Vídeo impreciso sobre banimento de desabrigados de paróquia católica no RS viraliza

Com colaboração de Leonardo Nogueira

Em meio à calamidade que assola o Rio Grande do Sul após enchentes históricas, muitos conteúdos sobre a situação na região são amplamente compartilhados nas mídias sociais, o que acende o alerta de atenção para casos de disseminação de desinformação. 

Em apenas 16 dias após o início da tragédia, cerca de 42 páginas na internet foram derrubadas por veicular notícias falsas, e a Polícia Civil do estado investiga 52 casos envolvendo a propagação de mentiras e golpes.

Frente a esse cenário, leitores do Bereia sugeriram a checagem de um vídeo que apresenta a frase “Padre expulsa crianças autistas de abrigo no Rio Grande do Sul”. As imagens apresentam uma discussão entre uma mulher e um idoso, que, ao ser questionado sobre o que teria a declarar sobre a retirada de pessoas desabrigadas de uma igreja, responde: “Eu não tenho nada a declarar, se vocês tivessem se comportado como gente (o final da frase é inaudível)”. 

Imagem: reprodução/Instagram

O vídeo enviado ao Bereia foi publicado em 9 de maio e exibe o selo da página do jornal Diário do Vale (veículo regional do sul do Estado do Rio de Janeiro, sediado na cidade de Volta Redonda) no Instagram. Também é possível identificar uma edição que oculta informações: a palavra “padre” sobrepõe um destaque em vermelho com a expressão “denúncia”.

A partir deste indício de uma versão anterior que poderia apresentar mais informações, Bereia encontrou a postagem do influenciador digital Ivan Baron, ativista pela inclusão de pessoas com deficiência. Publicado em 8 de maio (um dia antes do conteúdo do Diário do Vale), além do alerta de “denúncia!”, o vídeo apresenta a frase “Padre expulsa desabrigados no RS de igreja, incluindo CRIANÇAS AUTISTAS, por não se comportarem como gente”.

Imagem: reprodução/Instagram

Bereia checou o conteúdo com base nas questões: o homem do vídeo é mesmo um padre? Quem é a mulher que discute com ele? Qual é a origem do vídeo? Crianças autistas realmente foram expulsas de um abrigo? 

Bereia contatou testemunhas do ocorrido e apurou que a história do caso é complexa.

Quem são os envolvidos e qual é a origem do vídeo

Na legenda da publicação do Diário do Vale, o conteúdo repete a afirmação de que crianças autistas, abrigadas na paróquia Santo Antônio, em Alvorada (RS), foram expulsas por um padre. 

O texto complementa que o clérigo teria interrompido o fornecimento de luz e água para pressionar a saída de pessoas que haviam sido acolhidas na igreja. A postagem diz, ainda, que o religioso teria afirmado que crianças autistas não estariam se comportando “como gente”.

Imagem: reprodução de postagem do Diário do Vale no Instagram em 9 de maio/Instagram

Bereia verificou que o idoso que aparece no vídeo é o padre Libanor Picetti, responsável pela paróquia Santo Antônio, na cidade de Alvorada (localizada na grande Porto Alegre, RS), há 36 anos. Em entrevista ao veículo Jornal da Semana, pela ocasião de seu aniversário de 70 anos, em 2020, o pároco conta que era um dos cinco padres da arquidiocese de Porto Alegre a ter mais de 30 anos na mesma igreja. 

Quando perguntado sobre o que queria ganhar de presente, o padre responde: “Se eu pudesse fazer qualquer pedido, gostaria que os meus paroquianos se dedicassem ao próximo e à caridade, principalmente na criança e no doente. Não quero nada pra mim, mas sim que eles entendam o valor do social”.

Conflito ganhou as redes

A mulher que discute com o padre Libanor Picette no vídeo é a empresária local e influenciadora digital Milena Bittencourt. Quando soube que as vítimas das enchentes teriam sido expulsas do salão da igreja por ordem do pároco, ela o questionou, enquanto gravava as imagens pelo celular. Elas foram repercutidas amplamente nas redes – uma das publicações teve mais de um milhão de visualizações.

Milena Bittencourt contou ao Bereia que, em 7 de maio, foi até a Paróquia Santo Antônio levar doações, e lá foi abordada por pessoas que pediram ajuda para fazer uma live e registrar a situação tensa que estava acontecendo. Foi neste momento que foi gravado o trecho do vídeo, publicado originalmente no perfil da loja da influenciadora no Instagram.

Nas imagens, voluntárias que prestavam apoio às vítimas dos alagamentos dizem que a polícia foi chamada para que todas fossem embora do local. Contam, ainda, que entre os abrigados no salão da igreja havia crianças autistas e uma criança doente, que precisou de atendimento do Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (SAMU), na noite anterior. 

Ainda na gravação, um voluntário explica que o padre queria que os desabrigados e voluntários se retirassem da paróquia, mas deixassem as doações que arrecadaram: “Ainda bem que a polícia veio aqui e conseguiu falar com ele para nós tirar (sic) as doação (sic)”, disse.

Na sequência, a empresária publicou outros vídeos que mostram a presença de, ao menos, três viaturas da Brigada Militar no local e uma grande mobilização da população para retirar pessoas (principalmente mulheres e crianças), alimentos, colchões e outros itens do espaço da igreja. De acordo com os relatos, todos que perderam suas casas na enchentes precisaram deixar o local. O registro da discussão com Picetti é um dos últimos a ser divulgado e teve mais de 180 mil visualizações atéo fechamento desta matéria.

Procurada pelo Bereia para falar sobre o caso, a paróquia Santo Antônio preferiu não se posicionar.

Padre mandou desabrigados saírem?

De acordo com Bittencourt e com relatos de voluntários no vídeo, a relação entre o padre e os desabrigados foi marcada por uma série de atritos durante o curto tempo em que as pessoas ocuparam o espaço. O grupo teria sido acolhido em 6 de maio, um dia depois de a Defesa Civil emitir um alerta de alagamento para a cidade de Alvorada. 

Os primeiros problemas, de acordo com o que é narrado nas imagens, envolveram o acesso à água do poço artesiano da paróquia: Picetti teria desligado o motor do poço algumas vezes por se incomodar com o número de pessoas (incluindo outros moradores da região, que padeciam com a falta de água potável) que buscavam pelo recurso no local. Para contornar a situação, voluntários conseguiram uma caixa d’água e a abasteciam com água retirada de outra localidade.

O padre Picetti também teria se incomodado com o excesso de barulho gerado pelas crianças que brincavam no pátio. Porém, de acordo com testemunhas ouvidas pelo Bereia, não foi essa a principal motivação do pedido para que as famílias saíssem da igreja. A versão completa do vídeo publicado por Milena Bittencourt, confirma que voluntários contam que o grupo foi “convidado a se retirar” do local, após se recusar a aceitar o apoio de pessoas ligadas a políticos locais.

“A gente não quis se envolver com política aqui. Veio um pessoal da Prefeitura e o Dr. Darci aqui, que vai sair candidato a vereador, e ele queria que a gente fizesse parceria, se unisse com ele e com o pessoal da Prefeitura”, disse uma voluntária. Depois da negativa, junto com a ordem para a desocupação do espaço, o padre Libanor Picetti teria pedido para que as doações fossem deixadas na igreja para que uma mulher, de nome Neusa, fosse buscar depois.

Bereia procurou a Secretaria de Comunicação da Prefeitura de Alvorada para perguntar sobre a suposta visita de funcionários ao abrigo e sobre o envolvimento de Neusa Abruzzi, secretária da pasta, na situação, mas não recebeu retorno até a publicação desta reportagem. Darci Barth, médico e ex-vereador do município, também não respondeu ao contato.

Bereia apurou que o nome do MDB, partido para disputar as eleições para a Prefeitura de Alvorada, em 2024, em substituição ao atual prefeito José Arno Appolo do Amaral, que encerra o segundo mandato, é o da ex-secretária de saúde do município Neusa Abruzzi. Ela esteve sete anos à frente da Secretaria de Municipal de Saúde, e assumiu, em agosto de 2023, a Secretaria Municipal de Comunicação Social e Relações Institucionais. 

Abruzzi passou a coordenar os projetos do município em conjunto com os governos estadual e federal, nas áreas de segurança, educação, geração de emprego, saúde, infraestrutura e inovação. Com a confirmação da candidatura, Neusa Abruzzi concorrerá, pela primeira vez, a um cargo eletivo.

Bereia tem, em seus arquivos, um vídeo (publicado em um perfil individual no Instagram, mas removido antes desta publicação ir ao ar) que confirma parte da história que veio a público. Em resumo, as imagens são gravadas em uma escada no pátio da paróquia Santo Antônio e registram três minutos de conversa entre voluntários e um homem, que dá a eles um prazo para que saiam da paróquia e deixem parte das doações: “Hoje não vem pessoas? (…) É, vou aguardar até umas cinco horas e depois a gente vai começar a mobilizar essas peças de roupa para outro lugar”.

Uma mulher prontamente responde que o destino das doações será diferente: “Não, isso aqui a gente vai guardar, daí é nosso, a gente vai levar pra um lugar”. Os participantes da conversa discutem sobre o suporte prestado aos desabrigados e não chegam a um consenso.

O homem, que demonstra ser responsável pela paróquia, reforça o prazo para que o local deixe de servir como abrigo. “Então, cinco horas. Não vindo ninguém pra dormir aqui hoje, nós vamos desmobilizar o espaço pra poder também manter a ordem”. Ele diz, ainda, que parte das doações seriam enviadas para outro lugar e a Prefeitura entraria em contato para tratar sobre a situação.

Desse modo, o conteúdo confirma que desabrigados e voluntários receberam uma ordem para deixar o salão da igreja, deixando no local os donativos arrecadados.

O motivo da remoção

Bereia ouviu uma pessoa que prestou apoio aos desabrigados e presenciou os momentos de tensão vividos na paróquia Santo Antônio, em 7 de maio. A testemunha, que preferiu não se identificar, afirma que existe uma relação política entre a paróquia e a Prefeitura. Diz, ainda, que os nomes de Dr. Darci e Neusa foram citados na visita de pessoas que teriam objetivos políticos de se aproximarem do trabalho de acolhida às vítimas da chuva, organizado somente por voluntários.

Sobre essa questão, Milena Bittencourt conta que esses visitantes pediram para fazer fotos do abrigo e levar algumas doações para a Prefeitura, o que gerou a revolta daqueles que coordenaram o apoio aos desabrigados e arrecadaram doações sem ajuda do poder público.

Versão sobre uso de drogas no local

Com a repercussão do caso, comentários em postagens nas mídias sociais relatam uma versão diferente da que é contada por voluntários e testemunhas. De acordo com esses relatos, a motivação para a retirada dos desabrigados seria o comportamento inadequado do grupo, o que envolveria o uso de bebidas alcoólicas, de drogas ilícitas e de rádio em volume alto.

Imagem: reprodução/Instagram

Milena Bittencourt contesta a versão e diz que, se ela fosse verdadeira, a igreja teria as imagens de suas câmeras de segurança como prova. A outra testemunha ouvida por Bereia conta que mora perto da paróquia e não viu tais práticas, que mulheres e crianças eram maioria no local e que, diante de tamanha calamidade, não havia qualquer espaço para o comportamento mencionado.

Fiéis prestam de apoio ao padre 

Em 13 de maio, a missa mensal em honra a Santo Antônio foi marcada por manifestações de apoio ao padre Libanor Picetti: fiéis lotaram a igreja e ostentaram cartazes prestando solidariedade ao pároco. No dia anterior, a página da igreja no Facebook fez uma publicação em referência ao caso, e destacou que a postura seria de ignorar o que chamou de provocações.

Imagem: reprodução/Facebook

Imagem: reprodução/Instagram

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Com base na apuração, Bereia conclui que o conteúdo disseminado é impreciso. A frase destacada no vídeo divulgado pelo jornal Diário do Vale 3 e verificado, conforme esta matéria, diz que crianças autistas “foram expulsas” da igreja. De fato elas foram retiradas, de acordo com testemunhas. Porém, a nota viralizada nas redes não informa que essas crianças não foram as únicas removidas do local e que não foram a causa da ação da igreja: todos os desabrigados tiveram que deixar o espaço. 

Apesar de o padre Libanor Picetti afirmar, nas imagens, que as pessoas não se comportaram “como gente”, a referência a crianças autistas não é feita por ele nem por Milena Bittencourt no vídeo original. Além disso, relatos de testemunhas indicam que a motivação para a ordem do pároco teria caráter político, diante da recusa dos voluntários e dos beneficiários da ajuda de políticos locais.

Desse modo, a ausência dessas informações pode levar o público a julgamentos errôneos, como uma exclusiva violação de direitos de crianças com deficiência por parte do padre e da igreja. Ainda que tal fato seja, em parte, verdadeiro, o contexto é mais amplo, conforme relatos de testemunhas e o vídeo que registra um representante da paróquia indicando um prazo para que um grupo saísse do local.

Referências de checagem:

CBN: https://cbn.globo.com/brasil/noticia/2024/05/16/policia-civil-investiga-disseminacao-de-fake-news-e-golpes-durante-tragedia-no-rs.ghtml Acesso em 15 maio 2024

Globo Rural: https://globorural.globo.com/clima/noticia/2024/05/defesa-civil-emite-alerta-de-inundaes-em-alvorada-rs-e-lagoa-dos-patos.ghtml Acesso em 15 maio 2024

A Semana: http://www.jornalasemana.net/noticias/cultura/padre_libanor_celebra_os_70_anos_de_idade_mas_afirma_se_sentir_o_mesmo_jovem_de_antes/8096 Acesso em 17 maio 2024

Paróquia Santo Antônio no Facebook: https://www.facebook.com/paroquiasantoantonioalvorada Acesso em 14 maio 2024

Perfil da paróquia Santo Antônio no Instagram: https://www.instagram.com/santoantonio_alvorada/ Acesso em 14 maio 2024

Milena Bittencourt no Instagram https://www.instagram.com/lojamacamordida/reels/ Acesso em 14 de maio 2024

Diário do Vale: https://www.instagram.com/reel/C6v-IPMJ99n/?igsh=MTVzOHhiMHQxYjFjaQ%3D%3D Acesso 14 de maio 2024

Correio do Povo: https://www.correiodopovo.com.br/notícias/política/eleições-2024-nome-do-mdb-para-sucessão-em-alvorada-assume-nova-secretaria-1.1080524 Acesso em 23 de maio 2024

Site gospel engana sobre ataque a vereador autor de lei que restringe “ensino de gênero”

* Matéria atualizada em 08/05/2024 para ajuste de texto

O portal de notícias Pleno.News publicou, em 29 de abril, matéria apontando que o  vereador Anderson Campos (Republicanos), da cidade de Nilópolis, no Rio de Janeiro, teria sofrido supostos ataques por ter criado uma lei  “que restringe o ensino de assuntos relacionados a gênero em escolas públicas e privadas do município da Baixada Fluminense”.

Ao afirmar que o parlamentar foi alvo de ataques, o texto cita o trecho de uma nota emitida pelo Sindicato dos Profissionais da Educação do Estado do Rio de Janeiro (Sepe), avaliada como  um ataque à lei e ao vereador. 

Bereia verificou a íntegra da nota citada na matéria do Pleno.News e sua repercussão nas mídias sociais.

Imagem: Reprodução / Pleno News

O que diz a lei que quer restringir “ensino de gênero” nas escolas

Promulgada em 9 de abril de 2024, a Lei Ordinária nº 6.813, de autoria de Campos, tem como objetivo “assegurar a pais e responsáveis o direito de vedarem a participação de seus filhos em atividades pedagógicas no âmbito do município Nilópolis”.

A norma também obriga as instituições de ensino do município a informarem os pais sobre quaisquer “atividades pedagógicas de gênero” que possam ser realizadas no ambiente escolar, e define as práticas como “aquelas que abordam temas relacionados à identidade de gênero, orientação sexual, diversidade sexual, igualdade de gênero e outros assuntos similares”. 

Dessa forma, a participação dos alunos ficaria condicionada à prévia autorização dos pais, que devem encaminhar à escola um documento assinado que informe se concordam ou não com a atividade promovida. 

A proposta de Campos prevê, ainda, que as instituições de ensino recebam advertência, multa, suspensão de atividade e até mesmo cassação da autorização de funcionamento se houver descumprimento da lei. Em caso de reincidência, escolas podem ter que pagar de R$ 1 mil a R$ 10 mil por aluno que tenha participado de atividades não aprovadas pelo responsável.

Referência da imagem: Reprodução / Boletim Oficial da Câmara Municipal de Nilópolis

Para entender os impactos da lei na rotina do ambiente escolar, datas comemorativas, como o Dia Internacional da Mulher, podem exigir que as instituições de ensino precisem de autorização dos pais para atividades no dia a dia dos alunos. Isso porque o 8 de março, por exemplo, é marcado pela memória das conquistas femininas na história e pela luta pela igualdade de direitos entre homens e mulheres, o que pode ser entendido como a noção de igualdade de gênero, tal como citada na lei.

A norma foi promulgada pelo presidente da Câmara de Nilópolis, vereador Zé Ribeiro (PL), após o prefeito do município, Abraãnzinho, da mesma legenda que o parlamentar, não ter sancionado e nem vetado a proposta em 15 dias – tempo que o chefe do executivo da cidade tem para a decisão, de acordo com a Lei Orgânica do Município, antes de que ela se dê por sancionada automaticamente. 

Quem é o vereador Anderson Campos 

Campos, 26 anos, é vice-presidente da Câmara de Vereadores de Nilópolis e se apresenta como um líder de jovens apaixonados por Jesus. É vinculado à Igreja Assembleia de Deus Wallace Paes Leme, e foi eleito em 2020 com 1.486 votos. Em 2022, o parlamentar foi candidato a deputado estadual no Rio de Janeiro, pelo Republicanos, com um total de 9.249 votos, número que não foi suficiente para ser eleito.

O vereador ganhou as páginas dos jornais ao ser processado pela apresentadora Xuxa Meneghel, em 2021, após se referir a ela como “assediadora de menores”, em postagens no seu perfil do Instagram. Ao perder a ação por calúnia, injúria e difamação, o vereador teve que apagar o conteúdo ofensivo e publicar pedidos de desculpas.

Nota do SEPE e repercussão

A nota do Sindicato Estadual dos Profissionais da Educação (Sepe) em Nilópolis, citada na matéria do Pleno News, foi divulgada pela unidade regional do sindicato em Nilópolis (portanto,não é o parecer da direção estadual) e repudiou a aprovação da Lei 6.813 pela Câmara Municipal.

Publicada na página da organização no Facebook, a única menção do texto ao vereador Anderson Campos diz que ele é “conhecido por seu alinhamento com a extrema direita bolsonarista, tenta impor a ideologia do seu campo política através da coação e da ameaça com multa e fechamento de escolas, caso estas se recusem a cumprir uma lei inconstitucional”. 

O posicionamento da regional do sindicato ainda citou a decisão do Supremo Tribunal Federal (STF), de abril de 2020, que declarou ser inconstitucional a Lei 1.516/2015, do Município de Novo Gama (GO), que tinha como objetivo proibir a utilização, em escolas públicas municipais, de material didático que contenha o que chama de “ideologia de gênero”. Bereia já produziu matéria sobre este e outros casos.

A nota da unidade regional do Sepe faz críticas ao conteúdo da lei e ao vereador, mas elas são restritas ao âmbito de sua atuação política:

“A lei 6.813 de 09 de abril de 2024, é um retrocesso na luta dos direitos civis contra o machismo e a Lgbtfobia (ódio contra lésbicas, gays, bissexuais e transsexuais). O Brasil, segundo a ONU, é um dos países mais violentos contra mulheres, lésbicas, gays e transexuais, sendo estes as principais vítimas de homicídio, junto com a população negra, no país. Em defesa da constituição e dos direitos de todos a vida, o Sepe – Nilópolis tomará ações contra a lei do machismo e da  Lgbtfobia aprovada pela Câmara Municipal de Nilópolis”, concluiu o sindicato.

Os comentários na postagem do sindicato carregam o mesmo tom de crítica da nota e não citam o vereador, nem manifestam qualquer hostilidade ao autor da lei. Nas publicações de Campos no Instagram, Twitter e Facebook também não se encontram comentários em tom de ataque a ele, e prevalece a participação de seus apoiadores.

Vereador alinhado à extrema-direita 

O alinhamento com pautas defendidas pela extrema direita e a proximidade com os membros da família Bolsonaro são ostentados com orgulho nos perfis de Campos nas mídias sociais, e o mesmo se declara com um “vereador bolsonarista”.

Em fevereiro deste ano, Campos deu a honraria de cidadão honorário de Nilópolis ao ex-presidente Jair Bolsonaro (PL). O vereador decidiu entregar pessoalmente o título na casa do capitão reformado do Exército.

Imagem: reprodução do Facebook

Imagens: Reprodução / Instagram

Após a publicação do portal Pleno News, perfis no Instagram repercutiram a informação de que o parlamentar estava sendo alvo de ataques pela criação da lei 6.813/2024, sem informar que tipo de ataques.

Imagens: Reprodução / Instagram

Bereia entrou em contato com a assessoria de imprensa do parlamentar, mas até o fechamento deste texto não recebeu resposta. 

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Bereia classifica como enganosa a notícia publicada pelo site gospel Pleno News, de que o vereador Anderson Campos (Republicanos) tem sido atacado por seu trabalho na Câmara de Nilópolis. A aprovação da lei e a crítica emitida pelo núcleo regional do Sepe são verdadeiras, mas a apresentação dos fatos é feita para confundir e gerar a narrativa de perseguição contra o parlamentar. A matéria do Pleno News, em nenhum trecho, demonstra conteúdo que possa ser classificado como ataque. Apenas cita trechos da nota da unidade municipal do Sepe.

Como Bereia verificou, a nota da unidade municipal do Sindicato dos Profissionais da Educação do Estado do Rio de Janeiro, tem teor e argumentos que desaprovam a lei proposta por Anderson Campos, porém não apresenta palavras que possam ser classificadas como violentas ou de “ataque”. Bereia também não identificou textos ou imagens em forma de ataque nas mídias sociais do parlamentar nem nas do Sepe. Figuras públicas, como um vereador, estão sujeitas a manifestações, também públicas, de opiniões críticas à sua atuação. 

Bereia alerta leitores e leitoras sobre a estratégia de publicação de conteúdo enganoso sobre “ataques”, especialmente em período eleitoral, como forma de campanha baseada no pânico da perseguição religiosa a cristãos, algo inexistente no Brasil, como já verificado em várias matérias. 

Referências da checagem:

Diário Oficial da Câmara Municipal de Nilópolis: https://vozdosmunicipios.com.br/wp-content/atos-oficiais/2024/Abril/26-04-2024/camara3549.pdf Acesso em: 5 mai 2024

Metrópoles: https://www.metropoles.com/brasil/vereador-tera-que-apagar-post-sobre-xuxa-ser-assediadora-de-menores Acesso em 5 mai 2024

Perfil do vereador Anderson Campos: 

https://www.instagram.com/andersoncamposbr/

https://www.instagram.com/p/C6XtKjwrL1j/?igsh=Y3V5c3YxOTFyaDA%3D https://www.instagram.com/p/C6Z3VwQAe08/  Acesso em 5 mai 2024

Núcleo nilopolitano do Sindicato dos Profissionais da Educação do Estado do Rio de Janeiro (Sepe): https://www.facebook.com/permalink.php?story_fbid=pfbid07MppVZx5Y4EHAvTmK52WbT3Ad6pkhHXYCtagXJLZtKDU7ZG4StGFnRMFKLEsHrYgl&id=61557291435048 Acesso em 5 mai 2024
Decisão do Supremo Tribunal Federal (STF): https://portal.stf.jus.br/noticias/verNoticiaDetalhe.asp?idConteudo=442331&ori=1  Acesso em 5 mai 2024

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Foto de capa: YouTube