Página gospel manipula imagem para associar falsamente Aline Barros a desfile de escola de samba

Bereia recebeu de leitores o pedido de checagem de uma imagem que mostra a cantora gospel Aline Barros caracterizada para um desfile de escola de samba. A publicação circula nas mídias sociais com o título de uma matéria do portal de notícias G1 sobre a participação da cantora no carnaval de Palmas (TO). Bereia checou informações sobre a participação de Aline Barros no carnaval e a veracidade das imagens divulgadas.

Imagem manipulada de Aline Barros em desfile de carnaval

A página Gospel Brasil, no TikTok, descrita como página de notícias da música gospel, publicou em 3 de março último, uma imagem que mostra a cantora evangélica Aline Barros fantasiada, em um desfile carnavalesco. Na foto, Barros aparece com as coxas e a barriga à mostra, em uma fantasia com detalhes em preto e dourado.

A publicação inclui o título de uma matéria atribuída ao Portal G1, em que se lê: “Aline Barros abre programação de carnaval na Praça dos Girassóis nesta sexta-feira, em Palmas”. A postagem também exibe um recorte do rosto da cantora e a legenda: “Cantora gospel Aline Barros abre Carnaval em Tocantins e choca a internet”, com  trecho de uma das canções gravadas pela cantora gospel.  

Entre os 3.698 comentários – até o momento da publicação desta matéria – algumas pessoas criticam a cantora e outras afirmam se tratar de uma montagem. A publicação também registrou mais de 12,5 mil curtidas.

Imagem: reprodução TikTok

A partir de ferramentas de busca de imagens, Bereia identificou que houve manipulação do conteúdo. A fotografia original retrata a atriz Paolla Oliveira, rainha de bateria da escola de samba Acadêmicos do Grande Rio, durante desfile no carnaval de 2024, no sambódromo Marquês de Sapucaí, no Rio de Janeiro. 

Imagem: reprodução Instagram

Cantores gospel em programação de carnaval em Palmas 

Conforme foi, de fato, noticiado pelo Portal G1, o show de Aline Barros foi a atração principal do primeiro dia da programação do Carnaval 2025, em Palmas, Tocantins – 28 de fevereiro. 

No mesmo dia, outros cantores evangélicos como Moyses Di Carvalho e Sandro Nazireu também se apresentaram. Já no sábado, 1º de março, a programação incluiu shows dos cantores católicos Padre Fábio de Melo, Adriana Arydes e Turma do Padre Dudu.

Imagem: reprodução G1

A programação, organizada excepcionalmente pelo Governo do Estado do Tocantins, depois do prefeito do município Eduardo Siqueira Campos (Podemos) ter anunciado a suspensão de qualquer programação de Carnaval para 2025, seguiu até terça-feira, 4 de março último, com apresentações de cantores de outros gêneros musicais. 

A Prefeitura de Palmas realiza, tradicionalmente, desde 2015, o evento gospel Capital da Fé, durante os dias do feriado de carnaval. No entanto, em 2025, conforme divulgado pelo portal de notícias regional Gazeta do Cerrado, a Prefeitura cancelou a realização das festividades, em decorrência de uma dívida estimada em R$ 300 milhões.

Desinformação de gênero em um contexto religioso

Apesar de algumas páginas de apoio à Aline Barros terem publicado notas sobre a divulgação de falsas informações e uso indevido de sua imagem, a cantora não se pronunciou oficialmente sobre a peça desinformativa envolvendo seu nome.

Barros fez uma publicação em sua página oficial no Instagram, em 6 de março, sobre a participação no evento. Nos comentários, algumas pessoas levantaram temas como mentira no meio religioso, desinformação e processo judicial em razão da difamação, enquanto outras publicaram mensagens de apoio. 

Imagem: reprodução Instagram

No entanto, além de julgamentos acerca da conduta cristã e do comportamento moral da cantora, surgiram também discussões sobre sua participação, enquanto cantora gospel – em um evento no período de carnaval. Também há registros de acusações de realizar shows por interesse financeiro, em detrimento do propósito religioso, que renderam comentários como “pastora de satanás”.

Para a doutoranda em Ciências Sociais da Universidade do Estado do Rio de Janeiro, pesquisadora do Núcleo de Estudos sobre Desigualdades Contemporâneas e Relações de Gênero (NUDERG) e integrante da equipe Bereia Rafaely Camilo, a adulteração na imagem teve o objetivo de expor a cantora gospel pelo viés da sensualidade, um tema valioso para o público evangélico por se tratar de uma pauta que trata da moral e de costumes.

“A imagem parece ter como objetivo causar escândalo no meio cristão evangélico, ao colocar uma figura conhecida do meio, numa posição de constrangimento, ridicularizando sua trajetória”, aponta Camilo.

Segundo a pesquisadora, nesse caso, a desinformação de gênero está assentada na exposição do corpo, algo que não é esperado para uma mulher na posição de Aline Barros, o que provavelmente a cantora não faria. 

“Por muitos anos, Aline Barros foi uma artista que caminhou entre os mundos secular e gospel e recebeu críticas por isso. O uso dessa imagem atende, para o efeito da viralização (caça-cliques), como afirmação de que ela estaria participando da festa ‘do mundo’, caracterizada como tal”, explica a doutoranda em Ciências Sociais.

Carnaval e manifestações religiosas

A atriz Paolla Oliveira é rainha de bateria da Grande Rio desde 2009. Após um hiato de dez anos, voltou a desfilar para a escola em 2020. Em 2022, Paolla Oliveira esteve na Marquês de Sapucaí fantasiada de Pombagira, e em 2023, sua fantasia representou as armas de Ogum. Pombagira e Ogum são entidades espirituais presentes nas religiões de matriz africana umbanda e candomblé. 

Em 2022, a escola de samba Acadêmicos do Grande Rio também foi a campeã do carnaval do Rio de Janeiro, com o samba-enredo que homenageou Exu, outra divindade das religiões de matriz africana.

O jornalista, escritor e pesquisador do carnaval carioca Aydano André Motta, em entrevista ao Instituto Humanitas Unisinos (IHU), afirmou que a visão de que o carnaval é uma festa pagã está equivocada. 

“O carnaval é uma festa completamente religiosa. Na fundação de todas as escolas de samba sempre houve presente um pai de santo ou uma mãe de santo. Várias escolas de samba estão assentadas, nas suas quadras e sedes, em antigos terreiros de candomblé e umbanda, então é uma festa que se move a partir da religião, não existiria sem os preceitos religiosos”, declara o pesquisador. 

Motta esclarece que o carnaval é uma festa extremamente religiosa e que no Brasil tem manifestações do sincretismo religioso. “As baterias das escolas e suas formas de execução estão ligadas a orixás, são batidas escolhidas para reverenciar orixás. A umbanda conecta santos católicos a orixás, então no Rio de Janeiro, Oxóssi é São Sebastião, Oxum se junta a Nossa Senhora da Conceição, São Jorge a Ogum, por exemplo”.

Entretanto, o Carnaval tem origem no Catolicismo ibérico que veio para o Brasil com os colonizadores. No artigo A fé como expressão da vida que pulsa no Carnaval, a pesquisadora da Religião e editora-geral do Bereia Magali Cunha indica a origem cristã da festa na Idade Média. “O Carnaval, criado na Europa medieval pela Igreja Católica, foi uma forma de controlar antigas festas populares, condenadas por ela por representarem uma entrega aos prazeres mundanos”.

Segundo a pesquisadora, a ideia do Carnaval (carnis levale, ou, “retirar a carne”), como um período para cometer todos os “excessos da carne”, surge da tentativa de dar um sentido cristão às festividades. “Com isto foi criado, também, o período da Quaresma, um tempo de 40 dias antes da Páscoa, logo depois do Carnaval, caracterizado pelo arrependimento dos excessos cometidos e pelo jejum (purificação)”.

Outros grupos religiosos, como os evangélicos – tradicionalmente opostos às festividades do Carnaval e habituados ao afastamento dos retiros – intensificaram nos últimos anos, marcados pela polarização política no Brasil, a desqualificação da cultura “secular ou mundana” e, ao mesmo tempo, a disputa pela noção de cultura, conforme apresenta a antropóloga, pesquisadora e coordenadora de religião e política no Instituto de Estudos da Religião (ISER) Lívia Reis, em artigo intitulado Religião como forma de “proteção da cultura”: manifestações culturais e artísticas como campo de disputa.

“Não se trata de um paradoxo, estes segmentos religiosos passaram, também, a disputar a noção de cultura, tentando definir o que seria ou não legítimo de ser considerado como parte dela. Parte desse movimento consiste em promover arte e cultura. Para além da consolidação do segmento gospel, houve um vasto investimento em outras formas de se experimentar a religião através da arte, tais como filmes, teatros, novelas, plataformas de streaming, programas de rádio e mega eventos em espaços públicos”, destaca Reis.

Carnaval, diversidade e tolerância religiosa

A organização do evento Capital da Fé, realizado pelo Estado do Tocantins, reflete estes elementos. O governo destacou as atividades como “uma experiência inclusiva e democrática aos foliões” e que “celebrou a diversidade musical e reforçou o compromisso com uma programação acessível a todos os públicos”. 

Apesar de cancelado em 2025, o evento gospel Capital da Fé, descrito no portal da Prefeitura de Palmas como “o maior evento Gospel do Brasil realizado no período de Carnaval”, ocorre há nove anos e já reuniu em torno de 200 mil pessoas, segundo a organização.

A programação de cinco noites com apresentações de nomes do segmento no cenário nacional é voltada para católicos, evangélicos e apreciadores do estilo musical. O portal afirma que o gospel detém o segundo lugar na preferência musical nacional, atrás apenas do sertanejo.

Imagem: Prefeitura de Sobral

Além de Palmas, outras cidades pelo Brasil também realizam eventos gospel durante o período de carnaval, como Sobral (CE) e Arraial do Cabo (RJ). As iniciativas apontam para uma mudança na participação deste grupo religioso nas comemorações do carnaval.  

A tendência em consolidação é parte do que já ocorre em outras esferas da sociedade. Aline Barros, por exemplo, é considerada a precursora da participação de cantores gospel em canais televisivos não segmentados para este público, por sua participação em atrações como a de Xuxa Meneghel, a partir da década de 90, e que trouxeram maior diversidade à televisão brasileira. 

O artigo de Lívia Reis também mostra que a disputa dos evangélicos pelo espaço público avança até a ocupação da festa de caráter profano e a apropriação de elementos de outras culturas demonizadas por eles. “Apesar de criminalizar o carnaval como uma prática demoníaca, alguns grupos passaram a mobilizar instrumentos musicais, danças e corporeidades de matriz africana, em suas tentativas de disputar a festa”. 

A antropóloga assinala que um movimento semelhante aconteceu com a capoeira, com a festa de Cosme e Damião e com bolinhos de acarajé, que se tornaram “capoeira de jesus”, “saquinhos de jesus” e “acarajé de jesus”, respectivamente. “Em comum a todos esses casos é o fato de que segmentos evangélicos apagam o que seria percebido como o sinal negativo dessas práticas tradicionais e populares, isto é, a ligação com tradições africanas”.

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Após checar informações sobre o conteúdo que circulou nas redes digitais, Bereia classifica o conteúdo como falso. A imagem que mostra a cantora Aline Barros em uma fantasia de carnaval foi adulterada a partir da imagem original da atriz Paolla Oliveira, rainha de bateria da escola de samba Grande Rio, no carnaval carioca.

Apesar de conter elementos factuais e verdadeiros, como a participação de Aline Barros no carnaval de Palmas, foi feito uso de imagem que não corresponde ao que foi noticiado. É clara a intenção de distorcer a informação para instigar julgamentos negativos sobre a cantora – o que poderia ser considerado enganoso – a fim de se alcançar cliques,  portanto audiência. A imagem foi fabricada e é, portanto, falsa.

O sensacionalismo também foi utilizado como estratégia para captar audiência, por meio da sensação de escândalo, provocada pela falsa associação da mulher evangélica ao corpo sensual e à mostra, como forma de difamação e desvio de conduta esperada pelo meio religioso, o que se classifica como desinformação de gênero. 

Outro elemento falso presente na estratégia desinformativa, e que contribui para o sensacionalismo, é a caracterização de festividade carnavalesca que se relaciona com culturas e religiões de matriz africana – como os desfiles de escolas de samba no Rio de Janeiro, associado à imagem da cantora e que nada se assemelha ao evento do qual Aline Barros participou.

A disseminação de falsidades relacionadas a situações que envolvem temas referentes a gênero são frequentemente observadas nas redes digitais. Bereia alerta para publicações que se valham do sensacionalismo, do pânico moral e da intolerância religiosa como arma de violência contra mulher no contexto digital. No caso em questão, as imagens de duas mulheres foram utilizadas – e manipuladas – para provocar uma reação de indignação que não se sustenta na realidade.

Referências da checagem 

G1

https://g1.globo.com/to/tocantins/noticia/2025/02/28/aline-barros-abre-programacao-de-carnaval-na-praca-dos-girassois-nesta-sexta-feira-em-palmas.ghtml Acesso em: 09 mar 2025

https://g1.globo.com/rj/rio-de-janeiro/carnaval/2024/noticia/2024/02/16/paolla-oliveira-renova-com-a-grande-rio.ghtml Acesso em: 09 mar 2025

https://g1.globo.com/rj/regiao-dos-lagos/noticia/2023/02/17/festival-de-musica-gospel-esta-entre-as-atracoes-do-carnaval-de-arraial-do-cabo-no-rj.ghtml Acesso em: 11 mar 2025

https://g1.globo.com/rj/rio-de-janeiro/carnaval/2022/noticia/2022/04/26/grande-rio-e-a-campea-do-carnaval-2022-do-rio.ghtml Acesso em: 11 mar 2025

Gshow

https://gshow.globo.com/carnaval/2024/noticia/paolla-oliveira-vira-onca-na-sapucai-em-desfile-da-grande-rio.ghtml Acesso em: 11 mar 2025

https://gshow.globo.com/carnaval/2024/noticia/de-cleopatra-a-pombagira-relembre-as-fantasias-de-paolla-oliveira-como-rainha-de-bateria.ghtml Acesso em: 11 mar 2025

Instagram

https://www.instagram.com/p/DGyc1m4yOYs/?igsh=Nm55dWo3YTN1Y3Ri Acesso em: 09 mar 2025

https://www.instagram.com/paollaoliveirareal/ Acesso em: 09 mar 2025

Instituto Humanitas Unisinos

https://www.ihu.unisinos.br/categorias/159-entrevistas/596668-a-festa-religiosa-do-carnaval-a-resistencia-alegre-dos-povos-perifericos-contra-o-conservadorismo-elitista-entrevista-especial-com-aydano-andre-motta Acesso em: 10 mar 2025

https://www.ihu.unisinos.br/categorias/159-entrevistas/619912-a-falta-que-a-festa-faz-a-religiosidade-afro-brasileira-e-os-enredos-das-escolas-de-samba-a-dimensao-utopica-de-como-o-mundo-deveria-ser-entrevista-especial-com-renata-de-castro-menezes-e-lucas-bartolo Acesso em: 10 mar 2025

Facebook

https://www.facebook.com/PalmasShowsGospel/photos/est%C3%A1-chegando-a-hora-o-maior-evento-crist%C3%A3o-do-pa%C3%ADs-faltam-apenas-07-dias-para-o/362152127242859/?_rdr Acesso em: 10 mar 2025

Gazeta do Cerrado

https://gazetadocerrado.com.br/tocantins/palmas/dividas-herdadas-podem-chegar-a-r-300-milhoes-em-palmas-e-eduardo-decide-cancelar-capital-da-fe-e-carnaval-este-ano/ Acesso em: 10 mar 2025

https://gazetadocerrado.com.br/tocantins/palmas/palmas-capital-da-fe-tera-este-ano-varias-atracoes-nacionais-e-novidades-veja-quem-ja-esta-confirmado/ Acesso em: 10 mar 2025

Jornal Opção

https://www.jornalopcao.com.br/tocantins/capital-da-fe-chega-a-quinta-edicao-com-atracoes-religiosas-durante-o-carnaval-167826/ Acesso em: 10 mar 2025

YouTube

https://www.youtube.com/watch?v=DQz_reGSOCI Acesso em: 10 mar 2025

https://www.youtube.com/watch?v=Jtr6g_ohJcg Acesso em: 10 mar 2025

Governo do Tocantins

https://www.to.gov.br/secom/noticias/em-palmas-governo-do-tocantins-promove-carnaval-da-diversidade-musical/2yn3nsnqr9ku#:~:text=Em%20Palmas%2C%20Governo%20do%20Tocantins%20promove%20Carnaval%20da%20diversidade%20musical,-Carnaval%202025%20celebrou&text=Uma%20programa%C3%A7%C3%A3o%20para%20atender%20todos,2025%20na%20Pra%C3%A7a%20dos%20Girass%C3%B3is. Acesso em: 09 mar 2025

Prefeitura de Palmas

https://portal2013.palmas.to.gov.br/conheca_palmas/grandes-eventos/capital-da-fe/ Acesso em: 09 mar 2025

Prefeitura de Sobral

https://www.sobral.ce.gov.br/informes/principais/sobral-de-fe-prefeitura-de-sobral-promove-evento-cristao-no-periodo-de-carnaval Acesso em: 11 mar 2025

Carta Capital

https://www.cartacapital.com.br/blogs/dialogos-da-fe/a-fe-como-expressao-da-vida-que-pulsa-no-carnaval/ Acesso em: 12 mar 2025

Religião e Poder

https://religiaoepoder.org.br/artigo/religiao-como-forma-de-protecao-da-cultura-manifestacoes-culturais-e-artisticas-como-campo-de-disputa Acesso em: 12 mar 2025

Site Gospel desinforma sobre inquérito do Ministério Público contra cantora gospel Ana Paula Valadão

Em 02 de dezembro o portal evangélico Gospel Prime publicou a matéria “Ministério Público aceita denúncia de ‘homofobia’ contra Ana Paula Valadão”.

Segundo Gospel Prime, a denúncia, aceita pelo Ministério Público Federal, decorre do fato de que a cantora Ana Paula Valadão manifestou seu posicionamento bíblico sobre a prática homossexual durante o Congresso Diante do Trono em 2016. Entretanto, o acontecimento veio à tona este ano depois de o vídeo com a gravação da fala da cantora ter viralizado em setembro passado.

A matéria de Gospel Prime afirma que a cantora “lembrou que a Bíblia condena a prática como pecado”, que ele tem suas consequências e associou a homossexualidade à Aids. “Inclusive tudo que é distorcido traz consequência naturalmente, nem é Deus jogando uma praga, um juízo não. Tá aí a Aids para mostrar que a união sexual entre dois homens causa uma enfermidade que leva à morte e contamina as mulheres, enfim… Não é o ideal de Deus. Sabe qual é o sexo seguro, que não transmite doença nenhuma, o sexo seguro se chama aliança do casamento”, afirmou.

De acordo com o portal gospel, Ana Paula Valadão citou a Aids como “doença gay” e foi denunciada pelo conteúdo. “Toda a fala foi feita em um ambiente de culto, mas ainda assim o MPF aceitou a denúncia”, afirma a matéria, em tom crítico ao órgão judiciário.

O estabelecimento do inquérito

O ativista da causa LGBTI+ Agripino Magalhães solicitou ao Ministério Público de Belo Horizonte (MG) que abrisse um inquérito para investigar se houve crime de homofobia na fala da cantora.

O procurador Helder Magno da Silva aceitou a denúncia em novembro e foi aberto inquérito. Em sua decisão, o procurador afirmou que a declaração de Ana Paula Valadão “remonta à década de 1980 a narrativa da Aids como ‘doença/câncer/peste gay’ ou mesmo ‘castigo de Deus’, que se baseava na desinformação sobre o vírus e desconhecimento sobre a doença. Tal concepção, inclusive, foi há muito superada pelo conhecimento médico-científico”.

A investigação vai apurar se houve conduta discriminatória caracterizadora de discurso de ódio contra portadores de HIV. Até o momento a cantora não se manifestou sobre o caso.

O vídeo que levou ao inquérito

O vídeo com a fala de Ana Paula Valadão veio à tona na internet em setembro passado, alguns dias depois da postagem de conteúdo homofóbico pelo irmão dela, o pastor e cantor André Valadão, uma das lideranças da Igreja Batista da Lagoinha. Em 8 de setembro André Valadão havia sido questionado por um seguidor no Instagram sobre o que fazer em relação a dois rapazes membros da igreja que estavam namorando. A resposta do pastor circulou nas mídias sociais:

“Entendi. São gays. Então. Igreja tem um princípio bíblico. E a prática homossexual é considerada pecado. Eles podem ir para um clube gay ou coisa assim. Mas na igreja não dá. Esta prática não condiz com a vida da igreja. Tem muitos lugares que gays podem viver sem qualquer forma de constrangimento. Mas na igreja é um lugar para quem quer viver princípios bíblicos. Não é sobre a igreja expulsar, é sobre entender o lugar de cada um”.

André Valadão
Foto: Reprodução/Instagram

Após a repercussão, o pastor André Valadão apagou o post das mídias sociais. Em nota enviada à imprensa, a igreja afirmou que “A marca da Igreja Batista da Lagoinha é ser bíblica e ter como maior referencial a pessoa de Jesus Cristo, que recebia todas as pessoas sem distinção. Vemos isso por meio de sua trajetória registrada nos evangelhos, por isso, Ele é o nosso maior exemplo! Como Jesus nos ensina, nossas portas estão abertas para que todas as pessoas participem de nossos cultos de pregação das Sagradas Escrituras”.

No entanto, em atitude crítica para contradizer a defesa da igreja e do pastor Valadão, passou a circular em mídias sociais o vídeo de 2016, em que Ana Paula Valadão está no palco da Igreja da Lagoinha em uma conversa com o cantor Asaph Borba, quando dispara:

“Muita gente acha que isso é normal. Isso não é normal. Deus criou o homem e a mulher e é assim que nós cremos. Qualquer outra opção sexual é uma escolha do livre arbítrio do ser humano. E qualquer escolha leva a consequências. A Bíblia chama de qualquer escolha contrária ao que Deus chamou de ideal, o que Deus nos criou para ser, de pecado. E o pecado tem uma consequência que é a morte. Inclusive tudo que é distorcido traz consequência naturalmente, nem é Deus jogando uma praga, um juízo não. Tá aí a Aids para mostrar que a união sexual entre dois homens causa uma enfermidade que leva à morte e contamina as mulheres, enfim… Não é o ideal de Deus. Sabe qual é o sexo seguro, que não transmite doença nenhuma, o sexo seguro se chama aliança do casamento”.

Ana Paula Valadão

No meio da fala, Asaph Borba se manifesta: “Glória a Deus. Esse é o padrão de Deus”.

Bereia verificou que o vídeo que viralizou em setembro passado foi retirado da gravação de uma mesa no Congresso Internacional Adoração, Intercessão e Missão do Ministério Diante do Trono, em 26 de março de 2016. O evento foi transmitido ao vivo pela Rede Super e a gravação completa está disponível no YouTube da emissora. O congresso também está disponível no canal do Ministério Diante do Trono, banda de Ana Paula Valadão, mas o vídeo do dia 26 de março, que contém a conversa de Ana Paula e Asaph Borba, foi removido. No canal da Rede Super, os comentários foram limitados.

No vídeo na íntegra, verifica-se que após o uma apresentação musical de Asaph Borba, Ana Paula Valadão o convida para uma conversa sobre as experiências no chamado “campo missionário”. O cantor conta um testemunho sobre a época que foi trabalhar como missionário em Cuba e recebeu doações de um pastor e seu “companheiro”. Ana o interrompe para esclarecer que se tratavam de companheiros na obra missionária e não de um casal homossexual, proferindo então a fala reproduzida acima.

Em 20 de setembro, um grupo de manifestantes realizou um ato em frente à Igreja Lagoinha contra as falas homofóbicas da família Valadão. A Aliança Nacional LGBTI+ divulgou uma nota de repúdio sobre o caso e anunciou que processaria a pastora e cantora. “Ana Paula atinge toda a coletividade da comunidade LGBTI, e principalmente a dignidade das pessoas que vivem com HIV/AIDS, colocando-as como responsáveis pela proliferação de um vírus, equiparando de maneira vergonhosa, antiquada e criminosa uma expressão legítima de amor e afeto a um ato criminoso como ceifar a vida de um ser humano”, afirma um trecho da nota.

O Ministério Público enviou à Justiça a queixa-crime, em 15 de outubro, protocolada por entidades civis contra o cantor André Valadão por homofobia. Cabe à Justiça Federal decidir a respeito de uma ação penal contra o pastor.

Estereótipos: HIV e pessoas LGBTI+

A associação da comunidade LGBTI+ ao vírus da AIDS não é uma coisa nova. Desde 1984, quando o vírus foi descoberto por cientistas franceses, esse estereótipo cerca o grupo minoritário, principalmente os homens gays. Isso porque o contágio entre pessoas deste grupo era maior que em outros grupos sociais.

A causa do contágio acelerado foi motivada, principalmente, pela homofobia e pela falta de implementação de políticas sociais e educacionais que informassem a população sobre a gravidade do vírus.

Reportagem publicada no jornal Notícias Populares, em 1983.

Essa noção, entretanto, tem sido desconstruída por cientistas e especialistas, que enfatizam que pessoas LGBTI+, trabalhadoras sexuais e outros grupos estigmatizados são, na verdade, vítimas de uma epidemia, e não a causa dela. “Desde o início da epidemia, há 30 anos, as pessoas tinham na cabeça uma ideia de que homem gay é impuro — ele não podia nem doar sangue. E quando você tira o preconceito da história e coloca critérios técnicos [tanto sobre a doença, e a doação], você acaba com um estigma”, diz o infectologista Rico Vasconcellos, do Hospital das Clínicas da USP (Universidade de São Paulo), em entrevista ao Portal HuffPost.

Ser portador de HIV não é a mesma coisa que ter Aids. Com os avanços da ciência em relação a medicamentos e prevenção, hoje é possível viver tranquilamente sendo soropositivo. Segundo dados da UNAIDS, atualmente são quase 38 milhões de pessoas vivendo com o vírus HIV no mundo. Ainda segundo a instituição, semanalmente, cerca de 6.000 jovens mulheres entre 15 e 24 anos são infectadas pelo HIV.

No Brasil, de acordo com Boletim Epidemiológico de HIV/Aids de 2019, entre 2007 e 2019, 51,3% dos casos de infecção por HIV entre homens foram decorrentes de exposição homossexual ou bissexual e 31,4% heterossexual. Entre as mulheres, nessa mesma faixa etária, nota-se que 86,5% contraiu o vírus em relação heterossexual. Segundo a UNAIDS, grande parte dessas mulheres adquire o vírus em relações monogâmicas, com maridos ou namorados que pegam em relações extraconjugais e transmitem, ou em situações de violência sexual.

Nas taxas de mortalidade em decorrência do vírus têm caído nos últimos anos, devido a políticas públicas de saúde, como campanhas de conscientização, distribuição de preservativos e distribuição do coquetel antirretroviral e outras medidas de controle do vírus. A Lei 9.313 estabelece a distribuição gratuita de medicamentos aos portadores de HIV pelo SUS desde 1996.

Entretanto, as estatísticas também apontam que o número de infecções por HIV/Aids tem aumentado nos últimos anos. Segundo a UNAIDS, em 2010, houve 44 mil novas infecções por HIV no Brasil, em 2018, elas chegaram a 53 mil: um acréscimo de 21%.

Especialistas apontam vários motivos para esse aumento, inclusive o enfraquecimento das campanhas de prevenção e políticas públicas voltadas a HIV/Aids. “Houve simplesmente um silenciamento sobre a Aids, um descaso, um relaxamento por parte dos governos como também por parte de escolas, na questão da prevenção”, afirmou à DW Brasil Veriano Terto Jr., vice-presidente da Associação Interdisciplinar de Aids (Abia).

O modelo brasileiro de combate ao HIV foi referência mundial durante anos, mas tem perdido o status devido a um desmonte do programa pelo atual governo federal. Um decreto assinado em maio de 2019 alterou o nome do Departamento de Vigilância, Prevenção e Controle das Infecções Sexualmente Transmissíveis, do HIV/Aids e das Hepatites Virais para Departamento de Doenças de Condições Crônicas e Infecções Sexualmente Transmissíveis. Ouvidos pela Revista Exame, especialistas, associações e ONGS que atuam na área afirmaram que nessa nova estrutura, a área de HIV/Aids foi rebaixada a uma coordenação, e no mesmo departamento foram incluídas tuberculose e hanseníase, doenças não relacionadas ao contágio sexual, o que enfraqueceu o programa.

Em fevereiro de 2020, o presidente Jair Bolsonaro afirmou que uma pessoa portadora de HIV é “despesa para todos no Brasil”.

O Ministério da Saúde alerta para os comportamentos que podem causar o contágio por HIV: sexo vaginal sem camisinha; sexo anal sem camisinha; sexo oral sem camisinha; uso de seringa por mais de uma pessoa; transfusão de sangue contaminado; da mãe infectada para seu filho durante a gravidez, no parto e na amamentação; compartilhamento de instrumentos que furam ou cortam não esterilizados.

Para superar preconceito e segregação, em 2014 foi publicada no Brasil a Lei nº 12.984, de 2 de junho de 2014, que define o crime de discriminação aos portadores do vírus da imunodeficiência humana (HIV) e doentes de Aids.

A repercussão do caso Ana Paula Valadão

O também evangélico Ministro da Justiça André Mendonça se pronunciou no último 3 de dezembro sobre a abertura do inquérito contra Ana Paula Valadão pelo MPF, por crime de ódio. Em uma sequência de três tuítes Mendonça disse: “Respeito os homossexuais. Aliás, respeito é um princípio cristão! Contudo, isso não significa que o cristão deva concordar ou não possa questionar o homossexualismo [sic] com base em suas convicções religiosas. O próprio STF assim reconheceu. Os direitos às liberdades de expressão e religiosa são inalienáveis!!! Por isso não aceito o processo de perseguição a que está sendo submetida a cantora e evangelista Ana Paula Valadão. Espero que a Justiça garanta os direitos desta cidadã brasileira, assim como tem garantido os direitos à liberdade de expressão de quem pensa em sentido contrário.”

Destaque-se que o ministro usa o termo “homossexualismo”, que remete à concepção de que a homossexualidade (o termo correto) seja uma patalogia, e não uma orientação sexual. A Organização Mundial da Saúde (OMS) retirou a homossexualidade da lista de doenças em 1990 e o termo “homossexualismo” é comumente usado com conotação pejorativa e condenatória.

Em seu pronunciamento, Mendonça faz referência à decisão do STF que criminalizou a homofobia, na qual houve uma ressalva à liberdade religiosa. A decisão não criminaliza dizer em templo religioso que o grupo é contra relações homossexuais, mas enquadra na lei quem induzir discriminação ou preconceito em templo religioso. Em outubro de 2020, mais de um ano depois dessa decisão, a Advocacia Geral da União (AGU), no clima do caso Valadão, pediu ao STF esclarecer se a decisão atinge a liberdade religiosa.

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Bereia conclui que o site Gospel Prime desinforma leitores/as com matéria imprecisa sobre o caso do inquérito de crime de ódio contra a cantora Ana Paula Valadão. O veículo não descreve o contexto em que o caso ocorre, não informa sobre as políticas internacionais e brasileiras sobre a AIDS e muito menos alerta sobre a última decisão do STF em relação a este tipo de situação, que criminaliza a indução de discriminação ou preconceito em templo religioso. A desinformação é ressaltada ainda com a vinheta da matéria, “Igreja Perseguida”, levando leitores/as a concluírem que o inquérito é uma perseguição à pastora e cantora por ela ser cristã, e não por sua fala discriminatória e promotora de ódio. Leitores/as também são levados a interpretar que cristãos teriam o direito de expressarem publicamente preconceito e rejeição contra pessoas que têm norma sexual distinta daquela indicada por certas interpretações de textos bíblicos.

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Foto de Capa: IstoÉ/Reprodução

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Referências

Canal Migalhas (Youtube): https://youtu.be/vE731aOI_5U. Acesso em: 03 dez. 2020

Portal Cultura: https://cultura.uol.com.br/noticias/14459_cantora-gospel-ana-paula-valadao-sera-investigada-por-homofobia.html. Acesso em: 03 dez. 2020

Portal UOL, https://tvefamosos.uol.com.br/noticias/redacao/2020/12/01/ana-paula-valadao-sera-investigada-por-homofobia-apos-fala-sobre-aids.htm. Acesso em: 04 dez. 2020.

Doenças de Condições Crônicas e Infecções Sexualmente Transmissíveis. http://www.aids.gov.br/pt-br. Acesso em: 15 out. 2020.

Fundação Oswaldo Cruz, http://www.ioc.fiocruz.br/aids20anos/linhadotempo.html. Acesso em: 04 dez. 2020.

Unaids. https://unaids.org.br/estatisticas/. Acesso em: 15 out. 2020.

DW. https://www.dw.com/pt-br/o-que-explica-o-aumento-dos-casos-de-hiv-no-brasil/a-51455784. Acesso em: 15 out 2020.

Exame, https://exame.com/brasil/modelo-no-mundo-departamento-de-combate-ao-hiv-do-brasil-perde-status/. Acesso em: 04 dez 2020.

UOL. https://noticias.uol.com.br/saude/ultimas-noticias/redacao/2020/02/08/estimulo-ao-preconceito-como-soropositivos-reagiram-a-fala-de-bolsonaro.htm. Acesso em 15 out 2020.

Planalto, http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_Ato2011-2014/2014/Lei/L12984.htm. Acesso em: 04 dez. 2020.

DW, https://www.dw.com/pt-br/h%C3%A1-30-anos-oms-retirava-homossexualidade-da-lista-de-doen%C3%A7as/a-53447329. Acesso em: 04 dez. 2020.

Portal G1, https://g1.globo.com/politica/noticia/2019/06/13/stf-permite-criminalizacao-da-homofobia-e-da-transfobia.ghtml. Acesso em: 04 dez. 2020.

Portal G1, https://g1.globo.com/politica/noticia/2020/10/14/agu-pede-ao-stf-para-esclarecer-se-criminalizacao-da-homofobia-atinge-liberdade-religiosa.ghtml. Acesso em: 04 dez. 2020.

A onça. https://www.aonca.com.br/pastor-e-cantor-gospel-andre-valadao-diz-que-igreja-nao-e-para-homossexuais-podem-ir-para-um-clube-gay-mas-igreja-nao-da/. Acesso em 22 set. 2020.

O Tempo. https://www.otempo.com.br/cidades/ato-e-feito-na-igreja-da-lagoinha-contra-falas-homofobicas-da-familia-valadao-1.2387791. Acesso em 22 set. 2020.

Portal UOL: https://www.uol.com.br/universa/noticias/redacao/2020/10/15/mp-denuncia-andra-valadao-por-fala-homofofica.htm. Acesso em: 04 dez. 2020.

É verdade que Fabiana Anastácio negou o risco de ser infectada pela COVID-19

A cantora gospel Fabiana Anastácio publicou “o coronavírus não atingirá a sua casa, porque quem guarda a sua casa é Jesus”

Na última quinta-feira, 04, o novo Coronavírus vitimou de forma fatal a cantora gospel Fabiana Anastácio. Ela era hipertensa e diabética, tendo falecido em São Paulo, após ficar uma semana internada em decorrência da Covid-19, segundo a página da artista no Facebook.

Último clipe lançado durante a internação da cantora

Natural de Santo André (SP), ela era filha de um pastor e de uma maestrina. Fabiana tinha 45 anos e era pastora da igreja evangélica Assembleia de Deus, no bairro Demarchi, em São Bernardo do Campo, na Grande São Paulo. De acordo com matéria publicada em 08 de junho, no portal G1 , em 2008, uma apresentação de Fabiana na igreja Assembleia de Deus de Santo André viralizou e ela passou a ser conhecida em todo o Brasil pelos evangélicos. Em 2012, gravou seu primeiro CD intitulado: “Adorador 1″. Outros dois CD’s foram lançados posteriormente: “Adorador 2 – Além da Canção”, em 2015, e “Adorador 3 – Além das Circunstâncias”, em 2017.

Segundo matéria publicada no portal Hoje em Dia no dia 04 de junho, a cantora teria esperado por sete dias uma vaga na UTI em uma unidade pública.

Conforme anunciado na mídia social da cantora no dia 01 de junho, amigos, familiares e fãs se mobilizaram para custear as despesas por meio de uma campanha de arrecadação. 

De acordo com o site Correio Braziliense, em matéria publicada no dia 04 de junho, a campanha conseguiu angariar mais R$ 24 mil para ajudar no tratamento de Fabiana.

“Como igreja sabemos que quando uma parte do corpo perece, todo corpo sente a dor ou, pelo menos, deveria sentir. A dor não escolhe cor, nem raça, nem status ou condição… ela simplesmente surge e traz suas consequências. Nesse momento nossa amiga/pastora/cantora Fabiana Anastácio precisa da nossa ajuda para combater o COVID-19, ela está internada no hospital com todos os cuidados necessários, mas com um custo alto para a família, ainda mais nesse momento de recesso de agendas e claro, com algo que ninguém esperava. Estamos todos juntos nessa causa, #SomosTodosFabiana!”, dizia a campanha

Na já citada reportagem do Hoje em Dia, o esposo e pastor, Ruben Nascimento também foi testado positivo para Covid-19, mas se recuperou. Fabiana e Ruben estavam juntos há 21 anos e casados há 20, tendo gerado três filhos: Ruben Junior, 17 anos, Guilherme, 16 e Lucas, de 13.

De acordo com o marido, a doença evoluiu rápido para Fabiana. Segundo ele, no início, ela tinha sintomas de gripe e foi isolada em casa. Quando piorou, foi para um hospital, testou positivo e ficou internada. Ruben chegou a convocar uma campanha de oração e jejum na segunda-feira, 01.

Dois dias depois, uma nota oficial nas mídias sociais da cantora mostrava que havia a expectativa dela se recuperar.

“Ela continua na UTI do hospital aqui em São Paulo. Seu quadro geral ainda é estável, mas com um pouco de dificuldade pra respirar. Lembrando que essa dificuldade tem a ver com seu peso, ou seja, a recuperação toda tem a tendência de ser mais lenta por causa disso”, dizia o texto.

Contudo, a cantora gospel Fabiana Anastácio morreu na manhã desta quinta-feira, 04. A notícia foi confirmada na página oficial da artista, nas mídias sociais.

Na nota dizia: “Deus decidiu levar, nossa (Fabiana Anastacio Nascimento) para os seus braços. Obrigado a todos pelas orações, ao longo do dia será postado mais informações.

Te Adorarei, te adorarei, quando chegar aí no Céu te adorarei”.

A publicação contou com 191 mil interações, 41 mil comentários e 24 mil compartilhamentos. “Deus decidiu levar, nossa (Fabiana Anastácio Nascimento) para os seus braços. Obrigado a todos pelas orações, ao longo do dia será postado mais informações. Te Adorarei, te adorarei, quando chegar aí no Céu te adorarei”, dizia a legenda.

Ao G1, o Pastor Ruben Souza Nascimento, marido da cantora, afirmou que Fabiana deixa como lembrança para familiares e fãs o sorriso largo e contagiante que carregava e afirma que a cantora “cumpriu sua missão de levar fé e alegria para pessoas de todo o Brasil“.

Ela era muito bonita, muito alegre. Todo ambiente em que ela estava, era contaminado por alegria e simpatia. Ela cantava e palestrava em igrejas no Brasil inteiro e quem a conheceu sabia que era uma pessoa extraordinária”, disse  o p Pastor Ruben em entrevista ao G1 nesta segunda-feira, 08 de junho.

Na entrevista, Ruben ainda afirmou que a missão dele e da família agora é caminhar e, apesar da dor do luto, encontrar forças na fé para superar a perda. O pastor diz que a esposa cumpriu em vida uma importante missão.

Cantora publicou frase sobre o Coronavírus? 

Circula nas redes sociais uma frase que teria sido publicada pela cantora Fabiana Anastácio. A postagem, realizada em um perfil do Facebook no dia 05 de junho, salienta na legenda: “O negacionismo é que está matando a população”.

Reprodução/ Facebook

O Coletivo Bereia checou as mídias sociais da cantora, de onde a publicação teria surgido e constatou que a existência da frase é verdadeira e foi postada no Instagram de Fabiana Anastácio no dia 21 de março, período em que os governos se mobilizavam para implantar o sistema de isolamento social como forma de conter o avanço da doença no país. 

Cantora gravou áudio alertando sobre Covid-19 enquanto esteve internada?

Circula na internet um áudio atribuído à Fabiana Anastácio, no qual essa afirmaria que a doença não vê religião. Além disso, o áudio alerta os cristãos a ficarem em casa para não se exporem ao vírus.

Segundo a matéria do Boatos.org, diversas histórias falsas de pessoas gravando áudio antes de morrerem já circularam na internet. Outrossim, é perceptível o caráter vago e alarmista da mensagem, sem contar os erros de português e a falta de fontes confiáveis. Todos esses pontos são indicativos de uma fake news.

Confira o áudio :

Mesmo que a mensagem tenha algo de verdadeiro, quando afirma que “a doença não vê religião”, além da sugestão positiva para “que fiquem casa”, o áudio não é da cantora Fabiana Anastácio. De acordo com a assessoria da cantora, Fabiana não teve acesso a nenhum tipo de dispositivo móvel enquanto permaneceu no hospital.

Por fim, Bereia checou que o áudio foi gravado pela missionária Maiara Machado, da Assembleia de Deus, da Bahia.

A própria missionária comentou o assunto em sua página no Facebook :

Agora sim!!! A postagem está correta!!

ÁUDIO QUE VAZOU DIZENDO SER A CANTORA FABIANA ANASTÁCIO ANTES DE MORRER!!

Obs: Não foi da cantora!! Entrem nesse canal e vejam!”

Pandemia e o racha entre os evangélicos no Brasil

Em entrevista para a BBC Brasil, o teólogo Kenner Terra afirma que “só de você estar considerando as recomendações da OMS já é quase como um ‘ato de resistência”.

Terra é pastor de uma igreja Batista, coordenador do Fórum Evangelho e Justiça no Espírito Santo e está entre os que defendem as medidas recomendadas pela Organização Mundial de Saúde (OMS) para evitar a disseminação da covid-19. Por isso, foi alvo de muitas críticas e comentários agressivos de outros evangélicos contrários ao isolamento.

As igrejas estão divididas. De um lado líderes que defendem o fim do isolamento, a manutenção dos templos abertos e os cultos presenciais — destes, alguns até entraram em disputa com o Ministério Público do Rio de Janeiro pelo direito de manter as igrejas abertas. Do outro lado, líderes que fecharam os templos, fazem cultos online e pedem que os fiéis orem em casa”, diz a matéria da BBC Brasil. 

Para Terra, essa divergência expõe uma divisão nesse grupo religioso que se acentuou durante os últimos anos, à medida que o presidente Jair Bolsonaro assumia uma “aura de autoridade religiosa”. Esses que minimizam a pandemia, continua Terra, “em geral, são grupos que se alinham com o projeto bolsonarista e o acompanham na forma de lidar com a pandemia”.

Já em matéria publicada em 14 de abril de 2020, a socióloga Rosana Pinheiro-Machado afirma que:

Nos últimos dias, pastores como Edir Macedo e Silas Malafaia têm feito um grande desserviço ao combate da epidemia, colocando-se contra o isolamento social e temendo o esvaziamento das igrejas, que é fonte de arrecadação de dízimo e também de formação de coesão social. Mais do que isso, multiplicam-se memes e vídeos no WhatsApp de pastores charlatões, dizendo que quem tem fé está imune, que a epidemia é coisa de satã, uma vingança divina. Também há aqueles que oferecem receitas de cura”.

A relação entre parte do público evangélico e Bolsonaro é de mão dupla. Como exemplo, há a fala de Bolsonaro, no Programa do Ratinho, onde esse se conecta com esses religiosos quando diz que a igreja às vezes é a única coisa que as pessoas têm. Além disso, ele também pediu jejum nacional para combater o vírus com a fé.

Em uma entrevista dada para a jornalista Patrícia Fachin, do Instituto Humanitas Unisinos, a socióloga Rosana Pinheiro-Machado afirma que “o que está em jogo é uma disputa por novos discursos, regimes de verdade e fontes de autoridade”. “São sistemas de pensamentos distintos. Um é baseado em evidência; outro, na autoridade da fé” [].

Conclusão

Bereia conclui ser verdadeira a informação de que a cantora gospel Fabiana Anastácio disse que o Coronavirus não atingirá a sua casa, porque quem guarda a sua casa é Jesus. A publicação está em sua própria página no Instagram. Por outro lado, o áudio atribuído à cantora é falso

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Referências de Checagem

Metropoles– Frase sobre Coronavirus – Disponível em: https://www.metropoles.com/colunas-blogs/pipocando/o-coronavirus-nao-atingira-sua-casa-disse-cantora-gospel-antes-de-morrer

Instagram de Fabiana Anastáciohttps://www.instagram.com/p/B9_v_KDA51b/ acessado em 09.06.20

BBC – Como a crise do coronavírus expõe racha entre evangélicos no Brasil – Disponível em : https://www.bbc.com/portuguese/brasil-52313890

Intercept – Coronavírus: como as igrejas evangélicas estão se aproveitando da crise para ocupar o vácuo do estado  – https://theintercept.com/2020/04/14/coronavirus-igrejas-evangelicas/

Ihu – Esquerda e direita disputam regimes de verdade. Entrevista especial com Rosana Pinheiro-Machado Disponível em: http://www.ihu.unisinos.br/159-noticias/entrevistas/573311-esquerda-e-direita-disputam-a-verdade-entrevista-especial-com-rosana-pinheiro-machado

Boatos– Cantora gospel Fabiana Anastácio gravou áudio alertando sobre Covid-19 no hospital Disponível em: https://www.boatos.org/religiao/cantora-gospel-fabiana-anastacio-audio-covid-19-hospital.html

Áudio da missionária Maiara Machado alertando os cristãos contra o coronavírus –

Página do Facebook da missionária Maiara Machado