Levantamento do Bereia mapeia 335 candidaturas com identidade religiosa para a Câmara Federal com apelo à segurança pública
Colaboração: Luis Henrique Vieira
Bereia identificou 335 candidaturas a deputado federal nas eleições 2026 que acionam a identidade religiosa e, ao mesmo tempo, estão relacionados ao tema da segurança pública, uma das pautas de maior destaque na campanha eleitoral.
O levantamento exclusivo cobre os oito maiores colégios eleitorais do país: Rio de Janeiro, Minas Gerais, São Paulo, Pernambuco, Bahia, Paraná, Ceará e Rio Grande do Sul. A pesquisa reúne dois grupos: 261 candidatos que fazem campanha com o tema ou vêm das forças de segurança, e 74 deputados que integram a Frente Parlamentar da Segurança Pública da Câmara, mas não usam o tema como plataforma de campanha (procedimento comum na dinâmica da formação das frentes, diante da necessidade de um mínimo de assinaturas para protocolá-las, o que leva a assinaturas apenas para apoio à articulação).
Os dados mostram que 65,4% desses candidatos disputam uma vaga para a Câmara Federal por partidos de direita e da extrema direita. Só o Partido Liberal (PL) reúne um em cada quatro nomes da lista. Nos estados pesquisados, quase dois terços dos candidatos se limitam ao slogan “segurança pública”, sem apresentar projetos concretos.
Os principais achados do Bereia
1. Concentração à direita
Dos 335 candidatos, 219 estão em partidos de direita e extrema direita. A esquerda soma apenas 13 nomes. O peso da direita é maior entre os que fazem campanha com o tema (66,7%) do que entre os deputados que apenas apoiam a Frente e não o acionam (60,8%). PL (87), Republicanos (36) e Novo (29) lideram a lista.
| Espectro político | Campanha com o tema | Frente, sem campanha | Total | % do total |
|---|---|---|---|---|
| Direita | 108 | 24 | 132 | 39,4% |
| Centro | 79 | 24 | 103 | 30,7% |
| Extrema direita (PL) | 66 | 21 | 87 | 26,0% |
| Esquerda | 8 | 5 | 13 | 3,9% |
| Total | 261 | 74 | 335 | 100% |
“Campanha com o tema”: candidatos que fazem campanha com a segurança pública ou vêm das forças de segurança. “Frente, sem campanha”: deputados da Frente Parlamentar da Segurança Pública da Câmara que não usam o tema como plataforma de campanha. Fonte: levantamento Coletivo Bereia com dados do TSE, da Câmara dos Deputados e do ISER (2023), Eleições 2026. Recorte de oito estados (RJ, MG, SP, PE, BA, PR, CE e RS). Classificação do espectro partidário feita pela equipe do Bereia.
2. A farda na urna
85 candidatos levam patente ou cargo para o nome de urna. Sargento (18) e coronel (16) são os mais comuns, seguidos de delegado ou delegada (14) e capitão (9). Há casos que somam fé e farda no mesmo nome, como “Pastor Sargento” e “Soldado Pastor”. Entre os 261 candidatos que fazem campanha com o tema, 115 (44%) têm carreira em polícias, Forças Armadas ou bombeiros. Mesmo no RJ, em MG e em PE, onde a busca partiu do discurso de campanha e não da profissão, um em cada quatro candidatos (24%) vem dessas corporações.
3. Uma fé genérica
Quase metade dos 335 candidatos (46,3%) se apresenta apenas como “cristã”, sem vínculo com igreja ou denominação. Os católicos são 29,9% e os evangélicos, 20%. O perfil muda de um grupo para outro. Entre os que fazem campanha com o tema, predomina o cristão sem denominação (54,8%). Entre os deputados da Frente que apenas a integram mas não usam o tema, cuja religião foi identificada com apoio do mapeamento do ISER, 60,8% são católicos. Apenas 25 candidatos exercem função religiosa identificável, como pastor, bispo ou presbítero.
Qual é a religião dos candidatos
Identidade religiosa dos candidatos a deputado federal ligados à segurança pública, por grupo (% de cada grupo)
Ver dados em tabela
| Religião | Campanha com o tema | Apenas integram a Frente, sem campanha com o tema | Total |
|---|---|---|---|
| Católica | 55 (21,1%) | 45 (60,8%) | 100 (29,9%) |
| Evangélica | 52 (19,9%) | 15 (20,3%) | 67 (20,0%) |
| Cristã, sem denominação | 143 (54,8%) | 12 (16,2%) | 155 (46,3%) |
| Cristã, integra as frentes católica e evangélica | 10 (3,8%) | 0 | 10 (3,0%) |
| Outras* | 1 (0,4%) | 2 (2,7%) | 3 (0,9%) |
| Total | 261 | 74 | 335 |
* Uma candidatura de religião de matriz africana, uma judaica e uma espírita. “Campanha com o tema”: candidatos que fazem campanha com a segurança pública ou vêm das forças de segurança; religião identificada nas redes sociais e na participação em frentes parlamentares religiosas. “Frente, sem campanha”: deputados da Frente Parlamentar da Segurança Pública da Câmara que não usam o tema como plataforma de campanha; religião identificada nas redes sociais e no mapeamento do ISER (2023). Fonte: levantamento Coletivo Bereia, Eleições 2026. Recorte de oito estados (RJ, MG, SP, PE, BA, PR, CE e RS).
4. Segurança como slogan
A equipe mapeou a pauta de campanha de 179 candidatos, quase todos do RJ, de MG e em PE. Desses, 115 (64%) citam apenas “segurança pública”, sem dizer o que propõem. Para outros 25, a equipe registrou a participação em frentes parlamentares ligadas ao tema, como as de armas (CACs), do sistema penitenciário e de combate à pedofilia. Eles tratam de segurança pública nas redes, mas nenhum cita essas frentes na campanha. Só 39 apresentam propostas específicas. Os temas mais frequentes são:
- defesa da família, de valores cristãos e da fé: 15
- endurecimento penal (maioridade penal, fim da “saidinha”, presídios): 7
- combate ao crime organizado e às facções: 6
- valorização das polícias: 6
- violência contra mulheres e crianças: 4
O contraste com a atuação parlamentar é grande. Nas pautas registradas, só dois candidatos defendem armas, mas 17 integram a frente parlamentar dos colecionadores, atiradores e caçadores (CACs).
Bandeiras conhecidas do debate público punitivista aparecem pouco: redução da maioridade penal e escolas cívico-militares têm três menções cada, e o fim da “saidinha” (liberação de presos em datas especiais), duas.
5. Um perfil da Frente Parlamentar
114 candidatos da lista levantada pelo Bereia, ou seja, com identidade religiosa, integram a Frente Parlamentar da Segurança Pública da Câmara. São 83% dos 138 deputados da articulação nos oito estados. 74 deles (65%) não acionam a segurança pública como plataforma de campanha, como mencionado nesta matéria, mas são apoiadores da frente. Os outros 40 fazem campanha com o tema ou vêm das forças de segurança. Entre os 114, 42 são do PL, e 66% estão em partidos de direita e extrema direita. Os católicos são o maior grupo: 54 (47,4%), mais que o dobro dos evangélicos (25, ou 21,9%). Outros 24 (21,1%) se dizem cristãos sem denominação. São Paulo (26) e Minas Gerais (21) têm o maior número de integrantes.
Onde estão os candidatos
A lista se concentra no Sudeste: Rio de Janeiro (94), Minas Gerais (79) e São Paulo (66) somam 239 candidatos, 71% do total. Bahia (24), Pernambuco (23), Ceará (17), Paraná (17) e Rio Grande do Sul (15) completam o levantamento.
Direita e extrema direita são maioria em todos os estados: reúnem cerca de dois terços dos nomes nos três maiores (67% em MG e 64% no RJ e em SP) e chegam a 80% no Rio Grande do Sul e 78% em Pernambuco. O PL tem mais candidatos que qualquer outro partido: em sete dos oito estados e empata com o PP em Pernambuco. Na Bahia, no Ceará e no Rio Grande do Sul, metade ou mais dos nomes são deputados da Frente que não usam o tema na campanha.
Onde estão os candidatos
Candidatos religiosos a deputado federal que fazem campanha com a segurança pública ou integram a Frente Parlamentar do tema, por estado e espectro do partido
Ver dados em tabela
| Estado | Extrema direita | Direita | Centro | Esquerda | Total | % direita* | Campanha com o tema | Frente, sem campanha |
|---|---|---|---|---|---|---|---|---|
| Rio de Janeiro | 22 | 38 | 33 | 1 | 94 | 64% | 88 | 6 |
| Minas Gerais | 20 | 33 | 20 | 6 | 79 | 67% | 74 | 5 |
| São Paulo | 18 | 24 | 22 | 2 | 66 | 64% | 44 | 22 |
| Bahia | 6 | 8 | 9 | 1 | 24 | 58% | 12 | 12 |
| Pernambuco | 4 | 14 | 4 | 1 | 23 | 78% | 19 | 4 |
| Ceará | 5 | 4 | 7 | 1 | 17 | 53% | 8 | 9 |
| Paraná | 6 | 5 | 6 | 0 | 17 | 65% | 10 | 7 |
| Rio Grande do Sul | 6 | 6 | 2 | 1 | 15 | 80% | 6 | 9 |
* Direita + extrema direita. “Campanha com o tema”: candidatos que fazem campanha com a segurança pública ou vêm das forças de segurança. “Frente, sem campanha”: deputados da Frente Parlamentar da Segurança Pública que não usam o tema como plataforma de campanha. Fonte: levantamento Coletivo Bereia com dados do TSE, da Câmara dos Deputados e do ISER (2023), Eleições 2026 (335 candidatos em oito estados). Classificação do espectro partidário feita pela equipe do Bereia.
Como o levantamento foi feito
A equipe do Bereia cruzou os registros de candidatura do TSE com os perfis públicos dos candidatos nas redes digitais e com a composição das frentes parlamentares da Câmara (quem busca reeleição). Entraram na lista os candidatos a deputado federal que manifestam publicamente identidade religiosa, seja em posts, na biografia ou na participação em frentes parlamentares religiosas, e os que apresentam a segurança pública como pauta.
Apesar de não acionar a segurança pública como plataforma de campanha, os 74 candidatos à reeleição que têm identidade religiosa e estão a Frente Parlamentar integram o levantamento por conta da ligação com o tema no mandato. Para este grupo, a identidade religiosa foi levantada a partir do mapeamento de parlamentares elaborado pelo Instituto de Estudos da Religião (ISER).
A classificação de espectro político dos partidos foi feita pela equipe do Bereia. O recorte cobre oito estados e não representa o total nacional.
Segurança pública é pauta-chave nas Eleições 2026
Como a campanha Boto Fé no Voto: Eu Escolho a Verdade tem enfatizado, segurança pública é uma pauta-chave de apelo em busca de votos para todos os cargos em disputa. Também é tema que provoca muita desinformação circulante com acionamento do medo como ativo de convencimento.
Como divulgado nos materiais da campanha Boto Fé no Voto: Eu escolho a Verdade, surgiu recentemente no Brasil o uso do termo “narcoterrorismo” para descrever facções criminosas. Esta ideia viralizou no espaço público por políticos e seguidores deles, em apoio a pronunciamentos do governo dos Estados Unidos que passou a classificar assim grupos envolvidos com tráfico de drogas na América Latina.
Especialistas em segurança pública avaliam que esse Esse é um erro conceitual grave, e você sabe por quê? Terrorismo tem motivação político-ideológica, busca aterrorizar populações para forçar mudanças de Estado. Como aconteceu na invasão de Brasília, no 8 de janeiro de 2023. Já facções armadas buscam lucro e controle territorial para o tráfico. Igualar as duas coisas não é só desinformação imprecisa mas é estratégico e enganoso.
Ao chamar esses criminosos de “terroristas” e apresentar projetos de lei com base nesta noção, políticos atuam para manter práticas justificam medidas de exceção: menos controle judicial, mais força bruta que produz mortes letal e suspensão de garantias.
Junto a esse discurso vem a defesa de armar a população “para se proteger”, tendo também os Estados Unidos como inspiração. Mas dados mostram o oposto: mais armas em circulação aumentam homicídios, feminicídios e acidentes domésticos, sem reduzir o crime organizado, que já é fortemente armado. Os recorrentes casos de assassinatos múltiplos de pessoas inocentes, em espaços públicos, nos Estados Unidos, por pessoas armadas, com motivações ideológicas ou desequilíbrio emocional, mostram outra face do problema.
Outra coisa importante: essas duas bandeiras (rótulo de “narcoterrorismo” e o “armamento popular”) são exemplos de populismo penal. Em outras palavras, é a promessa de segurança por meio de punição espetacular e simbólica, em vez de ações preventivas e de políticas efetivas. Como por exemplo, com inteligência para impedir atos criminosos e punir, especialmente, os cabeças que comandam tudo isto e as ramificações deles, com seus negócios lucrativos na forma de, por exemplo, postos de gasolina, transporte por vans e aviões particulares, entre outros.
Populismo penal vende a sensação de solução rápida, mobiliza medo eleitoralmente e evita enfrentar as causas estruturais da violência (desigualdade, ausência do Estado, corrupção de agentes públicos em diferentes instâncias). O resultado é mais violência, não menos, com quem paga o preço – nesse caso, majoritariamente a população pobre e periférica.
Basta ver os casos de grandes cidades como Rio de Janeiro e São Paulo, marcadas, há décadas, por megaoperações policiais em periferias, que resultaram na morte de centenas de pessoas, algumas delas policiais, e em traumas dramáticos na vida de famílias e localidades inteiras: no que interferiram na solução do problema?
Portanto, a campanha Boto Fé no Voto: Eu escolho a verdade chama a atenção de leitores e leitoras do Bereia para desconfiar do apelo, nas eleições, à ideia de narcoterrorismo e estar atentos à exploração do populismo penal.