Deputados que propõem obstáculos à redução da jornada de trabalho no Brasil têm identidade católica e evangélica

A alteração apresentada por um grupo de 176 deputados, em 14 de maio, da Proposta de Emenda Constitucional que propõe a redução da escala de trabalho 6 x 1 no Brasil,  foi recebida sob muitas críticas nas redes digitais. A  alteração prevê a redução da jornada de trabalho para 40 horas semanais apenas a partir de 2036, com período de transição de dez anos. Além disso, o texto também autoriza, mediante acordos sindicais, a ampliação da carga horária em até 30%, o que permitiria jornadas de até 52 horas semanais, além de condicionar a mudança ao cumprimento de metas de produtividade ainda não detalhadas. Diante do impacto e das reações em torno da proposta, o Bereia realizou um levantamento da identidade religiosa dos deputados que assinaram, em apoio,  a emenda apresentada.

O que propõe a controvertida emenda à PEC que reduz a escala 6×1

A emenda para a PEC que reduz a escala de trabalho 6 x 1, em discussão na Câmara Federal, foi apresentada pelo deputado católico Sérgio Turra (PP-RS). O texto propõe uma transição de dez anos para a redução da jornada de trabalho no Brasil para 40 horas semanais, mas autoriza uma carga maior, de 52 horas. Esta é a proposta  assinada por 176 deputados federais. O grupo, com parlamentares vinculados a partidos de direita, centro-direita e centro, representa cerca de 34% da Câmara dos Deputados. Entre as siglas dos parlamentares que apoiaram a proposta estão Cidadania, MDB, Novo, PDT, PL, Podemos, PP, PSD, PSDB, Republicanos, Solidariedade e União Brasil. 

A medida prevê que a nova jornada só entre em vigor em 2036 e condiciona a implementação ao cumprimento de metas de produtividade por parte dos setores empresariais, critérios que ainda não foram detalhados no projeto.

Além de adiar a redução da carga horária, a emenda permite que acordos e convenções coletivas ampliem em até 30% o limite das 40 horas semanais. Na prática, a proposta autoriza jornadas de até 52 horas por semana, e ultrapassa o teto atual de 44 horas previsto na legislação trabalhista brasileira. O texto também estabelece que atividades consideradas essenciais poderão manter a jornada atual, sem alteração, para “evitar riscos à segurança e ao bem-estar social”.

Outro ponto previsto na emenda é a ampliação da prevalência de acordos coletivos sobre a legislação trabalhista em temas como banco de horas, escalas de revezamento e intervalos. O projeto ainda propõe outros benefícios a  empresas diante do novo regime, na forma de incentivos fiscais. Entre eles estão a redução da contribuição patronal ao Fundo de Garantia do Tempo de Serviço (FGTS), de 8% para 4% sobre o salário do trabalhador e a isenção temporária da contribuição patronal ao Instituto Nacional do Seguro Social (INSS) para novas contratações após a redução da jornada. A proposta também prevê o uso de recursos do Fundo de Amparo ao Trabalhador (FAT) para auxiliar empresas durante a transição

A  identidade religiosa dos deputados que assinaram a emenda controversa  

Bereia levantou a identidade religiosa dos deputados federais que assinaram a alteração do texto da  PEC que reduz a escala 6×1. O Bereia tomou por base os dados abertos do Instituto de Estudos da Religião (ISER), dispostos na Plataforma Religião e Poder.

São Paulo (SP)

Nome                           PartidoIdentidade religiosa
Pastor Marco FelicianoPLEvangélica(Assembleia de Deus)
Paulo BilynskyjPLCatólica
Major José Olimpio            PLEvangélica (Igreja Mundial do Poder de Deus)
Vinicius CarvalhoPLEvangélica(Universal do Reino de Deus)
Mário FriasPLCristã sem denominação
Rosângela MoroUnião BrasilCatólica
Jefferson CamposPLEvangélica(Evangelho Quadrangular)
Luiz Philippe de Orleans e BragançaPLCatólico
Adilson BarrosoPLEvangélica (Assembleia de Deus)
Adriana VenturaNovoCristã
Ricardo SallesNovoCatólica
Renata AbreuPodemosCatólica
Simone MarquettoPPCatólica
Mauricio NevesPPCatólica
Vitor LippiPSDCatólica
Celso RussomannoRepublicanosCatólica
Arnaldo JardimCidadaniaCatólica
Baleia RossiMDBCatólica
MarangoniPodemosCatólica

Minas Gerais (MG)

NomePartidoIdentidade religiosa
Nikolas FerreiraPLEvangélica (Comunidade Evangélica Graça e Paz)
Zé VitorPLCatólica
Greyce EliasPLEvangélica (Comunidade Evangélica Sara Nossa Terra)
Lafayette de AndradaPLCatólica
Domingos SávioPLCatólica
Junio AmaralPLCristão sem denominação
Rosângela ReisPLEvangélica
(Igreja não identificada)
Marcelo Álvaro AntônioPLEvangélica (Igreja Maranata)
Lincoln PortelaPLEvangélica (Igreja Batista Solidária)
Ana Paula LeãoPPCatólica
PinheirinhoPPCatólico
Gilberto AbramoRepublicanosEvangélica ( Universal do Reino de Deus)
Luiz Fernando FariaUnião BrasilCatólica
Zé SilvaUnião BrasilCatólica
Newton Cardoso JrMDBCatólica
Hercílio Coelho DinizMDBCatólica
Mário HeringerPDTCatólica
Diego AndradePSDCatólica
Maurício do VôleiPLCristã sem denominação
Rafael SimõesUnião BrasilNão identificada

Rio de Janeiro (RJ)

NomePartidoIdentidade religiosa
Sóstenes CavalcantePLEvangélica(Assembleia de Deus Vitória em Cristo)
Chris ToniettoPLCatólica
Carlos JordyPLEvangélica(Igreja não identificada)
Dr. Flávio                  PLNão identificada
Julio LopesPPCatólica
BebetoPPEvangélica (Igreja Assembleia de Deus )
Doutor LuizinhoPPCatólica
Jorge BrazRepublicanosEvangélica (Universal do Reino de Deus)
Daniela do WaguinhoRepublicanosEvangélica (Igreja de Nova Vida)
Murillo GouveaPSDBCatólica
Luciano VieiraPSDBNão identificada
Hugo LealPSDCatólica
Luiz LimaNovoCatólica
Max LemosPDTNão identificada

Espírito Santo (ES)

Nome        PartidoIdentidade religiosa
Da VitoriaPPCatólica
Amaro NetoPPEvangélica(Igreja não identificada)
Evair Vieira de MeloRepublicanosCatólica
Messias DonatoUnião BrasilEvangélica (Evangelho Quadrangular)

Rio Grande do Sul (RS)

NomePartidoIdentidade religiosa
Mauricio MarconPLCatólica
Sanderson                 PLCatólica
Bibo NunesPLCristã sem denominação
Giovani CheriniPLEspírita
Marcelo MoraesPLEvangélica (Igreja Batista)
Osmar TerraPLCatólica
Sérgio TurraPPCatólica
Afonso HammPPNão identificada
Any OrtizPPCatólica
Pedro WestphalenPPCatólica
Marcel van HattemNovoEvangélico (Igreja Evangélica Luterana do Brasil)
Luiz Carlos BusatoUnião BrasilNão identificada
Franciane BayerRepublicanosEvangélica(Internacional da Graça de Deus)
Lucas RedeckerPSDEvangélica(Igreja Evangélica de Confissão Luterana do Brasil)
Alceu MoreiraMDBCatólica

Santa Catarina (SC)

Nome                           PartidoIdentidade religiosa
Daniela ReinehrPLCristã sem denominação
Caroline de ToniPLCatólica
Daniel FreitasPLCatólica
Julia ZanattaPLCatólica
Zé TrovãoPLNão identificada
IsmaelPLEvangélica(Assembleia de Deus)
Ricardo GuidiPLCatólica
CobalchiniMDBCatólica
PezentiMDBCatólica
Carlos ChiodiniMDBCatólica
Jorge GoettenRepublicanosCatólica
Geovania de SáRepublicanosEvangélica
(Assembleia de Deus)
Fabio SchiochetUnião BrasilCatólica
Gilson MarquesNovoNão identificada

Paraná (PR)

Nome      PartidoIdentidade religiosa
Tião MedeirosPPCatólica
Toninho WandscheerPPEvangélica (Assembleia de Deus)
PadovaniPPCatólica
Dilceu SperaficoPPCatólica
Luisa CanzianiUnião BrasilCatólica
Geraldo MendesUnião BrasilCatólica
Paulo LitroUnião BrasilNão identificada
VermelhoPLCatólica
Sargento FahurPLCatólica
Luiz NishimoriPSDNão identificada
Felipe FrancischiniPodemosEvangélica (Assembleia de Deus)
Beto RichaPSDBCatólica
Pedro LupionRepublicanosNão identificada
Sergio SouzaMDBNão identificada

Goiás (GO)

NomePartidoIdentidade religiosa
Gustavo GayerPLCatólica
Magda MofattoPL           Católica
Daniel AgrobomPSDEvangélica (Mundial do Poder de Deus)
Dr. Ismael AlexandrinoPSDCatólica
José NeltoUnião BrasilCatólica
Marussa BoldrinRepublicanosCatólica
Adriano do BaldyPPCatólico
Glaustin da FokusPodemosEvangélico (Assembleia de Deus)
Dr. Zacharias CalilMDBCatólica
Célio SilveiraMDBCatólica

Mato Grosso (MT)

Nome      PartidoIdentidade religiosa
Rodrigo da ZaeliPLCatólica
José MedeirosPLEvangélica (Igreja Presbiteriana do Brasil)
Coronel FernandaPLEvangélica (Assembleia de Deus)
Nelson BarbudoPodemosCatólica
Juarez CostaRepublicanosEvangélica(Igreja não identificada
Fabio GarciaUNIÃOEvangélica(Igreja não identifiada)

Mato Grosso do Sul (MS)

NomePartidoIdentidade religiosa
Marcos PollonPLCatólica
Rodolfo NogueiraPLEvangélica(Igreja não identificada)
Dr. Luiz OvandoPPEvangélica (Igreja Batista Kairós)
Beto PereiraRepublicanosCatólica

Distrito Federal (DF)

NomePartidoIdentidade religiosa
Alberto FragaPLCatólica
Bia KicisPLCatólica

Bahia (BA)

NomePartidoIdentidade religiosa
Capitão AldenPLEvangélica(Igreja não identificada)
Roberta RomaPLCatólica
João Carlos BacelarPLCatólica
Arthur Oliveira MaiaUnião BrasilCatólica
José RochaUnião BrasilCatólica
Paulo AziUnião BrasilCatólica
Diego CoronelRepublicanosCatólica
Claudio CajadoPPCatólica

Ceará (CE)

Nome                           PartidoIdentidade religiosa
Dr. JazielPLEvangélica(Assembleia de Deus)
AJ AlbuquerquePPNão identificada
Danilo FortePPCatólica
Fernanda PessoaPSDCatólica
Luiz GastãoPSDCatólica
Eunício OliveiraMDBCatólica

Pernambuco (PE)

NomePartidoIdentidade religiosa
Pastor EuricoPSDBEvangélica(Assembleia de Deus)
Clarissa TércioPPEvangélica(Assembleia de Deus)
Coronel MeiraPLCatólica
Fernando Coelho FilhoUnião Católica
Augusto CoutinhoRepublicanosCatólica

Maranhão (MA)

Nome                           PartidoIdentidade religiosa
Josivaldo JpUnião BrasilEvangélica (Igreja Assembleia de Deus )
Aluisio MendesRepublicanosCatólica
Márcio HonaiserSolidariedadeCatólica
Hildo RochaMDBNão identificada

Piauí (PI)

Nome                           PartidoIdentidade religiosa
Átila LiraPPCatólica
Julio ArcoverdePPCatólica

Alagoas (AL)

NomePartidoIdentidade religiosa
Delegado Fábio CostaPPEvangélica(Não identificada)

Rio Grande do Norte (RN)

NomePartidoIdentidade religiosa
General GirãoPLCatólica
Sargento GonçalvesPLEvangélica (Igreja Batista)
João MaiaPPCatólica

Sergipe (SE)

NomePartidoIdentidade religiosa
Rodrigo ValadaresPLEvangélica(Igreja Sara Nossa Terra )
Gustinho RibeiroPPCatólica

Paraíba (PB)

NomePartidoIdentidade religiosa
Cabo Gilberto SilvaPLCatólica

Acre (AC)

NomePartidoIdentidade religiosa
Meire SerafimUnião BrasilCatólica
Coronel UlyssesUnião BrasilEvangélica (Comunidade Batista Vida)
Zezinho BarbaryPPCatólico
Zé AdrianoPPNão identificada
Roberto DuarteRepublicanosNão identificada

Rondônia (RO)

NomePartidoIdentidade religiosa
Lucio MosquiniPLEvangélica (Igreja Batista)
Coronel ChrisóstomoPLEvangélica (Assembleia de Deus)
Dr. Fernando MáximoPLEvangélica(Igreja não identificada)
Thiago FloresUnião BrasilNão identificada
Rafael FeraPODENão identificada

Tocantins (TO)

NomePartidoIdentidade religiosa
Alexandre GuimarãesMDBCristã sem denominação
Eli BorgesRepublicanosEvangélica(Assembleia de Deus)
Antonio AndradePSDBCatólica
Filipe MartinsPLEvangélica(Igreja Presbiteriana do Brasil)

Pará (PA)

Nome                           PartidoIdentidade religiosa
Joaquim PassarinhoPLCatólica
Henderson PintoUnião BrasilCatólica

Roraima (RR)

NomePartidoIdentidade religiosa
Pastor DinizUnião BrasilEvangélica (Assembleia de Deus)
NicolettiPLCristã sem denominação

Amazonas (AM)

NomePartidoIdentidade religiosa
Fausto Jr.União BrasilEvangélica(Não identificada)

Amapá (AP)

NomePartidoIdentidade religiosa
Aline GurgelUnião BrasilNão identificada

O que é a PEC da escala 6×1

A Constituição da República (artigo 7º, inciso XIII), estabelece, entre os direitos dos trabalhadores e trabalhadoras, que a duração da carga de trabalho “não deve ser superior a oito horas diárias e 44 semanais, facultada a compensação de horários e a redução da jornada, mediante acordo ou convenção coletiva de trabalho”. 

Na Consolidação das Leis do Trabalho (CLT), em vigor desde 1943, a regra é tratada na Seção II, artigos 58 a 65. Naquela época, o modelo familiar tradicional e a dinâmica do mercado permitiam que o domingo fosse o dia de folga padrão. Contudo, apesar da expansão dos setores da indústria, do comércio e dos serviços, mais de 80 anos depois, a escala de seis dias de trabalho diretos com apenas um de folga permanece mantida como protocolo padrão.  

Algumas poucas categorias de trabalhadores cumprem jornada diferenciada por terem regulamentação própria. É o caso de bancários (seis horas diárias ou 30 horas semanais), jornalistas (cinco horas diárias ou 30 horas semanais), médicos (quatro horas diárias), aeronautas (devido ao tipo de atividade, a jornada pode chegar a 20 horas), radiologistas (24 horas semanais) e advogados (quatro horas diárias ou 20 horas semanais).

A origem das propostas legislativas recentes para redução do formato mais comum de carga de trabalho está na Proposta de Emenda à Constituição (PEC) 221, de 2019. De autoria do deputado federal católico Reginaldo Lopes (PT-MG) a  proposta prevê a redução gradual da jornada semanal de trabalho das atuais 44 horas para 36 horas, sem redução salarial, além da ampliação do período de descanso dos trabalhadores. Sem ser tratada com prioridade na Câmara Federal desde então, a pauta ganhou força em 2023, quando o  movimento VAT (Vida Além do Trabalho), pela redução da escala 6×1, foi popularizada nas mídias sociais. Liderado pelo influenciador e atual vereador da cidade do Rio de Janeiro Rick Azevedo (PSOL), o movimento se baseia no argumento de que a jornada de seis dias seguidos é exaustiva, compromete a saúde física e mental, resultando em baixa produtividade, e deixa pouco tempo para o trabalhador descansar, cuidar da família e buscar qualificação.  

A partir das articulações do movimento VAT e da popularização da pauta nas mídias sociais e nas ruas, a deputada federal de identidade religiosa não identificada Érica Hilton (PSOL-SP) apresentou uma nova PEC, a de nº  8/2025, para redução da carga horária semanal e a imposição de limites ao modelo 6×1. Apesar da resistência da mesa diretora da Câmara, sob a liderança de Hugo Motta (Republicanos-PB) de pautar a proposta, o amplo apoio popular e uma pressão do governo federal, somados à atmosfera do ano eleitoral, levaram a um novo impulso à proposta em 2026.   

No final de abril foi instalada uma  comissão especial na Câmara dos Deputados para analisar o mérito das propostas de Reginaldo Lopes, de 2019, e de Erika Hilton, de 2025. além de outras proposições apensadas. A comissão é presidida pelo deputado de vinculação religiosa não identificada Alencar Santana (PT-SP) e tem como relator o deputado católico Leo Prates (PDT-BA). 

De acordo com o relator, o parecer deverá estabelecer uma transição gradual da jornada semanal de 44 para 40 horas, com adoção da escala 5×2 e prazo estimado entre dois e cinco anos para implementação. Durante esse período de adaptação, trabalhadores e trabalhadoras poderão cumprir jornadas de até dez horas diárias, desde que tenham ao menos oito folgas mensais, sendo uma delas preferencialmente aos domingos. O movimento VAT, a deputada Érika Hilton e o governo federal defendem a implementação imediata da redução da jornada. Da parte do governo, há diálogo em torno da negociação de um modelo de transição para viabilizar consenso no Congresso Nacional. 

A comissão especial estabeleceu um cronograma para concluir a tramitação ainda em maio de 2026. A previsão é de apresentação do relatório final no dia 25 de maio e votação em plenário a partir de 27 de maio. O debate tem mobilizado setores empresariais, sindicatos e movimentos sociais. 

Foi no contexto da instalação da comissão e da avaliação na casa legislativa de que a aprovação da PEC será inevitável que foi apresentada a proposta de emenda assinada pelos 176 deputados para a transição de dez anos.

***

Em um período eleitoral em que a religião e a fé são amplamente acionados em campanhas, Bereia chama a atenção de leitores e leitoras para estarem atentos à atuação dos políticos que se lançam de sua identidade religiosa em sua atividade parlamentar. O levantamento do Bereia evidencia que o apoio à emenda da PEC da escala 6×1 reúne uma presença significativa de parlamentares com identidade religiosa declarada, especialmente vinculados aos segmentos católico e evangélico. 

Tal retrato da atuação destes políticos demonstra como os interesses econômico-financeiros predominantes no país orientam a atuação de parlamentares autoidentificados como conservadores, em especial os que instrumentalizam a religião em seus discursos. Isto se explicita na discussão de pautas que envolvem direitos trabalhistas e relações de trabalho no Congresso Nacional.

 Referências:

Proposta de emenda à constituição nº 221, de 2019. https://static.poder360.com.br/2026/05/emenda-6-x-1-deputados.pdf. Acesso em 21 de maio de 2026.

Poder 360. https://www.poder360.com.br/poder-congresso/saiba-quem-assinou-a-proposta-que-amplia-jornada-para-52h-semanais/.  Acesso em 21 de maio de 2026.

Brasil de fato. https://www.brasildefato.com.br/2026/05/20/deputados-do-df-apoiam-emenda-que-adia-fim-da-escala-6×1-e-amplia-jornada-para-ate-52-horas/.  Acesso em 21 de maio de 2026.

PEC 8/2025. https://www.camara.leg.br/proposicoesWeb/fichadetramitacao?idProposicao=2485341.  Acesso em 21 de maio de 2026.

Uol.. https://economia.uol.com.br/noticias/redacao/2026/04/28/relator-6×1.ghtm?utm_source. Acesso em 21 de maio de 2026.

Câmara dos deputados. https://www.camara.leg.br/tv/bora-entender/1251476-bora-entender-fim-da-escala-6×1/. Acesso em 21 de maio de 2026.

Câmara dos deputados. https://www.camara.leg.br/noticias/1267523-comissao-especial-que-vai-analisar-o-fim-da-escala?utm_source. Acesso em 21 de maio de 2026.

Câmara dos deputados. https://www.camara.leg.br/noticias/1136412-pec-preve-a-adocao-da-jornada-de-quatro-dias-de-trabalho-para-todos-os-trabalhadores-brasileiros. Acesso em 21 de maio de 2026.

Câmara dos deputados. https://www.camara.leg.br/noticias/632530-pec-reduz-jornada-semanal-de-trabalho-de-44-para-36-horas. Acesso em 21 de maio de 2026.

Câmara dos deputados. https://www.camara.leg.br/internet/deputado/frenteDetalhe.asp?id=54326. Acesso em 21 de maio de 2026.

Câmara dos deputados. https://www.camara.leg.br/deputados/frentes-parlamentares/57/54477/membros. Acesso em 21 de maio de 2026.

Câmara dos deputados. https://www.camara.leg.br/deputados/frentes-parlamentares/57/54326/membros. Acesso em 22 de maio de 2026.

G1. https://g1.globo.com/politica/noticia/2026/05/19/fim-da-escala-6×1-relatorio-deve-ser-apresentado-na-proxima-segunda-transicao-ainda-precisa-ser-acertada.ghtml. Acesso em 21 de maio de 2026.

Religião e Poder. https://religiaoepoder.org.br/artigo/religiao-como-forma-de-protecao-da-cultura-manifestacoes-culturais-e-artisticas-como-campo-de-disputa. Acesso em 21 de maio de 2026.

CPAD News. https://www.cpadnews.com.br/evangelico-assume-a-vaga-de-carla-zambelli-na-camara/. Acesso em 21 de maio de 2026.

Bancos de dados ISER. https://docs.google.com/spreadsheets/d/1PHKg_hQ5imp81SYcyVevSCdH3PNj1u30SMpEiYOk1y8/edit?gid=529573698#gid=529573698. Acesso em 21 de maio de 2026.

Instagram. https://www.instagram.com/p/DYiVW5NGKiQ/?img_index=20. Acesso em 21 de maio de 2026.

Constituição da República. http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/Constituicao/ConstituicaoCompilado.htm. Acesso em 24 de maio de 2026.

CONSOLIDAÇÃO DAS LEIS DO TRABALHO. http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/decreto-lei/Del5452.htm. Acesso em 24 de maio de 2026.Infomoney. https://www.infomoney.com.br/politica/hugo-motta-sobre-pec-que-acaba-com-escala-de-trabalho-6×1-me-preocupa-muito/. Acesso em 24 de maio de 2026.

Imagem de capa: Letycia Bond/Agência Brasil

Vídeo com fala do deputado Marco Feliciano contra a redução da jornada de trabalho é autêntico 

Voltou a circular nas redes digitais um recorte de vídeo que mostra o deputado federal Pastor Marco Feliciano (PL-SP) discursando contra a redução da jornada de trabalho, que hoje segue a escala de seis dias de atividade e um de descanso. No vídeo, Feliciano afirma: “Democracias sérias e maduras, como os Estados Unidos da América e o Japão, todas as pessoas trabalham até a exaustão, para verem a prosperidade, a riqueza e tudo mais”.

A discussão do tema se intensificou nas redes digitais nos últimos dias, diante da ameaça de parlamentares de oposição ao governo federal de barrarem a proposta governamental de isenção de imposto de renda para quem ganha até R$ 5 mil. Com isso, o corte com a fala de Feliciano voltou às redes. Nas novas postagens, a fala do pastor evangélico é usada como argumento de que deputados como ele atuam no Congresso Nacional para barrar direitos de trabalhadores.

Imagem: Recorte do vídeo da sessão que está circulando pelas redes.

Com a ampla repercussão nas redes, usuários passaram a questionar a autenticidade do conteúdo, e levantaram suspeitas de manipulação por inteligência artificial. Diante da viralização do vídeo e das dúvidas sobre sua veracidade, o Bereia verificou o conteúdo para esclarecer os fatos e confirmar se o material é autêntico.

A autenticidade do vídeo

O vídeo é verdadeiro e é um trecho da gravação de sessão da Comissão de Direitos Humanos e Minorias da Câmara dos Deputados, realizada em 5 de junho de 2024, no Anexo II, Plenário 9, durante a discussão de propostas legislativas. No trecho, Marco Feliciano se posiciona de forma contrária a um requerimento da também deputada Erika Hilton (PSOL-SP), referente à Proposta de Emenda à Constituição (PEC) n, 8/2025, apresentada por um grupo de parlamentares liderado por ela, que propõe a redução da jornada de trabalho no Brasil para quatro dias da semana. 

Imagem: Sessão da Comissão de direitos humanos, minorias e igualdade racial, em 05 de junho de 2024.

O contexto da fala

Durante a sessão da comissão, a presidência   anunciou a votação do Requerimento de Retirada de Pauta nº 51/2024, de autoria da deputada Erika Hilton. O pedido solicitava a realização de uma audiência pública para debater, em parceria com o movimento “Vida Além do Trabalho”, a redução da jornada de trabalho no Brasil e o fim da escala de seis dias de trabalho por um de descanso (6×1). Coube ao deputado Marco Feliciano encaminhar a votação do requerimento.

Na fala, o parlamentar afirmou que, embora seu partido, o PL, não tenha objeções a audiências públicas, é papel da oposição utilizar instrumentos regimentais como o “kit obstrução” quando não há consenso. “Todos os assuntos, por mais esdrúxulos que sejam, precisam ser debatidos. Todavia, como não houve acordo, vamos usar aquilo que nós, como oposição, sempre fazemos”, declarou.

Feliciano prosseguiu com críticas diretas ao conteúdo da proposta da PEC: “Pelo que entendo aqui, é propor que esta Câmara dos Deputados se debruce sobre um assunto para diminuir a jornada de trabalho do trabalhador brasileiro, parece que para quatro dias na semana, diminuindo ainda para seis horas de trabalho. Eu acho isso uma excrescência, pessoalmente falando. Acho que o ser humano é digno do seu trabalho, e todo trabalho dignifica o homem. Temos um país que precisa crescer, e só há crescimento se houver trabalho.”

Em seguida, ele cita outros países como exemplo: “Democracias sérias e maduras, como os Estados Unidos da América e o Japão, todas as pessoas trabalham até a exaustão para verem a prosperidade, a riqueza e tudo mais. Para nós, do PL, inclusive, o maior método de ação social que o governo pode oferecer ao ser humano é dar a ele trabalho. Por isso, nos declaramos contra o requerimento e pedimos que seja retirado de pauta”, finalizou o deputado. 

A resposta de Erika Hilton

Logo após a fala do deputado evangélico, a parlamentar autora do requerimento. Erika Hilton. rebateu as críticas, e defendeu a pauta ao criticar a visão que, conforme ela, ainda reforça um modelo opressor de trabalho no Brasil. Ela fez uso do mesmo argumento do colega deputado: “Outros países do mundo, mais desenvolvidos do que o nosso e que entendem a relação do trabalho de uma maneira não escravocrata e opressora, como nós ainda entendemos, já avançaram com essa política”, argumentou.

***

Em resposta às suspeitas de manipulação digital, o Bereia confirma que o conteúdo é autêntico e parte de um vídeo, gravação de sessão da Comissão de Direitos Humanos e Minorias da Câmara dos Deputados, realizada em 5 de junho de 2024, registrada e publicada no canal do órgão no YouTube. A fala de Marco Feliciano ocorreu de fato, sem indícios de edição ou uso de inteligência artificial.

Referências: 

Youtube.https://www.youtube.com/live/ecI2_TZKKqQ?si=urQqs9X63ZTgyQPe&t=499. Acesso em 07 de julho de 2025. 

Políticos e veículos cristãos desinformam sobre PEC que propõe redução da carga de trabalho

Na primeira semana de novembro, a Proposta de Emenda à Constituição (PEC), apresentada pela deputada Erika Hilton (PSOL-SP), para redução da jornada de trabalho e fim da escala 6×1 – em que empregados cumprem seis dias de trabalho para ter direito a um de folga – tornou-se alvo de ampla discussão e muita desinformação. Bereia checou as informações circulantes nas mídias sociais de políticos, líderes cristãos e veículos de comunicação contrários à proposta. 

O que é a escala 6×1 e o que diz a PEC

A Proposta de Emenda à Constituição (PEC) apresentada pela deputada federal Erika Hilton propõe a alteração do artigo 7º da Constituição Federal que prevê a “duração do trabalho normal não superior a oito horas diárias e quarenta e quatro semanais, facultada a compensação de horários e a redução da jornada, mediante acordo ou convenção coletiva de trabalho”.  

No texto da PEC no novo artigo deve constar que  a “duração do trabalho normal não superior a oito horas diárias e trinta e seis horas semanais, com jornada de trabalho de quatro dias por semana, facultada a compensação de horários e a redução de jornada, mediante acordo ou convenção coletiva de trabalho.”

Na redação da PEC, a deputada justifica que se baseia em uma petição pública online criada pelo Movimento Vida Além do Trabalho (VAT), liderado pelo vereador recém-eleito para a Câmara Municipal do Rio de Janeiro Ricardo Azevedo (PSOL), que defende o fim da jornada 6×1. e obteve mais de 2,7 milhões de assinaturas.

O texto justifica ainda que a PEC busca alinhar o Brasil às práticas internacionais de redução de jornada e cita  a economista Marilane Teixeira, para quem a mudança pode impulsionar o consumo, gerar novos empregos e reduzir desigualdades. A proposta destaca que experiências semelhantes no Reino Unido e em empresas brasileiras mostraram impactos positivos na produtividade, na saúde mental dos trabalhadores e na receita empresarial. A PEC prevê a manutenção de salários e direitos dos trabalhadores intactos, com a promoção de um equilíbrio entre trabalho e vida pessoal, enquanto beneficia a economia e inovação das empresas.

Para poder tramitar na Câmara dos Deputados, uma Proposta de Emenda à Constituição (PEC) necessita de 171 assinaturas. Em 15 de novembro passado, a PEC alcançou  231 assinaturas, de acordo com a equipe de Erika Hilton. 

Outras propostas semelhantes já estavam em tramitação na Câmara Federal há alguns anos, como a PEC 221/19, apresentada pelo deputado Reginaldo Lopes (PT-MG), que propõe uma redução da jornada semanal do trabalhador brasileiro de 44 para 36 horas, com  um prazo de dez anos para implementação. Segundo a Agência de Notícias da Câmara, o texto do deputado está na Comissão de Constituição e Justiça à espera de um relator desde março deste ano. O Congresso Nacional já engavetou ou manteve com tramitação parada ao menos nove PECs sobre a redução de jornada de trabalho no Brasil. 

Deputado Nikolas Ferreira publica vídeo alarmista crítico à PEC

Em seu perfil no Instagram, o deputado federal evangélico Nikolas Ferreira (PL-MG) divulgou um vídeo em que alega que a aprovação da PEC traria problemas econômicos e sociais para o país, como desemprego, informalidade e inflação, com custos repassados aos consumidores. O deputado acusa políticos de esquerda de agirem de modo populista ao apoiarem pautas que impactam a economia negativamente e questiona o uso de fundos públicos em campanhas e políticas públicas da esquerda.

Imagem: reprodução/Instagram

Nikolas Ferreira defende ainda que a medida vai aumentar o desemprego no país: “E sabe quem vai pagar essa conta? Exatamente, você. Ou seja, a discussão é só se vai aumentar o desemprego ou a informalidade, porque destruir o sustento do pobre, não tenho dúvidas”. 

Bereia checou que, de acordo com uma Nota Técnica publicada em 2009 pelo Departamento Intersindical de Estatísticas e Estudos Socioeconômicos (Dieese) e citada na PEC de Erika Hilton, a diminuição da jornada de trabalho das atuais 44 para 40 horas semanais, sem alteração dos salários, tem potencial de gerar, no limite, mais de 2,5 milhões de novas vagas. Portanto, a redução da jornada de trabalho teria o efeito contrário ao que o deputado levanta como argumento, o desemprego.

O deputado do PL mineiro critica também que o texto da PEC por apresentar o que classifica como  “bizarrices”, por ter, segundo ele, erros de cálculo. “Se você não notou nada de errado aí, você não tem direito de falar alguma coisa. Porque é uma conta básica. 8×4 = 32, não é 36. Até nisso eles erraram”. 

Bereia checou no texto da PEC que a descrição das horas consta da seguinte forma: “duração do trabalho normal não superior a oito horas diárias e trinta e seis horas semanais, com jornada de trabalho de quatro dias por semana, facultada a compensação de horários e a redução de jornada, mediante acordo ou convenção coletiva de trabalho“. Portanto, o deputado não levou em consideração que segundo a Consolidação das Leis do Trabalho (CLT) o trabalhador pode fazer horas extras ao longo da semana que não contam no limite das oito horas diárias propostas. Entretanto, o total semanal, segundo a proposta de Erika Hilton, não pode superar 36 horas semanais. 

Corte de vídeo crítico do deputado Pastor Marco Feliciano repercute

O deputado federal Pastor Marco Feliciano (PL-SP) também se posicionou contra a proposta e  publicou um corte de vídeo em que afirma que a  proposta é uma “excrescência”. Ele afirma que o trabalho dignifica o homem e  que “em democracias sérias como nos Estados Unidos, todas as pessoas trabalham até a exaustão para verem a prosperidade, a riqueza e tudo o mais”. O corte que viralizou nas redes, é parte de transmissão realizada pela TV Câmara de reunião da Comissão de Direitos Humanos, Minorias e Igualdade Racial, realizada no dia 5 de junho de 2024, com o trecho da participação de Feliciano.

Imagem: reprodução/YouTube

Bereia checou que o político da extrema direita, entretanto, deixou de lado o fato da remuneração média do trabalhador norte-americano ser superior a do brasileiro. De acordo com relatório publicado em julho de 2024 pelo Bureau of Labor Statistics dos EUA, os trabalhadores assalariados em tempo integral no país tiveram um ganho médio semanal de US$ 1,165 no segundo trimestre de 2024. Isso equivale, em média, a pouco mais de 60 mil dólares anuais per capita, o que equivale a aproximadamente US$ 5,000 de salário médio mensal. 

Além disso, entre os países do G20, o Brasil aparece em 11º lugar com a média de 39 horas semanais, uma hora a mais que os EUA, que está em nono lugar na lista com a média de 38 horas por semana.

O uso da Bíblia para propagar enganos contra a redução da jornada de trabalho 

Alguns líderes evangélicos têm citado a Bíblia para justificar e defender a escala 6×1. Entre eles está o pastor sênior da Igreja Cristã da Aliança em Niterói (RJ) Renato Vargens,  que publicou em seu perfil do X o texto de Êxodo 34:21, Seis dias trabalharás, mas no sétimo dia descansarás, em tom crítico à proposta da PEC. 

Imagem: reprodução/X

Segundo o jornal O Povo, o deputado estadual Alcides Fernandes (PL-CE), que é pastor evangélico, também fez alusão à bíblia durante o plenário da Assembleia Legislativa do Ceará, no último dia 14 de novembro. “Deus fez o homem, ele trabalha e no sétimo dia ele descansa. O homem não é de ferro, ele trabalha os seis dias e no sétimo ele descansa”. 

Bereia ouviu teólogos especialistas em Bíblia para checar se tais referências críticas à PEC da redução da jornada de trabalho estão corretas. 

De acordo com o teólogo e doutor em Exegese Bíblica Ricardo Lengruber, o texto de Gênesis 1 não é uma base para as relações de trabalho contemporâneas. “Atualmente, quem é contra a PEC para abolição da escala 6×1 tem usado o argumento bíblico ou pretensamente bíblico, para dizer que o próprio Deus foi quem ordenou essa escala de seis dias de trabalho e um de descanso. Na verdade, o que acontece é o seguinte, o texto de Gênesis não é um texto muito antigo, foi escrito durante o exílio de Israel na Babilônia entre os anos 587 e 537 antes de Cristo. Os babilônios subjugaram diversos povos à sua dominação e uma das características dessa opressão era exatamente o trabalho continuado, uma forma de escravidão”, esclarece Lengruber. 

“As pessoas trabalhavam 28 dias e havia apenas um descanso, toda vez que a lua cheia aparecia no céu, em homenagem à divindade representada pela lua adorada pelos babilônios. Por isso, quando o texto bíblico, escrito por pessoas subjugadas pelos babilônicos, diz “Deus criou o mundo em seis dias e descansou no sétimo”, é uma afirmação revolucionária. Eu não vou descansar apenas a cada 28 dias, vou descansar a cada seis dias. Perceba que o texto está na verdade outorgando um direito que esses trabalhadores escravizados pela Babilônia não tinham. É quase uma afirmação do direito à greve”, analisa o teólogo.

 Ricardo Lengruber explica ainda que “a teologia do Sétimo Dia, do shabbat, tem essa potência: eu não vivo para trabalhar, eu trabalho para viver. Hoje, vivemos num tempo em que aquela escravidão babilônica não existe mais, ou talvez exista, já que um trabalhador, infelizmente mais vulnerabilizado, só tem um descanso, por semana, às vezes um final de semana por mês, está completamente igual aquele israelita que era vítima do império babilônico”, lamenta o professor. 

Para Lengruber fazer uso do texto bíblico para defender a escala 6×1 é uma “verdadeira manipulação, completamente indevida e teologicamente insustentável”. Ele indica que, “na verdade, o texto bíblico é pela preservação do direito das pessoas. Produzimos muita riqueza, infelizmente muita riqueza que tá acumulada na mão de pouca gente. A ideia é distribuir essa riqueza e a lógica do sábado, essa teologia que incorpora o descanso e a Bíblia inaugura sua primeira página dizendo isso: Deus descansou no sétimo dia”.

O doutor em  Ciências da Religião, professor da Universidade Metodista de São Paulo Pablo Marcelo Carneiro, por sua vez, ressalta que o texto bíblico em questão é constitutivo de uma sociedade rural e não uma sociedade urbanizada e industrializada como a brasileira. “Em uma sociedade rural, em que você todo dia tem que cuidar de animais, plantações, ficar um dia parado já é muito. Ou seja, a necessidade de trabalho era cotidiana, mas era um trabalho para produção própria, para sobrevivência, para subsistência, dentro de um ambiente em que não havia uma pressão, ansiedade por conta da produtividade, de tensões de relacionamento”. 

Carneiro acredita, ainda, ser desonesto usar o texto bíblico para justificar a defesa da jornada 6×1 de trabalho. “A Bíblia está em outro tempo, em outra situação, outra realidade”. 

Outros posicionamentos contrários de políticos e veículos de mídia 

O ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) ironizou a PEC apresentada por Erika Hilton:  “Que tal R$10 mil de salário?”, em reunião na sede do Partido Liberal, em 13 de novembro. No entanto, o ex-presidente orientou seus correligionários a terem cuidado com as críticas à PEC. Bolsonaro afirmou que os parlamentares não podem “cair na armadilha” de se opor ao tema, que incita a opinião pública. 

Durante o discurso, o ex-presidente disse que a medida traria prejuízos à economia, mas que é necessário ter cautela ao se opor à proposta, definida por ele como “areia movediça”. “Quem está contra a PEC 6×1 está com razão mas está dando um tiro no pé [ao se opor ao assunto]. Quem quiser fazer a coisa certa vai se dar mal. O PT está colocando empregados contra patrões”, declarou. 

Bolsonaro declarou também ao portal Metrópoles que os partidos de esquerda que apoiam a proposta estão “Pegando muita gente desinformada, que está lá na base do mercado de trabalho” e alegou que a PEC quer mudar uma das Cláusulas Pétreas da Constituição. “O que está sendo proposto ali está lá no artigo 7º da Constituição, que é uma cláusula pétrea. Qual a intenção do PT, do PSol, do PCdoB? Como eles estão perdidos, estão desconectados do povo brasileiro, estão querendo voltar à origem. Como?”, disse o ex-presidente. 

Bereia checou que há desinformação na fala do ex-presidente. Além do fato de que as cláusulas pétreas são dispositivos constitucionais que não podem ser alterados, nem mesmo por meio de Emenda Constitucional, o artigo 7º da Constituição não é uma dessas cláusulas, e é, portanto, passível de mudanças.

Veículos de comunicação ligados à extrema direita política divulgaram reportagens em tom alarmista que enganam sobre a Proposta. A Gazeta do Povo publicou, em 11 de novembro, matéria sob o título Erika Hilton diz que fim da escala 6×1 não tem nem estudo de impacto econômico”. A chamada distorce uma declaração da deputada do Psol sobre o fato de a proposta se basear em modelos internacionais, e ainda não ter estudos sobre os impactos econômicos no Brasil.

A Bancada Evangélica na Câmara está dividida sobre o assunto. Oficialmente, a bancada evangélica do Congresso afirma que não vai se posicionar sobre o tema. “Essa questão será tratada no âmbito de cada partido”, afirmou o presidente do bloco Silas Câmara (Republicanos-AM).

Porém,  alguns parlamentares estão empolgados com a possibilidade dos trabalhadores terem mais tempo para ir à igreja e servir nos templos. Um deles é  o deputado federal Marcelo Crivella (Republicanos-RJ). “Não posso falar por todos os evangélicos, mas espero que a PEC 6×1 permita que as pessoas tenham mais tempo para ir à igreja e se dedicar a causas sociais”, diz o bispo licenciado da Igreja Universal do Reino de Deus. Para Crivella, é possível “compensar a diminuição da jornada dobrando a produtividade, ou seja, conscientizar a todos de que é preciso haver essa compensação”.  

O senador bolsonarista Cleitinho (Republicanos-MG), por sua vez, criticou a jornada de trabalho atual no país, demonstrou apoio à proposta de Hilton e defendeu a necessidade de mudanças que beneficiem os trabalhadores. O político de oposição falou sobre sua experiência pessoal, e ressaltou que a escala 6×1 prejudica a qualidade de vida dos trabalhadores e impede que eles possam aproveitar momentos com suas famílias.

“Eu vi meu pai, que morreu agora neste ano, com 70 anos de idade, fazendo a escala sete por zero. Sempre trabalhou, até não foi seis por um, foi sete por zero. E sabe o que aconteceu? O meu pai, sempre que chegava em casa, já se deitava para dormir, para acordar no outro dia para trabalhar. O meu pai não ia aos jogos de futebol quando eu jogava bola. O meu pai não foi às apresentações que eu fiz quando eu era cantor; nunca ia. O meu pai não parava um dia para ele poder me ensinar a estudar. Sabe por quê? Não fazia, não é porque ele não queria, não. É porque ele não tinha tempo; é porque sempre trabalhou”, relatou o parlamentar em pronunciamento no Senado no último dia 12 de novembro. “Ele ia fazer 70 anos e ia aposentar, aí ele morreu. Meu pai teve que morrer para descansar”.

A Agência de Notícias da Câmara divulgou ainda que diversos deputados alinhados à esquerda e o vice-presidente Geraldo Alckmin (PSB) se manifestaram positivamente sobre a proposta de redução da jornada de trabalho, destacando que a carga atual é exaustiva e ultrapassada. Parlamentares do PSOL, PCdoB, e PT defenderam a redução da jornada como forma de proporcionar melhor qualidade de vida e aumentar a produtividade e o emprego. 

Já deputados alinhados à direita, como os do PL e do Podemos, afirmam que a mudança pode trazer impactos negativos para empresas e a economia, e defendem que as negociações de jornada sejam flexíveis e ajustadas entre empregadores e empregados. 

Público reage negativamente às críticas 

Além da repercussão nas mídias digitais, veículos de imprensa e entre membros do legislativo, a mobilização pública cresceu. Seguidores dos deputados Nikolas Ferreira e do Pastor Marcos Feliciano entre outros do mesmo espectro político que têm se posicionado contra a proposta, cobraram seus  representantes para se posicionarem a favor da PEC. “Cara eu sou de direita mas você as vezes parece um mlk de 15 anos sendo deputado, perdeu todo meu apoio, o trabalhador precisa de dignidade”, comentou um dos seguidores do deputado Nikolas Ferreira no vídeo publicado em seu perfil no Instagram. 

Já na conta de Feliciano na mesma rede social, uma publicação de 11 de novembro que não abordava o tema, teve vários comentários que cobravam um posicionamento do pastor a favor da PEC. “Pastor Marcos, você votou contra o fim da escala 6/1? Independente de partidos políticos, este tipo de projeto, teria que ser ouvido pela sociedade e principalmente quem trabalha nesse tipo de escala, como eu por exemplo. Que não dar para ter vida social direito. Para quem defende, é porque certamente não conhece chão de fábrica. Pra quem vai na Câmara no horário que quer e nos dias que quer, assim é fácil né?”, escreveu um dos seguidores do deputado.

Na primeira quinzena de novembro, o número de assinaturas na petição online do Movimento “Vida Além do Trabalho” (VAT) cresceu em dois milhões e o movimento chamou manifestações de rua pelo fim da escala 6×1. No feriado de  15 de novembro passado ocorreram eventos em São Paulo, Rio de Janeiro, Salvador e Belo Horizonte.

Imagem: reprodução/Instagram

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Bereia classifica o conteúdo circulante publicado por deputados com identidade cristã e outros políticos e veículos contrários à proposta de redução da jornada de trabalho como enganoso.  Estas publicações desinformam sobre a PEC da escala 6×1 com mentiras e enganos, mensagens alarmistas sem fundamentos teóricos para desqualificar a proposta, e incluem o uso da Bíblia.

A proposta destaca a necessidade de um debate fundamentado, com estudos de impacto econômico e social. É essencial que a discussão permaneça ancorada em dados científicos e não em discursos desinformativos que desviam a atenção dos desafios e das consequências de uma possível mudança.

Referências de checagem:

Petição Pública.

https://peticaopublica.com.br/pview.aspx?pi=BR135067. Acesso em: 18 de nov, 2024.

Projeto de Emenda À Constituição contra a escala 6×1.

https://drive.google.com/file/d/1CxlovCLJljtouKyZnEVB5l_fzLuSS5B6/view?usp=sharing. Acesso em: 18 de nov, 2024.

Carta Capital

https://www.cartacapital.com.br/politica/erika-hilton-afirma-ter-134-assinaturas-para-a-pec-pelo-fim-da-jornada-6×1/. Acesso em: 18 de nov, 2024.

Brasil de Fato

https://www.brasildefato.com.br/2024/11/12/ao-menos-sete-capitais-recebem-atos-pelo-fim-da-escala-6×1-nesta-sexta-15. Acesso em: 18 de nov, 2024.

Folha de São Paulo

https://www1.folha.uol.com.br/mercado/2024/11/lideres-evangelicos-se-dividem-sobre-6×1-entre-mais-tempo-para-igreja-e-temor-de-ruina-economica.shtml. Acesso em: 18 de nov, 2024.

Agência Câmara.

https://www.camara.leg.br/noticias/632530-pec-reduz-jornada-semanal-de-trabalho-de-44-para-36-horas. Acesso em: 18 de nov, 2024.

https://www.camara.leg.br/noticias/1110526-proposta-de-reducao-da-jornada-de-trabalho-e-fim-da-escala-6×1-gera-debates-no-plenario-da-camara/ . Acesso em: 18 de nov, 2024.

https://www.camara.leg.br/noticias/1110526-proposta-de-reducao-da-jornada-de-trabalho-e-fim-da-escala-6×1-gera-debates-no-plenario-da-camara/. Acesso em: 18 de nov, 2024.

Metrópoles.

https://www.metropoles.com/colunas/igor-gadelha/bolsonaro-se-pronuncia-sobre-fim-da-jornada-6×1. Acesso em: 18 de nov, 2024.

Estado de Minas.

https://www.em.com.br/politica/2024/11/6989449-bolsonaro-ironiza-pec-contra-escala-6×1-que-tal-rs-10-mil-de-salario.html. Acesso em: 18 de nov, 2024.

Notícias UOL

https://noticias.uol.com.br/politica/ultimas-noticias/2024/11/13/pec-da-escala-6×1-leia-texto-completo-da-proposta-de-emenda-constitucional.htm . Acesso em: 18 de nov, 2024.

https://noticias.uol.com.br/politica/ultimas-noticias/2024/11/13/pec-da-escala-6×1-leia-texto-completo-da-proposta-de-emenda-constitucional.htm. Acesso em: 18 de nov, 2024.

https://noticias.uol.com.br/politica/ultimas-noticias/2024/11/13/propostas-engavetadas-reducao-jornada-de-trabalho-congresso.htm. Acesso em: 18 de nov, 2024.

https://economia.uol.com.br/noticias/redacao/2024/11/12/o-que-e-a-escala-6×1-entenda-o-que-propoe-a-pec-para-reducao-da-jornada.htm – Acesso em: 19 de nov, 2024

Foto de capa: Chevanon Photography/Pexels