Saiba como enfrentar a disseminação de desinformação na reta final do segundo turno das eleições

A poucos dias do segundo turno das Eleições Majoritárias para prefeito e vice no Brasil, a disseminação de material falso em mídias digitais de cristãos aumenta vertiginosamente. Bereia montou uma força-tarefa para verificar conteúdos e instruir os leitores a analisar criticamente os conteúdos que recebem.

Ganhou destaque essa semana a avalanche de fake news e propagandas negativas (propagandas contra candidatos) visando fins eleitorais. Em 57 municípios do Brasil haverá segundo turno e a disputa eleitoral incentiva uma panfletagem específica, direcionada contra alguns e em favor de outros. Durante a campanha, em 5.567 municípios, voltaram a circular boatos, acusações e “fake news” que já circularam na eleição de 2018, com objetivos eleitoreiros. O volume foi tão grande que o TSE criou um chatbot (um serviço automático de mensagens, com o endereço http://wa.me/556196371078) para desfazer boatos e criou a campanha com a hashtag #EuVotoSemFake com o mote: “se for fake news, não transmita”.

Como acontece em outras notícias falsas, os autores e aqueles que as repassam pedem para não serem identificados, para dificultar a apuração dos responsáveis pelos crimes eleitorais. Por isso, desconfie de notícias alarmistas, de suposta perseguição religiosa, vinculadas a uma suposta ideologia de gênero, ou “contra a Bíblia”.

Bereia recebeu folhetos de leitores com campanha difamatória e os tons alarmistas sem autor identificado – ou então com a autoria da peça ilegível. Por que isso acontece? Porque os verdadeiros autores sabem que se trata de um crime eleitoral – e passam adiante a responsabilidade, tentando dificultar o rastreamento de sua autoria.

Os eleitores deverão retornar às urnas no próximo dia 29 de novembro para escolha final do próximo prefeito ou prefeita das cidades. É importante tomar cuidado com as falsas acusações.

Fique atento! Há muita campanha no segundo turno fazendo uso de material falso não apenas para apoiar candidatos mas também para destruir a reputação de candidatos opostos.

Lembre-se que isto já ocorreu em 2018 e é objeto de investigação no STF, na Polícia Federal. E em comissão parlamentar mista de inquérito no congresso. No Rio de Janeiro, Espírito Santo, Recife e Fortaleza, Bereia recebeu material que busca manipular a população religiosa contra adversários políticos de alguns candidatos. A estratégia, como em 2018, é de pânico moral e terrorismo verbal para convencer pessoas pelo medo.

Mais uma vez, pela falta de provas e autoria duvidosa, Bereia verifica que quem cria o material busca fazer de quem o repassa cúmplice de um crime eleitoral e de uma campanha difamatória.

Seja prudente e fique alerta. Se você receber algum conteúdo alarmista e tem dúvidas se é falso ou verdadeiro, envie por e-mail para coletivobereia@gmail.com ou entre em contato pelo nosso WhatsApp – (38) 98418-6691 ou clique aqui e envie o seu conteúdo.

Confira gravação abaixo para o Jornal Brasil Hoje, da Rede Católica de Rádio (RCR), que vai ao ar esta semana:

1 ano: Sites religiosos e ativistas digitais que propagam desinformação

O Bereia completou um ano de atuação em 31 de outubro de 2020. Como parte deste marco tão importante, é apresentado um aprofundamento de levantamento publicado em junho de 2020 com um balanço das verificações realizadas pelo coletivo durante esse período.

Foram levadas em consideração todas as publicações da seção “Verificamos” do site Bereia, que se referem à checagem de veracidade de conteúdos informativos sobre religião que circulam em espaços digitais, encontrados pela equipe do coletivo ou indicados por seguidores/as (textos analíticos da seção Areópago não foram considerados). No total, nos doze meses de atuação do Coletivo Bereia (outubro de 2019 a outubro de 2020) foram realizadas 133 verificações de conteúdos, distribuídas conforme o gráfico a seguir:

Fonte: Coletivo Bereia

No que diz respeito ao conteúdo qualitativo dessas checagens, serão expostos a seguir dados quanto à classificação do tipo de informação aos temas e às fontes de informação mais recorrentes nos conteúdos avaliadas.

Classificação por tipo de informação

Fonte: Coletivo Bereia

Há pouca variação entre os dados de classificação apresentados na análise realizada em junho passado. Mais da metade das matérias publicadas por Bereia (60%) ainda concluem que os conteúdos verificados são falsos e enganosos. Pouco mais de 20% ainda representam conteúdos imprecisos e inconclusivos, ou seja, que não apresentam fundamentos para a informação transmitida ou não apresentam recursos necessários para a avaliação de sua veracidade. E apenas 19,20% são confirmadas como verdadeiras.

Temas abordados

Fonte: Coletivo Bereia

Neste aspecto, é possível notar algumas alterações em relação à última análise. Desta vez, o conteúdo que mais se destaca na base de dados como o mais citado é Política Brasileira, com 25,20% dos casos verificados. Na sequência, está “Perseguição Religiosa”, representando 21,26% das notícias e em terceiro, com percentual de 20,47%, está Saúde (com ênfase em coronavírus), que aparecia como o assunto mais citado na última avaliação. Tal fato pode ser atribuído a redução dos casos da COVID-19 no âmbito nacional e a diminuição do espaço de divulgação de informações sobre a pandemia nas mídias. Além disso, o fato de 2020 ser um ano de eleições municipais, o tema se destaca ainda mais no dia a dia da população informações relacionadas ao cenário político.

Fontes de desinformação mais citadas

Fonte: Coletivo Bereia

Quanto as fontes de desinformação mais recorrentes nas verificações do Bereia, o Twitter ainda se destaca como a principal, representando um percentual de 23,47 % nas matérias produzidas. Outras mídias sociais como WhatsApp e Facebook, além da categoria “Mídias digitais variadas” utilizada quando a informação não parte de uma mídia específica, mas para um conjunto delas, são ressaltadas na visualização de dados. Juntas, as plataformas de mídias digitais representam quase 60% das fontes de informação de conteúdos verificados pelo coletivo. Isto remete mais uma vez para o alerta do tipo de informação publicada nestas plataformas, que contam com critérios ainda pouco efetivos para o enfrentamento da desinformação.

As demais fontes são de sites religiosos de notícias, que recorrentemente publicam conteúdo que representam mais uma defesa de suas ideologias e valores morais. Destaca-se o portal Pleno News, como aquele que mais ofereceu material para ser verificado, seguido do Gospel Prime, do Gospel Mais, do CPAD News e do Conexão Política como os espaços digitais com vinculação religiosa que mais produzem desinformação.

Bereia reafirma um alerta aos leitores, para que não deem crédito ou compartilhem informações que não estejam fundamentadas em dados ou tenham sido expostas em veículos de informação não credenciados. O Bereia, neste um ano de atividades, renova o compromisso de atuar pela informação verdadeira e responsável e se dispõe como parceiro de maneira cada vez mais presente, colaborando a partir da metáfora bíblica de “separar o joio do trigo”, pelos próximos longos anos que espera servir.

Confira o balanço e perspectivas no enfrentamento à desinformação em espaços religiosos

Como parte das comemorações do aniversário de 1 ano do Bereia, foi realizada uma live através do Facebook com o balanço de atividades e novas perspectivas no enfrentamento à desinformação em espaços religiosos. Confira o vídeo abaixo:

Rede Fale propõe manifesto contra o “Voto de Cajado”; leia a íntegra

Um manifesto pela democracia, pelo exercício consciente do voto e da participação popular, com a devida distinção de papéis entre Estado e Igreja. É isto que propõe a Rede FALE, uma organização de promoção da transformação social e de esforços pela justiça social, dignidade humana e defesa dos direitos humanos.

A organização propôs o Manifesto contra o Voto de Cajado no dia 28 de outubro de 2020, que, entre outros pontos, denunciou as práticas de uso do púlpito religioso como espaço de campanha direta ou indireta para candidatos ou partidos, a bênção a um candidato ou partido por líderes religiosos, a venda de apoio político por denominações ou comunidades, a definição de candidaturas “oficiais” de igrejas, a utilização da Bíblia como instrumento para legitimar ou demonizar a candidatura de quaisquer candidatos e qualquer esquema de produção de desinformação.

Abuso de poder religioso nas eleições

Embora o abuso de poder religioso não seja previsto em lei, as regras em vigor estabelecem punições para candidatos que cometem irregularidades e abusos, como indica esta reportagem da Agência Pública, sobre campanhas em templos religiosos.

O Coletivo Bereia, iniciativa de enfrentamento à desinformação em ambientes digitais religiosos, endossa a necessidade do compromisso inegociável com a verdade para que as eleições sejam limpas e justas.

O Manifesto contra o Voto de Cajado na íntegra

Leia o Manifesto da Rede Fale na íntegra abaixo:

1. É chegado mais um momento de corrida eleitoral na democracia brasileira. Tradicionalmente, as eleições são, para muitas pessoas, os únicos momentos em que se propõem debater a participação política. Lamentamos que a reflexão sobre nossa realidade política não seja parte do dia a dia, no acompanhamento de parlamentares, na discussão das grandes questões nacionais, na participação social e no acompanhamento de políticas públicas, o que nos permitiria dar um salto qualitativo na construção de nossa democracia e num projeto de nação mais justo e igualitário, com ética na política e boa governança nas políticas públicas.

2. Como observado desde a redemocratização e de forma crescente nos últimos anos, o voto evangélico é um dos componentes de grande destaque do processo eleitoral. Fruto da maciça expansão evangélica ocorrida nos últimos anos, a participação cada vez mais ativa de figuras evangélicas das mais variadas formas e concepções políticas, bem como de linhas teológicas na política brasileira impõe um desafio de análise a todos que desejam compreender a conjuntura eleitoral. Se, por um lado, o tradicional desinteresse evangélico pela política já foi superado e cada vez mais os crentes deixam de voltar seus olhares apenas para o porvir; por outro, o investimento evangélico na política comporta uma série de práticas distintas e heterodoxas que não estão em consonância nem com a melhor tradição cristã de participação política como William Wilberforce, Martin Luther King Jr., José Míguez Bonino, Guaracy Silveira, Paulo Wright; nem com valores republicanos e democráticos.

3. No Brasil, há dois perigos diante do cristão que compreende que precisa atuar politicamente: O primeiro é achar que simplesmente por “ser crente” está abençoado para a política. Essa é a concepção que leva milhões de brasileiros a votar no “pastor” ou no “irmão abençoado pelo pastor”. Como consequência, muitos parlamentares são eleitos sem compromisso com a justiça ou a democracia, sem coerência partidária, programática ou ideológica, votando sempre para a expansão do poder de suas igrejas, associações, rádios e empresas. Por fim, acaba-se acreditando que a única – e mais rápida – solução para o Brasil é eleger um governante ou parlamentar “crente”, e declarar de boca que “o Brasil é do Senhor Jesus Cristo”. O segundo problema tem maior profundidade: é quando os cristãos acham que podem transformar a declaração fundamental do “eu creio” da sua fé em lei a ser imposta pelo Estado. Isso ocorre quando queremos reduzir o que consideramos a Revelação de Deus a mera proposição de solução para nossos problemas cotidianos, acreditando que existe uma “política cristã” ou uma “economia cristã”; ou seja, que sistemas políticos e econômicos podem expressar “fé”. No entanto, nossa participação deve atender as necessidades estruturais do país, com justiça, mas não podem expressar fé no sentido da revelação de forma pura e simples.

4. Nós da Rede FALE, cidadãs e cidadãos cristãos compreendemos e identificamos nossa missão na defesa dos direitos humanos e da justiça, temos denunciado há cerca de uma década o “voto de cajado”, assim conceituado a partir de uma metáfora que carrega em si o emblema da modernização conservadora que tanto nos assola: trata-se da releitura das velhas práticas de exercício do poder, incidindo de forma autoritária sobre o comportamento eleitoral da população (consagrado na literatura política como “voto de cabresto”), agora replicadas por pastores evangélicos junto a seus rebanhos nos arraiais evangélicos de todo o país. Evidentemente, nossa denúncia tem por alvo certas formas específicas de interseção entre as campanhas eleitorais e o eleitorado evangélico. Queremos afirmar novamente, de forma clara e inequívoca, nossa perspectiva sobre o que consideramos como “voto de cajado” e uma aberta condenação desta prática como traição à melhor tradição cristã de participação política.

5. Declaramos que a fé não pode ser tratada como moeda para se conseguir vantagens materiais ou simbólicas e, lamentamos que a sede de poder seja ainda hoje uma tentação para muitas lideranças cristãs. Pactos espúrios com partidos ou candidatos para conseguir benefícios para igrejas ou denominações, infelizmente costumam acontecer “por trás dos púlpitos”, durante as campanhas eleitorais. No entanto, o papel da Igreja na sociedade, como bem disse o pastor batista Martin Luther King Jr., não é servir ao Estado ou ser seu senhor, mas zelar para ser sua consciência crítica. Portanto, entendemos que a Igreja, deve estar pronta para o Serviço, para a busca da Justiça e para a propagação do Amor, valores capazes de transformar as estruturas da sociedade.

6. Somos a favor de que haja nas igrejas um processo comunitário de reflexão, oração, que a investigação da estrutura democrática seja costumeira, para que seus membros votem com ética e discernimento.

7. Denunciamos, portanto, como “voto de cajado”, as seguintes práticas e outras similares que atentem contra a democracia.
– O uso do poder pastoral para guiar a consciência dos fiéis, em benefício de qualquer candidato.
– A utilização das Sagradas Escrituras ou de imagens bíblicas, a fim de legitimar a candidatura de uns e demonizar a candidatura de outras figuras públicas.
– A venda da consciência e dos votos dos membros da igreja a algum candidato, em troca de recompensas materiais feitas à liderança, congregação ou denominação.
– A permissão do uso do púlpito como plataforma de propaganda partidária ou de apresentação de quaisquer candidatos para fins eleitorais.
– A transferência da imagem de pastores ou líderes religiosos para candidatos em propaganda eleitoral, afirmando-os como candidatos escolhidos por Deus ou demonizando seus concorrentes.
– O compromisso com a verdade e portanto com o combate ao uso de informações falsas, o combate a destruição de reputações baseada em mentiras. Precisamos identificar e denunciar todo esquema de produção de “fake news”, o que na prática nada mais é do que produção de mentiras.

8. Convocamos os irmãos e irmãs a terem cuidado com lideranças que defendem que as Igrejas tenham “candidatos oficiais”.Que avaliem propostas e programas de governo, que investiguem a trajetória dos candidatos, compreendam quais as principais funções e papéis que serão desempenhados pelos candidatos, votando portanto, com sua consciência!

9. Cumpramos com integridade e espírito público nossa vocação de cidadãos e cidadãs brasileiros. Para os nossos irmãos e irmãs de fé, nosso estímulo é: “Pratique a justiça, ame a misericórdia e ande humildemente com o seu Deus” (Miquéias 6.8).

Manifesto Rede Fale – Voto de Cajado

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Foto de capa: Rede FALE/Reprodução

Melancias chinesas não vieram contaminadas com coronavírus

* Nota por Maria Fernanda de Lima

Voltou a circular em grupos religiosos no WhatsApp um áudio que já havia sido desmentido em maio deste ano pelo Boatos.org. O áudio tem quase dez minutos e nele uma mulher não identificada pede para avisar a população para não comprar melancias, pois todas elas estariam vindo da China contaminadas com o coronavírus.

Conforme outra checagem, realizada pela agência Lupa em setembro, que também declarou como falsas as informações contidas no áudio, o Ministério da Saúde afirma que não há qualquer evidência de que produtos enviados da China para o Brasil tragam o vírus.

Segundo o Boatos.org, o áudio tem características alarmistas, não apresenta qualquer fonte confiável e, além da questão das melancias, mente sobre uma série de outras informações falsas, como supostas vacinas que envenenariam a população e inexistência do coronavírus.

Confira a abaixo a reprodução, na íntegra, da checagem realizada pelo Boatos.org.

Melancia vendida no Brasil foi contaminada por chineses com coronavírus #boato

Caramba! O que não tem faltado na internet são informações malucas (talvez esse seja o melhor termo) relacionadas à Covid-19. A mais nova delas fala de uma “denúncia bombástica” que envolve caminhoneiros, chineses, coronavírus e… melancia.

De acordo com um áudio que está circulando no WhatsApp, uma mulher denuncia que “os chineses” estão contaminando todas as melancias no Brasil com o “vírus” (presume-se que seja o coronavírus), que os caminhoneiros estão sabendo, mas não podem fazer greve e que é preciso deixar de comprar a fruta. O áudio ainda fala que não existe Covid-19 e a pessoa que o narrou pede para ela não seja identificada. Leia a transcrição do áudio em questão:

Por favor, só não divulgue nome de quem te passar por favor, mas avisa toda população que puder. Não compre melancia no Brasil. as as melancias tá entrando. Já nos comércios todas contaminadas. Os caminhoneiros não pôde para greve, porque só tem eles para transportar as melancia os que tão os governantes que tão saindo de Brasília que tão pedindo as contas porque não tão concordando e tão correndo risco de vida, já foi vazado um áudio os chineses tão invadindo o Brasil. Eles querem o Brasil, Estados Unidos a qualquer custo. Só que eles querem comer na população já foi dado ordem. Para o presidente Assinar o decreto espichar mais três meses de seiscentos reais e se depender precisar espichar, mais seis meses que é pra não pegar a população indo trabalhar pa, pegar eles encurralado em casa pra aplicar as vacinas que já tão chegando no Brasil, quem não tomou a vacina vai ser ameaçada de ser preso.
Outra por que que os cadeeiro não pode sair porque lá dentro eles vão ter que consumir a melancia após as refeição e tomar as vacinas e as pessoas idosas vão pegar mais rápido o vírus porque as melancias tão contaminadas todas as melancia entendeu por favor, avisa o Máximo de população que puder porque vão ser obrigado também a tomar vacina todo pessoal da área de saúde até os que tão em casa e eles não tão conseguindo conter as pessoas em casa. Então, eles vão começar a multar quem tiver na rua Só vai poder sair de acordo com a data do seu aniversário, então por favor. Avisa a população que o problema não é máscara. O problema é a injeção que eles tão injetando até mesmo nos hospitais. Quem morre não pode ter direito ao corpo de delito. Eles tão jogando pro Covid-19 não tem Covid-19. é o veneno que eles tão injetando nas pessoas pra diminuir a população pra passar o Brasil Brasil. Dívida alta pra passar o Brasil por cima acontece que o nosso Presidente não queria usar máscara porque ele já sabia. Eles obrigaram o presidente usar máscara pra poder incentivar as pessoas, usa máscara e ficar em casa porque em casa que eles vão querer as pessoas pra vacinar por favor a vacina que tá chegando. Toda contaminada, as pessoas que se escaparem vai ter problema sério mentais em depressão. por favor, avisa o máximo que você puder não consumir as melancia daqui pra janeiro que tão todas contaminadas os governantes que estão ainda em Brasília, porque tão concordando em contaminar Todas as melancia, os caminhoneiro é obrigado a trabalhar na rua pra entregar as melancias pra ir pro comércio. por favor avisem o máximo que puder.

Melancia vendida no Brasil foi contaminada por chineses com coronavírus?

Caraca! Como tem gente maluca (ou mau caráter). Você notou que a pessoa que gravou o áudio pediu para não ser identificada? Sabe por que? Porque o áudio em questão é MUITO falso. Vamos aos fatos.

Como é possível ver, a mulher do áudio em questão faz acusações gravíssimas que envolvem tentativas de matar muitas pessoas dolosamente, contaminar alimentos, promover uma quebra de mercados e outras coisas. E sabe quantas provas ela apresenta? Nenhuma! Isso mesmo. A mensagem em questão vomita acusações e não apresenta nenhuma prova.

É importante citar que o áudio, além de ter características de boatos online, como ser vaga, alarmista, com erros de português e falta de citação de fontes confiáveis, tem diversas contradições que derrubam a tese. Vamos listar algumas só para vocês terem uma ideia.

1) A “contaminação massiva de melancias” cobraria uma logística gigantesca. Em 2014, o Brasil produziu 111 milhões de toneladas de melancia. Imagina só como seria o trabalho de infectar cada melancia. Isso demandaria uma mão de obra e matéria-prima (o vírus) que, com certeza, chamaria atenção. Mas sabe o que sabemos além do áudio da “agente secreta” do áudio? Nada. Não há uma referência sobre o assunto em fontes confiáveis.

2) Mesmo que a ação fosse realizada, não há garantia de que as pessoas fossem contaminadas. O vírus não se multiplicaria na melancia e, se o tempo de infecção até o consumo fosse longo (alguns dias), o vírus já estaria morto. Ou seja: não seria um “plano maléfico” tão eficaz.

3) A mulher fala que “os governantes que não concordam” saíram de Brasília. Com exceção de alguns ministros (como Mandetta, Moro e Teich), não houve nenhuma “renúncia”. Detalhe: nenhum dos três citados saíram por causa de “melancia”.

4) A mulher fala que a China vai invadir o Brasil. Essa tese não só é falsa como também já foi desmentida no Boatos.org. Leia aqui.

4) A mulher chega a falar que vão dar vacinas infectadas nas pessoas e que a Covid-19 não existe. De novo, mais duas informações que não procedem. Primeiro, porque ainda não foi homologada uma vacina para Covid-19. Segundo, porque está mais do que claro que o coronavírus existe.

5) Para terminar, não faz nenhum sentido a tese de que o governo vai prender as pessoas em casa para “se contaminarem”. Se houvesse um plano desses, o que faria sentido seria soltar as pessoas na rua para se contaminarem e morrer muita gente. Ainda bem que ninguém quer isso, não é?

Pela falta de provas apresentadas pela mulher que narra o arquivo e pelos absurdos apresentados, podemos dizer que a informação que circula na internet é falsa. As melancias não foram infectadas com o coronavírus por chineses que querem “invadir o Brasil”.

Ps.: Esse artigo é uma sugestão de leitores do Boatos.org. Se você quiser sugerir um tema ao Boatos.org, entre em contato com a gente pelo site, Facebook e WhatsApp no telefone (61) 99177-9164. 

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Foto de Capa: Pixabay/Reprodução

Coletivo Bereia integra projeto especial do Comprova

No mês em que completa um ano de fundação, o Coletivo Bereia é selecionado para integrar o projeto Comprova + Comunidades, que reúne oito iniciativas de jornalismo atuantes em comunidades ou com temáticas raciais e religiosas. O Comprova é uma iniciativa da First Draft, liderada pela Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (Abraji) que trabalha em colaboração com jornalistas de 28 veículos de comunicação do Brasil no combate à desinformação.

As oito iniciativas selecionadas são coletivos e agências das cinco regiões do país e que estão conectadas a públicos segmentados por territórios, temáticas raciais ou religiosas e a comunidades vulneráveis. Os representantes de cada coletivo ou agência atuarão no Comprova por 6 meses, devido a um convênio da Missão Americana no Brasil com a Abraji para combater desinformação relacionada à COVID-19.

Do Coletivo Bereia participam Juliana Dias e Luciana Petersen, que participam do coletivo desde o início. Os coletivos e agências estão recebendo treinamento para verificação, apoio para aquisição de equipamentos e uma ajuda financeira para remunerar os profissionais que atuarão no Comprova. Além do trabalho colaborativo nas investigações, espera-se que os novos participantes possam ajudar na criação de novas narrativas que ajudem a disseminar o resultado das verificações feitas pelo Comprova.

Fazem parte do projeto as seguintes agências e coletivos:

  • Marco Zero Conteúdo – coletivo de jornalismo independente em Recife que realiza cobertura local e regional, com foco no interesse público e nos setores mais vulneráveis da população.
  • Agência Mural de Jornalismo das Periferias – tem como missão minimizar as lacunas de informação e contribuir para a desconstrução de estereótipos sobre as periferias da Grande São Paulo.
  • Bereia – coletivo de jornalismo colaborativo para verificação de notícias em ambientes digitais religiosos.
  • Rádio Noroeste – instrumento de fortalecimento da cultura local, por meio da valorização das raízes e tradições populares, do esporte e lazer que animam a comunidade, e da economia da região noroeste de Goiânia.
  • Amazônia Real – agência que nasceu com o objetivo de fazer jornalismo independente, investigativo e pautado nas questões da Amazônia e de seu povo.
  • Coletivo Niara – grupo criado em 2014 por alunos da Universidade Federal do Pampa, campus São Borja, com o objetivo de acolher os ingressantes pretos e criar uma comunidade de apoio.
  • Alma Preta – agência de jornalismo especializada na temática racial do Brasil, cujo objetivo é construir um novo formato de gestão de processos, pessoas e recursos por meio do jornalismo qualificado e independente.
  • Favela em Pauta – portal de notícias formado por jornalistas baseados em favelas e periferias das cinco regiões do Brasil e que exerce a comunicação sob a perspectiva jovem, negra e periférica, utilizando as técnicas do jornalismo profissional.

Para o presidente da Abraji, Marcelo Träsel, a inclusão das agências e coletivos amplia o alcance do Comprova junto a públicos ainda pouco atendidos. Também é mais um passo no compromisso da atual gestão em aumentar a diversidade nas atividades da associação.

“Informações falsas podem até matar. Principalmente na área de saúde. Esperamos que esse programa possibilite que informações de qualidade cheguem a brasileiros que nem sempre têm acesso a esse tipo de checagem”, disse o adido de imprensa do Consulado dos Estados Unidos em São Paulo, Philip Drewry. “Nosso objetivo é garantir que brasileiros tenham à disposição as informações de que precisam para tomar decisões embasadas e conscientes.”

“Esta parceria representa muito para o nosso Coletivo. Primeiro, significa um reconhecimento da relevância do serviço que prestamos e da capacidade que temos de produzir conteúdo comprometido com informação de qualidade. Em segundo lugar, é uma oportunidade de aprendermos com o Comprova e com outros projetos e coletivos, o que trará, por certo, aperfeiçoamento para o nosso trabalho. Terceiro, é uma chance de aprofundarmos nossa perspectiva de jornalismo colaborativo e vocação de atuação coletiva”, afirma Magali Cunha, editora-geral do Coletivo Bereia.

As organizações de mídia envolvidas na terceira fase do Comprova são: A Gazeta, Gazeta do Sul, AFP, Band News, Band TV, Band.com.br, Canal Futura, Correio (da Bahia), Correio de Carajás, Correio do Estado, Correio do Povo, Diário do Nordeste (CE), Estado de Minas, Exame, Folha de S.Paulo, GaúchaZH, Jornal do Commercio, Metro Brasil, Nexo Jornal, NSC Comunicação, O Estado de S. Paulo, O Popular, O Povo, Poder360, Rádio Band News FM, Rádio Bandeirantes, revista Piauí, SBT e UOL.

Google News Initiative e Facebook Journalism Project ajudaram a financiar o projeto, e ambas as empresas estão fornecendo suporte técnico e treinamento para as equipes envolvidas. O Comprova tem como parceiros institucionais a Associação Nacional de Jornais no Brasil (ANJ), o Projor, a Fundação Armando Alvares Penteado (FAAP), a agência Aos Fatos e a RBMDF Advogados. Os parceiros de tecnologia são CrowdTangle, NewsWhip, Torabit, Twitter e WhatsApp.

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Foto de Capa: Projeto Comprova + Comunidades/Divulgação

Bereia participa de lançamento da campanha #IgrejaSemFakeNews

Na noite desta quinta-feira, 15 de outubro de 2020, foi lançada a campanha #IgrejaSemFakeNews, uma iniciativa da Igreja Batista em Coqueiral, através do Instituto Solidare (Recife-PE), em parceria com a Tearfund e a Aliança Bíblica Universitária do Brasil (ABUB). O Coletivo Bereia, primeiro coletivo jornalístico de fact-checking religioso do Brasil, foi convidado para participar do lançamento. A campanha busca conscientizar cristãos sobre os riscos das fake news para a democracia e alertar para que desinformação não seja compartilhada durante o período eleitoral.

Na ocasião, participou o presidente da Associação Paz e Esperança Brasil e coordenador estratégico do Coletivo Bereia, Alexandre Brasil. Também houve a apresentação, na abertura, de um vídeo elaborado a pedido do Bereia por Isis Coutinho, pesquisadora em educação em ciências da saúde pela UFRJ e membro da igreja anglicana, no Rio de Janeiro-RJ.

Reflexão de Isis Coutinho, especial para o lançamento da campanha

De acordo com os organizadores da campanha, o lançamento se dá 30 dias antes do primeiro turno da eleição e pretende atingir todo o Brasil. Para isso, foi lançado um e-book (que pode ser baixado aqui), distribuído gratuitamente, com reflexões acerca das fake news tanto à luz da Bíblia quanto da legislação brasileira. É possível assistir ao vídeo do lançamento abaixo:

https://www.youtube.com/c/IBCoqueiral/

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Foto de capa: IB Coqueiral/Reprodução

Era da desinformação: pessoas estão mais atentas sobre veículos de informação confiáveis

Se a desinformação transborda em meio às mídias sociais, o jornalismo profissional feito por jornais impressos, portais de notícias e programas de TV e rádio continua sendo a fonte mais confiável para os eleitores quando o assunto são as notícias sobre as eleições municipais. Pesquisa do Instituto Datafolha revela, entre outros dados, que a desconfiança em relação a mídias sociais como o WhatsApp pode chegar a 78%. Confira maiores informações na matéria publicada por O Globo e reproduzida, na íntegra, abaixo.


População aponta jornalismo profissional como a fonte mais confiável para se informar sobre eleição, diz Datafolha

* Publicado originalmente por O Globo em 10 de outubro de 2020.

RIO — Jornais impressos, sites de notícias, programas de rádio e televisão foram apontados como os meios mais confiáveis para obter informações sobre as eleições municipais. Os eleitores de São Paulo, Rio de Janeiro, Belo Horizonte e Recife avaliam as as redes sociais como o meio com menos credibilidade. Facebook e WhatsApp são os principais canais onde conteúdos sobre política são compartilhados. Essas são algumas das conclusões da pesquisa Datafolha realizada nos dias 5 e 6 de outubro, encomendada pela “Folha de S. Paulo” e pela TV Globo. A margem de erro é de três pontos percentuais para mais ou para menos.

Entre os eleitores da capital paulista, 41% confiam mais em jornais para se informar sobre o pleito municipal que ocorre em novembro deste ano. Os programas de televisão possuem a mesma taxa de confiança. Das 1.092 pessoas entrevistadas na cidade, 35% disseram que confiam parcialmente nos jornais e 20% disseram que não confiam. Em relação aos programas de TV, 33% não confiam e 24% confiam parcialmente.

Quando se trata das redes sociais, apenas 6% dos entrevistados em São Paulo afirmaram que confiam no Whatsapp, e 7% no Facebook. A taxa de desconfiança é de 78% e 74%, respectivamente. Já os que confiam parcialmente no Facebook são 11% e no WhatsApp, 13%.

No Rio de Janeiro foram ouvidas 900 pessoas. A confiança nos jornais impressos está em 35%, no mesmo patamar que em São Paulo se considerado o limite da margem do erro. Entre os respondentes no Rio, os programas de rádio são os mais confiáveis para 37%, seguidos pelos televisivos, com 36%.

Assim como os paulistas, os cariocas também manifestaram descrença em relação aos conteúdos que circulam nas redes sociais. Apenas 6% afirmaram que confiam nas informações sobre as eleições veiculadas pelo WhatsApp,enquanto 13% disseram acreditar em parte. O grau de desconfiança no WhatsApp é de 74%, enquanto apenas 6% informaram não utilizar o aplicativo de mensagens. Em relação ao Facebook, só 8% confiam, 16% confiam em parte, 67% não confiam e 9% não usam a plataforma.

Os números de Belo Horizonte e Recife apresentam a mesma tendência observada em Rio e São Paulo, com pequenas variações. Nas duas cidades, 67% dos eleitores afirmaram que não acreditam no que leem sobre a eleição na rede social.

De acordo com os dados da pesquisa, à medida que cresce a idade do entrevistado, maior a desconfiança nos meios de comunicação profissionais. A índice de maior confiança nos jornais foi registrado entre jovens de 16 a 24 anos de São Paulo (57%).

Bereia integra a Rede Nacional de Combate à Desinformação; lançamento será quinta

Na próxima quinta-feira, 24/09, será lançada a Rede Nacional de Combate à Desinformação (RNCD), iniciativa que reúne pesquisadores, jornalistas, projetos, agências, coletivos, movimentos sociais, revistas e instituições científicas, e entre os integrantes, o Coletivo Bereia. O lançamento acontece a partir de 19h por meio de transmissão ao vivo no Youtube da RNCD.

A editora-geral do Coletivo Bereia, Magali Cunha, classificou a decisão de integrar a rede como um “passo a mais da nossa consolidação [enquanto coletivo de verificação fatos]”. Bereia é reconhecido nacionalmente por ser o primeiro coletivo jornalístico do Brasil especializado em fact-checking religioso.

A Rede

São mais de 30 projetos que trabalham em várias frentes combatendo a desinformação em diversos ambientes e cujo escopo vai da pandemia da COVID-19, passa pela política e pelo ambiente religioso e chega aos direitos humanos com ataques à integridade das pessoas LGBT, mulheres, negros, indígenas, dentre outros.

A RNCD reúne uma diversidade de abordagens contra a desinformação englobando projetos de monitoramento de fake News, de jornalismo de fact-checking, projetos que trabalham com comunicação proativa levando informação precisa e necessária para a sociedade, projetos de contranarrativas, além de muitos que trabalham com informação científica e popularização da ciência.

Sobre o evento de lançamento é válido destacar que além da apresentação da plataforma da RNCD e dos parceiros da iniciativa, haverá uma palestra do jornalista e Professor Doutor Eugênio Bucci que dentre outras atividades é Professor Titular da Escola de Comunicação e Artes (ECA-USP), colunista do jornal O Estado de São Paulo e foi Presidente da Radiobrás entre 2003 e 2007. Publicou vários livros, alguns focado na ética jornalística e, por último, publicou, em 2019, o livro Existe democracia sem verdade factual?.

Acompanhe o lançamento

Grupo de mídia evangélica que pertence a senador bolsonarista é um dos que mais dissemina desinformação, afirmam pesquisadores

Reproduzimos, na íntegra, a reportagem publicada pela agência de jornalismo investigativo Pública, na qual o Coletivo Bereia foi ouvido através de sua editora-geral, Magali Cunha, e da jornalista Juliana Dias. Além da fala das especialistas, foi citado também o trabalho de verificação de fatos feito por Bereia durante a pandemia do coronavírus que identificou desinformação em matérias do site Pleno.News.

*Publicado originalmente pela Agência Pública. Reportagem assinada por Ethel Rudnitzki e Laura Scofield.

“Sol forte pode matar coronavírus em 34 minutos.” Essa é uma das manchetes enganosas publicadas pelo site Pleno.News durante a pandemia de coronavírus. 

O site, que promete em seu slogan “notícias de verdade”, é na realidade “um dos portais religiosos que mais publica material desinformativo”, segundo a jornalista Magali Cunha, doutora em ciências da comunicação e integrante do Coletivo Bereia – uma iniciativa de checagem de fatos publicados em mídias religiosas. O Bereia já encontrou diversos conteúdos falsos, enganosos e imprecisos nos textos do portal, segundo a pesquisadora. “A questão não é fake news apenas, é desinformação. Que confunde, direciona”, explica.

Fundado em 2017, o Pleno.News representa a nova cara do Grupo MK – uma das maiores empresas de mídia evangélica no país –, que tem investido em canais digitais e tem conexões políticas notórias.

Conhecido pela atuação no ramo da música gospel – com a gravadora MK Music e a Rádio 93 FM –, o grupo pertence à família do senador Arolde de Oliveira, presidente do PSD no Rio de Janeiro. Sua esposa, Yvelise de Oliveira, é a CEO da empresa e a filha, Marina de Oliveira, é uma das principais artistas agenciadas pelo grupo, que também é responsável por lançar no cenário da música gospel nomes como Aline Barros, Fernandinho, Bruna Karla e a deputada e pastora Flordelis, que recentemente recebeu muita atenção da mídia por estar sendo acusada de assassinar o marido. 

Com a chegada da internet e dos suportes digitais, a receita da MK – que era majoritariamente gravadora de CD/DVD – caiu muito e a empresa decidiu mudar seus investimentos. “Nós construímos então todas essas plataformas e nos tornamos em uma empresa essencialmente digital”, disse em entrevista à Agência Pública o senador Arolde de Oliveira. 

Aproveitando a credibilidade e a fama que a MK tinha entre o público evangélico, a empresa decidiu fundar então o Pleno.News, no qual a maioria das publicações é voltada ao noticiário político nacional sob a ótica conservadora – e por vezes enganosa –, deixando em segundo plano o cenário gospel. Além do Pleno, a MK passou a oferecer serviços digitais como a monetização e administração de canais de YouTube – MK Network. Entre os clientes estão artistas gospel e políticos como o senador Flávio Bolsonaro (Republicanos).

Desde agosto de 2018, a MK News gerencia o canal do YouTube do filho do presidente “de forma a potencializar o número de visualizações e inscritos”, conforme anunciado pela empresa. O canal de Flávio recebeu dinheiro público em anúncios da Secretaria de Comunicação do governo federal, como revelamos nesta reportagem. “A chegada do Flávio tem um grande significado, um marco nessa virada [digital]”, afirmou na época o deputado federal Arolde de Oliveira.

Além de Flávio, a MK presta esse serviço para outros três parlamentares – o senador Álvaro Dias, o próprio Arolde de Oliveira e a deputada Flordelis, em seu canal musical. Questionados, os parlamentares não responderam sobre a vigência de seus contratos com a MK, os serviços prestados e a origem dos pagamentos. A reportagem não encontrou registros de uso de dinheiro público para a contratação da MK pelos deputados. 

Arolde, Bolsonaro e MK: uma só campanha

A radicalização política do Grupo MK coincide com a aproximação do senador Arolde de Oliveira à família Bolsonaro. Deputado constituinte e convertido à Igreja Batista, o atual senador foi um dos primeiros parlamentares a representar a bancada evangélica no país. “O orgulho em ser evangélico vem do fato de que deixamos de ser minoria”, revelou em entrevista à repórter Andrea Dip para o livro Em nome de quem? A bancada evangélica e seu projeto de poder. “No meu primeiro mandato, nós éramos meia dúzia de evangélicos”, lembrou, projetando que o segmento seria um terço da Câmara na legislatura seguinte.

Apesar de representar uma parcela conservadora da sociedade, Arolde passou por quatro legendas em sua carreira (PDS; DEM, antigo PFL; PSC e PSD), todas ligadas ao chamado “centrão”. Foi deputado federal pelo Rio de Janeiro de 1984 até 2018, mantendo relações próximas com políticos cariocas como Anthony Garotinho e Pezão.

Em 2018, contrariou a cúpula de seu partido (PSD) para apoiar a candidatura de Jair Bolsonaro à Presidência. Com um discurso de negação da velha política, foi eleito senador ao lado de Flávio. “Nós [Arolde e Jair Bolsonaro] temos o mesmo pensamento, a mesma formação. Ele é capitão do Exército, eu sou capitão do Exército. Depois eu fiz economia, engenharia, outros cursos, mas o pensamento é o mesmo, e continua o mesmo”, comparou.

Em foto publicada nas redes sociais, Flordelis e Arolde de Oliveira declaram apoio a Jair Bolsonaro na campanha pela presidência.

A proximidade de Arolde com Bolsonaro fortaleceu tanto a campanha eleitoral do senador quanto a do próprio presidente. “A estratégia da campanha dele [Bolsonaro] era manter o discurso e usar rede social, que era onde ele tinha espaço. Ele não tinha espaço na mídia vertical intermediada e tradicional”, conta Arolde, que participou de reuniões da pré-campanha do candidato à Presidência. Ele revela que usou a mesma estratégia na sua campanha para senador. “Fui para o Facebook e impulsionei para o público evangélico. Mandei mensagem para o conservador”, disse. 

A aproximação com os políticos – em especial os do clã Bolsonaro – também faz parte da marca do Pleno.News. Em editorial publicado no dia 8 de abril, a editora-chefe do portal, Virgínia Martin, escreveu: “Se eu defendo Bolsonaro? Sim. Somos Pleno.News. E somos todos pela figura incomum deste presidente”.

A imagem de Bolsonaro é usada também para promoção do portal, que tem investido nas redes sociais. “Notícias do presidente Bolsonaro e do governo sem fake news”, diz um dos dez anúncios do Pleno.News veiculados entre janeiro e junho de 2020 no Facebook. 

Anúncios veiculados pelo site Pleno.News no Facebook entre janeiro e junho de 2020 não escondem apoio do portal ao presidente Jair Bolsonaro

A jornalista Juliana Dias, integrante do Coletivo Bereia, foi coordenadora do portal ElNet, que precedeu o Pleno.News em 2002. Ela afirma que os conteúdos de cunho político se tornaram mais explícitos no site recentemente. 

“A lógica era sempre produzir notícias relacionadas com temas da fé cristã, […] uma lógica de repercutir notícias atuais com uma ótica religiosa, mas não havia tanto partidarismo”, recorda. “Não é uma questão de defender o presidente Bolsonaro, nós damos notícias conservadoras”, defende o senador e dono do Grupo MK, Arolde de Oliveira. 

A pesquisadora Magali Cunha rebate o argumento de Arolde. Para ela, a campanha de Bolsonaro foi “nitidamente articulada por grupos como o MK”, com forte participação de portais de notícias religiosas, como o Pleno.News, além de outros exemplos, entre eles o Gospel Prime, o Gospel Mais e o Conexão Política. “Tanto que o governo Bolsonaro financia esses portais por meio de anúncios pagos com dinheiro público até hoje”, analisa. 

O Pleno.News veicula banners de anunciantes e os vídeos no YouTube que são monetizados com propagandas financiadas com dinheiro público. No ano passado, o site veiculou anúncios da campanha Nova Previdência, da Secretaria de Comunicação do governo (Secom). 

O apoio a Bolsonaro fica claro também na participação de representantes do portal em eventos de comunicação de projetos do novo governo. Durante o lançamento da campanha “Aqui é Brasil”, em dezembro de 2019, a diretora financeira do grupo MK, Cristina Xisto, tirou fotos com o presidente Jair Bolsonaro e com o então ministro da Justiça Sergio Moro. O Pleno.News fez uma matéria sobre o evento.

As desinformações e escândalos do Grupo MK

Recentemente, o Pleno.News inaugurou colunas sobre política escritas por deputados bolsonaristas. Antes deles, os únicos políticos que assinavam textos de opinião no site eram o senador Arolde de Oliveira e o pastor Silas Malafaia, escrevendo majoritariamente sobre temas morais e religiosos. 

Os novos colunistas do portal, Bia Kicis e Carlos Jordy, são acusados de envolvimento em redes de desinformação e começaram a escrever para o portal em julho deste ano. A deputada é alvo de dois inquéritos no STF que apuram, respectivamente, a disseminação de notícias falsas e a organização de atos antidemocráticos. Nesse último, ela, o senador Arolde de Oliveira e outros três deputados tiveram seus sigilos bancários quebrados a pedido do ministro Alexandre de Moraes. 

Para o senador, ambos os inquéritos – sobre fake news e atos antidemocráticos – fazem parte do que ele chama de “aparelhamento do Estado”. “É o ativismo político de ministros do Supremo – o STF é uma instituição, mas alguns ministros estão fazendo essas coisas.”

O Pleno.News tem dado destaque a esse tipo de crítica contra ministros do Supremo. Na ocasião da quebra de sigilo de parlamentares no contexto do inquérito das fake news, o site deu ênfase às críticas de apoiadores do presidente: “Usuários de rede social pedem prisão de Alexandre de Moraes”, destacava uma manchete. Quando o ministro pediu o bloqueio de contas de Twitter de apoiadores do presidente, o site publicou “Web se revolta com censura e acusa: #STFVergonhaMundial”.

Corrente de Whatsapp divulga o portal Pleno.News ao lado de sites de fake news em oposição a veículos de imprensa

A pandemia de coronavírus também tem tido cobertura de destaque no portal. “Coronavírus – tudo que você precisa saber”, anuncia a página inicial do site. Porém, o portal tem veiculado uma série de conteúdos desinformativos sobre o tema, conforme relata Magali Cunha. Notícias sobre perseguição de cristãos na China, por exemplo, foram impulsionadas reativando um antigo debate sobre o comunismo. “Nessas narrativas, a China é colocada como o ‘lado do mal’, com o vírus vindo de lá”, explica. 

Conteúdos parecidos foram publicados também pelo site da Rádio 93 FM, outra empresa do Grupo MK, e no Twitter do senador Arolde de Oliveira. No dia 11 de agosto, em um tuíte no qual se refere ao covid-19 como “vírus chinês”, o parlamentar questionou o número de mortes causadas pelo coronavírus no Brasil. A postagem compara os óbitos registados no ano passado com os deste ano, mostrando que a diferença é menor do que os 100 mil. Além de ela não revelar a fonte dos dados, agências de checagem mostraram que esse tipo de comparação é enganosa. Ainda assim, a publicação recebeu mil curtidas e 300 retuítes. 

O senador rebate as acusações de fake news. “O Pleno é um canal conservador, só que as notícias são curadas. Nós não temos notícias mentirosas. Não temos fake e nós citamos a fonte”, afirmou.

Além das acusações de fake news, dois escândalos recentes envolveram artistas da gravadora MK Music. Investigações da polícia apontaram que o celular do pastor Anderson Carmo, que teria sido assassinado a mando de sua esposa, a pastora Flordelis, estava na casa de Arolde de Oliveira no dia do crime. Na época, Flordelis ainda tinha contrato com o selo. Segundo a polícia, o aparelho do pastor chegou a ser conectado ao wi-fi da residência. Arolde se disse “chocado e sem chão” diante da investigação, que ainda está em curso.

Questionado sobre a polêmica, o senador disse que a empresa está afastada de Flordelis desde o assassinato e que, com o indiciamento, o contrato com a pastora deve ser rescindido. “Era uma relação estritamente comercial que tínhamos com os cantores”, esclarece.

Com conteúdos de forte pauta moral, a MK Music lançou um clipe da cantora gospel Cassiane, acusado de romantizar a violência contra a mulher. Na produção, uma mulher sofre agressões do marido alcoólatra, mas entrega uma Bíblia e um bilhete dizendo que o perdoa, em vez de denunciar o agressor. Depois de ter recebido críticas, a cantora disse que o roteiro foi desenvolvido por Mariana de Oliveira, filha de Arolde. Uma nova versão do clipe foi lançada. Nela, a mulher agredida liga para o 180.

Grupo MK foi precursor no uso político de mídias evangélicas

Segundo Magali Cunha, conteúdos de cunho político começaram a ser propagados por portais religiosos no Brasil, de forma mais assertiva, a partir de 2010. “Naquela época acabava de ser introduzido o Plano Nacional de Direitos Humanos 3, que continha forte discussão da questão de gênero e aborto. Isso provocou reação de grupos religiosos conservadores, com uma onda de conteúdos contra a ex-presidente Dilma Rousseff, que se perpetuou até o impeachment”, recorda.

Em coluna publicada no dia 16 de julho, o senador Arolde de Oliveira corrobora essa tese. “A nossa causa [evangélica] requer a adoção de um esforço consciente e coordenado de todas as correntes contrárias ao processo de destruição encampado pelo governo a partir de 2003”, escreve. No texto, ele coloca como inimigos grupos como o Foro de São Paulo, se opõe a medidas como o Programa Nacional de Direitos Humanos 3 e ainda cita o mito do “kit gay”.

Mas, antes mesmo da fundação do Pleno.News, o grupo MK já veiculava conteúdos políticos em suas mídias. No início dos anos 2000, a empresa tinha uma revista impressa chamada Enfoque Gospel, na qual publicava conteúdos conservadores. A edição 16 da revista, de novembro de 2002, trazia como matéria de capa uma reportagem sobre o recém-eleito presidente Lula. “O que os evangélicos esperam dele” era a manchete.

Na rádio do Grupo MK, a 93 FM, “havia um trânsito intenso de políticos como Silas Malafaia, Magno Malta, Garotinho”, recorda Juliana Dias. Os artistas agenciados pela empresa também eram convidados a participar de eventos de entretenimento com cunho político. “Lembro muito do apoio que Garotinho teve dentro da rádio e pelos cantores gospel agenciados pela MK. Isso também aconteceu com o Pezão, Sérgio Cabral”, conta. 

O Grupo MK de Comunicação, que hoje permanece no rádio e no ambiente digital, já passou pela televisão. De 1999 ao início de 2007, a RedeTV! exibia semanalmente o programa Conexão Gospel. No programa, o então deputado federal Arolde de Oliveira conduzia o quadro “O cristão e a política”, em que respondia a “questões sobre cidadania” do público e se posicionava politicamente – especialmente a partir da eleição de Lula em 2003.

Em um programa de 2006, ano de eleições presidenciais, Arolde fez um pedido: “Que o leitor vote corretamente e elimine tudo aquilo que ele aprendeu, que ele conheceu nesse período de corrupção, e sabe exatamente como deve votar. Nós não vamos perder essa chance, se Deus quiser”. 

O número 2502, da caixa postal e final do telefone do programa, constantemente repetido pelos apresentadores, foi também o número com o qual Arolde de Oliveira concorreu e venceu a todas as eleições que disputou entre 1994 e 2010. 

Em entrevista à Pública, o senador admite que o uso do número no programa e na rádio fez parte de uma estratégia de comunicação. “A cultura do número subliminarmente na cabeça das pessoas. Associava a imagem ao nome. Quando chegava na eleição, era muito fácil as pessoas lembrarem.” Ele se defende dizendo que na época não havia proibição quanto a isso. “Nunca fiz em eleição o que não fosse permitido, nunca tive problema com a Justiça Eleitoral.”

A canção de abertura do quadro “O Cristão e a Política”, gravada por artistas da MK, se tornaria slogan e jingle para o candidato. 

“Unidos pelo amor construiremos um Brasil melhor. Brasil acima de tudo, Deus acima de todos”, postou Arolde em 2018 – a união entre seu slogan como candidato ao Senado com o de Jair Bolsonaro para a Presidência. Atualmente, a canção abre o debate diário da Rádio 93 FM.

Rádio 93 FM foi indiciada por uso político de concessão

No final de 2017 o Ministério Público Federal no Rio de Janeiro (MPF-RJ) apresentou uma ação civil pública que pede que a outorga da Rádio Mundo Jovem (93 FM), do Grupo MK de Comunicação, seja anulada, já que estaria sendo utilizada para “autopromoção” de Arolde de Oliveira.

A peça explica que Arolde foi sócio da rádio enquanto deputado federal por 18 anos, entre 1º de junho de 1993 e 28 de abril de 2011, “em desconformidade com o disposto no art. 54 da Constituição da República”. O artigo 54 afirma que deputados e senadores não podem “firmar ou manter contrato” com “empresa concessionária de serviço público” – como é o caso de veículos de radiodifusão. 

Em 2011, Arolde passou suas cotas para a filha, Marina de Oliveira. Porém, mesmo sem o nome entre os sócios, o MPF-RJ concluiu que o parlamentar continua sendo o “controlador e proprietário de fato” da rádio, que seria utilizada politicamente por Arolde. Sobre isso, o senador responde: “Aí tem que mostrar prova. Lenga-lenga, coisa de comunista isso aí”. Para ele, esse e outros processos que já enfrentou trata-se de “perseguições ideológicas, que não têm nenhum fundamento jurídico”.

Na ação, o procurador Sergio Gardenghi Suiama afirma que “as matérias publicadas a respeito do deputado no site da radiodifusora não deixam nenhuma dúvida a respeito do uso político do controle sobre a permissionária do serviço”. A investigação já foi encerrada e o processo aguarda sentença do juiz responsável, Adriano de Oliveira França, desde junho deste ano. 

Para Arolde, “a Constituição diz que parlamentar pode ser proprietário de emissora de rádio, desde que ele não seja o gerente”. Porém, a Constituição não apresenta essa situação; é o Código Brasileiro de Telecomunicações que determina que “quem esteja no gozo de imunidade parlamentar ou de foro especial” não pode exercer a função de “diretor ou gerente” de serviço de radiodifusão. A lei não escreve que parlamentares podem ser sócios ou proprietários de concessões de radiodifusão. 

Além da ação civil contra a Rádio Mundo Jovem, existem outras que pedem o cancelamento das licenças de rádio e TV pertencentes a parlamentares. Em 2015, 13 entidades da sociedade civil e o Ministério Público Federal em São Paulo protocolaram uma representação que citava 40 políticos de 19 estados. O documento deu início a investigações em diversos estados brasileiros, como São Paulo, Alagoas, Pará e Amapá. 

O então deputado Arolde de Oliveira foi alvo de campanha contra “coronéis da mídia”

O Coletivo Intervozes de Comunicação Social lançou a campanha “Fora Coronéis de Mídia”, que mirava a concentração de veículos de mídia nas mãos de políticos, o chamado “coronelismo eletrônico”. Cartazes com fotos dos “coronéis de mídia” foram espalhados por cidades brasileiras, Arolde entre eles. 

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Foto de capa: Fábio Rodrigues/Agência Brasil

Cultos online e as fissuras do fundamentalismo religioso no Brasil

Por Delana Corazza, Angelica Tostes e Marco Fernandes¹

Conteúdo originalmente publicado no site www.thetricontinental.org

Confira a terceira parte do estudo “Cultos online e as fissuras do fundamentalismo religioso no Brasil”. Para ler a primeira parte, basta clicar aqui. Para ler a segunda parte, basta clicar aqui.

As possíveis fissuras do discurso fundamentalista

Entre os pentecostais alguns discursos são importantes para a construção do fundamentalismo, como a lógica do triunfalismo e da cura, que envolvem a teologia da prosperidade e a teologia do domínio. A primeira reforça o sentido individual da possibilidade cristã de felicidade e prosperidade terrena – e não mais somente no reino dos céus -, a partir da fé e de seu comprometimento com a igreja. Já a segunda aponta que, para a realização dessa felicidade, é necessário se inserir na batalha espiritual contra o Diabo, sendo este o responsável de todos os males da humanidade, e que os crentes devem resistir às suas tentações e pecados. Dessa forma, se algo de ruim acontece com o indivíduo, é atribuído algum pecado a essa pessoa, e entendido que o mal veio como fruto de desobediência a Deus. A partir dessa visão é gerada uma culpabilização do indivíduo frente às adversidades da vida. Ser evangélico se torna a única possibilidade de ação contra as forças demoníacas presentes na terra, a conversão é o único caminho para a salvação.

Com a pandemia do Covid-19, algumas bases teológicas fundamentalistas pentecostais parecem estremecer. O jovem batista Jackson Augusto acredita que “talvez muitas pessoas vão desacreditar de espiritualidades assim, esse discurso que promete coisas, que ninguém vai tocar em você, o discurso neopentecostal é além do financeiro. Para algumas experiências pode haver um enfraquecimento do discurso fundamentalista.”

O discurso do fundamentalismo religioso é ecoado na fala de um pastor pentecostal entrevistado: “Quem está confiante nesse momento? Quem confia em Deus, quem sabe que Deus está no controle de tudo. Nada acontece se não for a permissão de Deus. Então quer dizer, nós estamos em paz, eu estou em paz. Pessoas que não tem essa confiança em Deus, pessoas que não creem em Deus estão desesperadas, ‘e agora, o que vai ser da minha vida’, né?”. Em outras linhas, acaba minimizando as consequências da pandemia em relação à saúde pública e as maneiras que têm afetado a vida de milhões de trabalhadores e trabalhadoras nesse país, como se bastasse a confiança em Deus. No início da pandemia, Edir Macedo, líder da Igreja Universal do Reino de Deus (IURD), disse aos seus fiéis para não se preocuparem com o coronavírus e que isso era uma “uma tática de Satanás” – e da mídia – para causar pânico nas pessoas. A visão fundamentalista que enxerga um inimigo comum – o outro – a ser destruído por meio da fé e o papel da conversão como única forma de salvação encontram ecos na política negacionista de Bolsonaro. Para o pastor batista e professor de teologia, Kenner Terra, “não há nada mais perverso, desumano, monstruoso e anticristo do que tornar essa crise um instrumento de capitalização política. O discurso do Presidente, sempre preocupado em falar ao seu reduto eleitoral, já se mostrou desastroso e fragiliza as estratégias de combate à pandemia. Por outro lado, a relação acriticamente religiosa com o atual governo torna alguns pastores/as evangélicos/as recrutas de um projeto insano de poder.”

A visão teológica do “Deus no controle” e os líderes da Igreja como os profetas deste Deus imobiliza a ação social das igrejas ao combate às injustiças sociais e desigualdades, como relata o assembleiano Ronaldo que não teve sucesso ao implementar trabalhos sociais para além do assistencialismo na igreja: “Em relação ao coronavírus a nota é zero. A igreja não tem a filosofia de fazer esses trabalhos. Quando aparecem pessoas interessadas em fazer, como eu falei, quando vai para as esferas superiores eles não aprovam. […] As instituições religiosas têm um dono que não se chama Jesus, e sim aqueles que estão a frente desses trabalhos.”.

O poder que as lideranças das igrejas atribuem a si próprias é contraditório com as raízes do pentecostalismo que também estão ligadas à Reforma Protestante iniciada por Martinho Lutero. Visto que um importante ponto da Reforma é que não há mediação sacerdotal entre Deus e o ser humano, o único mediador seria Jesus. Fiéis e líderes resgataram em diversas falas a tradição protestante como forma de encontrar resistências em um momento em que pastores se colocam como a autoridade máxima da fé. Gedeon Alencar pontua que “na tradição protestante, em tese, nós anulamos todo e qualquer tipo de mediação porque a teologia de Lutero é do sacerdócio universal dos crentes, ou seja, todo crente é seu próprio sacerdote. E o culto, não tendo pastor ou tendo pastor, pode ser celebrado. O pastor Rosivaldo segue na mesma linha, ao dizer que “para nós pentecostais, desde Lutero, isso (o fechamento das igrejas) não é um problema. Porque você não precisa de sacerdote para falar com Deus, não precisa de um mediador. A Bíblia está aí, você tem ela traduzida na sua língua, então leia a Bíblia, ore a seu Deus e jejue”.

Entretanto, o uso da religião como manipulação ainda é um instrumento de controle sobre os corpos e subjetividades em alguns contextos. Por mais que os princípios da Reforma Protestante aponte caminhos para uma fé mais individualista e privada, no campo popular brasileiro a realidade é oposta. Para Ronaldo, da Assembleia de Deus Ministério Madureira, “as pessoas não foram preparadas para serem independentes. Foram preparadas para serem dependentes do ditador trazido para a igreja”. Um elemento que alguns desses líderes traziam, e ainda trazem, é a cura. Um exemplo é o vídeo publicado no Youtube em que o pastor da Igreja Mundial do Poder de Deus, Valdemiro Santiago, promete a cura do coronavírus com a compra de sementes de feijão abençoadas, pedindo o “propósito” de R$1 mil por elas. Após inúmeras críticas, a IMPD emitiu uma nota alegando que não vendiam sementes, nem prometiam a cura. No dia 11 de maio o MPF (Ministério Público Federal) solicitou que o YouTube retirasse do ar vídeos, e continua investigações em relação a “curas mágicas”.

Os esgarçamentos de tais discursos podem ser um ponto de fissura no fundamentalismo religioso. A fala de Ronaldo soa como um desabafo em relação a isso. “O coronavírus mostrou o quanto de farsa existe dentro da prática religiosa, o quanto de farsa que existe na liderança religiosa porque mostrou a hipocrisia de tudo isso. Alguns até tem programas de televisão mostrando curas, coisas impossíveis, e o coronavírus ninguém cura.” Claudio desabafa um ocorrido que aconteceu entre ele e sua companheira e o pastor da igreja:“A gente quase teve uma discussão com o pastor. Veio essa tese Bolsonarista de gripizinha, nós nos posicionamos, porque o vírus não tem partido, então você não pode ir pela cabeça de pastor, e o meu pastor não é Deus.” A jovem evangélica Alana aponta que “discursos religiosos também têm se enfraquecido. Quando eu digo que a cura vai chegar só com oração e essa cura não chega? Como dar respostas a isso? Se esses pastores têm tanto poder, por que eles não estão nas portas dos hospitais simplesmente curando as pessoas?”. Para Josélia Pereira, liderança da FLM, diz que tudo isso “mostrou que ninguém tem o poder de curar nada e nem ninguém, quem cura é Deus. ‘Nossa, fulano, ciclano, realizava tanta coisa’ e a gente tem casos dessas igrejas grandes de próprios pastores e obreiros que pegaram o vírus. Acho que as famílias, mais do que nunca, têm acordado.”

Claudio nos conta que muitos pastores estão deprimidos e traz uma importante reflexão obre como pode se fragilizar esse poder tão grande dado a essas lideranças. “Muitas vezes o pastor tem uma igreja e ali é a área de escape dele, entendeu? Ele é idolatrado, ele é o cara, ele é o pastorzão, então nesse momento que ele perde a igreja e tem que ficar com a família, ele fica meio que sem pé, né? A igreja é um escape, lá ele manda, lá ele tem um monte de gente, entre aspas, para puxar o saco, babar o ovo. Em casa, se ele não tem uma sustentação bíblica, um estudo, se não está realmente pautado na palavra, o cara se sente pior do que a gente que é membro. Ele é um Deus, né? Vaidade, se você não tiver uma base na Bíblia mesmo, aquilo que Deus fala: ‘a honra é Dele, a glória é Dele’, você se perde aí, você acha que é você. Todo mundo que foi exaltado ficou para trás. Aquele pastor que é humilde não sente muito, não”.   Encontrar as fissuras nos discursos e ações dos pastores que levantaram a bandeira fundamentalista é um desafio. Aprender a construir pontes de diálogo e de aproximação que não estão prontos, dado que muitas das afirmações do campo progressista não conseguem, ainda, dialogar com os fiéis, é uma tarefa fundamental nesse momento. Para Alana, essas novas ideias não serão agregadas dizendo “o quanto alienado vocês estão por seguirem esse pensamento”. Respeitar a fé em todas as dimensões da vida das pessoas é imprescindível para não aniquilarmos o diálogo. A ciência, a fé e a luta não são antagônica. O pastor Rosivaldo expressa sua fé dizendo que acredita em milagre. “Acredito que Jesus cura, em libertação. Agora, eu também acredito na ciência. O que Deus tinha que fazer para humanidade ele já fez, que foi enviar Jesus para salvar o mundo. Agora o problema da COVID-19 é um problema evidentemente humano, não vem meter Deus nesse negócio porque não tem nada a ver. É um problema biológico, não é uma força espiritual da maldade.”

Outra questão que devemos nos colocar como tarefa é a possibilidade de disputa da leitura da Bíblia. Avaliamos que é possível o questionamento sobre o papel do pastor e aquilo que ele tem pregado nos seus discursos dentro e fora da Igreja, e nos perguntamos: a Bíblia é o canal principal de disputa das narrativas? Com o culto online e o incentivo ao culto doméstico os fiéis tem passado mais tempo com a Bíblia. A leitura bíblica feita pelos membros das igrejas, sem a interpretação direta do pastor ou instituição, pode contribuir também para as rachaduras do discurso fundamentalista da fé. A relação dos evangélicos com a Bíblia é algo forte, fruto também da Reforma Protestante com o Sola Scriptura (Somente a Escritura), uma das cinco afirmações em latim que resumem os princípios da Reforma, sendo estas: Sola Fide (somente a fé), Sola Scriptura, Solus Christus (somemte Cristo), Sola Gratia (somente a graça) e Soli Deo Gloria (somente a Deus a glória). Entretanto, não se pode cair em um idealismo, visto que a própria Welita Caetano, liderança da FLM, pontua que “nós somos carregados de preconceitos, com essa carga preconceituosa você vai ler um versículo”. E acredita que “a Bíblia abre possibilidades para você pensar tanto de forma extremamente conservadora quanto extremamente libertária, depende muita da visão que você tem, dessa carga cultural que você tem, dos livros que você já leu, a partir disso você consegue fazer uma leitura”. Quando corpos diversos leem a Bíblia, muitas interpretações surgem. O que pode fragilizar, de certa maneira, discursos de interpretação única. Para a pastora metodista e teóloga Nancy Cardoso:

“Fundamentalismo é a interrupção da interpretação. O que o fundamentalismo pede para nós é que suspendamos a interpretação. No fundamentalismo ninguém precisa interpretar. O pastor diz, o político diz, e suspende a interpretação. No máximo você descreve, mas interpretar e, a partir da interpretação, fazer interpretação política, não. Então, o fundamentalismo pede para nós o congelamento do processo hermenêutico. Que as pessoas não pensem, que as pessoas não tenham autonomia, direito de decidir (com todos os problemas que o direito de decidir tem)”.

CARDOSO, 2015, p. 125.

Josélia, da FLM, explica sua relação com a Bíblia em tempos de pandemia: “a gente lê junto (com a família). A palavra de Deus diz em Oséias 46 que o povo sofre por falta de conhecimento. A Bíblia é um livro que cada um lê de um jeito e é isso que a gente tem procurado mostrar para os nossos irmãos, que nós somos ovelhas, a gente não é gado. A gente precisa ter o conhecimento da palavra, não dá para a gente fazer isso por que tal bispo, tal apóstolo, tal pastor falou. A gente tem que fazer por que a gente tem que ir lá, examinar a escritura e ver se é aquilo. Então quando a gente faz isso junto, por mais que tem interpretação diferente, a gente consegue entender ali na Bíblia, o que a palavra quer dizer. A gente tem procurado fazer juntos ou quando tem uma dúvida a gente procura estudar o que significa aquilo, o que a Bíblia quer falar em relação àquilo. Por que a Bíblia se renova todo dia, se você ler um salmo hoje, amanhã, quando passar alguns dias que você for ler, mediando o que você está passando, você vai interpretar ele de outra forma”. A trabalhadora doméstica da Zona Norte de São Paulo, Cleonice, que como apontamos não tem tido muita paciência para esse novo formato de culto, tem se conectado com Deus lendo a Bíblia diariamente para seus quatro filhos. Ela diz que sempre leu a Bíblia, mas agora colocou a leitura com as crianças como parte de sua rotina espiritual.

Pós-pandemia

Diante deste cenário, ainda é impossível prever o que será da igreja pós-pandemia. Talvez haja essa pulverização das figuras de autoridades e discursos únicos, ou uma reinvenção do fundamentalismo para abraçar ainda mais as comunidades que sofreram pela pandemia. Talvez a fé seja questionada por conta da falta de respostas para tanto sofrimento ou, ao contrário, com o aprofundamento da crise e com a saúde mental abalada, pode haver um aumento do número de pessoas procurando nas igrejas evangélicas as respostas para suas dores. O futuro é incerto.

As apostas sobre essa nova igreja estão sendo feitas, muitos fiéis acreditam que a vontade do encontro e do abraço fará com que a igreja seja fortalecida e que valorizem mais ainda este espaço tão importante no cotidiano dos fiéis. Para Edgar Aires, membro da IBAB, “perceber a necessidade de comunhão hoje, talvez provoque mais comunhão para frente”. Também há uma crença de que novos fiéis poderão adentrar o universo das igrejas porque, de alguma forma, foram tocados pelos cultos online assistidos por alguém da família convertido. Josélia acredita que haverá uma queda brusca na participação dos fiéis das grandes igrejas, pois muitos encontram o acolhimento e cuidado em outras pessoas. Para os que voltarem, ela acredita que estarão mais conscientes.

A forma que este retorno vai se consolidar é ainda um campo em disputa. O pesquisador Gedeon Alencar aposta em uma mudança radical do papel da fé na vida das pessoas: “quem sabe a nossa sonhada e desejada secularização tome algum fôlego. Primeiro porque esse grupo da discussão da fé, do milagre, do Deus que intervém, perdeu o discurso. (…) o problema não é só o dízimo, o problema é que essas pessoas perderam o discurso, perderam a razão de ser. Quem pregava um evangelho de solidariedade, continua pregando agora e, depois que passar a pandemia, vai continuar falando de solidariedade. Mas quem falava só de milagre e cura, vai falar o que agora?”. Welita, da FLM, também aposta em uma mudança radical do papel e poder da Igreja. “Eu acho que não vai existir mais igreja, assim como todas as estruturas estão falindo, a igreja também é esse instrumento que vai falir. Eu acredito que esse evangelho é tão vivo, tão vivo, que pastor nenhum pode aprisioná-lo. Igreja nenhuma pode dizer ‘esse é o meu evangelho’, o evangelho é do mundo e evangelho para mim, de Cristo, é qualquer pessoa que estenda a mão aos necessitados. Essas igrejas como são, irão ruir”.

Contra-narrativas: o mundo plural dos evangélicos

Nesse cenário, será preciso redirecionar os olhares do movimento social para a classe trabalhadora cristã, criando pontes e diálogos, disputando e cultivando juntos a solidariedade. “Quando somos atingidos nas nossas dimensões mais vulneráveis e que colocam em cheque aquilo que vinha sedimentando o nosso pensamento, somos obrigados a pensar sobre isso e repensar nossas práticas, por isso, considero que a pandemia pode ser um campo fértil de possibilidades para que a gente se reinvente como igreja, como comunidade, no cuidado uns com os outros”, reforça a cientista social Alana Barros. Para Welita, este é um momento de ruptura com essa religião, segundo ela, tão conectada ao sistema capitalista. Ela acredita que há uma brecha para que os cristãos percebam a religião como uma ligação com o divino e com as outras pessoas. “Eu sempre digo para eles (moradores das ocupações) que isso aqui (a ocupação) é religião de verdade, isso aqui é o cristianismo de verdade, de você estender a sua mão para outro em sua necessidade real”.

Essa ruptura e nova percepção da realidade não se constrói de um dia para outro. As lideranças de diversos movimentos populares que estão na linha de frente das ações têm construído – a partir da formação política com a sua base – olhares resistentes frente à realidade e, não raramente, tendo que lidar com concepções enraizadas no fundamentalismo religioso. No entanto, as possibilidades de transformações sempre estiveram em curso, como elabora Welita. “A base com que eu trabalho é evangélica, nas ocupações são todos evangélicos. Vai se construindo uma consciência política, dialogando com a fé a partir da educação popular, a partir das dificuldades do dia a dia que eles enfrentam, mais do que outros lugares, as ocupações são construídas com base na solidariedade. Eu vejo o discurso do Bolsonaro muito forte nas ruas, mas aqui dentro a gente tem um contra-discurso que funcionou sempre”.

Com a presença de uma pluralidade maior de cultos em meio digitais, o movimento progressista evangélico, embora sempre tenha feito uso dessas ferramentas, tem ganhado mais força. Na contramão dos discursos fundamentalistas, os movimentos religiosos progressistas, incluindo comunidades locais, têm mantido um esforço comum na disseminação de informações sobre prevenção da Covid-19. Diversas campanhas nas redes sociais têm sido feitas para que as pessoas não quebrem o isolamento e exercitem a fé dentro de suas casas. Uma das hashtags de destaque foi a #FéNãoImuniza, inspirada na fala do pastor batista Ed René Kivitz durante o culto transmitido pela Igreja Batista da Água Branca. Essa campanha foi impulsionada nas redes sociais pelas feministas evangélicas Camila Mantovani e Rachel Daniel, e trazia informações importantes para conciliar a fé e a prevenção.

O Conselho Nacional de Igrejas Cristãs também lançou notas e informes às igrejas na campanha de prevenção à Covid-19. Outra campanha importante ocorreu no dia 5 de abril, contrapondo o jejum convocado por Bolsonaro com o apoio de pastores pentecostais e protestantes históricos. Essa campanha foi criada pelo Usina de Valores e o Instituto Vladimir Herzog, que propunha que cristãos e cristãs progressistas dissessem o significado do jejum, retomando assim a temática que pertence à fé cristã. A hashtag #OJejumQueEscolhi, que faz referência ao texto de Isaías 58, incentivou cristãos e cristãs de diversas denominações a manifestarem sua fé e luta baseadas na justiça e igualdade. Outra iniciativa muito importante nessa conjuntura foi a do coletivo Bereia. Formado por jornalistas evangélicos, o coletivo tem apurado todas as notícias de conteúdo duvidoso relacionadas ao governo federal e às lideranças cristãs com mandato político.

Provocados pelas ações desastrosas do governo Bolsonaro frente à pandemia, 35 organizações e movimentos evangélicos e centenas de fiéis de diversas denominações cobram respostas do governo federal frente à tragédia que está em curso, por meio do Manifesto com um nome bastante incisivo: “O governante sem discernimento aumenta as opressões – Um clamor de fé pelo Brasil”. O manifesto também traz a necessidade das igrejas garantirem o isolamento, mantendo os cultos presenciais suspensos e que a igreja só abra suas portas para as ações de solidariedade. “Nosso compromisso cotidiano em ações solidárias de apoio ao atendimento de necessidades específicas de pessoas e famílias que se encontram em situação de vulnerabilidade nesse contexto de grave crise. A fé, por si só, se não for acompanhada de obras, está morta”.

Ações de solidariedade: Igrejas e Movimentos Populares

As ações de solidariedade que já estavam em curso foram fortalecidas e aprofundadas nesse período de pandemia – apesar de toda a dificuldade de manutenção de um trabalho de base em tempos de necessário isolamento social – e têm se tornado também espaços possíveis de formação e de reflexão junto à classe trabalhadora. O exemplo que Alana nos traz referente ao trabalho realizado na periferia de Maceió, é muito ilustrativo das potencialidades que a solidariedade encontra de reversão de narrativas, tão enraizadas em nossa sociedade. “Temos tido mutirões de distribuição de alimentos, e no dia 17 de abril, a gente recebeu uma doação de 5 toneladas de alimentos do MST (…) atendemos em torno de 800 famílias e foi um processo muito interessante, porque a gente contou com ajuda das pessoas da própria comunidade para organizar esse mutirão (…), queríamos aproveitar essa ação de solidariedade também como processo formativo, então, uma alternativa nossa foi convidar as pessoas da vizinhança que já nos conhecem para ajudar nesse processo de organização e distribuição de doações, coisa que muita gente não tinha experienciado nessa dimensão. Tinha várias visões distorcidas sobre o MST, aí chega o MST levando alimentos para a população que precisa demais. Descobrimos um potencial político e organizativo muito grande nessas pessoas da comunidade que lideraram o processo e nos ajudaram. Terminamos esse dia com um saldo muito positivo, não só porque muitas pessoas foram alimentadas, mas porque no processo eles passaram a enxergar ‘esse pessoal do MST’, como eles dizem, de uma maneira diferente”.

Parte significativa das pessoas da comunidade que participaram desse processo organizativo do mutirão e também das que receberam os alimentos é frequentadora das igrejas evangélicas da região. Se podemos afirmar que a fé não imuniza contra o vírus, também não imuniza contra o olhar crítico sobre a realidade. Josélia trabalha há anos nas bases dos movimentos sociais de luta por moradia e tem buscado dialogar principalmente com as mulheres evangélicas nos seus espaços de formação e possibilitado a reflexão política a partir da fé. Em tempos de pandemia, para além das campanhas de solidariedade e doações de alimentos, Josélia tem tentado acalmar as famílias que estão inseguras e muitas vezes se sentindo abandonadas, levando as palavras de Deus, “mas não a palavra de Deus alienada, mas a que faz a gente entender que precisamos nos cuidar (…). A fé e a inteligência andam juntas”.

As forças progressistas estão em marcha por meio da solidariedade e da batalha das ideias, presencialmente ou não. As fissuras nos discursos fundamentalistas religiosos, evidenciados nas ações contra a pandemia, criaram possibilidades para rupturas de uma espiritualidade conservadora. Nesse contexto, tornam-se cada vez mais férteis as disputas, no campo religioso, a partir dessas fissuras com os diversos setores de nossa classe. Os evangélicos, principalmente os neopentecostais, compõem parte significativa dos moradores das periferias das cidades, alvo principal do vírus em nosso país. É necessário reforçarmos que sem o diálogo com esse setor da sociedade não avançaremos de fato para uma transformação da realidade que vivemos. Que possamos mais do que nunca nos inspirarmos:

(…)Não importa que doa: é tempo
de avançar de mão dada
com quem vai no mesmo rumo,mesmo que longe ainda esteja
de aprender a conjugar
o verbo amar.

É tempo sobretudo
de deixar de ser apenas
a solitária vanguarda
de nós mesmos.

Se trata de ir ao encontro.
(Dura no peito, arde a límpida
verdade dos nossos erros.)
Se trata de abrir o rumo.

Os que virão, serão povo,
e saber serão, lutando.

Para os que virão – Thiago de Melo

Referências  

CARDOSO, Nancy; TOSTES, Angelica. “Ideologia de Gênero” ou do Medo das Pequenas Diferenças & algum homoerotismo, 2018. Disponível em <https://www.academia.edu/42454842/_Ideologia_de_G%C3%AAnero_ou_do_Medo_das_Pequenas_Diferen%C3%A7as_and_algum_homoerotismo> Acesso em < 01 de jun de 2020 >

CARDOSO, Nancy. Teologia da mulher. Revista Encontros Teológicos, v. 30, n. 1, 2015. Cunha, Magali, et al. “Discurso religioso, hegemonia pentecostal e mídia no Brasil: a presença televisiva do Pastor RR Soares – um estudo de caso.” R e v i s t a C a m i n h a n d o v. 13, n . 21, p . 87 – 96, j a n – m a i 2 0 0 8 ____________. Três coisas que é preciso saber para se falar dos evangélicos no Brasil, 2020. Carta Capital: Diálogos da Fé. Disponível em < https://www.cartacapital.com.br/blogs/dialogos-da-fe/tres-coisas-que-e-preciso-saber-para-se-falar-dos-evangelicos-no-brasil/ > Acesso em <29 de mai de 2020 > ________. Religião e Política: Uma visão protestante. In TOSTES, Angelica; RIBEIRO, Claudio. Religiões e Intervenção Política: Múltiplos Olhares. São Paulo: Ed. Recriar, 2020.

FERNANDES, Marco. Psicoterapia Popular do Espírito Santo: hipóteses sobre o sucesso pentecostal na periferia de metrópolis periféricas. Margem à Esquerda 29. Boitempo Editorial, 2017.

JUNG, Mo Sung. Sacrifícios e certezas num mundo de incertezas: neoliberalismo e milenarismo. In CRUZ, Eduardo R.; DA COSTA BRITO, Ênio José; TENÓRIO, Waldecy. Milenarismos e messianismos ontem e hoje. Edições Loyola, 2001.

KIFER, Camila. Jornalistas evangélicos criam site para checagem de notícias sobre lideranças cristãs, 2020, Itatiaia.Disponível em https://www.itatiaia.com.br/noticia/jornalista-evangelicos-criam-site-para-checag1

PACHECO, Ronilso. Quem são os evangélicos calvinistas que avançam silenciosamente no governo Bolsonaro, 2020, Intercept. Disponível em <https://theintercept.com/2020/02/04/evangelicos-calvinistas-bolsonaro/> Acesso em <01 de jun de 2020>

PARREIRAS, Carolina; MACEDO, Renata. Desigualdades digitais e educação: breves inquietações pandêmicas. Boletim N. 36 | Cientistas Sociais e o Coronavírus, 2020. Disponível em <http://www.anpocs.com/index.php/ciencias-sociais/destaques/2753-publicacoes/boletim-cientistas-sociais/2350-boletim-n-36 > Acesso em < 29 de mai de 2020>

VILHENA, Valéria Cristina. Uma igreja sem voz: análise de gênero da violência doméstica entre mulheres evangélicas. Fonte Editorial Ltda., 2011.

Cultos online e as fissuras do fundamentalismo religioso no Brasil – Parte II

Por Delana Corazza, Angelica Tostes e Marco Fernandes¹

Conteúdo originalmente publicado no site www.thetricontinental.org

Confira a segunda parte do estudo “Cultos online e as fissuras do fundamentalismo religioso no Brasil”. Para ler a primeira parte, basta clicar aqui.

Espiritualidade digital: espiritosanto.com

Apesar de alguns aspectos positivos dessa nova experiência, diversos limites se colocam em evidência. No boletim Cientistas Sociais e o Coronavírus, as pesquisadoras Carolina Parreiras e Renata Mourão Macedo trazem dados sobre as desigualdades digitais em meio à pandemia, com a desigualdade social sendo refletida na desigualdade digital. O acesso à tecnologia ainda é restrito no país. Segundo o levantamento das pesquisadoras, os dados do TIC Domicílios auxiliam a mapear o uso das tecnologias:

“No levantamento de 2018, 93% dos domicílios declararam possuir telefone celular, 27% computador portátil, 19% computador de mesa e apenas 14% possuíam tablet. Em relação à presença de internet nas residências, 67% possuíam algum tipo de acesso, sendo que 62% por banda larga fixa, 39% por cabo ou fibra ótica e 27% por conexão móvel 3G ou 4G. Em relação aos motivos apontados para a inexistência de conexão, chamam a atenção o fator financeiro (“porque os moradores acham muito caro”) – 61% – e a inabilidade para uso da internet (“porque os moradores não sabem usar a internet”) – declarado por 45% dos participantes da pesquisa”

(PARREIRAS; MACEDO, 2020, p. 1).

Muitas igrejas estão nesses espaços de periferia em que o acesso digital é limitado. A igreja como comunidade constrói corporeidades, símbolos e transcendências, além de organizar os cotidianos e criar laços sociais. O pastor Rosivaldo P. de Almeida pensa que para “para os evangélicos, sobretudo os pentecostais, a igreja acaba sendo a única unidade cultural, de socialização, integração, de produção de sentido, inclusive para própria existência.”

Neste cenário, pastores e lideranças das igrejas nas periferias têm buscado diminuir essa distância com mensagens diárias aos fiéis mandadas via WhatsApp e por ligações telefônicas, principalmente à população mais idosa, que além de ser grupo de risco e temer ainda mais as consequências do vírus, tem certa dificuldade para acionar as tecnologias atuais. A pastora Eliad Santos, da Igreja Metodista da Luz, em São Paulo, observa que “ser pastora em tempos de pandemia é complicado porque eu estou atendendo as pessoas via WhatsApp e telefone. As pessoas esperam que você esteja por lá. Tem um caso de uma vizinha com covid-19 e eu não posso visitar. As pessoas sentem falta de ir à igreja, costumes antigos de muitas irmãs da igreja. Problemas novos, novos tempos e adaptar. Semana que vem farei a celebração da ceia via online, não tem necessidade de colocar em risco os fiéis. Tem que se adaptar.” O pastor André Guimarães tem trabalhado com essa metodologia, realizando ligações e chamadas de vídeo com sua pequena comunidade, composta por cerca de 30 pessoas, que por mais que não garantam os abraços e encontros que os fiéis sentem falta, pode-se ao menos olhar, escutar, trocar.

Outra dificuldade encontrada nesse acolhimento dos fiéis no trabalho pastoral é em relação às mulheres em situação de violência doméstica. Segundo a CNN, pela Lei de Acesso à Informação, o número de atendimento da Polícia Militar (PM) referente à violência doméstica subiu 44,6% no mês de março em São Paulo. No Rio de Janeiro, ainda no início do isolamento, os dados apontados pela Justiça foram de um aumento de 50%. A pastora Odja pontua essa preocupação em tempos de pandemia: “Como mulher e pastora, tenho me preocupado de forma especial com o aumento da violência contra as mulheres, uma vez que há a campanha do “fique em casa”, só que a casa não tem sido um lugar seguro para as mulheres, crianças e meninas. Imagine o que é um confinamento com um companheiro violento, com a contenção dessa violência dentro de casa.”. Essas preocupações aumentam quando se somam a outras pesquisas, como a do Datafolha de janeiro de 2020, que aponta o rosto da população evangélica como um rosto de uma mulher negra; à pesquisa da Valéria Vilhena, que demonstra que 40% das mulheres vítimas de violência da Casa de Acolhimento Sofia em São Paulo são evangélicas (2011). Em uma fala mergulhada de angústia e preocupação, a pastora Eliad Santos diz:

“Eu penso na Maria que mora em frente à Igreja e é usuária de crack. (…) Eu penso nessa mulher que está desesperada com medo dos filhos e das filhas pegarem a doença e morrerem, porque ela tem que sair de casa ou porque são muitas pessoas morando na mesma casa pequena. Essa mulher que está buscando em Deus a proteção e força para continuar em tempo de pandemia. São essas mulheres que tem que limpar o hospital, o supermercado, a farmácia. É muito triste. Eu fico bem chateada pensando nisso, como elas estão vivendo? Não tem o mesmo privilégio que eu que posso trabalhar em casa, no computador e celular. Eu só peço a Deus que elas consigam sobreviver. Porque sempre quando eu ligo o jornal e aparece os hospitais da periferia eu só vejo os corpos negros. (…) Nas grandes desgraças, grandes epidemias e nos grandes problemas, é o povo pobre e preto que sofre.”

Questões psicossociais da pandemia e o culto online

O cuidado das igrejas e o sentido de comunidade, muitas vezes, abarcam também as questões econômicas. Muitos “irmãos” conseguiram seus empregos por indicação de um pastor ou frequentador da Igreja, assim como diversos tipos de auxílios. Com a pandemia em curso, a classe trabalhadora mais empobrecida deve sentir de forma profunda como a crise econômica e o distanciamento pode afetar as possibilidades de intermediação da Igreja e seus membros para a conquista de um trabalho. Diversas igrejas, mesmo com todas as dificuldades econômicas que enfrentam, têm se mobilizado para doações e ajudas pontuais para os fiéis que necessitam e para a população mais vulnerável das periferias, contribuindo assim para a manutenção do necessário isolamento.

Para além dessas doações, outras ações estão sendo pensadas para auxiliar economicamente as famílias, conforme nos trouxe Jackson Augusto, militante do movimento negro evangélico e frequentador da Igreja Batista Imperial em Recife: “Estamos planejando, no território que a igreja atua, criar uma plataforma para divulgar pequenos comércios e serviços pela internet. Divulgar pessoas que costuram, eletricistas, boleiras, que embora não possa ser presencial, que funcione de outras formas como encomenda, auxílios”.

Esse esforço de dar conta de todas as manifestações da ausência das igrejas tem sido tarefa constante das lideranças de diversas denominações. Para Alana Barros, cientista social, militante, evangélica e filha de pastores, os cultos online têm buscado diminuir as faltas das práticas comunitárias. Ela relata que no começo da quarentena, alguns fiéis duvidaram da necessidade de proibição dos cultos presenciais, questionando se, de fato, havia essa necessidade e afirma que é muito importante a legitimidade dos pastores na comunidade religiosa e das explicações formuladas para garantir a segurança e o respeito pelas decisões tomadas. A jovem aponta, como alguns pastores já mencionaram, o desafio de construir novas formas de cultos com uma nova tecnologia que não estão acostumados, reformulando a linguagem. No entanto, o dia a dia da comunidade é o mais difícil nesse momento, já que “temos muito a prática do cuidado e o fato de sabermos que tem pessoas doentes, que tem idosos sozinhos e que você não pode simplesmente fazer uma visita ou marcar um encontro na comunidade para que a gente se veja; é bem difícil, é muito difícil lidar com esse momento de ausência do corpo físico, do corpo presente, mantendo só a relação virtual”, relata Alana.

Para os fiéis a experiência é diversa, desde o momento e o tempo de se preparar para o culto até a possibilidade de “visitar” diversas novas igrejas virtualmente, as mudanças são reais, concretas e alteraram a forma de viverem a experiência religiosa tão presente em suas vidas cotidianas. O pastor Fellipe dos Anjos destaca que “todos falam que sentem falta do ajuntamento. Uma espécie de melancolia do encontro (…) Eu sinto que a pandemia colocou em questão o corpo. É o corpo, o encontro, a forma que o encontro é capaz de manejar as subjetividades. As pessoas têm a vida meio ritualizada e em uma crise como essa, elas descobrem que tem um corpo que precisa de um outro corpo, de um abraço. Que tem fome de coisas relacionais, que movem o desejo”. Mesmo com essa ausência, fiéis têm experienciado novas vivências com a espiritualidade digital. Em casa, as pessoas se arrumam, organizam seus espaços, sentam-se em frente à TV, computador ou mesmo celular e assistem a esses cultos. Apesar desse esforço de manterem uma rotina para estarem, ainda que virtualmente, no culto, viver de fato essa experiência não tem sido tão simples, “não tenho muita paciência”, afirma Cleonice. Para Simone, a Igreja é um espaço de entrega, “em casa, qualquer barulho distrai, você não está ali cem por cento”. Welita Caetano, liderança da movimento de moradia do centro da Frente de Luta por Moradia (FLM), cientista do trabalho e adventista diz que “a igreja ao meu ver é uma comunidade e em uma comunidade as pessoas conversam, elas dialogam, é muito mais místico quando ela é presencial. O que você sente, as sensações que você tem, as músicas, o que você visualiza, enfim, você está sensível a tudo que está ao seu redor.”

A necessidade do encontro se configura de forma distinta nos diversos setores da sociedade. Na Igreja Batista da Água Branca, localizada na zona oeste de São Paulo, frequentada por cerca de 2 mil fiéis e que apresenta características de uma igreja de classe média e classe média alta, a falta é sentida de outra forma. “Faz bastante falta não ter o presencial por diversas razões, mas hoje o que eu vejo é que talvez há dois anos eu tivesse uma outra visão, porque a gente frequentava uma igreja menor. Hoje a gente vai em uma igreja que já é muito grande. E uma das coisas que a gente sente falta lá é de ter uma proximidade maior com as pessoas, a gente tem alguns amigos lá, mas ainda é um grupo pequeno de pessoas que a gente já conhecia antes. O fato de estar em uma igreja muito grande, dificulta um pouco essa coisa da proximidade (…) pra gente a parte central do culto é a pregação, pelo menos para mim, independe do lugar que eu estiver, o que eu ouço e o que eu aprendo daquilo, não muda estando em casa ou na igreja” nos diz Jussara F. Aires, empresária e frequentadora da IBAB. Jussara conta que os cultos que ela assiste são menos “emotivos” e que, no entanto, por diversas vezes ela se viu extremamente emocionada mesmo assistindo os cultos pela internet antes da pandemia, ou seja, a igreja para ela cumpre outro papel, ainda que ela sinta falta da proximidade com outras pessoas da igreja. A relação com este espaço está muito mais ligada à espiritualidade e a fé do que ao sentido de acolhimento e comunidade tão fundamental nas igrejas pequenas das periferias.

Para os fiéis, o que pudemos perceber é que, apesar da importância desse espaço do culto online para manterem a relação com a Igreja no cotidiano de suas vidas, foram necessárias outras atividades para diminuir a falta do culto presencial. Algumas igrejas tem como organização institucional as células, podendo ter diversos formatos e modelos. Elas se constituem como pequenos grupos liderados por algum membro da comunidade, que compartilha a visão da igreja, ensinos bíblicos e pastoreia mais de perto o fiel, dando a oportunidade para um contato mais íntimo e espaço de abertura de problemas e questões da vida, como medos, incertezas e a própria fé. As células têm sido também uma atividade do cotidiano de algumas igrejas “O pessoal tá sedento da palavra, estão querendo falar, estão querendo desabafar e é nesse momento na célula que a gente tem sentido isso”, conta Claudio, da Igreja Visão Plena. Esse espaço menor de comunhão tem funcionado para dar conta daquelas angústias que não chegam ao pastor nos cultos online.

Organizações religiosas lançam ato de luto e memória pelas 100 mil vítimas de Covid-19 no Brasil

Neste sábado (08/08), às 16h, representantes de diferentes religiões realizarão um ato online de luto e memória pelas vítimas de Covid-19 no Brasil intitulado “Lamento 100 mil”. A iniciativa foi idealizada pelas entidades Conselho Nacional de Igrejas Cristãs e Instituto de Estudos da Religião, e pelas organizações Paz e Esperança Brasil e Religiões pela Paz Brasil. O ato será veiculado na página do CONIC no Facebook.

“A morte de 100 mil pessoas é uma dor imensurável que se impõe a 200 milhões de brasileiros. Tempo de profundo lamento, luto, bem como gestos afetivos de solidariedade e oração às famílias e amigos das vítimas”, explica Clemir Fernandes, secretário-executivo adjunto do Instituto de Estudos da Religião (ISER).

Além do ato online será lançado um site com mensagens de conforto e esperança de 100 lideranças religiosas e espirituais da sociedade, em forma de prece, oração ou reflexão. “É um momento de interrupção da indiferença. A fé não nos autoriza a ficarmos indiferentes diante do sofrimento humano”, declara a pastora Romi Bencke, secretaria Geral do Conselho Nacional de Igrejas Cristãs.

Entre os dias 8 e 16 de agosto, também serão disponibilizadas no site mensagens de reflexões e os organizadores sugerem que sejam realizados atos e reuniões online sobre esse momento de mortes e sofrimento, especialmente no Brasil. Serão compartilhadas sugestões litúrgicas de diferentes confissões religiosas no site http://www.lamento100mil.com.br.

No dia 17 de agosto, é feito o convite para que lideranças civis, do executivo, judiciário ou legislativo, realizem cerimônias públicas laicas ou multirreligiosas, consagrando a data como o Dia Nacional do Luto e Memória pelas Vítimas da Covid-19 no Brasil.

Outra iniciativa é a divulgação da “Declaração Multirreligiosa para a Nação Brasileira em Meio à Crise da COVID-19”, assinada pela Religiões pela paz e que pode ser subscrita por outras organizações religiosas.

“Estamos em uma travessia coletiva que já conta 100 mil vítimas fatais no Brasil. Somente a empatia e a solidariedade serão capazes de nos conduzir à outra margem. Apenas desta maneira, chegaremos mais rápido e mais fortalecidos ao final desta pandemia”, conclui Michel Schlesinger, rabino da Congregação Israelita Paulista e representante da Confederação Israelita do Brasil para o diálogo inter-religioso.

Veja a íntegra do chamado para as ações “Lamento 100 mil. Luto e memória pelas vítimas de Covid-19 no Brasil. Afirmação e solidariedade a familiares e amigos” clicando no documento abaixo:

MPF aciona Valdemiro Santiago e Ministério da Saúde por anúncio de falsa cura da Covid-19. Bereia já verificou o caso

*Do MPF, com adaptações

Alerta de fake news removido do site do Ministério da Saúde (Foto: saude.gov.br)

O Ministério Público Federal (MPF) ajuizou uma ação civil pública para que o pastor evangélico intitulado Apóstolo Valdemiro Santiago e a Igreja Mundial do Poder de Deus paguem pelo menos R$ 300 mil de indenização por danos sociais e morais coletivos. A cobrança se deve à divulgação de vídeos nos quais o religioso anunciava a venda de sementes de feijão com a falsa promessa de que, se cultivadas, elas curariam a covid-19. Valdemiro chegou a citar o caso de um fiel cuja recuperação plena da doença usando os feijões estaria comprovada por um atestado médico.

O Ministério da Saúde, representado pela União, também responderá à ação por ter removido de seu site uma mensagem de alerta contra os anúncios enganosos de Valdemiro. A publicação, feita após pedido do MPF, ficou no ar durante poucos dias, foi removida sem explicações e não voltou mais à página da pasta.

O MPF destaca que o líder da Igreja Mundial do Poder de Deus incorreu em prática abusiva da liberdade religiosa, ao colocar em riscos a saúde pública e induzir fiéis a comprarem um produto sem nenhuma eficácia comprovada. As sementes foram anunciadas em três vídeos veiculados no YouTube por preços que alcançavam R$ 1 mil cada. Segundo Valdemiro, a simples germinação dos grãos teria o poder de curar a covid-19.

“A dignidade da proteção constitucional que tutela a liberdade religiosa não constitui apanágio para a difusão de manifestações (ilegítimas) de lideranças religiosas que coloquem em risco a saúde pública, que explorem a boa-fé das pessoas, com a gravidade adicional de que isso ocorre com a reprovável cooptação de ganhos financeiros, pois ancorados em falsa premissa terapêutica, às custas da aflição e do sofrimento que atinge a sociedade”, ressaltou a Procuradoria Regional dos Direitos do Cidadão (PRDC-SP), órgão do MPF em São Paulo responsável pela ação.

Fake news

O MPF quer que a Justiça Federal conceda uma liminar obrigando o Ministério da Saúde a republicar a mensagem sobre a falsidade das informações anunciadas pelo pastor. O alerta para “fake news” havia sido veiculado no site da pasta em junho. Porém, um dia depois de o MPF divulgar que a requisição dos procuradores para a publicação havia sido acatada, o conteúdo tornou-se indisponível e desde então permanece fora do ar, apesar de solicitação para que a página fosse restabelecida. O MPF pede ainda que seja estabelecido ao Ministério da Saúde o dever de identificar quem foi a autoridade que determinou a remoção da mensagem.

“O Ministério da Saúde informa que não há, até o momento, produto, substância ou alimento que garante a prevenção ou tratamento do novo coronavírus. Conforme determinação do Ministério Público Federal, o Ministério da Saúde esclarece que é falso que o plantio de sementes de feijão, comercializadas pelo líder da Igreja Mundial do Poder de Deus, Valdemiro Santiago, leva à cura ou serve para prevenção da covid-19”, dizia o alerta removido do site. A mensagem era acompanhada de um selo que advertia: “Isto é Fake News! Esta notícia é falsa – Não divulgue”.

Por fim, a ação do MPF requer a concessão de uma ordem judicial dirigida à Google Brasil, responsável pelo YouTube. Os procuradores pedem que a empresa seja obrigada a preservar a íntegra dos vídeos (já removidos da plataforma, também a pedido do MPF ainda em junho) e forneça os dados cadastrais do usuário que os publicou. As informações serão utilizadas na instrução processual.

Em maio, tão logo o vídeo com o oferecimento das sementes foi divulgado, o Coletivo Bereia verificou a veracidade do conteúdo em matéria intitulada “É verdade que Apóstolo Valdemiro Santiago oferece semente que cura Covid-19”.

O número da ação do MPF é 5014383-08.2020.4.03.6100 e pode ser vista na íntegra aqui.

Cultos online e as fissuras do fundamentalismo religioso no Brasil – Parte I

Por Delana Corazza, Angelica Tostes e Marco Fernandes¹

Conteúdo originalmente publicado no site www.thetricontinental.org

Nos últimos meses, temos presenciado o desespero de diversos pastores midiáticos insistindo na reabertura das Igrejas, fechadas por conta da pandemia da Covid-19. E também uma aproximação, cada vez mais estreita, desse grupo com o governo federal – que frente à crise política que se encontra, aposta em sua base evangélica como uma das estratégias para se manter no poder. O iminente golpe financeiro nas igrejas, resultado da não arrecadação presencial dos dízimos, pode ser a razão desse desespero das portas fechadas. No entanto, a questão econômica como parte em destaque nas disputas políticas não é o único problema enfrentado pelos pastores midiáticos que hegemonizaram a visão de quem seriam os evangélicos nesse país. É importante aprofundarmos o problema para compreender que o risco ultrapassa os dízimos perdidos nos cultos não presenciais.

Para o Pastor Ricardo Gondim, da Igreja Betesda de São Paulo, muitos destes pastores têm sua teologia edificada no fundamentalismo, que enxerga na Bíblia uma verdade absoluta, fetichizada, não crítica e não contextualizada: “usa-se os versículos sem contexto para justificar qualquer pauta moral que se julgue necessária. Insistir no discurso é necessário para esses pastores porque se não insistirem, vão ter que assumir que o que sempre pregaram estava errado”, afirma o pastor. Falaremos mais adiante sobre as contradições entre as falas fundamentalistas dos pastores – que tem apostado na fé como principal forma de cura e prevenção – e a realidade em tempos de Covid-19. 

Do outro lado estão os evangélicos frequentadores das igrejinhas neopentecostais que vão se multiplicando como o milagre dos pães nas periferias das cidades e nos cantos deste país. Periferias e cantos esquecidos pelo Estado, abandonados à própria sorte, onde, apesar das inúmeras tentativas de imersão dos diversos setores do campo popular, ainda não foi possível consolidar um trabalho de base e uma organização que desse conta dos anseios e necessidades de nossa classe. Não é mais tão novo no nosso campo falarmos da importância que as igrejas têm cumprido nos territórios periféricos; são elas que constroem cotidianamente uma visão de mundo para a classe trabalhadora. Essa visão vai para além das interpretações bíblicas, se constrói com uma metodologia que nos últimos 30 anos têm ganhado corações e mentes de parte significativa da classe trabalhadora, dando respostas concretas, subjetivas e objetivas para nosso povo.

nesses espaços o povo encontra respostas que, no fundo, não dizem respeito somente à Deus ou à Palavra, mas também às demandas demasiadamente humanas, concretas, essenciais, como o desejo de fazer parte de grupos ou coletivos que nos acolham (sentimento de pertencimento), de ter acesso a bens simbólicos, ao belo e ao lazer (rituais festivos e catárticos), a esperança de melhorias materiais e financeiras, bem como a urgência em obter tratamentos para o corpo e a alma (curas “milagrosas”), demandas que nos são cada dia mais negadas pelo capitalismo periférico contemporâneo e por um sistema de saúde falido. Sem o atendimento a tais demandas, sentimo-nos frágeis e desesperados, entregues a uma vida despedaçada. (…)

FERNANDES, 106

É na Igreja também que os jovens têm a possibilidade de aprender a tocar um instrumento musical e vivenciar um espaço de sociabilidade no inacabável tempo de ociosidade que o desemprego proporciona para grande parte desse segmento da sociedade. As histórias de superação testemunhadas diariamente nas igrejas dão forças para que outros fiéis possam mudar a própria vida, já que enxergam no pastor e nos irmãos e irmãs de fé alguém como eles próprios. É nessas igrejas que a classe trabalhadora empobrecida tem alguma chance de elaborar o trauma da humilhação dos patrões, da mídia e do Estado e, quem sabe, recuperar algo da dignidade que lhe é roubada numa sociedade marcada por quase quatro séculos de escravidão, agravados pela precarização da vida em tempos neoliberais.

A mulher negra e pobre que passou o dia lavando o banheiro do seu patrão, e gastou horas intermináveis nos precários meios de transportes públicos, pode cantar e encantar a sua comunidade levando “a palavra” por meio de uma música, deixando ali de ser invisível². “Durante a semana, elas (as mulheres trabalhadoras frequentadoras das igrejas) não têm um emprego executivo, a mulher é empregada doméstica, mas no domingo ela se arruma, porque o melhor lugar que ela vai durante a semana é a igreja (…) é um espaço de solidariedade, mas também de ascensão social”, completa o pesquisador e frequentador da Igreja Betesda, Gedeon Alencar.

Em tempos de pandemia em que a crise sanitária e econômica acertam bem no meio do peito a vida dos trabalhadores periféricos, as igrejas cumprem o papel de preencher esse vazio nos corações e mentes das pessoas. “Sinto depressão, a igreja é o alimento da alma”, nos conta Cleonice Vitor, trabalhadora doméstica e moradora do bairro Peri Alto, periferia da Zona Norte da cidade de São Paulo, onde os casos de morte por coronavírus aumentam assustadoramente. Simone Stoco, dona de casa, moradora do mesmo bairro, vive a angústia de ficar em casa: “para nós foi um choque porque antes a gente vivia dentro de casa, não tinha contato com muitas pessoas, então conforme a gente foi para a igreja a gente começou a se relacionar bastante, ter muitas amizades, nós temos muitas amizades na igreja, minha casa estava sempre cheia, é muito estranho não encontrar, não poder abraçar, a gente saía com eles (membros da igreja), o isolamento para nós foi um choque”.

O culto online foi a resposta possível que as igrejas evangélicas construíram para manter a relação entre pastores e comunidade, mas é possível perceber que a necessidade da igreja para os trabalhadores periféricos vai além das palavras pregadas no culto. Para boa parte destes trabalhadores, os cultos online aparecem como uma tentativa de continuidade de um trabalho consolidado das igrejas, mas que na realidade não é tão efetivo, pois não dá conta de abarcar as demandas subjetivas da classe empobrecida. Enquanto a classe média tem a opção de elaborar seu sofrimento por meio de inúmeras terapias disponíveis, para a classe trabalhadora, esse é mais um alimento que irá faltar na mesa.

Culto online: alternativas teotecnológicas de espiritualidade

Com as novas demandas de um mundo vivenciando o CoronaChoque³, as igrejas também estão em processos de adaptação. O culto online é uma tentativa de resposta, já conhecida de grandes igrejas, para a espiritualidade em tempos de pandemia. Em um levantamento de dados realizado pelo pesquisador Livan Chiroma (UNICAMP), entre janeiro e abril de 2020, no mês de março a busca pelo termo “culto online” aumentou 10.000% no buscador Google. Um aumento exponencial que reflete a busca de respostas da fé para o enfrentamento do vírus. E isso significou uma mudança no cotidiano de muitas igrejas e fiéis que tiveram que se adaptar a essa nova forma de culto e ação pastoral.

A pastora batista Odja Barros conta como foi a experiência desse novo formato na Igreja Batista do Pinheiro, em Maceió (AL). “A primeira vez fizemos uma live de uma das salas da igreja, somente eu, Wellington e mais três pessoas do louvor. E foi bastante estranha para nós, eu me senti perdida porque foi a primeira experiência que a gente tinha feito. Nossos cultos são gravados normalmente e depois editados a partir da mensagem e colocado no blog da igreja, mas nunca tínhamos feito lives de culto. Ninguém sabia direito como fazer, foi bem tenso, bem diferente a experiência. Eu que preguei e foi a primeira vez que tive que fazer um sermão para um público que não existia na minha frente, sem as respostas dos olhares, da presença da comunidade. Foi um aprendizado.”

O desafio que a pandemia impôs às igrejas evangélicas fez com que pastores e pastoras rompessem algumas barreiras pessoais. O pastor Rosivaldo da Catedral da Adoração – Igreja com Propósito, de Goiás (GO), não gosta de redes sociais, mas a demanda do momento o fez iniciar os trabalhos com as transmissões ao vivo: “Por um lado, nós tivemos que nos revelar. Isso trouxe para mim pessoalmente, e outros pastores do ministério, um desconforto. […] Aqui desde o começo da quarentena fizemos lives. É uma forma de você manter a igreja integrada e alimentar as pessoas com as pregações, cultos, hinos.”

Claudio Ferreira de França, da Igreja Visão Plena, aponta o constrangimento em relação ao dízimo: “No começo deu certo receio, um certo constrangimento na verdade […] para a gente era meio constrangedor: na nossa igreja, nós ficamos aqui, não está tendo culto presencial, mas as contas precisam ser pagas, aí você pede ou não pede a oferta? Nós precisamos quebrar essa barreira”. Um outro desconforto ocorreu com o Pastor Felipe dos Anjos, da Igreja Batista da Água Branca, na Zona Oeste de São Paulo. “Fazer o louvor entre cadeiras vazias foi assustador! Louvor com o templo vazio é quase uma impossibilidade da experiência, ela retarda em acontecer porque falta o outro. Fica um mal-estar, mesmo que o desejo seja em servir os outros.”

Além da estranheza da ausência dos fiéis, a pastora Odja compartilha os percalços com as plataformas e maneiras de realizar o culto online. Após a primeira experiência, a igreja não fez mais cultos dentro do templo, mas cada um em sua casa explorando outras tecnologias. “Fomos nos tateando e sofrendo com isso. Foi a assessoria da igreja e da juventude que foi descobrindo por onde a gente devia ir”, relata Odja. Além dos processos de adaptação há um novo mercado em ascensão que tem lucrado nesse período: plataformas de reuniões online. Os serviços gratuitos para encontros onlines tem suas limitações, seja de ferramentas ou tempo disponível, por isso é necessário fazer as assinaturas desses serviços para obter uma melhor transmissão. Odja Barros nos conta que “foi preciso um investimento em tecnologia que a gente não tinha. Por exemplo, tivemos que comprar uma assinatura de um programa que possibilitasse as entradas do pessoal de onde estiver participando ao vivo.”

O pastor metodista André Guimarães, que pastoreia uma pequena comunidade em Engelho Velho da Federação, em Salvador (BA) – uma igreja em meio a um território de disputa de facções -, compartilha a experiência inicial do culto online. “Antes eu estava gravando áudios pelo Whatsapp. Fazia um culto sozinho. Algo como meio rádio, entendendo que o povo tem dificuldade com Facebook e Instagram. Mas uma irmã veio com a assinatura do Zoom e colocou à disposição da igreja. E viabilizou a participação dos membros nos momentos de louvor, intercessão…”. A plataforma Zoom possibilita conferências remotas com múltiplos participantes, o serviço gratuito é limitado a 40 minutos por sessão e restringe outras ferramentas. A assinatura é um investimento para que os usuários consigam utilizar em sua plenitude o que o aplicativo oferece.

As igrejas que não possuem acesso às plataformas similares de interação, seja pelo tamanho da igreja ou por condições financeiras, acabam limitando ainda mais a experiência do culto. Para Ronaldo Oliveira, membro da Assembleia de Deus Ministério Madureira e policial militar, “o culto online não tem a mesma dimensão do estar presente, por mais que ele alcance mais pessoas”. Para muitas igrejas evangélicas o ato do culto é muito mais do que apenas ouvir o sermão, mas sim todas as trocas simbólicas que a experiência cúltica proporciona. Para o pastor pentecostal Francisco Veras, da Igreja Torre Forte, na Zona Leste de São Paulo, o “culto não é uma palestra ou reunião, é necessário a participação da comunidade”. Porém, a igreja tem transmitido seus cultos pelo Facebook, o que tem limitado essa experiência, assim como transmitir as letras dos hinos e louvores para sua comunidade, que expressou ser uma dificuldade no período do louvor e adoração. Nas palavras de Gedeon Alencar, o culto online “vira quase um espetáculo que você está assistindo, uma pessoa falando, uma pessoa cantando, são pessoas que você conhece, mas fica distante…”. O pastor André Guimarães relata as diferenças após a utilização da plataforma Zoom: “Por que a gente aderiu ao Zoom e não ao Facebook ou Instagram? Porque a live acaba restringindo a participação e fica apenas os que estão na transmissão, ou os que comentam. No zoom, há interação. Pessoas podem interceder, orar, é mais participativo. Zoom dá um ambiente de reunião.”

Mesmo com esses limites, pastores e fiéis têm compreendido a necessidade de continuar o culto online no pós-pandemia. A pastora Odja relata que o retorno de sua comunidade em Maceió tem sido positivo e os fiéis têm partilhado suas experiências: “Escutar algumas experiências está mostrando que é possível romper a barreira do espaço, e sentir toque da presença do Espírito, mesmo online. Não é possível reproduzir a celebração presencial, mas é possível viver um tipo de sensação cúltica de espírito comunitário, dessa maneira.”. O pastor Silvio dos Anjos, da Igreja Sara Nossa Terra é enfático: “esse culto online não vai mais poder parar de acontecer.” Embora as experiências sociais online não sejam comparadas a experiências presenciais, muitos tem gostado da praticidade do encontro virtual. Além de cultos online, as igrejas têm realizado outras programações do cotidiano da igreja de maneira virtual, como os estudos bíblicos à distância. Na Igreja Batista do Pinheiro a resposta tem sido positiva. “Tem gente pedindo que quando tudo normalizar continue fazendo online porque não consegue ir aos estudos bíblicos no domingo”, relata a pastora Odja Barros.

As igrejas têm outra tarefa além da transmissão online, o acompanhamento de participação dos membros em seus cultos. O que em grandes igrejas representa algo que foge do controle, mas em pequenas e médias igrejas é possível notar a participação de membros de outras congregações. O jovem militante Jackson Augusto disse que está vendo cultos de outras igrejas, assim como o pastor André Guimarães notou novos visitantes em sua pequena comunidade em Salvador. Pastora Odja Barros salientou que membros de igrejas mais conservadoras tem visto os cultos e reuniões das igrejas, coisa que não acontecia no presencial por conta do envolvimento da Igreja Batista do Pinheiro com causas sociais e de direitos humanos. O pastor Fellipe dos Anjos constatou que “nas primeiras celebrações, quase quintuplicou. A média de acompanhamento ao vivo da IBAB era 3 mil, porém, em um domingo chegou a 30 mil. Uma celebração de sábado 8 mil. Agora chegamos a um platô porque agora você tem muitas opções de ao vivo, lives, cultos, pequenas e médias igrejas”.

A realização da Santa Ceia, a partilha do pão e vinho como forma de comunhão da igreja como Corpo de Cristo, tem sido uma questão emblemática a muitas igrejas. A pesquisadora Magali Cunha pontua que atualmente “as mídias são como mediadoras do sacramento. Coisas que eram barreiras, agora se liberam”. O pastor André Guimarães acompanhou algumas dessas discussões em grupos no Facebook, que alguns pastores/as colocavam como uma heresia a ceia nos lares. “Eu não preciso estar, literalmente, de corpo presente para estar em comunhão contigo, ou para reunir em nome de alguém. Não há nada que impeça a gente de celebrar e interceder pelos outros, e sermos comunidade fora do templo. Não há nenhum problema. Agora é necessário superar os sectarismos! Superar as ideias que foram impostas de uma lógica de templo, e não comunitária”, diz o pastor.

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¹ Nos meses de abril e maio realizamos 21 entrevistas com membros das igrejas evangélicas, frequentadores e pesquisadores do tema. As entrevistas foram realizadas por telefone e vídeo e duraram em média 30 minutos. O assunto inicial era sobre as mudanças da vivência da espiritualidade dos evangélicos por conta dos fechamentos das igrejas e da possibilidade de assistirem aos cultos virtualmente. As conversas ultrapassaram o tema proposto inicialmente e se tornaram material precioso para nossa pesquisa. Este texto, portanto, busca trazer as reflexões dessas conversas e apontar as novas possibilidades de contra-narrativas nas brechas do fundamentalismo religioso e os avanços da luta nos espaços progressistas liderados por evangélicos. Os autores são pesquisadores do Instituto Tricontinental de Pesquisa Social

² A reflexão sobre o papel psicossocial das igrejas evangélicas neste parágrafo e que permeiam esse texto tem como fonte o artigo “Psicoterapia Popular do Espírito Santo: hipóteses sobre o sucesso pentecostal na periferia de metrópolis periféricas”, de Marco Fernandes, publicado originalmente na revista Margem Esquerda n° 29 (2017), da Boitempo Editorial. 

³ CoronaChoque é um termo que se refere à forma como o vírus atingiu o mundo com uma força avassaladora e como a ordem social do Estado burguês desmoronou diante dele, enquanto a ordem socialista pareceu mais resiliente.

Foto de Capa: Pixabay/Reprodução

Áudio falso com apoio do Padre Marcelo Rossi a Jair Bolsonaro volta a circular

Voltou a circular nas mídias sociais de grupos católicos e evangélicos, um áudio atribuído ao Padre Marcelo Rossi, no qual ele declara apoio ao governo Jair Bolsonaro. O áudio é antigo, circulou durante a campanha eleitoral de 2018, e foi desmentido pelo próprio Padre Marcelo e verificado como falso por várias agências de checagem de notícias.

O Projeto Comprova publicou, em 15 de setembro de 2018, matéria sobre o áudio que o Coletivo Bereia reproduz aqui com adaptações.

Comprova: Padre Marcelo Rossi não divulgou áudio com apoio a Bolsonaro

É falsa a informação de que o padre Marcelo Rossi apoia o candidato à Presidência pelo PSL, Jair Bolsonaro. Um áudio atribuído ao religioso que circula no WhatsApp e no YouTube diz que o candidato do PSL é “pró-família, pró-Deus e pró-valores”. “E quando vejo quem são os inimigos do Bolsonaro, eu falo ‘eu to escolhendo o cara certo para votar’”, diz o homem em trecho final do áudio. O padre Marcelo Rossi negou que a voz na gravação seja dele.

No WhatsApp, uma corrente com o áudio é compartilhada seguida de um texto que chama Marcelo Rossi de porta-voz da igreja.

O Comprova localizou versões do áudio que variam de 9 a 18 minutos —é possível ouvir aplausos em determinados momentos. A informação falsa da peça está no texto que acompanha o áudio, atribuindo o discurso a Marcelo Rossi. Em nenhum momento do áudio viral o dono da voz, também vítima da informação falsa, diz seu nome.

Nas suas mídias sociais, Marcelo Rossi pediu ajuda aos seus seguidores para encontrar o responsável por criar o boato. “Um áudio que está viralizando no WhatsApp, e eu nem tenho WhatsApp, com a minha voz falando sobre política, falando absurdos. Além de ser uma notícia mentirosa, eu jamais me meto em política, vocês me conhecem”, disse o sacerdote.

“Além do que não é a minha voz. Infelizmente foi viralizado. Eu não me meto em política. A minha função é orar pelo Brasil”

Padre Marcelo Rossi

Em comentários nas mídias sociais, internautas afirmaram que o autor da voz é Rinaldo Seixas Pereira, o Apóstolo Rina, da igreja Bola de Neve, que não faz imitações de Marcelo Rossi e que seria tão vítima do boato falso quanto Marcelo Rossi. O Comprova tentou contato com Rina pelo telefone da igreja, sem sucesso. Até a publicação deste texto, Rina também não tinha respondido às solicitações feitas por e-mail pelo Comprova.

O site Aos Fatos também fez a verificação deste boato.

O Projeto Comprova é uma coalizão de 24 veículos de imprensa que visa combater a desinformação durante as eleições presidenciais.

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Bereia alerta leitoras/es: não compartilhem conteúdo que chegue por Whatsapp e peça a quem recebe: “Repasse para seus contatos”, “Compartilhe, o país está nas nossas mãos”. Este tipo de mensagem é, frequentemente, falsa e o apelo é feito justamente para usar as pessoas como propagadoras de material falso.

Sempre desconfie; antes de compartilhar, verifique a veracidade do conteúdo. As agências e projetos de checagem de conteúdos como o Comprova, Aos Fatos, Lupa, Fato ou Fake?, Boatos.org, E-Farsas e o Coletivo Bereia, com sua especialidade em verificar conteúdo de cunho religioso ou que circula em mídias religiosas, fazem verificações de boatos que circulam na internet. Nosso WhatsApp está disponível para receber indicações de checagem: (38) 98418-6691.