É enganoso que sol forte pode matar coronavírus em 34 minutos

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O site Pleno News publicou em 09 de junho matéria com o título “Aliado: Sol forte pode matar coronavírus em 34 minutos”

A matéria destaca que “um estudo divulgado neste mês mostrou que o sol forte pode ser uma arma inusitada no combate ao novo Coronavírus. De acordo com cientistas, a exposição aos raios solares por volta do meio-dia conseguiu matar o vírus em até 34 minutos. A redução da carga viral nestes casos chegou à impressionante marca de 90%. A pesquisa conduzida por Jose-Luis Sagripanti e David Lytle, foi publicada na revista científica Photochemistry and Photobiology. Os dois são cientistas aposentados do Exército dos EUA e da Food and Drug Administration, respectivamente”.

Ainda segundo a matéria, os cientistas teriam afirmado que medidas como o confinamento da população, adotadas por alguns países e que mantiveram as pessoas em suas casas, pode ter aumentado os casos de infecção, pois “indivíduos saudáveis expostos aos raios solares receberiam cargas virais menores, o que seria mais eficiente para criar uma resposta de imunização na população”.

Pleno News finaliza afirmando que pesquisas anteriores concluíram que durante a Gripe Espanhola, pacientes internados em hospitais onde tinham contato com a luz do sol e o ar livre, tiveram mais chances de recuperação.

A matéria relata as fontes, mas não apresenta nenhum link para a pesquisa divulgada ou faz referência a agências de notícias nacionais ou internacionais. Pesquisas contrárias ao resultado apresentado ou declarações de cientistas e médicos refutando ou contestando algum ponto abordado também são citados.

A pesquisa

Bereia verificou que a o artigo científico citado na matéria é “Estimated Inactivation of Coronaviruses by Solar Radiation With Special Reference to COVID‐19”, publicado na revista Photochemistry and Photobiology.  No entanto, os dados da pesquisa foram mal interpretados. 

Os cientistas fizeram uma simulação em laboratório com raios ultravioleta e verificaram que os vírus que saem de pessoas infectadas e são depositados em superfícies tendem a ter menor propagação quando há a emissão de radiação solar ultravioleta. O vírus SARS‐COV‐2 também foi inativado mais rapidamente diante da luz solar do que outros vírus como o influenza. Daí a conclusão de que  a luz solar deve ter um papel na ocorrência, taxa de propagação e duração de pandemias de coronavírus. 

A pesquisa, no entanto, não fala da taxa de contaminação em seres humanos, e sim da inativação da carga viral em superfícies contaminadas. O artigo também não afirma que a exposição de pessoas à luz solar por 34 minutos pode ajudar no combate à Covid-19. 

Também não é verdade que os cientistas desencorajaram o isolamento social após a pesquisa, como afirma a matéria do Pleno News. Um dos autores da pesquisa, David Lytle afirmou recentemente ao Washington Post que o sol é útil, mas ainda não é a resposta total.

O professor de física da Unicamp, Leandro R. Tessler, explicou em uma rede social o motivo da matéria de Pleno News sobre o artigo científico conter desinformação. “Os autores não expuseram o vírus ao sol e verificaram se ele estava desativado ou não (vírus não morrem porque não vivem). Eles fizeram estimativas a partir de dados de vírus similares e resultados de laboratório. Não há qualquer garantia de que a exposição ao sol por 34 minutos desative o vírus. Os títulos dessas matérias são pura desinformação e não podem ser tomados como evidência científica. São só uma interpretação muito errada de um artigo”, explica. 

Desinformação em massa

Quase ao mesmo tempo, diversos sites publicaram matérias praticamente idênticas. Todos os veículos exibiam textos e fontes equivalentes e todos com a mesma conclusão: a luz do sol “mata” o coronavírus, portanto o confinamento seria uma medida equivocada. Bereia não encontrou nenhum parecer ou nota oficial emitida por governos ou entidades internacionais de saúde corroborando a notícia ou parte de suas conclusões. O Jornal o Dia tirou notícia do ar em menos de 24h, quando já estava sendo compartilhada em massa nas mídias sociais por críticos do isolamento social

A desinformação ligada ao novo Coronavírus difundida por alguns sites e perfis de redes sociais digitais tornou-se prática comum e perigosa. Bereia fez diversas checagens nas últimas semanas a este respeito. De Informações enganosas sobre transmissão do vírus e falsas estatísticas, passando por declarações de pessoas públicas como a cantora gospel Fabiana Anastácio chegando até a suposta cura do Bispo Edir Macedo.

A desinformação também veio do próprio governo federal. Declarações da Ministra da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos Damares Alves e do Ministro da Secretaria de Governo Luiz Eduardo Ramos foram checadas por Bereia.

Bereia conclui que é enganosa a matéria afirmando que a exposição ao sol mataria o Coronavírus. A matéria apresenta um estudo científico verdadeiro, no entanto, apresenta informações falsas e distorcidas sobre a pesquisa. A desinformação em qualquer área é extremamente danosa. Particularmente no campo da saúde, a desinformação é desastrosa, pois pode causar vítimas fatais. 

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Referências de Checagem:

Pleno.News. Aliado: Sol forte pode matar coronavírus em 34 minutos. Disponível em: https://pleno.news/saude/coronavirus/aliado-sol-forte-pode-matar-coronavirus-em-34-minutos.html?amp=1&__twitter_impression=true. Consulta em 23/03/2020

Estimated Inactivation of Coronaviruses by Solar Radiation With Special Reference to COVID‐19. Disponível em: https://onlinelibrary.wiley.com/doi/abs/10.1111/php.13293 Consulta em 23/06/2020

Coletivo Bereia. É enganosa informação que a transmissão de Covid-19 é rara em pacientes assintomáticos. Disponível em: https://coletivobereia.com.br/e-enganosa-informacao-que-a-transmissao-de-covid-19-e-rara-em-pacientes-assintomaticos/ Consulta em 23/06/2020.

Coletivo Bereia: É verdade que Fabiana Anastácio negou o risco de ser infectada pela Covid-19. Disponível em: https://coletivobereia.com.br/e-verdade-que-fabiana-anastacio-negou-o-risco-de-ser-infectada-pela-covid-19/ Consulta em 23/06/2020.

Coletivo Bereia. Ministra Damares Alves faz acusações sem provas sobre contaminação de indígenas por Covid-19. Disponível em: https://coletivobereia.com.br/ministra-damares-alves-faz-acusacoes-sem-provas-sobre-contaminacao-de-indigenas-por-covid-19/ Consulta em 23/06/2020.

Coletivo Bereia. Bispo Macedo, Covid-19 e a cloroquina. Disponível em: https://coletivobereia.com.br/bispo-macedo-covid-19-e-a-cloroquina/ Consulta em 23/06/2020.

Coletivo Bereia. Ministro apresenta desinformação sobre a Covid-19 em entrevista. Disponível em: https://coletivobereia.com.br/ministro-apresenta-desinformacao-sobre-a-covid-19-em-entrevista/. Consulta em 24/06/2020

Coletivo Bereia. É falso que números por Covid-19 caem no Brasil por ações da Polícia Federal e do Ministro da Saúde. Disponível em: https://coletivobereia.com.br/e-falso-que-numeros-por-covid-19-caem-no-brasil-por-acoes-da-policia-federal-e-do-ministro-da-saude/ Consulta em 24/06/2020

IG. Sol forte pode matar o novo coronavírus em até 34 minutos, aponta estudo. Disponível em: https://saude.ig.com.br/2020-06-23/sol-forte-pode-matar-o-novo-coronavirus-em-ate-34-minutos-aponta-estudo.html Consulta em 24/06/2020. 

O Liberal. Meia hora de sol forte mata o coronavírus em superfícies. Disponível em: https://www.oliberal.com/mundo/meia-hora-de-sol-forte-mata-o-coronavirus-em-superficies-1.279375. Consulta em 24/06/2020

Rondônia ao Vivo. COVID-19: Sol forte pode matar o novo coronavírus em até 34 minutos, aponta estudo. Disponível em: https://www.rondoniaovivo.com/noticia/brasilemundo/2020/06/23/covid-19-sol-forte-pode-matar-o-novo-coronavirus-em-ate-34-minutos-aponta-estudo.html Consulta em: 24/06/2020

UOL. Estudo: coronavírus pode ser enfraquecido pela luz do sol, calor e umidade. Disponível em: https://www.uol.com.br/vivabem/noticias/rfi/2020/04/24/estudo-coronavirus-pode-ser-enfraquecido-pela-luz-do-sol-calor-e-umidade.htm Consulta em 24/06/2020

O pensamento simplório e seu uso no fascismo atual

Um governo autoritário não tem forças para impor sua autoridade se não houver, em algum nível, apoio popular. Obviamente que sempre há, na elite, quem realiza a propaganda de tal governo e quem o sustenta moral e financeiramente. Mas é nas camadas mais populares que um governo precisa exercer sua confiança, do contrário, o povo fica, com facilidade, próximo da provocação de alguma revolução, por parte de outros líderes.

Portanto, o fascismo precisa ser atraente, antes de ser autoritário, ou deve disfarçar seu autoritarismo. É necessário que ele consiga tocar no ponto sensível de uma camada do povo para, assim, lhe ser apresentado como solução. Nesse sentido, o pensamento simplório do fascista é bem atraente. Para todas as dificuldades complexas que uma sociedade plural e desigual possui, o fascismo tem a solução simples. Simplificar é uma forma de tornar compreensível um problema complexo. Simplificar, muitas vezes, por isso, é incapacitar de ver todo o conjunto. No caso do fascismo, porém, “simplificar” ganha outro sentido. Trata-se de tratar um problema complexo como se ele fosse simples. Em seu discurso, diria que “A complexidade é invenção de quem quer manipular o povo. O problema, na verdade, é bem simples e fácil de resolver”. O fascismo é simplista por excelência.

Por conta dessa dificuldade e orgulho obscurantista do fascismo, é necessário simplificar tudo: o povo não é composto por diversas nações e culturas. O povo é um só e quem quiser fugir dessa regra cultural, que deve identificar a todos, precisa ser considerado fora do povo; Cidadão de bem é todo aquele que segue essa cultura, o contrário é bandido, marginal, inimigo, ou alguém que precisa ser convertido.

Com o poder do pensamento simplório, o fascismo precisa apenas tocar na “ferida certa”, para que possa ser apresentado como solução. No nosso caso (e no passado também): corrupção e violência. O fascismo não é imposto na marra, ele surge do sentimento de frustração e desesperança. Esses dois temas tocam no coração do brasileiro exatamente nesses dois sentimentos: frustração em ter confiado no PT ou em Lula; frustração pelo desemprego que começava a crescer; desesperança por não encontrar nenhum outro em quem votar, pois “todos são iguais”. Esses são alguns pontos em que esses sentimentos foram explorados.

Pensar de forma complexa, diversa e plural não faz parte do fascismo. Deve-se, porém, fugir da ideia de que somente pessoas sem acesso ao conhecimento que são atraídas pelo fascismo. Não. Hitler tinha, ao seu lado, diversas pessoas com currículo acadêmico invejável. O que se deve concluir é que formação acadêmica não define caráter e nem capacidade de reflexão complexa e crítica. A formação acadêmica ajuda, incentiva e desafia. Mas apenas àqueles que se sentem ajudados, incentivados e desafiados pelo pensamento crítico e pelo método científico.

O que isso tudo tem a ver? Sentimentos como compaixão, empatia, simpatia e o que mais pudermos usar como proximidade sinonímica, nascem de uma capacidade de pensar complexamente. Não se pode ter compaixão por alguém sem um esforço mental (por vezes, aparentemente, natural) que permita imaginar-se no lugar do outro sob as mesmas circunstâncias. Quando alguém diz “eu no lugar dele não teria roubado pra comer” precisa, antes de tudo, saber se pensou mesmo estar sob as mesmas circunstâncias, não apenas em situação de fome, ou vontade de comer. Justamente por não conseguir fazer esse exercício, o fascismo simplifica crimes e atitudes que considera imorais, a exemplo, um argumento contrário à descriminalização do aborto: “Não quer ter filho? Use preservativo! Feche as pernas”.

Essa imperatividade das palavras fascistas, associada à solução fácil do problema complexo, tem ligação com sua mente simplória. Entende que o problema é tão simples e a solução tão óbvia que torna-se intransigente e intolerante. Fora de si, não há um outro mundo possível e nem outras possibilidades: Há um mundo errado e erro se combate. O discurso imperativo é justamente fruto desse desejo de combater aquilo que considera errado. O fascismo transforma uma opinião em verdade dogmática. A solução não deve ser condicionada ou pensada, deve ser implantada, doa a quem e no que doer.

Daí nasce a autoridade do fascista dos nossos dias. Não em ter dito coisas erradas e que pessoas que pensam errado aceitaram. O fascismo não é um dogma. Ele apenas tocou na simplicidade. Sua forma de atuação, porém, segue bem fiel ao seu arquétipo fundado por Mussolini.

Não há outra forma de entender um homem que tem apoio ao ir em uma homenagem/protesto e retirar as cruzes que eram símbolos dos mortos pela pandemia da Covid-19. A dor dos feridos se torna menos importante do que o erro a ser combatido. O mais importante é desmascarar a grande mídia, o comunismo e a farsa que se instalou no país. O erro não pode ser tolerado. Não deve haver gentileza e nem solidariedade com quem está “do outro lado”. Não há crédito na quantidade de mortos. E mesmo que exista um número alto de mortos, esse número é justificado por “N” equações que se imaginar e que, sequer, foram realizadas.

Há maldade? Há preconceito que saiu do armário? Essas pessoas são tão ruins e tão insensíveis assim? Depois que Hitler morreu e foi descoberto tudo o que aconteceu, muitos que o apoiavam diziam não saber o que estava ocorrendo. Diziam que se soubessem não o teriam apoiado. A questão é que Hitler tocou na ferida certa e soube conduzir um povo para o ódio disfarçando-o de dever civil. Neste ponto, me lembro das palavras de um alemão, na época do Terceiro Reich, relembrado por Madeleine Albright, em sua obra sobre o fascismo:

“Viver esse processo é ser absolutamente incapaz de reparar nele – tente acreditar em mim, por favor… Cada passo era tão pequeno, tão insignificante, tão bem explicado ou, às vezes, ‘lastimado’ que, a não ser que você estivesse desde o início a observar de fora, a não ser que entendesse aonde… poderiam levar um dia todas aquelas ‘pequenas medidas’ a que ‘alemão patriota’ algum poderia se opor, não seria capaz de enxergar o desenvolvimento diário da coisa, assim como um fazendeiro não percebe o crescimento de seu milho…

E um dia, quando já é tarde demais, seus princípios, caso tenham importância para você, o tornam de assalto. O peso de se iludir tornou-se forte demais, e algum incidente menor, no meu caso o meu filho, praticamente um bebê, dizendo ‘seu porco judeu’, faz tudo desabar de uma vez, e você repara que tudo, tudo, mudou e mudou por completo debaixo do seu nariz.”

Não dá pra dizer o que essas pessoas são sem considerar essas palavras. Os que, porém, conseguem enxergar tudo, ou parte do tudo, precisam lutar com todas as forças para que tudo não mude por completo debaixo de seu nariz.  

Foto de Capa: Reprodução/ Carta Maior