É enganosa informação que a transmissão de Covid-19 é rara em pacientes assintomáticos

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O site Pleno News publicou em 09 de junho a notícia “Transmissão de Covid-19 por paciente sem sintomas é rara” que destaca a declaração de Maria Van Kerkhove, infectologista e chefe do departamento de doenças emergentes da Organização Mundial da Saúde (OMS) sobre a propagação da Covid-19 a partir de pacientes assintomáticos ser “muito rara”. De acordo com a porta-voz da OMS, os dados levantados mostraram que pessoas que não apresentam sintomas do vírus têm pouco potencial infectológico para contaminar indivíduos saudáveis. Esse pronunciamento foi feito em 08 de junho. Devido à polêmica causada pela declaração, logo em seguida, a infectologista Maria Van Kerkhove, justificou que ainda não há definição de quantas pessoas são assintomáticas.

Matéria publicada pelo Pleno.News (Foto: Reprodução/Internet)

No dia seguinte (09/06), a OMS corrigiu a declaração informando que há transmissão e é preciso que iniciativas de isolamento social continuem a vigorar para evitar a proliferação do Coronavírus. A matéria no Pleno News foi publicada à meia-noite do dia 09/06 e atualizada às 8h40 na mesma data. Mesmo depois da correção da declaração pela OMS, o Pleno News não atualizou a notícia, que permanece no site desatualizada.

A Folha de S. Paulo publicou na mesma data matéria com o título “Assintomático transmite coronavírus e, sem teste e rastreamento, quarentena é necessária, diz OMS”. A matéria enfatizou as recomendações da OMS sobre a transmissibilidade do vírus e o apelo para testagem, rastreamento e isolamento de sintomáticos.

No Twitter, também em 09 de junho, o ministro das Relações Exteriores, Ernesto Araújo, cobrou transparência da Organização Mundial da Saúde com relação a pandemia e chamou a atuação da OMS de “papel problemático”.

Fonte: Reprodução/Twitter

A distorção das declarações da OMS

Não é incomum a distorção ou retirada de contexto das declarações da Organização Mundial da Saúde para permitir diversas interpretações. Em 06 de maio, por exemplo, o site UOL publicou matéria com o título “Fala da OMS é tirada de contexto para dizer que órgão é contra isolamento”. Segundo o site, a informação foi divulgada através do blog Estibordo que tem um viés de política de direita, sendo posteriormente compartilhado uma fala da OMS baseado na entrevista de Margaret Harris, porta-voz da organização para o jornal The Sydney Morning Herald, sobre o afrouxamento da quarentena na Austrália.

O canal da UOL no Youtube publicou em 09 de junho o vídeo “Bolsonaro distorce dado da OMS sobre transmissão de Covid-19 por assintomáticos” no qual o presidente afirma que deve haver uma “reabertura mais rápida” a partir do momento que a OMS realizou divulgação que a disseminação do Coronavírus por pessoas assintomáticas é considerada rara. Durante a Reunião dos Conselhos, Bolsonaro apresentou críticas à OMS no qual reforça o “pânico” causado pelos meios de comunicação.

Assintomático, sintomático ou pré-sintomático?

O canal do portal de notícias O Antagonista, no Youtube, publicou o vídeo “O Erro Sintomático da OMS” em 09 de junho, que esclarece os conceitos de assintomático, sintomático e pré-assintomático. De acordo com dados divulgados pela Organização Mundial da Saúde (OMS) o pré-assintomático, por exemplo, seria o indivíduo que ainda não apresentou sintomas do Covid-19 e que inclusive pode haver uma contaminação antes do aparecimento dos sintomas. O assintomático é aquele que ainda não desenvolveu os sintomas, ainda. Os sintomáticos são os indivíduos com os sintomas já desenvolvidos.

Em 10 de junho, o Correio Braziliense publicou notícia com o título “Ignorar pacientes assintomáticos é ”mal-entendido’, diz OMS”, na qual há a afirmação de que milhares de pessoas podem ser infectadas e o vírus pode estar presente em qualquer um, inclusive naqueles que não apresentam os sintomas da covid-19, os chamados assintomáticos.

De acordo com Michael Ryan, diretor executivo do Programa de Emergências da OMS:

“Estamos absolutamente convencidos de que a transmissão por casos assintomáticos está ocorrendo, a questão é saber quanto, saber qual é a contribuição relativa de cada grupo para o número total de casos”.

Michael Ryan, diretor executivo do Programa de Emergências da OMS

Na tentativa de elucidar a declaração do dia 08/06, Maria van Kerkhove afirmou que há um subgrupo de pessoas que não desenvolvem sintomas, e não há uma resposta concreta para entender esse grupo, que gira entre 6% e 41% da população mundial. “Mas sabemos que as pessoas que não têm sintomas podem transmitir o vírus”, ressaltou.

Ainda sobre o mesmo assunto, o portal de notícias G1 publicou em 09 de junho notícia com o título “OMS esclarece que assintomáticos transmitem coronavírus: ‘a questão é saber quanto’”. A matéria esclarece que uma pessoa com o Sars CoV-2 assintomática nunca deverá desenvolver os sintomas da Covid-19, sendo que os mais comuns são febre, tosse e dificuldade para respirar. Um paciente pré-sintomático também está com o vírus em circulação no corpo, mas no período de incubação, prestes a desenvolver os sintomas dentro de alguns dias.

Bereia conclui que é enganosa a notícia publicada no site Pleno News sobre as possibilidades de transmissão de Covid-19 por paciente sem sintomas, após verificar notícias e vídeos publicados em 09/06, mesma data da notícia do Pleno News, contendo a correção da fala de Maria Van Kerkhove e da OMS sobre a da declaração proferida em 08 de junho.

Foto de Capa: Pixabay/Reprodução

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Referências de Checagem

Correio Braziliense. Ignorar pacientes assintomáticos é ”mal-entendido”, diz OMS. Disponível em: <https://www.correiobraziliense.com.br/app/noticia/ciencia-e-saude/2020/06/10/interna_ciencia_saude,862588/ignorar-pacientes-assintomaticos-e-mal-entendido-diz-oms.shtml>. Acesso em: 16 jun. 2020.

Folha de S. Paulo. Assintomático transmite coronavírus e, sem teste e rastreamento, quarentena é necessária, diz OMS. Disponível em: <https://www1.folha.uol.com.br/equilibrioesaude/2020/06/assintomatico-transmite-coronavirus-e-sem-teste-e-rastreamento-quarentena-e-necessaria-diz-oms.shtml>. Acesso em: 16 jun. 2020.

G1. OMS esclarece que assintomáticos transmitem coronavírus: ‘a questão é saber quanto’. Disponível em: <https://g1.globo.com/bemestar/coronavirus/noticia/2020/06/09/transmissao-por-casos-assintomaticos-esta-ocorrendo-a-questao-e-saber-quanto-diz-oms.ghtml>. Acesso em: 16 jun. 2020.

Pleno News. Transmissão de Covid-19 por pacientes sem sintomas é rara. Disponível em: <https://pleno.news/saude/coronavirus/transmissao-de-covid-19-por-assintomaticos-e-rara-diz-oms.html>. Acesso em: 16 jun. 2020.

Twitter. Ernesto Araújo. Disponível em: <https://twitter.com/ernestofaraujo/status/1270409485270552576>. Acesso em: 16 jun. 2020.

Uol. Fala da OMS é tirada de contexto para dizer que órgão é contra isolamento. Disponível em: <https://noticias.uol.com.br/comprova/ultimas-noticias/2020/05/06/fala-da-oms-e-tirada-de-contexto-para-dizer-que-orgao-e-contra-isolamento.htm>. Acesso em: 16 jun. 2020.

Uol. Governo Bolsonaro muda o tom em reunião ao vivo e evita palavrões e ataques. Disponível em: <https://noticias.uol.com.br/politica/ultimas-noticias/2020/06/09/governo-bolsonaro-muda-o-tom-em-reuniao-ao-vivo-e-evita-palavroes-e-ataques.htm>. Acesso em: 16 jun. 2020.

Youtube. BOLSONARO DISTORCE DADO DA OMS SOBRE TRANSMISSÃO DE COVID-19 POR ASSINTOMÁTICOS. Disponível em: <https://www.youtube.com/watch?v=WLY7rEEmBk8>. Acesso em: 16 jun. 2020.

Youtube. O Erro Sintomático da OMS. Disponível em: <https://www.youtube.com/watch?v=t6DSpnvlxe4>. Acesso em: 16 jun. 2020.

Luto e igrejas em meio à pandemia

Alegrai-vos com os que se alegram e chorai com os que choram.

Romanos 12:15

As perdas fazem parte do cotidiano do ser humano e devem ser encaradas como uma experiência natural da vida e também como um sofrimento pela interrupção do ciclo vital. É nesse segundo aspecto que o luto geralmente se faz presente. O luto é uma vivência desencadeada por qualquer tipo de perda, não necessariamente após uma morte. A perda do emprego, um divórcio, um projeto frustrado, uma mudança de cidade, a saída de um filho/a da casa dos pais (popularmente chamado de ninho vazio), dentre outras perdas, podem irromper o luto. No entanto, é importante destacar que nem toda perda desencadeia um luto. Quando perdemos alguém ou algo em que nos vinculamos afetivamente, entramos num processo de luto que perpassa algumas etapas: descrença da perda,  busca de explicações, perguntas que podem incluir sentimentos de culpa, medo, raiva, tristeza, entre outros. Mas o luto também pode desencadear um processo de ressignificação da vida. Ou seja, paradoxalmente, após a experiência do luto de uma pessoa, família ou grupo, a vida pode ser mais intensa, profunda e com novo sentido.  

Em meio à pandemia que estamos vivendo, o processo do luto vivido por milhares de pessoas pelo mundo afora é assustador. No contexto atual, o luto não é só por morte, mas por distanciamento social, perda de trabalho, relacionamentos e projetos de vida. E quando existe o luto por morte, perde-se o ritual de despedida presencial e morre-se literalmente sozinho. Diante disso, temos encontrado algumas possibilidades de rituais de despedida que têm sido desenvolvidos por famílias, igrejas, profissionais de saúde, funerárias e cemitérios. A iniciativa do artista Edson Pavoni com o projeto Inumeráveis é uma maneira de manter viva a história e a memória de milhares de pessoas que foram atingidas pelo Covid-19 e morreram. Embora não se saiba como nós humanos estaremos no pós-pandemia, uma coisa é certa: o número de enlutados será muito maior. Se a cada perda de uma pessoa querida, nos arriscarmos a contar quantas pessoas ficaram enlutados/as, esse número pode ser desolador. Além disso, o enlutamento em tempos de pandemia fica ainda mais dolorido quando as lideranças de um grupo, uma cidade ou país  não oferecem um consolo, uma “presença” de bom ânimo e uma política de esperança e solidariedade; o que infelizmente tem acontecido no Brasil. Sendo assim, a sociedade brasileira precisará de muitos cuidadores/as de enlutados/as.

E o que as igrejas têm a ver com isso? Tudo! Se pensarmos no compromisso missionário das igrejas cristãs, cujo foco é a defesa da vida, torna-se urgente a reafirmação da vocação para o cuidado. Cuidado esse que tem voz de consolo e é profética. De consolo, pois a igreja não é espaço de julgamento, mas de partilha do sofrimento e do seu alívio, por meio da comunhão e unidade da comunidade que vivencia uma fé coletiva. Profética, porque a igreja não pode se calar diante de atitudes, seja na esfera política, social ou religiosa, que sequestram e silenciam as vozes que querem chorar, lamentar e reivindicar vida e esperança. Assim, a igreja poderá se fortalecer e ampliar sua presença na sociedade como comunidade que testemunha a Graça de Deus que é de graça. Marcio Divino de Oliveira oferece algumas indicações éticas que reafirmam a ação da igreja diante da pandemia.

A igreja existe no mundo (seja presencial e virtualmente) para ser testemunha da graça, do amor e da misericórdia de Deus, assim como para lutar pela implementação de sua justiça na sociedade. De igual modo, a igreja precisa também ter cuidado no uso dos meios digitais, como portadora de uma práxis pastoral crítica e reflexiva, para não ser utilizada na proliferação de “fake news” ou repetir ideologias dominadoras.

Oliveira, 2020, p. 264

Ademais, a atmosfera de consolo e esperança que faz parte da vocação do ser igreja, uma comunidade cuidadora, colabora com a diminuição dos preconceitos de quem viveu e vive o luto, bem como fomenta a solidariedade, indispensável numa sociedade enlutada. É importante trazer à memória a presença do Deus que cria novas oportunidades de ações de shalom em meio à pandemia. Nossas práticas de escuta, partilha do alimento e uma postura crítica diante de sistemas que valorizam a economia da morte são exemplos encarnados de gestos do Evangelho libertador. É o Espírito de Deus consolador e justo que desperta a sociedade para uma vida que é abundante. A igreja que assume a vocação do Evangelho que gera vida, contribui com a saúde pública do Brasil, pois torna-se espaço de choro e de esperança. Quem sabe não seja esta uma faceta da vocação da igreja que estava nos bastidores e que agora é con-vocada ao público!

Foto de Capa: Pixabay/Reprodução

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REFERÊNCIAS

BÍBLIA DE ESTUDO ALMEIDA. Barueri-SP: Sociedade Bíblica do Brasil, 2006.

OLIVEIRA, Márcio Divino de. Cuidado pastoral da Igreja em tempos de pandemia: Covid-19: São Bernardo do Campo.Revista Caminhandov. 25, n. 1, p. 257-276, jan./abr. 2020.

PAULA, Blanches de. Pedaços de nós. Luto, aconselhamento pastoral e esperança. São Paulo: ASTE, Editeo, 2011.