Deputados que propõem obstáculos à redução da jornada de trabalho no Brasil têm identidade católica e evangélica

A alteração apresentada por um grupo de 176 deputados, em 14 de maio, da Proposta de Emenda Constitucional que propõe a redução da escala de trabalho 6 x 1 no Brasil,  foi recebida sob muitas críticas nas redes digitais. A  alteração prevê a redução da jornada de trabalho para 40 horas semanais apenas a partir de 2036, com período de transição de dez anos. Além disso, o texto também autoriza, mediante acordos sindicais, a ampliação da carga horária em até 30%, o que permitiria jornadas de até 52 horas semanais, além de condicionar a mudança ao cumprimento de metas de produtividade ainda não detalhadas. Diante do impacto e das reações em torno da proposta, o Bereia realizou um levantamento da identidade religiosa dos deputados que assinaram, em apoio,  a emenda apresentada.

O que propõe a controvertida emenda à PEC que reduz a escala 6×1

A emenda para a PEC que reduz a escala de trabalho 6 x 1, em discussão na Câmara Federal, foi apresentada pelo deputado católico Sérgio Turra (PP-RS). O texto propõe uma transição de dez anos para a redução da jornada de trabalho no Brasil para 40 horas semanais, mas autoriza uma carga maior, de 52 horas. Esta é a proposta  assinada por 176 deputados federais. O grupo, com parlamentares vinculados a partidos de direita, centro-direita e centro, representa cerca de 34% da Câmara dos Deputados. Entre as siglas dos parlamentares que apoiaram a proposta estão Cidadania, MDB, Novo, PDT, PL, Podemos, PP, PSD, PSDB, Republicanos, Solidariedade e União Brasil. 

A medida prevê que a nova jornada só entre em vigor em 2036 e condiciona a implementação ao cumprimento de metas de produtividade por parte dos setores empresariais, critérios que ainda não foram detalhados no projeto.

Além de adiar a redução da carga horária, a emenda permite que acordos e convenções coletivas ampliem em até 30% o limite das 40 horas semanais. Na prática, a proposta autoriza jornadas de até 52 horas por semana, e ultrapassa o teto atual de 44 horas previsto na legislação trabalhista brasileira. O texto também estabelece que atividades consideradas essenciais poderão manter a jornada atual, sem alteração, para “evitar riscos à segurança e ao bem-estar social”.

Outro ponto previsto na emenda é a ampliação da prevalência de acordos coletivos sobre a legislação trabalhista em temas como banco de horas, escalas de revezamento e intervalos. O projeto ainda propõe outros benefícios a  empresas diante do novo regime, na forma de incentivos fiscais. Entre eles estão a redução da contribuição patronal ao Fundo de Garantia do Tempo de Serviço (FGTS), de 8% para 4% sobre o salário do trabalhador e a isenção temporária da contribuição patronal ao Instituto Nacional do Seguro Social (INSS) para novas contratações após a redução da jornada. A proposta também prevê o uso de recursos do Fundo de Amparo ao Trabalhador (FAT) para auxiliar empresas durante a transição

A  identidade religiosa dos deputados que assinaram a emenda controversa  

Bereia levantou a identidade religiosa dos deputados federais que assinaram a alteração do texto da  PEC que reduz a escala 6×1. O Bereia tomou por base os dados abertos do Instituto de Estudos da Religião (ISER), dispostos na Plataforma Religião e Poder.

São Paulo (SP)

Nome                           PartidoIdentidade religiosa
Pastor Marco FelicianoPLEvangélica(Assembleia de Deus)
Paulo BilynskyjPLCatólica
Major José Olimpio            PLEvangélica (Igreja Mundial do Poder de Deus)
Vinicius CarvalhoPLEvangélica(Universal do Reino de Deus)
Mário FriasPLCristã sem denominação
Rosângela MoroUnião BrasilCatólica
Jefferson CamposPLEvangélica(Evangelho Quadrangular)
Luiz Philippe de Orleans e BragançaPLCatólico
Adilson BarrosoPLEvangélica (Assembleia de Deus)
Adriana VenturaNovoCristã
Ricardo SallesNovoCatólica
Renata AbreuPodemosCatólica
Simone MarquettoPPCatólica
Mauricio NevesPPCatólica
Vitor LippiPSDCatólica
Celso RussomannoRepublicanosCatólica
Arnaldo JardimCidadaniaCatólica
Baleia RossiMDBCatólica
MarangoniPodemosCatólica

Minas Gerais (MG)

NomePartidoIdentidade religiosa
Nikolas FerreiraPLEvangélica (Comunidade Evangélica Graça e Paz)
Zé VitorPLCatólica
Greyce EliasPLEvangélica (Comunidade Evangélica Sara Nossa Terra)
Lafayette de AndradaPLCatólica
Domingos SávioPLCatólica
Junio AmaralPLCristão sem denominação
Rosângela ReisPLEvangélica
(Igreja não identificada)
Marcelo Álvaro AntônioPLEvangélica (Igreja Maranata)
Lincoln PortelaPLEvangélica (Igreja Batista Solidária)
Ana Paula LeãoPPCatólica
PinheirinhoPPCatólico
Gilberto AbramoRepublicanosEvangélica ( Universal do Reino de Deus)
Luiz Fernando FariaUnião BrasilCatólica
Zé SilvaUnião BrasilCatólica
Newton Cardoso JrMDBCatólica
Hercílio Coelho DinizMDBCatólica
Mário HeringerPDTCatólica
Diego AndradePSDCatólica
Maurício do VôleiPLCristã sem denominação
Rafael SimõesUnião BrasilNão identificada

Rio de Janeiro (RJ)

NomePartidoIdentidade religiosa
Sóstenes CavalcantePLEvangélica(Assembleia de Deus Vitória em Cristo)
Chris ToniettoPLCatólica
Carlos JordyPLEvangélica(Igreja não identificada)
Dr. Flávio                  PLNão identificada
Julio LopesPPCatólica
BebetoPPEvangélica (Igreja Assembleia de Deus )
Doutor LuizinhoPPCatólica
Jorge BrazRepublicanosEvangélica (Universal do Reino de Deus)
Daniela do WaguinhoRepublicanosEvangélica (Igreja de Nova Vida)
Murillo GouveaPSDBCatólica
Luciano VieiraPSDBNão identificada
Hugo LealPSDCatólica
Luiz LimaNovoCatólica
Max LemosPDTNão identificada

Espírito Santo (ES)

Nome        PartidoIdentidade religiosa
Da VitoriaPPCatólica
Amaro NetoPPEvangélica(Igreja não identificada)
Evair Vieira de MeloRepublicanosCatólica
Messias DonatoUnião BrasilEvangélica (Evangelho Quadrangular)

Rio Grande do Sul (RS)

NomePartidoIdentidade religiosa
Mauricio MarconPLCatólica
Sanderson                 PLCatólica
Bibo NunesPLCristã sem denominação
Giovani CheriniPLEspírita
Marcelo MoraesPLEvangélica (Igreja Batista)
Osmar TerraPLCatólica
Sérgio TurraPPCatólica
Afonso HammPPNão identificada
Any OrtizPPCatólica
Pedro WestphalenPPCatólica
Marcel van HattemNovoEvangélico (Igreja Evangélica Luterana do Brasil)
Luiz Carlos BusatoUnião BrasilNão identificada
Franciane BayerRepublicanosEvangélica(Internacional da Graça de Deus)
Lucas RedeckerPSDEvangélica(Igreja Evangélica de Confissão Luterana do Brasil)
Alceu MoreiraMDBCatólica

Santa Catarina (SC)

Nome                           PartidoIdentidade religiosa
Daniela ReinehrPLCristã sem denominação
Caroline de ToniPLCatólica
Daniel FreitasPLCatólica
Julia ZanattaPLCatólica
Zé TrovãoPLNão identificada
IsmaelPLEvangélica(Assembleia de Deus)
Ricardo GuidiPLCatólica
CobalchiniMDBCatólica
PezentiMDBCatólica
Carlos ChiodiniMDBCatólica
Jorge GoettenRepublicanosCatólica
Geovania de SáRepublicanosEvangélica
(Assembleia de Deus)
Fabio SchiochetUnião BrasilCatólica
Gilson MarquesNovoNão identificada

Paraná (PR)

Nome      PartidoIdentidade religiosa
Tião MedeirosPPCatólica
Toninho WandscheerPPEvangélica (Assembleia de Deus)
PadovaniPPCatólica
Dilceu SperaficoPPCatólica
Luisa CanzianiUnião BrasilCatólica
Geraldo MendesUnião BrasilCatólica
Paulo LitroUnião BrasilNão identificada
VermelhoPLCatólica
Sargento FahurPLCatólica
Luiz NishimoriPSDNão identificada
Felipe FrancischiniPodemosEvangélica (Assembleia de Deus)
Beto RichaPSDBCatólica
Pedro LupionRepublicanosNão identificada
Sergio SouzaMDBNão identificada

Goiás (GO)

NomePartidoIdentidade religiosa
Gustavo GayerPLCatólica
Magda MofattoPL           Católica
Daniel AgrobomPSDEvangélica (Mundial do Poder de Deus)
Dr. Ismael AlexandrinoPSDCatólica
José NeltoUnião BrasilCatólica
Marussa BoldrinRepublicanosCatólica
Adriano do BaldyPPCatólico
Glaustin da FokusPodemosEvangélico (Assembleia de Deus)
Dr. Zacharias CalilMDBCatólica
Célio SilveiraMDBCatólica

Mato Grosso (MT)

Nome      PartidoIdentidade religiosa
Rodrigo da ZaeliPLCatólica
José MedeirosPLEvangélica (Igreja Presbiteriana do Brasil)
Coronel FernandaPLEvangélica (Assembleia de Deus)
Nelson BarbudoPodemosCatólica
Juarez CostaRepublicanosEvangélica(Igreja não identificada
Fabio GarciaUNIÃOEvangélica(Igreja não identifiada)

Mato Grosso do Sul (MS)

NomePartidoIdentidade religiosa
Marcos PollonPLCatólica
Rodolfo NogueiraPLEvangélica(Igreja não identificada)
Dr. Luiz OvandoPPEvangélica (Igreja Batista Kairós)
Beto PereiraRepublicanosCatólica

Distrito Federal (DF)

NomePartidoIdentidade religiosa
Alberto FragaPLCatólica
Bia KicisPLCatólica

Bahia (BA)

NomePartidoIdentidade religiosa
Capitão AldenPLEvangélica(Igreja não identificada)
Roberta RomaPLCatólica
João Carlos BacelarPLCatólica
Arthur Oliveira MaiaUnião BrasilCatólica
José RochaUnião BrasilCatólica
Paulo AziUnião BrasilCatólica
Diego CoronelRepublicanosCatólica
Claudio CajadoPPCatólica

Ceará (CE)

Nome                           PartidoIdentidade religiosa
Dr. JazielPLEvangélica(Assembleia de Deus)
AJ AlbuquerquePPNão identificada
Danilo FortePPCatólica
Fernanda PessoaPSDCatólica
Luiz GastãoPSDCatólica
Eunício OliveiraMDBCatólica

Pernambuco (PE)

NomePartidoIdentidade religiosa
Pastor EuricoPSDBEvangélica(Assembleia de Deus)
Clarissa TércioPPEvangélica(Assembleia de Deus)
Coronel MeiraPLCatólica
Fernando Coelho FilhoUnião Católica
Augusto CoutinhoRepublicanosCatólica

Maranhão (MA)

Nome                           PartidoIdentidade religiosa
Josivaldo JpUnião BrasilEvangélica (Igreja Assembleia de Deus )
Aluisio MendesRepublicanosCatólica
Márcio HonaiserSolidariedadeCatólica
Hildo RochaMDBNão identificada

Piauí (PI)

Nome                           PartidoIdentidade religiosa
Átila LiraPPCatólica
Julio ArcoverdePPCatólica

Alagoas (AL)

NomePartidoIdentidade religiosa
Delegado Fábio CostaPPEvangélica(Não identificada)

Rio Grande do Norte (RN)

NomePartidoIdentidade religiosa
General GirãoPLCatólica
Sargento GonçalvesPLEvangélica (Igreja Batista)
João MaiaPPCatólica

Sergipe (SE)

NomePartidoIdentidade religiosa
Rodrigo ValadaresPLEvangélica(Igreja Sara Nossa Terra )
Gustinho RibeiroPPCatólica

Paraíba (PB)

NomePartidoIdentidade religiosa
Cabo Gilberto SilvaPLCatólica

Acre (AC)

NomePartidoIdentidade religiosa
Meire SerafimUnião BrasilCatólica
Coronel UlyssesUnião BrasilEvangélica (Comunidade Batista Vida)
Zezinho BarbaryPPCatólico
Zé AdrianoPPNão identificada
Roberto DuarteRepublicanosNão identificada

Rondônia (RO)

NomePartidoIdentidade religiosa
Lucio MosquiniPLEvangélica (Igreja Batista)
Coronel ChrisóstomoPLEvangélica (Assembleia de Deus)
Dr. Fernando MáximoPLEvangélica(Igreja não identificada)
Thiago FloresUnião BrasilNão identificada
Rafael FeraPODENão identificada

Tocantins (TO)

NomePartidoIdentidade religiosa
Alexandre GuimarãesMDBCristã sem denominação
Eli BorgesRepublicanosEvangélica(Assembleia de Deus)
Antonio AndradePSDBCatólica
Filipe MartinsPLEvangélica(Igreja Presbiteriana do Brasil)

Pará (PA)

Nome                           PartidoIdentidade religiosa
Joaquim PassarinhoPLCatólica
Henderson PintoUnião BrasilCatólica

Roraima (RR)

NomePartidoIdentidade religiosa
Pastor DinizUnião BrasilEvangélica (Assembleia de Deus)
NicolettiPLCristã sem denominação

Amazonas (AM)

NomePartidoIdentidade religiosa
Fausto Jr.União BrasilEvangélica(Não identificada)

Amapá (AP)

NomePartidoIdentidade religiosa
Aline GurgelUnião BrasilNão identificada

O que é a PEC da escala 6×1

A Constituição da República (artigo 7º, inciso XIII), estabelece, entre os direitos dos trabalhadores e trabalhadoras, que a duração da carga de trabalho “não deve ser superior a oito horas diárias e 44 semanais, facultada a compensação de horários e a redução da jornada, mediante acordo ou convenção coletiva de trabalho”. 

Na Consolidação das Leis do Trabalho (CLT), em vigor desde 1943, a regra é tratada na Seção II, artigos 58 a 65. Naquela época, o modelo familiar tradicional e a dinâmica do mercado permitiam que o domingo fosse o dia de folga padrão. Contudo, apesar da expansão dos setores da indústria, do comércio e dos serviços, mais de 80 anos depois, a escala de seis dias de trabalho diretos com apenas um de folga permanece mantida como protocolo padrão.  

Algumas poucas categorias de trabalhadores cumprem jornada diferenciada por terem regulamentação própria. É o caso de bancários (seis horas diárias ou 30 horas semanais), jornalistas (cinco horas diárias ou 30 horas semanais), médicos (quatro horas diárias), aeronautas (devido ao tipo de atividade, a jornada pode chegar a 20 horas), radiologistas (24 horas semanais) e advogados (quatro horas diárias ou 20 horas semanais).

A origem das propostas legislativas recentes para redução do formato mais comum de carga de trabalho está na Proposta de Emenda à Constituição (PEC) 221, de 2019. De autoria do deputado federal católico Reginaldo Lopes (PT-MG) a  proposta prevê a redução gradual da jornada semanal de trabalho das atuais 44 horas para 36 horas, sem redução salarial, além da ampliação do período de descanso dos trabalhadores. Sem ser tratada com prioridade na Câmara Federal desde então, a pauta ganhou força em 2023, quando o  movimento VAT (Vida Além do Trabalho), pela redução da escala 6×1, foi popularizada nas mídias sociais. Liderado pelo influenciador e atual vereador da cidade do Rio de Janeiro Rick Azevedo (PSOL), o movimento se baseia no argumento de que a jornada de seis dias seguidos é exaustiva, compromete a saúde física e mental, resultando em baixa produtividade, e deixa pouco tempo para o trabalhador descansar, cuidar da família e buscar qualificação.  

A partir das articulações do movimento VAT e da popularização da pauta nas mídias sociais e nas ruas, a deputada federal de identidade religiosa não identificada Érica Hilton (PSOL-SP) apresentou uma nova PEC, a de nº  8/2025, para redução da carga horária semanal e a imposição de limites ao modelo 6×1. Apesar da resistência da mesa diretora da Câmara, sob a liderança de Hugo Motta (Republicanos-PB) de pautar a proposta, o amplo apoio popular e uma pressão do governo federal, somados à atmosfera do ano eleitoral, levaram a um novo impulso à proposta em 2026.   

No final de abril foi instalada uma  comissão especial na Câmara dos Deputados para analisar o mérito das propostas de Reginaldo Lopes, de 2019, e de Erika Hilton, de 2025. além de outras proposições apensadas. A comissão é presidida pelo deputado de vinculação religiosa não identificada Alencar Santana (PT-SP) e tem como relator o deputado católico Leo Prates (PDT-BA). 

De acordo com o relator, o parecer deverá estabelecer uma transição gradual da jornada semanal de 44 para 40 horas, com adoção da escala 5×2 e prazo estimado entre dois e cinco anos para implementação. Durante esse período de adaptação, trabalhadores e trabalhadoras poderão cumprir jornadas de até dez horas diárias, desde que tenham ao menos oito folgas mensais, sendo uma delas preferencialmente aos domingos. O movimento VAT, a deputada Érika Hilton e o governo federal defendem a implementação imediata da redução da jornada. Da parte do governo, há diálogo em torno da negociação de um modelo de transição para viabilizar consenso no Congresso Nacional. 

A comissão especial estabeleceu um cronograma para concluir a tramitação ainda em maio de 2026. A previsão é de apresentação do relatório final no dia 25 de maio e votação em plenário a partir de 27 de maio. O debate tem mobilizado setores empresariais, sindicatos e movimentos sociais. 

Foi no contexto da instalação da comissão e da avaliação na casa legislativa de que a aprovação da PEC será inevitável que foi apresentada a proposta de emenda assinada pelos 176 deputados para a transição de dez anos.

***

Em um período eleitoral em que a religião e a fé são amplamente acionados em campanhas, Bereia chama a atenção de leitores e leitoras para estarem atentos à atuação dos políticos que se lançam de sua identidade religiosa em sua atividade parlamentar. O levantamento do Bereia evidencia que o apoio à emenda da PEC da escala 6×1 reúne uma presença significativa de parlamentares com identidade religiosa declarada, especialmente vinculados aos segmentos católico e evangélico. 

Tal retrato da atuação destes políticos demonstra como os interesses econômico-financeiros predominantes no país orientam a atuação de parlamentares autoidentificados como conservadores, em especial os que instrumentalizam a religião em seus discursos. Isto se explicita na discussão de pautas que envolvem direitos trabalhistas e relações de trabalho no Congresso Nacional.

 Referências:

Proposta de emenda à constituição nº 221, de 2019. https://static.poder360.com.br/2026/05/emenda-6-x-1-deputados.pdf. Acesso em 21 de maio de 2026.

Poder 360. https://www.poder360.com.br/poder-congresso/saiba-quem-assinou-a-proposta-que-amplia-jornada-para-52h-semanais/.  Acesso em 21 de maio de 2026.

Brasil de fato. https://www.brasildefato.com.br/2026/05/20/deputados-do-df-apoiam-emenda-que-adia-fim-da-escala-6×1-e-amplia-jornada-para-ate-52-horas/.  Acesso em 21 de maio de 2026.

PEC 8/2025. https://www.camara.leg.br/proposicoesWeb/fichadetramitacao?idProposicao=2485341.  Acesso em 21 de maio de 2026.

Uol.. https://economia.uol.com.br/noticias/redacao/2026/04/28/relator-6×1.ghtm?utm_source. Acesso em 21 de maio de 2026.

Câmara dos deputados. https://www.camara.leg.br/tv/bora-entender/1251476-bora-entender-fim-da-escala-6×1/. Acesso em 21 de maio de 2026.

Câmara dos deputados. https://www.camara.leg.br/noticias/1267523-comissao-especial-que-vai-analisar-o-fim-da-escala?utm_source. Acesso em 21 de maio de 2026.

Câmara dos deputados. https://www.camara.leg.br/noticias/1136412-pec-preve-a-adocao-da-jornada-de-quatro-dias-de-trabalho-para-todos-os-trabalhadores-brasileiros. Acesso em 21 de maio de 2026.

Câmara dos deputados. https://www.camara.leg.br/noticias/632530-pec-reduz-jornada-semanal-de-trabalho-de-44-para-36-horas. Acesso em 21 de maio de 2026.

Câmara dos deputados. https://www.camara.leg.br/internet/deputado/frenteDetalhe.asp?id=54326. Acesso em 21 de maio de 2026.

Câmara dos deputados. https://www.camara.leg.br/deputados/frentes-parlamentares/57/54477/membros. Acesso em 21 de maio de 2026.

Câmara dos deputados. https://www.camara.leg.br/deputados/frentes-parlamentares/57/54326/membros. Acesso em 22 de maio de 2026.

G1. https://g1.globo.com/politica/noticia/2026/05/19/fim-da-escala-6×1-relatorio-deve-ser-apresentado-na-proxima-segunda-transicao-ainda-precisa-ser-acertada.ghtml. Acesso em 21 de maio de 2026.

Religião e Poder. https://religiaoepoder.org.br/artigo/religiao-como-forma-de-protecao-da-cultura-manifestacoes-culturais-e-artisticas-como-campo-de-disputa. Acesso em 21 de maio de 2026.

CPAD News. https://www.cpadnews.com.br/evangelico-assume-a-vaga-de-carla-zambelli-na-camara/. Acesso em 21 de maio de 2026.

Bancos de dados ISER. https://docs.google.com/spreadsheets/d/1PHKg_hQ5imp81SYcyVevSCdH3PNj1u30SMpEiYOk1y8/edit?gid=529573698#gid=529573698. Acesso em 21 de maio de 2026.

Instagram. https://www.instagram.com/p/DYiVW5NGKiQ/?img_index=20. Acesso em 21 de maio de 2026.

Constituição da República. http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/Constituicao/ConstituicaoCompilado.htm. Acesso em 24 de maio de 2026.

CONSOLIDAÇÃO DAS LEIS DO TRABALHO. http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/decreto-lei/Del5452.htm. Acesso em 24 de maio de 2026.Infomoney. https://www.infomoney.com.br/politica/hugo-motta-sobre-pec-que-acaba-com-escala-de-trabalho-6×1-me-preocupa-muito/. Acesso em 24 de maio de 2026.

Imagem de capa: Letycia Bond/Agência Brasil

Bancada Cristã: a tomada do Estado e o ódio às mulheres

*Texto publicado originalmente em Outras Palavras

A relação entre religião e política no Brasil sempre foi marcada por elevada permeabilidade. Desde o período colonial até a contemporaneidade, instituições religiosas atuam como agentes relevantes na conformação de valores morais, na organização da sociedade civil e na disputa por influência sobre políticas públicas. Embora essa presença não seja nova, nas últimas décadas ela assume formas renovadas, mais explícitas e institucionalizadas, revelando a capacidade adaptativa das organizações religiosas diante das transformações do campo político.

Nesse contexto, em 22 de outubro de 2025, o Congresso Nacional aprovou o regime de urgência para o projeto que cria a Bancada Cristã na Câmara dos Deputados, iniciativa apresentada conjuntamente pelas Frentes Parlamentares Evangélica e Católica Apostólica Romana. O pedido foi aprovado por 398 votos favoráveis e 30 contrários. Caso a proposta seja aprovada, a Bancada Cristã passará a ter direito a voz e voto no Colégio de Líderes, além de outras prerrogativas institucionais relevantes, como a influência direta sobre a definição da agenda legislativa.

Dois argumentos principais foram mobilizados para justificar a criação da Bancada. O primeiro sustenta que aproximadamente 80% da população brasileira se declara cristã. O segundo invoca a garantia constitucional da liberdade de manifestação da fé. Nenhum desses argumentos, contudo, é suficientemente consistente para fundamentar a institucionalização de uma bancada religiosa com poder formal de interferir na definição de prioridades do Parlamento. A representatividade numérica de uma identidade religiosa não autoriza sua tradução automática em representação política confessional, assim como a liberdade religiosa não implica o direito de capturar estruturas estatais para a promoção de agendas morais particulares.

Na esteira dessa proposição, ao longo de 2025, diversos municípios apresentaram e aprovaram projetos de lei que autorizam o uso da Bíblia como livro didático ou paradidático em escolas públicas e privadas. Municípios como Joinville (SC), Divinópolis (MG), Belo Horizonte (MG) e Rio Branco (AC), e os estados do Rio Grande do Norte e do Ceará, adotaram iniciativas dessa natureza. O principal argumento mobilizado é o de que a Bíblia teria exercido forte influência na formação da civilização ocidental. Foram rejeitadas, entretanto, emendas que propunham a inclusão de textos sagrados de outras tradições religiosas — como a Torá, o Alcorão, o Livro dos Espíritos, além de cantos e narrativas de religiões de matriz africana e de povos originários — evidenciando o caráter seletivo e excludente dessas propostas.

Esses exemplos ilustram a persistente e assimétrica relação entre religião e política no Brasil. Ainda que essa relação seja historicamente constituída, sua configuração atual revela novas estratégias de ocupação do espaço público, legitimadas por discursos de defesa da moral, da identidade cultural e da liberdade religiosa.

Alianças intercristãs e reconfigurações do campo religioso-político

Entre as estratégias contemporâneas de ampliação da influência religiosa na política, destaca-se a aproximação e a formação de alianças pontuais entre grupos que, até poucas décadas atrás, se percebiam como adversários. Trata-se, sobretudo, da convergência entre diferentes movimentos pentecostais, oriundas de variadas denominações evangélicas, e o movimento carismático católico romano.

Historicamente, a disputa pelo chamado “mercado religioso” incentivou a demarcação de fronteiras doutrinárias e simbólicas entre essas correntes. No âmbito da representação política, autoridades católicas passaram a interpretar o avanço evangélico como ameaça ao status, ainda que extraoficial, da Igreja Católica como “igreja dos brasileiros”. Nessa lógica, os privilégios historicamente naturalizados pela hegemonia católica não eram percebidos como problema democrático, mas como expressão legítima de uma tradição nacional.

Por muito tempo, parte significativa da produção intelectual e do debate público operou com uma dicotomia simplificadora: de um lado, um catolicismo progressista, democrático e comprometido com os direitos humanos; de outro, um evangelicalismo conservador, autoritário e antidemocrático. Essa leitura invisibilizou tanto o papel de organizações católicas tradicionalistas, como a Tradição, Família e Propriedade (TFP), quanto às contribuições históricas de protestantes para a defesa da laicidade do Estado, a organização sindical e a educação popular.

Nesse cenário polarizado foi, sobretudo, o movimento feminista não religioso e a teologia feminista que demonstraram maior acuidade analítica ao perceber que, quando estão em jogo a autonomia das mulheres e a igualdade de gênero, o cristianismo institucionalizado — em suas versões católica romana, ortodoxa ou protestante — tende a convergir na defesa de uma moral patriarcal. Essa moral atua como princípio ordenador destinado a conter aquilo que é interpretado como caos social decorrente das reivindicações feministas por igualdade jurídica, controle sobre o próprio corpo, participação política, liberdade sexual e direito a uma vida livre de violência.

Plataforma político-religiosa, guerra espiritual e bem público

Na segunda metade do século XXI, intensificam-se os discursos religiosos estruturados em torno da noção de guerra espiritual. Segundo essa perspectiva, os processos de secularização nas sociedades ocidentais estariam corroendo valores considerados fundamentais de uma suposta moral cristã. A guerra espiritual, nesse sentido, não se limita a uma metáfora teológica, mas opera como dispositivo mobilizador para ações políticas concretas, orientadas ao enfrentamento das transformações culturais associadas à modernidade.

Nesse enquadramento, proliferam narrativas de perseguição aos cristãos e de ameaça à liberdade religiosa. Os alvos privilegiados desses discursos são a ideia de uma sociedade plural e diversa, além dos movimentos que sustentam a pluralidade, como o feminista, o antirracista, os movimentos socioambientais, os de defesa dos direitos das pessoas LGBTQIA+, e os movimentos anticapitalistas. Esses atores são compreendidos pela direita cristã como responsáveis pela desintegração da ordem social.

É nesse contexto que católicos e evangélicos (protestantes) passam a estabelecer alianças estratégicas com o objetivo declarado de enfrentar o mal que, segundo essa narrativa, estaria corroendo as estruturas morais do Ocidente. A proposta de criação de uma Bancada Cristã deve ser compreendida à luz desse cenário mais amplo. Ela constitui uma cruzada moral institucionalizada, conduzida por meios formais e democráticos, contra agendas interpretadas pela direita cristã como ameaças existenciais.

No século XXI, essas alianças deixam de se organizar prioritariamente em torno de disputas doutrinárias e passam a se estruturar a partir da ideia de que o cristianismo, em suas múltiplas expressões, seria o principal provedor e guardião da identidade cultural ocidental. Essa reconfiguração desloca o foco da concorrência religiosa para a ação política coordenada.

A Declaração de Manhattan como plataforma transnacional

Um marco relevante, ainda pouco conhecido no debate público brasileiro, dessa convergência intercristã é a “Declaração de Manhattan: um chamado à consciência cristã”, lançada em 2009, nos Estados Unidos e assinada por cerca de 150 lideranças, incluindo bispos católicos romanos, cristãos ortodoxos, pastores evangélicos e intelectuais cristãos.

A Declaração pode ser interpretada como uma plataforma político-religiosa de alcance transnacional, voltada à orientação da ação pública de lideranças religiosas conservadoras e de atores políticos com vinculação confessional. O documento está estruturado em três grandes eixos: vida, casamento e liberdade religiosa.

No preâmbulo, as lideranças signatárias se apresentam como herdeiras de cristãos da Antiguidade que teriam confrontado a tirania do Império Romano, combatendo práticas como o infanticídio e a servidão. O texto reivindica ainda o papel dos mosteiros na preservação da Bíblia, da arte e da cultura ocidentais, menciona bulas papais dos séculos XVI e XVII que condenaram a escravidão. O documento recupera o papel de figuras como John Wesley e William Wilberforce na luta contra o tráfico de pessoas escravizadas. Ao mobilizar esse repertório histórico, a Declaração constrói uma narrativa de autoridade moral destinada a legitimar sua atuação contemporânea no espaço público.

No eixo da vida, o documento afirma que, apesar de um suposto sentimento público pró-vida nos Estados Unidos, o governo da época — liderado por Barack Obama — promoveria uma ideologia favorável à legalização do aborto. Critica a decisão da Suprema Corte no caso Roe v. Wade (1973). Para os signatários da Declaração, a decisão da Suprema Corte americana é interpretada como a retirada da proteção legal do nascituro. Aborto, eutanásia, suicídio assistido e pesquisas com embriões são enquadrados como expressões de uma “cultura da morte”, legitimada pelo Estado.

No eixo do casamento, apenas a união entre homem e mulher é reconhecida como válida. O casamento é apresentado como instituição central para a saúde, a educação e o bem-estar social. A dissolução da chamada cultura matrimonial é associada ao surgimento de patologias sociais, entre as quais se incluem o divórcio e as uniões entre pessoas do mesmo sexo.

No eixo da liberdade religiosa, o documento afirma que somente Deus é senhor da consciência cristã. A partir disso, reivindica que indivíduos e instituições religiosas não sejam obrigados a agir de modo contrário às suas convicções morais. Direitos como o aborto legal e seguro e o reconhecimento do casamento entre pessoas do mesmo sexo são reinterpretados como violações da liberdade religiosa daqueles que se opõem a essas práticas. Políticas antidiscriminatórias são descritas como restrições ao livre exercício da religião. O texto invoca explicitamente o direito à desobediência civil diante de leis consideradas “anti-vida”.

Embora elaborada em 2009 e situada no contexto político norte-americano, a Declaração de Manhattan pode ser lida como uma plataforma exportável e de pretensão atemporal, especialmente em razão da capilaridade das instituições religiosas e da diversidade de interesses econômicos e políticos que financiam a direita cristã em diferentes países.

Bem público, liberdade religiosa e ódio às mulheres

Um aspecto central dessa plataforma é a redefinição do conceito de bem público. Ele deixa de ser compreendido como resultado do equilíbrio entre direitos fundamentais em uma sociedade plural e passa a ser identificado com políticas públicas que reforçam concepções restritivas de vida, família e sexualidade. Trata-se de um bem público particularista, ancorado em uma moral religiosa específica e apresentado como universal.

De modo semelhante, a liberdade religiosa é reinterpretada de forma absolutizada e hierarquizada, desvinculada de sua interdependência com outros direitos fundamentais. Em vez de garantir a convivência entre diferentes crenças e convicções em um Estado laico, ela é mobilizada como instrumento político para bloquear direitos sexuais e reprodutivos e para legitimar práticas discriminatórias.

É nesse ponto que se torna possível compreender o sentido da expressão “ódio às mulheres” no contexto das alianças político-religiosas. Não se trata apenas de atitudes individuais de misoginia, mas de uma estrutura simbólica e institucional que opera para restringir a autonomia das mulheres, controlar seus os corpos e deslegitimar suas reivindicações por igualdade. Esse ódio manifesta-se na oposição sistemática ao direito ao aborto legal e seguro, na resistência à educação sexual, na naturalização da violência de gênero e na exclusão das mulheres dos espaços de poder e decisão.

A possibilidade de criação de uma Bancada Cristã no Congresso Nacional deve, portanto, ser analisada à luz dessa configuração mais ampla. O fortalecimento da democracia brasileira exige o enfrentamento transparente e crítico da histórica permeabilidade entre religião e política. Não é compatível com um regime democrático que critérios de vinculação religiosa ou de conservadorismo moral orientem a ocupação de cargos públicos estratégicos, como as indicações para o Supremo Tribunal Federal. Enquanto persistirem alianças político-religiosas que, sob o discurso do bem público e da liberdade religiosa, perpetuam a subordinação estrutural e o ódio às mulheres, a democracia permanecerá incompleta.