paulo, onde construiu carreira como radialista e apresentador de programas religiosos. Apresentou o “Plantão da Vida” (Band e RedeTV!) e o “Palavra de Vida” (Rádio Musical FM) ao lado do pastor Samuel Ferreira, hoje bispo e presidente-executivo da Convenção Nacional das Assembleias de Deus – Ministério de Madureira, denominação presente em quase todo o país e também no exterior. Em 2012, foi ordenado pastor do ministério, em São Paulo.

Foi esse vínculo com a família Ferreira que o lançou à política. Elegeu-se deputado estadual em São Paulo em 2014, pelo Democratas (ex-PFL), ainda como “Pastor Cezinha”. O pseudônimo “de Madureira” só viraria marca política depois, associando seu nome à força eleitoral da vertente das Assembleias de Deus.  

Em 2018 e 2022 Cezinha de Madureira elegeu-se e reelegeu-se deputado federal por São Paulo, agora pelo PSD, tendo sido vice-líder do governo de Jair Bolsonaro na Câmara Federal. Em 2026, filiou-se ao PL para concorrer à reeleição, mudança de legenda que ocorreu, em São Paulo, na mesma leva que incluiu outros pastores do Ministério Madureira, incluindo seu colega de bancada estadual Oséias de Madureira.

Imagem: Reprodução de publicação de Cezinha de Madureira no Instagram, 29 ago 2026

O ungido do bispo

A reportagem “Ungido por chefe de igreja, Cezinha de Madureira dobrou patrimônio na política”, da Folha de S.Paulo (Carlos Petrocilo, 2019), descreve com precisão a natureza dessa relação. O deputado federal  é apresentado como o escolhido do bispo Samuel Ferreira para “alavancar o projeto de poder da igreja” no Legislativo. Venceu, para isso, uma disputa interna com outros pastores-políticos da denominação, entre eles Alex de Madureira.

Samuel Ferreira comanda o Ministério Madureira ao lado do pai, o bispo Manoel Ferreira (presidente vitalício da Convenção Nacional das Assembleias de Deus e bispo-primaz da AD Madureira), e do irmão, o bispo e pastor-presidente da igreja Abner Ferreira. Este núcleo familiar, segundo a mesma reportagem, Cezinha de Madureira trata como sua própria família, inclusive se referindo à Samuel Ferreira como “pai adotivo” e do qual diz depender para dar entrevistas, redigir discursos e propor projetos: “Estou aqui porque a igreja me colocou, foi a igreja que me elegeu. Respondo ao meu povo através do meu líder.”

A reportagem da Folha de S. Paulo também registra que o patrimônio declarado do deputado federal do PL-SP à Justiça Eleitoral saltou de R$ 230 mil, em 2014 (um único imóvel), para R$ 469 mil, em 2018 (dois veículos, aplicações, previdência privada, consórcio e uma casa de R$ 380 mil). Além disso, o nome do parlamentar apareceu, com um valor simbólico de R$ 16, na lista de doações da JBS a 1.829 políticos nas eleições de 2014, repassado via campanha do então colega de chapa Antônio Goulart (PSD-SP). Em 2026, o político declarou um total em bens de R$ 3.104.759,28, mais de 10 vezes o patrimônio inicial. 

Imagem: Reprodução de publicação do perfil de Cezinha de Madureira no Instagram, 21 mai 2026

A guerra pela Frente Parlamentar Evangélica

Cezinha de Madureira presidiu a Frente Parlamentar Evangélica (FPE) em 2021, sob um acordo informal de revezamento fechado, em dezembro de 2020, com o pastor deputado federal Sóstenes Cavalcante (então DEM-RJ, depois PL), afilhado político do pastor Silas Malafaia, presidente da Assembleia de Deus Vitória em Cristo. O acordo previa a transferência da presidência a Sóstenes Cavalcante em 2022. Entretanto, quando deveria repassar a presidência, Cezinha de Madureira sugeriu que “o que existe hoje é um combinado entre nós”. Com isso, questionou o caráter formal do pacto inicial, enquanto Cavalcante reivindicava um acordo gravado em vídeo e assinado por quatro parlamentares da bancada de Madureira.

A disputa expôs publicamente a rivalidade entre os dois maiores polos do pentecostalismo político brasileiro: de um lado a família Ferreira e seu Ministério da Assembleia de Deus, com Cezinha de Madureira como principal fiador no Congresso; do outro, Silas Malafaia e seu afilhado Sóstenes Cavalcante, com direito a áudio vazado em que o presidente da Assembleia de Deus Vitória em Cristo chama Samuel Ferreira de “pseudo líder covarde”.

A transição na FPE só se consumou em 9 de fevereiro de 2022, em sessão marcada por um culto com Santa Ceia, hinos evangélicos e a declaração do deputado federal Silas Câmara  (Republicanos/AM) de que os parlamentares evangélicos eram “a boca de Deus no Parlamento”. Como saída para o impasse, a bancada reduziu o mandato da presidência da FPE de dois para um ano, um desfecho que, na prática, distribuiu o poder entre as duas facções em vez de resolver a disputa por hegemonia.

Imagem: Reprodução de matéria do jornal O Globo, publicada em 17 jan 2022

Articulações pelos poderes

A relação entre o deputado Cezinha de Madureira e o ministro André Mendonça não é de agora. Na ocasião da candidatura do pastor presbiteriano, ex- ministro da Justiça do governo Jair Bolsonaro, ao STF, foi o parlamentar quem levou Mendonça a um evento da Assembleia de Deus Madureira, no Rio, para apresentá-lo à liderança e conquistar o apoio do ministério. O lobby foi bem sucedido: as principais lideranças assembleanas do Ministério Madureira, estiveram ao lado de Mendonça durante a sabatina no Senado. O apoio pressionou por votos para a aprovação de seu nome ao cargo que ocupa até hoje. A votação ocorreu em dezembro de 2021, justamente quando Cezinha de Madureira presidia a Frente Parlamentar Evangélica na Câmara Federal. 

A figura de Cezinha de Madureira como mediador de articulações de poder, se mostrou destacada em 2025, em outra direção. Em 16 de outubro daquele ano, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva recebeu no Palácio do Planalto os bispos Manoel Ferreira e Samuel Ferreira, da Igreja Assembleia de Deus Madureira, em um encontro articulado pelo deputado federal, então do PSD. Cezinha atuou como elo entre o Planalto e as lideranças assembleanas, enquadrando a visita como institucional e não política, segundo ele, a convite do próprio presidente. Também participaram do encontro o evangélico batista, advogado-geral da União, Jorge Messias, e a então ministra das Relações Institucionais Gleisi Hoffmann. O encontro reforçava a busca de aproximação entre o governo e o segmento evangélico. De acordo com o Cezinha de Madureira, o grupo orou com Lula “diante do momento conturbado do país”, num gesto que buscou emprestar ao encontro um tom espiritual e conciliador.

Questionado por jornalistas sobre possíveis tratativas políticas, como a indicação de Messias ao STF ou articulações de alianças para 2026, o deputado federal negou qualquer negociação ou pedido, insistindo no caráter estritamente protocolar da visita. Ao final, os bispos entregaram a Lula uma edição especial da “Bíblia do Culto do Ministro” e um exemplar comemorativo do Centenário de Glória da igreja, gesto simbólico que reforçou o tom de aproximação institucional buscado por Cezinha. 

A repercussão veio principalmente pelas redes depois de Gleisi Hoffmann ter publicado registros do encontro destacando a presença das lideranças religiosas e a oração feita pelo país e pelo presidente. Houve comentários de apoio e de condenação ao papel do deputado, reconhecidamente integrante da oposição.

Imagem: Senadora evangélica Eliziane Gama (PSD/MA) repercute o encontro de Lula com bispos da AD Madureira. Perfil de Eliziane Gama no Instagram, 16 out 2025. 

Imagem: Reprodução de matéria da revista Comunhão, publicada em 24 out 2025

Dias antes de as mensagens sobre o encontro com Vorcaro virem a público, o nome de Cezinha de Madureira já havia circulado por outro motivo. Em 25 de agosto, a Polícia Federal apreendeu R$ 510 mil em espécie na bagagem da advogada e empresária Valéria Rodrigues Linhares, no Aeroporto de Congonhas. Na cobertura do caso, o colunista do Globo Lauro Jardim identificou a mulher como esposa do deputado. Ainformação era incorreta, já que a mulher do deputado é a pedagoga Elis Freire. 

O próprio parlamentar telefonou ao colunista para desmentir a relação; Jardim registrou a ligação na nota, mas manteve a informação errada original no ar. Os sites da Revista Fórum e do Brasil 247, que também haviam reproduzido o erro, retiraram as matérias do ar, (mas ainda aparecem em pesquisas do Google); o ICL Notícias, por sua vez, publicou uma retratação. 

Até o fechamento desta reportagem, a nota do Globo permanecia publicada sem correção, apenas com o registro da ligação do deputado, o que induz ao erro e causa desinformação. Quem apenas lê rapidamente a manchete ou o link inicial continua absorvendo a informação falsa. 

A coluna errou também a data da atualização: Como a nota original foi publicada em 28 de agosto de 2026, a inserção do texto de correção com menção “Atualização no dia 20 de agosto” ficou cronologicamente incoerente (uma data anterior à própria notícia), expondo o descuido e a pressa no momento de publicar a retificação.

Imagem: Reprodução de matéria do jornal O Globo, publicada em 28 Ago 2026. Acesso em 3 set 2026

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A articulação entre o banqueiro preso por golpe financeiro Daniel Vorcaro e o ministro do STF André Mendonça não é caso isolado na trajetória do deputado federal e pastor Cezinha de Madureira. É a mesma habilidade que o levou a ser escolhido pelo bispo Samuel Ferreira para representar a Assembleia de Deus Madureira no Congresso, e que o manteve relevante nas articulações da Frente Parlamentar Evangélica dividida por disputas internas: a de transitar entre esferas de poder que, em tese, não costumam se comunicar.

Nesse mesmo período, o patrimônio declarado do político evangélico saltou de R$ 230 mil, em 2014, para mais de R$ 3,1 milhões hoje. A investigação sobre o encontro com Vorcaro não trata desse crescimento patrimonial, mas o dado ajuda a dimensionar a trajetória de um deputado cuja principal marca, ao longo de três décadas, foi a proximidade com figuras de peso em espaços de poder distintos.

Até o fechamento desta apuração, Cezinha de Madureira não havia se pronunciado sobre seu papel na articulação do encontro. Bereia seguirá acompanhando o caso.

Referências

Blog Noites Húngaras

https://paulomotoryn.substack.com/p/urgente-mensagens-e-audios-ineditos – Acesso em 2 set 26

ICL Notícias
https://iclnoticias.com.br/vaza-mendonca-mensagens-e-audios-ineditos – Acesso em 2 set 26

CNN Brasil

https://www.cnnbrasil.com.br/politica/mendonca-admite-encontro-com-vorcaro-em-2025-para-tratar-de-precatorios/ – Acesso em 2 set 26

Câmara dos Deputados

https://www.camara.leg.br/deputados/204504?ano=2025 – Acesso em 2 set 26

G1

https://g1.globo.com/politica/noticia/2026/09/02/mendonca-diz-que-recebeu-vorcaro-uma-unica-vez-para-tratar-de-acao-sobre-precatorios-no-stf.ghtml – Acesso em 2 set 26

https://g1.globo.com/politica/noticia/2026/09/01/quem-e-ciro-soares.ghtml – Acesso em 2 set 26

Veja

https://veja.abril.com.br/coluna/radar/deputado-que-orou-com-lula-rebate-critica-de-lider-do-pl-a-messias-no-stf/ – Acesso em 2 set 26

Uol

https://noticias.uol.com.br/politica/ultimas-noticias/2025/10/19/deputado-aliado-bispo-samuel-ferreira-encontro-lula.htm – Acesso em 2 set 26

Metrópoles

https://www.metropoles.com/sao-paulo/pl-filiacao-evangelicos-ex-kassab-sp – Acesso em 2 set 26

O Globo

https://oglobo.globo.com/politica/briga-pelo-poder-abre-crise-na-bancada-evangelica-no-congresso-1-25356916 – Acesso em 2 set 26

Folha

https://www1.folha.uol.com.br/poder/2019/01/ungido-por-chefe-de-igreja-cezinha-de-madureira-dobrou-patrimonio-na-politica.shtml – Acesso em 2 set 26

Congresso em Foco

https://www.congressoemfoco.com.br/noticia/113023/com-messias-lula-recebe-deputado-e-bispos-evangelicos-no-planalto   Acesso em 2 set 2026

Banco do grupo do Bispo Edir Macedo é alvo de investigação de fraudes similares às do Banco Master

O nome do bispo evangélico Edir Macedo, fundador da Igreja Universal do Reino de Deus (IURD), voltou a repercutir nos últimos dias após a Polícia Federal deflagrar, em 23 de junho passado, a Operação Miragem. A ação apura suspeitas de fraudes na gestão do Banco Digimais, instituição financeira controlada por Macedo. 

De acordo com a PF, há indícios de manipulação de balanços, ocultação da real situação financeira do banco e outras práticas que podem configurar crimes contra o Sistema Financeiro Nacional. Diante da repercussão do caso nas mídias,  o Bereia checou a veracidade das informações circulantes e qual é a relação entre o Digimais, Edir Macedo e a IURD, e se lideranças ligadas à denominação ocupam postos estratégicos na gestão do banco. 

Operação Miragem 

A ação mobilizou mais de 50 policiais federais para o cumprimento de nove mandados de busca e apreensão expedidos pela Justiça Federal em São Paulo. A decisão judicial também autorizou a quebra dos sigilos bancário e fiscal dos investigados, além do sequestro e bloqueio de até R$ 670 milhões em bens e valores.

Segundo a Polícia Federal, as investigações se baseiam em relatórios do Banco Central do Brasil e apontam indícios de manipulação de demonstrativos contábeis e registros regulatórios com o objetivo de ocultar a real situação financeira da instituição. Para a PF, as supostas irregularidades buscavam aparentar solvência perante os órgãos de controle e viabilizar operações consideradas irregulares.

Os investigados poderão responder, conforme o grau de responsabilidade de cada um, por crimes como gestão fraudulenta, inserção de dados falsos em demonstrativos contábeis e realização de operações de crédito vedadas, previstos na Lei nº 7.492/1986. 

Além da PF: outras suspeitas e questionamentos sobre o Digimais

Além da investigação conduzida pela Polícia Federal, o Banco Digimais também passou a ser alvo de questionamentos no mercado financeiro e na Justiça por causa de operações com carteiras de crédito e da situação financeira da instituição.

Com base em estimativas de mercado, o patrimônio líquido do banco estaria negativo em cerca de R$ 8,5 bilhões. Além disso, após a crise que envolveu o Banco Master, o mercado passou a acompanhar com mais atenção a situação de bancos de menor porte, sobretudo por causa dos possíveis impactos sobre o Fundo Garantidor de Créditos (FGC), responsável por assegurar depósitos e aplicações em determinadas situações.

O Digimais também teria adotado práticas semelhantes às atribuídas ao Banco Master, como a oferta de Certificados de Depósito Bancário (CDBs) com rentabilidade elevada e o uso da cobertura do FGC como atrativo para investidores. 

Outro ponto envolve uma disputa judicial movida pelo fundo EXP1, que acusa o Digimais de vender carteiras de crédito com irregularidades. De acordo com a ação, o fundo pagou R$ 650 milhões, em fevereiro de 2025, por carteiras de crédito consignado do banco. Após a entrega da documentação, uma auditoria contratada pelo fundo teria identificado inconsistências em parte relevante dos contratos, incluindo operações sem lastro documental. O fundo pediu explicações ao banco e solicitou o ressarcimento dos valores investidos, acrescidos de juros. O caso segue em tramitação na Justiça de São Paulo. 

A investigação também ganhou repercussão política após vir à tona que o Banco Digimais recebeu aval da gestão Tarcísio de Freitas (Republicanos) para oferecer crédito consignado a policiais militares paulistas. O credenciamento foi publicado em julho de 2025 pela Diretoria de Folha de Pagamento da Secretaria de Gestão e Governo Digital. O contrato com a Polícia Militar foi firmado em agosto daquele ano, com vigência até 2030. A autorização ocorreu quando o banco já enfrentava questionamentos sobre sua situação financeira.

A ligação política chama atenção porque o partido do governador, o Republicanos, é historicamente ocupado pela IURD. Após a operação da Polícia Federal, a oposição passou a cobrar explicações do governo paulista sobre a autorização para que o banco atuasse no consignado da PM. Em resposta, o governo de São Paulo afirmou que não houve contratação direta entre o Estado e o Digimais, mas apenas credenciamento da instituição para operar a modalidade junto aos servidores. A situação segue sob investigação. 

Digimais, Edir Macedo e a Igreja Universal 

A relação entre o Digimais e o bispo Edir Macedo antecede a atual investigação da Polícia Federal e passa pela trajetória do antigo Banco Renner, instituição fundada em 1981, no Rio Grande do Sul. A aproximação começou em 2009, quando empresas ligadas ao grupo de Macedo anunciaram a compra de participação no banco. Em 2013, o Banco Central autorizou a aquisição de até 49% do capital da instituição por empresas associadas ao grupo Record, controlado por Macedo e sua família. Na época, o controle do banco ainda permanecia com a família Renner. 

A mudança decisiva ocorreu em 2020, quando Edir Macedo assumiu o controle integral da instituição. A partir daí, o Banco Renner passou por reestruturação, adotou o nome Digimais, transferiu a sede para São Paulo e passou a operar com foco digital. Com essa mudança, pessoas ligadas ao círculo de confiança de Macedo ocuparam posições centrais na administração do banco. 

Entre esses nomes está o bispo da IURD João Luiz Urbaneja, homem de confiança de Edir Macedo. Urbaneja assumiu funções de comando no banco após a consolidação do controle pelo grupo de Macedo e, mais tarde, passou a presidir o Conselho de Administração do Digimais. Documentos da própria instituição o apontam como uma das principais figuras da estrutura de governança do banco. 

Outro nome de destaque é Thiago Rodrigues Urbaneja, filho de João Luiz Urbaneja e também ligado à Igreja Universal. Ele ocupou a presidência executiva do Digimais e integrou o Conselho de Administração como vice-presidente. Assim, pai e filho ocuparam simultaneamente postos estratégicos na direção da instituição financeira. 

A presença de João Luiz Urbaneja e de Thiago Urbaneja na estrutura de comando do Digimais é um dos principais elementos que conectam o banco ao universo da Igreja Universal. Ambos transitam entre a esfera religiosa e a gestão da instituição financeira, o que reforça a presença de lideranças ligadas à igreja em um setor que vai além da atividade estritamente religiosa. 

A Operação Miragem também alcançou esse núcleo. João Luiz Urbaneja e Thiago Urbaneja estão entre os investigados pela Polícia Federal no caso que apura suspeitas de fraudes na gestão do banco. A investigação não mira a IURD como instituição religiosa, mas atinge dirigentes do Digimais que mantêm vínculos com a estrutura de confiança do grupo comandado por Edir Macedo. 

Nesse sentido, a relação entre a IURD e o Digimais não se dá, necessariamente, por uma propriedade formal da igreja sobre o banco, mas pela presença de Edir Macedo no controle da instituição e pela atuação direta de quadros ligados à liderança da denominação em cargos estratégicos da administração financeira.

A conexão com o caso Master e a Igreja Batista da Lagoinha

A relação entre o Banco Digimais, Edir Macedo e quadros da Igreja Universal dialoga com outro caso recente acompanhado pelo Bereia: as investigações sobre o Banco Master e suas conexões com pessoas ligadas à Igreja Batista da Lagoinha. Embora os dois episódios envolvam personagens, estruturas empresariais e apurações distintas, eles têm um ponto em comum: a presença de vínculos pessoais, familiares ou institucionais entre controladores de instituições financeiras e lideranças do campo religioso. 

No caso do Banco Master, essa rede de relações antecede a própria ascensão de Daniel Vorcaro no mercado financeiro. A aproximação da família Vorcaro com a Igreja Batista da Lagoinha remonta ao pai do banqueiro, Henrique Vorcaro, apontado como o responsável por consolidar os primeiros laços com a igreja. Convertido ao evangelicalismo, ele financiou projetos ligados à denominação e, de acordo com relatos citados na investigação, teria ajudado a quitar uma dívida relacionada à compra de um veículo feita pelo pastor André Valadão, cerca de 25 anos atrás. 

A conexão se fortaleceu também no plano pessoal e familiar. Antes de se tornar banqueiro, Daniel Vorcaro frequentou a Lagoinha em Belo Horizonte e chegou a apresentar um programa gospel na Rede Super, emissora ligada à igreja. Mais tarde, a ligação ganhou novo peso com o casamento de sua irmã, Natália Vorcaro, com o pastor Fabiano Zettel, também vinculado à Lagoinha. 

As investigações sobre o Master passaram a mirar não apenas o banqueiro e operadores financeiros, mas também pessoas ligadas a esse círculo religioso e familiar. Relatórios do Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf), mencionados pelo Bereia, registram movimentações consideradas relevantes envolvendo pessoas próximas à Lagoinha. 

Um dos registros aponta cerca de R$ 3,9 milhões transferidos pelo Banco Master para a Amando Vidas Produtora e Gravadora Ltda., empresa ligada ao pastor André Valadão, que afirmou desconhecer a operação. Outro foco das investigações recaiu sobre Fabiano Zettel, que teria movimentado aproximadamente R$ 99,4 milhões em poucos meses, valor apontado como incompatível com a renda declarada.

O nome de Henrique Vorcaro, pai de Daniel, também apareceu na apuração, diante da suspeita de uso de conta associada a ele para ocultar cerca de R$ 2,2 bilhões supostamente desviados do Banco Master. As defesas negam irregularidades e contestam parte das acusações.

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O Bereia classifica, portanto, como verdadeiras as informações de que o Banco Digimais é alvo da Operação Miragem, da Polícia Federal, e de que a instituição mantém vínculos com o grupo liderado pelo bispo Edir Macedo, líder da Igreja Universal do Reino de Deus. A apuração sobre o caso mostra que essa relação também se expressa na presença de lideranças ligadas à IURD em cargos estratégicos da administração do banco. Até o momento, porém, a investigação se concentra na gestão do Digimais e em seus dirigentes, e não na IURD como instituição. 

Referências:

Polícia Federal. https://www.gov.br/pf/pt-br/assuntos/noticias/2026/06/pf-deflagra-operacao-contra-fraudes-no-sistema-financeiro-nacional. Acesso em 25 de junho de 2026.

Agência Brasil. https://agenciabrasil.ebc.com.br/justica/noticia/2026-06/banco-digimais-e-alvo-de-operacao-da-policia-federal. Acesso em 25 de junho de 2026.

Lei no 7.492, de 16 de junho de 1986.https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/l7492.htm. Acesso em 25 de junho de 2026.

CNN Brasil. https://www.cnnbrasil.com.br/economia/macroeconomia/banco-digimais-pode-ser-novo-master-entenda-a-investigacao/. Acesso em 25 de junho de 2026.

CNN Brasil. https://www.cnnbrasil.com.br/economia/macroeconomia/operacao-miragem-maior-impacto-desses-casos-e-sobre-fgc-diz-professor/. Acesso em 25 de junho de 2026.

CNN Brasil. https://www.cnnbrasil.com.br/economia/negocios/banco-de-edir-macedo-diz-ter-150-mil-clientes-e-r-1-bi-de-emprestimos/. Acesso em 25 de junho de 2026.

Piauí. https://piaui.uol.com.br/web/digimais-edir-macedo-fgc/. Acesso em 25 de junho de 2026.

BBC News Brasil. https://www.bbc.com/portuguese/articles/c4gyjl3vdmro. Acesso em 25 de junho de 2026.

Forum. https://revistaforum.com.br/politica/bispo-de-confianca-de-edir-macedo-joao-urbaneja-e-um-dos-alvos-da-pf-na-operacao-contra-o-bnaco-digimais/. Acesso em 25 de junho de 2026.

O Globo. https://oglobo.globo.com/brasil/sao-paulo/noticia/2026/06/23/quem-sao-os-alvos-da-operacao-da-pf-que-atingiu-edir-macedo-e-a-cupula-do-banco-digimais.ghtml. Acesso em 25 de junho de 2026.

O Globo. https://oglobo.globo.com/politica/noticia/2026/06/24/oposicao-mira-em-tarcisio-por-contrato-do-estado-com-banco-digimais-para-oferta-de-consignado-a-policiais-militares.ghtml. Acesso em 25 de junho de 2026.

Uol. https://noticias.uol.com.br/politica/ultimas-noticias/2026/06/23/alvo-da-pf-digimais-teve-aval-da-gestao-tarcisio-para-consignado-na-pm-sp.ghtm. Acesso em 25 de junho de 2026.